Direito Processual Penal na Guiné-Bissau
Direito Processual Penal na Guiné-Bissau
1.2. A criminologia
Tem a sua base no próprio Código Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 4/1993, de 13 de
Outubro. De referir que é o primeiro Código Penal de “criação” guineense, que veio substituir
os anteriores Códigos portugueses de 1886 e 1982 que vigoraram simultaneamente em Portugal
e na Guiné-Bissau. O de 1886 vigorou em Portugal até 1982 e na Guiné vigorou ainda no
período pós independência, por força da lei n.º 1/73, isto é, até 1993.
(1) Cfr. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, 2.º Edição, Coimbra, Edições Almedina, 2019, p. 7.
(2) Cfr. no mesmo sentido Maria João Antunes – Direito Processual Penal, p. 7.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Tem o seu epicentro no Código de Processo Penal guineense aprovado pela Lei n.º
5/1993, de 13 de Outubro, que veio a pôr cobro à vigência dos CPP portugueses de 1929 e de
1987. É um ramo que se ocupa do processo, do procedimento e do ritual no âmbito do qual o
crime é concretamente definido e concretamente aplicado.
Nota: as medidas que não preveem a aplicação de medidas de privação de liberdade não
são reguladas por esta Lei. No fundo, se é aplicada uma pena de privação de liberdade teremos
de saber como é que ela será executada, pois durante a execução da pena pode surgir problemas
quanto à definição do regime da pena, à liberdade condicional, ao surgimento duma nova lei
descriminalizadora ou mais favorável ou ainda uma situação de doença drástica do
criminoso/recluso.
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Resenha Histórica
Mas, não obstante este facto, não se pode pensar que o sistema penal adjectivo é baseado
apenas e exclusivamente nestes dois sistemas, desde logo porque os tais sistemas históricos:
--há quem diga que os próprios sistemas históricos receberam fortes influências dos
próprios regimes estaduais.
Por estes considerandos, torna pertinente ter uma visão holística dos sistemas históricos
e caso a caso ir descobrindo as suas verdadeiras características.
--Magna Carta Libertatum de 15 de junho de 1215, de Rei João Cem Terra aos
Barrões; e,
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1. Um que julgava o crime de corrupção dos magistrados que recebiam subornos, que
eram condenados a restituir o valor de locupletamento;
Vigorava a ideia de Testis Uno Testis Nullus (quer dizer uma única testemunha equivale
à zero testemunha).
Como o seu marco, aponta-se o facto de ter limitado o poder do monarca, obrigando-o a
respeitar o Devido Processo Legal ou o Due Process of Law nos julgamentos.
Disseminou as bases para um julgamento equitativo no seu artigo 39.º, dispondo que
nenhum homem livre será detido, privado da propriedade, liberdade, hábitos, exilado ou
destruído, se não em virtude de um julgamento legal pelos seus pares ou pelo direito da terra.
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Há que assinalar que Cesare de Beccaria incitou a reforma – que veio a ser preconizado
por Isaac Newton e John Locke – para justamente legitimar o método empírico no
estabelecimento do grau da probabilidade, o que de per si afastou a ideia da verdade lógica e
ajudou a instituir o critério do máximo grau da probabilidade na ligação de um determinado
facto a conduta de um certo agente.
1 – Modelo Acusatório – tem pendor liberal e caracteriza-se por uma nítida separação
entre a entidade que acusa e a entidade que julga. Obs.: Tal separação garante a imparcialidade
do julgador, que vai para o julgamento sem nenhuma convicção pré formada, fazendo com que
os factos relatados no julgamento e as provas fornecidas influem na decisão que o julgador
adota.
Nota: Historicamente neste modelo o impulso processual pertence ao ofendido. Nele não
se procurava descobrir a verdade material, mas antes descobrir a verdade processual – que é
aquele que resulta do confronto entre a acusação e a defesa.
Repare que é que evidente que se for uma pessoa a investigar, acusar e julgar, não terá a
imparcialidade necessária para formar um novo juízo, pois já terá uma decisão pré concebida.
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Era essencialmente baseado no modelo acusatório, mas o processo era dividido em duas
fases separadas:
1.ª Fase de Instrução – visava investigar o crime e os seus agentes e era dirigida por
um magistrado especializado denominado de Juge d`Instruction, ficando a iniciativa e a
titularidade da acção penal nas mãos de um oficial do poder executivo junto do poder judicial,
o chamado Procureur Imperial. A instrução era escrita, secreta e não contraditório em
obediência à tradição inquisitória.
Conclusão: este modelo é o menos do mesmo, quer dizer o mais suave do inquisitório.
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Resumo
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--Chegou-se a conclusão que o modelo inquisitório era nocivo justamente por não
comportar o grau de independência que levava a verificação de maior imparcialidade.
Existe duas formas no geral, uma comum e a outra especial que se subdivide em Portugal
em Sumário, Sumaríssimo e Abreviado e na Guiné-Bissau se subdivide apenas em Sumário.
Processo Comum – tem o carácter subsidiário – que significa que só é utilizada quando
não poder ser aplicado ou quando não tiver lugar qualquer outra forma especial.
Tendencialmente, são os crime mais graves é que são julgados na forma do processo comum.
Desde logo porque:
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Processos Especiais – são aqueles que, por regra estão condicionados à gravidade das
penas.
Processo sumário em portugal não pode ser aplicado ao crime que contém pena superior
a 5 anos.
Na Guiné-Bissau aplica-se aos crimes com moldura penal máxima até 3 anos.
Mas nem sempre os crimes menos graves são processados nas formas especiais, caso o
tribunal ou arguido não aceitarem a proposta do MP sobre a aplicabilidade do processo especial,
casos em que terá lugar o reenvio do processo para a forma comum.
Portugal Guiné-Bissau
Crimes Particulares
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Crimes Semi-Públicos
Artigo 123.º do CP
Crimes Públicos
1.2. Se a norma apenas disser que o procedimento criminal depende de queixa, sem
mais, quer significar que o crime é de natureza semi-pública; e,
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2. Critério do Bem Jurídico a Proteger – geralmente havemos que ficar atentos aos bens
jurídicos destinatários da protecção legal para em função disso avaliar e considerar a natureza
dos crimes em função das dignidades penais de cada bem jurídico protegido pela norma
incriminatória.
3.1. O crime é público se da norma constar uma penalidade que oscila entre oito, de
e doze anos até 18, 20 ou 25 anos;
3.3. O crime é particular se da norma for detectado a pena que não transcende os
três anos.
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Se atentarmos a essa definição, normal seria considerar que o crime cuida de factos
praticados com a intenção maléfica e as contravenções cuidam de factos praticados sem a
intenção maléfica.
Ou seja, a transgressão tem o seu foco na negligência. São sintomáticos desta realidade,
o próprio artigo 4.º do Código de 1886 que diz que “nas contravenções é sempre punida a
negligência” e o artigo 25.º do mesmo Código que diz que “na contravenção não é punível a
cumplicidade nem o encobrimento”.
Esclarecimento da Tricotomia
Será diferente apenas pelos nomes que assumem ou será uma única realidade que assumiu
diversas nomenclaturas ao longo dos anos? A resposta vai ser descortinada ao longo das
definições possíveis:
Parece ser apenas estados de evolução que vai das contravenções às transgressões e destas
às contra-ordenações, salvo o melhor entendimento.
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II
Do Processo Penal Guineense
Conceptualização
→ é o conjunto de normas jurídicas que disciplinam a aplicação do direito penal aos casos
concretos.
Ou, se se pretender:
Função
Finalidades
No trilho da professora Maria João Antunes, ao processo enal são reservadas, elo menos,
três finalidades essenciais, não totalmente harmonizáveis entre si, a saber:
(5) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, Vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1993, P. 11.
(6) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo …, op. cit., p. 13.
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Logo, ao fazer tudo isto, é estar a realizar averiguação, inquérito ou investigação – o que
não se circunscreve apenas a existência do facto e a suscetibilidade de ser ou não considerado
criminoso, mas antes ao facto de, finda a investigação, saber se se está na posse de indícios
fortes ou suficientes que deverão ditar a acusação ou se se está apenas em face de indícios fracos
ou insuficientes que automaticamente deverão ditar o arquivamento do inquérito, conforme, de
resto, prognostica as normas dos artigos 204.º e 203.º, n.º 1, a), ambos do CPP.
O artigo 42.º assume o papel da sede constitucional do direito processual penal guineense.
Assume ainda como artigo da Constituição da República da Guiné-Bissau mais relevante para
efeitos do processo penal, na justa medida em que aglutina diferentes princípios e diferentes
outorgas, se não vejamos:
O n.º 1 deixou claro que o processo penal assegurará todas as garantias de defesa, tendo
contemplado ainda a exigência do processo equitativo;
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O n.º 3 plasma o direito do arguido em escolher um defensor e de ser por ele assistido em
todos os actos processuais, tendo especificado ainda os casos e as fases processuais em que a
tal assistência deva assumir o carácter obrigatória;
Contudo, não é apenas o artigo supra referido que requer uma análise, pois é também
muito importante tanger, por exemplo:
(i) ao artigo 86.º, máxime a alínea g), que fala do princípio da legalidade, em que duma
forma categórica dispõe que é da exclusiva competência da Assembleia Nacional Popular
legislar sobre a definição dos crimes, penas e medidas de segurança e processo criminal;
(ii) ao artigo 119.º que fala que os tribunais são órgãos da soberania com competência
para administrar a justiça em nome do povo;
(iii) ao artigo 120.º, n.º 4, que fala da independência dos tribunais no exercício da função
jurisdicional e da sua vinculação apenas a lei; nesta mesma senda, também o artigo 123.º dispõe,
no seu n.º 2 que o juiz, no exercício da sua função, é independente e só deve obediência à lei e
à sua consciência (esta consciência deve ser interpretado como consciência jurídica, e nunca
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(iv) ao artigo 125.º que fala que o Ministério Público é o órgão do Estado encarregado de,
junto dos tribunais, fiscalizar a legalidade e representar o interesse público e social e é o titular
da acção penal.
Artigo 47.º do CPP, por seu turno, diz-nos que “o MP é o único titular da acção penal”;
Questões:
1 – R: Não será a verdade absoluta na medida em que, não obstante o Ministério Público
ser também o titular da acção penal e, até certo ponto, é compreensível afirmar que é o titular
da acção penal por excelência, mas a verdade é que às vezes:
→ O próprio Tribunal interfere num acto processual penal desencadeada e titulada pelo
MP para oferecer certas garantias, ainda que o processo se encontrar na fase de inquérito para,
por exemplo:
(i) – Decretar a prisão preventiva – artigo 48.º, alínea d), artigo 160.º e artigo 194.º
alínea c), ambos do Código do Processo Penal;
(ii) – Decidir do “habeas corpus” por detenção ilegal – artigo 194.º, alínea a) do
CPP;
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(iii) – Presidir a tomada de declarações para a memória futura – artigo 194.º, alínea
b) e 198.º, ambos do CPP;
(iv) – Autorizar as escutas telefónicas – artigo 194.º, alínea d) e 144.º, n.º 2, do CPP.
e) – que fala na avocação dos processos, pois só avoca quem delega ou quem é
realmente titular do poder;
Visto tudo isto, resulta claro que o MP não é o único titular da acção penal, contudo é, e
disto ninguém discute, o dominus do inquérito (que é a fase embrionária e que sustenta a acção
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penal). Obs: não é só a polícia judiciária que recebe a delegação de poder, pois também o MP
pode receber delegação de poderes vindo do juiz de instrução para realizar alguns actos de
instrução que não prendem com os direitos fundamentais, nos termos do artigo 42.º, n.º 4, da
CRGB.
2 – R: O Professor Paulo de Sousa Mendes ensina-nos que a leitura que devemos dar ao
n.º 1 do artigo 47.º do CPP quando diz que o MP é u único titular da acção penal é a de que só
pode significar que é o MP quem dirige a investigação. Ou seja: o MP não é o único titular da
acção penal, mas sim é quem dirige toda a investigação.
Conceitos do Princípio
Segundo Francisco Marcolino de Jesus – o princípio é uma realidade inata, que actua
antes e sobre as leis, que está acima das ideologias ou das conjunturas, e que se impõem sobre
si mesmos;
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A pedra angular do processo penal num Estado de Direito Democrático é a tutela efectiva
dos direitos fundamentais (individuais e gerais ou, se se preferir, dos direitos de liberdade,
igualdade, dignidade e segurança). Logo não se deve pôr acento tônico na jurisdição.
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A jurisdição está também ligada à ideia do juiz imparcial, quer dizer que:
O que quer dizer que cumprirá a sua função quer condenando, quer absolvendo.
Jurisdição vs Competência
Exemplos:
Logo:
c) – Um tribunal de sector não vai poder julgar uma providência de habeas corpus,
tal como resulta dos artigo 39.º, n.º 3, 4 e 5 da CRGB conjugado com artigo 171.º do CPP.
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Os artigos 120.º, n.ºs 3 e 4 da CRGB, 5.º do CPP e 2.º da LOTJ – versam sobre a
jurisdição. Ao passo que,
Pode ser colada forçosamente ao artigo 121.º, n.º 1, do CRGB e é um princípio que tem
por finalidade evitar a escolha de um tribunal para resolver determinado caso. Impõe que as
normas orgânicas ou processuais comportam regras que permitem determinar antecipadamente
o tribunal que deve intervir em cada caso, com base nos critérios objectivos.
O artigo 42.º, n.º 5, da CRGB fixa o modelo processual guineense e diz que: “o processo
criminal tem estrutura acusatória, estando audiência de julgamento e os actos de instrução que
a lei determina subordinado ao princípio do contraditório (vide este último princípio no artigo
222.º do CPP)”. Fala-se ainda que o nosso modelo é de estrutura acusatória temperado com o
princípio da investigação.
O Mestre Hermenegildo Pereira entende que o modelo processual penal guineense não
devia ser compreendido como sendo de esturra acusatória apenas, porquanto clama por um
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modelo eclético na justa medida em que a nossa estrutura acusatória ainda conserva os traços
significativos do modelo inquisitório, desde logo porque:
(i) o processo penal só é público a partir da acusação definitiva, tal como resulta do artigo
78.º, n.º 1, do CPP; e,
(ii) a igualdade de armas entre acusação e defesa só tem lugar a partir da fase de instrução,
sendo o inquérito dominado pelo MP, comportando de modo visível o secretismo característico
do inquisitório.
Vem previsto no artigo 42.º, n.º 3, da CRGB e dá vivacidade ao artigo 72.º, n.º 1, do CPP,
querendo com isso dizer que o suspeito/arguido pode escolher o seu defensor de forma livre, a
qualquer altura do processo e mesmo não tendo a possibilidade de escolher ou não tendo o tal
conhecimento, o tribunal é obrigado a nomear-lhe um defensor oficioso para, assim, cumprir
com a finalidade única e intransponível de garantir a sua defesa técnica, tal como, de resto,
resulta do artigo 73.º, n.º 1, do CPP.
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5. Princípio da Lealdade
Se eventualmente existir uma violação ou desrespeito a este princípio por parte dos
operários judiciários, Constituição da República da Guiné-Bissau manda, no seu artigo 42.º, n.º
6, aplicar a sanção, que vai no sentido de anular as provas obtidas nas condições de desrespeito.
A pergunta que não se cala é: quem tem o impulso processual? R: A obtenção da resposta
cabal passa necessariamente pelo conhecimento das seguintes normas:
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O artigo 176.º, n.º 1, do CPP diz-nos que o Ministério Público adquire a notícia do crime
por conhecimento próprio;
O artigo 192.º do CPP diz que a notícia do crime dá lugar a abertura do inquérito;
O artigo 50.º do CPP diz que o MP tem legitimidade para promover o processo;
O artigo 180.º do CPP versa sobre a titularidade do direito da queixa, direito esse que,
dependendo da natureza do crime em causa, às vezes é a própria condição de procedibilidade
do processo; e,
O artigo 68.º, n.º 1, do CPP que versa sobre os poderes do assistente, diz-nos que a
intervenção do assistente vem ao reboque da do Ministério Público.
Determina a partida que uma vez tida a notícia do crime, deve-se abrir o inquérito, o que
quer significar inicialmente que a abertura do inquérito sempre terá lugar se se surgir um facto
que é dado conhecimento ao Ministério Público. Mas, atenção que nem todos os factos podem
dar lugar à abertura do inquérito. Fala-se nesta senda de exclusão das bagatelas penais.
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A revisão intercalar fez cumprir a demanda constitucional fixada no artigo 42.º, n.º 4, da
CRGB.
O princípio da jurisdição é exercido na fase de instrução por juiz de instrução com fito de
salvaguardar o respeito aos direitos fundamentais.
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A Instrução é conduzida pelo juiz na qualidade de uma entidade isenta e imparcial que
respeita os direitos fundamentais dos cidadãos, sobretudo para salvaguardar as liberdades dos
arguidos e para a conservação de provas, etc…
2.3. Princípio de Acusação – determina que as entidades que acusa e que julga
sejam distintas. No fundo, este princípio realça a característica primordial do processo penal de
estrutura acusatória.
É como que garante a separação entre o tribunal / juiz que saneia ou condensa o processo,
atestando ou não a sua procedibilidade para julgamento ou não e o tribunal / juiz que julga
efectivamente.
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Garante ainda a que o juiz de instrução esgota o seu poder com o despacho de pronúncia
ou não pronúncia, não podendo de modo algum participar ou intervir no julgamento.
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seja conhecido e julgado na sua totalidade; e (iii) a consumpção – que pretende evitar o
desmembramento do objecto do processo em vários, devem ser respeitados.
As exigências desses princípios obrigam a que sejam criadas as condições para os actos
processuais serem praticados em uma audiência unitária e continuada. Daí que o artigo 226.º,
n.º 1, do CPP fala na continuidade da audiência. Deve-se chamar a atenção para o facto de o
Princípio de Continuidade cumprir à sua própria maneira o papel do Princípio da Concentração.
No trilho da Professora Maria João Antunes “estes princípios, a par dos outros
correlacionados, apontam para a concentração espacial da audiência de julgamento, devendo
esta decorrer em um mesmo local, bem como para a concentração temporal, devendo a
audiência de julgamento, uma vez iniciada, decorrer sem interrupções e adiamentos” (7).
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Ora: o n.º 1 do artigo 7.º estampa a soberania e a prepotência do direito processual penal
ao vaticinar que “ é no processo penal que se resolvem todas as questões que interessam à
decisão da causa, independentemente de sua natureza”;
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o n.º 3 consagra 1 ano como sendo o hiato temporal intransponível para a suspensão do
processo, por considerar ser suficiente para conseguir a referida solução interdisciplinar; e,
por fim, o n.º 4 avoca a competência da resolução da questão prejudicial que não tenha
sido decidido para o processo penal caso, durante aquele um ano, a outra área não oferecer a
solução, reafirmando-se, assim, a soberania de direito processual penal em resolver tudo através
dos seus próprios mecanismos.
É um princípio que decorre ainda das normas dos seguintes artigos: 10.º da Declaração
Universal dos Direitos do Homem; e, 6.º, n.º 1, da Convenção Europeia de Direitos do Homem.
Ressalta o dever de o tribunal ouvir antes os sujeitos processuais sempre que deverá tomar
as decisões que os afectem. É um princípio característico do processo penal de estrutura
acusatória, voltado à finalidade processual de protecção de direitos fundamentais.
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Nesta sede o inevitável é não estabelecer a linha distintiva assaz ténue existente entre a
verdade material e a verdade formal/processual, considerando que no processo penal ocorrem
simultaneamente testes tendentes ao apuramento das duas verdades que servem, de facto, para
a melhor realização da justiça. Assim, existem:
Trata-se duma verdade resultante do contraditório (artigo 222.º do CPP), ou seja: das
alegações de facto da acusação e da defesa e da prova dessas alegações. Esta verdade só e
suportável quando se verifica uma efectiva igualdade de possibilidades por parte da acusação e
da defesa.
De enaltecer que, para o cumprimento desta verdade a acusação e a defesa estão obrigados
a, pelo menos:
(8) Cfr. Paulo de Sousa Mendes – Lições de Direito Processual Penal, op., cit., p. 216.
(9) Cfr. Ibidem.
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Aqui, torna imperativo recordar que o interesse dos órgãos de administração da justiça
(MP e os Tribunais) é única e exclusivamente a realização da justiça, o desiderato que é
cumprido apenas quando o culpado é condenado e o inocente é absolvido.
Assim sendo, passa a fazer todo o sentido a que o Tribunal se obrigue a procurar a verdade
histórica para a melhor realização da justiça, suprindo, dentro dos limites legais, as deficiências
dos demais sujeitos ou intervenientes processuais. Assim se chega a segunda verdade que é:
Trata-se de uma verdade alcançada quando o próprio Tribunal faça o uso das suas
prerrogativas investigativas com o fito de suprir algumas debilidades e inverdades ou, se se
preferir, quando o tribunal recusa a ser passivo na aquisição e na produção da prova.
Esta verdade tem um forte amparo conferido pelo princípio da investigação. Não
significa, em termos rigorosos, que o Tribunal deva agir substituindo os papéis próprios da
acusação, quer dizer:
(10) Ibidem.
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--Também o Tribunal poderá – sob pena de nulidade insanável, artigo 107.º, n.º
1, alínea d) –, ordenar oficiosamente a produção de outros meios de prova cujo conhecimento
se lhe afigure ainda necessário a descoberta da verdade e à boa decisão da causa;
--A confissão, mesmo sendo integral e sem reservas, não é sinónimo da condenação
porque o tribunal, mediante o juiz, pode muito bem duvidar do seu carácter livre e não
considerá-la para efeitos da decisão;
--Finalmente, e que fique claro, a falta de consistente alegação oral não gera
automaticamente a condenação do arguido, mas o tribunal jamais poderá substituir o defensor
e fazer a defesa técnica. Quer dizer que o tribunal nunca poderá exercer o ónus tático
pertencente à defesa.
Mas atenção que, se o facto for notório, de conhecimento oficial ou judicial, o juiz já o
pode utilizar na tomada da sua decisão, por alusão ao artigo 514.º do CPC, possibilitado pelo
artigo 2 do CPP;
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3. Encerrada a audiência o princípio da verdade material não pode ditar o retorno dos
juízes à sala de audiência para efeitos de produção de provas suplementares, salvo se for para
obter declarações ou depoimentos sobre a personalidade e condições de vida do arguido que
ajudarão na determinação da sanção; e,
A liberdade referida não é e nem poderia ter sido uma liberdade total e a convicção ou a
consciência também não é a mera consciência ou convicção do julgador desgarrada de outros
tantos parâmetros jurídicos. Assim:
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É como que de um lado está-se a falar da consciência jurídica – não propriamente duma
consciência moral, religiosa, filosófica etc… –, e, doutro lado, está-se a falar de uma liberdade
guiada pelas regras de experiência e pelos critérios da lógica.
Digamos ser esse o único comando legal que obriga o julgador, na apreciação da prova,
a utilizar a sua consciência jurídica, e não qualquer outra consciência, e a orientar a sua
apreciação livre da prova respeitando ou seguindo as regras de experiência e os critérios da
lógica. Nesta senda, explica Paulo Saragoça da Matta que “a liberdade concedida ao julgador
não visa criar um poder arbitrário e incontrolável, mas antes um poder que na sua essência,
estrutura e exercício se terá de configurar como um dever, justificado e comunicacional” (11).
Quanto à Prova Documental – prevista no artigo 130.º e ss do CPP conjugado com artigo
362.º e ss do CC –, urge deixar bem claro que nem todas as provas documentais são passíveis
de constituir excepção ao princípio de livre apreciação da prova, desde logo porque os factos
constantes dos documentos particulares (quer dizer os não autenticados) são apreciadas
livremente pelo tribunal segundo a imposição legal constante do n.º 1 do artigo 131.º do CPP..
(11) Cfr. Paulo Saragoça da Matta – A livre apreciação da prova e o dever de fundamentação da sentença, In:
Jornadas de Direito Processual Penal e Direitos Fundamentais, Coord. Maria Fernanda Palma, Coimbra, Livraria
Almedina, 2004, p. 254 de 221-279.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Não quer dizer que os documentos autênticos e autenticados são sempre excepção ao
princípio de livre apreciação da prova, só que a partida são e apenas deixarão de a ser se,
eventualmente, as suas forças probatórias forem ilididas com base na falsidade tal como estipula
o artigo 372.º/1 do CC, no prazo e nos articulados fixados no artigo 360.º/1 do CPC.
3. Princípio de In Dúbio Pró Reo – trata-se um princípio que impõe que qualquer
dúvida existente no processo, no capítulo da prova, seja valorada a favor do arguido.
Diga-se de passagem que a questão de ónus de prova não tem relevância em processo
penal, uma vez que a dúvida sobre o facto resolve-se em função do princípio da presunção da
inocência e claramente a favor do arguido.
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Por exemplo: se o sujeito A, na qualidade de arguido, poder e ter como facultar as provas
que dissipam o fumus comissi delicti que paira sobre ele, questionou o autor se deverá ou não
fazê-lo?
A questão que não cala seria se se não fizer e ter o azar de ver as incertezas da acusação
transformadas em certezas absolutas e capazes de afastar o princípio de in dúbio pró reo,
arriscará à uma condenação por um crime não cometido, dando corpo, assim, à existência do
chamado erro judiciário?
No sistema português é notório que é sobre a acusação que recai a incumbência de provar
os factos imputados ao arguido, logo é como que há um ónus material que pertence a acusação.
Autores há que acharam que impende sobre o arguido a prova das circunstâncias
justificativas ou desculpantes por si alegadas. Mas, conclui a este respeito o Professor Germano
Marques da Silva que este entendimento viola o princípio da presunção de inocência, pois
poderia conduzir a condenação de uma pessoa por um facto que talvez pudesse não ser punível,
por diversas circunstâncias, nomeadamente por ser duvidoso por falta de prova.
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--A assistências aos actos processuais por parte da comunicação social – artigo 78.º, n.º
2, alínea a);
--A narração circunstanciada do teor dos actos processuais por parte da comunicação
social – artigo 78.º, n.º 2, alínea b);
--no n.º 2 existe uma categorização que vai no sentido de proibir que a restrição da
publicidade ora permitida fosse ao ponto de abranger a leitoa da sentença. Quer dizer que a
leitura da sentença escapa sempre as restrições possíveis.
--no n.º 3 há uma separação de realidades em que se chamou a atenção para o facto de
não ser confundível o impedimento de assistência da audiência com a restrição de publicidade,
daí que não se pode ter por restrição da publicidade a proibição de assistência de um dos
participantes processuais como forma de sancionar os seus comportamentos incorretos, por
exemplo, a expulsão do advogado que perturba a audiência; as limitações de assistência de um
ou outro participante como forma de garantir a segurança dos demais; e, a limitação de
assistência por parte de algumas pessoas que não deverão ser vistas, como são os casos dos
agentes infiltrados, ou que, por razões da pouca idade, o presenciar a audiência não for, de todo,
abonatório.
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Remata o artigo 223.º, n.º 1, do CPP que a audiência é pública sob pena de nulidade
insanável – o que deve ser compreendido excecionando as situações do artigo 79.º do CPP, em
que claramente se justifica impor algumas restrições a publicidade.
5. A Constituição Judiciária
Ora, quando se fala que o MP é um órgão que administra a justiça, está-se a dizer que o
MP colabora com o Tribunal na descoberta da verdade e na realização do Direito, razão pela
qual se diz que o MP não é interessado na acusação, pois ele deve a obediência incessante aos
critérios da estrita legalidade e objectividade, tal como, de resto, resulta do artigo 52.º do CPP.
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Nota: O MP, não obstante o facto de ser um órgão do Estado que administra a justiça, não
é, de facto, uma instituição consubstancial à clássica estrutura de divisão de poderes soberanos
do Estado e nem participa do poder judicial no exercício da função jurisdicional.
Atenção que, isto pode soar contraditório com tudo supra visto, mas que na verdade não
é se se atentarmos ao moderno processo penal de estrutura acusatória que manda a que a
actividade jurisdicional seja promovida por entidade diversa do Tribunal, mas que seja exercida
por outra entidade diversa de quem promoveu que, in casu, é o MP.
e que
Aqui chegados, torna imperativo falar das tríadas do Ministério Público ou seja, das três
funções intrínsecas ao Ministério Público, que são:
--A Função de Fiscalização da Legalidade – constantes das alíneas a), c), d) e h),
do artigo 3.º, da Lei Orgânica do Ministério Público, doravante LOMP, Lei n.º 7/95, de 25 de
Julho.
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propriedade, do próprio preâmbulo da LOMP, da alínea g), do artigo 3.º, da LOMP e da alínea
b), do artigo 5.º, da LOMP.
É de salientar que a organização dos Ministérios Públicos não é igual em todos os sistemas
jurídicos e a doutrina identifica duas modalidades:
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Parece ser obvio que à pergunta encontra-se a resposta segunda a qual o magistrado do
Ministério Público não pode acatar a ordem ou instrução ilegal venham elas donde vierem,
porque conserva aquilo que é chamado de autonomia funcional.
Esta autonomia funcional do magistrado não pode ser beliscada nem com pretextos de,
por exemplo, utilidade pública, segurança nacional ou razões de Estado ou da sua continuidade.
A título elucidativo, em Portugal, o magistrado pode recusar uma ordem do seu superior
hierárquico se concluir que a tal ordem viola de forma grave a sua consciência jurídica, tal como
postula o artigo 58.º, n.º 3, da LOMP portuguesa.
Mas atenção que, a recusa de uma ordem do Procurador Geral da República só pode ser
com fundamento na ilegalidade da ordem, tal como, de resto, resulta da alínea b), do n.º 4, do
artigo 6.º do EMMP. Serve isto para se ter a perfeita noção de que recusar ordem não é uma
prerrogativa deixado ao belo prazer do magistrado de categoria inferior.
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A organização do Ministério Público consta dos artigos 125.º, n.º 2, da CRGB, conjugado
com artigos 7.º, máxime o 8.º da LOMP. Destas normas pode-se retirar que o MP organiza-se
como uma estrutura hierarquizada e sob a direcção do Procurador Geral da República.
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Se atentos ficarmos, ficará patente que as duas primeiras normas diferem ligeiramente da
última sem que, com isso, se possa falar na inconstitucionalidade daquelas, mas sim,
parafraseando o Professor Paulo de Sousa Mendes, falar-se-á apenas em ser o MP quem preside
ou dirige a investigação criminal – o que, em sentido restrito, compreende apenas a fase de
inquérito.
De referir que, este entendimento parece ser corroborado pela norma da alínea j), do artigo
3.º, da LOMP que estatui, dentre as competências especiais do MP, a de “presidir a investigação
criminal” e a da alínea b) do artigo 48.º do CPP que foi exarado, iter alia, no mesmo sentido.
--O Sentido Amplo no qual o trinómio: Titularidade da Acção Penal / Acção Penal
/ Exercício da Acção Penal equivaleria a processo;
--O Sentido Restrito no qual o trinómio: Titularidade da Acção Penal / Acção Penal
/ Exercício da Acção Penal seria a promoção da actividade judicial no processo; e,
--O Terceiro Sentido no qual o trinómio: Titularidade da Acção Penal / Acção Penal
/ Exercício da Acção Penal corresponderia à mera prossecução da actividade processual.
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Quanto às Atribuições
Recenseamos as de:
--Dirigir o inquérito – artigo 48.º, alínea b), do CPP e artigo 3.º, alínea j), da LOMP;
Tem legitimidade de promover o processo penal, conforme, de resto, atesta o artigo 50.º,
n.º 1, do Código de Processo Penal.
Deve-se chamar atenção para o facto de esta legitimidade não ser total, na justa medida
em que existem algumas restrições à legitimidade do Ministério Público aferidas em função da
natureza dos crimes. Assim:
--No que toca ao crime de natureza particular – o que não existe na Guiné-Bissau –
, o MP tem a sua legitimidade condicionada a existência da acusação particular ou da queixa e
acusação particular em simultâneo.
Obs.: Não tendo a tal natureza de crime, obviamente que também não há normas que
falam disso directamente na Guiné-Bissau, contudo é retirada das exigências da natureza
particular do crime.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
O artigo 50.º, n.º 2, do CPP diz claramente que quando o procedimento criminal depender
de queixa – que é quando estamos em face de um crime de natureza semipública –, o ofendido
terá que dar necessariamente conhecimento ao MP para que este promova o processo.
em efetividade de funções.
Está-se a falar de mecanismos previstos nos artigos 85.º, n.º 1, alínea e), conjugado com
o artigo 72.º, n.º 2, ambos da Constituição da República da Guiné-Bissau. Só após o
cumprimento desta exigência é que o MP recupera a legitimidade promocional, de
acompanhamento e da direcção do processo.
(12) Cfr. no mesmo sentido Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, Vol. I, p. 187.
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De referir que os Tribunais são órgãos de soberania com competência para administrar a
justiça em nome do povo e quando o fazem estarão, em outras palavras, a exercer a jurisdição
ou a função jurisdicional e desse exercício advém as suas independências e sujeições apenas à
lei, conforme resulta dos artigos 119.º e 120.º, n.ºs 3 e 4, ambos da CRGB.
Falar da jurisdição constitui o primeiro passo para entender o órgão da soberania Tribunal,
porque o exercício da jurisdição é a tarefa mais importante do tribunal, mas que comporta (está-
se a referir ao termo jurisdição) diferentes sentidos, desde logo pode ser entendida como: (i) a
faculdade de dizer o Direito; (ii) a declaração do direito realizada pelos Tribunais; e, (iii) a
actividade ou função de administração da justiça (13).
A jurisdição enquanto uma função soberana do Estado é una e é exercida pelos Tribunais.
Mas atenção que a unidade da função jurisdicional não corresponde no nosso sistema, e
no de Portugal, à unidade de estruturas dos Tribunais.
Daí que o artigo 121.º, n.º 2, da CRGB criou algumas estruturas autónomas do Tribunal,
tendo:
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A conclusão aqui seria a de que ninguém discute quanto a unicidade da jurisdição, mas
quanto a estrutura dos Tribunais já há sim divisões em função do Direito Substantivo a que
respeita e quanto aos Tribunais que a exercem.
Em boa verdade, a norma do n.º 1 do artigo 15.º da Lei n.º 6/2011, de 04 de maio (a nova
Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais) que reviu a Lei n. º 3/2002, de 20 de novembro (a antiga),
é sintomático do fenómeno de repartição da jurisdição, só que apenas respeita aos Tribunais
Judiciais. No n.º 2 do mesmo artigo relegou para a lei do processo a questão da fixação da
competência internacional dos tribunais judiciais.
Deve-se vaticinar que a jurisdição penal, normalmente, apenas é exercida por seguintes
Tribunais:
--Tribunal Constitucional;
--Tribunal Militar; e,
--Tribunais Judiciais.
Por seu turno, o Tribunal Militar é regido pelas normas substantivas e adjetivas constantes
do Código de Justiça Militar. Trata-se de um tribunal que julga apenas os crimes conhecidos
por crimes essencialmente militares, como são os casos, por exemplo de: Deserção – artigo (…)
do CJM; Furto de Material Bélico – artigo (…) do CJM; Espionagem – artigo (…) do CJM;
Atentado contra o Chefe de Estado – artigo (…) do CJM; Cobardia – artigo (…) do CJM, que
é um crime mais observado em tempo de guerra; e, Conspiração – artigo (…) constante dum
decreto específico sobre o crime de conspiração. Por norma, os crimes essencialmente militares,
são crimes cometidos por um militar, contra um militar e dentro dos quartéis.
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Por sua vez, o Tribunal Judicial que observa as mais diversificadas subdivisões, contendo
a jurisdição repartida, à luz do artigo 15.º da LOTJ, segundo:
--a Matéria;
--a Hierarquia; e,
--o Território.
Apresentam três categorias fundamentais: 1.ª Instancia, 2.ª Instância e Supremo Tribunal
de Justiça, segundo artigo 12.º, n.º 1, da LOTJ.
Nota: a classificação dos tribunais em: Ingresso e Acesso é feita pelo decreto-lei do
Governo, ouvido o Conselho Superior da Magistratura, o Procurador-Geral da República e a
Ordem de Advogados – artigo 13.º, n.º 2, da LOTJ.
O artigo 12.º, n.º 4, da LOTJ fala na possibilidade de existência de tribunal de 1.ª Instância
com competência especializada e com competência genérica.
Em Portugal o artigo 213.º, n.º 2, da CRP fala também em tribunais com competência
específica e com competência genérica.
Há contudo, uma dificuldade tremenda em termos da doutrina geral em saber o que são
de concreto as competências específicas e as especializadas, tendo o Professor Germano
Marques da Silva lançado algumas bases no sentido de esclarecer que, o que mede:
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Também chamou a atenção para o facto de o artigo 211.º, n.º 4, da CRP, ter proibido, em
matéria criminal, que pela via da forma do processo aplicável a certos crimes se venha
indirectamente a atribuir competências só a certos tribunais.
3 – Supremo Tribunal de Justiça – que também é denominado de STJ ou, furtando a aqui
a expressão brasileira, a Corte Suprema, e organiza-se igualmente em Câmaras para tutelar as
mais diversificadas áreas do direito substantivo.
Nota Importantíssima:
No concernente a Alçada, é óbvio que não importa muito no âmbito penal, pois o próprio
n.º 5, do artigo 21.º da LOTJ foi categórico em postular que “em matéria criminal não há
alçada”. Contudo não se deve olvidar que existe, na mesma norma, a salvaguarda única da
observância das regras processuais relativas a admissibilidade do recurso.
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(Divide-se em Câmaras)
(Divide-se em Câmaras)
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
É um princípio que afasta qualquer receio por parte do juiz de perder lugar por causa das
decisões que toma.
Em boa verdade ao juiz não basta apenas ser sério, importa também parecê-lo.
Invocar o Sr. Professor E. Kafft Kosta. Quer dizer que o juiz deve viver uma vida reservada
para não fazer muitas amizades que possam dificultar o seu trabalho no futuro, deve escolher
com quem anda para a sua isenção não venha a ser posta em causa injustificadamente. O juiz
não pode aparecer nas sedes dos partidos políticos e muito menos ter as filiações partidárias.
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--artigo 3.º, n.º 3, segunda parte, da Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais.
Quanto aos Impedimentos – o artigo 39.º do CPP elenca os motivos que determinam os
impedimentos dos juízes, em que se torna importante vasculhar as fontes que geram os tais
impedimentos, ressaltando, assim, dentre muitas:
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
(ii) – as colaborações do juiz no processo, que pode até ser no passado, enquanto
magistrado do Ministério Público, agente de um dos órgãos da polícia criminal, defensor,
advogado do assistente ou da parte civil ou perito, nos termos do artigo 39.º, alínea b), do CPP.
Ou quando tiver participado no processo como testemunha ou dever ser ouvido nessa qualidade
no processo, nos termos da alínea c) do artigo 39.º do CPP; e,
(iii) – os vínculos familiares entre juízes, no sentido de não poder exercer funções,
a qualquer título, no mesmo processo juízes que sejam entre si cônjuges, parentes ou afins até
ao 3.º grau, nos termos da alínea c) do artigo 39.º do CPP.
Embora não estando no Código de Processo Penal, quer dizer nestas normas respeitantes
aos impedimentos, mas não devemos perder de vista que há alguns impedimentos fora do
catálogo e aqui chama-se atenção para o facto de o impedimento não resultar apenas de
intervenção simultânea, mas também se pode verificar-se em qualquer altura do processo e dá-
se os seguintes exemplos:
--O juiz que presidir o debate instrutório na fase de instrução fica impedido de
participar no julgamento; e,
--Se um juiz interveio no julgamento, fica impedido o outro juiz – que é o seu
cônjuge, parente ou afim –, de intervir em recurso.
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Quanto às Suspeições – o artigo 40.º do CPP demonstra que, para que haja a suspeição
há que existir “fortes motivos que possam abalar a imparcialidade do juiz”. No fundo, devem
existir motivos sérios, graves e capazes de gerar desconfiança sobre a imparcialidade do juiz.
O maior problema reside em saber quando é que existem os tais motivos fortes referidos
na norma, uma vez que revestem a forma de conceitos mais ou menos indeterminados e que
devem ser espelhados por via dos exemplos. Assim:
1.º Exemplo: No dia anterior ao dia de julgamento o defensor foi avistado pelo advogado
do assistente a entrar com um saco de transporte de dinheiro na residência do juiz e, horas
depois, ter de lá saído sem o respectivo saco.
2.º Exemplo: Nos dois dias anteriores ao julgamento um fotojornalista divulga fotos de
intimidade na piscina do Hotel Ledger, tirada a noite, na qual o juiz do processo beijava a
arguida no processo.
3.º Exemplo: Segundo Paulo de Sousa Mendes, o juiz, durante a audiência de julgamento,
profere contra o defensor a seguinte afirmação “-Pergunto-me onde terá V. Exa. feito a sua
licenciatura em Direito” (14).
4.º Exemplo: Durante a pausa dada na audiência e no corredor para a casa de banho o
magistrado do Ministério Público terá escutado o juiz a comentar que acredita e vai fazer os
colegas do colectivo acreditarem na inocência do arguido.
Bem, deve ficar patente que a suspeição é fundamento da escusa ou recusa do juiz.
A escusa é suscitada pelo próprio juiz sempre que pressentir que a sua imparcialidade
poderá estar em causa, deverá ser honesto consigo, mesmo quando os fundamentos da suspeição
não são conhecidos. O juiz requer a escusa ao tribunal imediatamente superior àquele em que
exerce funções ou, caso pertencer a Câmara Criminal do STJ, ao plenário, nos termos do n.º 4
(14) Cfr. Paulo de Sousa Mendes – Lições de Direito Processual Penal, pp. 113-114. Segundo o autor, esta
declaração contra o defensor e suficientemente ofensiva para constituir fundamento de recusa de juiz, pois o
arguido teria razões para temer que tal declaração também o afetaria, influenciando a decisão sobre a sua
culpabilidade e a pena que lhe seria aplicada.
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do artigo 41.º do CPP, e deverá indicar no despacho os fundamentos e os demais elementos que
considere necessários à apreciação do caso, conforme manda o n.º 1 do artigo 42.º do CPP.
A recusa pode ser requerida pelo MP, pelo arguido, pelo assistente ou pelas partes civis,
nos mesmos termos propostos para a escusa e deverá igualmente conter os fundamentos da
suspeição e demais elementos pertinentes ao caso, nos termos do n.º 2 do artigo 42.º do CPP.
Nota: O juiz não pode declarar-se voluntariamente suspeito, porque não é definitivamente
obrigado a auto-incriminar-se, mas poderá sempre pedir escusa.
Na realidade, este pensamento genérico está errado, porquanto o juiz pode, à luz do artigo
10.º do Estatuto dos Magistrados Judiciais (Lei n.º 1/99, de 27 de Setembro), a par da docência
ou investigação cientifica prevista no n.º 1, ainda:
--Ser Membro do Governo ou Equiparado, desde que haja licença, nos termos do
n.º 3;
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III
Na Guiné-Bissau o artigo 30.º não dispõe da epígrafe correspondente à força jurídica, mas
os conteúdos dos seus números expressam e demonstram a força jurídica.
Ora, quer do artigo 18.º, n.º 1, da CRP quer do artigo 30.º, n.º 1, da CRGB resultam que
“Os preceitos constitucionais respeitantes aos direitos, liberdades e garantias são directamente
aplicáveis e vinculam as entidades públicas e privadas”.
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Como já ficou patente nas anteriores lições, por nos aqui preletadas, resulta do Processo
Penal a observância de Direitos, Liberdades e Garantias, de tal sorte que o Professor Jorge de
Figueiredo Dias (15) – passim Professor Paulo de Sousa Mendes e Professor Germano Marques
da Silva (16) – não hesitou em afirmar que o Processo Penal é o Direito Constitucional aplicado.
Aliás, é sintomático desta afirmação o facto de ser o Processo Penal o ramo de Direito
que mais ressente quando houver as alterações constitucionais, porque, na verdade, são muitas
as normas constitucionais que dizem respeito, directa ou indirectamente, ao processo penal, se
não vejamos:
--artigo 32.º da CRGB – permite o recurso ao tribunal por parte dos cidadãos e a
proibição de denegação de justiça aos cidadãos carenciados;
--artigo 8.º, n.º 2, da CRGB – faz depender a validade dos actos do Estado
(incluindo os da PJ, MP e os Tribunais), da respectiva conformidade com a Constituição;
--artigo 41.º da CRGB, no seu n.º 4 plasma o Princípio de Non Bis In Idem; e no
seu n.º 6 plasma o Direito à revisão de sentença e o direito à indemnização por condenação
injusta;
(15) Cfr. Jorge de Figueiredo Dias – Direito Processual Penal, Vol. I, pp. 74 e ss.
(16) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, p. 56.
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--artigo 85.º, maxime artigo 86.º, alínea g), da CRGB – falam da reserva legislativa
da ANP em relação às matérias de direito penal e processo penal;
--artigos 119.º, 123.º e 125.º da CRGB – falam da organização dos tribunais, dos
estatutos dos juízes e dos magistrados do Ministério Público; e,
Mais uma vez, o legislador constitucional guineense não foi categórico no que tange a
receção do direito internacional quando comparado com o legislador constitucional português
que, de forma clara, estabeleceu os mecanismos de receção do direito internacional logo no
artigo 8.º da Constituição da República Portuguesa.
--artigo 18.º, n.º 1, da CRGB – que fala nas relações na base do direito internacional;
--artigo 28.º, n.º 2, da CRGB – que fala no exercício de funções públicas por estrangeiros;
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--artigo 68.º, alínea e), da CRGB – que fala da ratificação das convenções internacionais
por parte do Presidente da República;
--artigo 85.º, n.º 1, alínea h), da CRGB – que fala na aprovação dos tratados internacionais
por parte de Assembleia Nacional Popular;
--artigo 100.º, n.º 1, alínea f), da CRGB – que fala na negociação e conclusão dos tratados
internacionais por parte do Governo;
Mas, o artigo que verdadeiramente nos interessa para o processo penal e o artigo 29.º da
CRGB – a chamada Clausula Aberta –, pois:
--no n.º 2 que passará a revestir a maior importância na medida em que indica-nos
um instrumento internacional fundamental – que é a Declaração Universal dos Direitos do
Homem – e determinou que os preceitos constitucionais sejam interpretados em harmonia com
o referido instrumento.
Artigo 10.º – que visa garantir um julgamento equitativo e público e por um tribunal
independente e imparcial;
Artigo 5.º – que proíbe a aplicação de penas cruéis e tratamentos desumanos aos
condenados;
Artigo 8.º – que exige a possibilidade de recurso ao tribunal contra actos violadores
dos direitos dos cidadãos;
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Artigo 11.º – que fala na presunção de inocência até a culpa ser provada num
processo justo;
Artigo 12.º – que proíbe a intromissão abusiva na vida privada e ataques contra a
honra e reputação;
--Direito do suspeito estar presente no processo – que, no fundo, é uma norma que
contraria frontalmente a permissão do julgamento à revelia;
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1.1.3. O Código de Processo Penal – é das mais importantes fontes, se não mesmo
a mais em termos concretos, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 5/1993, de 13 de outubro, publicado
no Boletim Oficial n.º 41. Trata-se do primeiro Código Processual Penal de criação
genuinamente guineense que põe cobro às vigências proteladas dos dois antigos Códigos de
Processo Penal português de 1929 e 1987, sendo que o primeiro vigorou na Guiné-Bissau
mediante a Portaria de Extensão – que é o instrumento através do qual a metrópole estendia a
vigência das suas leis às suas colonias ultramarinas –, e o segundo vigorou já por força da Lei
n.º 1/73 – que é a primeira lei nacional que, como forma de evitar o vazio legislativo, confere
eficácia às leis portuguesas que não contrariam os princípios e os objectivos do PAIGC.
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Obedecem uma estruturação bipartida e não obstante o facto de não serem fontes formais,
mas não deixam de ser bastantes importantes para a dinâmica do Processo Penal.
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Nota: É suposto falar nesta sede de Interpretação e Integração, ainda que de forma
superficial.
Quando muito falaremos aqui de uma especialidade penal que obriga a realização da
interpretação favorável ao arguido – dando azo à explicação do direito penal moderno por detrás
de tal obrigação em que resultará o objectivo de não punir, contrariando o de punir sempre.
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A pedra de toque é o artigo 2.º do CPP – segundo o qual, nos casos omissos, quando as
disposições do Código não poderem aplicar-se por analogia, observar-se as normas do processo
civil que se harmonizem com o processo penal e, na falta delas, os princípios gerais do processo
penal. Ou seja:
--Em Primeiro Lugar – há que se aplicar as normas do próprio CPP que possam ser
aplicados aos casos análogos;
Aqui, diferentemente do que se passa no Direito Penal que proíbe a analogia no n.º 3 do
artigo 2.º, sob epígrafe Princípio de Legalidade, a analogia é admitida no processo penal, mas
com a ressalva de que não é a analogia absoluta, mas sim relativa, justamente porque só vai até
aos limites impostos pelo próprio Código, sem possibilidades de extravasar o âmbito do CPP;
a) – Validade Temporal – ao invés da regra do artigo 12.º do CC que diz que «a lei
só dispõe para o futuro» e que nas situações de dúvidas «só visará os factos novos», o processo
penal conta com uma regra diferente, porque a lei processual penal se aplica imediatamente aos
processos a instaurar e aos actos a praticar nos processos pendentes (17).
Ou seja, a lei processual penal aplica-se ao passado e ao futuro, ao mesmo tempo, por
assim dizer, só que não se aplica aos actos já praticados anteriormente e, também, não se aplica
aos processos iniciados anteriormente à sua vigência se representar agravação da situação
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processual do arguido. Aliás, é sintomático desta afirmação o disposto no artigo 3.º, n.º 1 e n.º
2, alíneas a) e b) do Código de Processo Penal.
Daí que todos os processos submetidos a essa jurisdição será aplicável a lei processual
penal nacional. Vê-se claramente que as questões complicadas de aplicação das leis penais não
são reconduzíveis à aplicação da lei processual penal.
No que tange aos arguidos a serem submetidos a lei processual penal guineense, há que
se ver antes se os mesmos são passíveis de serem incriminados pela lei penal guineense. Caso
não forem, a lei processual penal só pode ser aplicada para avaliar se existem as condições que
os isentam da responsabilidade, nomeadamente:
--se tiverem praticado o crime ao abrigo de uma das causas de exclusão da ilicitude,
por exemplo, em legítima defesa;
É importante a tal verificação para poupar os esforços à administração da justiça que não
terá que se preocupar com a criação de dossiers de extradição ou da declaração como sendo
Persona Non Gratia de, por exemplo, um diplomata estrangeiro que exerce funções na Guiné-
Bissau e que tenha cometido cá um crime, já que não poderá ser cá perseguido criminalmente,
porque o nosso direito penal não é-lhe aplicado, sobretudo nos crimes fora de flagrante delito.
Imagine-mos, para concretizar este exemplo, o diplomata ser surpreendido na sua residência
pelo ladrão armado e que queria antes de roubar atirar nele a matar, para roubar tranquilamente,
e ele, entretanto, antecipou-o atirando letalmente. A lei processual penal não vai ser aplicada,
nesse caso, para condená-lo, mas apenas para assinalar a exclusão da ilicitude do seu acto.
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A parte geral como bem sabemos tem a função primordial de fixar as balizas
interpretativas.
Dada a boa estruturação da matéria dos sujeitos processuais no Código de Processo Penal,
explicando os poderes, os direitos e os deveres de cada um, vários autores começaram a ver
nela uma autêntica parte geral.
O Professor Paulo de Sousa Mendes chama a tal essencialidade aflorada por Belling de
Relação de Causalidade entre os sujeitos processuais e o próprio processo. Querendo isto
significar que a falta de um dos sujeitos determina normalmente a inexistência do processo.
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Logo, teríamos, segundo a lógica do Beling, apenas três sujeitos processuais, a saber:
O Professor Figueiredo Dias deu uma nova leitura ao regime, tendo fixado os sujeitos
processuais em cinco, a saber:
--Tribunal;
--MP;
--Arguido;
--Defensor; e,
--Assistente.
Hoje em dia a tendência demonstra que também devemos consentir a existência de Partes
Civis – lesado reflexamente ou lesado indiretamente.
Neste particular, e em primeira mão, temos que ter em conta que os sujeitos processuais
diferem dos participantes processuais, na justa medida em que:
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(i) – Os Sujeitos Processuais – são aqueles que conduzem activamente o processo, cuja
actividade tem função determinante da decisão final (21). Se quiser, os sujeitos processuais são
aqueles que têm o poder-dever de conformar o objecto do processo. E são:
--O Tribunal;
--O Arguido;
--O Defensor;
--O Assistente; e,
Ao passo que,
--As Testemunhas;
--Os Peritos; e,
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Em segunda mão, temos que abordar o segundo elemento processual que tem que ver
com o Processo Penal e o Processo de Partes, em que a pedra de toque será a curiosidade de
saber se o processo penal é um processo de partes, tal como o processo civil o é, ou não.
Deve-se afirmar que o Processo Penal não é, de todo, um processo de partes baseando
nos argumentos seguintes:
(ii) – No processo penal o juiz nem é passivo (tal como o é nos processos das partes
– processo civil), conquanto que tem a faculdade de investigar para descobrir a verdade;
(vi) – A Parificação quando observada será apenas no Debate Instrutório, mas isso
não será tão significativo para considerar o processo penal processo de partes, uma vez que o
juiz pode não ter por prevalecente os actos instrutórios em prol das provas indiciárias recolhidas
no inquérito;
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Em terceira mão, e para finalizar, temos que abordar o terceiro elemento processual que
tem que ver com as Partes na Acção Civil conexa com a Criminal, em que a chamada de atenção
vai no sentido de que:
Na acção civil conexa com a criminal é sim possível falar com propriedade de Processo
de Partes, tal como no processo civil. Isto porque, no que respeita às partes admissíveis no
pedido de indemnização por perdas e danos processado no processo penal, tudo se passa como
se de acção civil autónoma se tratasse, com a única limitação de que o pedido tem de ser atinente
ao dano causado pelo crime que é também objecto do processo penal em que o pedido cível se
insere. No fundo, são as partes civis que entram no processo penal e esses sim são chamados
de partes.
O Ministério Público tem a principal função, à luz do artigo 52.º do CPP conjugado com o
125.º da CRGB, de colaborar com o tribunal na prossecução da verdade e na realização da
justiça, o que, de per si, demonstra que não é um órgão interessado na acusação. Isto pode ser
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aferido partindo do pressuposto de que ele orienta-se, no desempenho da sua tarefa, por critérios
de estrita objectividade e da máxima legalidade.
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Em relação à pergunta sobre quem são os OPC – Órgãos de Polícia Criminal na Guiné-
Bissau, temos o seguinte: a Polícia Judiciária – órgão por excelência –, a Polícia da Ordem
Pública e a Guarda Nacional (23).
A Interpol é OPC ab initio e em certa medida, visto ser ele quem assegura a cooperação
internacional em matéria de investigação criminal, nos termos no n.º 1, do artigo 18.º, da Lei
de Organização de Investigação Criminal, Lei n.º 8/2011, de 27 de abril, em diante LOIC,
fazendo a monitorização das informações secretas tendentes à descoberta da verdade nos crimes
gravíssimos e transnacionais; há uma possibilidade de Interpol adquirir a qualidade de OPC
conforme o n.º 2 do supracitado artigo; se a adquirir será OPC, não a adquirindo não será OPC,
(23) Um paralelismo se impõe nesta matéria com o regime português em que temos uma subdivisão nesta
matéria de OPC, em que de uma lado há OPC com Competência Genérica, como são os casos da: Polícia Judiciária
(igualmente OPC por excelência); PSP – Polícia de Segurança Pública; e, GNR – Guarda Nacional Republicana,
e há OPC com Competências Específicas, como são os casos de: SEF – Serviços de Estrangeiros e Fronteiras;
ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica; SAT – Serviços da Administração Tributária (que
trabalha com o RGIT – Regime Geral das Infrações Tributárias); IGAMAOT – Inspecção-Geral da Agricultura,
do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (para cada sector há uma Inspecção Geral). Cfr., neste
sentido, Maria João Antunes – Direito Processual Penal, p. 59.
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até porque não tem a competência para a prática de actos materiais, tais como a audição, a
constituição e a detenção do suspeito – que os outros naturalmente têm.
Esta última parte da suprarreferida norma do n.º 2, do artigo 54.º do CPP, somada
fundamentalmente as normas dos n.ºs 1 e 3, do artigo 59.º, do CPP e a norma do n.º 2, do artigo
5.º da já referida Lei de Organização de Investigação Criminal, deixa a entender que os OPC
estão na dependência funcional da autoridade judiciária, máxime do MP, estão subordinados à
sua direcção funcional e sempre que este entender convoca-lhes para prestarem auxílio na fase
do inquérito fundamentalmente, e nas subsequentes fases quando se revelar necessário, o que,
de um lado, denuncia claramente a falta de autonomia estanque dos OPC face ao MP. Falta
essa, testada por diversas normas, concisamente:
(i) – no artigo 48.º, alínea e), do CPP que fala em Avocar os processos, deixando
subentendido a faculdade que o MP tem em delegar a investigação de um determinado processo
nos Órgãos de Polícia Criminal;
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(ii) – no artigo 48.º, alínea f), do CPP que fala na prerrogativa que o MP tem em Coordenar
e Fiscalizar as actividades de investigação executadas pela polícia judiciária no âmbito do
processo penal;
(iii) – no artigo 49.º, nas suas várias alíneas, contendo de forma inequívoca os actos a
autorizar pelo Ministério Público; e,
(iv) – no artigo 58.º, n.º 2, do CPP (e – mutatis mutandis – no artigo 57.º, n.º 2, do CPP)
prevendo, mesmo nas situações em que a polícia atua por conta própria, a imediata incorporação
do auto da ocorrência no processo ou a sua imediata remissão ao MP.
E, doutro lado, igualmente denuncia a faculdade que a polícia, entende-se os OPC, têm
em participar, por iniciativa própria, dentro dos limites impostos por lei, no processo ou na
investigação criminal, praticando actos processuais, que integram competências próprias ou
delegadas, tal como se encontram patenteadas nas seguintes normas do:
(i) – artigo 54.º, n.º 1, do CPP que atesta ser da competência dos agentes da polícia, mesmo
por iniciativa própria, impedir a prática do crime, colher notícia dos mesmos, descobrir os seus
autores (reparem que esta passagem é de suma importância na justa medida em que, dentre
muitas utilidades, fundamenta e fomenta a possibilidade da dedução duma queixa crime contra
terceiros, ou seja, pessoas ou agentes do crime não identificados), e praticar os actos cautelares
necessários e urgentes para assegurar os meios de prova;
(ii) – artigo 57.º, n.º 1, do CPP que demonstra a competência que os agentes da polícia
têm para colher informações das pessoas tendentes à descoberta do agente do crime e a sua
identificação; e,
(iii) – artigo 58.º, n.º 1, do CPP, atestando a prerrogativa que a polícia tem em efectuar
directamente as buscas, revistas e apreensões em situações de flagrante delito.
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Em termos do n.º 1, do artigo 50.º, do CPP, o Ministério Público tem a legitimidade para
promover o processo penal, sendo claro que para o efeito terá que necessariamente ter
conhecimento do facto, que pode ser por via de autoconhecimento, por via de uma denúncia ou
por via de uma queixa.
Ora, a promoção do processo penal não é, em tese, uma actividade exclusiva do MP,
apesar de ser ele o detentor da legitimidade formal, uma vez que a queixa (tratando-se de crimes
semipúblicos e particulares em que a promoção processual dela depende) também pode ser
apresentada às autoridades policiais para efeito de promoção processual, não sendo por isso
inválida (vide. o n.º 3, do artigo 50.º do CPP), se bem que, importa frisá-la, a referida promoção
nunca é conseguida à revelia do Ministério Público.
Além do mais, ainda é pertinente frisar que os OPC têm as suas competências de
investigação criminal consagradas na lei de organização de investigação criminal e nas
diferentes leis orgânicas, tal como ficarão evidenciadas com a leitura dos postulados normativos
seguintes:
(i) – Artigo 5.º, n.º 1, da LOIC, fala em actos a executar pelos OPC durante a investigação
criminal e artigo 6.º, n.º 1, alínea b) da mesma lei fala no desenvolvimento de acções de
prevenção e de investigação da competência própria ou atribuída.
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Na mesma senda, vaticina o Professor Germano Marques da Silva ( 24) que «estão fora
dos poderes de direcção do MP quaisquer questões referentes a aspectos orgânicos e ao
funcionamento interno da hierarquia de cada corpo policial, e, bem assim, as questões de
táctica e estratégia policial, desde que estas não tenham os respectivos pressupostos directa
ou indiretamente definidos na lei».
(ii) – Artigo 2.º, n.º 1, do Estatuto Orgânico da Polícia Judiciária, Decreto-Lei n.º 14/2010,
de 15 de novembro, é categórico em afirmar que a polícia judiciária tem por missão coadjuvar
as autoridades judiciárias na investigação;
(iii) – Artigo 3.º da antiga Lei Orgânica da Polícia Judiciária, Decreto n.º 1/95, de 03 de
abril, plasmou a competência de investigação criminal da Polícia Judiciária, pese embora o
facto de não estar já em vigor, não podendo aplicar-se a nenhum caso, tendo em conta que foi
expressamente revogado pela norma revogatória constante do artigo 136.º do novo Estatuto
Orgânico da Polícia Judiciária;
(iv) – Artigo 3.º, n.º 1, alíneas c) e e), da Lei Orgânica da Guarda Nacional (Lei n.º 8/2010,
de 22 de Junho), plasmaram a competência de investigação criminal da Guarda Nacional;
(v) – Artigo 3.º, n.º 1, alíneas c) e e), da Lei Orgânica da Polícia de Ordem Pública (Lei
n.º 9/2010, de 22 de Junho), plasmaram a competência de investigação criminal da Polícia de
Ordem Pública.
(24) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, Vol. I, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo,
1993, p. 194.
(25) Já havíamos badalado esta questão nas aulas anteriores, inclusive ficou já demonstrado o mecanismo
conducente à constituição do PR como arguido que passa necessariamente pelo manejamento dos artigos 72.º, n.º
2 e 85.º, alínea e), ambos da Constituição da República da Guiné-Bissau e demos exemplos até de algumas
situações existentes em Portugal em que a iniciativa processual depende da queixa por parte do Governo português,
pelo que, para àquelas aulas remetemos.
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Duma forma telegráfica, apenas deve-se apontar, nesta sede, o facto de os Órgãos de
Polícia Criminal contar com uma definição plasmada no artigo 4.º da Lei n.º 8/2011, de 27 de
abril – Lei de Investigação Criminal –, no qual consta que “são Órgãos de Polícia Criminal as
entidades e agentes policiais a quem caiba praticar quaisquer actos determinados pela lei
penal ou ordenados por uma autoridade judiciária desde que legalmente certificados para o
efeito”.
(i) – a Competência para ordenar a prisão sem culpa formada, (faculdade que pertence
não a todos, mas apenas ao Director-Geral, Director da Direcção Central de Prevenção e
Investigação e Inspectores), nos termos do artigo 7.º da Lei n.º 1/95, de 03 de abril – Lei
Orgânica da Polícia Judiciária; Esta prisão é balizada por artigo 40.º, n.º 1, da CRGB. Só que é
mister explicar que com a elaboração do Estatuto Orgânico da Polícia Judiciária, a lei n.º 1/95,
de 03 de abril deixou de vigorar juntamente com o seu artigo 7.º que servia da norma
concretizadora da abstrata possibilidade da existência da prisão sem culpa formada permitida
pelo referido artigo 40.º, n.º 1.
Fica, ainda assim, uma questão por responder, pois continua a importar saber, em termos
rigorosos, se o legislador no artigo 40.º, n.º 1, quis mesmo referir a prisão ou se quis referir a
detenção? Obviamente que a resposta tende a ser a “detenção” e não a “prisão”.
(ii) – embora não resulta claro das leis guineenses, mas a lógica do poder leva-nos a
concluir que a comunicação de conhecimento de crime ao MP e a ordem para iniciação imediata
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de investigação constante do n.º 2, do artigo 6.º da Lei de Investigação Criminal, só podem ser,
e se não são deveriam ser, da competência de uma das autoridades da polícia criminal, pois só
assim faz sentido, não devendo-se compreender, em termos lógicos, que se trata de uma
prerrogativa deixada à mercê de um simples agente da polícia;
(iii) – a Competência para ordenar a detenção fora de flagrante delito, nos termos do n.º
2, do artigo 186.º do CPP, observadas cumulativamente as circunstâncias das alíneas a) e b) do
referido n.º 2;
No trilho do Professor Germano Marques da Silva (26) os OPC têm, e não se pode negar,
um papel fundamental na descoberta da verdade e na facilitação de execução dos actos
processuais, mas não podem pretender um estatuto processual que transcende aquela
importância. Assim, os OPC não são considerados sujeitos processuais, mas sim
participantes processuais. Isto explica-se pelo simples facto de eles não gozarem de
independência funcional face às Autoridades Judiciárias em função das fases processuais.
Acresce ainda, neste particular, o entendimento da Professora Maria João Antunes que
considerou que do ponto de vista organizatória, administrativa e disciplinar os OPC estão sob
a dependência do poder executivo, dum lado, e, doutro lado, isto é, do ponto de vista funcional
estão sob a dependência das Autoridades Judiciárias, e é exactamente o facto de os OPC
comportarem as tais dependências é que serve de sustentáculo para as suas não considerações
como sujeitos processuais, passando apenas a serem considerados como sendo participantes
processuais.
Os actos processuais praticados por OPC, mormente os que integram o âmbito das
medidas cautelares e de polícia, não devem ser considerados actos processuais isoladamente
compreendidas, visto que apenas passarão a merecer a tal qualidade quando aceites ou
confirmados pelas autoridades judiciárias competentes nas fases processuais em que foram
praticados.
(26) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, pp. 201-202.
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Há que se chamar, igualmente, atenção para o facto de impender sobre os OPC o dever
de Comunicação Imediata ou de Comunicação no Mais Curto Prazo Possível da notícia do
crime ao Ministério Público. Em tempos colocou-se o problema de saber como dosear ou
temporizar o tal “dever de comunicação imediata” anunciado por, por exemplo, artigo 176.º,
n.º 2, ao que era solucionado por recurso à regra geral do prazo para a prática de qualquer acto
processual constante no artigo 83.º do CPP, e ao que, hoje, felizmente encontra a resposta
propícia na norma do n.º 3 do artigo 6.º da LOIC, por impositivamente determinar que “a
Comunicação ao Ministério Público tem de ocorrer dentro dos Cinco (5) Dias seguintes ao
conhecimento do facto”.
Contudo, importa considerar uma indução ao erro provocada pelo legislador processual
penal guineense, uma vez que estatuiu no Título III, sob anunciação “Dos Sujeitos
Processuais”, o elenco dos sujeitos processuais, tendo:
No fundo, e para ser realista, isto pode dar a falsa percepção de que os OPC / a Polícia é
sujeito processual se apenas guiarmos por esse elenco disponibilizado pelo legislador do Código
de Processo Penal. Mas, se levarmos em linha de conta toda a fundamentação doutrinária
esmiuçada supra, concisamente em relação a dependência funcional, teremos que ser
categóricos em afastar a referida “falsa percepção” e concomitantemente negar a qualidade dos
sujeitos processuais aos OPC, reconduzindo-lhes à qualidade de Participantes/Intervenientes
Processuais.
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Do Tribunal
Ora, o Tribunal é o órgão soberano do Estado com competências para administrar a justiça
em nome do povo.
Coloca-se, neste particular a questão de saber o que é que acontece com os juízes se
decidirem erradamente, o erro for considerado de grosseiro ou se tiverem o dolo ou culpa grave?
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Em Portugal esta questão encontra uma resposta facilitada, porquanto existe uma lei de
responsabilidade civil extracontratual do Estado que leva a responsabilização dos juízes pelos
erros que cometerem no julgamento. Se errarem o Estado fica adstrito ao pagamento da
indemnização a condenado, logo, a tal lei permitiu ao Estado ter Direito de Regresso sobre o
juiz que actua com dolo ou culpa grave e, em função dessa actuação, lesar os direitos doutrem.
Na Guiné-Bissau, essa responsabilização não é definida numa lei específica similar, razão
por que a ela só chegamos conjugando os artigos: 33.º, 41.º, n.º 6, e 123.º, n.º 3, ambos da
CRGB, com artigos: 327.º, n.º 2, do CPP e 6.º, n.º 2, do Estatuto dos Magistrados Judiciais e do
Conselho Superior da Magistratura – Lei n.º 1/99, de 27 de Setembro.
--a de fazer gestão de pessoal: (i) – Colocação dos Juízes / Nomeação nos termos
do artigo 120.º, n.º 1 e 5, da CRGB; e, (ii) – Transferência à luz do artigo 123.º, n.º 4, da CRGB
e 40.º, n.º 1, alínea c), do EMJ;
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
condicionamento não foi pensado para amputar os poderes de decisão dos juízes, antes pelo
contrário, foi pensado para ampliar a qualidade das decisões dos juízes.
Cabem ainda, dentro da independência pessoal dos juízes, mais duas garantias a saber: a
de que os juízes são indestrutíveis e de que são inamovíveis contra as suas vontades, salvo
quando existe um processo disciplinar nos termos dos artigos 36.º e ss, ex vi. 28.º, n.º 2, ambos
do EMJ para poder permitir o disposto no artigo 40.º, n.º 1, alínea c), na qualidade de uma das
consequências possíveis no âmbito de um processo disciplinar.
Regras de Competência
Por exemplo: Qual é tribunal que deve julgar o PR – artigo 10.º, n.º 1, alínea a) conjugado
com artigo 27.º, alínea a) da Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais (Lei n.º 3/2002, revista pela
Lei n.º 6/2011) respondem que é o plenário do STJ.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
→ No que diz respeito à Competência Funcional – temos que reter as seguintes ideias:
--Deve existir, pelo menos, dois (2) juízes: (i) Um de Instrução e (ii) Um de
Julgamento.
critérios:
● Critério Geral – que sobrevaloriza o Lugar do Delito, que por sua vez pode ser:
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
--um lugar físico mas fora do território nacional em que se tem como relevante
o lugar onde o agente é encontrado ou o da sua última residência, conforme reza o artigo 17.º
do CPP.
Nessa esteira, o Código de Processo Penal da Guiné-Bissau manda, à luz do artigo 20.º
que seja organizado um só processo apresentando os seguintes requisitos:
Na alínea a) do n.º 1 do artigo 20.º, vem expresso o critério de pluralidade dos agentes
para o mesmo ou vários crimes;
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Na alínea b) do n.º 1 do artigo 20.º, volta a plasmar a pluralidade dos agentes para uma
unicidade de conduta ou para única ocasião ou, ainda, para um mesmo lugar e mesmo que
alguns crimes sejam resultados dos outros ou actos contínuos dos outros ou servem tão só para
ocultar ou outros.
Já o n.º 2 do mesmo artigo, é constituído por duas vertentes que merecem ser assinaladas:
Obs.: Quer a fusão (a apensação) dos processos quer a cisão (a separação dos processos)
podem ocorrer mediante o requerimento das partes ou oficiosamente.
O Código de Processo Penal guineense faz uma distinção entre a conexão total e a
conexão parcial, com sede e modus aplicandi nos artigos 20.º e 21.º respectivamente.
Limites à Conexão
A própria natureza dos crimes constitui uma barreira séria à conexão, pelo menos é o que
e pode retirar da norma do artigo 22.º do CPP, quando frontalmente opõe-se a verificação da
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
conexão se um dentre vários processos passíveis de serem conectados integrarem uma das
seguintes competências: (i) Competência dos Tribunais de Menores; (ii) Competência do
Tribunal Militar; e, (iii) Competência do Supremo Tribunal de Justiça.
Quid Iuris se fora dos casos já vistos, eventualmente, os processos conexos encontrarem-
se abrangidos por competências de mais de um tribunal?
A resposta é dada pelo artigo 23.º do CPP, tendo estabelecido primacialmente os seguintes
critérios:
Há que dizer que é pertinente falar no artigo 24.º do CPP, porquanto abre a possibilidade
de prorrogação da competência do tribunal.
No mesmo sentido, também deve-se falar do artigo 25.º do CPP, tendo em conta que
aconselha a cisão dos processos nos moldes já conhecidos, caso se concluir que da conexão
possa resultar para um dos suspeitos ou (i) o prolongamento injustificado da prisão preventiva
ou (ii) o retardamento excessivo do julgamento.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Agora, é óbvio que o legislador não disse nada em relação às competências territoriais
dos magistrados do MP, o que não quererá rigorosamente significar que existe uma lacuna já
que é aplicado as mesmas regras de competência destinadas aos tribunais. Esta colagem é
assacada directamente do artigo 26.º do CPP que, no concernente à incompetência, fala
conjuntamente do Tribunal e do MP.
Declaração da Incompetência
Nota inicial: a incompetência não se confunde com a falta de jurisdição penal que implica
a inexistência da sentença e que pode ser reconhecido a qualquer momento e por qualquer juiz.
--Incompetência Territorial – que pode ou que deve ser declarado até ao início
da audiência do julgamento.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Surdem directamente do artigo 29.º do CPP e, na verdade, o efeito que mais se prepondera
é a remessa do processo para o tribunal competente, segundo o n.º 1 do mesmo artigo. Do n.º 2
resulta a consideração de que quando a incompetência é territorial e abranger todo o território
guineense, suscita o arquivamento do processo, após o trânsito em julgado da decisão.
O artigo 30.º do CPP contempla uma excepção aos efeitos de incompetência do tribunal
no que respeita aos actos urgentes permitidos quer ao tribunal quer ao magistrado do MP, uma
vez que os tais actos podem conhecer dois caminhos possíveis:
1.º Em regra os tais actos de que falamos mantêm as suas eficácias; e/ou,
Quer isto significar que não havendo estas últimas considerações, geralmente, os actos
processuais praticados primacialmente ou anteriormente pelo tribunal incompetente são tidos
por eficazes, desde que ficar provada que realmente se trata de actos urgentes.
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Do Arguido
Ora, torna necessário oferecer algumas explicações teoréticas que servem de base para a
separação estanque desta dicotomia para, depois, ajuizar sobre a constitucionalidade ou não do
termo suspeito. Assim:
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Pode-se, ainda nesta senda de divagações distintivas, sustentar que contra um mero
suspeito não é produzida uma acusação, enquanto que contra o arguido é deduzida uma
acusação antecedida da constituição da pessoa como arguido.
Pode-se afirmar, e não será despiciendo, que sobre o suspeito paira a mera ou fraca
suspeita do cometimento do crime ao passo que sobre o arguido paira fundada suspeita do
cometimento do crime.
Esta última diferenciação pode pecar por volatilidade quanto ao arguido se levarmos em
linha de conta os casos em que o MP, findo o inquérito, não conclua pela existência de indícios
tendentes a responsabilização do suspeito – o que daria azo ao arquivamento –, e se a decisão
de arquivar gerar a discórdia por parte do assistente e este último decidir produzir um RAI
(Requerimento para a Abertura da Instrução) que geraria ope legis a constituição do arguido, a
constituição da pessoa como arguido procederá e a instrução será aberta e realizada ainda que
não tivesse existido nos autos do inquérito realizado pelo MP fortes indícios de
responsabilização da pessoa que no RAI foi indicada como responsável pelo crime.
Daí que o Professor Germano Marques da Silva (27), em jeito de chamada de atenção para
a tal volatilidade, recusa definir o arguido nos moldes supra plasmado, isto é, como sendo
“aquela pessoa sobre quem recaia fundada suspeita de cometimento do crime”.
No fundo, para ele a diferenciação entre suspeito e arguido não vai ter por prevalecente a
colocação das adjectivações como antecedentes da palavra suspeita para com isso concluir que
consideraríamos ser Suspeito “aquele sobre quem recaia ínfima suspeita de cometimento do
crime” e ser Arguido “aquele sobre quem recaia fundada suspeita de cometimento do crime”.
O Código de Processo Penal não nos deu uma noção clara do suspeito, mas podemos
retirá-la da norma do n.º 1 do artigo 60.º, considerando ser Suspeito “a pessoa determinada
contra quem corre inquérito por deduzir existir indícios de que cometeu um crime ou nele
participou”. Ora, devemos desconfiar desta definição constante do Código, porque parece ter
conteúdo definitório do arguido e não propriamente do suspeito.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Só que, o não ser inconstitucional não lhes iliba de serem considerados portadores de
incongruências processuais indisfarçáveis, porquanto as suas epígrafes inculcam a ideia de
estarem a referir o verdadeiro suspeito, quando na verdade os seus conteúdos mais têm a ver
com as prerrogativas normalmente conferidas ao arguido – o que ficou mais nítido nas várias
alíneas do artigo 61.º do CPP, máxime nas últimas alíneas.
(28) Ibidem.
(29) Vide. Germano Marques da Silva, op. cit., p. 203.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
É imperativo frisar que o Código de Processo Penal guineense fala, no artigo 60.º, n.º 1,
que por meio de um despacho se declara suspeito a pessoa contra quem corre inquérito, logo
que existem indícios de que cometeu um crime ou nele participou.
Já havíamos anunciado que o conteúdo deste artigo poderá ter mais a ver com a figura do
arguido, e se for verdade o nosso prognóstico, então a qualidade do arguido é sim declarado por
via de um despacho – que deve ser entendido ser do Ministério Público. Não sendo verdade o
nosso prognóstico, então é a qualidade do suspeito que é declarado mediante um despacho –
que deve subentender-se ser de uma das autoridades da polícia criminal de um dos OPC.
Seja como for, em termos comuns, a constituição do arguido opera-se ope legis nas
situações em que existindo o inquérito e findo o mesmo por uma das suas duas formas
paradigmáticas, acusando ou arquivando, então:
(i) havendo a dedução da acusação, será constituído arguido a pessoa contra quem for
deduzida acusação; e,
(ii) não havendo a acusação ou, melhor dizendo, havendo o arquivamento e em relação a
ele não se angariar a concordância do assistente, e este decidir requerer a abertura da instrução,
conhecida como o RAI do Assistente, que significa Requerimento para a Abertura da Instrução,
será constituído arguido a pessoa contra quem for requerida a instrução.
Não operando a constituição do arguido ope legis nos termos acabado de mencionar,
poderá operar-se mediante comunicação feita ao visado por uma autoridade judiciária ou um
dos órgãos de polícia criminal.
A comunicação de que se falou supra “pode ser oral ou escrita e tem por conteúdo a
informação de que a partir desse momento o visado se deve considerar arguido no processo e a
indicação e, quando necessário, a explicação dos direitos e deveres processuais constantes do
seu estatuto” (30).
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Quando é feita por escrito, é notificada a pessoa do arguido, se não for encontrada, tem
resultado da prática processual guineense a notificação por via de telemóvel.
Bem, a partir do momento que um individuo adquira a qualidade do arguido, se lhe deve
assegurar o exercício de alguns direitos e deveres processuais. Relembra-nos o Professor
Germano Marques da Silva que “é a partir da constituição de arguido que a pessoa adquire a
qualidade de sujeito processual e como tal passa a ser titular dos direitos e submetido aos
deveres processuais que integram o seu estatuto” (31), constante, no nosso caso, dos artigos 61.º
e 62.º do CPP.
Por norma, uma vez reunidos os pressupostos para a constituição de arguido conforme o
n.º 1 do artigo 60.º e essa constituição não for feita e se se inobservar a norma do n.º 3 do mesmo
artigo, isto é, se a pessoa não for interrogada na qualidade do arguido, exige-se que as
declarações por ela prestadas não pudessem servir como prova a ser utilizada contra ela.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Sendo o arguido um sujeito processual que aufere de um estatuto próprio que integra
conjunto de direitos e de deveres processuais covinha que tivesse, para a fluidez do processo, a
personalidade judiciária.
Mas, há que se ter a cautela, pois a qualidade de arguido, enquanto sujeito processual, não
requer necessariamente a responsabilidade penal, na medida em que a pessoa pode ser
constituída arguido no processo, considerado sujeito processual, e ser insusceptível de
imputação do crime que é objecto do processo, fundamentalmente quando se é menor de 16
anos (inimputável em razão da idade) e quando se apresentar, quer antes da prática do facto,
quer depois da prática do facto, anomalia psíquica (inimputável em razão da anomalia psíquica).
Assim, podem ser arguidos no processo penal as pessoas físicas maiores de 16 anos e
plenamente saudáveis, máxime em termos psíquicos, e as pessoas jurídicas legalmente
constituídas.
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Podem ser arguidos, os inimputáveis em razão da anomalia psíquica desde que seja
temporária (no sentido de ser curável) e posterior a prática do facto, situação em que, caso se
revelar necessário, suspende-se o processo a espera que a anomalia desapareça e continuá-lo,
“salvo se se tratar de processo para aplicação de medida de segurança cujo pressuposto seja
precisamente a anomalia psíquica” (33). É escusado dizer que se a anomalia psíquica for
definitiva e incurável deixa de ser razoável prosseguir com o processo contra um incapaz e o
mesmo se diz, já agora, em relação ao incapaz em razão da idade.
Fora de casos dos inimputáveis, ensina-nos o Professor Jorge de Figueiredo Dias que
também é excluída a susceptibilidade de assumir a qualidade do arguido relativamente àquelas
pessoas que não estão sujeitas a jurisdição guineense, quer se considere tratar-se de
inaplicabilidade do direito penal, quer simplesmente de não sujeição à jurisdição guineense,
havendo imunidade substantiva ou só processual (34).
Obs: contra àquelas pessoas não pode ser instaurado um processo porque eles não podem
ser arguidos no processo e se eventualmente por um ou outro motivo (nomeadamente o
desconhecimento da imunidade) o processo for instaurado terá que ser considerado
juridicamente inexistente. Mas, é de enaltecer que a insuscetibilidade das referidas pessoas
serem constituídas arguido não impede as suas participações no processo para precisamente
assinalar o vício e, em consequência, fazer parar o processo no território nacional.
Referimos supra que as pessoas meramente jurídicas podem ser arguidas no processo e
as suas capacidades judiciárias vão se buscar nos respectivos documentos constitutivos. Sobre
esta questão, diz-nos o Professor Germano Marques da Silva que “não há no processo penal
nada de especial relativamente ao processo civil no que concerne à capacidade judiciária das
pessoas colectivas. Assim, é de aplicar o artigo 21.º do Código de Processo Civil, que estatui
que as pessoas colectivas e as sociedades são representadas por quem a lei designar” (35).
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Direitos do Arguido
O Código do Processo Penal plasma no seu artigo 61.º conjunto de direitos que assistem
arguido, dentre os quais haveremos de apenas anunciar uns e esmiuçar os que revestem maior
importância tendo em conta a aceleração inerente a prontificação do presente sumário. Assim:
(i) – Resulta da alínea a) o Direito de Ser Informação – que significa que o arguido tem
direito de ser informado pela autoridade judiciária ou pelo OPC, perante os quais seja obrigado
a comparecer, dos direitos que lhe assistem em razão da sua qualidade de sujeito processual.
Referem-se aos direitos:
--de ser informado sobre a sua constituição como arguido (artigo 60.º, n.º 2, do CPP);
--de ser informado, de forma clara e precisa, dos factos que lhe são imputados e, inclusive,
das provas que existem contra ele, se se concluir não ser prejudicial (artigo 63.º, n.º 4, do CPP);
--de ser informado da liberdade que tem em aceitar prestar a declaração ou não e de que
o silêncio não o desfavorecerá (artigo 63.º, n.º 4, in fine, do CPP).
No fundo, o arguido tem direito de não responder perguntas feitas por qualquer entidade
sobre os factos que lhe forem imputados e sobre o conteúdo das declarações que acerca deles
prestar;
Tem direito de ser informado antes do interrogatório de que goza do direito ao silêncio e
de que o seu silêncio jamais poderá ser interpretado como presunção de culpa conforme a norma
do artigo 63.º, n.º 4, in fine, do CPP, na justa medida que goza de presunção de inocência nos
termos do artigo 42.º, n.º 2, da CRGB.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
De referir que o direito ao silêncio que assiste ao arguido não se confunde como o direito
à mentira ou direito de mentir. O arguido não deve mentir ao prestar declarações, mas se o fizer,
não será mais severamente punido por esse facto, uma vez que a lei não estabelece qualquer
sanção para o arguido que ao prestar declarações sobre os factos que lhe forem imputados, faltar
com a verdade. Mas, isso não deve ser interpretado como se de um direito a mentir se trata-se.
Deve-se exaltar, para finalizar, que o direito ao silêncio conferido ao arguido não é
propriamente um direito de carris absoluto, no sentido de que o arguido não pode entrar mudo
e sair mudo do processo, pois os seus direitos são contrapostos aos seus deveres e quando isso
acontecer, o direito ao silencio fica automaticamente coartado, conquanto que o arguido é
obrigado a responder com a verdade, fornecendo elementos de identificação pessoal e
informando acerca dos seu antecedentes criminais, conforme resulta do artigo 62.º, alínea a),
do CPP. Quer isto significar que cada vez que o arguido é perguntado sobre a sua identidade
pessoal deverá responder com verdade e se a pergunta for sobre os seus antecedentes criminais
igualmente deverá responder com verdade.
Mas se não o fizer: (i) poderá ser submetido a exames obrigatórios para descobrir a sua
identidade e, descoberta a sua identidade, (ii) poderá à distância de um simples clique, cruzar
os dados e saber dos seus antecedentes criminais, através dos registos criminais constantes das
bases de dados do Ministério da Justiça que são acessíveis mesmo nos guichés dos registos
instalados nas lojas de cidadãos (37).
Há que se desconfiar que não estamos a falar da realidade guineense. Ainda não chegamos
a esse patamar de evolução, até porque, salvo raras excepções, quase em todos os registos
criminais da Guiné-Bissau é encontrada a célebre frase “Nada Consta”, pois não há
(36) Cfr. Jorge de Figueiredo Dias – Direito Processual Penal, pp. 450 e ss. Apud. Germano Marques da Silva,
op. cit., p. 214.
(37) Nota Importantíssima: Estas são as consequências menos musculosas e dependentes, e muito, da paciência,
da boa fé e do carácter / postura menos rígido/a dos OPC que presidem a diligência ou, melhor, da Autoridade
Judiciária que preside o acto processual em que se suscitou as tais questões. Na realidade há outras duas
importantes consequentes, bem mais gravosas até, que frisamos infra, na parte respeitante aos deveres do
suspeito/arguido, concisamente no ponto (i), constante da página n.º 18.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
informatização dos dados e, mesmo nos casos que houver, não há um sistema que cruza
diferentes dados de várias instituições judiciárias pertencentes as diversas regiões.
Em países evoluídos, o responder com a verdade por parte do arguido sobre os seus
antecedentes criminais já não é uma obrigação, tendo em conta que as autoridades judiciárias e
os OPC tem a facilidade de extrair, com um simples clique, o registo criminal do arguido. O
responder com verdade sobre a identidade pessoal ainda mantém obrigatório.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Em boa verdade o arguido não deve pretender cumular na sua pessoa a qualidade do
arguido e do defensor, pois corre o risco de não apresentar uma defesa conveniente, por razões
várias, desde logo, porque vai faltar-lhe a serenidade devida, vai faltar-lhe o tempo para uma
preparação jurídica da defesa, contando que pode estar preso e sem materiais necessários e
nesse caso não terá a liberdade de movimentação e contactos que potenciariam uma boa defesa.
(iv) – Resulta da alínea e) o Direito de Comunicar Livremente com o seu Defensor – trata-
se igualmente de uma importe garantia de defesa que determina que a comunicação entre o
defensor e o arguido, detido sobretudo, seja feito em privado ou, não podendo ser em privado
por razões de segurança, seja feita a vigilância mas sem a mínima possibilidade de audição por
parte do vigilante.
A relevância deste direito que é considerado uma garantia de defesa vai se buscar
fundamentalmente na proibição legal de a escuta telefónica incidir sobre as comunicações
efectuadas entre o arguido e o defensor, salvo existir indícios fortes do envolvimento criminoso
do defensor, conforme atesta o n.º 3, do artigo 144.º do CPP.
(v) – Resulta da alínea f) o Direito de Informar alguém da sua família que está preso –
trata-se de uma direito que podia subsumir-se ao indicado no ponto (i), mas na verdade este é
de menor escala e é de informar da sua condição de arguido detido para dar conhecimento aos
seus familiares da sua condição e do seu paradeiro, ao passo que aquele é o direito de ser
(38) Em Portugal, esta questão parece estar já sentenciada de uma vez por todas, uma vez que a doutrina é
praticamente unânime em admitir que assim seja. No trilho do Professor Germano Marques da Silva «ainda que o
arguido tenha a preparação jurídica adequada, a lei entende necessário que o arguido seja acompanhado por um
defensor, de quem espera que mantenha a serenidade, já que é de presumir alguma perturbação do arguido,
prejudicial à sua defesa e ao regular funcionamento da justiça». In: Germano Marques da Silva – Curso de
Processo Penal, Vol. I, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1993, p. 225.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
informado das suas prerrogativas, por isso de maior escala e merecedor de maior atenção face
a este.
Tem igualmente o direito de requerer a abertura de instrução, quando acusado, nos termos
do artigo 206.º, n.º 2, do Código de Processo Penal.
E, finalmente, tem direito de intervir nas audiências de julgamento, pois aí a sua presença
e o seu interrogatório até são, por regra, obrigatórios.
(vii) – Resulta da alínea h) o Direito de Recurso do Arguido – o que quer significar que
o arguido tem o direito de recorrer, nos termos da lei, das decisões que lhe forem desfavoráveis.
Deveres do Arguido
O Código do Processo Penal plasma no seu artigo 62.º conjunto de deveres a que o
arguido está adstrito, a partir da data da sua constituição, em que:
(i) – Resulta da alínea a) o Dever de Responder com Verdade e de Forma Completa sobre
a sua Identidade e Antecedentes Criminais – quer dizer que o arguido tem o dever de responder
com a verdade e da forma completa às perguntas sobre a sua identidade e antecedentes criminais
feitas por entidades competentes – o que sucede, de resto, nos interrogatórios a que o arguido
for submetido.
A falta de resposta ou a sua falsidade, querendo com isso dizer que se o arguido mentir
em relação a estas duas situações, poderá o arguido incorrer em responsabilidade penal, por
Crime de Falsidade por Parte de Interveniente em Acto Processual previsto no artigo 225.º,
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máxime n.º 1, do Código Penal e por Crime de Desobediência previsto no artigo 239.º do
Código Penal.
Mais detalhe sobre esta matéria foi dado supra, na página n.º 15, do presente sumário,
pelo que para lá remetemos.
(ii) – Resulta da alínea b) o Dever de Comparência – que significa que o arguido tem o
dever de comparecer perante os OPC, o MP ou o Juiz sempre que a lei exigir e para tal tiver
sido regularmente convocado.
A falta de comparência deve ser devidamente justificada e deve basear-se nos motivos
compreensível e atendíveis, uma vez que a comparência do arguido é deveras importante para
o sucesso da maioria dos actos processuais, daí que a falta de comparência do arguido quando
a sua comparência é obrigatória gera a nulidade insanável nos termos do artigo 106.º, n.º 1,
alínea d).
É importante que o arguido cumpra este seu dever de comparência e quando não o poder
cumprir, importa justificá-la devidamente, pois se assim não proceder incorrerá no risco de ser
detido, por ordem do MP ou do Juiz, para garantir a sua presença no acto processual que faltou
injustificadamente, conforme manda a norma do n.º 1, do artigo 186.º, do CPP.
(iii) – Resulta da alínea c) o Dever de Sujeitar-se às Diligências de Prova – quer dizer que
o arguido é obrigado a sujeitar-se às diligências de prova, a todas elas, desde que não são
proibidas pela lei, desde que respeitadora da dignidade humana ou desde que feitas em modo a
respeitar as formalidades legalmente impostas.
Só para que conste, o arguido pode ser submetido a, por exemplo, interrogatórios (artigo
64.º), provas por declarações (artigo 124.º), acareação (artigo 126.º), por reconhecimento
(artigo 128.º), a reconstituição dos factos, a perícia (artigo 133.º) e exames (artigo 143.º), a
revista (artigo 137.º), dentre outras.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Dispõe o n.º 2, do artigo 42.º, da CRGB que “todo o arguido se presume inocente até ao
trânsito em julgado da sentença de condenação, devendo ser julgado no mais curto prazo
compatível com as garantias de defesa” e nesta mesma senda pronunciaram os artigos 6.º da
Convenção Europeia dos Direitos do Homem e o artigo 14.º do Pacto Internacional sobre
Direitos Civis e Políticos quando referem que «qualquer pessoa acusada de uma infracção
presume-se inocente enquanto a sua culpabilidade não tiver sido legalmente provada» ( 39).
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Do Defensor
Nos processos mediatizados onde participam arguidos com posse financeira, tem-se
constatado a constituição do colectivo de advogados – o que inculca a ideia de que o arguido
constitui mais do que um defensor, e a questão curiosa prende-se com o querer saber se durante
a defesa a todos os defensores constituídos é permitido realizar a defesa em simultâneo face
cada acto processual?
Aqui chegados, e seguindo de perto a reflexão deste insigne penalista, a conclusão parece
apontar-se para a obviedade de que o colectivo face a cada acto processual terá que funcionar
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
não em simultâneo, mas sim no regime similar ao de porta-voz. Com isso, não me parece ser
razoável vedar-lhes o presenciar do acto, mas o palavrear e toda actuação reservar-se-á ao porta-
voz – o que terá de ser compreendido, visto ser respeitador de igualdade de armas.
Há algumas nuances da defesa que devem ser explicadas para se ter uma visão holística
do termo defesa, podendo distinguir entre: a defesa formal e material e entre a defesa pessoal e
técnica. Assim:
(iii) – A Defesa Pessoal – é, como o próprio nome indica, a defesa exercida pessoalmente
pelo arguido (acontece, p. ex., nos seus interrogatórios em várias fases processuais, o poder de
apresentar exposições, memoriais, RAI e requerimento ao recurso); e,
(42) Ibidem.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
(i) – Actos de Assistência – são actos que o arguido tem de praticar pessoalmente e
relativamente aos quais o defensor apenas o auxilia, o assiste portanto. É o que resulta, entre
linhas, do n.º 1, do artigo 73.º do Código do Processo Penal; e,
(ii) – Actos de Representação – são aqueles actos que por lei são reservados ao defensor,
por uma parte, e aqueles outros em que o acto pode ser praticado pelo arguido ou pelo defensor,
em sua substituição, por outra parte. Nos actos de representação, o defensor substitui-se ao
arguido, manifestando uma vontade que àquele pertence e, por isso, que o arguido lhes possa
retirar eficácia. E é o que resulta do n.º 2 do artigo 73.º do Código do Processo Penal.
Estatuto do Defensor
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Nesta senda, dispõe o artigo 74.º do CPP, sob epígrafe “Assistência Obrigatória” que é
obrigatória a assistência por defensor:
alínea c) – Para a Apresentação de Reclamações – sobre isto não há muito que saber, uma
vez que cabe ao defensor apresentar reclamações que achar necessário e favoráveis ao arguido
– o que faz utilizando as suas competências técnicas e respeitando os formatos que as referidas
reclamações devem revestir.
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alínea d) – Nos Demais Casos Previstos na Lei – trata-se de outras situações não
constantes nas alíneas precedentes, mas que requerem, sob pena de nulidade insanável, a
participação do defensor para conferir validade ao acto a praticar.
--Tomada de Declaração para a Memória Futura – vide. a conjugação dos artigos: 194.º,
alínea b), 198.º, 219.º e 242.º, n.º 2, alínea a), ambos do Código do Processo Penal; e,
A lei prescreve que “sendo vários os arguidos no mesmo processo, cada um pode ter um
defensor ou terem defensor comum, se isso não contrariar a função da defesa”, no artigo 75.º,
n.º 1, do Código do Processo Penal.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Deveres do Defensor
O n.º 1, do artigo 76.º, do CPP versa sobre deveres do defensor, que não são muitos, e
diz-nos que ele tem o dever de cumprir as normas reguladoras de deveres de defensor em
concomitância com a observação das normas constantes do Estatuto da Ordem dos Advogados
e que, no final, e no geral, o defensor deverá actuar sempre com respeito devido ao tribunal, nas
alegações e requerimentos que efectue.
Ora, o mesmo artigo, no seu n.º 2 tratou de plasmar as consequências para os defensores
que violarem as prescrições feitas por n.º 1, que podem desembocar em: (i) Advertência; (ii)
Retirada de Palavra; e, (iii) Substituição do Infractor pelo Tribunal – que pode sedimentar-se
com a utilização conjunta da norma do n.º 3, do artigo 72.º do Código de Processo Penal, que
exige para o efeito a invocação dos motivos justificativos.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Do Assistente
O Código de Processo Penal não dá uma definição do assistente, apenas indicou a sua
posição processual e atribuições.
Há que se socorrer da doutrina e, dentre as definições por ela oferecida, ter por
prevalecente a definição do Professor Germano Marques da Silva, segundo a qual o Assistente
é «o sujeito processual que intervém no processo como colaborador do Ministério Público na
promoção da justa aplicação da lei ao caso e legitimado em virtude da sua qualidade de
ofendido ou de especiais relações com o ofendido pelo crime ou da natureza deste» (46).
Quanto a nós, e utilizando uma linguagem mais básica, o Ofendido é a vítima principal
do crime, detentor de verdadeiro interesse protegido pela incriminação da lei substantiva e
detentor da faculdade cimeira de constituir-se assistente no processo.
O Lesado “nunca pode, enquanto tal, constituir-se assistente, mas apenas parte civil para
efeitos de deduzir pedido de indemnização civil. O Lesado, sendo aquele que sofreu danos com
o crime, pode coincidir e coincide muitas vezes com o ofendido e, por isso, pode também
constituir-se assistente, mas não pelo facto de ser lesado mas por ser ofendido. Em razão da sua
(46) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, vol. I, pp. 242-243.
(47) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, vol. I, p. 243.
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qualidade de lesado pode apenas intervir no processo como parte civil, no pedido de
indemnização civil” (48).
Quanto a nós, e utilizando uma linguagem mais básica, o Lesado é quem sofre directa ou
indirectamente o prejuízo resultante do crime, detentor de interesses directos e reflexos
protegidos pela norma substantiva incriminadora e detentor de dupla faculdade de, enquanto
ofendido, constituir-se assistente e, enquanto mero lesado, ser considerado parte civil.
O artigo 68.º do CPP, sob epígrafe “poderes do assistente” estipula que a intervenção
processual do assistente é subordinada e auxiliar da do Ministério Público, efetuando algumas
excepções legais.
(48) Ibidem.
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condicionar o destino do processo sem que o assistente nada possa fazer; é o que se passa, v.
g., com o arquivamento em caso de dispensa ou isenção da pena (…), com a limitação da
competência do tribunal (…), e com o requerimento para aplicação da pena em processo
sumaríssimo (…)” (49).
“O Assistente pode também recorrer, ainda que o MP o não faça, e sustentando posições
diversas.
O Assistente pode actuar com autonomia relativamente ao MP, como sucede no debate
instrutório e nas audiências, a sua intervenção é acessória. O Assistente não exerce
autonomamente a acção penal e antes auxilia o MP. Mesmo quando a actuação do assistente
condiciona o exercício da acção penal pelo MP, não lhe cabe nunca, para além do direito de
acusar, os poderes ou funções do MP, nomeadamente os de investigação para fundamentar a
acusação”.
A Constituição de Assistente
O artigo 66.º do Código de Processo Penal enumera as pessoas que têm legitimidade para
se constituírem assistentes no processo:
(49) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, vol. I, pp. 239 e ss. Na página 241 o autor
falou ainda da rotatividade da posição de colaborador entre o Assistente e o Ministério Público, postulando que:
Relativamente aos crimes públicos e semipúblicos a posição do assistente é claramente a de colaborador do
MP, já que os poderes processuais de que dispõe se traduzem em formas de auxílio direto ao MP, no inquérito, na
submissão ao tribunal de uma outra perspectiva fáctica ou jurídica do objecto do processo e participação na
discussão, no debate instrutório, no julgamento e nos recursos, o que tudo significa ainda uma colaboração indireta
com o MP na busca da solução justa para o caso.
Nos crimes particulares a posição de colaborador do MP não é tão clara, mas não deixa de o ser ainda,
porquanto, se é certo que, em razão da natureza dos crimes particulares, o assistente pode condicionar o
procedimento, limitando o objecto do processo, perdoando ao arguido os crimes pelos quais não deduz acusação,
e podendo submeter sempre a sua versão à apreciação do tribunal – o que, aliás, sucede também nos demais crimes
–, o MP deve submeter também à apreciação do tribunal a sua apreciação fáctico-jurídica, acompanhando ou não
o assistente, e não sofrendo qualquer limitação nos seus poderes de intervenção processual, sempre e só inspirado
pela justa realização do direito no caso.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
alínea a) – Os ofendidos, considerando-se como tais os titulares dos interesses que a lei
especialmente quis proteger com a incriminação, desde que maiores de 14 anos à data da
constituição; Sobre isto não nada a acrescentar!
Está-se a referir ao Queixoso e aos titulares de direito da queixa e é uma norma que devia
ser direcionado ao crime de natureza particular e não ao semipúblico propriamente dito.
É de enaltecer, por fim, que a figura do Queixoso não se deve confundir com a figura
processual do assistente. O Queixoso não é sujeito processual enquanto não seja constituído
assistente – o que quer dizer que ele também tem a prerrogativa de se constituir assistente se
assim entender e a lei dá-lhe bastante tempo para requerer a sua constituição, podendo
atravessar toda a maratona processual que vai desde o início do procedimento criminal até faltar
apenas 7 dias para a audiência de julgamento, conforme atesta o n.º 1 do artigo 67.º do CPP.
(50) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, vol. I, p. 244.
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Por seu turno, o n.º 2 do artigo 69.º é bastante esclarecedor ao prescrever que se
porventura existir vários assistentes num processo as suas representações vão se fazer por um
único advogado, sendo claro que se divergirem quanto a escolha do advogado a representar-
lhes, essa mesma escolha passará a competir ou ao MP ou ao Juiz.
Esta regra só não procede se eventualmente existir dentre os vários assistentes interesses
incompatíveis ou então serem diferentes os crimes imputados ao arguido. Aqui cada grupo de
assistentes pode escolher um advogado por cada um dos crimes, só não pode é cada grupo de
assistentes ser representado por mais de um advogado.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Os Poderes do Assistente
É sintomático desta realidade o preceituado no n.º 1 do referido artigo 68.º do CPP, pois,
duma forma vincada, estabeleceu que “a intervenção processual do assistente é subordinada e
auxiliar da do Ministério Público”.
Mas, ao mesmo tempo, o n.º 2 do mesmo artigo abriu um leque de excepções, que é, no
fundo, atribuições de competências fundamentais para contrabalançar, na lógica de
complementariedade com vista à realização plena da justiça, o poderio que o Ministério Público
arvora no Processo Penal. Assim, ficou plasmado nas suas alíneas que o assistente pode:
Esta última passagem pode gerar dúvidas, mas não deverá porque já sabemos que o juiz
investiga autonomamente, praticando os actos de instrução que achar convenientes e que se
repute essenciais para a descoberta da verdade, nos termos do n.º 4 do artigo 208.º do CPP,
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indeferindo, por despacho, os actos requeridos que não interessam à instrução ou servirem
apenas para protelar o andamento do processo (52).
O Assistente pode ainda participar no debate instrutório (artigo 208.º, n.º 2, do CPP).
● Antigo Entendimento Fixado pelo Artigo 68.º, n.º 2, alínea b), do CPP de 1993
Antes da Revisão Intercalar de 2011.
Dispunha a sua norma de conjugação no mesmo Código, artigo 212.º, sob epígrafe
“Acusação do Assistente”, o seguinte:
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Na verdade este entendimento não era no então despiciendo e era utilizado como um
trunfo pelos advogados do assistente, despreocupando-os do papel inerte do MP e dando-os a
garantia de produzirem eles mesmo a acusação caso o MP não o faça. Só que o regime mudou,
e muito advogados não se descolaram da prática pretérita e hodiernamente ainda pretendem
lançar mão deste que era um importante poder do assistente no passado, e que já não é mais.
Ora, a tal descoberta incitou uma actitude prospectiva que à boleia, da pretendida
jurisdiciarização da instrução ou da introdução do juiz de instrução no processo penal guineense
com competências específicas que tangem alguns actos do inquérito, igualmente reviu os
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● Actual Entendimento Fixado pelo Artigo 68.º, n.º 2, alínea b), do CPP de 1993,
Depois da Revisão Intercalar de 2011, revisto Lei n.º 15/2011, de 12 de Outubro.
Uma nota intercalar se impõe neste sentido para explicar que se se atentar apenas a letra
da lei – e sem mais –, a conclusão mais natural que se poderia ter tirado é a de que não houve
em termos significativos o rompimento com o regime passado, tendo em conta que o assistente
ainda continuou a poder acusar independentemente da acusação do MP (mas atenção, desde já,
que não poderá ser este o entendimento fiel, sob pena de a revisão intercalar não mudar nada
de significativo nesta matéria). Assim:
Dispõe a sua norma de conjugação no mesmo Código, artigo 204.º-A, sob epígrafe
“Acusação pelo Assistente”, concretamente o seu n.º 1, o seguinte:
(54) Vide., nesta linha de pensamento o Insigne Penalista guineense, Mestre Julião Vieira Insumbo, que de
uma forma vincada, e num dos seus escritos, explicou que:
«(…) Assim, deve ser aqui referido que, no que toca ao sujeito processual assistente, o CPP, nomeadamente
no artigo 212.º, n.º 1, atribuiu-lhe poderes excessivos com o agravante de poder legitimar práticas judiciárias
corporizadas na discricionariedade do assistente, ao poder acusar pelos factos que só ele julgue suficientemente
indiciados. Ou seja, mostra-se, por essa forma, que a lei confere ao assistente a possibilidade de formular um juízo
de suficiência ou insuficiência de indícios.
No fundo, atribuições que apenas podem ser exercidas pelas autoridades judiciárias, já que, a não ser assim,
isso pressuporia, naturalmente, a justificação material para questionar a constitucionalidade do referido preceito
quando assim interpretada face a exigência constitucional da estrutura acusatória do processo penal.
Uma tal exigência normativa, determinou a revogação do artigo 212.º e consequentes alterações, a nível de
formulação normativa, dos artigos 67.º, n.º 3 e 68.º, n.º 2, al. b), e aditamento do artigo 204.º- A.». Conferir com
mais detalhes, Julião Vieira Insumbo – Revisão Intercalar do Código de Processo Penal da Guiné-Bissau, In:
Jornadas de Reflexão Sobre a Justiça Criminal, 2.° Fórum de Justiça decorrido, em Bissau, nos dias 27 e 29 de
Novembro de 2012.
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Uma nota intercalar igualmente se impõe neste sentido para explicar que esta norma
bloqueia, por assim dizer, todas as supostas acusações independentes do assistente e mesmo
quando abriu uma brecha prevendo a acusação por outros factos, voltou a obrigar que estes
novos factos não causassem alteração substancial dos factos, proibindo desde logo que sejam
factos diversos que levam a imputação de um crime diverso e proibindo que sejam agravados
os limites máximos de sanções.
Não sendo efectivamente esta a letra da lei, dúvidas não restam que o «Deduzir, no fim
da investigação, acusação independente da do Ministério Público» constante da alínea b) do
n.º 2, do artigo 68.º do CPP, só pode ser interpretado conjuntamente com, a norma restritiva da
tal independência, o n.º 1 do artigo 204.º-A, no qual o poder de assistente ficará circunscrito a:
(ii) dedução de acusação pela uma parte dos factos acusados pelo MP;
(iii) dedução de acusação por outros factos não constantes da acusação do MP, desde que
não implicarem a imputação de um crime diverso ou agravação dos limites máximos da pena.
Se implicarem, quebra a pequena independência e o assistente deixará de poder acusar por esses
factos; e,
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Dispõe ainda, outra sua norma de conjugação no mesmo Código, artigo 205.º, sob
epígrafe “Notificação”, que aliás já tinha sido apontado como norma de remissão nos termos
do já referido n.º 1 do artigo 204.º-A, o seguinte:
Outra nota intercalar, finalmente, se impõe neste campo, para dizer que quando a norma
referiu “requererem a impugnação contraditória” está exactamente a querer dizer o RAI
(Requerimento para a Abertura de Instrução) e que se atento ficarmos, repararemos que já nesta
norma de conjugação se falou do “Despacho de Arquivamento” e do “Despacho de Acusação”
e perante os dois conferiu sim um verdadeiro poder – e fica já como a única reação possível –,
ao assistente para, perante um despacho de arquivamento, poder reagir contra a morte do
processo, mas não pela via da acusação independente, porque por essa via estará vedado, mas
sim pela via de requerimento para abertura de instrução na qual vai ter que, à luz do artigo 207.º
do CPP indicar as razões de facto e de direito que fundamentam a oposição ao arquivamento,
que é no fundo, e mutatis mutandis, o proferimento de uma acusação, em cumprimento das
finalidades da instrução constante do n.º 1, do artigo 206.º do CPP.
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nem agravando os limites da pena, contudo nada parece impedir alterar a qualificação jurídica
desde que não leva a alteração substancial dos factos; ou, não concordando com o
arquivamento, só poderá produzir um RAI para salvar o processo e as suas pretensões, posto
que no tal requerimento vai poder acusar da forma pretendida.
Com efeito, este poder do assistente de acusar de forma independente da do MP, deve ser
melhor entendida separando as naturezas dos crimes.
Pois, se estivermos a falar de um crime de natureza particular (que infelizmente não temos
formalmente na Guiné), que, relembrando, requer (no sentido de depender) a queixa e a
acusação particular:
→ Germano Marques da Silva «(…) O art. 284.º do CPP-Pt dispõe que, até cinco
dias após a notificação da acusação do MP, o assistente pode também deduzir acusação pelos
(55) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, op. cit., p. 251.
(56) Cfr. Paula Marques Carvalho – Manual Prático de Processo Penal, 11.ª edição, Lisboa, Almedina, 2019,
p. 141.
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factos acusados pelo MP, por parte deles ou por outros que não importem uma alteração
substancial daqueles.
Assim, relativamente aos crimes públicos e semipúblicos, o assistente não pode acusar
se o MP o não tiver feito e, tendo o MP acusado, o assistente pode aderir à acusação já deduzida
– art. 284.º, n.º 2, al. a), ou acusar autonomamente pelos mesmos factos, por parte deles ou por
outros que não importem uma alteração substancial daqueles – art. 1.º, al. f).
Se o MP não acusar, nos crimes públicos e semipúblicos, o assistente também não o pode
fazer. Resta-lhe, se discordar da posição assumida pelo MP, requerer a abertura da
instrução. O mesmo sucede relativamente a factos pelos quais o MP não tiver deduzido
acusação e o assistente entender que o deveria ter feito, desde que a alteração importe uma
alteração substancial da deduzida pelo MP.
A adesão do assistente no todo ou em parte aos factos acusados pelo MP não impede que
o assistente os qualifique de modo diverso.
(57) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, op. cit., p. 250.
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Neste caso, o assistente, se pretender evitar que o processo termine por força daquele
despacho, pode lançar mão de outros mecanismos de índole hierárquica (intervenção
hierárquica - artigo 278.º) ou de índole judicial (abertura da instrução - alínea b) do n.º 1 do
(58) Paulo Pinto de Albuquerque – Comentário do Código de Processo Penal à luz da Constituição da
República e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, 4.ª edição atualizada, Lisboa, Universidade Católica
Editora, 2011, pp. 772-773.
(59) Cfr. Paula Marques Carvalho – Manual Prático de Processo Penal, 11.ª edição, op., cit., p. 140.
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alínea c) – Recorrer das decisões que o afectem – trata-se de um poder que reveste o
assistente da legitimidade de recorrer, contudo é, no trilho do Professor Germano Marques da
Silva, uma legitimidade mais limitada que a do MP; Este pode recorrer de quaisquer decisões,
ainda que no exclusivo interesse da defesa, enquanto o assistente só o pode fazer das decisões
contra ele proferidas, como sucede também com o arguido (61).
Finalmente, além destes poderes do assistente elencados no artigo 68.º, também tem
outros inerentes a sua participação na audiência de julgamento e a sua concordância para a
suspensão provisória do processo.
(60) Cfr. Vinício Ribeiro – Código de Processo Penal – Notas e Comentários, 2.ª edição, Coimbra, Coimbra
Editora, 2013, p. 775.
(61) Cfr. Germano Marques da Silva, op., cit., p. 251.
(62) Cfr. Paula Marques Carvalho, op., cit., p. 141.
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Da Parte Civil
As partes na acção civil são, pois, o lesado, que corresponde ao autor na acção
correspondente na acção declarativa de condenação em processo civil, e os demandados, que
correspondem aos réus na correspondente acção em processo civil, e os terceiros intervenientes,
que correspondem às várias figuras de terceiros previstas no artigo 320.º do CPC e que assumem
a posição de partes na acção civil conexa com a criminal, do mesmo modo que é permitido no
processo civil.
Vaticinou o Professor Jorge de Figueiredo Dias que: “as partes civis, se podem (e
porventura devem) ser consideradas sujeitos do processo penal num sentido eminentemente
formal, já de um ponto de vista material são sujeitos de acção civil que adere ao processo penal
e que como acção civil permanece até ao fim”.
O lesado para esses efeitos é toda e qualquer pessoa que, segundo as normas do direito
civil, tenha sido prejudicada em interesses seus juridicamente protegidos, ou seja, todos aqueles
que sofreram danos e que, segundo as regras de direito processual civil, tiverem a legitimidade
para formular o pedido indemnização.
O artigo 71.º, n.º 1, do CPP é claro em afirmar que: «sempre que o pedido de
indemnização for deduzido contra um responsável que não seja o agente do crime, deverá ser
representado pelo advogado». Ou seja, a representação é feita pelo advogado. O n.º 2 do mesmo
artigo delimitou os poderes do representante judiciária da parte civil, isto é, conferiu-lhe os
mesmos poderes do defensor do arguido.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Do Objecto do Processo
Definições (63):
Razão de Ser:
(63) Cfr. Mário Tenreiro – Considerações sobre o objecto do processo penal, pp. 1017 e ss e Paulo de Sousa
Mendes – Lições de Direito Processual Penal, 3.ª Edição / Reimpressão, Coimbra, Edições Almedina, S.A., 2015,
p. 145 e ss. Apud. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, 2.ª Edição – Reimpressão, Coimbra, Edições
Almedina, S.A., 2019, p. 194.
(64) O Objecto do Processo oferece uma blindagem ímpar contra a volatilidade e incertezas no concernente às
decisões jurídico-penais, ora porque evita o ne bis in idem, ora porque excepciona a litispendência permitindo o
julgamento de todas as vertentes de um crime plurifacetado praticado por um único agente, num ou em dois
processos diferentes e em único ou em vários momentos, ora porque confere eficácia ao caso julgado visto permitir
o julgamento completo de todos os factos integrantes a actuação criminosa, ora porque estende a actividade
probatória para lá do julgamento do processo em questão – o que justifica a reabertura do inquérito no processo
penal sempre que surdir novos elementos de prova propensos a gerar indícios fortes (vide. artigo 204.º-C do CPP).
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Daí que, é a própria estrutura acusatória do processo que exige – furtando aqui a expressão
do Professor Paulo de Sousa Mendes –, a identidade entre o acusado, o conhecido e o decidido.
Tudo isto é assim por conta do cumprimento das garantias processuais a bem dos
interesses quer do arguido, quer do público:
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Existe, neste particular, um manancial de ideias explicativas que não nos cabe aqui
recensear, uma vez que a finalidade a que estamos adstritos é a de gerar a compreensão rápida
e não propriamente a de realização de um estudo aturado e minucioso, razão por que apenas
iremos reproduzir as ideias que mais apreciamos, nomeadamente a de:
Professor Manuel de Cavaleiro Ferreira – que diz que o objecto sobre que incide o
processo tem de ser um facto concreto na sua existência real e não um conceito de facto, e o
conceito de identidade do facto não irá buscar-se, assim, ao direito material. Querendo com isso
dizer que a identidade do facto tem de ser apreciada naturalisticamente, como facto concreto e
real;
Professor Eduardo Correia – que, em jeito de discordância e crítica, vem dizer que a
construção naturalística do objecto do processo não logra dar soluções precisas e exatas ao
problema dos limites da identidade do facto; e,
Professor Paulo de Sousa Mendes – que, buscando a concretização, diz que a identidade
do objecto do processo tem que comportar uma dimensão subjetiva (respeitante à identidade do
arguido com a obviedade de que se mudar a referida identidade do arguido, mudará
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
automaticamente o objecto do processo) e uma dimensão objectiva (em que o enfoque vai para
o Nomen Iuris, querendo significar que se mudar/alterar a Qualificação Jurídica, por exemplo:
de furto para abuso de confiança, com base nos mesmíssimos factos, aqui sim o objecto do
processo não deverá mudar).
Ganhando um tema, as questões controversas que levam a uma boa decisão devem girar
em torno daquele mesmo tema com que o processo nasceu e o referido tema deve servir de base
da fundamentação da acusação (fase do inquérito), da pronúncia (fase da instrução) e da decisão
(fase do julgamento).
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(i) nos crimes públicos e semipúblicos o objecto do processo é fixado a partir do momento
em que existir a acusação pelo Ministério Público (artigos 204.º, ex. vi. 204.º-A, do CPP). Não
existindo acusação, o objecto do processo começa a fixar-se a partir do momento em que existir
o RAI (nos termos do artigo 206.º, n.º 2, do CPP);
(ii) nos crimes particulares o objecto do processo é fixado a partir do momento em que
existir a acusação particular.
Destes dois eventos para frente passa a vigorar o denominado “Princípio de Vinculação
Temática” que é um princípio que, dentre outros feitos, delimita ou, se se preferir, traça os
limites máximos do objecto do processo.
A fixação do objecto do processo nesta fase, ao existir, dá-se com a pronúncia, mas
existindo uma acusação dá-se por esta, não a existindo então dá-se com a exaração do RAI (nos
termos do artigo 206.º, n.º 2, do CPP), o que abre e ao mesmo tempo delimita, em parte, o
círculo dentro do qual o juiz de instrução pode realizar as suas diligências investigativas.
Atenção: uma questão se impõe, se essa nulidade não for detectada e o processo passar e
chegar às mãos do juiz do julgamento, pode este arguí-la de ex-officio?
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IV – A Alteração de Factos
Verifica-se, quase que com incessante frequência, que mesmo após a Fixação do Objecto
do Processo, surgem Factos Novos. Sobre isso ninguém discute.
--o Juiz de Instrução não poderá incluí-los (refere-se aos factos novos autonomizáveis ou
independentes) na sua decisão instrutória de pronúncia; e,
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Se houver “alteração não substancial de facto”, aqui não se coloca problemas de monta,
visto que o Código de Processo Penal dá soluções inquestionáveis nos números 1, 2 e 3 do
artigo 210.º, conforme se evidenciará infra:
no n.º 1 consta que, se no decorrer da instrução aparecerem factos novos que implicam
uma “alteração não substancial de factos” descritos na acusação ou no RAI, o Juiz de instrução
só tem de comunicar esse acontecimento, de ex-officio, ao defensor de suspeito (lê-se arguido)
dando-lhe um prazo para este defender e aquele deve adiar a audiência se for necessário;
no n.º 2 consta uma remissão para o artigo 83.º, n.º 1, conferindo, assim, ao defensor do
arguido o prazo de 5 dias – que é o prazo geral para a realização de qualquer acto processual –
, para este preparar a defesa sobre os referidos factos novos que não alteraram substancialmente
o objecto do processo; e,
no n.º 3 o legislador guineense é categórico em afirmar que o Juiz de Instrução pode levar
em conta, na sua decisão instrutória, os novos factos que não implicaram a alteração substancial
do objecto do processo, desde que, apenas, se cumpra as imposições legais resultantes dos n.ºs
1 e 2, ou seja: baste que o Juiz comunique a existência dos novos factos ao defensor e que lhe
dê 5 dias para preparar a sua defesa em relação aos tais factos novos.
Obs: temos um problema sério na Guiné-Bissau uma vez que o legislador processual
penal não nos ofereceu uma definição da Alteração Substancial de Factos, ao invés do que fez
o legislador português que plasmou a referida definição na alínea f), do artigo 1.º, do CPP-Pt.,
tendo resultado que se considera Alteração Substancial de Factos “aquela que tem por efeito a
imputação ao arguido de um crime diverso ou a agravação dos limites máximos das sanções
aplicáveis”.
Assim sendo, há que se agarrar nas regras de experiência para perceber duas coisas
fundamentais, a saber:
(i) a leitura atenta do regime guineense, quer dizer de dois números de dois artigos
referentes à alteração substancial de factos nas fases de instrução e de julgamento – está-se a
referir aos artigos 210.º, n.º 4, do CPP e 249.º, n.º 5, CPP –, conduz-nos à conclusão de que o
legislador ao proibir o tribunal de conhecer ou, melhor, de incluir na sua decisão, sob pena de
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Se quiser:
Considerar-se-á estar em face de uma Alteração Não Substancial de Factos sempre que
os novos factos não conduzirem a imputação ao arguido de um crime diverso ou não implicarem
a agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis.
(ii) às vezes, os factos novos que impliquem a alteração substancial podem coincidir com
aqueles factos novos susceptíveis de alterar a qualificação jurídica (só que nem sempre é assim).
Mas, atenção que, o inverso não é verdadeiro. Ou seja: a alteração da qualificação jurídica não
implica uma alteração substancial de factos.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
1.ª Nota: O Regime de Alteração Substancial de Factos ou, se quisermos ser mais
precisos, as consequências do surgimento de um facto novo no decorrer do processo conta com
duas sedes principais no ordenamento jurídico guineense, máxime no Código do Processo
Penal, que foram instituídas em função das fases processuais, abarcando apenas duas fases
processuais a saber: a fase de instrução e a de julgamento.
Logo, se os factos novos surgirem na fase de instrução ficamos a saber nitidamente que
o regime com que vamos trabalhar é o que está sedeado nos vários números do artigo 210.º do
CPP. Por seu turno, se os factos novos surgirem na fase de julgamento ficamos igualmente a
saber que o regime com que vamos trabalhar é o que está sedeado nos vários números do artigo
249.º do CPP.
De referir, para concluir, que estes dois artigos são quase que totalmente idênticos e
plasmam as mesmas soluções quer para os Factos Novos Não Autonomizáveis em relação ao
Objecto do Processo que Provocam a Alteração Não Substancial de Factos (ou se preferir, que
não provocam alteração substancial de factos) – compare os n.ºs 1, 2 e 3 do artigo 210.º com os
n.ºs 1, 2 e 4 do artigo 249.º, ambos do CPP –, quer para os Factos Novos Não Autonomizáveis
em relação ao Objecto do Processo que Provocam a Alteração Substancial de Factos – compare
o n.º 4 do artigo 210.º com o n.ºs 5 e 6 do artigo 249.º, ambos do CPP –, e quer para os Factos
Novos Autonomizáveis em relação ao Objecto do Processo – compare o n.º 5 do artigo 210.º
com o n.º 7 do artigo 249.º, ambos do CPP.
Se nos for exigido o apontar das diferenças entre estes dois artigos (210.º e 249.º) do CPP
diríamos que:
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a primeira diferença, e também a mais saliente diferença, é a de que o artigo 210.º versa
sobre o surgimento de factos novos na Fase de Instrução e só é utilizado para resolver questões
ligadas a esta fase, ao passo que o artigo 249.º versa sobre o surgimento de factos novos na Fase
de Julgamento e, igualmente, é só usado para dar soluções às questões atinentes a esta fase; e,
a segunda diferença é a de que o artigo 210.º reserva o seu n.º 6 para falar da alteração da
qualificação jurídica e concomitantemente conferiu ao juiz de instrução a prerrogativa de
efectuar a alteração da qualificação jurídica dos factos descritos na acusação ou no RAI (e o
artigo 249.º não contém uma norma similar quando na verdade deveria conter, tendo em linha
de conta que a alteração da qualificação jurídica pode ocorrer também na fase de julgamento),
o que ao juiz é permitido apenas quando a alteração da qualificação jurídica pretendida não
implicar a alteração substancial de factos, ou seja, apenas quando implicar a alteração não
substancial de factos e desde que ao defensor seja dado, pelo menos, 5 dias para preparar a
defesa sobre a nova qualificação jurídica, ao passo que o artigo 249.º reserva o seu n.º 3 para
falar da excepção à garantia de defesa delatada que assiste ao defensor (coisa que o artigo 210.º
não fez), querendo o dito significar que o defensor não terá benefícios de prazo de 5 dias quando
for ele próprio quem tenha alegado um facto novo que implica a alteração não substancial. Isto
é assim, porque presume-se ter já conhecido o facto e sobre ele já tenha meditado ao ponto de
não se olvidar de o invocar no julgamento, pelo que não precisa dos 5 dias para preparar a
defesa sobre os factos do seu conhecimento e da sua alegação.
Aqui chegados, urge perguntar o que fazer quando a nova qualificação jurídica levar à
alteração substancial de factos descritos na acusação ou no despacho de pronúncia? Ao que
teremos que responder que se trata de uma questão bastante discutida, não passível de reunir
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
Seja como for, temos apenas que demonstrar a posição que angariou a nossa simpatia e
que nos parece mais acertada, em que resulta a priori que os juízes, já agora, podem sim alterar
a qualificação jurídica mesmo quando conduz a alteração substancial de factos.
Professor Manuel Cavaleiro de Ferreira diz que o juiz é inteiramente livre na qualificação
jurídica dos factos acusados (66);
Professor Frederico Isasca considera que existe a liberdade de qualificação jurídica por
parte do tribunal (67) e esclarece que o princípio da vinculação temática não implica vinculação
à qualificação jurídica, visto que a modificação desta não tem como consequência a alteração
do objecto do processo (68);
Professor Ivo Miguel Barroso faz um paralelismo na qual resulta que o objecto da prova
são os factos, não a qualificação jurídica, e concluiu que seria ilógico o tribunal poder apreciar
livremente a prova, e em contraponto, negar-lhe a liberdade de qualificar os factos objecto do
processo (69); e,
(65) Havendo curiosidades incessantes, havendo interesses extra licenciatura em direito ou vindo a ser um tema
para a tese de mestrado ou doutoramento, deve-se ler, de forma aturada e para se ter uma visão holística, Ivo
Miguel Barroso – Estudos sobre o Objecto do Processo Penal, 1.ª edição, Lisboa, Vislis Editores, 2003, pp. 103-
122.
(66) Cfr. Cavaleiro de Ferreira – A Pronúncia, p. 23. Apud. Ivo Miguel Barroso – Estudos Sobre o Objecto...
op., cit., p. 107.
(67) Cfr. Frederico Isasca – Alteração Substancial de Factos, op., cit., p. 126.
(68) Cfr. Frederico Isasca – Sobre a alteração da qualificação jurídica em processo penal, p. 375.
(69) Cfr. Ivo Miguel Barroso, op., cit., p. 109.
(70) Apud., Ivo Miguel Barroso, Idem., p. 111.
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2.ª Nota: Trata-se de uma nota preponderante nesta matéria e nela há que
imperativamente ter a perfeita noção de que os factos novos sempre surgirão no decorrer de um
processo, e sobre isso ninguém pode fazer nada, e há que imperativamente separar, ab initio,
para a melhor compreensão, três (3) tipos de Factos Novos, qual sejam:
3.1. Factos Novos Não Autonomizáveis na Fase da Instrução – que conta com a
resolução mediante três teses / três construções doutrinárias a saber:
3.2. Factos Novos Não Autonomizáveis na Fase de Julgamento – que conta com a
resolução mediante duas teses / duas construções doutrinárias a saber:
Tal como o próprio nome indica, estes factos caracterizam-se pela possibilidade de serem
separados, destacados ou destrinçados daqueles factos inicialmente constantes no processo e
que constituíram objecto do processo, de tal sorte que, sem prejuízo para o processo em curso,
sejam criadas as condições para se iniciar um outro processo penal, sem violação do princípio
de Ne Bis In Idem.
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Dito isto, fica patente que o processo primitivo correrá os seus trâmites normalmente e
que os factos novos autonomizáveis não hão de ser considerados nele, nem para efeitos da
pronúncia, nem para efeitos da determinação da pena e nem para nenhum outro efeito.
Nesse caso, o julgamento deve prosseguir, e o arguido será apenas julgado por homicídio,
numa clara desconsideração do outro crime de violação. Crime esse que se, porventura, vier a
ser julgado, a condenação já deve ser em concurso de crimes e a uma pena conjunta que o
tribunal da última condenação deve somar a pena da anterior condenação.
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As dúvidas geralmente nascem em sede dos crimes complexos, nos quais existem a
manutenção duma filiação de especialidade em relação a dois ou mais tipos fundamentais (está-
se a referir ao tipos criminis).
Tem-se, neste âmbito, como exemplo paradigmático, o do crime de Roubo – artigo 151.º
do Código Penal –, que aglutina os elementos do tipo de crime de Furto – artigo 145.º do CP –
, do crime de Abuso de Confiança – artigo 147.º do CP –, e do crime de Violência após a
Subtração – artigo 152.º do CP.
Postula o Professor Paulo de Sousa Mendes (71) que não seria de admitir embarcar nos
meros expedientes formais, tripartindo um crime só para cumprir formalmente com os desígnios
do CP se isto mexe e não obedece o espírito de respeito pelo valor da pessoa do arguido e do
seu direito de defesa.
Com isso, não se deve querer o formalismo criminal que ia verificar-se com a tripartição
de, por exemplo, crime de Roubo, ao ponto de suplantar os princípios da indivisibilidade e
consumpção do objecto do processo, pois a não ser assim difícil seria observarmos a
manutenção do objecto do processo. Logo, por norma, nesses casos, o crime de Roubo não deve
converter-se em vários processos penais independentes.
(71) Cfr. Paulo de Sousa Mendes – Lições de Direito Processual Penal, 3.ª Edição / Reimpressão, Coimbra,
Edições Almedina, S.A., 2015, pp. 150-151.
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No fundo, por força do artigo 2.º do CPP, lança-se a mão da utilização dos artigos 276.º,
n.º 1, alínea c) conjugado com o artigo 279.º, ambos do Código de Processo Civil, para
suspender a instância, fazer retornar a acusação inicial ao MP – por se ajuizar incompleta ou
não integradora de facto novo não autonomizável que provoca a alteração substancial de factos
–, germinando para o MP o ónus de repetição do inquérito e criando, assim, a sensação de que
o juiz de instrução avalia a completude do trabalho do MP (o que, aos olhos nus, chocaria).
Esta tese tem o seu acento tónico na utilização, a par da anterior tese, da deixa dada pelo
artigo 2.º do CPP, em conjugação com artigo 288.º do CPC, para, em face do surgimento de um
facto novo não autonomizável do objecto do processo e que provoca a alteração substancial de
factos, na fase de instrução, absolver a instância e arquivar o processo (o termo “arquivar o
processo” aqui utilizado, podia gerar perplexidades sobre se não seria a usurpação, por parte do
juiz de instrução, das prerrogativas legalmente destinadas ao MP ou sobre se não corresponderia
ao termo “emissão de despacho de não pronúncia” que teria os mesmos efeitos práticos dos do
arquivamento e que propriamente caberia ao juiz de instrução. Mas, de facto, esta tese
preconizou a ideia de arquivar o processo na fase de instrução, tal como se evidenciará infra).
Quer dizer, segundo esta tese, o juiz de instrução nem se quer vai prosseguir com a
instrução propriamente dita, o que quer dizer que não vai emitir nem um despacho de pronúncia
e nem o de não pronúncia, como o que é habitual, mas sim emitirá uma decisão de forma – que,
no fundo, não é uma decisão de mérito da causa, mas apenas uma decisão que aprecie a questão
prévia de falta de poderes de cognição do juiz, motivado pela existência do obstáculo de falta
de um verdadeiro pressuposto processual relativo ao objecto do processo.
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Bem, parece que a alteração substancial de factos daria azo à inexistência da acusação,
que colocaria o juiz de instrução numa situação de absoluta incompetência em razão da matéria,
que configuraria na falta de um pressuposto processual que fundamenta a absolvição da
instância.
O Professor Paulo de Sousa Mendes critica novamente esta solução e rejeitou-a por ser
frontalmente contrário ao princípio da legalidade e por aderir ao princípio da oportunidade – o
que não é admissível, justamente porque lava ao juiz a não decidir, contrariando a obrigação de
decidir que é inerente a sua função, in casu, de pronunciar os factos do objecto do processo, só
porque a este acresce um outro facto novo não autonomizável e só por isso o juiz já considera
que é inoportuno decidir – o que seria equiparável a invalidação de uma acusação sem mais
nem menos (72).
Esta tese é, na verdade, a que mais faz sentido dentre as três, visto que é a única, segundo
a opinião do Professor Paulo de Sousa Mendes (73), a qual nós aderimos, que oferece uma
resposta / solução compatível com a concreta estrutura acusatória do nosso processo penal, na
qual a função do juiz de instrução é materialmente judicial e não materialmente policial ou de
averiguações.
(72) Cfr. Paulo de Sousa Mendes – Lições de Direito Processual Penal, op., cit., pp. 153-154.
(73) Cfr. Idem., p. 154.
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No seguimento desta tese o Professor Paulo de Sousa Mendes não inoculou nada do já
não havia inoculado nos argumentos de que se serviu para fundamentar posição que tomou na
tese de continuação do processo na fase de instrução.
Se quiser, repetiu os mesmos argumentos segundo aos quais os factos novos não
autonomizáveis em relação ao objecto do processo que provocam a alteração substancial de
factos devem ser ignorados pelo juiz julgador que deverá prosseguir julgando apenas os factos
que haviam constados no objecto do processo inicialmente fixado.
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substancial de factos, sancionando com a nulidade uma eventual actitude do juiz de julgamento
ou, se se preferir, de juiz julgador nesse sentido.
O regime fixado no artigo 249.º é deveras curioso e merece maior elucidação tendente a
evitar incompreensão, se não vejamos:
O n.º 5 inculca a clara ideia de que a Alteração Substancial de Factos implica a imputação
ao suspeito de um crime diverso ou a agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis.
Diz a norma que «é nula a sentença que condenar por factos diversos dos descritos na
acusação ou na pronúncia, se a houver, fora dos casos e das condições previstas nos números
3 e 4, e nos casos em que o Ministério Público, o suspeito e o assistente estiverem de acordo
(74) Cfr. Germano Marques da Silva – Direito Processual Penal Português. Noções e Princípios Gerais.
Sujeitos Processuais. Responsabilidade Civil conexa com a Criminal. Objecto do Processo, Lisboa, Universidade
Católica Editora, 2017, p. 385. Apud. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, 2.ª Edição – Reimpressão,
Coimbra, Edições Almedina, S.A., 2019, p. 194.
(75) Cfr. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, 2.ª Edição – Reimpressão, Coimbra, Edições
Almedina, S.A., 2019, p. 194.
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Duma leitura atenta desta norma pode resultar várias interpretações – e há que dizer que
a norma não é muito bem redigida –, desde logo:
(i) a sentença que condenar por factos diversos dos descritos na acusação ou na pronúncia
é nula tout court;
(ii) se houver a condenação fora dos casos e das condições previstas nos números 3 e 4 –
o que inculca a ideia de se estar a referir a condenação por factos diversos mas que não implicam
a alteração substancial de factos, se quiser que implicam a alteração não substancial de factos,
que são casos em que os tais números 3 e 4 concluíram no sentido de deixar o tribunal conhecer
desses factos desde que dê ao arguido um prazo para a preparação da defesa (que é subentendido
como sendo de 5 dias – artigo 249.º, n.ºs 1, 2 e 4 conjugado com o artigo 83.º, ambos do CPP).
Por essa mesma linha de raciocínio, deve-se ter por assente que o tempo de preparação de defesa
não é devido ou não é observado se for a própria alegação da defesa que gerou a alteração;
(iii) nos casos em que o Ministério Público, o suspeito e o assistente estiverem de acordo
com a continuação do julgamento pelos novos factos – deve-se perguntar aqui, que novos factos
estará a norma a referir? Serão os novos factos que provocam a alteração substancial ou serão
os que não provocam a alteração substancial? Há dois entendimentos possíveis.
No segundo, pode-se tomar como primordial uma leitura desgarrada dos anteriores
números e concluir em função da parte final da norma que reforçou com a “não determinação
da incompetência do Tribunal” para dizer que os factos novos referidos no n.º 6 podem ser:
quaisquer factos diversos dos descritos na acusação ou na pronúncia (repare que estes não
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Tomamos como fiel este último entendimento, que na verdade não é incongruente com o
primeiro, por nos parecer aquele que mais se assemelha com a estruturação do regime
guineense, isto é não abarcando os factos novos que provocam alteração substancial de factos,
por via de agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis – o que altera verdadeiramente
e quase que sempre os factos. Ou seja, quanto a nós, a concordância dos sujeitos processuais só
é válida em relação aos factos novos que não provocam a alteração substancial de factos e desde
que não determinem a incompetência do tribunal.
Mas atenção que, há posição que roça a aceitabilidade da concordância dos sujeitos
processuais sem se preocupar com a natureza dos factos novos, podendo eles implicar quer a
alteração não substancial, quer a alteração substancial, como, de resto, parece resultar da
descrição inicial da Professora Maria João Antunes, passamos a citar «(…) ressalvam-se as
situações em que o ministério público, o arguido e o assistente estiverem de acordo com a
continuação do julgamento pelos novos factos, caso em que é dado ao arguido, se requerido,
prazo para preparação da sua defesa. Há aqui uma entorse ao princípio da acusação, no
sentido de ser uma mesma entidade, o juiz de julgamento, a “investigar”, a “acusar” e a
“julgar”. Tal ocorre em nome da celeridade e da economia processuais, legitimando-se na
concordância daqueles sujeitos processuais e, em geral, em uma ideia de abertura a soluções
processuais consensuais (…)» (76). Atenção que esta solução não vincou em Portugal após as
alterações introduzidas no CPP-Pt em 2007.
(76) Cfr. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, op., cit., p. 195.
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Nota final: o arguido tem sempre o direito de se defender dos factos que lhe são
imputados, bem como da qualificação jurídica dos mesmos factos – o que confere relevância à
distinção entre a auto-defesa que o arguido faz em relação aos factos a que lhe são imputados e
a defesa técnica que o arguido faz, por via do seu defensor, em relação a qualificação jurídica
dos factos que lhe são imputados.
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Directório:
O Código de Processo Penal dedicou 5 densos capítulos aos actos processuais, que vão,
desde logo, dos artigos 77.º a 111.º, sendo certo, e convém que seja já dito, que “todo o processo
penal ou todo o Código Processual Penal é uma sequência de actos processuais”.
Procedimento VS Processo
Processo – é o modelo legal da sequência de actos que nascem com a notícia criminis ou,
melhor, com acto da abertura do inquérito ordenado pelo Ministério Público.
Capítulo I
Vai dos artigos 77.º a 81.º do CPP e diz respeito às Disposições Gerais;
Sinaléticas Importantes:
Artigo 78.º do CPP versa sobre a publicidade do processo – que é uma garantia de
transparência da justiça e consequentemente um modo de facilitar a fiscalização da legalidade
do procedimento.
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Artigo 80.º do CPP fala de segredo de justiça – que é uma garantia de eficácia na
investigação e consequente desmantelamento das manobras dos criminosos em frustrar a
descoberta da verdade, devendo somar a tudo isto o facto de ser igualmente a garantia de defesa
da honra e consideração devidos ao suspeito e, outrossim, visa evitar a exposição da vítima,
preservando a sua intimidade, mormente nos crimes de violação sexual ou abuso sexual.
(ii) – a relação quase que harmónica existente entre as secretarias do tribunal e a imprensa
– em que as pessoas que têm acesso recorrente aos autos do processo e facilidades de
reprodução dos documentos facultam-nos aos interessados; e,
Capítulo II
Vai dos artigos 82.º a 94.º do CPP e diz respeito ao tempo (prazos), forma e a
documentação dos actos;
Destaques:
Artigo 83.º dispõe sobre o prazo geral para a prática de qualquer acto processual e diz-
nos que é de 5 dias;
Artigo 85.º versa sobre a contagem dos prazos para diferentes actos e para diferentes
momentos;
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Tem por função permitir a coordenação dos diversos actos, sob um ponto de vista
temporal, garantindo a celeridade da decisão dos processos, a certeza e estabilidade das
situações jurídicas, o tempo necessário para a afirmação e defesa dos direitos e a salvaguarda
de direitos fundamentais, a liberdade em função da duração das medidas de coacção na sua
modalidade mais severa que é a prisão preventiva e da própria detenção.
Os prazos dilatórios – são os que marcam o momento a partir do qual o acto processual
pode ser praticado ou ter início a sua execução, a qual se encontra, de certo modo, suspensa no
decurso do prazo. Ex.: o prazo para a declaração de contumácia – que é uma forma de pressionar
o arguido a comparecer perante o juízo mediante a congelação de todos os seus bens (património
e contas bancárias) conhecidos e registados em seu nome no país onde decorre contra ele o
processo –, e que só pode ser declarada decorridos trinta dias da notificação edital para que o
arguido se apresente em juízo. Atenção que ainda não temos a contumácia no nosso regime,
mas já é hora de sabermos o que é e quais são os seus efeitos práticos abonatórios ao processo.
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Artigo 87.º fala da nomeação do interprete nas situações em que existir documentos
escritos nas línguas estrangeiras ou nas que requer a prestação de declarações de surdos, mudos
e surdos-mudos que não sabem escrever. O artigo citado fala da nomeação do intérprete e da
obrigação que sobre ele impende de prestar o compromisso, dando azo para a diferenciação
subsequente:
Compromisso VS Juramento
Juramento – é sob a forma oral e sob os seguintes dizeres: “juro, por minha honra, dizer
toda a verdade e só a verdade”. Quem presta o juramento no âmbito do processo penal são as
testemunhas (Cfr. artigo 122.º, n.º 2, alínea c)).
Capitulo III
Vai dos artigos 95.º a 98.º e diz respeito às notificações (que podem ser: (i) pessoal; (ii)
edital; (iii) verbal; e (iv) telefónica);
Destaques:
Artigo 95.º fala de notificação e abriu-se uma brecha para a contemplação de notificação
telefónica, no n.º 2, tendo preferido a denominação “convocação telefónica”, telegrama ou por
outro meio de telecomunicação, em caso de manifesta urgência. O n.º 4 do mesmo artigo parece
versar-se sobre a notificação verbal.
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Artigo 96.º diz respeito as formas de notificação, tendo falado no n.º 1 de notificação: por
via de contacto pessoal com o notificado (aqui se encaixa, na perfeição, as modalidades de
notificação pessoal e verbal – sem descurar do dito supra), por via postal através de carta
registada ou por via de edital.
O n.º 2 do artigo 96.º é deveras importante, porquanto fala, em detalhes, dos denominados
Actos de Notificação Pessoal – entende-se do assistente e do suspeito/defensor –, que são:
O n.º 5 fala da notificação da pessoa presa (é uma notificação feita através de contacto
pessoal, é requisitada ao Director de estabelecimento prisional que mandará efectuar por
funcionário prisional);
Artigo 98.º fala da diversas ocorrências que levam a nulidade de uma notificação.
Capítulo IV
Vai dos artigos 99.º a 104.º do CPP e diz respeito ao registo criminal;
Capítulo V
Vai dos artigos 105.º a 111.º do CPP e diz respeito às nulidades dos actos processuais.
Destaque:
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Atenção: Existem ainda outros actos ou eventos tidos como processuais sedeados fora
desta sequência do Código de Processo Penal, como são os casos de:
1.ª Classificação:
1.2. – Actos de Desenvolvimento – acto de acusação – artigo 48.º, alínea b), e artigo 204.º,
ambos do CPP.
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2.ª Classificação:
2.1. – Actos Determinantes – são aqueles que produzem efeitos jurídicos em atenção à
vontade do agente. Ex: acusação particular e desistência da queixa.
2.3. – Actos de Execução – são aqueles que se limitam a dar expressão material a efeitos
jurídicos produzidos, embora essa expressão material possa produzir também efeitos jurídicos.
3.ª Classificação:
3.1 – Actos dos Sujeitos Processuais (do Tribunal, do Juiz, do Ministério Público, do
Arguido, do Assistente).
4.ª Classificação:
4.1. – Actos Materiais – são aqueles que produzem efeitos processuais através de
alterações de situações de facto.
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5.ª Classificação:
5.1. – Actos Repetíveis – geralmente são repetíveis todas as diligências de prova realizada
no decurso de inquérito e da instrução, com excepção das declarações pessoais.
6.ª Classificação:
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7.ª Classificação:
7.1. – Actos Decisórios – são actos que dão solução ao processo, pondo-lhe termo,
conhecendo ou não o seu objecto, ou a qualquer questão interlocutória.
7.1. a) – Actos Decisórios do Juiz – são actos que põem termo a uma questão,
definitivamente ou num dado grau de jurisdição, optando o juiz por uma de entre duas ou mais
soluções possíveis.
7.2. b) – Actos Decisórios do Ministério Público – São actos decisórios os que põem
termo à fase do inquérito ou em que o MP dá solução a uma questão.
7.2. – Actos não Decisórios – não são actos decisórios, por exemplo, os actos de mero
expediente e nem os são aqueles que não traduzem a solução de qualquer questão.
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Nesta sede, pouco acrescentou a doutrina fora dos prenúncios efectuados pelo legislador
do Código de Processo Penal guineense, se não vejamos:
O artigo 105.º plasma a tipicidade das nulidades e determina, isto é, bipartindo a forma a
que os vícios processuais penais assumem, tendo vaticinado, no n.º 1, que estaremos em face
da forma mais grave da categorização dos vícios processuais, refere-se a nulidade dos actos
processuais apenas quando a lei expressamente o determinar. Já do n.º 2 resulta, por exclusão
de partes, que os vícios dos actos processuais assumirão a denominação de irregularidades
quando, não obstante violadores ou inobservadores das normas de processo penal, não
apresentarem a denominação de nulidade.
O vício mais grave, que é a nulidade, encontra-se dividido em: nulidades sanáveis e
nulidades insanáveis.
São as nulidades insanáveis as constantes do catálogo fixado nas várias alíneas do n.º 1
do artigo 106.º do CPP e não só (mas sobre isso falaremos mais adiante), e tratam-se de
nulidades que não carecem de arguição por parte do seu verdadeiro beneficiário e nem carecem
da verificação de prazos preclusivos, por assim dizer, uma vez que são de conhecimento
oficioso, querendo isto significar que podem ser arguidas oficiosamente (por MP ou por
Tribunal) e igualmente podem ser arguidas em qualquer das fases tradicionais ou consensuais
do processo (são elas a de inquérito, a de instrução e a de julgamento), contando que só vão
poder ser arguidas, no máximo, até ao trânsito em julgado da decisão final, conforme de resto
resulta do n.º 2 do supra referido artigo.
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São nulidades sanáveis todas as que a lei não tenha apelidado de insanáveis com o enfoque
para o catálogo constante nas várias alíneas do n.º 1 do artigo 107.º do CPP, e tratam-se de
nulidades dependentes de arguição, não só por parte dos sujeitos processuais, mas sim por parte
de todos os intervenientes processuais que as não originaram, dentro do prazo legalmente
determinado. De referir que o prazo é de cinco dias previsto no artigo 108.º, n.º 1, do CPP, que
é considerado, sem margem para a dúvida, um prazo peremptório. Finalmente, a sanação deste
tipo de nulidade é feita por recurso às normas do artigo 109.º do CPP.
Os vícios menos graves são as irregularidades que se encontram plasmadas no artigo 110.º
do CPP, tendo resultado do seu n.º 1 que os actos irregulares serão considerados inválidos
quando o vício puder pôr em causa o valor do acto praticado de modo a comprometer a
descoberta da verdade. A declaração da irregularidade segue os prazos constantes do artigo
107.º do CPP. As irregularidades podem ser oficiosamente reparadas se se reunir os requisitos
para o efeito, isto é, se não der azo ao comprometimento da verdade e nem à violação de
algumas garantias processuais.
As normas do artigo 111.º do CPP são deveras importantes, porquanto o n.º 1 fixa a
competência subordinada às fases processuais para declarar a nulidade ou irregularidade dos
actos processuais, o que não deixa dúvidas que apenas habilita o MP e o Tribunal a declararem
as nulidades ou irregularidades dos actos processuais e porquanto o n.º 2 determina o grau de
afectação, tendo abarcado não só o acto afectado, assim como os termos subsequentes do
processo que possam conter máculas.
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Da Prova
E no concernente a este último são apontadas algumas invalidades, havendo uma violação
ou inobservância das disposições da lei sobre o processo penal.
Obs: A descoberta do conceito de prova impõe certo exercício ou, se quiser, vários
exercícios são precisos, mas apraz-nos apenas fazer o seguinte:
e logicamente que →
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e naturalmente que →
Daí que a actividade probatória destina-se a convencer da existência ou não dos factos.
Do conceito arcaico da prova resulta um espelhar da sua função, razão por que se afirma
que a prova tem por função a demonstração da realidade do facto.
Só que esta noção não nos serve hodiernamente, porquanto não esgota a finalidade da
prova, daí ser necessário adicionar àquela noção a finalidade de realização de um processo justo
e equitativo. Isto porque, só faz sentido condenar quem efectivamente praticou o facto
criminoso.
Por isso que deve-se concluir que a função ou as finalidades do processo são a
demonstração da realidade do facto e a garantia da realização de um processo justo – o que veda
a possibilidade de as autoridades judiciárias procurar demonstrar a existência dos factos a
qualquer preço, sendo em definitivo permitida a tal demonstração apenas por recurso aos meios
lícitos.
O termo prova suscita várias discussões e implica uma utilização num tríplice sentido, a
saber:
a) – Prova como actividade probatória – que são actos ou complexo de actos destinados
a formar a convicção da entidade decisória sobre a existência ou não de uma determinada
situação factual;
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c) – Prova enquanto meios de prova – que é aquele instrumento probatório para formar
aquela convicção.
Esta presunção não é um mero postulado ideal, mas sim um verdadeiro princípio de prova,
directamente vinculante às autoridades na sua totalidade.
Protege os suspeitos que só deverão ser julgados culpados após a demonstração dos factos
a que são imputados através de uma actividade probatória inequívoca.
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Impõe este princípio que qualquer dúvida existente no capítulo de prova seja valorada a
favor do arguido.
Diga-se de passagem que a questão de ónus de prova não tem relevância em processo
penal uma vez que a dúvida sobre o facto resolve-se em função do princípio da presunção de
inocência.
E, alertou ainda que esta unanimidade já não é tão dominante no concernente à ónus de
prova em sentido material – que se traduz na ideia de sujeição às consequências desfavoráveis
resultantes da falta de prova. Ex.: Se eu, na qualidade de arguido, poder e ter como facultar
provas que dissipam o Fummus Comici Delicti que paira sobre mim, devo ou não fazê-lo?
No sistema português é notório que é sobre a acusação que recai a incumbência de provar
os factos imputados ao arguido – logo é como que há um ónus material que incumbe à acusação.
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Autores há que acharam que impende sobre o arguido a prova das circunstâncias
justificativas ou desculpantes por si alegados. Mas, conclui o Professor Germano Marques da
Silva que este entendimento viola o princípio da presunção de inocência, na justa medida em
que poderia conduzir à condenação de uma pessoa por um facto que talvez pudesse não ser
punível, por diversas circunstâncias nomeadamente por ser duvidoso por falta de prova.
O Princípio da Investigação
Inculca a ideia de que sobre o juiz recai o encargo de investigar e esclarecer oficiosamente
o facto submetido ao julgamento.
O princípio da investigação tem a sua sede no artigo 228.º do Código de Processo Penal.
Trata-se de uma verdade resultante do contraditório – artigo 222.º do CPP – ou seja das
alegações de facto da acusação e da defesa e da prova dessas alegações.
A própria natureza da sanção penal (lembrar aqui que o Penal tem mecanismos reactivos
enérgicos que mexem com as liberdades), considera a verdade processual insatisfatória,
porquanto transporta com ela a ideia insuportável de que alguém possa ser penalmente punido
só porque a sua defesa é fraca face a acusação.
Chegados aqui deve-se concluir que o interesse dos órgãos de administração da justiça
(MP e o Tribunal) é única e exclusivamente a realização da justiça, isto é condenando o culpado
e absolvendo o inocente, daí que o Tribunal é obrigado a procurar a verdade histórica para
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
melhor realização da justiça, suprindo, dentro dos limites legais, e respeitando ao máximo o
princípio da vinculação temática, as deficiências dos demais sujeitos processuais ou
intervenientes processuais.
Assim, é chegado a verdade material quando o próprio tribunal faça o uso das suas
prerrogativas de investigação – ordenado ou possibilitado pelo princípio da investigação –,
suprindo algumas debilidades e inverdades ou, se quiser, também é-lhe chegado quando o
tribunal se recusa de ser passivo na aquisição e na produção da prova.
O Direito à Prova
Ora, a única imposição legal existente é que as tais convicções sejam balizadas ou, se se
preferir, que assentassem nas chamadas:
--Regras de Experiência; e,
--Critérios da Lógica.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
A prova pericial tem a sua sede no artigo 133.º e ss, máxime no artigo 136.º do CPP.
Princípio da (…)
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Visa a conservação de provas recolhidas noutras fases anteriores para serem apresentadas
e discutidas em audiência de julgamento. Ex: artigo 54.º, art. 58.º, n.º 1, art. 137.º, n.º 1, art.
141.º, n.º 1 e art. 194.º, alínea b), 198.º e 219.º, ambos do Código de Processo Penal.
De resto, entende o Professor Paulo de Sousa Mendes que, também, são mecanismos de
tutela cautelar da prova todas as medidas de coação.
__________________________________________________________________
A Prova
1 – As definições da prova
1.2. A Prova enquanto meios de prova – são elementos com base nos quais os factos
relevantes podem ser demonstrados.
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1.4. A Prova na sua acepção prosaica – isto é enquanto provas materiais, são os
objectos relacionados com a preparação e a prática do facto qualificado como crime. Aqui a
palavra prova vem retratar os objectos relacionados com o crime ou que possam servir de prova.
Pode-se pensar que contamos com um regime falaciosamente aberta, livre e democrática
resultante dos dizeres do legislador processual guineense, fundamentalmente quando nos diz
que “em processo penal é admissível qualquer meio de prova que não seja proibido por lei” no
artigo 113.º do Código de Processo Penal.
Ou seja: a tal liberdade é falaciosa em tese tendo em conta que a escolha de meio de prova
deve respeitar a tipicidade e a taxatividade – o que afasta liminarmente a liberdade de escolher
outros meios diferentes dos dos taxados ou tipificados. Mas, sobre isto, afirma o Professor
Germano Marques da Silva que não são só os meios de prova tipificados ou regulamentados
por lei que são admitidos, mas sim todos os que não forem proibidos, mesmo sendo atípicos.
As Proibições de Prova
Trata-se de uma denominação inventada por Beeling, doutrinador alemão, que abrange
quer as proibições de produção de prova quer as proibições de valorações de prova.
(i) Na proibição da produção de prova, o que é proibido é a actuação inicial por virtude
da qual se ia obter uma certa prova.
(ii) Na proibição da valoração de prova, o que é proibido é a actuação contínua por virtude
da qual ia-se validar a produção de certa prova. De referir que tudo isto levaria a seguintes
consequências:
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Doutrina Extremista – admite, em síntese, que a prova obtida ilicitamente deve ser válida
e eficaz, responsabilizando quem o obtiver por meios ilícitos. Ora, se assim fosse, haveria
agentes da autoridade (polícias e não só) obcecados em perseguir e prender certos criminosos
que não importariam certamente como as consequências que sofreriam, desde que cumprissem
com as suas obsessões de prender ou de obter as provas.
Doutrina Moderada – considera que a única sanção eficaz para impedir os abusos na
obtenção de prova é a de inadmissibilidade de toda a prova ilicitamente obtida, com o natural
acréscimo de responsabilização disciplinar ou criminal destinada aos violadores do princípio
da lealdade processual.
Nota: o regime de proibição de prova foi pensado para tutelar os direitos ou interesses
fundamentais dos cidadãos, mas representa um limite sério à descoberta da verdade.
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Pode-se, por hipótese, encaixar aqui a proibição do meio de prova – escutas telefónicas –
tendentes a captar comunicações efectuadas entre o Suspeito (deve-se ler Arguido) e o
Defensor, conforme atesta o n.º 3 do artigo 144.º do CPP, se bem que isso diz mais respeito ao
direito de liberdade.
O Princípio chave nessa matéria diz-nos que os meios de prova não devem ser obtidos
mediante procedimentos contrários dos direitos de liberdade, salvo nos casos em que a própria
constituição estabelecer.
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tortura, coacção, ofensa à integridade física ou moral da pessoa, abusiva intromissão na vida
privada, no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações.
Já o Código de Processo Penal obedeceu uma abordagem mais apropriada visto que dele
pode-se retirar a seguinte leitura:
A Tortura, a coacção ou ofensa à integridade física ou moral das pessoas, em geral, são
métodos absolutamente proibidos de obtenção de provas. Vide. Artigo 114.º do CPP.
(iii) – A revista deve respeitar o pudor do visado – artigo 38.º, n.º 3, do CPP;
(v) – A busca domiciliária só pode ser feita entre 06h00 e 20h00 – artigo 139.º
do CPP.
Nesta esteira algumas questões não se calam, como por exemplo a de saber se existe ou
não a autorização por parte do mandante ou então se se carece ou não da tal autorização numa
situação de flagrante delito?
O que levará a chamada de atenção no seguinte sentido, nos crimes comuns e habituais
as formalidades têm que ser observadas, contudo nos chamados crimes organizados ou
criminalidade organizada e transnacionais, as buscas e revistas, intromissão no domicílio, nos
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escritórios e escutas, são permitidas mesmo sem consentimento do titular do direito em causa,
desde que houver para o efeito a autorização do juiz e existir situação de flagrante delito.
Ora mesmo assim a pergunta continua a não calar, porquanto importa ainda saber se
inexistindo a autorização do juiz, imaginemos numa situação dos policiais à paisana que
detectaram uma rápida preparação dum ataque a bomba dum suposto camicase que terá
execução imediata e que ceifará várias vidas e provocará várias lesões ao corpo de várias
pessoas e sendo incompatível e impossível obter a autorização do juiz naquele curto espaço de
tempo, deverão os policiais actuar ou não para impedir a explosão da bomba mesmo que
implique abater o camicase antes de apertar o detonador da bomba?
É na verdade uma questão de difícil resposta, mas atendendo a lesividade do bem jurídico
em causa a qual só é compreendida a Vida e a Integridade Física, a actuação policial não poderá
ficar dependente da autorização do juiz servindo-se do fundamento de que no âmbito dos
poderes gerais dos polícias previstas no artigo 54.º do CPP, têm por obrigação, e por iniciativa
própria, impedir a prática do crime e quando se de um crime altamente violento se tratar a tal
obrigação cresce e assume as vestes duma imperatividade.
A proibição abarca a não utilização e a não repetição das mesmas provas por outros meios.
Ex.: O polícia que invade sem autorização judicial, nem consentimento do proprietário
da casa e descobrir a arma do crime.
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Afirmações:
Ex.: Os tunezas = Julgamento do Cabrito. Ex.: Uma busca domiciliária para apreensão de
documentos relevantes para a descoberta do crime que conduziu a apreensão do diário íntimo
no qual se confessou os factos criminosos, marcação de datas reveladoras de crimes
incestuosos, etc.
Uma prova obtida por intermédio de uma testemunha que não presenciou directamente o
facto, mas que afirma ter escutado de alguém que viu ou que ouviu os factos que ele quer relatar,
tem uma validade condicionada. Isto é, só servirão se eventualmente a pessoa referenciada
depor e confirmar, na primeira pessoa do singular, tudo o que viu ou ouviu.
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Se assim não for, o primeiro depoimento ou a parte dele deve ser considerado de
inexistente, pelo menos é o que se consegue retirar da norma do n.º 2 do artigo 118.º do CPP.
Esta situação não é catalogada como sendo uma nulidade, pelo que deve-se concluir que se trata
duma irregularidade.
Efeito à Distância
Excepção: Uma das raras excepções nesta matéria prende-se com a chamada Descoberta
Inevitável adveniente do caso Nix vs Williams de 1984, em que o Supremo Tribunal dos EUA
aplicou o conceito de Descoberta Inevitável para admitir como prova o cadáver da vítima, que
tinha sido descoberto pela polícia mediante uma confissão do arguido obtida de forma ilegal.
Na verdade o Tribunal considerou que o cadáver teria na mesmo sido descoberto pelas equipas
de busca.
Professor Paulo de Sousa Mendes, Helena Morão e Pinto de Albuquerque recusaram esta
excepção.
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Conhecimento Fortuitos
Fortuitamente descobriu-se factos paralelos mas que não cabem dentro do catálogo do
crime que estava a ser investigado.
Mas imaginemos que a descoberta incidiu sobre um crime de violação sexual praticado
contra uma menor de idade, aí sim as provas terão de ser valorados.
No regime guineense não há previsão dos Agentes Encobertos ou, grosso modo, das
Acções Encobertas, pelo menos no Código de Processo Penal, contudo existe uma anunciação
reconduzível às acções encobertas pressentidas directamente das entregas controladas prevista
na Lei da Droga, Decreto-Lei n.º 2-B/1993, concisamente no artigo 34.º, que referiu os Agentes
Encobertos como sendo funcionários de investigação criminal. Nesta senda, torna imperativo
visitar o artigo 31.º, n.º 1, do mesmo diploma para ter a noção sobre a autorização das acções
encobertas, adiantando que podem ser autorizadas pelo Ministério Público ou caso a caso
(podendo isso significar a Direcção da Polícia Judiciária, quando não for pelo MP, na fase do
Inquérito, e o Juiz, na fase de instrução).
Assim, por aquilo que consta no direito a constituir, consideram-se Acções Encobertas
aquelas que são desenvolvidas por funcionários de investigação criminal ou por terceiro
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actuando sob o controlo da Polícia Judiciária enquanto representante digno dos Órgãos da
Polícia Criminal para prevenção ou repressão dos crimes indicados na lei (CPP e Lei de
Investigação Criminal), com ocultação da sua qualidade e identidade.
Os crimes que integram o âmbito das acções encobertas são vários, por exemplo,
homicídio, crimes com engenhos explosivos, contra autodeterminação sexual, fraude em
concurso público, tráfico de estupefacientes, etc…
Nota: Os Agentes Encobertos não são propriamente agentes infiltrados, em tese, mas
cumprem a mesma tarefa no interesse da investigação.
No direito a constituir existe um artigo que, de forma expressa, fala da Exclusão Legal,
na epígrafe, em que ficará patente que as provas produzidas por Agentes Provocadores não será
valorada e mesmo as produzidas pelos agentes encobertos ou infiltrados fora do âmbito da
infiltração ou fora dos limites da legalidade dos factos por eles praticados motivados por
negligência, erro, curiosidade compreensível ou vis absoluta.
A sanção legal é a não valoração das provas produzidas, sendo certo que ficou
salvaguardada a não punibilidade das suas condutas, mas são capazes de incorrerem em sanções
disciplinares para evitar as possíveis obsessões no decurso da investigação.
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Meios de Prova
Nota Prévia: O Código de Processo Penal guineense não faz uma distinção entre os
chamados Meios de Prova e os Meios de Obtenção de Provas que constam igualmente no Título
V, mas já do Capítulo III, respeitantes aos artigos 137.º a 147.º. Tratou-os todos com sendo
meios de prova – o que faz brotar a natural pergunta sobre se o legislador verdadeiramente quis
confundir o meios de prova com o meio de obtenção de prova ou se se trata de um mero erro
de escrita ou da impressão do Código de Processo Penal. Queremos acreditar que tudo não
passa de um mero erro, porque na realidade:
(78) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, II Vol., Lisboa, Editorial Verbo, 1993, p. 81.
(79) Cfr. Germano Marques da Silva – Ibidem.
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permitida a modificação do modelo legal do meio de prova. Não há liberdade para alterar as
regras dos meios de prova já disciplinados no Código.
Contudo, assume maior força ou menor força probatória em função da forma do processo.
Assim:
Atenção: o Auto de Notícia não prova o crime, mas prova os factos materiais dele
constantes, enquanto prova bastante.
1. Prova Testemunhal
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Tem Capacidade para Testemunhar qualquer pessoa que tiver aptidão física e mental,
conforme resulta do artigo 119.º, n.º 1, do CPP.
2.1. Inábeis por Incapacidade Natural – tem que ver com aquelas testemunhas que
não têm as referidas capacidades físicas e mentais obrigatórias nos termos do n.º 1 do artigo
119.º do CPP, ora por terem anomalia psíquica, ora por terem problemas visuais ou auditivas
de tal forma que podem confundir o acontecido, ora porque padecem de Alzheimer que lhes
gerou um apagão na memória, ora por serem menores de 07 anos de idade conforme o plasmado
no artigo 617.º, alínea c), do CPC aplicável por força do artigo 2.º do CPP.
2.2. Inábeis por Imposição da Lei – diferentes situações podem ser integrados aqui,
desde logo:
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Logo, não é admitido ab initio a chamada Testemunha de Ouvi Dizer, porque essa testemunha
não teve nem o conhecimento directo, nem o contacto directo com o facto que quis testemunhar,
não resultou das suas convicções pessoais e nem dos seus conhecimentos técnicos, científicos
ou artísticos. Contudo pode esse tipo de testemunha ser admitida se eventualmente a testemunha
que ouviu dizer indicar a outra que teve conhecimento directo dos factos e esta depor
confirmando as declarações da primeira, conforme resulta, de resto, do artigo 118.º, n.º 2, do
CPP.
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ascendentes nas causas dos descendentes e vice-versa, o sogro ou a sogra nas causas do genro
ou nora, e vice-versa, o marido nas causas da mulher, e vice-versa, os que, por estado ou
profissão, estejam vinculados ao sigilo profissional, quanto aos factos abrangidos por este.
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No meio disto tudo, fica por responder a questão em que num determinado processo
termos uma testemunha essencial para descoberta da verdade que não está abrangido por
imunidades, nem prerrogativas e nem recusas, mas que apenas nega a colaboração com a justiça
ou nega testemunhar ou até falta deliberadamente todas as audiências em que devia
testemunhar.
A questão é, qual mecanismo a ser usado para fazer-lhe comparecer? Pode ser detido e
constrangido a testemunhar?
--o de alínea a) – que é o dever de apresentar no tempo e no lugar para que for
notificado;
→ O artigo 186.º, n.º 1, do CPP prevê a detenção do interveniente que faltar acto
processual com excepção do magistrado e advogado;
→ Por indicação do artigo 2.º do CPP que permite: (i) a analogia com as normas do CPP;
(ii) observância das normas do CPC harmonizáveis com o processo penal; e (iii) observância
dos princípios gerais do processo penal, fica evidente a clara possibilidade de detenção da
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testemunha por recurso às normas do artigo 629.º do CC, nomeadamente a norma da alínea e)
do n.º 1 que fala na possibilidade de depoimento debaixo da prisão; do n.º 2 que fala em
mandado de captura e depoimento sob prisão; e, finalmente, do n.º 3 que fala em manutenção
de testemunha em custódia e na possibilidade dela pagar a multa.
A Declaração do Arguido/Suspeito/Réu
Tem a sua sede no artigo 124.º do Código de Processo Penal e uma dupla natureza
processual, a saber:
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Está plasmado no artigo 126.º do CPP e tem lugar quando houver declarações
contraditórias que o tribunal achar pertinente esclarecer.
Há uma excepção: o perito não é posto a contraditar por uma razão lógica que se prende
com as faculdades de desequilíbrio que ele tem, sendo ele detentor de conhecimentos
específicos que não estão à altura de qualquer pessoa confere-lhe sim argumentos capazes de
assassinar os do seu contra-argumentador, numa acareação.
Também não há referência em relação às partes civis, mas compreende-se que estes sim
podem ser sujeitadas a acareação.
A acareação pode ser feita em qualquer fase do processo em que seja permitida prova por
depoimento.
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norma acolhedora o artigo 129.º que observa as estipulações dos vários números do artigo 128.º
do CPP.
A prova por reconhecimento tem um apertado regime de validade que importa aqui
detalhar, desde logo:
a) – o facto de não ser o método directamente aplicável, quer dizer que só se aplica quando
a partir do seu relato das características faciais da pessoa do suspeito o agente caracterizador
construir a imagem facial do suspeito e ele não conseguir identificá-la cabalmente, segundo as
exigências do artigo 128.º, n.º 1, do CPP; e,
Ex: Já temos vários casos em que isto aconteceu, como por exemplo, no processo de
Domingos Simões Pereira VS Pansau Ntchama e no processo de Iaia Dabó.
Isto porque não são meios de prova proibidos nos termos do artigo 113.º, significa
automaticamente que nada tolhe que se proceda com reconhecimento de sons e cheiros. Ex.:
Há um caso de direitos reais que tinha a ver com a prova do direito da propriedade, que foi feito
mediante reconhecimento do som de uma música que tocava repetidas vezes durante a
madrugada e que importunava os vizinhos inclusive, tendo estes últimos sido chamado à
confirmação do som da música.
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5. Reconstituição do Facto
Mas isso não quer dizer que a figura jurídica de reconstituição de facto não é aplicada na
Guiné-Bissau – o que tornou possível por força da Inspecção Judicial existente no âmbito do
Processo Civil, concretamente no artigo 612.º, que confere ao tribunal a possibilidade de
realizar a reconstituição dos factos.
→ A Reconstituição dos Factos – que é em si um meio de prova, visto que é uma fonte
de convencimento, que ajuda a formar a convicção e que ajuda a fundamentar um certo juízo.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense
6. A Prova Documental
Espécies de Documentos:
1 – Documentos Particulares – têm a sede nos artigos 131.º, n.º 1, do CPP conjugado com
artigo 373.º e ss do CC, e são, a partida, livremente apreciados pelo tribunal quando não forem
autenticados – artigo 131.º, n.º 1, do CPP. Quando forem autenticados ou reconhecidos
assinatura, o CC reconhece-lhes a força probatória plena, conforme resulta da leitura conjugada
entre artigos 376.º e 377.º do CC.
3 – Documentos Autenticados – também fazem prova plena, ab initio, nos termos dos
artigos 131.º, n.º 2, do CPP conjugado com artigo 377.º do CC, e só deixarão de fazer se a
veracidade do seu conteúdo for posta em causa.
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4 – Documentos Falsos – são definidos no n.º 2 do artigo 372.º do CC e não têm qualquer
valor probatório no âmbito do processo penal.
Obs.: Os documentos falsos não só não têm qualquer valor probatório como
também é obrigatório, uma vez detectados num determinado processo, que o juiz participa-os
ao Ministério Público para que este abra um competente inquérito por crime de falsificação
previsto no artigo 199.º do CP, conforme resulta da leitura conjugada das normas dos n.ºs 3 e 4
do artigo 131.º do CPP.
7. Prova Pericial
O objecto da prova pericial é a percepção dos factos ou a sua valoração, e porque não a
sua apreciação.
A prova pericial vem prevista no artigo 133.º do Código de Processo Penal da Guiné-
Bissau, e trata-se de uma prova repetível ou renovável a qualquer altura do processo, sempre
que as circunstâncias do caso assim determinar e desde que se demonstre fundadamente os
motivos, conforme atesta o artigo 135.º do CPP.
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Reconhecimento de cadáver:
Visam determinar a incidência da lesão provocada para saber como classificar a ofensa.
São meios de que servem as Autoridades Judiciais para investigar e recolher meios de
prova.
Por vezes o próprio meio de obtenção de prova acaba por ser também um meio de prova.
Ex.: A escuta telefónica é um meio de obtenção de prova, mas as gravações são já meios de
prova.
Os meios de prova constam dos artigos 137.º a 147.º do Código de Processo Penal
guineense, contudo se olharmos para aquilo que está escrito como enunciação do Capítulo III
pertencente a estes artigos veremos que está “Dos Meios de Prova” o que é, antes de mais,
muito repetitivo e gerador de dúvidas quando confrontado com a enunciação do Capítulo II,
que vão dos artigos 118.º a 136.º do CPP, em que também consta “Dos Meios de Prova”, mas
a verdade é que a tal incongruência nunca poderá ser interpretado como sendo a real intenção
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do legislador contando que, a partida, os meios de prova não são confundíveis com os meios de
obtenção de prova e isso deverá bastar para a condução à uma reflexão lógica da qual resulta
que se trata de um mero erro de escrita afastando o possível desconhecimento que poderia ser
imputado ao legislador e afastando a possível confusão na mente dos interpretes e aplicadores
do Código de Processo Penal.
Eles são os meros mecanismos de actuação que conduzem, como o próprio nome indica,
à obtenção de meios de prova.
Garantia Constitucional
A garantia constitucional passa por já badalado artigo 42.º, n.º 6, da CRGB que considera
nula todas as provas obtidas mediante torturas, coacção, ofensa à integridade física ou moral da
pessoa, abusiva intromissão na vida privada, no domicílio, na correspondência ou nas
telecomunicações.
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O Ministério Público joga um papel importantíssimo na justa medida em que é ele quem
emite o despacho para autorizar a maioria de actuação tendentes à obtenção de meios de prova.
Assim é nas situações de: (i) Buscas e Revistas – artigo 138.º, n.º 1, do CPP; (ii) Apreensões –
artigo 141.º, n.º 1, CPP; e, (iii) Exames às pessoas que carecem do despacho do Ministério
Público – artigo 143.º, n.º 3, do CPP lido ao contrário.
1 – Excepções legais ou dadas pela lei – em que temos a dispensa do despacho prévio do
Ministério Público que autoriza as buscas, revistas e apreensões, havendo situações de flagrante
delito – nos termos dos artigos 138.º, n.º 1, e 141.º, n.º 1, conjugados com artigos 58.º, n.º 1, e
54.º, ambos do CPP.
Quanto ao exame a excepção lega cinge de um modo cabal sobre: os lugares e as coisas.
E de um modo fracionado sobre: as pessoas que não carecem do despacho prévio do Ministério
Público – artigo 143.º, n.º 3, do CPP.
--A partida, uma pessoa não pode ser revistada fora do caso de flagrante delito se não for
apresentado o despacho do MP que autorizou a revista – artigo 138.º, n.º 1 e 5, do CPP, mas se
a pessoa consentir por escrito – repare que o consentimento verbal não serve –, a diligência já
torna válida – artigo 140.º, n.º 1, CPP.
--Uma casa de habitação não pode ser objecto da busca durante final da noite e durante a
madrugada, isto é, nem depois das 08 horas da noite, nem antes das 06h00 de manhã – segundo
artigo 139.º do CPP, mas se for consentido por escrito torna a diligência válida – artigo 140.º,
n.º 2, do CPP.
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Tópicos:
Revista
Vem prevista no artigo 137.º, n.º 1, do CPP, incide sobre uma pessoa e visa a apreensão
de objectos relacionados com o crime que possam servir como meio de prova que alguém
transporta (na mala, no carro, no caixote, etc.) ou que esconde na sua pessoa (no bolso, nas
axilas, na boca, no boné / chapéu, etc…).
Buscas
Vêm igualmente previstas no artigo 137.º do CPP, mas já no n.º 2 do referido artigo, e
incidem sobre casas, escritórios, consultórios, oficinas, condomínios privados,
estabelecimentos, fábricas ou qualquer outro lugar reservado ao público.
Visa apreensão de objectos relacionados com o crime que possam estar escondidas
naquelas localidades, ou a própria apreensão de uma pessoa que deva ser detida, mas que está
foragida, escondida ou em fuga.
É efectuada pelos órgãos de polícia criminal – artigo 138.º, n.º 2, do CPP –, e deve
igualmente respeitar a dignidade pessoal e o pudor do visado.
Apreensões
Vêm previstos no artigo 141.º do CPP e incidem sobre objectos, veículos, documentos,
dinheiro do crime, etc…
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--Se for pertences – serão guardados pelo escrivão da secção ou por fiel depositário – caso
se tratar de joias, pedras preciosas ou veículos, se a Polícia, o MP, ou o Tribunal não tiver cofres
fortes próprios ou salas das provas ou parques próprios – artigo 141.º, n.º 2, do CPP; e,
Por imposição do artigo 142.º do CPP normalmente todos os objectos apreendidos devem
ser restituídos a final, salvo os:
--perigosos;
--perecíveis; e
O n.º 1 diz que, por norma, os objectos apreendidos não devem ser considerados perdidos
a favor do Estado.
O n.º 2 diz que a restituição é efectuada desde que se torne desnecessária a apreensão para
efeitos de prova ou quando a decisão final transitar em julgado.
Exames
Vêm previstos no artigo 143.º do CPP e é feita às pessoas, aos lugares e às coisas,
conforme atesta o artigo 143.º, n.º 1, do CPP.
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Escuta Telefónica
Vem previsto no artigo 144.º do CPP e conta com as seguintes limitações legais:
--Só pode ser ordenada relativamente a crimes puníveis com pena superior a 3 anos de
prisão e se a escuta for essencial à descoberta da verdade – artigo 144.º, n.º 1, do CPP;
--Só pode ser autorizada pelo juiz – artigo 144.º, n.º 2, do CPP;
--Não pode incidir sobre conversas entre o arguido e o seu defensor – artigo 144.º, n.º 3,
CPP.
--Não provocar que o outro interlocutor diga coisas que o incriminem, conforme o n.º 2.
Algumas excepções:
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1 – Princípios;
2 – Condições Gerais;
3 – Requisitos Gerais;
4 – Requisitos Específicos; e,
5 – Critérios de Escolha.
1 – Princípios:
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do referido artigo resulta uma clara exclusão de obrigação de identificação de qualquer cidadão
perante autoridade competente.
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país, contudo se pode fazer uma leitura do espírito da norma da alínea b), do n.º 1, do artigo
159.º e dela concluir que “do local em que vive” constante da referida norma levará ao
entendimento de que se trata da habitação, a casa de morada ou o local da residência.
2 – Condições Gerais:
Prende-se fundamentalmente com apenas duas condições que são igualmente extensíveis
às medidas de garantia patrimonial, e são elas:
3 – Requisitos Gerais:
Os requisitos gerais de medidas de coacção são extraídos das velhas máximas processuais,
vulgarmente conhecidas por “Fumus Comissi Delicti” e “Periculum Libertatis”.
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4. – Requisitos Específicos:
Prende-se com aqueles requisitos pertencentes a cada uma das medidas de coacção que
complementam os requisitos gerais de aplicação das mesmas e são encontrados, sem nenhuma
surpresa, nos artigos que falam detidamente e de modo singular de cada modalidade de medida
de coacção.
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Vem previsto no artigo 153. º do CPP e é a única medida de coacção que pode ser aplicada
no âmbito de qualquer processo (comum ou especial, independentemente da gravidade da pena
aplicável, bastando que se verifique a constituição do arguido) e é a única que também pode ser
aplicada por qualquer entidade da investigação criminal, num sentido lato, e, num sentido
estrito, é a única que pode ser aplicada pela polícia, as restantes nunca podem ser aplicadas pela
polícia.
Há uma possibilidade clara de o TIR ser acumulável com qualquer outra medida de
coacção ou de garantia patrimonial – artigo 153.º, n.º 1, do CPP.
Há quem diga que o TIR não é uma verdadeira medida de coação por não ser abrangidos
pelos requisitos gerais do artigo 150.º do CPP, logo na primeira parte. Mas deve se compreender
que o TIR é sim uma verdadeira medida de coacção, pois não se encontra na excepção prevista
no artigo 148.º, n.º 3, do CPP uma vez que é mais pesada do que uma mera obrigação de
identificação perante polícia que pode calhar a qualquer pessoa. E, mais, o facto de o TIR poder
ser aplicado pela polícia não lhe retira o carácter de medida de coacção e não obstante o facto
de ser uma medida de coacção bastante leve não lhe retira, de uma ou outra forma, o carácter
restritivo de liberdade e a obrigação de concessão de satisfação à polícia sobre a residência.
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Vem prevista no artigo 154.º do CPP e só pode ser aplicada se o crime for punível com
pena superior a um ano, mediante o despacho geralmente do Ministério Público que delimita a
forma como a apresentação passará a ser feita – o que pode ser perante uma autoridade judiciária
ou entidade policial.
A Caução Carcerária
Vem prevista no artigo 155.º e trata-se de uma medida aplicável ao crime punível com
pena superior a dois anos de prisão e que não prevê directamente a autoridade judiciária que a
aplica, contudo por via indirecta, isto é, atento a norma do n.º 2 do artigo 157.º do CPP que
dispõe sobre a quebra de caução em que refere a impugnação da caução ou por via da
reclamação ou por via de recurso “conforme tenha sido o Ministério Público ou o Juiz,
respectivamente, quem a aplicou”.
Com base nestas palavras do legislador ficaremos a saber que a caução carcerária é
aplicada ou pelo Ministério Público ou pelo juiz.
Segundo o artigo 156.º do CPP, a caução carcerária pode ser substituída por qualquer
outra medida de coação, excepto a prisão preventiva.
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É uma medida aplicável aos crimes com pena de prisão superior a três anos que consiste
em criação de mecanismos impeditivos da ausência ou viagem sem autorização por parte do
arguido, previstos no n.º 1 do artigo 159.º do CPP.
Medidas estas que podem levar a apreensão dos passaportes, que são considerados
documentos de viagens por excelência, sem descurar o caso guineense em que por causa dos
efeitos da regionalização ou comunitarização, tendo sido autorizado a livre circulação de
pessoas e bens dentro do espaço da CEDEAO e sabendo que a tal circulação é sim facilitado
bastando ter o Bilhete de Identidade de um dos Estados membros da comunidade, faz nascer a
obrigação de a autoridade judiciaria que a aplica também apreender o respectivo Bilhete de
Identidade. A exigência não só tem que ver com a simples apreensão, mas também com a
comunicação da mesma às entidades emissoras e as que estão encarregues de controlo
fronteiriço.
Esta medida pode ser levantada a requerimento do arguido que prestar ou reforçar a
caução que o tribunal entenda adequada às circunstâncias cautelares exigíveis no caso.
Neste tipo de medida pode ser cogitável a utilização de meios tecnológicos de controlo à
distância, como é o caso de utilização de pulseira electrónica.
Prisão Preventiva
Vem prevista no artigo 160.º do CPP e trata-se de uma medida que só pode ser aplicado
por juiz e, igualmente, é uma medida apenas aplicável se se observar cumulativamente os seus
requisitos específicos constantes do n.º 1 do artigo 160.º do CPP, sendo certo que da alínea a)
resulta um erro que deve ser corrigido, pois onde se lê “1 anos” deve ler-se 3 anos, por
variadíssimas razões que não nos apraz aqui arrolar, sendo que será suficiente apenas dizer que
a prisão preventiva é a mais gravosa de todas as medidas de coação e enquanto tal nunca poderá
ter um requisito específico de moldura penal inferior à moldura penal exigida no requisito
igualmente específico destinado a obrigação de permanência no país – lembra-se que plasma
crimes puníveis com penas superiores a três anos –, que é a medida imediatamente mais gravosa
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que a prisão preventiva. Na mesma senda, também resulta da alínea b) um erro, pois onde se lê
“insolvência” deve-se ler insuficiência.
Feito isso, importa assinalar que do n.º 2 do artigo 160. º do CPP consta a única excepção
a regra intransponível de aplicação das medidas de coacção apenas aos suspeitos formalmente
constituídos e apenas no âmbito de um processo formalmente aberto, pois é categórico em
afirmar que é possível aplicar a prisão preventiva a uma pessoa que penetrar ou permanecer
irregularmente no país ou contra quem corre o processo de extradição ou expulsão.
Trata-se de uma questão inteiramente ligada a questão dos prazos de duração do inquérito
previsto no artigo 200.º do CPP tendo em linha de conta que neste artigo se retratou duas
situações possíveis: (i) uma situação em que há presos preventivos e (ii) a outra em que não há
presos preventivos. Logo se temos no artigo 161.º uma epígrafe sobre a duração da prisão
preventiva fica obrigatório perceber a dinâmica à volta da duração do inquérito, pelo que deve-
se atentar ao seguinte:
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200.º, n.º 3, do CPP –, e o prazo final é de oito meses (240 dias), isto é se se contar com a
referida prorrogação do n.º 2 do artigo 200.º do CPP.
Feitas estas considerações que evitam a possível confluência, deve-se concluir que o
constante no artigo 161.º – que narra a situação de duração da prisão preventiva –, deve ser
visto como cláusula travão ou algo que quebra o à-vontade ou a inoperância do Ministério
Público conquanto que as normas das alíneas do seu n.º 1 obriga ao mesmo (e não só, também
obriga ao Tribunal) a desenvolver qualquer tarefa nos prazos mais curtos, ou seja: ainda que
vão ter aqueles meses todos, mas deve-se ter apenas parcelas dos mesmos para desencadear
certos atos de acordo com cada fase do processo, isto é, do inquérito ao julgamento.
Obs.: Há outras especificidades ainda da prisão preventiva que já não vou a tempo
de esclarecer.
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Recurso, se forem aplicadas por juiz, nos termos do artigo 170.º, n.º 1, do CPP.
Habeas Corpus por Prisão Ilegal – artigo 171.º do CPP conjugado com artigo 39.º, n.º 3,
da CRGB. As suas formalidades constam do artigo 172.º do CPP.
Habeas Corpus por Detenção Ilegal – artigo 190.º do CPP conjugado com artigo 39.º, n.º
3, da CRGB. As suas formalidades constam do artigo 190.º, n.º 1 e 2, do CPP.
1 – Caução Económica – vem prevista no artigo 174.º do CPP e o seu n.º 1 plasma que é
só aplicada quando houver fundado receio de que a pessoa ou, nesse caso, o arguido pode vir a
faltar o pagamento da pena pecuniária ou quando houver artifícios do mesmo que diminuam
substancialmente as garantias de pagamento da pena pecuniária ou imposto de justiça. Ex.: se
o presumível condenado começar a vender ou a doar o seu património.
É aplicada ao arguido tal como as outras medidas, conforme o n.º 1 do artigo 174.º do
CPP, mas também é aplicado ao responsável civil, segundo o n.º 2 do referido artigo.
O carácter substitutivo do arresto face à caução económica é atestado pelo n.º 3 do artigo
175.º do CPP, na medida em que o arresto é obrigatoriamente revogado logo qua a caução
económica seja paga.
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--Imposto de Justiça;
--Custas do Processo;
--Indemnização Civil.
As garantias patrimoniais podem ser prestadas por uma das possíveis modalidades:
--Depósito;
--Penhor;
--Hipoteca;
--Fiança Bancária; e,
--Fiança.
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