Já faz uns dois anos que não aparecia por aqui pra brindar o site com algum trabalho novo que consiga embaraçar referências e desatar os nós da minha inquietação. Dentre tantas coisas que aconteceram nesse meio tempo, a mais assustadora é sem dúvida o grande levante fascista que parece estar se avolumando no horizonte. Utilizando entre os recursos emocionais e imagéticos esse discurso de ódio vale-se de aspectos tradicionais da cultura local, mesclando-se a ela, corrompendo-a numa versão insensibilizada, insensibilizante, banalizando a violência e naturalizando desigualdades. Religiosidade, relações afetivas, música e outras manifestações populares misturam-se, embaralham-se, travestem-se na santíssima trindade cachaça, futebol e churrasco, e por meio da distração infiltram-se na alegria de celebrar a pança cheia, no consagrado e merecido descanso, no pileque desembaraçado, outras ideias, não tão locais, não tão íntimas, não tão familiares. Como um penetra invisível na festa, sussurrando impropérios nos ouvidos de todos e comendo os salgadinhos. Há, assim como nas sociedades pré-fascistas, a construção então de um sujeito oculto. Instala-se uma desconfiança entre nós. Aquilo em que você acredita determina aquilo que você é capaz de amar? O que você sabe é impeditivo pro convívio? Temos então um nó górdio, chamado por essas bandas de angu de caroço, que pede por interpretação, por entendimento e sobretudo por reflexão.

Não foi num cálculo estratégico, mas num átimo surpreendente que me ocorreu as muitas semelhanças entre HELLBLAZER e nossa celebração brasileira da Festa de São João. Mas depois me ocorreu que joão constantino, grande arquétipo ancestral do MAGO, a carta de número 1 do tarot, aquele que detém a intuição, que revela o mistério, que desmascara o que está oculto, possui também mais facetas do que eu poderia achar que conhecia, mudando rápido como um semblante iluminado pela luz vívida e dançarina duma crepitante fogueira. O fogo é o revelador radical, um elemento importantíssimo pra nossa conversa de hoje, sugiro enrolar um fumo ou ferver uma água no fogão e preparar um chá ou passar um café que nós vamos longe.




O MAGO essa figura relaciona-se tão bem com a fé praticada aqui no brasil, uma fé pagã, uma fé que perpassa as divisões entre o que pode ser paganismo e as religiões organizadas e pretensamente hegemônicas no imaginário popular. Uma fé inclassificável. As religiões baseiam-se em muitas tradições diversas, e algumas delas (não todas é bacana ressaltar) precisam dos mistérios, dos segredos, dos saberes restritos. Como se o medo e a ignorância fossem caminhos muito seguros para a garantia da subserviência. Mas aqui a mistura é com princípios muito diferentes. Aqui para os Guarani-Kaiowá, palavra significa “palavra que age”, não existem palavras mais sagradas do que outras. Então quando esse povo brasileiro que esqueceu ou perdeu a medida do quanto ainda é (e do quão mais deveria ser) tribal, pagão, primitivo, selvagem e intuitivo se encontra com aqueles que são os grandes hierofantes, a Autoridade religiosa, pastores, ministros, padres, bispos, torres e professores, os detentores da palavra da salvação, o choque entre eles acaba por gerar uma troca, uma simbiose, na qual a Autoridade, do alto de suas pompas e ritos (falaremos mais disso adiante) perde um pouco do seu ar esnobe, aristocrático e patronal, pra ficar com ar mais bonachão, mais carismático, mais como alguém que queremos chamar de paínho; e do outro lado, o homi & muié do povo, que juntos são povão, se operário urbano ou trabalhador campesino pouco importa, acabam também por incorporar o patriarcado no peso da sua mão, no peso da suas palavras. É que muitas vozes falam através da nossa voz. E quando Paulo Freire falava de hospedar o opressor ele descrevia o processo “educacional” através do qual se torna o opressor, pelo aprendizado, sendo aprendizagem essa mimese instintiva, repetição do que lhe é oferecido, no entanto Freire apontava esse fenômeno tendo em vista uma intenção pela via inversa, a de uma educação (sem aspas) que fosse emancipatória ou seja, um conjunto de exercícios e de ações que pudessem cumprir a função de via para a autonomia. DESCOLONIZAÇÃO dos demônios internos. Por isso é tão importante trazer pra perto de si o detentor dos segredos, convidar à mesa o bruxo sacana de plantão. Porque quando ele notar em nós o opressor será implacável em nos sacanear. O mago aponta pra parte podre. Ele detecta e lê a entropia. Sabe dar bons diagnósticos, é também chamado xamã, ou seja, figura curativa.

Quando foi concebido por Alan Moore na Saga do Monstro do Pântano, a premissa do personagem era baseada na ideia de um mago malandro da classe operária. E essa simples definição injetou nas histórias dessa personagem uma considerável dose de iconoclastia libertária, conferindo partes equilibradas e muitas vezes indistintas de humor fugaz e crítica implacável. Não foi o primeiro anti-herói dos quadrinhos, mas a perspectiva que esse Jão trouxe pras suas narrativas foi muito bem vinda em seu contexto e até hoje parece uma voz necessária, estandarte dalguma lucidez nesse mar de loucura em que vivemos. O que é um feitiço bastante raro e temerário nesses tempos de hipernormalização industrial.




Porque uma classe abastada havia se apropriado da figura arquetípica do mago. Os Mestres, e toda sua parafernália maçônica pra citar só o exemplo mais popular, iam vendendo seus saberes de linha em linha, de exercício em exercício para os iniciados. E pouco a pouco a intelectualidade foi incorporando o maneirismo de quem sabe das grandes verdades, mas não se tratava de verdade alguma, mas de uma atitude. Foi roubando os saberes mágikos que criou-se o ar blasè do ceticismo. A partir daí, uma espécie de blindagem dos saberes auto nomeou-se CONHECIMENTO, esse filtro social tão eficaz quanto ilusório. Imagine uma escola onde você paga individualmente por cada lição? Há quem ainda valorize esse modelo. Há também quem se interesse em qualquer possibilidade de virar uma grana porque a miséria está no meio de nós. Instalada em nosso pensamento, abocanhando nossos impulsos e deglutindo em fartos pedaços nossa insegurança. Nessas, o mago malandro de rua, está lá pra acusar onde está o truque, pra desbaratinar a nudez do reis. Ele não sabe feitiços secretos específicos, nem domina a pronúncia de línguas mortas, nem solta raios dos olhos ou bolas de fogo da ponta dos dedos, ele só conhece o funcionamento do universo, ele lê as marés do humor humano, ele só sabe ter a PACIÊNCIA de espiar, observar com calma, e sacar o que que tá pegando.






Dicionário do Folclore Brasileiro – CÂMARA CASCUDO.

Então é festa de são joão, 2018 em terra brasilis – Brasil. Aqui em sampa friaca arretada. Mas não se espante ao convidar um habitante do brasil pra pular fogueira porque isso é tudo o que ele faz desde que nasceu. Apagamos incêndio com gasolina meio que por necessidade. Mestres intuitivos em tornar algo ruim pior. Tipo um kung fu de cagar com tudo. É fácil se identificar com john constantine levando em conta nosso contexto. Mesmo o mais inocente e puritano dentre nós é uma criatura infernal por questões geográficas. Caminhamos no braseiro todos os dias. Por isso aqui os cristãos são mais cristãos do que em outros lugares por aí… assim como os monstros vampiros e demônios também. Essa terra em brasa. Inferno vivo. Lugar onde tudo queima e nada&tudo se consome, onde todos são vermelhos todo o tempo POR MAIS QUE DIGAM O CONTRÁRIO. Corpos prontos pra explodir. Emoções. Muitas emoções fluindo, envolvendo, cegando, desvendando. E parece que a bíblia nunca foi tão fundamental pra falar de brasil. E parece que a família nunca foi tão fundamental pra determinar o rumo das coisas no brasil. E foi João quem escreveu o livro do apocalipse. A tradução de Apocalipse é REVELAÇÃO. Tempos apocalípticos são tempos de entendimento. Então vamos nos permitir esquentar o coração, apanhar uma boa caneca de quentão, estourar umas pipocas (ATOTOÓ), guardar uma paçoca pra sobremesa e começar esse artigo falando sobre sentimentos. Lembre que o termo milagre nada mais é que uma tentativa de monopólio mental da magia. Vejamos como transmutar chagas em pipocas então.
“O mundo perece por falta de magia”
– Ahmed Al Hasan.

Nessa minha longa vida lendo gibis tiveram umas poucas obras que literalmente me arrancaram lágrimas dos olhos, HELLBLAZER é uma delas. E foram das lágrimas mais raras que alguém pode chorar, as preciosas lágrimas de alegria, REJÚBILO. TEARS OF JOY. O mais próximo que já tive de uma experiência religiosa (exceto as experiências psicodélicas). Porque a VERDADE é algo que me comove. Eu sei eu sei, já sei o que você vai pensar: a verdade é uma ideologia, um embrulho pra fazer passar certos comportamentos adiante, um condutor de aceitações. E que o mais saudável pro mundo é que toquemos um FODA-SE grandaum pra verdade, pra contar soltos nossas mentiras por aí e fugir da lógica da repetição que tem inexoravelmente resultado em câncer, infarto, vício e/ou depressão pra cem a cada 99 pessoas. Mas eu não falo da verdade enquanto ideia, conteúdo ou saber. Falo da verdade enquanto ação. Ato provocativo de desafiar uma norma geral. Confronto de ideias com outras ideias. Lembrar do que veio antes, de como era antes. Aquela área cinzenta onde se misturam tradição e insubordinação numa pororoca violenta, barrenta, inavegável. Na verdade a VERDADE é REBELDIA, INSURREIÇÃO. Qualquer coisa que não seja alguma expressão de rebeldia, será aceitação e essa aceitação, em alguma instância será de uma mentira, falsidade, falácia, ilusão. Aquela coisa de sim sim sim não parei com nada e AINDA quero andar na contramão (para de preguiça e levanta essa bunda encharcada de conhaque raulzito! – diria Jão – quem é o bruxo e quem é o coelho nessa caralha afinal?!)

Já escrevi um bocado sobre MÁGIKA e a MAGIA do ponto de vista conceitual, filosófico e inclusive prático por aqui (tks ao bródah YAH YAH SUOKA em SIMPATIA VIOLETA), e acho que falta e vale uma análise de mais fôlego sobre esse grande manual de feitiçaria popular que é HELLBLAZER. O lance das lágrimas é fundamental, vamos voltar a isso. Antes porém temos de tratar doutro conceito que irá nortear a análise que aqui se propõe. Trata-se do contexto. O que há por dentro da situação que abriga determinada leitura. Porque é dele que advém o prestígio, o alakazan. Do encaixe sincrônico entre leituras diversas. Então o exercício analítico aqui fica mais vago, mais aberto e abrangente, de maneira que não falaremos estritamente de HELLBLAZER mas de tudo o que essa leitura me trouxe, o que passa por outras leituras e passagens autobiográficas porque, sem sacar o contexto não se percebe o arranjo aqui proposto em toda sua possibilidade. Mas estou certo de que vocês já se sentiram assim, a emoção do encaixe perfeito. Quando no fim de uma longa jornada, a música termina no exato momento de desligar o motor. Quando o seriado que você assistiu, a canção que você ouviu e o gibi que você leu se encaixam com perfeição espantosa, se completam, como uma reviravolta numa história de viagem no tempo, fundem-se as vozes e as polifonias de cada obra e se equalizam, coincidem seus beats e você percebe que está protagonizando um mash up bizarro de um monte de coisa que absorve e ecoa pro universo.

É a mágika da hora da colheita, RECOMPENSA de ter enfiado aquela semente na terra, se abaixado e sujado as mãos e no fim do dia semeando e arando o solo, em seus dedos levado pra casa a terra, o PLANETA TERRA, consigo, debaixo da unha, e cansado se deita e deitado sonha e tendo ACREDITADO realiza> A lágrima brota quando você sente que fez algo certo pra estar ali. Que sortudo – você pensa, mas sabe que sorte não tem nada a ver com isso, ou talvez tenha> e SORTE – sim SORTE A FORTUNA – essa dama divina e benevolente, seja a palavra mais adequada pra expressar todo esse processo. O problema com a ideia de sorte é que a fortuna carrega o afortunado nos braços como se fosse um bebê, e o bruxo é esprito véio, a perspectiva mágika abriga espíritos velhacos, pessoas que QUEREM crescer, que querem chegar adiante por si mesmos. Que querem levantar a saia da realidade pra dar uma espiadinha no que ela guarda entre suas pernas. SORTE sim, então. Mas como fazê-la? Como fabricar sua fortuna? Como semear sua sorte? Como carregar sua fortuna consigo debaixo da unha? Como sonhar sua sorte? Como realizá-la? Ah eu te digo, porra! Não to aqui de zoação. To falando a real. E a chave, eu já te digo o que é a chave, mas primeiro entenda que a fechadura, TODA A SANTA PORTA, são as EMOÇÕES. Os tais dos sentimentos. Materializado pela alquimia do corpo no ouro líquido de propriedades curativas que chamamos lágrimas ou, já em tom repreensivo, CHORO (e toda sorte de outros fluidos cozinhado em fogo baixo no corpo pelas emoções, seriam elas a intensidade da chama ou os condimentos que temperam?). Pois bem: Essa é a fechadura. Esse é o portal da magia. E a chave, parça, são as PALAVRAS.

Sabe eu falei chave, não chave-mestra. A arte da chave é saber escolher qual é a certa. Trata-se de combinação. Encaixe. Por isso da importância da sincronia. Da justaposição.
Então a palavra certa pode ser enfiada numa emoção certa e dentro dela girada e esse movimento cria uma abertura e essa abertura é possibilidade de transformação, é a porra da pedra fundamental, tá me acompanhando?
“Vozes. As vozes indistintas ou as frases soltas, ouvidas nas ruas, são formas oraculares> Studart informa (in Antologia do Folclore Brasileiro, 307 – 308, ed. Martins, São Paulo, 1944): “Para adivinhar o futuro reza-se o rosário de Santa Rita, ao mesmo tempo que se procura ouvir na rua ou da janela a palavra ou frase que será a respeita ao que se pretende saber. Reza-se o rosário de Santa Rita, substituindo-se os padres-nossos do rosário comum pelas palavras – Rita, sois dos impossíveis, de Deus muito estimada, Rita, minha padroeira, Rita, minha advogada, e substituindo as ave-marias, pelo estribilho: Rita, minha advogada”. Getúlio César, em Granja, Ceará, testemunhou a mesma tradição: “São pessoas que desejam saber notícias dos parentes distantes, no Amazonas. Fazem oração (o rosário de Santa Rita) e esperam ouvir dos que conversam a resposta desejada. Um pode ser, talvez, nunca, muito breve, sim, não, etc., são palavras e frases que vêm dar respostas à pergunta que fizeram, quando rezavam o rosário. Aformam ser isso positivo e recorrem ao rosário com absoluta segurança” (Crendices do Nordeste, 912, ed. Pongetti, Rio de Janeiro, 1941). Teófilo Braga (O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições, II, 95 – 97, Lisboa, 1885) registra a existência desse processo em Portugal, insular e peninsular, assim como J. Leite de Vasconcelos (Tradições Populares de Portugal, 258, Porto, 1822), dedicando-se a oração a São Zacarias. Diz-se ir às vozes. Morais Sarmento lembrou que talvez daí provenha o Vox Populi, vox Dei. Identicamente na Itália, Sicília. No séc. XVII Dom Francisco Manuel de Melo referia-se ao fato “Relógios Falantes” (Apólogos Dialogais, 24, ed. Castilho, Rio de Janeiro, 1920): “… e com o próprio engano com que elas traziam a outras cachopas do São João às quartas-feiras, e da Virgem do Monte às sextas, que vão mudas à romaria, “espreitando o que diz a gente que passa”; donde afirmam que lhes não falta a resposta dos seus embustes”. O mesmo costume encontrei em Recife (1924-1928), sendo escolhida sempre a Igreja de São José de Ribamar. Oravam e depois saíam para ouvir as vozes na rua. Cervantes de Saavedra registra semelhantemente na Espanha seiscentista. Ouve Dom Quixote a um menino a frase: “No te canses, Periquilo, que no la has de ver en todos los días de tu vida; e responde a Sancho Pança: Qué? No ves tú que aplicando aquella palabra a mi intención, quiere significar que no tengo de ver más a Dulcinea?” (Don Quixote de la Mancha, II, LXXIII). E do séc. XV é a informação da alcoviteira Celestina: “La primeira palabra que hoí por la calle fué de achaque de amores” (La Celestina, ato IV, Fernando de Rojas, ed. Losada, Buenos Aires, pág. 78, 1941). No Brasil pelo São João e em Portugal pelo Natal cantam as vozes, rezando a oração de São Pedro, pedindo que as palavras primeiras entendidas depois da oração e quando o devoto se ponha à janela sejam sim ou não, definindo a súplica. Um dos mais antigos documentos na espécie é dado por Santo Agostinho (Confissões, liv. VIII, cap. XII, págs. 215-216, ed. Garnier, Rio de Janeiro, 1905). Santo Agostinho (354-430) estava em Milão debatendo-se numa crise de angústia e indecisão religiosa quando ouviu uma criança cantar, na casa vizinha, uma canção cujo estribilho era tolle, lege, tolle, lege e aplicando ao seu caso a sugestão foi ler a Epístola de São Paulo aos Romanos e converteu-se. A origem desse processo é o oráculo de Hermes em Acaia. Depois de orar ao deus, fazia-se o pedido à orelha de Hermes (Mercúrio) e deixava-se o templo com os ouvidos tapados com as mãos ou com um manto. As primeiras palavras entendidas no átrio, no adro, pela voz do povo, era a resposta divina à súplica devocional (Luís Câmara Cascudo, Anúbis e outros Ensaios, “Hermes em Acaia e a consulta às vozes”, 33-37, ed. Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1951).”
– CÂMARA CASCUDO – Dicionário do Folclore Brasileiro, ed. Ediouro, págs 916-917.
Então vamo voltar pro contexto pra deixar claro o que tá sendo enfiado no que aqui.

Braxil. Pra quem não pegou escrevo com xis em referência e com muita reverência a Lourenço Mutarelli que descreveu meu contexto minha cidade meu povo meus primos meus iguais meus vizinhos e portanto a mim tão bem, com tanta fidelidade, no traço e na linguagem. (Muta, você sim é que é bruxão! Alan Moore é harry potter perto de ti merlin do centrão de sampa. Mil demônios exorcizados em cada desenho. Mil dragões derrotados em dungeons botecos de tomar um pingado no balcão e comer um pão na chapa e fumar um cigarrão vendo os tiozinho a caminho do serviço entornar um rabo de galo às oito da manhã). Braxil pois bem. Terras conhecidas como INFERNO VIVO. Lar de muitas faces. Superfícies em permanente metamorfose. Onde todas as estações do ano passam num dia. Onde prazer e miséria serão em proporções extremas. Onde a histeria coletiva virou uma tendência da moda. Onde as mulheres são mais abusadas, onde os pobres são mais assassinados e onde o governo é mais ilegítimo. Onde zumbis dançam e vampiros legislam. Aqui tudo está invertido. Fazemos as festividades de verão no inverno. As de inverno no verão. Rezamos pra Alá com a bunda virada pra Meca. Louvamos a cristo sentados no colo do Capeta. É assim que se faz no braxil. Terra da obsolescência da piada como disse o sábio RICARDO COIMBRA (que junto de Bruno Marón e Arnaldo Branco formam os 3 reis magos da santíssima trindade [lucidez, síntese e eloquência] da razão braxileira, e Sieber ou Dahmer revezassem como um porthos, um quarto mosqueteiro, e como se Millôr fosse o joão batista da galera e esses caras guardassem a cabeça dele num cesto e ela ficasse pra sempre dando a letra das melhores sacadas sobre o que está acontecendo em nossa realidade). O inferno verde pode não ser mais tão verdejante em extensão, mas está vivo. Terra de selvagens. Terra de bruxas e xamãs. & sob e através do concreto, a encantaria da vida perpassa. Manifesta-se. Nem aí pras câmeras ou pra hipernormalização. Brota como mato. Bicho-homem bizarro. Transformações são flagradas todo tempo. A ciência ou o criacionismo são só duas dentre zilhares maneiras de ignorar o mundo.

Eterna terra de selvagens, gigantes e monstros diversos. Aprendemos com nosso opressor a arte tão britânica de ostentação da própria monstruosidade. E aliás, aquelas famílias ofídicas de branquelos encarquilhados, com suas peles rosadas de pendurar no guarda roupa, com sua nudez reptiliana escondida das câmeras, se encolheriam como minhocas se encarassem de frente o olho bravo dum TAPUIA. Monstros é? Horror é? Bah, aqui é braxil! Agente recebe os monstros na festa, agente bebe com os monstros, come com os monstros, se fode na mão dos monstros mas tenta tirar uma lasquinha também. É assim que agente faz com monstros. Agente transa o horror. Com ardor. E sem nenhum pudor. Aquele papinho de cobrir as vergonhas virou dirty talk por aqui, sacumé? Sacanage dita no sopé dovido. Os jesuítas eram expedicionários que não voltavam nunca porque tinham seus próprios haréns de criancinhas selvagens na floresta, pra brincar eternamente nos campos do senhor como se dizia… o que literalmente significava “brincar com as bolas do SEU senhor. Agora. Porque eu to mandanu.” E sem por favor. Amém. Com os homens brancos veio a salvação. Com a salvação se foi o respeito e a empatia. Sim vou declarar aqui meu anticristianismo e vou explicá-lo biograficamente, mas antes que queiram me queimar numa fogueira ou apedrejar na rua ou cuspir na minha cara degenerada, eu só queria ressaltar a responsabilidade dos cristãos de refletir o uso do cristianismo como naturalização da violência. Essa ideia de alguém especial PORQUE aguentou mais sofrimento que qualquer um POR todos. Iconograficamente os símbolos de cristo são a cruz e a coroa de espinhos que são instrumentos de tortura. No entanto, elemento imagético fundamental da cultura braxileira e que de certa forma faz entender a homenagem à torturadores em pleno parlamento ou pelo menos a aceitação inconsequente disso e o subsequente eco dessa fala monstruosa como uma espécie de movimento, um hashtag-viva-a-tortura que só pode surgir num contexto em que a tortura é algo muito banal. Mas independente de exemplos extremos e explicitamente fascistas como esse, sempre que ouço um discurso cristão, mesmo que moderado e bem intencionado, ele me soa como “vai, cara, lembra de cristo e aguentaí mais um pouco…” e é como se as instituições que cobram e evocam o cristianismo nas pessoas dissessem isso com suas bundas gordas sentadas EM CIMA da cruz carregada por aquele que ouve, recebe e mimetiza a mensagem. Como um cocheiro falando com seus cavalos. Então por isso insisto na importância do contexto. Eu não teria nada contra uma mensagem que evoca forças e resiliência e fortitude nos momentos que são barra pesada (deus sabe o quanto todos nós precisamos disso) e boa parte do cristianismo que eu admiro tem a ver com despir-se de toda pompa e ritualística pra falar com deus, mas quando essa fala vem do opressor… de um opressor particularmente aparelhado de pompa e rito… aí fica estranho… faz pensar: por que esse sujeito me quer bem? É pra me convocar? Pra que eu me junte às fileiras? Ta querendo me empoderar pra usurpar minha força no futuro? Me engordar que nem a bruxa ao joão e maria?
https://theintercept.com/2018/05/30/jesus-a-favor-do-militarismo/

Então é bom também analisar o contexto do Jão, porque ele nos oferece transposições valiosíssimas pra o nosso. Observar onde se tocam. Inglaterra. Império Britânico. Monarquia inglesa. Mito transmissor do capitalismo. Se pensarmos em termos de vampirismo (ISSO NÃO É UMA METÁFORA!), a inglaterra seria Viì original, os estaduzunidus seriam o sanguessuga de segunda geração que sai desembestado criando três, seis, sete, nove, treze, vinte e sete terceiras gerações ao redor do mundo. Desses da terceira geração, o braxil é dos mais parrudos. Verme gordo. Larva prestes a expelir um grotesco amálgama gigante de traça, mariposa e besouro rola-bosta. Kaiju tropical, gargantua servil e delicado, esmagando tudo e todos com sua violenta gentileza. Já possuímos nossa própria raiz e natureza monstra desde antes da colonização moderna, não se trata aqui dum exercício de transferência de responsabilidades. Mas o que vemos é uma besta-fera transformar-se num abominação. Noutra coisa. No caso aqui essa metamorfose ocorre seguindo um padrão de uniformização. Cada besta-fera é dum jeito mas as abominações têm todas um elemento em comum. São um ultraje à natureza e a própria existência. São algo que não deveria estar ali.


O elemento vampiresco fica evidente pela relação entre mídia e estado. Observe como esses elementos se relacionam na inglaterra, nos estaduzunido, no braxil. Existe uma linguagem própria. Um vibração de luz e som. Isso é feitiçaria de dominação em massa. A imunidade tem que ser batalhada todo santo dia. Não existe mente protegida em estado absorto de relaxamento e imersão no entretenimento. Todo dia é preciso relembrar e desconfiar. Todo dia você lerá pelo menos uma centena de mentiras só no caminho de casa até o serviço. Todo dia você escutará os mortos falarem pela boca dos outros.
http://portugues.larouchepub.com/outrosartigos/2018/0424-missiles_launched_on_british_lies.html

“Quando era mais novo, tinha uma caixa de charutos cheia desses insetos mortos e tenta lembrar o que fez com ela. Ele tinha besouros para todos os gostos, o besouro-pondo, o besouro-bombardeiro, o besouro-de-chifre, o besouro-bola, o besouro-do-fumo, e, entre eles, o seu favorito: o besouro-rinoceronte. O besouro-rinoceronte é a criatura mais forte do mundo, tem Três chifres na cabeça e consegue levantar 850 vezes o próprio peso. Se um ser humano pudesse fazer isso, conseguiria levantar 65 toneladas.“
NICK CAVE – A Morte de Bunny Monro
Então perceba jovem aprendiz, que a transposição entre solo-TERRITÓRIO e (X) VOZ sendo X=&emconflito o tal do versus X v&rsus entre elementos que irão se relacionar, como lutadores num ringue se relacionam; e VOZ enquanto expressão narrativa, perspectiva na história, protagonismo, aquela coisa que os marxistas chamam de ser um sujeito histórico como se fosse um puta dum milagre, quando é tão raro se embrenhar na mata cerrada da própria racionalidade e com um facão abrir uma trilha de silêncio genuíno, uma trilha de escuta, que permita só deixar o outro falar, e ter voz. E ser capaz de criar a sua voz. De criar sua narrativa. Sem receio de repreensões e julgamentos e correções teórico-conceituais. A voz é algo pra ser aceito, interpretado, e é na relação entre voz e território que uma interpretação pode ficar radical. Sim, eu falo como crítico de arte formado pra isso. Sou um especialista então xiu, prestenção! João o evangelista era mó crica. A crítica, afinal, também, é uma arte apocalíptica: “O termo crítica é próprio de uma etimologia antiga, quase perdida e significa A ARTE DE DISCERNIR, ou A ARTE DE DESCOBRIR.” – BONZATTO, Eduardo – EXPERIÊNCIA – Um Caminho para o Espírito.



A etimologia, como eu gosto de falar em sala de aula “vamos quebrar a palavra pra ver o que tem dentro dela!” é uma espécie de chave-mestra dentre as ciências, pode crer. Transforme a pesquisa etimológica num hábito e vai entender as palavras melhor.
Por exemplo, vale lembrar que é absurda a ideia de rejeitar a RADICALIDADE o conceito “RADICAL” como se fosse mero sinônimo ou indicativo de violência, porque RADICAL é aquilo próximo ou associado às RAÍZES. A Raiz é o que está mais próximo da origem, é responsável pela nutrição e desenvolvimento de uma forma de vida, raízes dão sustentação e além disso são as partes mais duras, mais resistentes de uma árvore. O avô de um grande amigo andava com um pedaço de raiz de nogueira debaixo do banco do carro e já o usou pra ameaçar idiotas e quebrar outros carros como um ogro faria, mas isso não vem ao caso. Então entenda: quanto mais radical, mais dura e resistente é a ideia. Mais vívida. Mais ligada a origem e portanto mais importante para entendê-la em sua concepção e totalidade. A radicalidade é uma via pra verdade. Por isso quando nos deparamos com uma exposição seja obra ou performance que nos diz e significa muito dizemos “putaquipariu que radical!” & por favor sem essa baboseira de “aí já é um discurso muito radical, né…” com vozinha nasalada e condescendente ocultando sua covardia em outra repetição, como se não radicalizar o discurso nos garantisse alguma segurança, alguma estabilidade, como se não evidenciando a ode à tortura ou o racismo e a misoginia veladas ou mesmo as tais das pequenas corrupções nossas de cada dia, assim, como numa gratificação divina pelo nosso bom comportamento, milagrosamente menos jovens pretos morressem ou menos floresta virasse pasto pra soja transgênica ou menos violência tributária nos assolasse. Mas não né? Pelo contrário, quanto mais nos encolhemos mais ousados ficam os algozes. Mais que nunca a radicalidade é precisa, necessária, fundamental. Ou teremos de conviver com o braxil entrando pra história como o totalitarismo fascista mais amigável contente e alegre do planeta.


Enquanto escrevo minha mão esquerda coça muito, tem um vergão em meu antebraço e costas da mão, estive me coçando bastante, o sangue agitado na minha mão esquerda. O lado esquerdo do corpo é aquele que vive no reino espiritual. Todos temos um pé lá e outro cá todo o tempo. Um passo na matéria e outro no éter. É assim que funciona. Por isso temos dois lados. Por isso as coisas apresentam dois pólos. Só que essa lógica, como toda lógica, pode se tornar uma ilusão ideológica, como esquerda e direita, ilusões de distinção política… não são esses os pólos. Se quiser entender as coisas da ordem do poder e da linguagem, esqueça direitas e esquerdas e comece a pensar em termos de DENTRO e FORA. De dentro e de fora. Num contexto político, pergunte-se: Qual é a agenda produzida dentro do brasil? E qual é agenda que vem de fora do brasil, por influência de forças ocultas, como tenta em vão nos relembrar o fantasma de Getúlio Vargas com os lábios costurados e um buraco no peito que sangra sem parar?

Aí está a transubstanciação interpretativa. E a compreensão se dá na medida da aproximação. Você tem que chegar perto pra entender o que é que tá pegando. Tem que sair andando pelas ruas. Tem que acercar-se o bastante pra sentir o cheiro. De dentro do carro um dá. No ar-condicionado num dá. Num dá sentado no sofá. Sem chance. Então é coisa de deixar a alma sentar no volante do corpo. Deixar o espírito tomar as decisões. São decisões brutas, radicais, por vezes violentas? Entenda, o espírito não teme a morte então sim. Só o corpo, só a matéria teme a morte. O espírito já está lá. Já sabe. Com o estímulo certo, se deixarmos, nossa alma começa a lembrar das coisas. Do mesmo jeito que é muito evidente observar que uma criança tem os impulsos e reações mais perfeitos e que amadurecer é desaprender a perfeição, ceder à normose, acatar a pressão da insegurança e o convite da repetição. Imaturo da minha parte pensar isso? Que bobalhão idealista? Parece uma criança ingênua? Obrigado. E como diria o zezinho: pau no teu cú.
“Quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças” – Pablo Picasso disse isso, está em
VASCONCELLOS, Marina da Costa Manso (org.). Quando
a psicoterapia trava. São Paulo, Summus, 2007. Página 69.

Acabo usando um disco antigo comprado na galeria do rock nos primeiros anos da década de 90 pra fazer passar minha coceira. NO QUARTER é um bálsamo que uso já tem muitos anos. Logo vou passar pro clássico de 1974 Its Only Rock and Roll dos Rolling Stones que muito me ensinou acerca de nunca esquecer as canalhices que já cometi. Nunca deixar ir embora a parte mesquinha, egoísta e filha da puta de si. Porque quando você se convence de que não é mais assim, se transforma num tipo muito diferente e mais perigoso de filho da puta. O lance é se lembrar. Se lembrar da imprudência, da insensatez, da dissimulação. Com um riso de coiote pingando na noite. Traí? Menti? Quem nunca? Se compararmos com o padrão quem nunca vira quando não. O álbum logo de saída me ensinou que ninguém é orgulhoso demais pra não implorar. O fim apresenta evidências da perícia com fingerprint file. Não lembro de em nenhum momento ver uma citação aos rolling stones dentre as muitas citações musicais em hellblazer. No entanto foi ouvindo esse disco que mergulhei pela primeira vez nos fragmentos da fase de Jamie Delano caoticamente publicados por aqui entre fins da década de 90 e início dos anos 2000.

No fim escapei, mas não de mim. Em meu olho da mente, fui pego. Sem penitência, culpa ou condenação. Mas atento. Me equilibro nesse exercício, o de entender que John Constantine é um personagem forte por aquilo que ele não faz, pelas atitude que não toma: ele não sabe dirigir, sendo um pedestre/caroneiro convicto. Ele não sabe brigar e toma inúmeras surras ao longo da história do título. Há uma passagem maravilhosa em MÁQUINA DO MEDO em que ele tenta hipnotizar uma mulher, não consegue fazer isso muito bem e depois reflete sentindo-se culpado, mas não como um cristão deve se sentir culpado, silenciando e sublimando sua vergonha para transformá-la em direcionamento de fé; não, ao invés disso, o que temos é um personagem que constantemente renova uma impiedoso exercício de autocrítica.


Disco lindo que eu roubei de um colega do primeiro ano de faculdade chamado douglas, um caboclo meio japa que parecia um james dean samoiano com quem eu algumas vezes brinquei de roleta russa de automóvel cruzando no vermelho em alta velocidade onde a rebouças separa a brasil da henrique shauman. Anos mais tarde passei por ali e vi uns carros todos retorcidos e umas manchas de sangue no asfalto e pensei “nossa como eu era imbecil!” mas nunca “nossa como eu tive sorte!”. Porque brincar de conviver com a morte é algo que eu comecei a fazer bem cedo e sempre em relativa segurança, mas poucas vezes colocando tantas outras pessoas em risco dessa maneira. Hoje tenho um ódio declarado a qualquer expressão da carrocracia e no geral acho que motorista tem mais é que se fuder muito no trânsito mesmo porque toda a cidade é planejada pra contemplar mais carros do que pedestres o que é obviamente um erro e não simpatizo com motoristas em nenhuma situação e inclusive sou bastante pró depredação e sabotagem de veículos e me dá vergonha e ojeriza minhas lembranças de acompanhar moleques pouco mais velhos que eu, antes mesmo de conhecer Douglas e pouco depois de conhecer John Constantine, com meus quatorze ou quinze anos, em rachas pela bandeirantes, nas cercanias do ABC paulista ou na Robert Kennedy de madrugada. Eu estava quase sempre no banco de trás, fumando, bebendo e rindo como um retardado. Estar dentro do carro era maravilhoso simplesmente pelo fato de que não deveríamos estar lá, mas isso não me serve de justificativa pra hoje não encolher os ombros sob o peso da vergonha quando relembro isso. Mas faço questão de não esquecer. Lembro sempre que apedrejo um para-brisa ou arranho uma lataria ou furo uns pneus.

Vandalismo é melhor quando injusto e totalmente despropositado

Isso também me faz pensar em como o surgimento da minha filha me fez compreender todo um novo espectro da necromancia. Ah sim, o culto radical aos ancestrais. Minha filha trouxe com ela minha avó de volta dos mortos. Muitos anos após seu falecimento, anos após eu sequer pensar nela, pude finalmente compreendê-la e estar próximo dela. E saber do que ela gostaria que eu me relembrasse. Minha avó não gostava de sair em fotos ou do próprio nome, do seu primeiro nome, Raimunda. Praticava encantaria do norte, manjava das garrafada. Ela era índia cariboca catimbozeira paraense da pesada. Me presenteava com objetos sinistros comprados em loja de macumba, caveirinhas e diabinhos pra fazer ebó de exú capa-preta e sete encruzilhadas. Só fui saber disso muitos anos depois. Fã precoce de filmes de terror nem imaginava onde minha vó arranjava brinquedos tão irados. Ela que me transmitiu meu ódio à igreja. Minha vó cresceu num colégio de freiras e uma frase que ela dizia muito era “cabocla em colégio de freira tu já imagina, né fio: apanhava até piá” e quando eu perguntava o que apanhar até piá significava ela respondia “É apanhá até o cú fazê bico, Tico”. Ela me chamava de tico. Ao longo da vida já fui ti, tiaguinho, tantan, tibes, tibúrcio, tibérius, ticanu, tiaguêra, já fui tio tíbito e até tibícos, mas nunca ninguém mais me chamou de tico. Minha vó tinha um jeito especial e só dela de reclamar e fazer careta e bufar nos outros pra demonstrar insatisfação. Ela costumava fazer careta pras pessoas quando elas faziam sinal da cruz no ônibus. Sabe, quando o busão passa em frente uma igreja ou um cemitério e as pessoas fazem o sinal da cruz? Então… minha vó grunhia e fazia uma careta. Uma careta de desprezo. No entanto minha avó tratava qualquer planta com o carinho e a devoção e a ternura que qualquer deus vivo merece. Fosse uma folha de samambaia ou uma árvore frondosa ela prestava seus respeitos. Minha vó irritava muito minha mãe e elas brigavam muito e minha mãe acabava ficando puta da vida e eventualmente isso sobrava pra mim. Isso me afastou tanto da minha mãe quanto da minha avó na infância. Fiquei daqueles infantes reclusos, mas houve um tempo em que minha vó morou conosco. E era como morar com um rockstar, na verdade como morar com um punk. Ela as vezes se mijava de propósito pra protestar. E fingia surdez pra sair andando enquanto falavam com ela. Ela contava que ficara surda de tanto que as freiras puxaram sua orelha. E ela era mesmo surda. Mas não tanto quanto era pra ela conveniente parecer. Ela comia fazendo ruídos ferozes e estrondosos, chupando o tutano de dentro dos ossos até que virassem tubinhos brancos em que se podia enxergar através e mastigando de maneira ofensiva como se para irritar uma família aristocrática imaginária, de terninho maquiagem e peruquinha, que ficava ao redor dela se sentindo ultrajada pelos seus modos rudes. Amava comer aqueles frangos fritos crocantes do KFC, a loja da avenida nossa senhora do sabará perto de onde morávamos fechou simbolicamente no ano seguinte ao falecimento da minha vó. Ela literalmente sustentava o lugar. Ela era racista também. De um jeito todo bizarro já que foi a pessoa com a pele mais escura que tive em minha família próxima (minha outra vó é filha de alemã com um cigano polonês). Vê só… Quer dizer, o relato biográfico nem é tão importante quanto o fato de que depois de estudar tanta parada mística e esotérica e psicodélica e religiosa foi no acidente concepcional que gerou o sol do meu universo que eu fui me dar conta da práxis daquela porra toda. Meu bebê me sintonizou pros mortos. A sintonia fina eu digo, porque sempre estive nessa frequência, eu só não sabia interpretar. Não tinha girado minha chave do entendimento. Não me havia sido dada a concepção de que os extremos se tocam. E a vida extremamente nova toca o véu dos mortos com a ponta de seus dedinhos, dum lugar seguro. Por isso é dito que todas as crianças são mediúnicas. E essa coisa chamada mediunidade seria parte da nossa perfeição desaprendida com o passar dos anos, da educação, da adequação, da moral e dos bons costumes. Ensinar é aprisionar, não? Como na canção: Eu tenho um feto na coleira.

Imagina o desafio de estar lá, disfarçado de professor. Imbuído do cargo e da formação. Secretamente compromissado com a missão de libertar, de somente e no máximo ocasionalmente e apenas quando a situação emergencialmente exigisse, orientar. Imagina só? É como um hippie virando policial. Seu eu fosse mesmo dizer a verdade em todo cadastro preencheria PROFISSÃO com SABOTADOR.

A verdade pode ser espada. A espada é simbolo da MENTE. Isso significa que a verdade tem grande entrada na mente humana. Por isso a mentira, a falsidade e a ilusão não estão no terreno da mente, mas no campo das emoções. Transitar a verdade no terreno das emoções é um desafio bastante recompensador. Abre muitas portas. Mais que nunca as pessoas estão muito ansiosas por alguém que as entenda. Que ligue pro que pensam. Que se importe em maior proporção do que para tweets e postagens e espelhos e tal…

E eu professor, oculto sob minha alcunha, trafico feitiçaria barata e somo pra erosão da normalidade. Faço minha parte, sacumé? E fogo na babilônia. Porque acredito que é antiético um professor não ensinar o que aprendeu, assim como um médico tem obrigação moral de acudir um doente. Porque a verdade científica ainda pode servir de instrumento provocador. Qualquer análise mais acurada expõe com relativa facilidade o engodo patético de uma proposta como a da escola sem partido pra citar só um exemplo. Vide aula inaugural do professor Saviani no curso livre “O Golpe de 2016 e a Educação no Brasil”, mas ainda assim a transmissão da ideia mais tosca, mais mal fundamentada, mais falaciosa se dá com notável dinamismo e ainda apresenta certa aderência no comportamento de alguns, aparentemente porque estamos doentes na linguagem, ou adoecemos na alma e a linguagem é o primeiro e mais evidente sintoma. Como eu escutei recentemente num diálogo de desenho animado japonês, a simplicidade de uma verdade perde efeito quando o mundo fica a cada dia mais confuso. Nossos filtros estão saturados. E por vezes somos transmissores mesmo no desconhecimento do diagnóstico. Como homens passando HPV. Há de se organizar os conceitos. Sedimentar os entendimentos. Respirar antes de falar. A contradição não é o inimigo. O ego é.

E como historiador, meu método científico consiste em selecionar documentos históricos pra compor e ilustrar minha narrativa e então esfregar a cara dos incautos com eles. Como pictos levantando os tartans pra expor alegremente as genitálias no campo de batalha. Então toma mais essa:
“Por ‘esotérico’ entenda-se todas as modalidades de estudo e posicionamento estratégico de ‘estados incomuns de consciência’ ou da experiência espiritual, que são radicais o suficiente para escapar do discurso totalitário da autoridade mística ou religiosa.”
WILSON, Peter Lamborn – CHUVA DE ESTRELAS
O Sonho Iniciático no Sufismo e no Taoísmo

A coceira no braço volta a arder como o grito de Robert Plant em since ive been loving you mas agora o batuque dos meus dedos no teclado já assumiu um ritmo próprio, daqui pra frente estou montado na narrativa, agora é ela que me leva e não mais o contrário. Então vou dar esse exemplo de como a coisa toda de artes e saberes transmutados em vozes dos mais variados territórios se encontraram e destroçaram meu paradigma, minha visão de mundo e transformaram minha percepção de maneira realmente, digamos, constantinesca. Vou comentar como foi que fiz o feitiço de ganhar bem sendo professor da rede pública de ensino. Bem, não é dando aulas, pode apostar! RÁ! Atualmente não tem como ter uma remuneração digna dedicando-se apenas ao ofício da docência. Não mesmo. Por aqui a subvalorização do professor não é mais só consequência de políticas neoliberais, nem meramente resultado de uma longa história colonial que remonta nossa derrocada cultural escravista. Por aqui a própria humilhação vinculou-se ao ofício. E o professor virou uma espécie de pagador de promessas pobretão que todo mundo gosta de manter “amigavelmente” por perto pra expiar seu próprio nem tanto assim avassalador sentimento de culpa social pela con(v)ivência com a farsa generalizada em remendos grosseiros que costuram fé na honestidade, na meritocracia e um bocado de distração preenchendo os espaços vazios de pensamento entre uma coisa e outra. Ter um professor por perto dá uma sensação de que as coisas estão caminhando. De que todos podemos suportar os perrengues e perseverar. Mesmo quando o presidente goza na sua cara e o governador caga na sua cabeça. Ao mesmo tempo. Os professores estarão lá, ajudando na limpeza e dizendo que se você batalhar direitinho as coisas podem melhorar.



Então teve essa vez que, já depois de há alguns anos ter abandonado as bases do currículo oculto (no total estou a quatorze anos nas trincheiras da educação, mas o exercício de descolonização e desapego da autoridade é o mesmo todo dia), me dedicando à interação dialógica, à roda de conversa, à não prova, não avaliação, não fileira, não aula expositiva, não conteudismo, teve essa vez em que eu estimulava um debate sobre nem lembro o tema e um estudante do fundão levantou a mão e eu fui babando saber qual era a dúvida e ele queria saber porque eu era professor “tipo, por quê?” nas palavras dele. E aquilo me quebrou. Eu não soube responder. O pensamento imediato que me ocorreu foi “não queria”. Nunca quis. Fui levado a isso. Fui me envolvendo e acabei indo tão fundo que nem saberia mais voltar pelo mesmo caminho pra escolher outro. Não disse nada. Tive que dizer que não sabia e pensar sobre isso. O raciocínio dele era tão simples quanto provocador: Tinha um quê de “se você é tão sabido poque tá se fodendo com esse emprego bosta? Por que se sujeita a isso?” – referindo-se a indignidade com que o professor é tratado não só pelo corpo discente (quando esse se organiza pra dar as costas pra aula enquanto joga baralho ou dominó), mas pela própria instituição através de seus funcionários burocratas e colegas conservadores e até pelo próprio espaço, precário e desrespeitoso no cerne de sua materialidade. Mas não era só isso. Havia também uma vontade genuína de entender qual era o meu interesse, porque evidentemente eu era o mais entusiasmado da sala.


Pô eu pensei muito nisso. Fui lembrar do meu amigo duzão que me tirava um sarro me chamando de cristão de sala de aula, de sofredor, de penitente da educação. Ele me provoca assim porque sabe que é onde vai me doer mais. Ele que me explicou que HUMILDADE, assim como HUMILHAÇÃO são palavras que advém do radical HÚMUS, que significa MERDA, de maneira que HUMILHAÇÃO é ser atirado na merda enquanto ter HUMILDADE é atirar-se sozinho. Então o quanto dessa indignidade me foi atribuída pelo coordenador burocrata, pela diretora descompensada, pelos colegas caretas pelos estudantes preocupados cada qual com suas próprias coisas? E o quanto disso era só eu humildemente me atirando na fossa do sofrer? E quantos de nós não nos oferecemos pra doma, nos curvamos para que nos coloquem a cela da normalidade e o cabresto da esperança no devir? E sentimo-nos fracassados poque não somos aquilo que idealizamos ou que idealizaram (não faz diferença na real) de e para nós. Porque não temos dinheiro o bastante, porque não conseguimos controlar a sala, ou bater a meta ou porque, como me disse um moleque uma vez, quem não tem motor não faz amor. Eu ri na ocasião. Disse: “Sério memo?! Ah vá! Cê sabe que agente dá um jeitinho…” porque ele tinha até razão, mas o motor não é o carro como ele pensava, é a vontade. Esse raro item incomercializável.


Nas aulas de história eu trabalho o tema de narrativa autobiográfica há muito tempo. Uma ótima entrada pra tocar conceitos importantes pra historiografia e também pra gerar uma aproximação entre as pessoas de cada turma. É claro que sem muito ensaio fui me habituando a contar minha história. E como que por reflexo, só repetia minha narrativa autobiográfica padrão, aquela que já está engatilhada na minha linguagem quando sou inquerido sobre alguma passagem pessoal. Nunca me havia colocado o desafio de eventualmente contar diferente dessa vez, revelar algo que nunca havia dito. Resolvi então mudar o foco da minha narrativa autobiográfica. Mas como eu fazia antes?
Eu dou aula pra comunidade, nunca quis parecer um abastado playboy pros meus estudantes, tipo, acostumado com sucrilho no prato, como reza o poema, então sempre destaquei os fartos aspectos mais maloqueiros da minha vida. Os bairros por onde cresci e transitei na periferia da zona sul. As cercanias da Pedreira. Lá onde a avenida nossa senhora do sabará vira estrada do alvarenga. De dar rolê perto do lixão na Interlagos pra fazer fogueira. Do Campo Limpo pro centro, era uma viagem na minha infância. De forma que o centro da minha cidade sempre foi o Largo 13. Ir fazer compras no centro era ir pra Santo Amaro. Só que travestido nisso estava também uma vergonha de classe, porque apesar de estar longe do centro e também orbitar o universo periférico e ter crescido brincando solto na rua, empinando pipa, atirando pedras em cachorros mortos nos córregos e caçando ratos depois das chuvas de verão quando o nível dos esgotos subia e eles vinham pra fora em busca de ar e espaço, eu nunca morei na favela, meus pais atravessaram muitos perrengues mas nunca realmente passei necessidade. Não sou herdeiro de nenhuma fortuna, mas também nunca me faltou comida na mesa. E porque então eu me envergonhava da minha sorte?

Resolvi que ia começar a tirar uma onda. Ia resgatar a marra que eu tinha quando eu era um moleque e tomava socos na cara porque arriscava falar o que tava na minha cabeça. Já tomei uns cacetes homéricos quando era uma criança selvagem. Uma vez tomei uma surra de shape, surra de skeitada mesmo, de quatro moleques mais velhos ao mesmo tempo. Começou com eles me provocando, mas acho que tavam usando a provocação como pretexto pra se aproximar e tomar meu boné ou o que eu tivesse nos bolsos. Depois respondi com outra provocação, levantando a hipótese de que gostavam de andar sobre rodinhas pra irem bem rápido pra trás dalguma moita prum onanismo coletivo. Por um momento eu achei que conseguiria acertar um deles antes de começar a apanhar, mas foi muito rápido que me vi deitado de lado em posição fetal abraçando minhas pernas com um braço e protegendo minha cabeça e rosto com o outro. Fiquei com hematomas nas costas, canelas e mãos que duraram semanas. Esse era o espírito! Eu achava que amadurecer e me acalmar era a coisa certa, mas era esse impulso que eu precisava resgatar pra dar o grande salto que me faltava na vida profissional. Ouvi dizer esses dias que a palavra pivete vem de Piva. O Roberto Piva.

Então eu comecei a propagar a velha ideia de suficiência num outro nível. O nível da alegria. Passei a compartilhar a liberdade de estar bem. De ter o bastante. A autonomia de ser professor da rede pública e ter um horário maleável e mais liberdade pra trabalhar como quiser. A autoridade de cátedra é um conceito que serve como antídoto para a hierarquização burocrática. O que é também um exagero, mas no contexto narrativo faz sentido que seja apresentado nesses termos. E de que, tendo essa rara vantagem do horário maleável, eu poderia exercer outros ofícios que me dão o resto do dinheiro que eventualmente eu precise. Como o que por exemplo? Revisor, editor, passeador de cachorros (é sempre válido lembrar que praticamente qualquer serviço remunera melhor a hora de trabalho do que o de professor em São Paulo, estamos cerca de 80% abaixo do piso salarial do funcionalismo público da região); ou como os feitiços que minha avó catimbozeira me ensinou que eu vendo a preços específicos apenas pra clientes dedicados. Ou a leitura de tarot que eu faço mas nunca de graça pois assim é que me foi ensinado. Meu tarot é com baralho cigano. Eu posso ler sua sorte com um maço de baralho comum. Não uso arcanos maiores. O jogo que eu tiro, minha forma de virar as cartas, é original da adivinhação vodú, que fui aprender por intermédio da Santeria Cubana quando lá estive em 2013 e conheci dois paleros de linhas diferentes (Palo Monte e Palo Mayombe). Mas mesmo antes disso eu já trabalhava a interpretação de augúrios. Pincelava uma coisa aqui e outra ali. E meu bisavô, um cigano chamado Brün, um cuzão, canalha, enganador que arruinou a vida da minha bisavó, ensinava que nunca sob hipótese alguma deve se tirar as cartas ou fazer uma leitura de mão ou de chá ou de borra de café ou qual que fosse de graça. Ele dizia que o pagamento era fundamental pra romper o véu do mundo espiritual. Que as moedas, o dinheiro em geral, são um poderoso símbolo entrópico de contato com os mortos e que pra fazê-los cantar e contar seus segredos era preciso desembolsar a prata ou no mínimo algum níquel.

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Comecei então a contar essa história. Era uma narrativa baseada em fatos reais, mas de alguma maneira inventada também, porque não era como se eu tivesse efetivamente uma carreira de tarólogo. Mas a mágika da palavra sagrada aconteceu e pouco tempo depois de iniciar a narrativa, a realidade se transmutava e eu, voltando pra casa da escola, recebo uma ligação bem quando atravessava a rua verbo divino e era uma prima de uma aluna querendo marcar uma consulta. Demorei pra entender e quando tendi desacreditei. Imediato ajuntei: Esses muleke tão me testando! Então lancei logo meu preço, aliás, ahn-rrãm, meu preço não, O VALOR da minha consulta: Setenta e sete reais. Em dinheiro que eu ainda não aceito cartão viu. Ela topou. Marcamos na semana seguinte. Fui nervoso pro local de encontro mas a leitura fluiu e foi um sucesso. A cliente ficou satisfeita e eu, sem querer querendo e totalmente por acaso, acabava de receber a hora mais bem paga de toda minha longa e só deus sabe o quão fatigada jornada profissional. Inacreditável. E melhor, o efeito se multiplicava e agora eu era indicado pela minha cliente satisfeita o que eventualmente me virava outros clientes. Era o aprendiz de feiticeiro encantando as vassouras, agora tudo se movia por conta própria e tudo o que eu precisava fazer é permanecer em movimento no meio da confusão.


Mas ainda conservando o diabinho genioso do ceticismo tagarelando pousado em meu ombro, resolvi tirar a prova dos nove e repetir a operação num outro contexto, pra outro grupo de pessoas. Sabe, quando se tem filhotes, não raro percebe-se rapidamente cercado de pessoas que você pouco conhece, por vezes nem mesmo gosta, mas em quem deve confiar para sobreviver, a chamada rede de apoio, como satiriza Ali Wong, é como walking dead, um grupo de pessoas totalmente estranhas reunidas pra sobreviver ao holocausto zumbi de ter um bebezinho. Pra mim que venho flertando com a misantropia desde a juventude, esses espaços de convivência tornaram-se por vezes difíceis e desafiadores. E cada vez que eu me apresentava e nessas conversas moles de fazer uma social na sala de espera da casa de parto, do consultório do pediatra ou na saída da escolinha, ou conversando em festinhas e em parquinhos de praças, às vezes eu ficava tão entediado de dizer “sou professor” e encarar aquela ladainha condescendente de “vocês é que são guerreiros”, “vocês deviam ganhar mais que um jogador de futebol” e etc e tal que eu simplesmente comecei a responder que era DJ de festa infantil. Ah sim, eu discoteco em festa infantil. Toco só música boa e não aceito sugestão não! Se quiser tocar o que você gosta, discoteca você mesmo, oras! E não é, que com essa presunção e arrogância toda, uma hora minha esposa me manda uma mensagem e diz: “tenho uma amiga que precisa de alguém pra fazer o som da festa de dois anos do Luquinhas, ela tá perguntando quanto você cobra…” – como tenho horror à números fui bem pouco criativo na resposta: “Diz que como é sua amiga faço por setenta e sete.” E fiz. As pessoas na festa adoraram! Teve adulto e criança que dançou. E no fim ganhei uma carona pra casa (pois estava com laptop e meu amplificador e estava chovendo) e fui pago com 150 reais. Disseram que não admitiam me pagar menos que isso. Almoço, bolo e docinhos incluso. Dá pra acreditar? De lá pra cá já fiz mais seis festas. As leituras de tarot já passaram as duas dúzias. Numa das consultas fui pago com o box do selo SESC CAIXA PRETA ITAMAR ASSUMPÇÃO, com a discografia completa do gênio ben(e)dito Beleléu, até hoje a melhor remuneração que já tive na vida. Nunca estive tão satisfeito profissionalmente. Sempre me considerei competente e bom, sempre me reconheci como habilidoso no meu ofício como educador. Mas parece que a competência não era o bastante pra que eu me permitisse sentir orgulho de mim mesmo. Herança ou expectativa cristã de um sacerdócio educacional? Talvez… mas essa merda toda é passado agora. Nunca me senti tão digno e tão realizado como quando comecei a criar livremente a narrativa de quem sou eu e o que eu faço pra viver. Professor sim, mas não mais o fodido desgraçado que a sociedade espera que eu seja quando digo que sou professor. Aqui é pique hogwarts pai.



Por isso demando atenção, falo xiu! e exijo meu reconhecimento enquanto especialista. Porque já to nessas há tempo demais pra ficar na encolha pagando de humildão. E na toada que as coisas vão, cada ação deve ser entendida como um ofício a parte. Escrever, interpretar, ensinar… são coisas diferentes e deveriam ser acertadas cada qual segundo seu próprio valor. Os tempos estão áridos porque a excelência não só não tem sido reconhecida, como já não é reconhecida há tanto tempo que tornou-se fora de contexto e agora nem sequer parece ser almejada sendo o hábito comum que seja, na medida do possível e do inconstitucional, evitada para minimizar “gastos” excessivos. Mas não se considera a diferença entre custo, gasto e investimento. Não senhor. Enfiamos tudo num saco chamado CRISE e prosseguimos na fila indiana que nos conduz à neoescravidão. Assumir-se especialista é assumir-se um cuzão. É assumir o poder que tem sobre a capacidade de fazer algo. A inteligência e a sensatez soam como presunção e geram antipatia. Mas a arrogância só tem sentido se puder sustentar-se na nudez. Do contrário será blefe, ou o que chamamos prepotência. Que é desperdício de força. Desperdício de energia. Vaidade vã. Punheta. Sim, eu repito. Não to aqui sarrando não… não tô de brincadeira. Os livros não vão ler a si próprios. A verdade não pulará no seu colo como um doce gatinho no cio. Vocês seres civilizados que querem permanecer encolhidos em suas ostras de conforto e normalidade precisam de educadores. Precisam de educadores que sejam livres pra falar tudo aquilo que vocês têm receio que seus filhos e filhas ouçam. Vocês precisam disso pra formar uma geração que possa planejar como tirá-los do atolamento político-econômico-cultural no qual se encontram. Lamento dizer mas o vaticano foi quem sempre mais precisou dos bruxos pra exorcizar de verdade seus altos sacerdotes possuídos, ou para orientá-los acerca de quais os terrenos mais ricos, as datas mais especiais, os mitos mais poderosos para serem fagocitados pelo sincretismo hegemônico que se construiria a partir dos cercamentos territoriais, da centralização da igreja e do subsequente surgimento dos estados modernos.

da direita pra esquerda





Como em Witches vol II quando Mira uma típica strega tradicional é convocada pela alta cúpula papal para resolver uma pendenga de proporções cósmicas. Mesmo recorrendo à bruxa os sacerdotes ainda posam de senhores da razão, acusando-a de falaciosa, de ostentar truques baratos, mandando-a calar, tipo mas ela evidencia de forma tranquila a inferioridade dos mesquinhos homens da fé, ela diz “da posição em que vocês se encontram, sou aquela que conecta dois mundos. O mundo das palavras e o mundo sem palavras“, na página seguinte ela aprofunda sua exposição “o mundo de vocês é limitado, o nosso mundo é infinito. As palavras de vocês são como facas que dividem a possibilidade em naturezas características. Um instrumento que corta o mundo da maneira que melhor lhes convém. Nós vemos o mundo como ele é. Mesmo sabendo as palavras, nós podemos descartá-las. Uma bruxa está sempre conectada com o infinito. É algo que vocês jamais vão alcançar. Embora toda a existência tenha sido infinita um dia.” com isso ela deixa a tribuna sacerdotal toda sentada em seus cadeirões de mogno com a maior cara de bunda, e entre expressões como “Blasfêmia“, “que horror“, “quanta ousadia” e “que obcenidade” um dos arcebispos (a julgar pelo chapéu cônico) engendra a fala que bem representa a postura da igreja (historicamente enquanto símbolo civilizatório e NÃO localmente enquanto abrigo comunitário) como um todo, oportunista, calculista e aproveitadora: “Até que a ovelha negra serviu pra alguma coisa” ao que um irmão de fé responde obstinado: “A existência de gente como ela é uma blasfêmia. Deixamos que vivessem para que sejam úteis em momentos como esse.” o que expõe a mesquinhez com que o dominador instrumentaliza o profano para usá-lo a serviço do sagrado. Ao que, na cena seguinte, quando a bruxa, apesar da desfaçatez de seus convocadores, resolve sacrificar-se para salvar toda a vida na terra, eles cumprem a ritualística de abençoar seu sacrifício e são interrompidas pela jovem Alicia, aprendiz de Mira na bruxaria, que expõe sua versão da verdade que todos pensamos mas raros são os que a colocam em brados & no que erguem suas mãos caquéticas pra dizer “Com a bênção de deus…” ela os interrompe: “Parem! Não mandem a Mira com mentiras! Se uma pessoa disser que o céu limpo é azul sem nunca tê-lo visto, mesmo que as palavras estejam certas, é mentira! Suas palavras são impuras e tristes. As palavras de Mira brilham. Nós vemos e ouvimos com todo o nosso ser. Sentimos também o cheiro e o tato. Recebemos o corpo do outro e nos misturamos. Se não for assim…” e o sacerdote, ainda encaixotado pelo recalque, pela autorepressão proclama nada criativo: “Que imundice! Como uma criança pode falar essas coisas?!” no que seu comparsa responde “mesmo sendo criança, uma bruxa é uma bruxa.“
Ou mesmo no belíssimo primeiro volume, quando, as práticas da bruxaria são destacadas pelo autor Daisuke Igarashi através de atividades simples e cotidianas como o tear, a jardinagem, a culinária, as atividades domésticas… nada de o conhecimento te libertará, nada de promessa meritocráticas, nada de hierarquização dos saberes afim de selecionar escolhidos, iniciados e grãos mestres… não! É só coisa de varrer o chão, selecionar folhas e ferver uma água pra infusão, amassar um pão. É no equilíbrio entre força e ternura que o milagre da vida acontece. Cozinhar, criar crianças, brincar. Essa simplicidade precisa ser admitida e desvendada pelos estudiosos da educação.

Ainda assim, aceitar e abraçar o simples não é o mesmo que incentivar e generalizar o tosco e precisamos lembrar que o projeto vigente em andamento está longe de reconhecer isso. A agenda vigente quer transformar TODO emprego em subemprego e está convencida de que uma nação de atendentes de telemarketing e balconistas de supermercado é ideal pro modelo social almejado. Tranquilo e favorável como profetizou o sábio. E todo empenho tem sido em desvalorizar e mais do que isso desmoralizar cada vez mais em especial os professores para que sirvam de exemplo pra todo trabalhador dos horrores trabalhistas que estão por vir. Pelo que se pretende os professores serão uma classe crística. Metacristianizada e imolada. Os homo sacers de plantão. Os cordeiros imolados de um ávido deus tucano.

Diante desse panorama nos resta lembrar que o que somos nunca está acabado, não pode ser definido e nunca trata-se de algo estanque. Não somos números ou máquinas por mais robotizado que esteja nosso comportamento. Foi meu camarada Dimitri Bit, B-MAN, historiador, cristão, dos raros cristãos que eu respeito EM SUA cristandade, que me ensinou que a palavra robô vem do tcheco ROBOT ou ROBOTA que significa trabalho forçado, ou seja, ESCRAVO. Só que a escravidão não é definidora, como qualquer violência é uma condição ao qual alguém se vê submetido. Não existem descendentes de escravos. Existem descendentes de culturas e etnias e linhagens diversas. E sujeitos que sofreram a violência da escravidão. Estamos sempre prestes a transcender ou a fraquejar e ficarmos a mercê das vozes fantasmas, de sermos possuídos pelos demônios do medo, do preconceito, da culpa, do arrependimento, do rancor, do ressentimento, da inveja, da ignorância. RESISTIR não é necessariamente lutar contra algo, mas tornar-se mais forte afim de ultrapassar qualquer algo que queira eventualmente levar uma. E esse é o sentido que eu muito respeito do cristianismo primitivo, no qual a premissa é deus é meu pai portanto eu sou tão potencialmente divino quanto ele e jesus foi meu irmão, que imbuiu-se da sua divindade do seu potencial divino pra transformar as coisas da melhor forma possível. Depois que ele foi pro céu, seus apóstolos vestiram seu manto, como aconteceu com o batman que virou vários batmans ou com o hulk que virou vários hulks, seu ideal é sua encarnação. Mas em vida, Eli, como era chamado, chutou as barraquinhas dos mercadores no templo, açoitou os banqueiros, estendeu a mão pras putas e pros ladrões. Colocou um vinhão pra rapaziada. Aí sim agente tá conversando de festa do divino. A alegria e a amizade são fundamentais e nenhuma pauta, dogma ou verdade religiosa pode superar a esse fato.

“Há aí algo de precioso para se representar hoje uma noção de povo e, talvez, também para pensar o que Deleuze dizia quando falava de um povo menor, do povo enquanto minoritário. É menos um problema de minorias do que uma apresentação do povo como RESTO em relação a uma divisão, algo que permanece ou resiste a uma divisão – não como uma substância, mas como uma diferença. Seria preciso proceder muito mais dessa forma, por meio da divisão da divisão, do que se perguntando: “Qual seria o princípio universal comunitário que poderia nos permitir conviver?” Pelo contrário, face às divisões que a lei introduz, aos cortes que a lei continuamente faz, trata-se de trabalhar sobre o que se coloca em questão ao RESISTIR, ao RESTAR – resistir e restar têm a mesma raíz.”
– GIORGIO AGAMBEN – Uma Biopolítica Menor
Outro pensamento sobre nossa língua, um Xís de V&ersus entre o INglês e o PorTUgUês, de maneira que o inglês é entendido como uma língua empoderadora, inclusive por seu potencial bélico, marcial, que evoca no sedutor uso de seus imperativos e na alegria contagiante de averbar os substantivos. Agente se sente tão pra frente quando faz isso né não? Mas o português, por outro lado é uma língua desempoderadora que mescla-se à uma miríade de influênzias, por vezes violentas e subversivas de outras línguas e dialetos. Originalmente é uma língua maloqueira, linguagem portuária cheia de rombos, lacunas, espaços a serem preenchidos por outras línguas, sobretudo o árabe e troncos linguísticos africanos dos mais diversos e no caso do português brasileiro ainda somando-se no caldeirão as línguas indígenas. Eu só posso imaginar como deve ser o português repleto de cantonês ou mandarim que se fala em Macau. E pra mim soa agradável como um abraço psíquico entender o que fala um amigo de Cabo Verde, Angola ou Guiné Bissau. Mas o lance é que enquanto o latim foi uma língua artificial criada pra justificar e amarrar o processo de centralização da escrita na empreitada biruta de formar os estado-nação modernos, toda a escravidão e o genocídio e tal, o português meio que virou seu outro lado da moeda, seu alter-ego obscuro, sua versão falada na rua, então o português era meio que a linguagem de malaco de antigamente, aquela coisa de captar bem rápido as próximas gírias que vão entrar em circulação, e de saber fazer negócio em qualquer língua e contar piada em qualquer dialeto e jogar baralho com qualquer estrangeiro. Mas entre WHAT IF e o que SERÁ QUE SERÁ, eu não tenho nem pergunta nem afirmações pra essa reflexão. São sensações que o inglês me evoca e para as quais o português me desperta. Sou péssimo em inglês. Me comunico pessimamente e entendo muito mal. Com muita dificuldade. Ainda assim me vejo pensando em inglês às vezes, por conta do quanto essa língua é presente (mesmo aqui em santo amaro, eterno e orgulhoso reduto nordestino de sumpaulo) e também por conta da sua aderência fonética que convida a psiquê a querer reproduzir aquela linguagem. Como músicas cuja melodia grudam na memória. Pra exorcizar sua mente de jingles satânicos desse tipo sugiro o inglês de patuá, feitiçaria linguística realizada pelos dedos desse caçador de vampiros, que absorve as palavras do colonizador e as resignifica, liberando a energia mágika delas que antes estavam amarradas.

E quando a voz sai invertida? Já viram disso? Quando as palavras traem a intenção. O canto do bode. O resultado sempre soa trágico. Outro dia estava eu cansado a beça (ó lá já tentando me justificar) e conversando com minha filha e fazíamos uma lista mental de coisas pra comprar no mercado e saiu da minha boca a frase “é melhor comprarmos outro condicionador porque desembaraçar esse cabelo ninguém merec*” travei antes do fim mas já era tarde e minha parceira, mãe da pequena, negra, olhou pra minha cara e falou “ninguém o quê?” e eu senti minha boca encolher até virar um cú e entrar pra dentro da minha cabeça como uma boca de tamanduá ao avesso fui de lobo a capelobo invertido num instante e todo meu sangue escorreu pro meu próprio submundo particular e eu senti todo corpo suprimido se dobrar de vergonha como um tatu-bola se encolhendo e eu quis me enterrar e hibernar e ficar em silêncio pelos próximos nove meses pra ver se eu paria algo com uma sabedoria que pudesse compensar a bobagem que me escapou. Ninguém merece? Seu branquelo filhodaputa você é que não merece a honra de desembaraçar esses cachos. Seu cuzão palmito de cabelo escorrido do caralho. Minha sensação fora de que que sofrera uma possessão. Como se essa frase do senso comum, esse jargão tipicamente televisivo “ninguém merece” tão naturalizador quanto vulgar, tivesse aderido na minha mente e possuído minha linguagem. Porque eu falei assim? Se não me sinto assim. Se não penso assim. Porque minha voz fez isso?

Então não importam nossas autodefinições. Não importam as historinhas que contamos pra compor nosso mito-ego. Porque não importa se eu sou ou não cristão, se eu sou ou não racista se eu sou ou não misógino. Num contexto cristão, racista e misógino eu posso agir e falar como um cristão racista misógino mesmo estando perfeitamente convencido de que não sou essas coisas. E com isso posso contribuir sim para reforçar esses aspectos “culturais” (af!) mesmo enquanto racionalmente está muito claro pra mim que não faço isso ou sem me sentir parte disso. O brasil é indubitavelmente cristão e se autoproclama assim com razoável desembaraço, mas o brasil também é misógino e racista e você pode apostar que boa parte dos misóginos e racistas não se autoproclamam assim, provavelmente nem se enxerguem assim. Tenso. Árdua luta. Expor e ridicularizar a figura heroica que formamos de nós mesmos, como cracas de ego encrustando em nossa alma. Ressaltar onde somos fracos, onde estamos vulneráveis. Exibir como fomos tolos, como somos tolos de achar que fomos tolos naquele momento mas agora já sabemos das coisas. Assumir nossa burrice porque essa mediocridade é o que nos salvará das garras do poder. “Shoot first , think never” atire primeiro, pense nunca. Esse é o mantra do ESCOLHIDO, do grande caçador de demônios interdimensional Ash Williams, que muito tem a ver com nosso amigo John Constantine no que diz respeito à iconoclastia metodológica. Estar imerso num mundo de demonologia e ocultismo cagando e andando pro latim, pras línguas antigas e pra ritualística ou pros livros proibidos, pros saberes secretos, pras proibições e imposições de qualquer natureza e gênero. Desprezando e ridicularizando TODA expressão de poder.

Então, pra concluir esse estudo, eu gostaria de propor em primeiro lugar algumas rinhas de leitura onde podemos colocar nossos cães e galos de briga melhores treinados pra se estraçalharem e, sob a excitação sádica de nossa sede por conhecimento, apresentar algumas perspectivas edificantes acerca desse tema tão complexo quanto prazeroso: A bruxaria. Em especial devo indicar o título PROMETHEA do bruxo criador do personagem que aqui nos guia com a candeia, a fogueira e o crivo ardendo. Promethea aborda os principais conceitos relacionados à magia de forma bastante didática, até careta em sua generosidade educativa. Uma leitura deliciosa com uma tremenda arte, mas foi na “coincidência” de encontrar o MANGÁ WITCHES de Daisuke Igarashi (supracitado) ao mesmo tempo que terminava de ler a série Promethea que um grande estalo me desconstruiu o poderio mítico das palavras, me fazendo ver que as palavras sozinhas num livro são sujeirinhas rabiscadas, glifos e nada mais. É a palavra empregada pela voz, pelo fôlego divino dos seres humanos que contém a semente primordial que chamarão por aí de CABALA, o abracadabra dos zuriguiduns que quebram tudo que é urucubaca e desmontam quarqué ziquizira e deixam o corpo fechado e afastam o mal e trazem SÓ ALEGRIA E FELICIDADE num cheiro de alfazema e alecrim. Witches é sobre isso. O banho de salmoura. O poder do gengibre, do alho, do manjericão. Esse mangá te traz de volta pra baixo, pra terra, quando você começa a pirar e ir longe nas referências obscuras e hiperintelectualizadas da alta magia de promethea. Então o cruzamento ou o encontro ou o confronto de PROMETHEA e WITCHES é minha dica mais valiosa de leitura por aqui. Pode não ser O mas é um canal pra estudar magia através de quadrinhos.


Depois eu gostaria de apresentar uma lista comentada dos autores de HELLBLAZER, o que inclui um modesto estudo numerológico dos 18 escritores que já passaram pelo título. Vou manter essa lista em aberto e convidar outros estudiosos e entusiastas a tecer aqui seus comentários, quem sabe não vamos coletivamente encorpando essa seleção de escribas, comparando as fases e arcos e observando o tom e os temas conduzidos por cada um deles. Da primeira edição até a 300, agora podemos encarar HELLBLAZER como uma obra terminada e não mais como um periódico e isso nos confere certa estabilidade para comparar as fases e destrinchar a semiologia inerente a cada uma delas. Então você leitor, interprete ou praticante da gibimancia pode também somar essa crítica ao título HELLBLAZER. Revele algo sobre a obra, duma passagem específica ou do tom geral o que melhor lhe aprouver– REVELE o que aprendeu com o santo jão e suas trezentas & 13 fogueiras.


MAPA DE AUTORES
1. DELANO se debruçou de saída na descrição primeira do personagem pelo seu criador: um mago da classe operária. Delano fundou as edificações de Hellblazer cravando vigas bem fundo no coração da crítica social e política de maneira que a partir dele cada um dos demais autores de alguma forma reforçaram essa ideia.
2 e 3. MORRISON & GAIMAN responsáveis por escrever histórias curtas para que Jamie Delano pudesse “descansar”. Uma obra de fôlego exige descanso adequado e é legal ver como isso é resolvido de maneira quase comunitária pela editora bruxona Karen Berger. MORRISON agita as correntes dos fantasmas do terror nuclear enquanto Gaiman nos brinda com uma fábula shakesperiana de empatia e compaixão.
Ao que DELANO retoma com vigor renovado e aprofunda temas dos mais diversos, sempre tocando o nervo exposto de sua situação histórica, no qual o contexto é abalança para mesurar o grau de radicalidade das ideias expostas nessa fase.
4. DELANO/FOREMAN a parceria com Pugh, sobre cães e homens.
É incrível notar que Delano exprime suas palavras quase que num cântico, num transe sintético e cada conceito, cada tema, cada abordagem que você tenha em HELLBLAZER nos autores subsequentes torna-se uma espécie de reforço, de estudo, do que primeiramente fora feito pela escrita hiper-radical de Delano. Quando você lê a fase de Delano na íntegra percebe que tudo o que virá em seguida já está ali, pré anunciado, quase que profeticamente. São como os ciclos de vida, os setênios segundo a medicina antroposófica. Cada volta no ciclo gera uma revisitação.
5. ENNIS Autor também profícuo que popularizou tanto título quanto personagem pra toda uma geração de leitores em especial aqui no braxil. Levou o elemento ROMANCE pra outro nível com os encantos e desencantos com a irlandesa Kit. Ennis é ótimo pra pegar todas as bolas que Delano deixa pingando e fazer o passe de mestre com elas, desenvolver, aprofundar, complexizar. Fase maravilhosa. A tônica de Ennis pra abordar o racismo, o conservadorismo é implacável. Destaque para um grande marco cronológico, a história QUARENTA, na qual john vira um quarentão, oficialmente um velhote.
6. SMITH
. ENNIS
. DELANO
7. CAMPBELL
8. JENKINS Outra das fases mais extensas de HELLBLAZER. Jenkins aprofunda várias aspectos acerca dos demônios (destaque para a “humanizada” que o primeiro dos caídos sofre) e do mundo feeérico da magia natural primitiva bretã.
. ENNIS
9. ELLIS desenvolve uma iconoclástica crítica a Aleister Crowley. Roteiros viscerais e ultraviolentos. Destaque para a história SHOOT! a única a ser censurada e engavetada em toda a história do título (reeditada posteriormente), trata do fenômeno cultural de assassinatos escolares na américa do norte.
10. MACAN
11. AZZARELLO reza a lenda que é o único norte-americano (teve tb o Jason Aaron numa passagem muito breve de duas edições se não me engano) a escrever HELLBLAZER. Definitivamente o único americno a escrever uma fase de fôlego do título. Escreve uma temporada de john nos estaduzunidos, em especial o arco NA CADEIA com arte do monstro Rich Corben. É corajosa e mordaz a decisão de Azzarello de abordar aprópria AMéRICA como tema ou pano de fundo conceitual para as histórias. Na minha piração ele faz uma releitura excêntrica de BATMAN no arco de conclusão da sua fase, mas vou deixar pra defender essa teoria mais adiante.
12. CAREY fase pesadíssima, narrativa extremamente opressiva. Quando você achava que John não podia se foder mais…
13. MINA
. CAREY
14. DIGGLE
15. AARON
16. DIGGLE
17. DELANO, AZZARELLO, GIBBONS, MIÉVILLE, MILLIGAN
18. MILLIGAN fecha o título com chave de ouro. Tudo no roteiro de milligan é transmutação de chumbo em ouro. Pesado como chumbo, rico como ouro. Fase magnífica. A arte de Bizley é tipo como esse cara não faz arte pra hellblazer desde o começo?!?!?!? mto foda demais mas vc tb percebe que a narrativa está out of leech ou cut loose ou gegen die wand a perspectiva de encerramento convida a um acirramento da radicalidade de algo que já havia começado radical há quase quarenta anos. Realmente magnífico. Faz pensar que talvez seja melhor mesmo que tenham acabado com o título. Encerrar por cima como se diz. Cum gran finale e us caraio. Mas me faz lembrar também que quando estive com Delano mais meu parça neomitosófico Dimitri Bit em 2012 (Jamie Delano veio ao braxil promover Nação Fora da Lei) perguntamos a ele sobre os rumores que já farejávamos no ar do encerramento no título pela VERTIGO e sua resposta foi: isso seria como matar sua galinha dos ovos de ouro…
ESSE MAPA/ESTUDO DOS AUTORES ESTÁ EM CONSTRUÇÃO E ABERTO PARA CONTRIBUIÇÕES…
CONTINUA…
