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Direito Processual Penal na Guiné-Bissau

O documento descreve os principais aspectos do direito processual penal guineense, incluindo seu enquadramento dogmático, histórico e os modelos processuais. Aborda a distinção entre direito penal substantivo, processual e executivo, além de traçar breve histórico das instituições judiciais da Grécia e Roma antigas e dos marcos da Magna Carta e Iluminismo na evolução dos modelos acusatório e inquisitório.
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Direito Processual Penal na Guiné-Bissau

O documento descreve os principais aspectos do direito processual penal guineense, incluindo seu enquadramento dogmático, histórico e os modelos processuais. Aborda a distinção entre direito penal substantivo, processual e executivo, além de traçar breve histórico das instituições judiciais da Grécia e Roma antigas e dos marcos da Magna Carta e Iluminismo na evolução dos modelos acusatório e inquisitório.
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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense

Bissau, 03-12-2020, Quinta-Feira

1. Enquadramento Dogmático da Disciplina

A Ciência total do direito penal (1):

1.1. O direito penal em sentido amplo:

1.1. a) – Direito penal em sentido stricto / Direito penal Substantivo

1.1. b) – Direito penal adjectivo / Direito Processual Penal

1.1. c) – Direito Penal Executivo / Direito da execução de panas e medidas de


segurança.

1.2. A criminologia

1.3. A política criminal

1.1. O direito penal em sentido amplo:

1.1. a) – Direito penal em sentido stricto / Direito penal substantivo – é referido


quando há um comportamento qualificado como crime e quando se pretende saber quais são as
consequências jurídicas de tal comportamento (2).

Tem a sua base no próprio Código Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 4/1993, de 13 de
Outubro. De referir que é o primeiro Código Penal de “criação” guineense, que veio substituir
os anteriores Códigos portugueses de 1886 e 1982 que vigoraram simultaneamente em Portugal
e na Guiné-Bissau. O de 1886 vigorou em Portugal até 1982 e na Guiné vigorou ainda no
período pós independência, por força da lei n.º 1/73, isto é, até 1993.

(1) Cfr. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, 2.º Edição, Coimbra, Edições Almedina, 2019, p. 7.
(2) Cfr. no mesmo sentido Maria João Antunes – Direito Processual Penal, p. 7.

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1.1. b) – Direito penal adjectivo / Direito processual penal – trata-se de uma


disciplina que regulamenta o modo como se investiga a prática de um crime e se determina o
seu agente, em ordem à aplicação de uma sanção penal ou à resolução de conflito jurídico-penal
de uma forma desviada de tramitação comum (3).

Tem o seu epicentro no Código de Processo Penal guineense aprovado pela Lei n.º
5/1993, de 13 de Outubro, que veio a pôr cobro à vigência dos CPP portugueses de 1929 e de
1987. É um ramo que se ocupa do processo, do procedimento e do ritual no âmbito do qual o
crime é concretamente definido e concretamente aplicado.

1.1. c) – Direito Penal Executivo / Direito da execução de panas e medidas de


segurança – faz a regulamentação jurídica da execução da pena e da medida de segurança
decretada na sentença condenatória proferida em processo penal (4).

Encontra-se regida, na Guiné-Bissau, pelos dispositivos da lei n.º 7/2011 (Lei da


Organização, Funcionamento e as Formas de Processo do Tribunal de Execução de Penas).
Trata da execução das penas de privação de liberdade e das medidas de segurança de privação
de liberdades (direito dos reclusos).

Nota: as medidas que não preveem a aplicação de medidas de privação de liberdade não
são reguladas por esta Lei. No fundo, se é aplicada uma pena de privação de liberdade teremos
de saber como é que ela será executada, pois durante a execução da pena pode surgir problemas
quanto à definição do regime da pena, à liberdade condicional, ao surgimento duma nova lei
descriminalizadora ou mais favorável ou ainda uma situação de doença drástica do
criminoso/recluso.

(3) Cfr. Maria João Antunes, op., cit., p. 7.


(4) Cfr. Ibidem.

2
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Resenha Histórica

O Processo Penal foi construído em torno de duas ideias fundamentais, se se pretender,


seguiu dois sistemas históricos fundamentais que ínsito têm:

--a tradição acusatória, em latim, Accusare; e,

--a tradição inquisitória, em latim, Inquirere.

Mas, não obstante este facto, não se pode pensar que o sistema penal adjectivo é baseado
apenas e exclusivamente nestes dois sistemas, desde logo porque os tais sistemas históricos:

--nunca obedeceram os esquemas preconcebidos;

--não forma completamente impermeáveis às influências recíprocas; e,

--há quem diga que os próprios sistemas históricos receberam fortes influências dos
próprios regimes estaduais.

Por estes considerandos, torna pertinente ter uma visão holística dos sistemas históricos
e caso a caso ir descobrindo as suas verdadeiras características.

Antes de aludirmos aos três modelos paradigmáticos, o acusatório, o inquisitório e o


misto, convém imergir um pouco na história e descobrir os eventos ou acontecimentos que
ajudaram a polir os sistemas históricos, qua ajudaram a alinhavar as suas bases e, quiçá, que
contribuirão para uma arrumação lógica das figuras processuais penais dentro dos referidos
modelos, como são os casos de:

--Instituições judiciais da Grécia antiga;

--Instituições judiciais da Roma antiga;

--Magna Carta Libertatum de 15 de junho de 1215, de Rei João Cem Terra aos
Barrões; e,

3
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--Programa Reformador dos Iluministas dos Séculos XVII e XVIII.

Quanto as Instituições da Grécia

Contribuíram fundamentalmente para o modelo acusatório no seguinte:

1. Na forma de organização dos tribunais – em que a jurisdição cível e criminal competia


aos tribunais populares;

2. Os tribunais populares continham os jurados tirados à sorte entre os cidadãos maiores


de 30 anos que manifestaram disponibilidade. Logo, começava-se a desenhar a figura do juiz;

3. Os jurados recebiam subsídios criados por Péricles para motivar a participação na


realização de justiça de qualquer cidadão;

4. A composição dos tribunais populares segundo Aristóteles respeitava no mínimo 501


jurados, número esse que podia alcançar aos 1000 ou até 1500 jurados;

5. O homicídio era julgado nos tribunais especializados;

7. Os ofendidos é que apresentavam a queixa;

8. Havia seguintes modalidades de penas aplicáveis:

8.1. Para Homicídio Voluntário – aplicava-se execução ou exílio e confisco de


propriedade do acusado;

8.2. Para Homicídio Involuntário – aplicava-se exílio sem perda de propriedade,


podendo inclusive haver perdão dos familiares da vítima;

9. Havia um processo de partes – que iniciava através de uma acusação privada.

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Quanto as Instituições da Grécia

Havia a criação dos tribunais permanentes:

1. Um que julgava o crime de corrupção dos magistrados que recebiam subornos, que
eram condenados a restituir o valor de locupletamento;

2. Um que julgava os crimes contra o Estado;

3. Um que julgava os homicídios perpetrados com armas; e,

4. Um que julgava os homicídios levado a cabo por envenenamento;

Havia ainda a criação da figura do Questor – equivalente ao Procurador que recolhia as


provas e identificava as testemunhas.

Os jurados decidiam a acusação.

O tribunal era presidido por Pretor.

Vigorava a ideia de Testis Uno Testis Nullus (quer dizer uma única testemunha equivale
à zero testemunha).

A confissão era a prova rainha.

Quanto à Magna Carta Libertatum

Como o seu marco, aponta-se o facto de ter limitado o poder do monarca, obrigando-o a
respeitar o Devido Processo Legal ou o Due Process of Law nos julgamentos.

Disseminou as bases para um julgamento equitativo no seu artigo 39.º, dispondo que
nenhum homem livre será detido, privado da propriedade, liberdade, hábitos, exilado ou
destruído, se não em virtude de um julgamento legal pelos seus pares ou pelo direito da terra.

De referir que são bases recebidas no artigo 38.º, n.º 2, da CRGB.

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Quanto às Reformas dos Iluministas

Há que assinalar que Cesare de Beccaria incitou a reforma – que veio a ser preconizado
por Isaac Newton e John Locke – para justamente legitimar o método empírico no
estabelecimento do grau da probabilidade, o que de per si afastou a ideia da verdade lógica e
ajudou a instituir o critério do máximo grau da probabilidade na ligação de um determinado
facto a conduta de um certo agente.

Modelos Históricos do Processo Penal

1 – Modelo Acusatório – tem pendor liberal e caracteriza-se por uma nítida separação
entre a entidade que acusa e a entidade que julga. Obs.: Tal separação garante a imparcialidade
do julgador, que vai para o julgamento sem nenhuma convicção pré formada, fazendo com que
os factos relatados no julgamento e as provas fornecidas influem na decisão que o julgador
adota.

Nota: Historicamente neste modelo o impulso processual pertence ao ofendido. Nele não
se procurava descobrir a verdade material, mas antes descobrir a verdade processual – que é
aquele que resulta do confronto entre a acusação e a defesa.

Se quiser, há o princípio de contraditório e tendencialmente havia igualdade de armas


entre a acusação e a defesa. Privilegiava a oralidade e o processo era público. O meio de prova
preponderante era a prova documental.

2 – Modelo Inquisitório – tem pendor autoritário e a sua principal característica reside na


concentração de poder de investigar, acusar e julgar numa única entidade. De acordo com uma
fórmula clássica fomentada por professor Paulo de Sousa Mendes é um modelo de Juiz-
Acusador.

Repare que é que evidente que se for uma pessoa a investigar, acusar e julgar, não terá a
imparcialidade necessária para formar um novo juízo, pois já terá uma decisão pré concebida.

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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense

A inquisição era proferida ex officio, apoiando-se no conhecimento privado do


magistrado ou numa denúncia que podia ser mantida secreta.

Privilegiava-se a descoberta da verdade material a qualquer preço, o que dava azo a


tortura do acusado para obter dele a confissão.

Os meios de prova admitidos neste sistema varia entre a confissão, testemunhas,


documentos e duelo.

3 – Modelo Misto – é um modelo que surgiu com o processo reformado ou napoleónico


através do Code d`Instruction Criminelle de 1808.

Era essencialmente baseado no modelo acusatório, mas o processo era dividido em duas
fases separadas:

1.ª Fase de Instrução – visava investigar o crime e os seus agentes e era dirigida por
um magistrado especializado denominado de Juge d`Instruction, ficando a iniciativa e a
titularidade da acção penal nas mãos de um oficial do poder executivo junto do poder judicial,
o chamado Procureur Imperial. A instrução era escrita, secreta e não contraditório em
obediência à tradição inquisitória.

2.ª Fase de Julgamento – destinava-se ao apuramento das responsabilidades do


arguido e era organizado segundo o modelo acusatório. Buscava-se a verdade a luz do
contraditório. A oralidade e a publicidade da audiência era a regra.

Conclusão: este modelo é o menos do mesmo, quer dizer o mais suave do inquisitório.

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Resumo

Modelo Acusatório Modelo Inquisitório Modelo Misto

Separação entre a entidade Não há separação entre a Há uma pseudo separação


que acusa e a que julga; entidade que acusa e a que entre quem acusa e quem
julga; decide;

Observa-se o princípio do Não se observa o princípio do Instrução VS Julgamento


contraditório; contraditório;

Procura-se a verdade Procura-se a verdade ▼


processual; material;
Juiz de instrução

Oficial do Poder Executivo /


Procurador Imperial;

O impulso processual O impulso processual é dado Era escrita, secreta e não


pertence ao ofendido; de ex officio; contraditória = a tradição
inquisitória;

Há imparcialidade do Não há imparcialidade do ▼


julgador; julgador;
Julgamento – busca a
verdade à luz do
contraditório;

Privilegiava-se a oralidade e A prova por confissão era Privilegia-se a oralidade e a


a publicidade da audiência; obtida por via da tortura;
publicidade na audiência.

Tem um pendor liberal; e Tem um pendor autoritário; e

O arguido é visto como um O arguido é visto como


sujeito processual. objecto do processo.

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Modelo adoptado em Portugal e na Guiné-Bissau:

--Chegou-se a conclusão que o modelo inquisitório era nocivo justamente por não
comportar o grau de independência que levava a verificação de maior imparcialidade.

--Igualmente chegou-se a conclusão de que o modelo misto é o menos do mesmo, quer


dizer que também não garante a imparcialidade necessitada ainda que na fase de julgamento
segue o modelo acusatório, pois buscava-se a verdade á luz do contraditório, também porque a
oralidade e a publicidade da audiência era a regra, mas, de facto não será uma via ou um modelo
a seguir, porque não é de se admitir que a iniciativa processual e a titularidade da acção penal
ficasse nas mãos de um oficial do poder executivo junto do poder judicial.

A Guiné-Bissau acolheu o Modelo Acusatório – em que se verifica uma separação entre


a entidade que acusa e aquela que julga. Ou seja: de um lado temos o MP e doutro lado temos
o Tribunal.

O impulso processual pertence a vítima ou sua família ou Estado.

Obs.: A Constituição da República da Guiné-Bissau é inequívoca em afirmar que o


processo criminal tem a estrutura acusatória no seu artigo 42.º, n.º 5.

Formas do Processo Penal

Existe duas formas no geral, uma comum e a outra especial que se subdivide em Portugal
em Sumário, Sumaríssimo e Abreviado e na Guiné-Bissau se subdivide apenas em Sumário.

Processo Comum – tem o carácter subsidiário – que significa que só é utilizada quando
não poder ser aplicado ou quando não tiver lugar qualquer outra forma especial.
Tendencialmente, são os crime mais graves é que são julgados na forma do processo comum.
Desde logo porque:

--É a forma que oferece mais garantias de defesa;

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--É a forma mais completa; e, por sinal

--É a forma mais complexa.

Processos Especiais – são aqueles que, por regra estão condicionados à gravidade das
penas.

Processo sumário em portugal não pode ser aplicado ao crime que contém pena superior
a 5 anos.

Na Guiné-Bissau aplica-se aos crimes com moldura penal máxima até 3 anos.

Processo sumaríssimo aplica-se a penas de prisão não superior a 5 anos.

Processo Abreviado aplica-se a penas de prisão não superior a 5 anos.

Mas nem sempre os crimes menos graves são processados nas formas especiais, caso o
tribunal ou arguido não aceitarem a proposta do MP sobre a aplicabilidade do processo especial,
casos em que terá lugar o reenvio do processo para a forma comum.

Natureza Processual dos Crimes

Portugal Guiné-Bissau

Crimes Particulares

Artigo 180.º do CP-PT Artigo 126.º do CP

Artigo 181.º do CP-PT Artigo 130.º do CP

Artigo 185.º do CP-PT Artigo 131.º do CP

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Crimes Semi-Públicos

Artigo 143.º do CP-PT Artigo 118.º do CP

Artigo 148.º do CP-PT Artigo 119.º do CP

Artigo 156.º do CP-PT Artigo 122.º do CP

Artigo 123.º do CP

Crimes Públicos

Artigo 144.º do CP-PT Artigo 115.º do CP

Artigo 144.º-A do CP-PT Artigo 125.º do CP

Artigo 131.º do CP-PT Artigo 107.º do CP

Critérios de Aferição de Natureza dos Crimes

1. Critério Normativo – geralmente consome o segundo critério e assenta no facto de as


normas do Código Penal, elas mesmas, denunciam a natureza do crime em causa, da seguinte
forma:

1.1. Se a norma nada disser em relação ao procedimento criminal, quer significar


que estamos em face do crime de natureza pública;

1.2. Se a norma apenas disser que o procedimento criminal depende de queixa, sem
mais, quer significar que o crime é de natureza semi-pública; e,

1.3. Se a norma disser que o procedimento criminal depende de queixa e de


acusação particular, então quer significar que estamos perante um crime de natureza particular.

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Obs.: Na Guiné-Bissau, em termos formais, não temos a natureza de crime particular,


contudo várias normas catalogados como pertencente a crimes semi-públicos conservam
conteúdos dos crimes particulares.

2. Critério do Bem Jurídico a Proteger – geralmente havemos que ficar atentos aos bens
jurídicos destinatários da protecção legal para em função disso avaliar e considerar a natureza
dos crimes em função das dignidades penais de cada bem jurídico protegido pela norma
incriminatória.

3. Critério Doutrinal – em que se compreendeu as naturezas dos crimes em função da


moldura penal, máxime dos limites máximos. Assim:

3.1. O crime é público se da norma constar uma penalidade que oscila entre oito, de
e doze anos até 18, 20 ou 25 anos;

3.2. O crime é semi-público se da norma é extraída a penalidade que oscila entre os


3 ou 5 anos até aos 8 anos; e,

3.3. O crime é particular se da norma for detectado a pena que não transcende os
três anos.

O Regime de Processamento das Contravenções

O processamento das contravenções na Guiné-Bissau é feito por recurso às normas do


Código Penal português de 1886 aprovado pelo Decreto-Lei de 16 de setembro do mesmo ano
e que vigorou na República de Guiné-Bissau através de um instrumento jurídico chamado de
portaria de extensão – que estendia a vigência das leis da metrópole (em Portugal) para as suas
províncias ultramarinas (exemplo de Guiné-Portuguesa) e pelo Decreto-Lei n.º 4/1993, de 13
de outubro que aprova o nosso Código Penal que decidiu manter a vigência do regime das
contravenções no artigo 3.º, n.º 1, e artigo 4.º do Decreto Preambular do CP guineense.

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A contravenção consiste num facto voluntário punível, que unicamente consiste na


violação, ou na falta de observância das disposições preventivas das leis e regulamentos,
independentemente de toda a intenção maléfica, conforme o artigo 3.º do CP-PT de 1886.

Se atentarmos a essa definição, normal seria considerar que o crime cuida de factos
praticados com a intenção maléfica e as contravenções cuidam de factos praticados sem a
intenção maléfica.

Ou seja, a transgressão tem o seu foco na negligência. São sintomáticos desta realidade,
o próprio artigo 4.º do Código de 1886 que diz que “nas contravenções é sempre punida a
negligência” e o artigo 25.º do mesmo Código que diz que “na contravenção não é punível a
cumplicidade nem o encobrimento”.

Esclarecimento da Tricotomia

Será diferente apenas pelos nomes que assumem ou será uma única realidade que assumiu
diversas nomenclaturas ao longo dos anos? A resposta vai ser descortinada ao longo das
definições possíveis:

--Contravenção – (Já foi definida supra e para lá remetemos);

--Transgressão – é o facto que viola as normas do direito administrativo de forma


negligente;

--Contra-Ordenação ou Direito de Mera Ordenação Social – é todo o facto ilícito e


censurável para o qual de comine uma coima que preencha um tipo legal que corresponde à
violação da norma.

Parece ser apenas estados de evolução que vai das contravenções às transgressões e destas
às contra-ordenações, salvo o melhor entendimento.

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Bissau, 08-01-2021, Sexta-Feira

II
Do Processo Penal Guineense

Conceptualização, função e finalidades do processo penal

Conceptualização

O Direito Processual Penal – na acepção do Professor Germano Marques da Silva (5) –

→ é o conjunto de normas jurídicas que disciplinam a aplicação do direito penal aos casos
concretos.

Ou, se se pretender:

→ É o conjunto das normas jurídicas que orientam e disciplinam o processo penal.

O Processo é uma sequência de actos juridicamente pré-ordenados e praticados por certas


pessoas legitimamente autorizadas em ordem à decisão sobre se foi praticado algum crime e,
em caso afirmativo, sobre as respectivas consequências jurídicas e sua justa aplicação (6).

Função

O Direito Processual Penal tem, telegraficamente, a importante função de garantir que


todo o culpado seja condenado, or um lado e de garantir, por outro lado, que nenhum inocente
seja acusado.

Finalidades

No trilho da professora Maria João Antunes, ao processo enal são reservadas, elo menos,
três finalidades essenciais, não totalmente harmonizáveis entre si, a saber:

(5) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, Vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1993, P. 11.
(6) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo …, op. cit., p. 13.

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(i) – a realização da justiça e a descoberta da verdade material;

(ii) – a protecção perante o Estado dos Direitos Fundamentais; e,

(iii) – o restabelecimento da paz jurídica (comunitária e do arguido) posta em causa


com a prática do crime.

Processo-crime e investigação final

O processo-crime ganha essencialidade a partir do momento em que é praticado um facto


considerado criminoso e houver a necessidade de identificar e conhecer o agente do crime,
compreender o contexto da prática do crime e ajuizar em relação às sanções destinadas aqueles
comportamentos.

Logo, ao fazer tudo isto, é estar a realizar averiguação, inquérito ou investigação – o que
não se circunscreve apenas a existência do facto e a suscetibilidade de ser ou não considerado
criminoso, mas antes ao facto de, finda a investigação, saber se se está na posse de indícios
fortes ou suficientes que deverão ditar a acusação ou se se está apenas em face de indícios fracos
ou insuficientes que automaticamente deverão ditar o arquivamento do inquérito, conforme, de
resto, prognostica as normas dos artigos 204.º e 203.º, n.º 1, a), ambos do CPP.

A Constituição processual penal guineense. Princípios estruturantes do processo penal

O artigo 42.º assume o papel da sede constitucional do direito processual penal guineense.
Assume ainda como artigo da Constituição da República da Guiné-Bissau mais relevante para
efeitos do processo penal, na justa medida em que aglutina diferentes princípios e diferentes
outorgas, se não vejamos:

O n.º 1 deixou claro que o processo penal assegurará todas as garantias de defesa, tendo
contemplado ainda a exigência do processo equitativo;

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O n.º 2 prevê o princípio de presunção de inocência até o trânsito em julgado da sentença


condenatória e prevê a obrigatoriedade do processo ser concluído no mais curto espaço de
tempo compatível com as garantias de defesa;

O n.º 3 plasma o direito do arguido em escolher um defensor e de ser por ele assistido em
todos os actos processuais, tendo especificado ainda os casos e as fases processuais em que a
tal assistência deva assumir o carácter obrigatória;

O n.º 4 vaticina que a fase de instrução é da competência do juiz de instrução, tendo


previsto a possibilidade de delegação de poderes noutras entidades com o fito de praticarem
actos de instrução desde que não sejam actos que prendem directamente com os direitos
fundamentais;

O n.º 5 é de suma importância porquanto escolhe o modelo processual penal guineense,


dizendo que é da estrutura acusatória com a subordinação dos actos da audiência de julgamento
e de instrução ao princípio do contraditório; e,

Finalmente o n.º 6 reflete o princípio de proibição de provas violadoras de direitos


fundamentais ou, se se preferir, a nulidade das provas.

Contudo, não é apenas o artigo supra referido que requer uma análise, pois é também
muito importante tanger, por exemplo:

(i) ao artigo 86.º, máxime a alínea g), que fala do princípio da legalidade, em que duma
forma categórica dispõe que é da exclusiva competência da Assembleia Nacional Popular
legislar sobre a definição dos crimes, penas e medidas de segurança e processo criminal;

(ii) ao artigo 119.º que fala que os tribunais são órgãos da soberania com competência
para administrar a justiça em nome do povo;

(iii) ao artigo 120.º, n.º 4, que fala da independência dos tribunais no exercício da função
jurisdicional e da sua vinculação apenas a lei; nesta mesma senda, também o artigo 123.º dispõe,
no seu n.º 2 que o juiz, no exercício da sua função, é independente e só deve obediência à lei e
à sua consciência (esta consciência deve ser interpretado como consciência jurídica, e nunca

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como sendo a consciência moral, religiosa ou tribal); e, já no n.º 3 plasma a irresponsabilização


do juiz pelos seus julgamentos e decisões, ressalvando a faculdade de poder ser civilmente,
criminalmente e disciplinarmente responsabilizado; e, por fim,

(iv) ao artigo 125.º que fala que o Ministério Público é o órgão do Estado encarregado de,
junto dos tribunais, fiscalizar a legalidade e representar o interesse público e social e é o titular
da acção penal.

Possível Problema de Constitucionalidade

Artigo 125.º da CRGB, in fine, diz que “o MP é o titular da acção penal”; e,

Artigo 47.º do CPP, por seu turno, diz-nos que “o MP é o único titular da acção penal”;

Questões:

1 – Será este dito do legislador do CPP verdadeiro e/ou constitucional?

2 – Qual é a leitura que deve ser feita?

1 – R: Não será a verdade absoluta na medida em que, não obstante o Ministério Público
ser também o titular da acção penal e, até certo ponto, é compreensível afirmar que é o titular
da acção penal por excelência, mas a verdade é que às vezes:

→ O próprio Tribunal interfere num acto processual penal desencadeada e titulada pelo
MP para oferecer certas garantias, ainda que o processo se encontrar na fase de inquérito para,
por exemplo:

(i) – Decretar a prisão preventiva – artigo 48.º, alínea d), artigo 160.º e artigo 194.º
alínea c), ambos do Código do Processo Penal;

(ii) – Decidir do “habeas corpus” por detenção ilegal – artigo 194.º, alínea a) do
CPP;

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(iii) – Presidir a tomada de declarações para a memória futura – artigo 194.º, alínea
b) e 198.º, ambos do CPP;

(iv) – Autorizar as escutas telefónicas – artigo 194.º, alínea d) e 144.º, n.º 2, do CPP.

Estas prerrogativas são chamadas de actos do juiz de instrução no inquérito ou na fase do


inquérito.

→ A própria Polícia interfere de ex-ofício ou por delegação de poderes vindos do MP de


acordo com os artigos 47.º, n.º 2, 195.º e 196.º, n.º 1, ambos do CPP. Pode ainda aplicar o TIR
(Termo de Identidade e Residência) ao suspeito de acordo com artigo 48.º, alínea d), e 153.º do
CPP.

As possibilidades de delegação de poderes do MP à polícia são atestadas não só pelos


artigos 47.º, n.º 2, e 195.º do CPP, mas também através das seguintes alíneas do artigo 48.º do
CPP, nomeadamente:

e) – que fala na avocação dos processos, pois só avoca quem delega ou quem é
realmente titular do poder;

f) – porque fala em coordenar e exercer a fiscalização, ora só coordena e fiscaliza


quem é o titular do poder.

De facto há interferências no sentido em que se pode compreender que o Ministério


Público se coloca no meio, tendo por cima o tribunal e tendo por baixo os OPC (as polícias),
em que, mesmo estando na fase do inquérito, na qual é o MP é dominus do inquérito, há actos
que só podem ser praticados pelo juiz de instrução e há actos que só devem ser praticados pela
polícia, sob pena de ficar defraudada os verdadeiros interesses processuais que podem
materializar-se ou por via da ineficácia dos actos praticados por entidade diferente do juiz ou
por falta (ou ineficácia) da recolha e conservação de provas ou da pronta detenção do agente do
crime.

Visto tudo isto, resulta claro que o MP não é o único titular da acção penal, contudo é, e
disto ninguém discute, o dominus do inquérito (que é a fase embrionária e que sustenta a acção

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penal). Obs: não é só a polícia judiciária que recebe a delegação de poder, pois também o MP
pode receber delegação de poderes vindo do juiz de instrução para realizar alguns actos de
instrução que não prendem com os direitos fundamentais, nos termos do artigo 42.º, n.º 4, da
CRGB.

2 – R: O Professor Paulo de Sousa Mendes ensina-nos que a leitura que devemos dar ao
n.º 1 do artigo 47.º do CPP quando diz que o MP é u único titular da acção penal é a de que só
pode significar que é o MP quem dirige a investigação. Ou seja: o MP não é o único titular da
acção penal, mas sim é quem dirige toda a investigação.

Os conceitos do princípio, a tripartição das suas funções e alguns princípios


estruturantes do processo penal

Conceitos do Princípio

Segundo Francisco Marcolino de Jesus – o princípio é uma realidade inata, que actua
antes e sobre as leis, que está acima das ideologias ou das conjunturas, e que se impõem sobre
si mesmos;

Segundo Dworkin – os princípios atuam como verdadeiras normas jurídicas, facilitando


o trabalho de interpretação e aplicação do direito por parte do juiz; e, finalmente,

Segundo Miguel Reale – os princípios gerais do direito são enunciados normativos de


valor genérico, universalmente aceites, que condicionam e orientam a compreensão do
ordenamento jurídico tanto na elaboração das normas como na sua aplicação e integração.

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Tripartição de Funções de Princípio

1. ª Função – é a função de limitação do poder legislativo – na justa medida em que a eles


compete definir as normas;

2. ª Função – é a função de interpretação das normas – na medida em que nenhuma


interpretação é completamente desgarrada das orientações genéricas ínsitas ao princípio; e,

3. ª Função – é a função de garantir a tarefa de integração sistemática entre os vários


ordenamentos – na medida em que alguns princípios são transponíveis aos diversos modelos
processuais e aos diversos direitos estaduais.

Alguns Princípios Estruturantes do Processo Penal

I – Grupo – Princípios Inerentes à Estrutura do Processo (PSM) ou Outros


Princípios do Processo Penal (GMS).

1. Princípio da Jurisdição e do Juiz Natural ou Legal

1.1. Princípio da Jurisdição

O Processo Penal é a forma ou mecanismo de realização da jurisdição.

O Professor Germano Marques da Silva acha inicialmente que a jurisdição é a pedra


angular do processo penal.

A pedra angular do processo penal num Estado de Direito Democrático é a tutela efectiva
dos direitos fundamentais (individuais e gerais ou, se se preferir, dos direitos de liberdade,
igualdade, dignidade e segurança). Logo não se deve pôr acento tônico na jurisdição.

A Jurisdição – equivale a faculdade de dizer o direito, de pronunciar em nome da lei, de


ter a última palavra ou se se pretender, de ser a entidade emissora da decisão judicial – o que
só se torna materializável através de um processo.

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A jurisdição está também ligada à ideia do juiz imparcial, quer dizer que:

O juiz só está interessado na realização da justiça, devendo ser indiferente ao


resultado do processo.

O que quer dizer que cumprirá a sua função quer condenando, quer absolvendo.

Jurisdição vs Competência

A jurisdição é diferente da competência – que é menos abrangente do que a jurisdição e


que diz respeito ao poder de julgar concretamente definido ara cada tribunal.

Exemplos:

Tem jurisdição qualquer tribunal guineense, perante um facto praticado ou que


produziu resultado na Guiné-Bissau, levado a cabo por guineense ou estrangeiro e contra o
guineense ou estrangeiro.

Mas, dependendo da matéria em causa, nem todos os tribunais teriam competência


para julgar o tal facto.

Logo:

a) – Um tribunal de sector não pode julgar o Presidente da República, segundo


consta dos artigos 10.º, n.º 1, alínea a) do CPP e 27.º, alínea a) da LOTJ (antiga Lei n.º 3/2002,
20 de novembro, revista pela Lei n.º 6/2011, de 04 de Maio).

b) – Um tribunal de sector não vai poder julgar, em termos interdisciplinares, uma


causa que tem o valor superior a 1. 500. 000, 00 Fcfa, de acordo com artigo 21.º, n.º 4, da LOTJ.

c) – Um tribunal de sector não vai poder julgar uma providência de habeas corpus,
tal como resulta dos artigo 39.º, n.º 3, 4 e 5 da CRGB conjugado com artigo 171.º do CPP.

E mais, em termos do regime:

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Os artigos 120.º, n.ºs 3 e 4 da CRGB, 5.º do CPP e 2.º da LOTJ – versam sobre a
jurisdição. Ao passo que,

Os artigo 119.º da CRGB, 8.º e ss do CPP e 15.º da LOTJ – falam da competência.

1.2. Princípio do Juiz Natural ou Legal

Pode ser colada forçosamente ao artigo 121.º, n.º 1, do CRGB e é um princípio que tem
por finalidade evitar a escolha de um tribunal para resolver determinado caso. Impõe que as
normas orgânicas ou processuais comportam regras que permitem determinar antecipadamente
o tribunal que deve intervir em cada caso, com base nos critérios objectivos.

Trata-se de um princípio que desabrochou com a Lei de Organização Judiciária francesa


de 1790 que visava impedir a ingerência do rei nos assuntos jurídicos, o que conferiria aos
cidadãos a garantia de ter um tribunal que não curvasse perante as pretensões do rei.

Rapidamente foi acolhida pelas constituições: italiana de 1947; alemã de 1949;


portuguesa actual, concisamente no artigo 211.º, n.º 4, e finalmente a Declaração Universal de
Direitos do Homem, precisamente no seu artigo 10.º.

´2. A Estrutura Acusatória

2.1. Princípio Acusatório – trata-se de um princípio que procura a igualdade


de poderes de actuação processual entre a acusação e a defesa, ficando o julgador numa posição
de independência.

O artigo 42.º, n.º 5, da CRGB fixa o modelo processual guineense e diz que: “o processo
criminal tem estrutura acusatória, estando audiência de julgamento e os actos de instrução que
a lei determina subordinado ao princípio do contraditório (vide este último princípio no artigo
222.º do CPP)”. Fala-se ainda que o nosso modelo é de estrutura acusatória temperado com o
princípio da investigação.

O Mestre Hermenegildo Pereira entende que o modelo processual penal guineense não
devia ser compreendido como sendo de esturra acusatória apenas, porquanto clama por um

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modelo eclético na justa medida em que a nossa estrutura acusatória ainda conserva os traços
significativos do modelo inquisitório, desde logo porque:

(i) o processo penal só é público a partir da acusação definitiva, tal como resulta do artigo
78.º, n.º 1, do CPP; e,

(ii) a igualdade de armas entre acusação e defesa só tem lugar a partir da fase de instrução,
sendo o inquérito dominado pelo MP, comportando de modo visível o secretismo característico
do inquisitório.

2.1. Princípio Inquisitório – A fase do inquérito e essencialmente inquisitório.


O MP dispõe dos mais amplos poderes de investigação. A defesa não tem acesso aos autos do
processo e não conhece as provas recolhidas contra o arguido.

3. Princípio da Igualdade de Oportunidade – a chamada Isonomia Processual

A isonomia processual que telegraficamente significa a igualdade política e das leis ou


direito, impõe que o processo penal esteja estruturado de modo a permitir que a acusação e a
defesa disponham de idênticas possibilidades para intervir no processo, isto é, demonstrando
perante o tribunal a validade das suas alegações. Leva-nos a pensar no processo equitativo com
referencia para o artigo 6.º da Convenção Europeia de Direitos Humanos.

4. Direito a Defensor em todos os Actos Processuais

Vem previsto no artigo 42.º, n.º 3, da CRGB e dá vivacidade ao artigo 72.º, n.º 1, do CPP,
querendo com isso dizer que o suspeito/arguido pode escolher o seu defensor de forma livre, a
qualquer altura do processo e mesmo não tendo a possibilidade de escolher ou não tendo o tal
conhecimento, o tribunal é obrigado a nomear-lhe um defensor oficioso para, assim, cumprir
com a finalidade única e intransponível de garantir a sua defesa técnica, tal como, de resto,
resulta do artigo 73.º, n.º 1, do CPP.

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5. Princípio da Lealdade

Impõe que a lealdade seja observada na investigação e na obtenção de provas de modo a


garantir o respeito aos direitos da pessoa e a dignidade da justiça.

Se eventualmente existir uma violação ou desrespeito a este princípio por parte dos
operários judiciários, Constituição da República da Guiné-Bissau manda, no seu artigo 42.º, n.º
6, aplicar a sanção, que vai no sentido de anular as provas obtidas nas condições de desrespeito.

Trata-se de um princípio que encontra as manifestações em diversas normas


internacionais e nacionais, tal como são os casos dos artigos: 12.º da Declaração Universal dos
Direitos do Homem; 42.º, n.º 6, da CRGB; 114.º e 115.º do CPP.

Mais ainda porque é, igualmente, um princípio frequentemente colado a ideia do processo


justo e equitativo, no seguimento do já conhecido Due Process of Law – Justo Processo Legal
–, que encontra reflexos nos artigos 6.º da CEDH, 14 de Pacto Internacional de Direitos Civis
e Políticos e 42.º, n.º 1, da CRGB.

Assim, a justiça criminal é chamada a investigar as actividades suspeitas, tanto das


pessoas honestas como as das pessoas delinquentes, mas ambas são, antes de tudo, pessoas.
Logo, não é aceitável que os agentes de autoridade, servem-se da realização da justiça e por via
dela utilizarem meios análogos aos utilizados pelos delinquentes no combate ao crime, pois, se
assim não fosse, cairia os operários judiciários numa contrariedade de censurar determinadas
formas de actuação que afinal eles também utilizam.

II – Grupo – Princípios Relativos à Promoção Processual

2.1. Princípio da Oficialidade – diz-nos que a iniciativa e a prossecução processual


são públicos e pertencem ao Ministério Público.

A pergunta que não se cala é: quem tem o impulso processual? R: A obtenção da resposta
cabal passa necessariamente pelo conhecimento das seguintes normas:

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O artigo 176.º, n.º 1, do CPP diz-nos que o Ministério Público adquire a notícia do crime
por conhecimento próprio;

O artigo 192.º do CPP diz que a notícia do crime dá lugar a abertura do inquérito;

O artigo 50.º do CPP diz que o MP tem legitimidade para promover o processo;

O artigo 180.º do CPP versa sobre a titularidade do direito da queixa, direito esse que,
dependendo da natureza do crime em causa, às vezes é a própria condição de procedibilidade
do processo; e,

O artigo 68.º, n.º 1, do CPP que versa sobre os poderes do assistente, diz-nos que a
intervenção do assistente vem ao reboque da do Ministério Público.

2.2. Princípio da Legalidade – é um princípio que obriga o MP a promover o


processo sempre que adquirir a notícia do crime e lhe obriga ainda a deduzir a acusação sempre
que recolher indícios suficientes da prática do crime e de quem foi o seu agente. Tem a sede
nos artigos 1.º do CPP e 86.º, alínea g) da CRGB.

Determina a partida que uma vez tida a notícia do crime, deve-se abrir o inquérito, o que
quer significar inicialmente que a abertura do inquérito sempre terá lugar se se surgir um facto
que é dado conhecimento ao Ministério Público. Mas, atenção que nem todos os factos podem
dar lugar à abertura do inquérito. Fala-se nesta senda de exclusão das bagatelas penais.

Torna imperativo anunciar que é perfeitamente compreensível tanger ao consenso e a


oportunidade no âmbito do princípio da legalidade, uma vez que se impõe saber se sobre uma
decisão de abertura do inquérito deve reunir antes um consenso ou se deve basear-se num juízo
de oportunidade. O que se aceita apenas é o juízo de procedibilidade e não de oportunidade e a
abertura do inquérito não requer a existência do consenso.

A exclusão do juízo de oportunidade abrange:

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-- A tomada de decisão de iniciar o processo; e,

-- A submissão da causa ao julgamento.

O Princípio da Legalidade gera duas consequências fundamentais a saber:

(i) – Princípio da imutabilidade da acusação pública – que tem a função primordial


de impedir a existência da renúncia ou desistência da acusação que o Ministério Público
deduziu;

(ii) – A previsão normativa de casos de denúncia obrigatória que recai sobre:

--As entidades policiais – artigo 177.º, n.º 1, CPP.

--Os funcionários púbicos – gestores públicos – e quaisquer outros agentes ou


autoridades públicos – artigo 177.º, n.º 2, CPP.

O Princípio da legalidade exerce ainda duas funções a saber:

-- a de garantir a igualdade dos cidadãos perante a lei; e,

-- a de controlo e fiscalização da acção penal.

O Princípio da Jurisdicionalização da Instrução

É um princípio que ganhou corpo e funcionamento na Guiné-Bissau com a Lei n.º


15/2011, de 12 de outubro – também apelidada de Lei de Revisão Intercalar do Código de
Processo Penal.

A revisão intercalar fez cumprir a demanda constitucional fixada no artigo 42.º, n.º 4, da
CRGB.

O princípio da jurisdição é exercido na fase de instrução por juiz de instrução com fito de
salvaguardar o respeito aos direitos fundamentais.

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A instrução é conhecida como sendo a impugnação contraditória e tem o seu regime


fixado a partir do artigo 206.º e seguintes. Confere alguns poderes ao juiz de instrução, desde
logo os de:

--Presidir a fase de instrução – artigo 208.º, n.º 1, do CPP;

--Presidir todos os actos processuais a realiza-se nas audiências da fase de instrução


– artigo 208.º, n.º 2, do CPP;

--Proporcionar a verificação ou respeito do Princípio do Contraditório – artigo 222.º


do CPP e do Princípio da Oralidade da Audiência – artigo 224.º do CPP; e,

--Realizar diligências de provas fora do âmbito daquelas requeridas pelas partes.

A Instrução é conduzida pelo juiz na qualidade de uma entidade isenta e imparcial que
respeita os direitos fundamentais dos cidadãos, sobretudo para salvaguardar as liberdades dos
arguidos e para a conservação de provas, etc…

2.3. Princípio de Acusação – determina que as entidades que acusa e que julga
sejam distintas. No fundo, este princípio realça a característica primordial do processo penal de
estrutura acusatória.

Tem como fito garantir a imparcialidade e a objectividade das decisões judiciais.

A garantia deste princípio não é só medida quando separa o MP do Tribunal Julgador,


mas também quando determina que a fase de instrução seja da competência de um outro juiz,
nesse caso o juiz de instrução, que não seja o juiz julgador.

É como que garante a separação entre o tribunal / juiz que saneia ou condensa o processo,
atestando ou não a sua procedibilidade para julgamento ou não e o tribunal / juiz que julga
efectivamente.

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Garante ainda a que o juiz de instrução esgota o seu poder com o despacho de pronúncia
ou não pronúncia, não podendo de modo algum participar ou intervir no julgamento.

Em resumo: este princípio determinou a bipartição da magistratura judicial em: Juiz de


Instrução, conhecido noutras paragens por JIC e Juiz Julgador. Isto para deixar bem claro que
o juiz de instrução não se confunde com o juiz de julgamento e, porque não já lembrar que a
magistratura na Guiné-Bissau conhece igualmente uma bipartição, tendo de um lado a
magistratura do ministério púbico e a magistratura judicial (com a supra referida característica
bipartida).

Finalmente, o princípio de acusação liga-se de forma directa e imediata ao exercício


efectivo de defesa por parte do arguido que tem a garantia de não ser surpreendido com os
novos factos.

III – Grupo – Princípios Relativos à Prossecução Processual

1. Princípio da Investigação – vem previsto no artigo 228.º do CPP e demonstra a


sua abrangência face ao inquérito quando afirma que o inquérito é a parte da investigação.

Confere ao juiz de instrução e ao juiz julgador a faculdade de continuar a investigar só


para os efeitos de aprofundamento ou de aclaramento de factos constantes na acusação ou no
despacho de pronúncia, dependendo do juiz em causa, daí que, mesmo em sede de produção de
prova, aos juízes são permitidos realizar todas diligência de provas reputadas necessárias para
a descoberta da verdade, mesmo as que não foram requeridas pela acusação ou defesa, como
de resto atestam os artigos 208.º, n.º 4, do CPP e 241.º, n.º 1, alínea d), do CPP, conforme se
está perante o juiz de instrução ou perante o juiz de julgamento.

Com efeito, a prerrogativa investigativa não pode extrapolar/transpor ao âmbito que o


processo tinha na fase de inquérito, isto porque, ao pensar no princípio de vinculação temática,
ressalta a obrigação de respeitar os princípios basilares em torno do objecto do processo,
nomeadamente: (i) a identidade – que pretende a que o processo se mantenha idêntico ou o
mesmo do início ao fim do processo; (ii) a unidade – que pretende que o objecto do processo

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seja conhecido e julgado na sua totalidade; e (iii) a consumpção – que pretende evitar o
desmembramento do objecto do processo em vários, devem ser respeitados.

2. Princípio de Concentração – todos os factos relevantes devem corresponder a


actos a serem realizados num único espaço e tempo, se possível for. Quer dizer que a
concentração tem que assumir as vestes de concentração espacial e concentração temporal. Tem
como escopo garantir a prossecução processual unitária e a continuidade dos actos processuais,
no sentido de evitar as possíveis interrupções.

As exigências desses princípios obrigam a que sejam criadas as condições para os actos
processuais serem praticados em uma audiência unitária e continuada. Daí que o artigo 226.º,
n.º 1, do CPP fala na continuidade da audiência. Deve-se chamar a atenção para o facto de o
Princípio de Continuidade cumprir à sua própria maneira o papel do Princípio da Concentração.

Excepcionalmente, são admitidas as interrupções, mas o n.º 4 estabeleceu o hiato


temporal de 30 dias como limite máximo para retomar a audiência e passado este prazo,
estabelece a consequência da perda de eficácia da prova.

O Mestre Francisco Marcolino de Jesus afirma que o princípio da concentração está


umbilicalmente ligado a mais dois outros princípios processuais, a saber: (i) o princípio da
oralidade – artigo 224.º do CPP; e, (ii) o princípio da imediação – artigo 242.º, n.º 1, do CPP,
que obrigam a que a decisão jurisdicional seja tomada pelo juiz que assistiu toda a produção de
provas e discussão da causa, pois só assim se possa ter um conhecimento cabal que leva a uma
boa decisão da causa.

No trilho da Professora Maria João Antunes “estes princípios, a par dos outros
correlacionados, apontam para a concentração espacial da audiência de julgamento, devendo
esta decorrer em um mesmo local, bem como para a concentração temporal, devendo a
audiência de julgamento, uma vez iniciada, decorrer sem interrupções e adiamentos” (7).

(7) Cfr. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, p. 190.

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3. Princípio de Suficiência da Jurisdição Penal – é um princípio que dita a regra


segundo a qual o processo penal é promovido sem aval de qualquer outro processo a ele conexo
e todas as questão que interessam à decisão da causa são nele resolvidas, quer tratando-se, por
exemplo, de questões de natureza civil, ambientais, fiscais, administrativas, etc. É como que
desrespeita, a partida, a natureza não penal da outra questão conexa.

Na verdade, a área adjetiva do Direito Penal acolhe o Princípio da Suficiência Penal no


artigo 7.º do Código de Processo Penal, tendo, de facto, imposto uma bipartição dogmática em
que é distinguida as questões prejudiciais, tendo, de um lado, a prejudicialidade própria e,
doutro lado, a prejudicialidade imprópria.

É conferida a nomenclatura de Questão Prejudicial só pelo mero facto de não comportar


a natureza penal, mas sim pertencer a outros ramos de direito, pois se no direito penal tivemos
que resolver algo que não é do fórum penal, estaremos a partida a ter já um prejuízo/dificuldade
que decerto não teríamos se todas as questões a serem resolvidas fossem de âmbito penal, daí
o nome da questão prejudicial. Agora, de comum, quer a prejudicialidade própria quer a
prejudicialidade imprópria, têm o facto de albergarem uma questão que não é de fórum penal,
mas sim pertencente a outros fóruns como, por exemplo, fórum cível, que está intrinsecamente
ligada à questão penal.

Assim, de diferente têm o seguinte: na Prejudicialidade Própria – a tal questão prejudicial


não se conseguiu resolver no direito penal ou através dos mecanismos de direito processual
penal, é sim resolvida noutras áreas adjacentes e a solução vem a ser integrada no direito
processual penal para efeitos da decisão. Há quem diga que face a uma situação similar, e só,
de facto, perante uma situação de género se pode falar da Competência em Razão do Valor no
direito processual penal; na Prejudicialidade Imprópria – a tal questão prejudicial da outra área
do direito (exemplo direito civil) é resolvida no próprio direito penal e/ou através dos
mecanismos de direito processual penal, sem se socorrer das outras áreas para se ter a solução.

Ora: o n.º 1 do artigo 7.º estampa a soberania e a prepotência do direito processual penal
ao vaticinar que “ é no processo penal que se resolvem todas as questões que interessam à
decisão da causa, independentemente de sua natureza”;

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na decorrência, o n.º 2 consagra a possibilidade de suspender o processo penal – a


requerimento ou oficiosamente –, e socorrer-se das outras áreas para obter soluções que, no
final, devem ser integradas no processo penal (com isto abre-se para outras áreas do direito, se
quiser: permite-se com isso que haja uma solução interdisciplinar);

o n.º 3 consagra 1 ano como sendo o hiato temporal intransponível para a suspensão do
processo, por considerar ser suficiente para conseguir a referida solução interdisciplinar; e,

por fim, o n.º 4 avoca a competência da resolução da questão prejudicial que não tenha
sido decidido para o processo penal caso, durante aquele um ano, a outra área não oferecer a
solução, reafirmando-se, assim, a soberania de direito processual penal em resolver tudo através
dos seus próprios mecanismos.

4. Princípio do Contraditório – tem a sua sede na Constituição da República da


Guiné-Bissau, máxime no artigo 42.º, n.º 5, e impõe que a audiência de julgamento se subordine
a ele.

Encontra ligação obrigatória a denominada igualdade processual que pode resvalar-se em


igualdade de armas, para significar:

--igualdade de tempo de intervenção;

--igualdade de tempo de ripostar;

--igualdade de direitos de questionar; e,

--igualdade de direitos de ser questionado.

É um princípio que decorre ainda das normas dos seguintes artigos: 10.º da Declaração
Universal dos Direitos do Homem; e, 6.º, n.º 1, da Convenção Europeia de Direitos do Homem.

Ressalta o dever de o tribunal ouvir antes os sujeitos processuais sempre que deverá tomar
as decisões que os afectem. É um princípio característico do processo penal de estrutura
acusatória, voltado à finalidade processual de protecção de direitos fundamentais.

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IV – Grupo – Princípios Relativos à Prova

1. Princípio da Verdade Material

Nesta sede o inevitável é não estabelecer a linha distintiva assaz ténue existente entre a
verdade material e a verdade formal/processual, considerando que no processo penal ocorrem
simultaneamente testes tendentes ao apuramento das duas verdades que servem, de facto, para
a melhor realização da justiça. Assim, existem:

(i) – A Verdade Processual ou Formal que, no trilho do Professor Paulo de


Sousa Mendes, é “uma verdade conscientemente assumida como produto contingente do
confronto entre as provas concorrentes apresentadas pela acusação e pela defesa e que terão que
ser apreciadas pelo julgador segundo critérios probabilísticos” (8).

Trata-se duma verdade resultante do contraditório (artigo 222.º do CPP), ou seja: das
alegações de facto da acusação e da defesa e da prova dessas alegações. Esta verdade só e
suportável quando se verifica uma efectiva igualdade de possibilidades por parte da acusação e
da defesa.

De enaltecer que, para o cumprimento desta verdade a acusação e a defesa estão obrigados
a, pelo menos:

--Apresentar os meios de prova que servem de base à decisão – o chamado ónus de


produção;

--Sustentar a sua posição e inquinar os sustentáculos tecidos por outro beligerante


– falar-se-á no ónus de persuasão; e,

--Prognosticar a possível decisão do Tribunal e destruir as eventuais vantagens


angariados por outro beligerante – falar-se-á no ónus tático (9).

(8) Cfr. Paulo de Sousa Mendes – Lições de Direito Processual Penal, op., cit., p. 216.
(9) Cfr. Ibidem.

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A própria natureza de sanção penal considera a verdade processual ou verdade formal


insatisfatória, porquanto transporta no seu âmago a ideia verídica de que alguém possa ser
penalmente punido só porque a sua defesa é fraca face a acusação.

Aqui, torna imperativo recordar que o interesse dos órgãos de administração da justiça
(MP e os Tribunais) é única e exclusivamente a realização da justiça, o desiderato que é
cumprido apenas quando o culpado é condenado e o inocente é absolvido.

Atenção que, a verdade processual nem sempre é verdade e nem e necessariamente


verdade, contudo é uma verdade processualmente válida.

Assim sendo, passa a fazer todo o sentido a que o Tribunal se obrigue a procurar a verdade
histórica para a melhor realização da justiça, suprindo, dentro dos limites legais, as deficiências
dos demais sujeitos ou intervenientes processuais. Assim se chega a segunda verdade que é:

(ii) – A Verdade Material – que é, na realidade, “uma verdade investigada


pelo julgador independentemente das contribuições efectuadas pela acusação e a defesa, na
expectativa de conseguir descobrir a realidade do facto histórico sujeito ao julgamento” (10).

Trata-se de uma verdade alcançada quando o próprio Tribunal faça o uso das suas
prerrogativas investigativas com o fito de suprir algumas debilidades e inverdades ou, se se
preferir, quando o tribunal recusa a ser passivo na aquisição e na produção da prova.

Esta verdade tem um forte amparo conferido pelo princípio da investigação. Não
significa, em termos rigorosos, que o Tribunal deva agir substituindo os papéis próprios da
acusação, quer dizer:

--Continuará a acusação a apresentar provas suficientes da existência do crime e da


identificação do agente do crime – o chamado ónus de produção;

--Continuará a sustentar em juízo as suas conclusões factuais e probatórias que


incentivam a condenação do arguido – o tal ónus da persuasão; Mas,

(10) Ibidem.

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--Também o Tribunal poderá – sob pena de nulidade insanável, artigo 107.º, n.º
1, alínea d) –, ordenar oficiosamente a produção de outros meios de prova cujo conhecimento
se lhe afigure ainda necessário a descoberta da verdade e à boa decisão da causa;

--A defesa fica desonerada de produzir qualquer meio de prova favorável ao


arguido;

--A confissão, mesmo sendo integral e sem reservas, não é sinónimo da condenação
porque o tribunal, mediante o juiz, pode muito bem duvidar do seu carácter livre e não
considerá-la para efeitos da decisão;

--Igualmente pode o Tribunal, inclusive, ordenar a junção aos autos de documento


qua a acusação e a defesa já perderam o direito de juntar; e,

--Finalmente, e que fique claro, a falta de consistente alegação oral não gera
automaticamente a condenação do arguido, mas o tribunal jamais poderá substituir o defensor
e fazer a defesa técnica. Quer dizer que o tribunal nunca poderá exercer o ónus tático
pertencente à defesa.

Exceções ao Princípio da Verdade Material:

1. Proibição da utilização do conhecimento privado do juiz nas suas decisões – o chamado


Quod Non Est In Actis Non Est In Mundo. Esta proibição determina ainda que a prova tem que
ser feita no processo e até a audiência.

A proibição da utilização do conhecimento privado do juiz pode ser contornada se o juiz


declarar-se impedido e sujeitar-se à condição de testemunha. Só nessa qualidade é que o seu
conhecimento privado pode servir os intentos da descoberta da verdade.

Mas atenção que, se o facto for notório, de conhecimento oficial ou judicial, o juiz já o
pode utilizar na tomada da sua decisão, por alusão ao artigo 514.º do CPC, possibilitado pelo
artigo 2 do CPP;

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2. O Princípio da verdade material não pode violar os meios de prova e os meios de


obtenção de prova, nem na produção e nem na valoração;

3. Encerrada a audiência o princípio da verdade material não pode ditar o retorno dos
juízes à sala de audiência para efeitos de produção de provas suplementares, salvo se for para
obter declarações ou depoimentos sobre a personalidade e condições de vida do arguido que
ajudarão na determinação da sanção; e,

4. Após a decisão, esgota-se o poder jurisdicional do juiz sobre a causa e a verdade


material não pode ditar o renascimento deste poder. Se resultar facto importantíssimo, só vai
poder ser avaliado no recurso.

Nota: A ideia de existência de duas verdades concorrentes no processo penal não é, de


todo, pacífico na doutrina e o Professor Germano Marques da Silva nega essa dicotomia de
verdades assinaladas de verdade material e verdade processual, tendo em linha de conta que
apenas há a verdade.

2. Princípio de Livre Apreciação da Prova – outorga ao Tribunal, por intermédio


do juiz, a faculdade de apreciar as provas segundo a sua livre convicção. Aliás, tem sido essa a
ideia postulada no artigo 123.º, n.º 2, da CRGB, tendo resultado que “no exercício das suas
funções, o juiz só deve obediência à lei e à sua consciência”.

Esta formulação do legislador constitucional encontra-se rigidificada ou concretizada


pelo legislador do Código de Processo Penal quando, na verdade, tentou balizar a expressão
livre convicção ou consciência do julgador, submetendo-a às regras de experiência e aos
critérios da lógica nos termos do artigo 117.º, n.º 1. Este número é, de facto, a sede própria do
princípio da livre apreciação da prova.

A liberdade referida não é e nem poderia ter sido uma liberdade total e a convicção ou a
consciência também não é a mera consciência ou convicção do julgador desgarrada de outros
tantos parâmetros jurídicos. Assim:

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É como que de um lado está-se a falar da consciência jurídica – não propriamente duma
consciência moral, religiosa, filosófica etc… –, e, doutro lado, está-se a falar de uma liberdade
guiada pelas regras de experiência e pelos critérios da lógica.

Digamos ser esse o único comando legal que obriga o julgador, na apreciação da prova,
a utilizar a sua consciência jurídica, e não qualquer outra consciência, e a orientar a sua
apreciação livre da prova respeitando ou seguindo as regras de experiência e os critérios da
lógica. Nesta senda, explica Paulo Saragoça da Matta que “a liberdade concedida ao julgador
não visa criar um poder arbitrário e incontrolável, mas antes um poder que na sua essência,
estrutura e exercício se terá de configurar como um dever, justificado e comunicacional” (11).

O princípio de livre apreciação da prova não é um princípio absoluto, no sentido de não


ser aplicado a todos os meios de prova, querendo isto significar que comporta duas excepções
ou, se se preferir, há dois meios de prova que escapam ao critério de livre apreciação da prova,
nomeadamente: (i) – a prova documental; e, (ii) – a prova pericial, tal como resulta do n.º 2 do
artigo 117.º do Código do Processo Penal que remete para artigos: 131.º, in casu, n.º 2, do CPP
que versa sobre o valor probatório do documento autêntico e autenticado e 136.º igualmente do
CPP que versa sobre o valor probatório do relatório pericial.

O melhor entendimento aqui só pode ser obtido se separarmos as explicações em relação


a estes dois meios de prova que constituem excepções ao princípio de livre apreciação de prova.

Quanto à Prova Documental – prevista no artigo 130.º e ss do CPP conjugado com artigo
362.º e ss do CC –, urge deixar bem claro que nem todas as provas documentais são passíveis
de constituir excepção ao princípio de livre apreciação da prova, desde logo porque os factos
constantes dos documentos particulares (quer dizer os não autenticados) são apreciadas
livremente pelo tribunal segundo a imposição legal constante do n.º 1 do artigo 131.º do CPP..

Se assim é, e se os documentos comportam a tripartição, uma vez excluída os documentos


particulares (os não autenticados), significa, automaticamente, que os factos que escapam ao

(11) Cfr. Paulo Saragoça da Matta – A livre apreciação da prova e o dever de fundamentação da sentença, In:
Jornadas de Direito Processual Penal e Direitos Fundamentais, Coord. Maria Fernanda Palma, Coimbra, Livraria
Almedina, 2004, p. 254 de 221-279.

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princípio de livre apreciação de prova são apenas os que constarem ou de documentos


autênticos (369.º CC) ou de documentos autenticados – 377.º – (quer dizer os documentos
particulares autenticados), conforme, de resto, atesta o n.º 2 do artigo 131.º do CPP.

Não quer dizer que os documentos autênticos e autenticados são sempre excepção ao
princípio de livre apreciação da prova, só que a partida são e apenas deixarão de a ser se,
eventualmente, as suas forças probatórias forem ilididas com base na falsidade tal como estipula
o artigo 372.º/1 do CC, no prazo e nos articulados fixados no artigo 360.º/1 do CPC.

Quanto à Prova Pericial – previsto no artigo 133.º e ss do Código de Processo Penal, há


que explicar que é um método de prova utilizado sempre que a percepção ou apreciação dos
factos exigirem especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos, que normalmente
levam ao convencimento directo do julgador desde que não exista a discordância em relação às
conclusões nela constante fundamentadas em juízos de igual valor técnico, científico ou
artístico. Quer isto dizer que, a par da prova documental, também a prova pericial não constitui
sempre excepção ao princípio de livre apreciação da prova. Constitui a partida, mas pode deixar
de constituir se existir outras conclusões igualmente periciais que põe-na em causa.

3. Princípio de In Dúbio Pró Reo – trata-se um princípio que impõe que qualquer
dúvida existente no processo, no capítulo da prova, seja valorada a favor do arguido.

Diga-se de passagem que a questão de ónus de prova não tem relevância em processo
penal, uma vez que a dúvida sobre o facto resolve-se em função do princípio da presunção da
inocência e claramente a favor do arguido.

O Professor Germano Marques da Silva vaticinou que há uma unanimidade na doutrina


no concernente à não existência de ónus de prova em sentido formal – que se traduz no
encargo de produzir a prova por parte da acusação ou da defesa. Só que alertou que esta
unanimidade já não é tão dominante no concernente a ónus de prova em sentido material –
que se traduz na ideia de sujeição às consequências desfavoráveis resultantes da falta de prova.

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Por exemplo: se o sujeito A, na qualidade de arguido, poder e ter como facultar as provas
que dissipam o fumus comissi delicti que paira sobre ele, questionou o autor se deverá ou não
fazê-lo?

A questão que não cala seria se se não fizer e ter o azar de ver as incertezas da acusação
transformadas em certezas absolutas e capazes de afastar o princípio de in dúbio pró reo,
arriscará à uma condenação por um crime não cometido, dando corpo, assim, à existência do
chamado erro judiciário?

A título elucidativo, no sistema inglês, o direito ao silêncio como corolário da presunção


da inocência não se verifica, pois aí o arguido tem o ónus de jurar pela sua inocência, devendo
facultar sempre que for possível provas suficientes que o iliba, sob pena de enfrentar a
condenação.

No sistema português é notório que é sobre a acusação que recai a incumbência de provar
os factos imputados ao arguido, logo é como que há um ónus material que pertence a acusação.

Autores há que acharam que impende sobre o arguido a prova das circunstâncias
justificativas ou desculpantes por si alegadas. Mas, conclui a este respeito o Professor Germano
Marques da Silva que este entendimento viola o princípio da presunção de inocência, pois
poderia conduzir a condenação de uma pessoa por um facto que talvez pudesse não ser punível,
por diversas circunstâncias, nomeadamente por ser duvidoso por falta de prova.

V – Grupo – Princípios Relativos à Forma

1. Princípio de Publicidade – consiste na atribuição a qualquer pessoa do direito de


assistência às audiências dos tribunais. Trata-se de um princípio constante dos artigos 78.º e ss
do CPP, conjugado com artigo 223.º do CPP, e que só vigora, segundo o preceituado no n.º 1
do artigo 78.º do CPP, a partir da acusação definitiva.

A publicidade envolve não só o direito dado a qualquer pessoa de assistir as audiências


no tribunal, como também envolve:

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--A assistências aos actos processuais por parte da comunicação social – artigo 78.º, n.º
2, alínea a);

--A narração circunstanciada do teor dos actos processuais por parte da comunicação
social – artigo 78.º, n.º 2, alínea b);

--Consulta e obtenção de cópias, extratos e certidões de qualquer parte do processo –


artigo 78.º, n.º 2, alínea c).

Já o n.º 3 do artigo 78.º do CPP submete a reprodução de peças processuais, captação de


imagens e som a prévia autorização do tribunal.

A Publicidade comporta limitações constantes no artigo 79.º do CPP:

--no n.º 1 há o estabelecimento de uma clara possibilidade de o tribunal restringir


parcialmente ou totalmente a publicidade do acto processual público para preservar outros
valores, tal como a moral pública e a dignidade humana.

--no n.º 2 existe uma categorização que vai no sentido de proibir que a restrição da
publicidade ora permitida fosse ao ponto de abranger a leitoa da sentença. Quer dizer que a
leitura da sentença escapa sempre as restrições possíveis.

--no n.º 3 há uma separação de realidades em que se chamou a atenção para o facto de
não ser confundível o impedimento de assistência da audiência com a restrição de publicidade,
daí que não se pode ter por restrição da publicidade a proibição de assistência de um dos
participantes processuais como forma de sancionar os seus comportamentos incorretos, por
exemplo, a expulsão do advogado que perturba a audiência; as limitações de assistência de um
ou outro participante como forma de garantir a segurança dos demais; e, a limitação de
assistência por parte de algumas pessoas que não deverão ser vistas, como são os casos dos
agentes infiltrados, ou que, por razões da pouca idade, o presenciar a audiência não for, de todo,
abonatório.

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Remata o artigo 223.º, n.º 1, do CPP que a audiência é pública sob pena de nulidade
insanável – o que deve ser compreendido excecionando as situações do artigo 79.º do CPP, em
que claramente se justifica impor algumas restrições a publicidade.

2. Princípio de Oralidade – é um princípio válido para todos os momentos


processuais e está ligado ao princípio da livre convicção, daí é que não se deve ler a partida e
todas as declarações devem revestir a forma oral. Está previsto no artigo 224.º do CPP.

3. Princípio de Imediação – é um princípio que exige o contacto directo do julgador


com as fontes de prova. Está previsto no artigo 242.º do CPP.

5. A Constituição Judiciária

5.1. Normas básicas sobre o MP no âmbito da Constituição Judiciária

5.1.1. Estatuto constitucional do Ministério Público

A Constituição da República da Guiné-Bissau contém um único artigo reservado ao


Ministério Público, o que equivale dizer que é o artigo 125.º a sede constitucional do Ministério
Público e na qual o Ministério Público aparece definido como sendo “o órgão do Estado
encarregado de, junto dos Tribunais, fiscalizar a legalidade e representar o interesse público
e social e é o titular da acção penal”.

O MP é ainda um órgão de administração de justiça autónomo e organizado


hierarquicamente para representar o Estado. Igualmente é um centro autónomo
institucionalizado de emanação da vontade do Estado.

Ora, quando se fala que o MP é um órgão que administra a justiça, está-se a dizer que o
MP colabora com o Tribunal na descoberta da verdade e na realização do Direito, razão pela
qual se diz que o MP não é interessado na acusação, pois ele deve a obediência incessante aos
critérios da estrita legalidade e objectividade, tal como, de resto, resulta do artigo 52.º do CPP.

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Nota: O MP, não obstante o facto de ser um órgão do Estado que administra a justiça, não
é, de facto, uma instituição consubstancial à clássica estrutura de divisão de poderes soberanos
do Estado e nem participa do poder judicial no exercício da função jurisdicional.

Atenção que, isto pode soar contraditório com tudo supra visto, mas que na verdade não
é se se atentarmos ao moderno processo penal de estrutura acusatória que manda a que a
actividade jurisdicional seja promovida por entidade diversa do Tribunal, mas que seja exercida
por outra entidade diversa de quem promoveu que, in casu, é o MP.

De facto, quer a função de promoção quer a função de efectivação ou exercício da


jurisdição são funções públicas de relevo, só que o que verdadeiramente se quer é que:

--O Estado enquanto acusa, não julga!

e que

--O Estado enquanto julga, não acusa!

Na verdade, isto leva-nos de volta à estrutura acusatória em que existe a separação


estanque entre a entidade que julga e a entidade que acusa.

Aqui chegados, torna imperativo falar das tríadas do Ministério Público ou seja, das três
funções intrínsecas ao Ministério Público, que são:

--A Função de Fiscalização da Legalidade – constantes das alíneas a), c), d) e h),
do artigo 3.º, da Lei Orgânica do Ministério Público, doravante LOMP, Lei n.º 7/95, de 25 de
Julho.

--A Função de Representação dos Interesses Estatais – constante da alínea b), do


artigo 3.º da LOMP conjugado com artigo 5.º, alíneas a), d) e e), igualmente da LOMP.

--A Função de Assistência Societária – no sentido de proteger os mais fracos, os


desprotegidos – englobando os pobres, os deficientes, as crianças etc., –, e os trabalhadores
contra as ameaças do poder e acções dos poderosos, conforme resulta, com mais ou menos

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propriedade, do próprio preâmbulo da LOMP, da alínea g), do artigo 3.º, da LOMP e da alínea
b), do artigo 5.º, da LOMP.

É de salientar que a organização dos Ministérios Públicos não é igual em todos os sistemas
jurídicos e a doutrina identifica duas modalidades:

--Uma que estrutura o MP como representante do Executivo nos Tribunais; e,

--Outra que estrutura o MP como um órgão autónomo de administração de justiça,


tal como é a modalidade guineense.

5.2. Da autonomia do Ministério Público

5.2.1. Estatuto Próprio

Quanto ao estatuto próprio, há que se elucidar que a magistratura do MP é paralela a


magistratura judicial mas conserva a sua independência perante a magistratura judicial e perante
os demais órgãos da administração central e local, conforme reza o n.º 1 do artigo 2.º da LOMP.

5.2.2. Objectividade, Isenção e Imparcialidade

Quanto a autonomia do Ministério Público, o artigo 2.º, n.º 2, da LOMP é claro em


reafirmar a autonomia do MP que é caracterizada pela:

--Vinculação estrita à legalidade e objectividade; e,

--Exclusiva sujeição dos magistrados e agentes do ministério público às directivas,


ordens e instruções previstas nos estatutos e nas leis. Quer dizer as do Procurador Geral da
República.

Se assim é, então quid iuris se eventualmente o magistrado receber ordem ou instrução


ilegal?

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Parece ser obvio que à pergunta encontra-se a resposta segunda a qual o magistrado do
Ministério Público não pode acatar a ordem ou instrução ilegal venham elas donde vierem,
porque conserva aquilo que é chamado de autonomia funcional.

Esta autonomia funcional do magistrado não pode ser beliscada nem com pretextos de,
por exemplo, utilidade pública, segurança nacional ou razões de Estado ou da sua continuidade.

A título elucidativo, em Portugal, o magistrado pode recusar uma ordem do seu superior
hierárquico se concluir que a tal ordem viola de forma grave a sua consciência jurídica, tal como
postula o artigo 58.º, n.º 3, da LOMP portuguesa.

Na Guiné-Bissau o Estatuto dos Magistrados do Ministério Público, em diante EMMP,


foi categórico e inequívoco em afirmar no n.º 1 do artigo 6.º que “os magistrados do ministério
publico devem recusar o cumprimento de directivas, ordens e instruções ilegais e podem
recusa-lo com fundamento em grave violação da sua consciência moral e jurídica ”. O n.º 2
acrescenta que a recusa deve revestir a forma escrita.

Em caso de recusa do cumprimento da ordem ilegal, pode e tem o emissor a faculdade de


avocar o processo para redistribuir a outro subordinado ou executar directamente, em
conformidade com o n.º 3 do artigo 6.º do EMMP, sendo certo que arcará com as consequências
da ilegalidade, se o fizer.

Mas atenção que, a recusa de uma ordem do Procurador Geral da República só pode ser
com fundamento na ilegalidade da ordem, tal como, de resto, resulta da alínea b), do n.º 4, do
artigo 6.º do EMMP. Serve isto para se ter a perfeita noção de que recusar ordem não é uma
prerrogativa deixado ao belo prazer do magistrado de categoria inferior.

O Ministério Público, Origem e Evolução

Podia-se ir buscar a origem do Ministério Público na idade média (Séculos V a XV), ou


na antiguidade romana, mas tudo isso não cumpriria o propósito, porque a origem do Ministério
Público mais própria vai-se buscar na Revolução Francesa de 1789.

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O que verdadeiramente motivou a instituição do Ministério Público ou a sua organização


é o fenómeno de publicização do crime e consequente perseguição oficiosa.

A Organização do Ministério Público

A organização do Ministério Público consta dos artigos 125.º, n.º 2, da CRGB, conjugado
com artigos 7.º, máxime o 8.º da LOMP. Destas normas pode-se retirar que o MP organiza-se
como uma estrutura hierarquizada e sob a direcção do Procurador Geral da República.

Algum paralelismo se impõe sobre as magistraturas, no sentido de considerar a do MP


como sendo uma magistratura unida e, doutro polo, considerar a judicial como sendo uma
magistratura desunida, porquanto cada juiz é independente e exerce autonomamente a plenitude
da função jurisdicional, claro está, dentro da sua competência legal. O mesmo é dizer que os
magistrados judiciais (os de categoria inferior) não estão sujeitos a ordens ou instruções dos de
categoria superior ou mesmo do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Contudo isto não
quer dizer que os tribunais inferiores deixam de ter o dever de acatamento das decisões
proferidas por via dos recursos pelos tribunais superiores, nos termos do artigo 5.º, n.º 1, do
EMJ.

A Procuradoria-Geral da República enquanto órgão hierarquicamente superior do MP,


tem a seguinte estrutura, em consonância com o artigo 9.º da LOMP:

--Gabinete do Procurador-Geral da República;

--Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público;

--Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República;

--Gabinete de Documentação e Legislação;

--Gabinete de Advocacia do Estado; e,

--Secretaria da Procuradoria-Geral da República.

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No concernente as competências da Procuradoria-Geral da República que interessam ao


processo penal, deve ser destacadas algumas constantes nas alíneas do n.º 1 do artigo 10.º da
LOMP, nomeadamente a de: (i) promoção da defesa da legalidade democrática, constante na
alínea a); (ii) dirigir, coordenar e fiscalizar a actividade do Ministério Público e emitir as
instruções e ordens a que deve obedecer a actuação dos magistrados, segundo consta na alínea
b).

No que tange as competências do Procurador-Geral da República que interessam ao


processo penal, pode-se apontar apenas algumas mais sonantes, como as de: (i) representar o
MP no Supremo Tribunal de Justiça, no Supremo Tribunal Administrativo e no Supremo
Tribunal de Contas, conforme resulta do n.º 1 do artigo 12.º da LOMP; e em várias alíneas do
n.º 2 do artigo 12.º da LOMP temos: (ii) promoção da defesa da legalidade democrática – vide.
al. a); (iii) dirigir, coordenar e fiscalizar a actividade do Ministério Público e emitir as instruções
e ordens – vide. al. c); (iv) fiscalizar superiormente as actividades de investigação criminal –
vide. al. e); (v) inspecionar os serviços de MP e PJ e ordenar ou solicitar a instauração de
inquéritos, processos criminais e disciplinares aos magistrados e agentes da polícia judiciária –
vide. al. f); (vi) autorizar o MP a confessar, transigir ou desistir nas acções cíveis em que o
Estado seja parte – vide. al. g); (vii) participar ao Conselho Superior da Magistratura Judicial
os crimes cometidos por magistrados judiciais no exercício das suas funções – vide. al. i); (viii)
intervir nos contratos em que o Estado seja outorgante, quando a lei o exigir – vide. al. j); e,
(ix) dar posse ao Vice-PGR, aos PGA, aos PR (Procuradores da República) e aos Advogados
do Estado – vide. al. k).

Quanto a coadjuvação e substituição do Procurador-Geral da República, o artigo 13.º da


LOMP é categórico em apontar naturalmente o Vice-Procurador-Geral da República como o
coadjuvador e substituto do Procurador-Geral da República.

Sobre os actos do Procurador-Geral da República, o artigo 14.º da LOMP demonstrou


que são atacados mediante a reclamação dirigida ao Conselho Superior da Magistratura do
Ministério Público.

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5.2.3. Titularidade da Acção Penal

Quanto ao exercício da acção penal, é mister enfatizar que é retirada directamente do


artigo 3.º, alínea e) da LOMP, sendo certo que o exercício conflui-se com a titularidade da acção
penal referida em três normas, nomeadamente, no artigo 1.º, in fine, da LOMP, artigo 47.º, n.º
1, do CPP e artigo 125.º, n.º 1, in fine, da CRGB.

Se atentos ficarmos, ficará patente que as duas primeiras normas diferem ligeiramente da
última sem que, com isso, se possa falar na inconstitucionalidade daquelas, mas sim,
parafraseando o Professor Paulo de Sousa Mendes, falar-se-á apenas em ser o MP quem preside
ou dirige a investigação criminal – o que, em sentido restrito, compreende apenas a fase de
inquérito.

De referir que, este entendimento parece ser corroborado pela norma da alínea j), do artigo
3.º, da LOMP que estatui, dentre as competências especiais do MP, a de “presidir a investigação
criminal” e a da alínea b) do artigo 48.º do CPP que foi exarado, iter alia, no mesmo sentido.

Há que se reter a chamada de atenção do Professor Germano Marques da Silva quando


alertou que o conceito de acção penal – adaptado à nossa polissemia de “titularidade da acção
penal” ou “exercício da acção penal” –, não ser unívoco. Quer dizer que não tem o mesmo
significado e nem se pode esperar que haja um único entendimento em relação, pelo que
demonstra as variações ou os possíveis e recorrentes significados dados ao binómio, em que
resultam:

--O Sentido Amplo no qual o trinómio: Titularidade da Acção Penal / Acção Penal
/ Exercício da Acção Penal equivaleria a processo;

--O Sentido Restrito no qual o trinómio: Titularidade da Acção Penal / Acção Penal
/ Exercício da Acção Penal seria a promoção da actividade judicial no processo; e,

--O Terceiro Sentido no qual o trinómio: Titularidade da Acção Penal / Acção Penal
/ Exercício da Acção Penal corresponderia à mera prossecução da actividade processual.

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Quanto às Atribuições

Recenseamos as de:

--Receber as denúncias, as queixas e as participações e apreciar os seguimentos a


dá-las. É sintomático disto tudo o plasmado na alínea a), do artigo 48.º do CPP;

--Dirigir o inquérito – artigo 48.º, alínea b), do CPP e artigo 3.º, alínea j), da LOMP;

--Deduzir a acusação e sustentá-la efectivamente na instrução e no julgamento –


artigo 48.º, alínea g) do CPP;

--Interpor recurso – 48.º, alínea i), do CPP.

--Promover a execução das decisões judiciais – artigo 48.º, alínea j, do CPP.

Legitimidade do Ministério Público

Tem legitimidade de promover o processo penal, conforme, de resto, atesta o artigo 50.º,
n.º 1, do Código de Processo Penal.

Deve-se chamar atenção para o facto de esta legitimidade não ser total, na justa medida
em que existem algumas restrições à legitimidade do Ministério Público aferidas em função da
natureza dos crimes. Assim:

--No que toca ao crime de natureza particular – o que não existe na Guiné-Bissau –
, o MP tem a sua legitimidade condicionada a existência da acusação particular ou da queixa e
acusação particular em simultâneo.

Obs.: Não tendo a tal natureza de crime, obviamente que também não há normas que
falam disso directamente na Guiné-Bissau, contudo é retirada das exigências da natureza
particular do crime.

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--No que tange ao crime de natureza semipública, a legitimidade do Ministério


Público é legalmente restringida, se não vejamos:

O artigo 50.º, n.º 2, do CPP diz claramente que quando o procedimento criminal depender
de queixa – que é quando estamos em face de um crime de natureza semipública –, o ofendido
terá que dar necessariamente conhecimento ao MP para que este promova o processo.

--Mesmo no tocante ao crime de natureza pública em que a partida o MP tem


legitimidade quase que absoluta e automática, vê-se a tal legitimidade comprimida, na Guiné-
Bissau, sempre que o crime público em referência for praticado por Presidente da República,
fora do flagrante delito.

Uma vez que, naquelas circunstâncias, é imperativo que a legitimidade promocional


inicialmente pertencente ao MP, transfira e passa a pertencer a Assembleia Nacional Popular
que deverá requerer ao Procurador-Geral da República a promoção da acção penal contra o
𝟏
Presidente da República – o que deve ser anteriormente proposto por um terço ( ) de
𝟑
𝟐
deputados em efetividade de funções e aprovado por dois terços ( 𝟑 ) igualmente de deputados

em efetividade de funções.

Está-se a falar de mecanismos previstos nos artigos 85.º, n.º 1, alínea e), conjugado com
o artigo 72.º, n.º 2, ambos da Constituição da República da Guiné-Bissau. Só após o
cumprimento desta exigência é que o MP recupera a legitimidade promocional, de
acompanhamento e da direcção do processo.

A título paralelístico, em Portugal, em caso de alguns crimes específicos (mormente dos


artigos 347.º e 355.º do CP português) a legitimidade promocional pertence ao Governo
português (12), a partida, no sentido de caber apenas a ele dar ou elaborar a participação. Se se
preferir, o procedimento criminal depende dele (o Governo português) e só depois da referida
participação é que o MP recupera a legitimidade.

(12) Cfr. no mesmo sentido Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, Vol. I, p. 187.

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5.3. Normas Básicas sobre os Tribunais no âmbito da Constituição Judiciária

O Legislador Constitucional guineense dedica sede específico às normas respeitantes ao


Tribunal a partir dos artigos 119.º a 125.º, grosso modo.

De referir que os Tribunais são órgãos de soberania com competência para administrar a
justiça em nome do povo e quando o fazem estarão, em outras palavras, a exercer a jurisdição
ou a função jurisdicional e desse exercício advém as suas independências e sujeições apenas à
lei, conforme resulta dos artigos 119.º e 120.º, n.ºs 3 e 4, ambos da CRGB.

Falar da jurisdição constitui o primeiro passo para entender o órgão da soberania Tribunal,
porque o exercício da jurisdição é a tarefa mais importante do tribunal, mas que comporta (está-
se a referir ao termo jurisdição) diferentes sentidos, desde logo pode ser entendida como: (i) a
faculdade de dizer o Direito; (ii) a declaração do direito realizada pelos Tribunais; e, (iii) a
actividade ou função de administração da justiça (13).

Unidade e Diversidade da Jurisdição

A jurisdição enquanto uma função soberana do Estado é una e é exercida pelos Tribunais.

Mas atenção que a unidade da função jurisdicional não corresponde no nosso sistema, e
no de Portugal, à unidade de estruturas dos Tribunais.

Daí que o artigo 121.º, n.º 2, da CRGB criou algumas estruturas autónomas do Tribunal,
tendo:

--na alínea a) criado os Tribunais Militares; e,

--na alínea b) criado os Tribunais Administrativos (art. 61.º da LOTJ), Tribunais


Fiscais e Tribunais de Contas.

(13) Cfr. Idem., p. 103.

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A conclusão aqui seria a de que ninguém discute quanto a unicidade da jurisdição, mas
quanto a estrutura dos Tribunais já há sim divisões em função do Direito Substantivo a que
respeita e quanto aos Tribunais que a exercem.

Em boa verdade, a norma do n.º 1 do artigo 15.º da Lei n.º 6/2011, de 04 de maio (a nova
Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais) que reviu a Lei n. º 3/2002, de 20 de novembro (a antiga),
é sintomático do fenómeno de repartição da jurisdição, só que apenas respeita aos Tribunais
Judiciais. No n.º 2 do mesmo artigo relegou para a lei do processo a questão da fixação da
competência internacional dos tribunais judiciais.

Deve-se vaticinar que a jurisdição penal, normalmente, apenas é exercida por seguintes
Tribunais:

--Tribunal Constitucional;

--Tribunal Militar; e,

--Tribunais Judiciais.

Sendo certo que o Tribunal Constitucional exerce a fiscalização preventiva da


constitucionalidade das leis, faz a fiscalização abstracta e faz a fiscalização concreta por via do
recurso das decisões dos tribunais judiciais: (i) que recusam a aplicação de qualquer norma com
fundamento na sua inconstitucionalidade; e, (ii) que aplicam norma cuja inconstitucionalidade
haja sido suscitado no processo.

Por seu turno, o Tribunal Militar é regido pelas normas substantivas e adjetivas constantes
do Código de Justiça Militar. Trata-se de um tribunal que julga apenas os crimes conhecidos
por crimes essencialmente militares, como são os casos, por exemplo de: Deserção – artigo (…)
do CJM; Furto de Material Bélico – artigo (…) do CJM; Espionagem – artigo (…) do CJM;
Atentado contra o Chefe de Estado – artigo (…) do CJM; Cobardia – artigo (…) do CJM, que
é um crime mais observado em tempo de guerra; e, Conspiração – artigo (…) constante dum
decreto específico sobre o crime de conspiração. Por norma, os crimes essencialmente militares,
são crimes cometidos por um militar, contra um militar e dentro dos quartéis.

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Por sua vez, o Tribunal Judicial que observa as mais diversificadas subdivisões, contendo
a jurisdição repartida, à luz do artigo 15.º da LOTJ, segundo:

--a Matéria;

--a Hierarquia; e,

--o Território.

Apresentam três categorias fundamentais: 1.ª Instancia, 2.ª Instância e Supremo Tribunal
de Justiça, segundo artigo 12.º, n.º 1, da LOTJ.

1 – Os Tribunais da 1.ª Instância dividem-se em: Tribunais Regionais e Tribunais


Sectoriais e recebem os nomes das localidades em que estão inseridos, conforme reza o artigo
12.º, n.º 3, da LOTJ, e organizam-se em varas, juízos e secções (apenas quando o volume do
serviço o justificar), conforme o plasmado no artigo 14.º, n.º 1, da LOTJ.

Ainda podem ser classificados em tribunais e ingresso ou de acesso, de acordo com a


complexidade, natureza e volume do serviço, à luz do artigo 13.º, n.º 1, da LOTJ.

Nota: a classificação dos tribunais em: Ingresso e Acesso é feita pelo decreto-lei do
Governo, ouvido o Conselho Superior da Magistratura, o Procurador-Geral da República e a
Ordem de Advogados – artigo 13.º, n.º 2, da LOTJ.

O artigo 12.º, n.º 4, da LOTJ fala na possibilidade de existência de tribunal de 1.ª Instância
com competência especializada e com competência genérica.

Em Portugal o artigo 213.º, n.º 2, da CRP fala também em tribunais com competência
específica e com competência genérica.

Há contudo, uma dificuldade tremenda em termos da doutrina geral em saber o que são
de concreto as competências específicas e as especializadas, tendo o Professor Germano
Marques da Silva lançado algumas bases no sentido de esclarecer que, o que mede:

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--a especificidade do tribunal é normalmente a forma do processo que habitualmente


cuida, logo diz-se que tem a competência específica; e,

--a especialidade do tribunal é normalmente as matérias que ele detidamente trata.

Também chamou a atenção para o facto de o artigo 211.º, n.º 4, da CRP, ter proibido, em
matéria criminal, que pela via da forma do processo aplicável a certos crimes se venha
indirectamente a atribuir competências só a certos tribunais.

2 – Tribunais de 2.ª Instância – são também apelidados de Tribunal de Relação e


designam-se pelo nome da localidade em que estão instalados, de acordo com o artigo 12.º, n.º
2, da LOTJ.

Organizam-se em Câmaras, nos termos do artigo 14.º, n.º 2, da LOTJ.

3 – Supremo Tribunal de Justiça – que também é denominado de STJ ou, furtando a aqui
a expressão brasileira, a Corte Suprema, e organiza-se igualmente em Câmaras para tutelar as
mais diversificadas áreas do direito substantivo.

Nota Importantíssima:

No concernente a Alçada, é óbvio que não importa muito no âmbito penal, pois o próprio
n.º 5, do artigo 21.º da LOTJ foi categórico em postular que “em matéria criminal não há
alçada”. Contudo não se deve olvidar que existe, na mesma norma, a salvaguarda única da
observância das regras processuais relativas a admissibilidade do recurso.

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Pirâmide das Alçadas:

Supremo Tribunal de Justiça 5 Milhões ao Infinito

(Divide-se em Câmaras)

Tribunal de Relação ou 2.ª Instância 3 Milhões aos 5 Milhões

(Divide-se em Câmaras)

Tribunais da 1.ª Instância: Varia nos Seguintes moldes:

-- Tribunais Regionais 1. 501. 000, 00 a 3 Milhões

-- Tribunal Sectoriais 1 Fcfa a 1. 500. 000, 00 Fcfa

Pirâmide Invertida em Ordem Crescente das Alçadas:

Tribunal de Sector ---- 1 Fcfa à 1. 500. 000, 00 Fcfa;

Tribunal Regional ----- 1. 501. 000, 00 Fcfa à 3. 000. 000, 00 Fcfa.

Tribunal de Relação ---- 3. 001. 000, 00 Fcfa à 5. 000. 000, 00 Fcfa;

Supremo Tribunal de Justiça ---- 5. 000. 000, 00 de Fcfa ao infinito.

5.4. Da Dependência dos Tribunais e Fundamentos da sua Independência

As funções materialmente jurisdicionais cabem, por imposição dos princípios


fundamentais do Estado de direito, apenas aos Tribunais que goza da independência
inquestionável em relação aos órgãos políticos, independência essa garantida, mediante a
independência dos juízes, que, por seu turno, é garantida por via dos princípios da

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inamovibilidade e irresponsabilidade, pressentidos genericamente a partir dos n.ºs 1, 2 e 3 do


artigo 123.º da Constituição da República da Guiné-Bissau conjugado com os n.º 1, 2 e 3 do
artigo 3.º da Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais.

5.5. Princípios Garantísticos da Independência dos Juízes

5.5.1. Princípio da Inamovibilidade – vem previsto, de forma mais incisiva, no


artigo 7.º do Estatuto dos Magistrados Judiciais, doravante EMJ, e significa que os juízes não
podem ser transferidos, suspensos, promovidos, aposentados, demitidos ou por qualquer forma
mudados, fora dos casos dos artigos 28.º (que fala da transferência) e 40.º (que fala da pena),
do EMJ; Quer isto significar que, a partida, os juízes são vitaliciamente.

É um princípio que afasta qualquer receio por parte do juiz de perder lugar por causa das
decisões que toma.

5.5.2. Princípio da Imparcialidade – vem previsto no artigo 8.º do EMJ, e significa


que o juiz não toma partido sobre os interesses que lhe são submetidos, quer dizer que é um
terceiro que não tem simpatia nem para acusação e nem para a defesa e que tomara a sua decisão
em exclusiva obediência à lei;

Para garantir o cumprimento deste principio de imparcialidade foi criado os


impedimentos, recusas e escusas, para justamente o juiz não interferir nos processos em que
possa ser tentado a ter tendências.

Em boa verdade ao juiz não basta apenas ser sério, importa também parecê-lo.
Invocar o Sr. Professor E. Kafft Kosta. Quer dizer que o juiz deve viver uma vida reservada
para não fazer muitas amizades que possam dificultar o seu trabalho no futuro, deve escolher
com quem anda para a sua isenção não venha a ser posta em causa injustificadamente. O juiz
não pode aparecer nas sedes dos partidos políticos e muito menos ter as filiações partidárias.

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5.5.3. Princípio de Irresponsabilidade – vem previsto no artigo 6.º do EMJ, e


significa que os juízes não podem ser responsabilizados pelas decisões que tomam; Quer dizer
que o juiz deve decidir livremente, desde que cumpra devidamente a lei, sem ter medo de
represálias.

Contudo, quer a Constituição da República da Guiné-Bissau, quer o próprio EMJ preveem


três tipos de responsabilização dos juízes, para dizer que se não agirem em fiel respeito à lei e,
em consequência, cometerem erro grosseiro, podem ser responsabilizados: civilmente;
criminalmente; e disciplinarmente.

A previsão de tais responsabilizações decorre directamente da conjugação de diversas


normas existentes no nosso ordenamento jurídico, a saber:

--artigo 33.º, 41.º, n.º 6, e 123.º, n.º 3, ambos da Constituição da Republica da


Guiné-Bissau;

--artigo 327.º, n.º 2, do Código de Processo Penal;

--artigo 6.º, n.º 2, dos Estatutos dos Magistrados Judiciais; e,

--artigo 3.º, n.º 3, segunda parte, da Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais.

5.5.4. Impedimentos e Suspeições (Recusas e Escusas) – têm a sede a partir dos


artigos 38.º e ss do CPP no concernente aos juízes, e no artigo 53.º do CPP no que tange aos
magistrados do Ministério Público que remete para os artigos 38.º e ss, e procuram contemplar
as exigências da organização judiciária que estão viradas à procura incessante da independência
dos juízes e tutela de direito de defesa com vista a garantir que a jurisdição seja exercida em
observância permanente da objectividade e imparcialidade.

Quanto aos Impedimentos – o artigo 39.º do CPP elenca os motivos que determinam os
impedimentos dos juízes, em que se torna importante vasculhar as fontes que geram os tais
impedimentos, ressaltando, assim, dentre muitas:

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(i) – as ligações pessoais do juiz em relação ao arguido, ofendido, assistente ou


parte civil, no sentido de ser ou ter sido cônjuge, representante legal, parente ou afim até ao 3.º
grau, nos termos da alínea a) do artigo 39.º do CPP;

(ii) – as colaborações do juiz no processo, que pode até ser no passado, enquanto
magistrado do Ministério Público, agente de um dos órgãos da polícia criminal, defensor,
advogado do assistente ou da parte civil ou perito, nos termos do artigo 39.º, alínea b), do CPP.
Ou quando tiver participado no processo como testemunha ou dever ser ouvido nessa qualidade
no processo, nos termos da alínea c) do artigo 39.º do CPP; e,

(iii) – os vínculos familiares entre juízes, no sentido de não poder exercer funções,
a qualquer título, no mesmo processo juízes que sejam entre si cônjuges, parentes ou afins até
ao 3.º grau, nos termos da alínea c) do artigo 39.º do CPP.

Embora não estando no Código de Processo Penal, quer dizer nestas normas respeitantes
aos impedimentos, mas não devemos perder de vista que há alguns impedimentos fora do
catálogo e aqui chama-se atenção para o facto de o impedimento não resultar apenas de
intervenção simultânea, mas também se pode verificar-se em qualquer altura do processo e dá-
se os seguintes exemplos:

--O juiz que presidir o debate instrutório na fase de instrução fica impedido de
participar no julgamento; e,

--Se um juiz interveio no julgamento, fica impedido o outro juiz – que é o seu
cônjuge, parente ou afim –, de intervir em recurso.

A declaração de impedimento e feita ou oficiosamente por próprio juiz mediante


despacho nos autos ou a requerimento do MP, do arguido, do assistente ou da parte civil, nos
oito dias posteriores a tomada do conhecimento do facto, conforme resultam dos n.ºs 1 e 2 do
artigo 41.º do CPP.

De acordo com o n.º 3 do artigo 41.º do CPP a decisão relativa a declaração do


impedimento apenas e recorrível se o juiz não se reconhecer impedido.

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Quanto às Suspeições – o artigo 40.º do CPP demonstra que, para que haja a suspeição
há que existir “fortes motivos que possam abalar a imparcialidade do juiz”. No fundo, devem
existir motivos sérios, graves e capazes de gerar desconfiança sobre a imparcialidade do juiz.

O maior problema reside em saber quando é que existem os tais motivos fortes referidos
na norma, uma vez que revestem a forma de conceitos mais ou menos indeterminados e que
devem ser espelhados por via dos exemplos. Assim:

1.º Exemplo: No dia anterior ao dia de julgamento o defensor foi avistado pelo advogado
do assistente a entrar com um saco de transporte de dinheiro na residência do juiz e, horas
depois, ter de lá saído sem o respectivo saco.

2.º Exemplo: Nos dois dias anteriores ao julgamento um fotojornalista divulga fotos de
intimidade na piscina do Hotel Ledger, tirada a noite, na qual o juiz do processo beijava a
arguida no processo.

3.º Exemplo: Segundo Paulo de Sousa Mendes, o juiz, durante a audiência de julgamento,
profere contra o defensor a seguinte afirmação “-Pergunto-me onde terá V. Exa. feito a sua
licenciatura em Direito” (14).

4.º Exemplo: Durante a pausa dada na audiência e no corredor para a casa de banho o
magistrado do Ministério Público terá escutado o juiz a comentar que acredita e vai fazer os
colegas do colectivo acreditarem na inocência do arguido.

Bem, deve ficar patente que a suspeição é fundamento da escusa ou recusa do juiz.

A escusa é suscitada pelo próprio juiz sempre que pressentir que a sua imparcialidade
poderá estar em causa, deverá ser honesto consigo, mesmo quando os fundamentos da suspeição
não são conhecidos. O juiz requer a escusa ao tribunal imediatamente superior àquele em que
exerce funções ou, caso pertencer a Câmara Criminal do STJ, ao plenário, nos termos do n.º 4

(14) Cfr. Paulo de Sousa Mendes – Lições de Direito Processual Penal, pp. 113-114. Segundo o autor, esta
declaração contra o defensor e suficientemente ofensiva para constituir fundamento de recusa de juiz, pois o
arguido teria razões para temer que tal declaração também o afetaria, influenciando a decisão sobre a sua
culpabilidade e a pena que lhe seria aplicada.

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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense

do artigo 41.º do CPP, e deverá indicar no despacho os fundamentos e os demais elementos que
considere necessários à apreciação do caso, conforme manda o n.º 1 do artigo 42.º do CPP.

A recusa pode ser requerida pelo MP, pelo arguido, pelo assistente ou pelas partes civis,
nos mesmos termos propostos para a escusa e deverá igualmente conter os fundamentos da
suspeição e demais elementos pertinentes ao caso, nos termos do n.º 2 do artigo 42.º do CPP.

Nota: O juiz não pode declarar-se voluntariamente suspeito, porque não é definitivamente
obrigado a auto-incriminar-se, mas poderá sempre pedir escusa.

5.5.5. Incompatibilidade de Exercício ou Dedicação Exclusiva – esta é uma


questão muito mal compreendida de facto, pois os bastidores da profissão já ditam a que na
gíria vinca a ideia segunda a qual as incompatibilidades do juiz são tantos e que além do
exercício da judicatura o juiz só pode é dar aulas.

Na realidade, este pensamento genérico está errado, porquanto o juiz pode, à luz do artigo
10.º do Estatuto dos Magistrados Judiciais (Lei n.º 1/99, de 27 de Setembro), a par da docência
ou investigação cientifica prevista no n.º 1, ainda:

--assumir a Direcção ou Docência no Centro de Estudos ou Investigação Científica,


nos termos do n.º 2;

--Integrar a Comissão de Preparação ou Revisão de Diplomas Normativos, nos


termos do n.º 2;

--Ser Membro do Governo ou Equiparado, desde que haja licença, nos termos do
n.º 3;

--Fazer Consultorias para Formação ou Elaboração de Planos Estratégicos; e,

--Candidatar aos Postos de Juízes Internacionais no Quadro das Nações Unidas ou


Organizações Sub-regionais.

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Bissau, 31 de março de 2021, Quarta-Feira.

III

A Lei Processual Penal

1. As Fontes de Direito Processual Penal

As Fontes do Direito Processual Penal obedecem duas grandes subdivisões em que, de


um lado, temos as fontes formais e, doutro lado, temos as fontes materiais. Assim:

1.1. As Fontes Formais

1.1.1. A Constituição da República da Guiné-Bissau – é tida como sendo a lei


fundamental, porque hierarquicamente se encontra no topo da pirâmide normativa e não só,
também porque contempla no seu artigo 30.º aquilo que a doutrina apelida de força jurídica,
que merecerá um estudo comparado:

Em Portugal o legislador constitucional foi claro e directo ao colocar a expressão “Força


Jurídica” como epígrafe do artigo 18.º.

Na Guiné-Bissau o artigo 30.º não dispõe da epígrafe correspondente à força jurídica, mas
os conteúdos dos seus números expressam e demonstram a força jurídica.

Ora, quer do artigo 18.º, n.º 1, da CRP quer do artigo 30.º, n.º 1, da CRGB resultam que
“Os preceitos constitucionais respeitantes aos direitos, liberdades e garantias são directamente
aplicáveis e vinculam as entidades públicas e privadas”.

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Como já ficou patente nas anteriores lições, por nos aqui preletadas, resulta do Processo
Penal a observância de Direitos, Liberdades e Garantias, de tal sorte que o Professor Jorge de
Figueiredo Dias (15) – passim Professor Paulo de Sousa Mendes e Professor Germano Marques
da Silva (16) – não hesitou em afirmar que o Processo Penal é o Direito Constitucional aplicado.

Aliás, é sintomático desta afirmação o facto de ser o Processo Penal o ramo de Direito
que mais ressente quando houver as alterações constitucionais, porque, na verdade, são muitas
as normas constitucionais que dizem respeito, directa ou indirectamente, ao processo penal, se
não vejamos:

--artigo 42.º, n.º 1, da CRGB – assegura todas as garantias de defesa;

--artigo 24.º da CRGB – garante a igualdade dos cidadãos perante a lei;

--artigo 30.º, n.º 3, da CRGB – fala do Princípio da Necessidade no concernente às


medidas restritivas de direitos e liberdades;

--artigo 32.º da CRGB – permite o recurso ao tribunal por parte dos cidadãos e a
proibição de denegação de justiça aos cidadãos carenciados;

--artigo 8.º, n.º 2, da CRGB – faz depender a validade dos actos do Estado
(incluindo os da PJ, MP e os Tribunais), da respectiva conformidade com a Constituição;

--artigo 37.º, n.º 1, da CRGB – plasma o direito a integridade pessoal;

--artigo 41.º da CRGB, no seu n.º 4 plasma o Princípio de Non Bis In Idem; e no
seu n.º 6 plasma o Direito à revisão de sentença e o direito à indemnização por condenação
injusta;

--artigo 39.º, n.ºs 3, 4 e 5, da CRGB – fixa o mecanismo de habeas corpus para


reagir contra uma prisão ou detenção ilegal;

(15) Cfr. Jorge de Figueiredo Dias – Direito Processual Penal, Vol. I, pp. 74 e ss.
(16) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, p. 56.

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--artigo 48.º da CRGB – plasma a inviolabilidade do domicílio e correspondência;

--artigo 42.º da CRGB – versa, no seu n.º 2 sobre o Princípio de Presunção de


Inocência e, no seu n.º 6 versa sobre as proibições de provas ilegais;

--artigo 43.º da CRGB – fala de mecanismo de expulsão ou de extradição;

--artigo 56.º da CRGB – fala da liberdade de imprensa;

--artigo 82.º da CRGB - fixa as imunidades;

--artigo 85.º, maxime artigo 86.º, alínea g), da CRGB – falam da reserva legislativa
da ANP em relação às matérias de direito penal e processo penal;

--artigos 119.º, 123.º e 125.º da CRGB – falam da organização dos tribunais, dos
estatutos dos juízes e dos magistrados do Ministério Público; e,

--artigo 126.º, n.º 1, da CRGB – fala da inadmissibilidade de aplicação de normas


inconstitucionais pelos tribunais.

1.1.2. As Normas do Direito Internacional

Mais uma vez, o legislador constitucional guineense não foi categórico no que tange a
receção do direito internacional quando comparado com o legislador constitucional português
que, de forma clara, estabeleceu os mecanismos de receção do direito internacional logo no
artigo 8.º da Constituição da República Portuguesa.

Contudo, na Guiné-Bissau, o legislador constitucional foi dando pistas no sentido de


considerar o Direito Internacional em vários artigos, nomeadamente:

--artigo 18.º, n.º 1, da CRGB – que fala nas relações na base do direito internacional;

--artigo 28.º, n.º 2, da CRGB – que fala no exercício de funções públicas por estrangeiros;

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--artigo 68.º, alínea e), da CRGB – que fala da ratificação das convenções internacionais
por parte do Presidente da República;

--artigo 85.º, n.º 1, alínea h), da CRGB – que fala na aprovação dos tratados internacionais
por parte de Assembleia Nacional Popular;

--artigo 100.º, n.º 1, alínea f), da CRGB – que fala na negociação e conclusão dos tratados
internacionais por parte do Governo;

Mas, o artigo que verdadeiramente nos interessa para o processo penal e o artigo 29.º da
CRGB – a chamada Clausula Aberta –, pois:

--no n.º 1 plasma a inclusão e a consideração dos outros direitos fundamentais


constantes do direito internacional; e,

--no n.º 2 que passará a revestir a maior importância na medida em que indica-nos
um instrumento internacional fundamental – que é a Declaração Universal dos Direitos do
Homem – e determinou que os preceitos constitucionais sejam interpretados em harmonia com
o referido instrumento.

Nota: Antes de elencar os instrumentos internacionais relevantes, importa apenas


vaticinar que em todos eles o Principio da Dignidade da Pessoa Humana encontra-se tutelado.

→ a) – Na Declaração Universal dos Direitos do Homem – interessa-nos os seguintes


artigos:

Artigo 10.º – que visa garantir um julgamento equitativo e público e por um tribunal
independente e imparcial;

Artigo 5.º – que proíbe a aplicação de penas cruéis e tratamentos desumanos aos
condenados;

Artigo 8.º – que exige a possibilidade de recurso ao tribunal contra actos violadores
dos direitos dos cidadãos;

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Artigo 9.º – que fala na proibição da prisão arbitrária;

Artigo 11.º – que fala na presunção de inocência até a culpa ser provada num
processo justo;

Artigo 12.º – que proíbe a intromissão abusiva na vida privada e ataques contra a
honra e reputação;

Nota Importantíssima: A Declaração Universal dos Direitos do Homem prevê a


participação do arguido no processo como um sujeito de direito e não numa mera posição de
sujeição.

→ b) – No Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos – adotado pela Assembleia


Geral das Nações Unidas em 16 de dezembro de 1966, que entrou em vigor na ordem pública
internacional em 23 de março de 1976, após a trigésima quinta ratificação conforme o artigo
49.º, tendo a Guiné-Bissau ratificado através da Resolução da Assembleia Nacional Popular n.º
4/89, publicado no Suplemento ao B.O. n.º 9, de 03 de março de 1989.

Trata-se de um instrumento internacional que tutela a dignidade da pessoa humana nos


termos quase idênticos a DUDH e que plasma importantíssimas garantias processuais a saber:

--Direito do suspeito estar presente no processo – que, no fundo, é uma norma que
contraria frontalmente a permissão do julgamento à revelia;

--Direito de Não Auto Incriminação – o chamado Nemo Tenetur se Ipsum Accusare;

--Direito de recurso ao tribunal superior; e,

--Proibição de Ne Bis In Idem;

→ c) – A Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos – aprovada pela conferência


ministerial da Organização da Unidade Africana, em Banjul, em janeiro de 1981.

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→ d) – A Convenção sobre Direitos de Crianças – adotada pela Resolução n.º 44/25


da A.G.N.U., no dia 20 de Novembro de 1989, ratificado pela resolução n.º 6/89, publicado no
B.O. n.º 16, de 18 de abril de 1990.

→ e) – Resolução n.º 7/88, de 17 de junho que ratifica o Acordo de Cooperação


Judiciária entre os PALOP (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e
Príncipe).

→ f) – Resolução n.º 5/89, de 07 de março que ratifica o Acordo de Cooperação


Judiciária entre Guiné-Bissau e República Portuguesa.

→ g) – Acordo de Parceria para a Cooperação Jurídica e Judiciária entre Angola e


Guiné-Bissau.

1.1.3. O Código de Processo Penal – é das mais importantes fontes, se não mesmo
a mais em termos concretos, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 5/1993, de 13 de outubro, publicado
no Boletim Oficial n.º 41. Trata-se do primeiro Código Processual Penal de criação
genuinamente guineense que põe cobro às vigências proteladas dos dois antigos Códigos de
Processo Penal português de 1929 e 1987, sendo que o primeiro vigorou na Guiné-Bissau
mediante a Portaria de Extensão – que é o instrumento através do qual a metrópole estendia a
vigência das suas leis às suas colonias ultramarinas –, e o segundo vigorou já por força da Lei
n.º 1/73 – que é a primeira lei nacional que, como forma de evitar o vazio legislativo, confere
eficácia às leis portuguesas que não contrariam os princípios e os objectivos do PAIGC.

Escusado seria obviamente estar aqui a enumerar as normas do Código em ordem de


importância, visto que a compreensão do processo penal depende não apenas de conhecimento
de alguns artigos chaves, mas antes pelo conhecimento de toda uma dinâmica por detrás da
arrumação dos artigos.

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1.1.4. A Legislação Extravagante – nesta sede apenas importa recensear algumas


leis avulsas respeitantes ao Direito Processual Penal, como forma de demonstrar que, como
nem tudo pode resultar da Constituição, dos Princípios do Direito Internacional e do Código de
Processo Penal, algumas leis contemplam soluções que devem ser revisitadas. Assim, a titulo
exemplificativo, temos as seguintes:

--Lei n.º 8/2011 – Lei da Investigação Criminal;

--Dec.-Lei n.º 15/2011 – que determinou a Revisão Intercalar do CPP;

--Lei n.º 7/2011 – Lei de Organização, Funcionamento e as Formas de Processo


do Tribunal de Execução de Penas;

--Dec.-Lei n.º 11/2010 (antiga) e Dec.-Lei n. 11/2011, de 03 de fevereiro (nova) –


Lei de Acesso ao Direito e à Justiça. É a lei que instituiu o Centro de Acesso à Justiça, com a
finalidade de assegurar aos cidadãos o acesso ao Direito e à Justiça.

1.2. As Fontes Materiais

Obedecem uma estruturação bipartida e não obstante o facto de não serem fontes formais,
mas não deixam de ser bastantes importantes para a dinâmica do Processo Penal.

1.2.1. A Jurisprudência – é de salientar que o Tribunal tem a intervenção criadora


do Direito nos casos que decidem ou se se preferir criam as correntes do entendimento. Ex: em
todas as decisões (sentenças e acórdãos) sobre a Mutilação Genital Feminina, os Tribunais têm
entendido ficar patente o dolo directo nas actuações. Apesar de não ser isso a nossa
consideração, porquanto entendemos que as motivações culturais não devem ser ignoradas, daí
termos concluído pelo dolo necessário, mas há que se admitir que será um entendimento a
ganhar muitos seguidores por ser uma corrente jurisprudencial.

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As decisões jurisprudenciais no nosso sistema não vinculam os Tribunais, ao invés do


que acontece no sistema Comon Law em que vigora a regra do precedente.

As Decisões Concretas assumem o papel do Legislador Complementar nos domínios de:

--concretização das Cláusulas Contratuais Gerais;

--concretização dos Conceitos Indeterminados; e,

--no Desenvolvimento do Direito Praeter legem.

1.2.1. A Doutrina – tida como opiniões ou pareceres dos jurisconsultos –, é sem


dúvidas uma fonte material importante no seio das reformas da legislação, isto porque critica
apontando as debilidades e os méritos das leis, com a construção final duma nova redação que
geralmente é sempre adotada nas revisões subsequentes. A doutrina ainda ajuda a construir
caminhos para o preenchimento das lacunas existentes nas leis, com a sua criação de conceções
sobre interpretação e integração de direito.

Nota: É suposto falar nesta sede de Interpretação e Integração, ainda que de forma
superficial.

a) – A Interpretação – no que concerne à interpretação das normas do processo


penal, não há, em termos definitivos, nada a inocular além das regras já conhecidas da cadeira
da Introdução ao Estudo de Direito, que respeitam os normativos dos artigos 5.º ao 13.º do CC.

Quando muito falaremos aqui de uma especialidade penal que obriga a realização da
interpretação favorável ao arguido – dando azo à explicação do direito penal moderno por detrás
de tal obrigação em que resultará o objectivo de não punir, contrariando o de punir sempre.

b) – A Integração – Já aqui encontraremos algumas especialidades que merecem


reparos incisivos.

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A pedra de toque é o artigo 2.º do CPP – segundo o qual, nos casos omissos, quando as
disposições do Código não poderem aplicar-se por analogia, observar-se as normas do processo
civil que se harmonizem com o processo penal e, na falta delas, os princípios gerais do processo
penal. Ou seja:

--Em Primeiro Lugar – há que se aplicar as normas do próprio CPP que possam ser
aplicados aos casos análogos;

Aqui, diferentemente do que se passa no Direito Penal que proíbe a analogia no n.º 3 do
artigo 2.º, sob epígrafe Princípio de Legalidade, a analogia é admitida no processo penal, mas
com a ressalva de que não é a analogia absoluta, mas sim relativa, justamente porque só vai até
aos limites impostos pelo próprio Código, sem possibilidades de extravasar o âmbito do CPP;

--Em Segundo Lugar – mandou aplicar as normas do processo civil que se


revelarem harmónicas com o processo penal; e, por fim,

--Em Terceiro Lugar – mandou aplicar os princípios gerais do processo penal.

Validade da Lei Processual Penal:

A lei processual penal observa três níveis de validade, a saber:

a) – Validade Temporal – ao invés da regra do artigo 12.º do CC que diz que «a lei
só dispõe para o futuro» e que nas situações de dúvidas «só visará os factos novos», o processo
penal conta com uma regra diferente, porque a lei processual penal se aplica imediatamente aos
processos a instaurar e aos actos a praticar nos processos pendentes (17).

Ou seja, a lei processual penal aplica-se ao passado e ao futuro, ao mesmo tempo, por
assim dizer, só que não se aplica aos actos já praticados anteriormente e, também, não se aplica
aos processos iniciados anteriormente à sua vigência se representar agravação da situação

(17) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, p. 64.

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processual do arguido. Aliás, é sintomático desta afirmação o disposto no artigo 3.º, n.º 1 e n.º
2, alíneas a) e b) do Código de Processo Penal.

b) – Validade Espacial – aqui não há dificuldades de monta, uma vez que


prepondera o princípio da territorialidade ou de lex fori, que faz corresponder os limites da
jurisdição criminal aos limites de território nacional (18).

Daí que todos os processos submetidos a essa jurisdição será aplicável a lei processual
penal nacional. Vê-se claramente que as questões complicadas de aplicação das leis penais não
são reconduzíveis à aplicação da lei processual penal.

c) – Validade Pessoal – a lei processual penal, a partida, aplica-se a todas as pessoas


que intervêm no processo sem se importar com as suas nacionalidades.

No que tange aos arguidos a serem submetidos a lei processual penal guineense, há que
se ver antes se os mesmos são passíveis de serem incriminados pela lei penal guineense. Caso
não forem, a lei processual penal só pode ser aplicada para avaliar se existem as condições que
os isentam da responsabilidade, nomeadamente:

--se tiverem praticado o crime ao abrigo de uma das causas de exclusão da ilicitude,
por exemplo, em legítima defesa;

É importante a tal verificação para poupar os esforços à administração da justiça que não
terá que se preocupar com a criação de dossiers de extradição ou da declaração como sendo
Persona Non Gratia de, por exemplo, um diplomata estrangeiro que exerce funções na Guiné-
Bissau e que tenha cometido cá um crime, já que não poderá ser cá perseguido criminalmente,
porque o nosso direito penal não é-lhe aplicado, sobretudo nos crimes fora de flagrante delito.
Imagine-mos, para concretizar este exemplo, o diplomata ser surpreendido na sua residência
pelo ladrão armado e que queria antes de roubar atirar nele a matar, para roubar tranquilamente,
e ele, entretanto, antecipou-o atirando letalmente. A lei processual penal não vai ser aplicada,
nesse caso, para condená-lo, mas apenas para assinalar a exclusão da ilicitude do seu acto.

(18) Cfr. Idem., p. 65.

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Bissau, 16 de abril de 2021, Sexta-Feira.

Elementos do Processo Penal (19) ou Sujeitos Processuais (20)

O Professor Jorge de Figueiredo Dias brinca com a sistematização do Código de Processo


Penal português ao afirmar que a matéria relacionada com os sujeitos processuais constitui a
parte geral.

A parte geral como bem sabemos tem a função primordial de fixar as balizas
interpretativas.

Na verdade, quando olhamos para o Código de Processo Penal sentimos a falta de


depararmos com a separação entre a parte geral e a parte especial, tal como se observa no
Código Penal, em que do artigo 1.º ao 99.º corresponde a parte geral e do artigo 100.º ao artigo
250.º diz respeito a parte especial.

Dada a boa estruturação da matéria dos sujeitos processuais no Código de Processo Penal,
explicando os poderes, os direitos e os deveres de cada um, vários autores começaram a ver
nela uma autêntica parte geral.

Sujeitos Processuais Clássicos – são, parafraseando, Ernest Belling aqueles participantes


processuais cujo papel é extremamente importante, que sem eles um processo, tal como é
concebido hodiernamente, seria impensável.

O Professor Paulo de Sousa Mendes chama a tal essencialidade aflorada por Belling de
Relação de Causalidade entre os sujeitos processuais e o próprio processo. Querendo isto
significar que a falta de um dos sujeitos determina normalmente a inexistência do processo.

(19) Pertence a terminologia utilizada pelo Professor Germano Marques da Silva.


(20) Pertence a terminologia utilizada pelo Professor Paulo de Sousa Mendes.

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Logo, teríamos, segundo a lógica do Beling, apenas três sujeitos processuais, a saber:

--O garante da ordem jurídica / o Tribunal;

--O autor / MP; e,

--O Réu / Acusado

O Professor Figueiredo Dias deu uma nova leitura ao regime, tendo fixado os sujeitos
processuais em cinco, a saber:

--Tribunal;

--MP;

--Arguido;

--Defensor; e,

--Assistente.

Hoje em dia a tendência demonstra que também devemos consentir a existência de Partes
Civis – lesado reflexamente ou lesado indiretamente.

Já na acepção do Professor Germano Marques da Silva, temos a separação, para o melhor


entendimento, considerando três diferenciações pertinente, em que resulta a contraposição
entre:

--Sujeitos e Participantes Processuais;

--Processo Penal e Processo de Partes; e,

--As Partes na Acção Civil conexa com a Criminal.

Neste particular, e em primeira mão, temos que ter em conta que os sujeitos processuais
diferem dos participantes processuais, na justa medida em que:

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(i) – Os Sujeitos Processuais – são aqueles que conduzem activamente o processo, cuja
actividade tem função determinante da decisão final (21). Se quiser, os sujeitos processuais são
aqueles que têm o poder-dever de conformar o objecto do processo. E são:

--O Tribunal;

--O Ministério Público;

--O Arguido;

--O Defensor;

--O Assistente; e,

--A Parte Civil.

Ao passo que,

(ii) – Os Participantes Processuais (segundo Germano Marques da Silva) ou


Intervenientes Processuais (segundo Paulo de Sousa Mendes) – são aqueles que apenas
colaboram no processo, mas não têm faculdades de iniciativa ou de decisão com respeito ao
processo (22). Se quiser, são aqueles que têm papéis significativos para o andamento e boa
decisão do processo, mas nada que se confunda com o poder-dever de conformar o objecto do
processo. E são:

--Os Funcionários Judiciais (Oficiais de Justiça);

--Os Agentes Policiais;

--As Testemunhas;

--Os Peritos; e,

--Os Intérpretes / Tradutores.

(21) Cfr. Idem., p. 95.


(22) Cfr. Ibidem.

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Em segunda mão, temos que abordar o segundo elemento processual que tem que ver
com o Processo Penal e o Processo de Partes, em que a pedra de toque será a curiosidade de
saber se o processo penal é um processo de partes, tal como o processo civil o é, ou não.

Deve-se afirmar que o Processo Penal não é, de todo, um processo de partes baseando
nos argumentos seguintes:

(i) – O processo penal é estruturado de acordo com as fases e só as fazes


jurisdicionais obedecem em certa medida a tal estruturação;

(ii) – No processo penal o juiz nem é passivo (tal como o é nos processos das partes
– processo civil), conquanto que tem a faculdade de investigar para descobrir a verdade;

(iii) – Não há necessariamente uma contraposição de interesses, fundamentalmente


quando a acusação é representada pelo Ministério Público;

(iv) – Há uma diversidade de deveres na actuação do Ministério Público e na


actuação do arguido, porque o MP enquanto administrador da justiça não tem por função obter
a condenação, mas antes a realização da justiça;

(v) – Ausência de “Parificação” (no sentido de existência de partes ou pares), entre


a acusação e a defesa;

(vi) – A Parificação quando observada será apenas no Debate Instrutório, mas isso
não será tão significativo para considerar o processo penal processo de partes, uma vez que o
juiz pode não ter por prevalecente os actos instrutórios em prol das provas indiciárias recolhidas
no inquérito;

(vii) – Na primeira fase que é a fase do inquérito não há a parificação entre o MP e


o Suspeito, pois aquele actua como o dominus (dono, chefe, mestre …) do inquérito; e,

(viii) – Excepcionalmente, as fases de Julgamento e dos Recursos estão sim


estruturadas de modo a assegurar a igualdade de poderes processuais.

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Nota: Só é considerado processo de partes quando: a) haja discussão entre o autor e o


réu; b) a tal discussão se desenrolou à frente de um juiz totalmente passivo; e, c) as partes
tiverem interesses contrapostos.

Em terceira mão, e para finalizar, temos que abordar o terceiro elemento processual que
tem que ver com as Partes na Acção Civil conexa com a Criminal, em que a chamada de atenção
vai no sentido de que:

Na acção civil conexa com a criminal é sim possível falar com propriedade de Processo
de Partes, tal como no processo civil. Isto porque, no que respeita às partes admissíveis no
pedido de indemnização por perdas e danos processado no processo penal, tudo se passa como
se de acção civil autónoma se tratasse, com a única limitação de que o pedido tem de ser atinente
ao dano causado pelo crime que é também objecto do processo penal em que o pedido cível se
insere. No fundo, são as partes civis que entram no processo penal e esses sim são chamados
de partes.

1.º Sujeito Processual:

O Ministério Público enquanto um Sujeito Processual de relevo no Processo Penal:

Já debelamos os mistérios acerca do MP e ficou patente que não só é um órgão de


administração de justiça que não só goza de autonomia e/ou independência interna e externa,
mas que também é um sujeito processual de relevo, porquanto a ele cabe o impulso, a
legitimidade, a titularidade da acção penal e a presidência da investigação criminal, sem
descurar ainda o facto de o MP ser uma autoridade judiciária a par do JI e do JJ, tal como, de
resto, atesta a norma do n.º 2 do artigo 2.º da Lei de Investigação Criminal (Lei n.º 8/2011).

Da Intervenção do MP na Jurisdição Penal

O Ministério Público tem a principal função, à luz do artigo 52.º do CPP conjugado com o
125.º da CRGB, de colaborar com o tribunal na prossecução da verdade e na realização da
justiça, o que, de per si, demonstra que não é um órgão interessado na acusação. Isto pode ser

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aferido partindo do pressuposto de que ele orienta-se, no desempenho da sua tarefa, por critérios
de estrita objectividade e da máxima legalidade.

A Direção do Inquérito e Coadjuvação dos Órgãos de Polícia Criminal

O busílis da questão prende-se com a determinação – em termos objectivos e voltada à


nossa realidade – de quem verdadeiramente e efectivamente dirige o inquérito entre o MP na
sua formalidade e a Polícia Específica ou Científica na sua praticidade?

Esta questão não é ingénua e é bastante pertinente, sobretudo na Guiné-Bissau em que é


notório que na maioria esmagadora das vezes a polícia conhece melhor determinadas
criminalidades do que o Excelentíssimo Magistrado do MP, dá-se até exemplos de polícias que
conhecem melhor as variedades de drogas e variedades de técnicas de movimentá-las e
preservar os seus proventos.

Levando isto à afirmação segundo a qual: na contraposição sobre a direcção efectiva da


investigação, no sentido de saber a quem pertence, se é a polícia ou ao MP, a resposta tende a
ser a polícia.

No fundo, a direcção efectiva pertencente ao MP é meramente formal e até ilusória na


Guiné-Bissau.

Se quisermos inverter a tal tendência, há que se investir verdadeiramente na capacitação


dos Magistrados do MP para equilibrar a balança de conhecimento das vicissitudes criminais
com incidência na prática.

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Bissau, 29 de abril de 2021, Quinta-Feira.

OBS: Algumas achegas sobre os OPC:

● A actividade processual dos órgãos de polícia criminal

● Organização da investigação criminal

● Atos praticados por iniciativa própria dos órgãos de polícia criminal.

● Modalidade de pré-inquérito. Impacto no princípio jurídico-constitucional da


titularidade da ação penal pelo Ministério Público.

Em relação à pergunta sobre quem são os OPC – Órgãos de Polícia Criminal na Guiné-
Bissau, temos o seguinte: a Polícia Judiciária – órgão por excelência –, a Polícia da Ordem
Pública e a Guarda Nacional (23).

A Interpol é OPC ab initio e em certa medida, visto ser ele quem assegura a cooperação
internacional em matéria de investigação criminal, nos termos no n.º 1, do artigo 18.º, da Lei
de Organização de Investigação Criminal, Lei n.º 8/2011, de 27 de abril, em diante LOIC,
fazendo a monitorização das informações secretas tendentes à descoberta da verdade nos crimes
gravíssimos e transnacionais; há uma possibilidade de Interpol adquirir a qualidade de OPC
conforme o n.º 2 do supracitado artigo; se a adquirir será OPC, não a adquirindo não será OPC,

(23) Um paralelismo se impõe nesta matéria com o regime português em que temos uma subdivisão nesta
matéria de OPC, em que de uma lado há OPC com Competência Genérica, como são os casos da: Polícia Judiciária
(igualmente OPC por excelência); PSP – Polícia de Segurança Pública; e, GNR – Guarda Nacional Republicana,
e há OPC com Competências Específicas, como são os casos de: SEF – Serviços de Estrangeiros e Fronteiras;
ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica; SAT – Serviços da Administração Tributária (que
trabalha com o RGIT – Regime Geral das Infrações Tributárias); IGAMAOT – Inspecção-Geral da Agricultura,
do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (para cada sector há uma Inspecção Geral). Cfr., neste
sentido, Maria João Antunes – Direito Processual Penal, p. 59.

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até porque não tem a competência para a prática de actos materiais, tais como a audição, a
constituição e a detenção do suspeito – que os outros naturalmente têm.

O SIS - Serviço de Informação de Segurança -, costumava ser apontado como OPC no


passado, pois tinha a competência para praticar actos materiais como a detenção, mas, de facto,
e em boa verdade, não o é hodiernamente, pelo menos para crimes comuns, bastando atentar-
se a norma do artigo 3.º, n.º 1, alínea b), da Lei da Criação do SIS, Lei n.º 7/2010, de 22 de
junho.

A actividade processual dos OPC é pressentida directamente da norma do n.º 2, do artigo


54.º, do CPP, porquanto reza que também é da competência da polícia coadjuvar o Ministério
Público na investigação quando solicitada.

Igualmente é pressentida directamente na norma constante na alínea a), do n.º 1, do artigo


6.º da LOIC, que faz uma referência mais englobante, englobando o Tribunal (quer dizer o Juiz
de Instrução e o Juiz Julgador), na qualidade de uma das autoridades judiciárias que, não raras
vezes, precisa da coadjuvação dos OPC na investigação criminal que lhe compete realizar e
principalmente na materialização das diligências processuais ao seu cargo.

Esta última parte da suprarreferida norma do n.º 2, do artigo 54.º do CPP, somada
fundamentalmente as normas dos n.ºs 1 e 3, do artigo 59.º, do CPP e a norma do n.º 2, do artigo
5.º da já referida Lei de Organização de Investigação Criminal, deixa a entender que os OPC
estão na dependência funcional da autoridade judiciária, máxime do MP, estão subordinados à
sua direcção funcional e sempre que este entender convoca-lhes para prestarem auxílio na fase
do inquérito fundamentalmente, e nas subsequentes fases quando se revelar necessário, o que,
de um lado, denuncia claramente a falta de autonomia estanque dos OPC face ao MP. Falta
essa, testada por diversas normas, concisamente:

(i) – no artigo 48.º, alínea e), do CPP que fala em Avocar os processos, deixando
subentendido a faculdade que o MP tem em delegar a investigação de um determinado processo
nos Órgãos de Polícia Criminal;

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(ii) – no artigo 48.º, alínea f), do CPP que fala na prerrogativa que o MP tem em Coordenar
e Fiscalizar as actividades de investigação executadas pela polícia judiciária no âmbito do
processo penal;

(iii) – no artigo 49.º, nas suas várias alíneas, contendo de forma inequívoca os actos a
autorizar pelo Ministério Público; e,

(iv) – no artigo 58.º, n.º 2, do CPP (e – mutatis mutandis – no artigo 57.º, n.º 2, do CPP)
prevendo, mesmo nas situações em que a polícia atua por conta própria, a imediata incorporação
do auto da ocorrência no processo ou a sua imediata remissão ao MP.

E, doutro lado, igualmente denuncia a faculdade que a polícia, entende-se os OPC, têm
em participar, por iniciativa própria, dentro dos limites impostos por lei, no processo ou na
investigação criminal, praticando actos processuais, que integram competências próprias ou
delegadas, tal como se encontram patenteadas nas seguintes normas do:

(i) – artigo 54.º, n.º 1, do CPP que atesta ser da competência dos agentes da polícia, mesmo
por iniciativa própria, impedir a prática do crime, colher notícia dos mesmos, descobrir os seus
autores (reparem que esta passagem é de suma importância na justa medida em que, dentre
muitas utilidades, fundamenta e fomenta a possibilidade da dedução duma queixa crime contra
terceiros, ou seja, pessoas ou agentes do crime não identificados), e praticar os actos cautelares
necessários e urgentes para assegurar os meios de prova;

(ii) – artigo 57.º, n.º 1, do CPP que demonstra a competência que os agentes da polícia
têm para colher informações das pessoas tendentes à descoberta do agente do crime e a sua
identificação; e,

(iii) – artigo 58.º, n.º 1, do CPP, atestando a prerrogativa que a polícia tem em efectuar
directamente as buscas, revistas e apreensões em situações de flagrante delito.

Em suma, a titularidade da acção penal, sem embargo das coadjuvações possíveis, é,


se quisermos, um princípio jurídico-constitucional no qual o Ministério Público se afigura como
quem verdadeiramente preside e dirige a investigação, máxime na fase do inquérito.

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Em termos do n.º 1, do artigo 50.º, do CPP, o Ministério Público tem a legitimidade para
promover o processo penal, sendo claro que para o efeito terá que necessariamente ter
conhecimento do facto, que pode ser por via de autoconhecimento, por via de uma denúncia ou
por via de uma queixa.

Ora, a promoção do processo penal não é, em tese, uma actividade exclusiva do MP,
apesar de ser ele o detentor da legitimidade formal, uma vez que a queixa (tratando-se de crimes
semipúblicos e particulares em que a promoção processual dela depende) também pode ser
apresentada às autoridades policiais para efeito de promoção processual, não sendo por isso
inválida (vide. o n.º 3, do artigo 50.º do CPP), se bem que, importa frisá-la, a referida promoção
nunca é conseguida à revelia do Ministério Público.

Além do mais, ainda é pertinente frisar que os OPC têm as suas competências de
investigação criminal consagradas na lei de organização de investigação criminal e nas
diferentes leis orgânicas, tal como ficarão evidenciadas com a leitura dos postulados normativos
seguintes:

(i) – Artigo 5.º, n.º 1, da LOIC, fala em actos a executar pelos OPC durante a investigação
criminal e artigo 6.º, n.º 1, alínea b) da mesma lei fala no desenvolvimento de acções de
prevenção e de investigação da competência própria ou atribuída.

Nota: Várias normas já analisadas anunciaram a dependência funcional dos OPC em


relação às Autoridades Judiciárias (MP, JI e JJ), mas deve-se ter em atenção que a referida
dependência não é uma dependência absoluta, porque os OPC conservam sempre as suas
autonomias técnicas e tácticas previstas nos n.º 3 e 4, do artigo 5.º, da Lei de Investigação
Criminal, nas suas actuações. Pois, não seria de bom tom que, por exemplo: o MP, só pelo facto
de ser o dominus do processo na fase do inquérito ou o Juiz de Instrução só pelo facto de ser
ele quem preside a instrução e o Juiz de Julgamento só pelo facto de ser ele quem preside o
julgamento, traçarem de A a Z os métodos a serem utilizados na actuação da polícia ou definir
as estratégias das suas actuações – o que ao ser permitido frustraria e de que maneira várias
diligências processuais tendentes a descoberta da verdade, contando que os agentes da polícia
têm treinamentos e aptidões que as referidas autoridades judiciárias não têm.

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Na mesma senda, vaticina o Professor Germano Marques da Silva ( 24) que «estão fora
dos poderes de direcção do MP quaisquer questões referentes a aspectos orgânicos e ao
funcionamento interno da hierarquia de cada corpo policial, e, bem assim, as questões de
táctica e estratégia policial, desde que estas não tenham os respectivos pressupostos directa
ou indiretamente definidos na lei».

(ii) – Artigo 2.º, n.º 1, do Estatuto Orgânico da Polícia Judiciária, Decreto-Lei n.º 14/2010,
de 15 de novembro, é categórico em afirmar que a polícia judiciária tem por missão coadjuvar
as autoridades judiciárias na investigação;

(iii) – Artigo 3.º da antiga Lei Orgânica da Polícia Judiciária, Decreto n.º 1/95, de 03 de
abril, plasmou a competência de investigação criminal da Polícia Judiciária, pese embora o
facto de não estar já em vigor, não podendo aplicar-se a nenhum caso, tendo em conta que foi
expressamente revogado pela norma revogatória constante do artigo 136.º do novo Estatuto
Orgânico da Polícia Judiciária;

(iv) – Artigo 3.º, n.º 1, alíneas c) e e), da Lei Orgânica da Guarda Nacional (Lei n.º 8/2010,
de 22 de Junho), plasmaram a competência de investigação criminal da Guarda Nacional;

(v) – Artigo 3.º, n.º 1, alíneas c) e e), da Lei Orgânica da Polícia de Ordem Pública (Lei
n.º 9/2010, de 22 de Junho), plasmaram a competência de investigação criminal da Polícia de
Ordem Pública.

De referir, relembrando, que a legitimidade de promoção processual cometida ao MP não


é automática em todas as situações, conquanto que é, a partida, automática, nos crimes de
natureza pública, com a exceção dos cometidos pelo Presidente da República no exercício das
suas funções, e não é automática sempre que o procedimento criminal depender da queixa ou
depender da queixa e da acusação particular (25).

(24) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, Vol. I, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo,
1993, p. 194.
(25) Já havíamos badalado esta questão nas aulas anteriores, inclusive ficou já demonstrado o mecanismo
conducente à constituição do PR como arguido que passa necessariamente pelo manejamento dos artigos 72.º, n.º
2 e 85.º, alínea e), ambos da Constituição da República da Guiné-Bissau e demos exemplos até de algumas
situações existentes em Portugal em que a iniciativa processual depende da queixa por parte do Governo português,
pelo que, para àquelas aulas remetemos.

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Dos Órgãos de Polícia Criminal

Duma forma telegráfica, apenas deve-se apontar, nesta sede, o facto de os Órgãos de
Polícia Criminal contar com uma definição plasmada no artigo 4.º da Lei n.º 8/2011, de 27 de
abril – Lei de Investigação Criminal –, no qual consta que “são Órgãos de Polícia Criminal as
entidades e agentes policiais a quem caiba praticar quaisquer actos determinados pela lei
penal ou ordenados por uma autoridade judiciária desde que legalmente certificados para o
efeito”.

É mister dar à estampa as individualidades que integram a denominada Autoridades de


Polícia Criminal. Assim, a Lei da Investigação Criminal patenteou no seu artigo 3.º que: «são
autoridades da polícia criminal, os Directores, os Oficiais, os Inspectores e os Subinspectores
de Polícia e demais funcionários a quem a lei atribuir tal qualidade».

Tangidas as Autoridades da Polícia Criminal, há que se assinalar as relevâncias práticas


que possuem no âmbito do processo penal, e que não são de somenos, uma vez que ostentam
alguns poderes e prerrogativas constantes nas diversas leis que revestem algum significado e
importância processual, a começar com:

(i) – a Competência para ordenar a prisão sem culpa formada, (faculdade que pertence
não a todos, mas apenas ao Director-Geral, Director da Direcção Central de Prevenção e
Investigação e Inspectores), nos termos do artigo 7.º da Lei n.º 1/95, de 03 de abril – Lei
Orgânica da Polícia Judiciária; Esta prisão é balizada por artigo 40.º, n.º 1, da CRGB. Só que é
mister explicar que com a elaboração do Estatuto Orgânico da Polícia Judiciária, a lei n.º 1/95,
de 03 de abril deixou de vigorar juntamente com o seu artigo 7.º que servia da norma
concretizadora da abstrata possibilidade da existência da prisão sem culpa formada permitida
pelo referido artigo 40.º, n.º 1.

Fica, ainda assim, uma questão por responder, pois continua a importar saber, em termos
rigorosos, se o legislador no artigo 40.º, n.º 1, quis mesmo referir a prisão ou se quis referir a
detenção? Obviamente que a resposta tende a ser a “detenção” e não a “prisão”.

(ii) – embora não resulta claro das leis guineenses, mas a lógica do poder leva-nos a
concluir que a comunicação de conhecimento de crime ao MP e a ordem para iniciação imediata

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de investigação constante do n.º 2, do artigo 6.º da Lei de Investigação Criminal, só podem ser,
e se não são deveriam ser, da competência de uma das autoridades da polícia criminal, pois só
assim faz sentido, não devendo-se compreender, em termos lógicos, que se trata de uma
prerrogativa deixada à mercê de um simples agente da polícia;

(iii) – a Competência para ordenar a detenção fora de flagrante delito, nos termos do n.º
2, do artigo 186.º do CPP, observadas cumulativamente as circunstâncias das alíneas a) e b) do
referido n.º 2;

Natureza Jurídico-Processual dos OPC:

No trilho do Professor Germano Marques da Silva (26) os OPC têm, e não se pode negar,
um papel fundamental na descoberta da verdade e na facilitação de execução dos actos
processuais, mas não podem pretender um estatuto processual que transcende aquela
importância. Assim, os OPC não são considerados sujeitos processuais, mas sim
participantes processuais. Isto explica-se pelo simples facto de eles não gozarem de
independência funcional face às Autoridades Judiciárias em função das fases processuais.

Acresce ainda, neste particular, o entendimento da Professora Maria João Antunes que
considerou que do ponto de vista organizatória, administrativa e disciplinar os OPC estão sob
a dependência do poder executivo, dum lado, e, doutro lado, isto é, do ponto de vista funcional
estão sob a dependência das Autoridades Judiciárias, e é exactamente o facto de os OPC
comportarem as tais dependências é que serve de sustentáculo para as suas não considerações
como sujeitos processuais, passando apenas a serem considerados como sendo participantes
processuais.

Os actos processuais praticados por OPC, mormente os que integram o âmbito das
medidas cautelares e de polícia, não devem ser considerados actos processuais isoladamente
compreendidas, visto que apenas passarão a merecer a tal qualidade quando aceites ou
confirmados pelas autoridades judiciárias competentes nas fases processuais em que foram
praticados.

(26) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, pp. 201-202.

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Há que se chamar, igualmente, atenção para o facto de impender sobre os OPC o dever
de Comunicação Imediata ou de Comunicação no Mais Curto Prazo Possível da notícia do
crime ao Ministério Público. Em tempos colocou-se o problema de saber como dosear ou
temporizar o tal “dever de comunicação imediata” anunciado por, por exemplo, artigo 176.º,
n.º 2, ao que era solucionado por recurso à regra geral do prazo para a prática de qualquer acto
processual constante no artigo 83.º do CPP, e ao que, hoje, felizmente encontra a resposta
propícia na norma do n.º 3 do artigo 6.º da LOIC, por impositivamente determinar que “a
Comunicação ao Ministério Público tem de ocorrer dentro dos Cinco (5) Dias seguintes ao
conhecimento do facto”.

Contudo, importa considerar uma indução ao erro provocada pelo legislador processual
penal guineense, uma vez que estatuiu no Título III, sob anunciação “Dos Sujeitos
Processuais”, o elenco dos sujeitos processuais, tendo:

a) – Capítulo I dedicado às normas subsidiárias;

b) – Capítulo II dedicado ao Juiz – entende-se ao Tribunal;

c – Capítulo III dedicado ao MP;

d) – Capítulo IV dedicado à Polícia – entende-se aos OPC;

e) – Capítulo V dedicado ao Suspeito – entende-se ao Arguido –, e ao Réu;

f) – Capítulo VI dedicado ao Assistente; e,

g) – Capítulo VII dedicado ao Defensor.

No fundo, e para ser realista, isto pode dar a falsa percepção de que os OPC / a Polícia é
sujeito processual se apenas guiarmos por esse elenco disponibilizado pelo legislador do Código
de Processo Penal. Mas, se levarmos em linha de conta toda a fundamentação doutrinária
esmiuçada supra, concisamente em relação a dependência funcional, teremos que ser
categóricos em afastar a referida “falsa percepção” e concomitantemente negar a qualidade dos
sujeitos processuais aos OPC, reconduzindo-lhes à qualidade de Participantes/Intervenientes
Processuais.

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Bissau, 06 de maio de 2021, Quinta-Feira.

Do Tribunal

A pedra de toque aqui passa por perguntar o que é o Tribunal?

Ora, o Tribunal é o órgão soberano do Estado com competências para administrar a justiça
em nome do povo.

O Tribunal recebeu uma atribuição constitucional de competência nos termos do artigo


119.º e a repartição das funções soberanas do Estado guineense predestinou aos Tribunais a
Função Jurisdicional à luz do artigo 120.º, n.º 3.

A função jurisdicional tem de subjacente os denominados Princípios de Administração


da Justiça – que têm por finalidade garantir a objectividade e a imparcialidade do julgamento.

Fazem parte dos princípios da administração da justiça os seguintes princípios:

a) – Princípio da Independência Judicial – que significa que o Tribunal, no


exercício da sua função jurisdicional, e que os juízes devem aplicar a lei em conformidade com
as suas consciências, coerentemente com o disposto no artigo 123.º, n.º 2, da CRGB e observado
o artigo 120.º, n.º 4, ambos da CRGB, conjuntamente com o artigo 5.º, n.º 2, do CPP.

Disto retiramos a independência dos Tribunais garantidos pela própria independência


pessoal e objectiva dos juízes, isto porque, as suas tarefas não são sujeitas ao Controlo ou
Supervisão Administrativa do Estado. As tarefas dos juízes apenas são supervisionadas pelo
Conselho Superior da Magistratura Judicial. As reivindicações dos juízes são encabeçadas pelo
Sindicato dos Juízes ou Associação Sindical dos Juízes.

Coloca-se, neste particular a questão de saber o que é que acontece com os juízes se
decidirem erradamente, o erro for considerado de grosseiro ou se tiverem o dolo ou culpa grave?

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Em Portugal esta questão encontra uma resposta facilitada, porquanto existe uma lei de
responsabilidade civil extracontratual do Estado que leva a responsabilização dos juízes pelos
erros que cometerem no julgamento. Se errarem o Estado fica adstrito ao pagamento da
indemnização a condenado, logo, a tal lei permitiu ao Estado ter Direito de Regresso sobre o
juiz que actua com dolo ou culpa grave e, em função dessa actuação, lesar os direitos doutrem.

Contudo, a Associação Sindical dos Magistrados Judiciais portuguesa, na tentativa de


minimizar a responsabilidade dos juízes por tais erros, negociou um prémio de seguro até
Quinhentos (500. 000, 00) Mil Euros para cobrir os erros judiciais.

Na Guiné-Bissau, essa responsabilização não é definida numa lei específica similar, razão
por que a ela só chegamos conjugando os artigos: 33.º, 41.º, n.º 6, e 123.º, n.º 3, ambos da
CRGB, com artigos: 327.º, n.º 2, do CPP e 6.º, n.º 2, do Estatuto dos Magistrados Judiciais e do
Conselho Superior da Magistratura – Lei n.º 1/99, de 27 de Setembro.

O caminho percorrido foi aquele porque o Conselho Superior da Magistratura Judicial


guineense apenas tem, sobre os juízes, as seguintes competências:

--a de fazer gestão de pessoal: (i) – Colocação dos Juízes / Nomeação nos termos
do artigo 120.º, n.º 1 e 5, da CRGB; e, (ii) – Transferência à luz do artigo 123.º, n.º 4, da CRGB
e 40.º, n.º 1, alínea c), do EMJ;

--a de instaurar processos disciplinares: (i) – Suspensão do Exercício de Funções


nos termos do artigo 40.º, n.º 1, alínea d); e, (ii) – Demissão nos termos do artigo 123.º, n.º 4,
da CRGB e 40.º, n.º 1, alínea g), do EMJ.

O entendimento em relação às supra referidas atribuições é retirado directamente da


norma do artigo 120.º, n.º 5, da CRGB conjugado com artigo 60.º, n.º 1, do EMJ.

Na decorrência destes afloramentos, também colocou-se a questão de saber se esta


possibilidade de direito de regresso do Estado contra os Magistrados não põe em causa a
independência pessoal dos juízes? Assume-se ser discutível a resposta, mas de facto, o tal

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condicionamento não foi pensado para amputar os poderes de decisão dos juízes, antes pelo
contrário, foi pensado para ampliar a qualidade das decisões dos juízes.

Cabem ainda, dentro da independência pessoal dos juízes, mais duas garantias a saber: a
de que os juízes são indestrutíveis e de que são inamovíveis contra as suas vontades, salvo
quando existe um processo disciplinar nos termos dos artigos 36.º e ss, ex vi. 28.º, n.º 2, ambos
do EMJ para poder permitir o disposto no artigo 40.º, n.º 1, alínea c), na qualidade de uma das
consequências possíveis no âmbito de um processo disciplinar.

b) – Princípio de Juiz Natural ou Legal – é um princípio que pulveriza claramente


a ideia da lei prévia, in casu, do tribunal prévio, querendo rigorosamente significar que se
encontra vedada qualquer possibilidade de forjamento das competências ou deslocação dos
casos de alçada de um certo Tribunal para o outro em virtude da conveniência. Ou seja, por
força deste princípio não é permitido que haja a designação de um tribunal para julgar um
processo uma vez que a lei terá que dizer de antemão qual é o tribunal competente para julgar
aquele processo.

Regras de Competência

A partida só os Tribunais comuns tem a jurisdição em matéria penal. A competência do


tribunal é depreendida do âmbito de jurisdição definida com recurso à três (3) critérios
fundamentais, a saber:

1. – Competência Funcional – que é a competência em razão da fase do processo;

2. – Competência Material – que se prende com a competência em razão da espécie


ou gravidade do crime ou da qualidade do agente do crime (Arguido / Suspeito).

Por exemplo: Qual é tribunal que deve julgar o PR – artigo 10.º, n.º 1, alínea a) conjugado
com artigo 27.º, alínea a) da Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais (Lei n.º 3/2002, revista pela
Lei n.º 6/2011) respondem que é o plenário do STJ.

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3. – Competência Territorial – que se prende com a competência em razão do lugar


do cometimento do facto.

→ No que diz respeito à Competência Funcional – temos que reter as seguintes ideias:

--Deve existir, pelo menos, dois (2) juízes: (i) Um de Instrução e (ii) Um de
Julgamento.

--Estes existências inculcam a ideia da reafirmação do princípio da independência


judicial e isenção dos tribunais.

→ No que diz respeito à Competência Material – que compreende a Competência em


Razão da Hierarquia e da Estrutura do Tribunal, apenas deve-se compreender, na esteira do
artigo 10.º e ss do CPP, que:

● a Hierarquia destina-se à permitir os tribunais superiores a julgar os crimes


praticados por titulares de altos cargos políticos no exercício das suas funções; enquanto que,

● a Estrutura do Tribunal destina-se a balizar a forma organizativa dos diferentes


tribunais para fazer jus às suas competências materiais, conforme indica os artigos 13.º e 14.º
do CPP.

→ No que diz respeito à Competência Territorial – teremos como relevante dois

critérios:

● Critério Geral – que sobrevaloriza o Lugar do Delito, que por sua vez pode ser:

--um lugar físico de consumação do crime – artigo 15.º do CPP;

--um lugar ambulante ou movediço (aeronave, navio etc…) – em que é tido


como relevante o lugar de desembarque do agente do crime ou a utilização do critério de
pavilhão/bandeira do navio ou aeronave – artigo 16.º, n.ºs 1 e 2.

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--um lugar físico mas fora do território nacional em que se tem como relevante
o lugar onde o agente é encontrado ou o da sua última residência, conforme reza o artigo 17.º
do CPP.

● Critério Supletivo ou Regra Supletiva – que é utilizada sempre que existir a


dúvida sobre a determinação da competência territorial, no sentido do local do crime ser de
identificação duvidosa ou desconhecida, passando-se a ter por prevalecente a escolha do
tribunal da área em que surgiu primeiramente a notícia do crime, tal com consta do artigo 18.º
do CPP. Ora, para os crimes praticados no estrangeiro conta o lugar em que o agente foi
localizado ou, na sua falta, o do seu último domicílio.

Competência por Conexão

Vem previsto no artigo 20.º do CPP e é cogitada, equacionada ou convocada apenas


quando estivermos em face do concurso do crime (portanto pluralidade do facto) ou em face
duma comparticipação criminosa (pluralidade do agente).

O Professor Paulo de Sousa Mendes explica o fenómeno de competência por conexão


duma forma simplista, mas muito perceptível e eficaz, ao demonstrar o seguinte:

--Um crime praticado por um único agente – dá lugar a um processo-crime; se assim


é, então,

--Vários crimes – concurso de crimes – ou vários agentes – comparticipação


criminosa – dariam lugar a vários processos-crime, justificando, assim, os seus processamentos
conjuntos, convolando-se num único processo, com o fito único de racionalizar os gastos da
administração da justiça e gerar menor incómodo possível às testemunhas.

Nessa esteira, o Código de Processo Penal da Guiné-Bissau manda, à luz do artigo 20.º
que seja organizado um só processo apresentando os seguintes requisitos:

Na alínea a) do n.º 1 do artigo 20.º, vem expresso o critério de pluralidade dos agentes
para o mesmo ou vários crimes;

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Na alínea b) do n.º 1 do artigo 20.º, volta a plasmar a pluralidade dos agentes para uma
unicidade de conduta ou para única ocasião ou, ainda, para um mesmo lugar e mesmo que
alguns crimes sejam resultados dos outros ou actos contínuos dos outros ou servem tão só para
ocultar ou outros.

Já o n.º 2 do mesmo artigo, é constituído por duas vertentes que merecem ser assinaladas:

--Uma possibilidade ou uma obrigatoriedade de apensação de todos os processos


conexos logo que a conexão é conhecida; e,

--Uma restrição clara ao processo de junção de vários processos, cuja permissão é


apenas consentida se, eventualmente, os autos individuais de cada processo se encontrarem na
mesma fase. Ou seja, não será permitida fazer apensação dos processos se um estiver na fase
mais avançada que o outro.

Obs.: Quer a fusão (a apensação) dos processos quer a cisão (a separação dos processos)
podem ocorrer mediante o requerimento das partes ou oficiosamente.

O Código de Processo Penal guineense faz uma distinção entre a conexão total e a
conexão parcial, com sede e modus aplicandi nos artigos 20.º e 21.º respectivamente.

No fundo, a conexão parcial segue o mesmo diretório da conexão total, tendo, no


essencial, a única diferença que tem que ver com o facto de, contrariamente a conexão total, a
conexão parcial não requerer, para que seja aplicada, a existência cumulativa de concurso de
crime e de comparticipação criminosa. Ou seja a aplicação da conexão parcial não requer a
observância de dois requisitos, bastará apenas a observância de um dos requisitos, seja ele a
comparticipação criminosa ou o concurso de crimes.

Limites à Conexão

A própria natureza dos crimes constitui uma barreira séria à conexão, pelo menos é o que
e pode retirar da norma do artigo 22.º do CPP, quando frontalmente opõe-se a verificação da

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conexão se um dentre vários processos passíveis de serem conectados integrarem uma das
seguintes competências: (i) Competência dos Tribunais de Menores; (ii) Competência do
Tribunal Militar; e, (iii) Competência do Supremo Tribunal de Justiça.

Quid Iuris se fora dos casos já vistos, eventualmente, os processos conexos encontrarem-
se abrangidos por competências de mais de um tribunal?

A resposta é dada pelo artigo 23.º do CPP, tendo estabelecido primacialmente os seguintes
critérios:

a) – no tocante à hierarquia e forma de funcionamento, será competente o tribunal


de hierarquia mais elevada e detentor de forma mais solene de funcionamento, tal como resulta
do n.º 1; e,

b) – no que tange à competência territorial, será competente para julgar todos os


processos aquele tribunal competente para julgar o crime que contiver a pena mais elevada ou,
na falta desta determinação, o tribunal da área que colher primeiro a notícia do crime, conforme
o n.º 2.

Há que dizer que é pertinente falar no artigo 24.º do CPP, porquanto abre a possibilidade
de prorrogação da competência do tribunal.

No mesmo sentido, também deve-se falar do artigo 25.º do CPP, tendo em conta que
aconselha a cisão dos processos nos moldes já conhecidos, caso se concluir que da conexão
possa resultar para um dos suspeitos ou (i) o prolongamento injustificado da prisão preventiva
ou (ii) o retardamento excessivo do julgamento.

Competência Territorial do Magistrado do Ministério Público para o Inquérito

Há sempre o MP dentro de qualquer Tribunal, quer dizer que há sempre um magistrado


do MP junto a cada tribunal e se os tais tribunais obedecerem as regras territoriais de

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competência para julgamento, por maioria de razão os magistrados deveriam obedecer as


mesmas regras de competência territorial, segundo a qual perante um crime cometido na
circunscrição X, é competente o tribunal da circunscrição X e consequentemente é competente
o magistrado do MP colocado na circunscrição X para realizar o inquérito tendo por base o tal
facto e, no final, produzir a acusação ou arquivar o processo.

Agora, é óbvio que o legislador não disse nada em relação às competências territoriais
dos magistrados do MP, o que não quererá rigorosamente significar que existe uma lacuna já
que é aplicado as mesmas regras de competência destinadas aos tribunais. Esta colagem é
assacada directamente do artigo 26.º do CPP que, no concernente à incompetência, fala
conjuntamente do Tribunal e do MP.

Declaração da Incompetência

Nota inicial: a incompetência não se confunde com a falta de jurisdição penal que implica
a inexistência da sentença e que pode ser reconhecido a qualquer momento e por qualquer juiz.

Na matéria de incompetência há que distinguir o seguinte:

a) – Incompetência do Tribunal – que vem previsto no artigo 27.º do CPP e que


subclassifica-se em:

--Incompetência Material – que pode ser declarada até trânsito em julgado da


decisão final; e,

--Incompetência Territorial – que pode ou que deve ser declarado até ao início
da audiência do julgamento.

b) – Incompetência do Ministério Público – que vem previsto no artigo 28.º do CPP


e que pode ser declarada até que seja deduzida a acusação definitiva. Ora, uma vez deduzida a
acusação definitiva, já não pode a incompetência do MP ser declarada.

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Efeitos da Declaração da Incompetência

Surdem directamente do artigo 29.º do CPP e, na verdade, o efeito que mais se prepondera
é a remessa do processo para o tribunal competente, segundo o n.º 1 do mesmo artigo. Do n.º 2
resulta a consideração de que quando a incompetência é territorial e abranger todo o território
guineense, suscita o arquivamento do processo, após o trânsito em julgado da decisão.

Destino dos Actos Processuais Anteriores Praticados por Tribunal Incompetente

O artigo 30.º do CPP contempla uma excepção aos efeitos de incompetência do tribunal
no que respeita aos actos urgentes permitidos quer ao tribunal quer ao magistrado do MP, uma
vez que os tais actos podem conhecer dois caminhos possíveis:

1.º Em regra os tais actos de que falamos mantêm as suas eficácias; e/ou,

2.º O tribunal competente pode os considerar desnecessário ou afetados de


nulidade insanável.

Quer isto significar que não havendo estas últimas considerações, geralmente, os actos
processuais praticados primacialmente ou anteriormente pelo tribunal incompetente são tidos
por eficazes, desde que ficar provada que realmente se trata de actos urgentes.

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Bissau, 14 de maio de 2021, Sexta-Feira.

Do Arguido e do seu Defensor

Do Arguido

A pedra de toque nesta matéria é a exaltação da existência da dicotomia terminológica no


ordenamento jurídico guineense, isto porque o legislador constitucional fez a utilização do
termo Arguido e o legislador processual, ao invés, fez a utilização do termo Suspeito.

Ora, torna necessário oferecer algumas explicações teoréticas que servem de base para a
separação estanque desta dicotomia para, depois, ajuizar sobre a constitucionalidade ou não do
termo suspeito. Assim:

O termo suspeito deriva da suspeição que é um estado embrionário de ligação de uma


pessoa a um facto criminoso. Se concluir existir provas fortes do seu real envolvimento no
referido facto, terá que evoluir para alcançar um outro estado em que é considerado arguido,
para nessa condição usufruir de várias garantias processuais a ele reservado por lei.

Há duas conclusões possíveis: (i) o termo suspeito é um estado inicial de suposição de


envolvimento criminoso duma certa pessoa que pode desaparecer a qualquer altura, e muito
rapidamente, e que não gera, por parte do Estado, a obrigação de indemnizar a pessoa sobre
quem paira a referida suspeição; deve-se, ainda, evidenciar que qualquer pessoa é passível de
se afigurar em um ou outro caso como suspeito, bastando ser encontrado num lugar errado,
numa hora errada ou ao pé de alguém errado, por assim dizer; ao passo que (ii) o termo arguido
é um estado avançado de suposição do envolvimento criminoso duma certa pessoa que
dificilmente desaparecerá antes do início da fase de instrução ou das diligências extras de
produção e valoração da prova na fase do julgamento e que ao desaparecer gera
obrigatoriamente, por parte do Estado, a obrigação de indemnizar por erro judiciário.

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Pode-se, ainda nesta senda de divagações distintivas, sustentar que contra um mero
suspeito não é produzida uma acusação, enquanto que contra o arguido é deduzida uma
acusação antecedida da constituição da pessoa como arguido.

Pode-se afirmar, e não será despiciendo, que sobre o suspeito paira a mera ou fraca
suspeita do cometimento do crime ao passo que sobre o arguido paira fundada suspeita do
cometimento do crime.

Esta última diferenciação pode pecar por volatilidade quanto ao arguido se levarmos em
linha de conta os casos em que o MP, findo o inquérito, não conclua pela existência de indícios
tendentes a responsabilização do suspeito – o que daria azo ao arquivamento –, e se a decisão
de arquivar gerar a discórdia por parte do assistente e este último decidir produzir um RAI
(Requerimento para a Abertura da Instrução) que geraria ope legis a constituição do arguido, a
constituição da pessoa como arguido procederá e a instrução será aberta e realizada ainda que
não tivesse existido nos autos do inquérito realizado pelo MP fortes indícios de
responsabilização da pessoa que no RAI foi indicada como responsável pelo crime.

Daí que o Professor Germano Marques da Silva (27), em jeito de chamada de atenção para
a tal volatilidade, recusa definir o arguido nos moldes supra plasmado, isto é, como sendo
“aquela pessoa sobre quem recaia fundada suspeita de cometimento do crime”.

No fundo, para ele a diferenciação entre suspeito e arguido não vai ter por prevalecente a
colocação das adjectivações como antecedentes da palavra suspeita para com isso concluir que
consideraríamos ser Suspeito “aquele sobre quem recaia ínfima suspeita de cometimento do
crime” e ser Arguido “aquele sobre quem recaia fundada suspeita de cometimento do crime”.

O Código de Processo Penal não nos deu uma noção clara do suspeito, mas podemos
retirá-la da norma do n.º 1 do artigo 60.º, considerando ser Suspeito “a pessoa determinada
contra quem corre inquérito por deduzir existir indícios de que cometeu um crime ou nele
participou”. Ora, devemos desconfiar desta definição constante do Código, porque parece ter
conteúdo definitório do arguido e não propriamente do suspeito.

(27) Germano Marques da Silva, op. cit., p. 204.

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Em termos rigorosos, e para sentenciar esta questão, diríamos que:

O Suspeito “é toda a pessoa relativamente à qual exista indício de que cometeu ou se


prepara para cometer um crime, ou que nele participou ou se prepara para participar”;

O Arguido é, parafraseando o Professor Germano Marques da Silva, «a pessoa que é


formalmente constituída como sujeito processual e relativamente a quem corre processo como
eventual responsável pelo crime que constitui o seu objecto» (28).

Logo, como mais um elemento diferenciador, deve-se registar a informação de que o


simples Suspeito não é sujeito processual e como tal não é titular de direitos nem está sujeito a
deveres processuais especiais (29), ao passo que o arguido é sim sujeito processual e, enquanto
tal, está adstrito a deveres processuais especiais e é titular de direitos consideráveis.

Suposto Problema de Constitucionalidade

As descoordenações do legislador processual face ao legislador constitucional detectáveis


através dos artigos 31.º, n.º 2, in fine, 38.º, n.º 4, e 42.º, n.º 2 e 3, da CRGB – que falam em
Arguido –, e artigos 60.º e ss do CPP – que falam em suspeito –, não podem ser interpretadas
como se duma inconstitucionalidade destas últimas normas se tratasse.

Só que, o não ser inconstitucional não lhes iliba de serem considerados portadores de
incongruências processuais indisfarçáveis, porquanto as suas epígrafes inculcam a ideia de
estarem a referir o verdadeiro suspeito, quando na verdade os seus conteúdos mais têm a ver
com as prerrogativas normalmente conferidas ao arguido – o que ficou mais nítido nas várias
alíneas do artigo 61.º do CPP, máxime nas últimas alíneas.

(28) Ibidem.
(29) Vide. Germano Marques da Silva, op. cit., p. 203.

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Mecanismos de Constituição de Arguido

É imperativo frisar que o Código de Processo Penal guineense fala, no artigo 60.º, n.º 1,
que por meio de um despacho se declara suspeito a pessoa contra quem corre inquérito, logo
que existem indícios de que cometeu um crime ou nele participou.

Já havíamos anunciado que o conteúdo deste artigo poderá ter mais a ver com a figura do
arguido, e se for verdade o nosso prognóstico, então a qualidade do arguido é sim declarado por
via de um despacho – que deve ser entendido ser do Ministério Público. Não sendo verdade o
nosso prognóstico, então é a qualidade do suspeito que é declarado mediante um despacho –
que deve subentender-se ser de uma das autoridades da polícia criminal de um dos OPC.

Seja como for, em termos comuns, a constituição do arguido opera-se ope legis nas
situações em que existindo o inquérito e findo o mesmo por uma das suas duas formas
paradigmáticas, acusando ou arquivando, então:

(i) havendo a dedução da acusação, será constituído arguido a pessoa contra quem for
deduzida acusação; e,

(ii) não havendo a acusação ou, melhor dizendo, havendo o arquivamento e em relação a
ele não se angariar a concordância do assistente, e este decidir requerer a abertura da instrução,
conhecida como o RAI do Assistente, que significa Requerimento para a Abertura da Instrução,
será constituído arguido a pessoa contra quem for requerida a instrução.

Não operando a constituição do arguido ope legis nos termos acabado de mencionar,
poderá operar-se mediante comunicação feita ao visado por uma autoridade judiciária ou um
dos órgãos de polícia criminal.

A comunicação de que se falou supra “pode ser oral ou escrita e tem por conteúdo a
informação de que a partir desse momento o visado se deve considerar arguido no processo e a
indicação e, quando necessário, a explicação dos direitos e deveres processuais constantes do
seu estatuto” (30).

(30) Vide. Germano Marques da Silva, op. cit., p. 205.

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Quando é feita por escrito, é notificada a pessoa do arguido, se não for encontrada, tem
resultado da prática processual guineense a notificação por via de telemóvel.

Bem, a partir do momento que um individuo adquira a qualidade do arguido, se lhe deve
assegurar o exercício de alguns direitos e deveres processuais. Relembra-nos o Professor
Germano Marques da Silva que “é a partir da constituição de arguido que a pessoa adquire a
qualidade de sujeito processual e como tal passa a ser titular dos direitos e submetido aos
deveres processuais que integram o seu estatuto” (31), constante, no nosso caso, dos artigos 61.º
e 62.º do CPP.

Por norma, uma vez reunidos os pressupostos para a constituição de arguido conforme o
n.º 1 do artigo 60.º e essa constituição não for feita e se se inobservar a norma do n.º 3 do mesmo
artigo, isto é, se a pessoa não for interrogada na qualidade do arguido, exige-se que as
declarações por ela prestadas não pudessem servir como prova a ser utilizada contra ela.

(31) Cfr. Germano Marques da Silva, op. cit., p. 207.

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Capacidade Judiciária do Arguido

Sendo o arguido um sujeito processual que aufere de um estatuto próprio que integra
conjunto de direitos e de deveres processuais covinha que tivesse, para a fluidez do processo, a
personalidade judiciária.

É notório que a qualidade de arguido se confunda com a susceptibilidade de imputação,


se quiser a susceptibilidade de responsabilização criminal. Ser arguido é ser vulnerável à
imposição da pena ou medida de segurança – o que deve ser feito por tribunal mediante uma
sentença e apenas em relação aos titulares de direitos processuais, como é o caso do arguido.

Mas, há que se ter a cautela, pois a qualidade de arguido, enquanto sujeito processual, não
requer necessariamente a responsabilidade penal, na medida em que a pessoa pode ser
constituída arguido no processo, considerado sujeito processual, e ser insusceptível de
imputação do crime que é objecto do processo, fundamentalmente quando se é menor de 16
anos (inimputável em razão da idade) e quando se apresentar, quer antes da prática do facto,
quer depois da prática do facto, anomalia psíquica (inimputável em razão da anomalia psíquica).

Ensina-nos o Professor Germano Marques da Silva que “a susceptibilidade de


responsabilidade penal tem a natureza substantiva, enquanto a personalidade judiciária, que é a
susceptibilidade de ser arguido, tem natureza processual e representa a susceptibilidade de ser
titular dos direitos e dos deveres para actuar no processo, mormente para se defender da
imputação que lhe é feita e que integram o estatuto do arguido” (32).

Assim, podem ser arguidos no processo penal as pessoas físicas maiores de 16 anos e
plenamente saudáveis, máxime em termos psíquicos, e as pessoas jurídicas legalmente
constituídas.

Deve ser explicado alguns desvios:

(32) Idem., p. 208.

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Podem ser arguidos, os inimputáveis em razão da anomalia psíquica desde que seja
temporária (no sentido de ser curável) e posterior a prática do facto, situação em que, caso se
revelar necessário, suspende-se o processo a espera que a anomalia desapareça e continuá-lo,
“salvo se se tratar de processo para aplicação de medida de segurança cujo pressuposto seja
precisamente a anomalia psíquica” (33). É escusado dizer que se a anomalia psíquica for
definitiva e incurável deixa de ser razoável prosseguir com o processo contra um incapaz e o
mesmo se diz, já agora, em relação ao incapaz em razão da idade.

Fora de casos dos inimputáveis, ensina-nos o Professor Jorge de Figueiredo Dias que
também é excluída a susceptibilidade de assumir a qualidade do arguido relativamente àquelas
pessoas que não estão sujeitas a jurisdição guineense, quer se considere tratar-se de
inaplicabilidade do direito penal, quer simplesmente de não sujeição à jurisdição guineense,
havendo imunidade substantiva ou só processual (34).

Obs: contra àquelas pessoas não pode ser instaurado um processo porque eles não podem
ser arguidos no processo e se eventualmente por um ou outro motivo (nomeadamente o
desconhecimento da imunidade) o processo for instaurado terá que ser considerado
juridicamente inexistente. Mas, é de enaltecer que a insuscetibilidade das referidas pessoas
serem constituídas arguido não impede as suas participações no processo para precisamente
assinalar o vício e, em consequência, fazer parar o processo no território nacional.

Referimos supra que as pessoas meramente jurídicas podem ser arguidas no processo e
as suas capacidades judiciárias vão se buscar nos respectivos documentos constitutivos. Sobre
esta questão, diz-nos o Professor Germano Marques da Silva que “não há no processo penal
nada de especial relativamente ao processo civil no que concerne à capacidade judiciária das
pessoas colectivas. Assim, é de aplicar o artigo 21.º do Código de Processo Civil, que estatui
que as pessoas colectivas e as sociedades são representadas por quem a lei designar” (35).

(33) Idem., p. 210.


(34) Cfr. Jorge de Figueiredo Dias – Direito Processual Penal, Vol. I, Coimbra, Coimbra Editora, 1974, p. 108.
(35) Cfr. Germano Marques da Silva, op. cit., p. 212.

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Direitos do Arguido

O Código do Processo Penal plasma no seu artigo 61.º conjunto de direitos que assistem
arguido, dentre os quais haveremos de apenas anunciar uns e esmiuçar os que revestem maior
importância tendo em conta a aceleração inerente a prontificação do presente sumário. Assim:

(i) – Resulta da alínea a) o Direito de Ser Informação – que significa que o arguido tem
direito de ser informado pela autoridade judiciária ou pelo OPC, perante os quais seja obrigado
a comparecer, dos direitos que lhe assistem em razão da sua qualidade de sujeito processual.
Referem-se aos direitos:

--de ser informado sobre a sua constituição como arguido (artigo 60.º, n.º 2, do CPP);

--de ser informado, de forma clara e precisa, dos factos que lhe são imputados e, inclusive,
das provas que existem contra ele, se se concluir não ser prejudicial (artigo 63.º, n.º 4, do CPP);

--de ser informado da liberdade que tem em aceitar prestar a declaração ou não e de que
o silêncio não o desfavorecerá (artigo 63.º, n.º 4, in fine, do CPP).

(ii) – Resulta da alínea b) o Direito de Liberdade em Decidir Prestar Declaração ou Não


ou Direito ao Silêncio – que significa que ao arguido assiste o direito de liberdade em relação
as perguntas que lhe são colocadas e em relação a vontade ou não de prestar quaisquer
declarações.

No fundo, o arguido tem direito de não responder perguntas feitas por qualquer entidade
sobre os factos que lhe forem imputados e sobre o conteúdo das declarações que acerca deles
prestar;

Tem direito de ser informado antes do interrogatório de que goza do direito ao silêncio e
de que o seu silêncio jamais poderá ser interpretado como presunção de culpa conforme a norma
do artigo 63.º, n.º 4, in fine, do CPP, na justa medida que goza de presunção de inocência nos
termos do artigo 42.º, n.º 2, da CRGB.

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De referir que o direito ao silêncio que assiste ao arguido não se confunde como o direito
à mentira ou direito de mentir. O arguido não deve mentir ao prestar declarações, mas se o fizer,
não será mais severamente punido por esse facto, uma vez que a lei não estabelece qualquer
sanção para o arguido que ao prestar declarações sobre os factos que lhe forem imputados, faltar
com a verdade. Mas, isso não deve ser interpretado como se de um direito a mentir se trata-se.

Na verdade, parafraseando o Professor Jorge de Figueiredo Dias (36), não se trata de um


direito de mentir, mas simplesmente da não punição da mentira.

Deve-se exaltar, para finalizar, que o direito ao silêncio conferido ao arguido não é
propriamente um direito de carris absoluto, no sentido de que o arguido não pode entrar mudo
e sair mudo do processo, pois os seus direitos são contrapostos aos seus deveres e quando isso
acontecer, o direito ao silencio fica automaticamente coartado, conquanto que o arguido é
obrigado a responder com a verdade, fornecendo elementos de identificação pessoal e
informando acerca dos seu antecedentes criminais, conforme resulta do artigo 62.º, alínea a),
do CPP. Quer isto significar que cada vez que o arguido é perguntado sobre a sua identidade
pessoal deverá responder com verdade e se a pergunta for sobre os seus antecedentes criminais
igualmente deverá responder com verdade.

Mas se não o fizer: (i) poderá ser submetido a exames obrigatórios para descobrir a sua
identidade e, descoberta a sua identidade, (ii) poderá à distância de um simples clique, cruzar
os dados e saber dos seus antecedentes criminais, através dos registos criminais constantes das
bases de dados do Ministério da Justiça que são acessíveis mesmo nos guichés dos registos
instalados nas lojas de cidadãos (37).

Há que se desconfiar que não estamos a falar da realidade guineense. Ainda não chegamos
a esse patamar de evolução, até porque, salvo raras excepções, quase em todos os registos
criminais da Guiné-Bissau é encontrada a célebre frase “Nada Consta”, pois não há

(36) Cfr. Jorge de Figueiredo Dias – Direito Processual Penal, pp. 450 e ss. Apud. Germano Marques da Silva,
op. cit., p. 214.
(37) Nota Importantíssima: Estas são as consequências menos musculosas e dependentes, e muito, da paciência,
da boa fé e do carácter / postura menos rígido/a dos OPC que presidem a diligência ou, melhor, da Autoridade
Judiciária que preside o acto processual em que se suscitou as tais questões. Na realidade há outras duas
importantes consequentes, bem mais gravosas até, que frisamos infra, na parte respeitante aos deveres do
suspeito/arguido, concisamente no ponto (i), constante da página n.º 18.

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informatização dos dados e, mesmo nos casos que houver, não há um sistema que cruza
diferentes dados de várias instituições judiciárias pertencentes as diversas regiões.

Em países evoluídos, o responder com a verdade por parte do arguido sobre os seus
antecedentes criminais já não é uma obrigação, tendo em conta que as autoridades judiciárias e
os OPC tem a facilidade de extrair, com um simples clique, o registo criminal do arguido. O
responder com verdade sobre a identidade pessoal ainda mantém obrigatório.

No contexto guineense, e se da revisão do CPP em curso não resultar nenhuma alteração


neste sentido, continuarão estes dois deveres de o arguido responder com a verdade a restringir
o seu direito ao silêncio e a torná-lo relativo.

(iii) – Resultam das alíneas c) e d) o Direito de Ser Assistido por Defensor e


simultaneamente o Direito do Tribunal o Nomear um Defensor Oficioso – que significa que o
arguido pode constituir advogado em qualquer altura do processo e ainda confere ao arguido o
direito de, em vez de constituir defensor, solicitar ao tribunal que lhe nomeie um.

Trata-se de um direito do arguido garantido constitucionalmente, no artigo 42.º, n.º 3.

A nomeação do defensor cabe ao próprio arguido e terá de recair em pessoa habilitada,


um advogado ou advogado estagiário, importando apenas que a pessoa tenha feito o curso de
direito.

A nomeação do defensor pelo tribunal a requerimento do arguido não está condicionada


por quaisquer condições de natureza económica.

A constituição ou atribuição de um defensor consiste numa demonstração da importante


garantia de defesa do arguido, pensado e considerado obrigatório justamente para aumentar as
chances de o arguido, mediante o seu defensor, apresentar uma boa defesa.

A relevância deste direito que é considerado garantia de defesa vai-se buscar na


consideração que o CPP faz em determinar que a falta de assistência do arguido pelo defensor,
seja porque não compareceu, seja porque não foi nomeado, constitui uma nulidade insanável,
nos termos da alínea c), do n.º 1, do artigo 106.º.

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Uma pergunta frequente se impôs, a de saber se o arguido é advogado de profissão, se


pode ser defensor da causa própria? Ao que se responde que não, apesar de não existir nenhuma
proibição expressa, mas que o simples facto de o tribunal ou MP terem a obrigação de o
impingir um advogado oficioso (vide. artigo 72.º, n.º 1,), independentemente da sua vontade, é
de per si revelador da proibição de se auto-defender (38).

Em boa verdade o arguido não deve pretender cumular na sua pessoa a qualidade do
arguido e do defensor, pois corre o risco de não apresentar uma defesa conveniente, por razões
várias, desde logo, porque vai faltar-lhe a serenidade devida, vai faltar-lhe o tempo para uma
preparação jurídica da defesa, contando que pode estar preso e sem materiais necessários e
nesse caso não terá a liberdade de movimentação e contactos que potenciariam uma boa defesa.

(iv) – Resulta da alínea e) o Direito de Comunicar Livremente com o seu Defensor – trata-
se igualmente de uma importe garantia de defesa que determina que a comunicação entre o
defensor e o arguido, detido sobretudo, seja feito em privado ou, não podendo ser em privado
por razões de segurança, seja feita a vigilância mas sem a mínima possibilidade de audição por
parte do vigilante.

A relevância deste direito que é considerado uma garantia de defesa vai se buscar
fundamentalmente na proibição legal de a escuta telefónica incidir sobre as comunicações
efectuadas entre o arguido e o defensor, salvo existir indícios fortes do envolvimento criminoso
do defensor, conforme atesta o n.º 3, do artigo 144.º do CPP.

(v) – Resulta da alínea f) o Direito de Informar alguém da sua família que está preso –
trata-se de uma direito que podia subsumir-se ao indicado no ponto (i), mas na verdade este é
de menor escala e é de informar da sua condição de arguido detido para dar conhecimento aos
seus familiares da sua condição e do seu paradeiro, ao passo que aquele é o direito de ser

(38) Em Portugal, esta questão parece estar já sentenciada de uma vez por todas, uma vez que a doutrina é
praticamente unânime em admitir que assim seja. No trilho do Professor Germano Marques da Silva «ainda que o
arguido tenha a preparação jurídica adequada, a lei entende necessário que o arguido seja acompanhado por um
defensor, de quem espera que mantenha a serenidade, já que é de presumir alguma perturbação do arguido,
prejudicial à sua defesa e ao regular funcionamento da justiça». In: Germano Marques da Silva – Curso de
Processo Penal, Vol. I, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1993, p. 225.

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informado das suas prerrogativas, por isso de maior escala e merecedor de maior atenção face
a este.

(vi) – Resulta da alínea g) o Direito de Intervenção do Arguido – quer significar que o


arguido tem direito de intervir no processo, no inquérito e na instrução, oferecendo provas e
requerendo diligências que julgue necessárias à sua defesa.

Tem igualmente o direito de requerer a abertura de instrução, quando acusado, nos termos
do artigo 206.º, n.º 2, do Código de Processo Penal.

E, finalmente, tem direito de intervir nas audiências de julgamento, pois aí a sua presença
e o seu interrogatório até são, por regra, obrigatórios.

(vii) – Resulta da alínea h) o Direito de Recurso do Arguido – o que quer significar que
o arguido tem o direito de recorrer, nos termos da lei, das decisões que lhe forem desfavoráveis.

O princípio da máxima admissibilidade dos recursos está consagrado no artigo 261.º do


CPP e postula que, se a lei deixar, é permitido recorrer dos despachos judiciais, das sentenças
e dos acórdãos, na totalidade ou em parte.

Deveres do Arguido

O Código do Processo Penal plasma no seu artigo 62.º conjunto de deveres a que o
arguido está adstrito, a partir da data da sua constituição, em que:

(i) – Resulta da alínea a) o Dever de Responder com Verdade e de Forma Completa sobre
a sua Identidade e Antecedentes Criminais – quer dizer que o arguido tem o dever de responder
com a verdade e da forma completa às perguntas sobre a sua identidade e antecedentes criminais
feitas por entidades competentes – o que sucede, de resto, nos interrogatórios a que o arguido
for submetido.

A falta de resposta ou a sua falsidade, querendo com isso dizer que se o arguido mentir
em relação a estas duas situações, poderá o arguido incorrer em responsabilidade penal, por
Crime de Falsidade por Parte de Interveniente em Acto Processual previsto no artigo 225.º,

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máxime n.º 1, do Código Penal e por Crime de Desobediência previsto no artigo 239.º do
Código Penal.

Mais detalhe sobre esta matéria foi dado supra, na página n.º 15, do presente sumário,
pelo que para lá remetemos.

(ii) – Resulta da alínea b) o Dever de Comparência – que significa que o arguido tem o
dever de comparecer perante os OPC, o MP ou o Juiz sempre que a lei exigir e para tal tiver
sido regularmente convocado.

A falta de comparência deve ser devidamente justificada e deve basear-se nos motivos
compreensível e atendíveis, uma vez que a comparência do arguido é deveras importante para
o sucesso da maioria dos actos processuais, daí que a falta de comparência do arguido quando
a sua comparência é obrigatória gera a nulidade insanável nos termos do artigo 106.º, n.º 1,
alínea d).

É importante que o arguido cumpra este seu dever de comparência e quando não o poder
cumprir, importa justificá-la devidamente, pois se assim não proceder incorrerá no risco de ser
detido, por ordem do MP ou do Juiz, para garantir a sua presença no acto processual que faltou
injustificadamente, conforme manda a norma do n.º 1, do artigo 186.º, do CPP.

(iii) – Resulta da alínea c) o Dever de Sujeitar-se às Diligências de Prova – quer dizer que
o arguido é obrigado a sujeitar-se às diligências de prova, a todas elas, desde que não são
proibidas pela lei, desde que respeitadora da dignidade humana ou desde que feitas em modo a
respeitar as formalidades legalmente impostas.

Só para que conste, o arguido pode ser submetido a, por exemplo, interrogatórios (artigo
64.º), provas por declarações (artigo 124.º), acareação (artigo 126.º), por reconhecimento
(artigo 128.º), a reconstituição dos factos, a perícia (artigo 133.º) e exames (artigo 143.º), a
revista (artigo 137.º), dentre outras.

(iv) – Resulta da alínea d) o Dever de Sujeitar-se as Medidas de Coacção e de Garantias


Patrimoniais – trata-se de um dever resumido, e mal, ao TIR, que devia abranger as outras
medidas, mas que ficarão desde já subentendidas e incluídas e prende-se com o facto de o
arguido prestar a sua colaboração com a justiça, no sentido de não se tentar esconder,

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oferecendo informações ligadas a sua localização, portanto residência, para na eventualidade


de o tribunal precisar de o localizar poder fazê-los sem muitas dificuldade. No geral, sendo
aplicado ao arguido qualquer outra medida de coacção e de garantia patrimonial ficará adstrito
a cumpri-la e a não oferecer dificuldades.

Garantia Constitucional da Presunção de Inocência

Na qualidade de um sujeito processual, o arguido goza de certas prerrogativas que fazem


parte do seu estatuto processual tal como ficou referenciado nas páginas antecedentes e goza
fundamentalmente de uma prerrogativa digna de ser assinalada e que constitui um imperativo
constitucional que é a Presunção da Inocência, plasmada no artigo 42.º, n.º 2.

Dispõe o n.º 2, do artigo 42.º, da CRGB que “todo o arguido se presume inocente até ao
trânsito em julgado da sentença de condenação, devendo ser julgado no mais curto prazo
compatível com as garantias de defesa” e nesta mesma senda pronunciaram os artigos 6.º da
Convenção Europeia dos Direitos do Homem e o artigo 14.º do Pacto Internacional sobre
Direitos Civis e Políticos quando referem que «qualquer pessoa acusada de uma infracção
presume-se inocente enquanto a sua culpabilidade não tiver sido legalmente provada» ( 39).

Vaticina o Professor Germano Marques da Silva que «a Presunção de Inocência não é


uma verdadeira presunção em sentido jurídico e explica que o Princípio de Presunção de
Inocência é antes de mais uma regra «política» que revela o valor da pessoa humana na
organização da sociedade e que recebeu consagração constitucional como direito subjetivo
público, direito que assume relevância prática no processo penal num duplo plano: no
tratamento do arguido no decurso do processo e como princípio de prova» (40).

(39) Cfr. Germano Marques da Silva, op., cit., p. 218.


(40) Cfr. Idem., p. 219.

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Do Defensor

O Defensor é, em boa verdade e em termos mais objectivo possível, o Advogado do


Arguido. Se quiser, é quem representa judicialmente o arguido e é, igualmente, o profissional
encarregado de preparar a defesa técnica do arguido.

Artigo 42.º, n.º 3, da Constituição da República da Guiné-Bissau dispõe que “o arguido


tem direito a escolher defensor e a ser por ele assistido em todos os actos do processo,
especificando a lei os casos e as fases em que essa assistência é obrigatória”.

No seguimento desta demanda constitucional, o Código de Processo Penal postulou, no


n.º 1 do seu artigo 72.º, que “o suspeito/arguido tem direito a constituir defensor ou a que lhe
seja nomeado, oficiosamente ou a requerimento, em qualquer altura do processo”.

Nos processos mediatizados onde participam arguidos com posse financeira, tem-se
constatado a constituição do colectivo de advogados – o que inculca a ideia de que o arguido
constitui mais do que um defensor, e a questão curiosa prende-se com o querer saber se durante
a defesa a todos os defensores constituídos é permitido realizar a defesa em simultâneo face
cada acto processual?

À esta pergunta responde o Professor Germano Marques da Silva, reconhecendo que o


arguido pode constituir mais do que um defensor, dizendo ainda não ser líquido que em cada
acto processual possa ser assistido simultaneamente por mais de um e rematando afirmando
que o arguido não pode ser assistido por mais de um defensor, agarrando num sustentáculo legal
que tem que ver com o facto de o legislador referir na letra da lei o defensor em singular – o
que pode não ser significativo, reconheceu, mas acreditou que se o legislador quisesse, de facto,
que os defensores interviessem em simultâneo em cada acto processual trataria de frisá-los em
plural e trataria inclusive de regulamentar a intervenção de cada um no mesmo acto (41).

Aqui chegados, e seguindo de perto a reflexão deste insigne penalista, a conclusão parece
apontar-se para a obviedade de que o colectivo face a cada acto processual terá que funcionar

(41) Idem., pp. 221-222.

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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense

não em simultâneo, mas sim no regime similar ao de porta-voz. Com isso, não me parece ser
razoável vedar-lhes o presenciar do acto, mas o palavrear e toda actuação reservar-se-á ao porta-
voz – o que terá de ser compreendido, visto ser respeitador de igualdade de armas.

Falamos em cima da defesa e importa aqui clarificar que a actividade da defesa é a


actuação processual que tem por fim favorecer o arguido, daí também falar da necessidade de
tornar obrigatório, em alguns casos, a defesa. Nesse particular, o Professor Germano Marques
da Silva vaticinou que «a obrigatoriedade de defensor em certos actos do processo penal tem
sobretudo uma função de garantia, de controlo da legalidade dos actos e de assistência técnica
ao arguido para que este possa estar bem informado das consequências jurídicas dos seus
actos. É do interesse da justiça que o arguido possa desenvolver a mais ampla defesa, pois que
o que se busca no processo é acima de tudo a realização da justiça» (42).

Há algumas nuances da defesa que devem ser explicadas para se ter uma visão holística
do termo defesa, podendo distinguir entre: a defesa formal e material e entre a defesa pessoal e
técnica. Assim:

(i) – A Defesa Formal – é a defesa a cargo do próprio arguido ou seu defensor;

(ii) – A Defesa Material – abrange a actividade do próprio tribunal enquanto dirigida à


realização da justiça, mediante a comprovação da inocência do arguido ou a aplicação das
regras jurídicas relativas à exigência de uma prova qualificada para condenação e dos elementos
privilegiados de defesa no processo penal;

(iii) – A Defesa Pessoal – é, como o próprio nome indica, a defesa exercida pessoalmente
pelo arguido (acontece, p. ex., nos seus interrogatórios em várias fases processuais, o poder de
apresentar exposições, memoriais, RAI e requerimento ao recurso); e,

(iv) – A Defesa Técnica – é a defesa exercida através ou com a assistência do defensor


(acontece, p. ex., com o poder de formular conclusões antes do encerramento do debate

(42) Ibidem.

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instrutório, formulações de exposição introdutória no início da audiência, alegações orais na


audiência de julgamento e nas de recurso (43).

Importa distinguir também, dentro da actuação do defensor, dentre os chamados Actos de


Assistência e Actos de Representação, em que a distinção não é muito clara (44), mas passa-se
necessariamente por considerar que:

(i) – Actos de Assistência – são actos que o arguido tem de praticar pessoalmente e
relativamente aos quais o defensor apenas o auxilia, o assiste portanto. É o que resulta, entre
linhas, do n.º 1, do artigo 73.º do Código do Processo Penal; e,

(ii) – Actos de Representação – são aqueles actos que por lei são reservados ao defensor,
por uma parte, e aqueles outros em que o acto pode ser praticado pelo arguido ou pelo defensor,
em sua substituição, por outra parte. Nos actos de representação, o defensor substitui-se ao
arguido, manifestando uma vontade que àquele pertence e, por isso, que o arguido lhes possa
retirar eficácia. E é o que resulta do n.º 2 do artigo 73.º do Código do Processo Penal.

Estatuto do Defensor

O Defensor é, parafraseando o Professor Germano Marques da Silva, “um órgão de


administração da justiça, independentemente da sua qualidade de advogado constituído ou
defensor nomeado. Cabe-lhe colaborar com o tribunal na descoberta da verdade, mas actuando
exclusivamente em favor do arguido, pelo que apenas lhe cabe o encargo de promover o
esclarecimento da verdade – relativamente a factos e aspectos jurídicos comprobatórios ou
indicativos da inocência ou menor responsabilidade do arguido” (45). Enquanto órgão de
administração da justiça, o defensor é também garante da legalidade do procedimento.

(43) Idem., p. 223.


(44) Idem., p. 224.
(45) Idem., pp. 224-225.

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Obrigatoriedade de Assistência do Defensor

A Constituição da República da Guiné-Bissau, no seu artigo 42.º, n.º 3, atribui a


prerrogativa ao arguido de escolher o seu defensor que o assistirá em todos os actos do processo,
tendo lançado uma remissão para o Código de Processo Penal no sentido de este realizar a
especificação dos casos em que a assistência do defensor é obrigatória.

Nesta senda, dispõe o artigo 74.º do CPP, sob epígrafe “Assistência Obrigatória” que é
obrigatória a assistência por defensor:

alínea a) – No Primeiro Interrogatório de Suspeito/Arguido Detido ou Preso – a presença


do defensor constitui uma garantia de assistência ao arguido e de controlo da legalidade. Se o
arguido for detido, a presença do defensor visa a verificação da legalidade de detenção e da
existência dos pressupostos para aplicação de uma medida de coação e é fundamentalmente um
meio de defesa pessoal do arguido.

O defensor pode confidenciar com o arguido antes do início do interrogatório para


aconselhá-lo na organização da defesa, mas permanecerá sem interferências iniciado o
interrogatório, salvo se ocorrer a necessidade de arguir a nulidades.

alínea b) – A partir da Acusação até ao Trânsito em Julgado da Decisão, nomeadamente


para Interpor o Recurso – trata-se de uma alínea que fez aglutinações abrangentes, que importa
densificarmos, explicando que quererá dizer que a presença no defensor é impreterível após a
acusação: no debate instrutório (na fase de instrução), na audiência de julgamento (na fase de
julgamento) e na audiência de recurso (na fase de recurso, se se considerar ser uma verdadeira
fase do processo penal).

alínea c) – Para a Apresentação de Reclamações – sobre isto não há muito que saber, uma
vez que cabe ao defensor apresentar reclamações que achar necessário e favoráveis ao arguido
– o que faz utilizando as suas competências técnicas e respeitando os formatos que as referidas
reclamações devem revestir.

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alínea d) – Nos Demais Casos Previstos na Lei – trata-se de outras situações não
constantes nas alíneas precedentes, mas que requerem, sob pena de nulidade insanável, a
participação do defensor para conferir validade ao acto a praticar.

Pensa-se ser os casos de:

--Tomada de Declaração para a Memória Futura – vide. a conjugação dos artigos: 194.º,
alínea b), 198.º, 219.º e 242.º, n.º 2, alínea a), ambos do Código do Processo Penal; e,

--Situações em que a Defesa Pessoal do Arguido é Considerada Diminuída e Carecente


de Assistência Técnica do Defensor – são elas, as situações em que estamos na presença de um
arguido que é: (i) Surdo; (ii) Mudo; (iii) Analfabeto; (iv) Desconhecedor da Língua Portuguesa;
(v) Menor de 21 anos; (vi) ou se se suscitar a questão da inimputabilidade ou da sua
imputabilidade diminuída.

Assistência a Vários Suspeitos/Arguidos

A lei prescreve que “sendo vários os arguidos no mesmo processo, cada um pode ter um
defensor ou terem defensor comum, se isso não contrariar a função da defesa”, no artigo 75.º,
n.º 1, do Código do Processo Penal.

O termo “contrariar a função da defesa” deve ser interpretada de modo a abranger as


situações em que torna inconciliáveis as posições defensivas de cada arguido, aquelas em que
a defesa do defensor a um prejudique a defesa de outros ou naquelas em que se verifique mero
conflito de interesses.

Finalmente, havendo necessidade objectiva avaliada pelo tribunal, baseada na


incompatibilidade, é permitida a substituição do defensor por iniciativa do suspeito ou do
próprio defensor, nos termos fixados no artigo 72.º, n.º 3, do CPP.

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Deveres do Defensor

O n.º 1, do artigo 76.º, do CPP versa sobre deveres do defensor, que não são muitos, e
diz-nos que ele tem o dever de cumprir as normas reguladoras de deveres de defensor em
concomitância com a observação das normas constantes do Estatuto da Ordem dos Advogados
e que, no final, e no geral, o defensor deverá actuar sempre com respeito devido ao tribunal, nas
alegações e requerimentos que efectue.

Ora, o mesmo artigo, no seu n.º 2 tratou de plasmar as consequências para os defensores
que violarem as prescrições feitas por n.º 1, que podem desembocar em: (i) Advertência; (ii)
Retirada de Palavra; e, (iii) Substituição do Infractor pelo Tribunal – que pode sedimentar-se
com a utilização conjunta da norma do n.º 3, do artigo 72.º do Código de Processo Penal, que
exige para o efeito a invocação dos motivos justificativos.

Garantia de Liberdade do Defensor

As normas protectivas do exercício da advocacia têm servido neste âmbito de garantias


do defensor no exercício do patrocínio, mas em boa verdade as garantias do defensor não
deverão cingir apenas a essas, sendo possível arrolar outras legais e, inclusive, doutrinárias,
nomeadamente: (i) a proibição de intercepção e gravações de conversações entre o arguido e o
seu defensor, fixado no artigo 144.º, n.º 3, do CPP; (ii) a proibição de apreensão e qualquer
outra forma de controlo da correspondência entre o arguido e o seu defensor; (iii) a outorga da
faculdade de o defensor escusar-se de prestar depoimento sobre os factos abrangidos pelo
segredo profissional, nos termos prescritos no Estatuto da Ordem dos Advogados; e, (iv) as
prerrogativas, sensibilidades e a duplicação das formalidades inerentes às buscas e apreensões
quando tiverem que ser realizadas no escritório de advogado.

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Do Assistente

O Código de Processo Penal não dá uma definição do assistente, apenas indicou a sua
posição processual e atribuições.

Há que se socorrer da doutrina e, dentre as definições por ela oferecida, ter por
prevalecente a definição do Professor Germano Marques da Silva, segundo a qual o Assistente
é «o sujeito processual que intervém no processo como colaborador do Ministério Público na
promoção da justa aplicação da lei ao caso e legitimado em virtude da sua qualidade de
ofendido ou de especiais relações com o ofendido pelo crime ou da natureza deste» (46).

Processualmente impõe-se fazer a distinção entre as figuras do Assistente, Ofendido e


Lesado, em termos genéricos, se bem que, em termos precisos, o que se procura na verdade é
distinguir o assistente do ofendido e do lesado, uma vez que o assistente está umbilicalmente
ligado com o ofendido e não está com o lesado, se não vejamos:

O Ofendido “não é sujeito processual, salvo se se constituir como assistente. O Ofendido


enquanto titular dos interesses que a lei incriminadora especialmente quis proteger com a
incriminação (vide. artigo 66.º, alínea a) do CPP), sendo maior de 14 anos, pode constituir-se
assistente, mas enquanto não se constituir não é sujeito processual, mas simplesmente
participante processual e como tal não é titular de direitos de intervenção no processo” (47).

Quanto a nós, e utilizando uma linguagem mais básica, o Ofendido é a vítima principal
do crime, detentor de verdadeiro interesse protegido pela incriminação da lei substantiva e
detentor da faculdade cimeira de constituir-se assistente no processo.

O Lesado “nunca pode, enquanto tal, constituir-se assistente, mas apenas parte civil para
efeitos de deduzir pedido de indemnização civil. O Lesado, sendo aquele que sofreu danos com
o crime, pode coincidir e coincide muitas vezes com o ofendido e, por isso, pode também
constituir-se assistente, mas não pelo facto de ser lesado mas por ser ofendido. Em razão da sua

(46) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, vol. I, pp. 242-243.
(47) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, vol. I, p. 243.

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qualidade de lesado pode apenas intervir no processo como parte civil, no pedido de
indemnização civil” (48).

Quanto a nós, e utilizando uma linguagem mais básica, o Lesado é quem sofre directa ou
indirectamente o prejuízo resultante do crime, detentor de interesses directos e reflexos
protegidos pela norma substantiva incriminadora e detentor de dupla faculdade de, enquanto
ofendido, constituir-se assistente e, enquanto mero lesado, ser considerado parte civil.

Findas as construções definitórias e distintivas, ater-nos-emos ao tracejado do


importantíssimo papel processual do assistente e a sua colocação face ao Ministério Público.

O artigo 68.º do CPP, sob epígrafe “poderes do assistente” estipula que a intervenção
processual do assistente é subordinada e auxiliar da do Ministério Público, efetuando algumas
excepções legais.

As excepções legais são numerosas e revestem diversas naturezas, condicionando em


alguns casos a própria acção do MP e noutros casos fiscalizando as suas acções.

Neste particular, contamos com o amplo ensinamento do Professor Germano Marques da


Silva, ao qual tomamos a liberdade de transcrever ao máximo para se ter uma visão quase cabal
da matéria. Vejamos:

“Nos Crimes Particulares, a actividade instrutória do Ministério Público é desde logo


condicionada pela própria constituição de assistente, sem a qual o processo não pode
prosseguir para além da queixa e a prossecução do processo para além do inquérito depende da
acusação por formulada; sem a acusação do assistente o processo não pode prosseguir e a
acusação do MP, tendo lugar, será necessariamente subordinada à acusação particular”.

“Nos Crimes Públicos e Semipúblicos, se o assistente discordar da posição assumida pelo


MP, findo o inquérito pode autonomamente requerer a abertura da instrução, deduzindo desse
modo uma acusação substancialmente diversa da do MP ou contrária à sua decisão de
arquivamento; trata-se essencialmente de uma função de controlo da actividade do MP. A
actividade do MP é, porém, dominante relativamente à do assistente e em certos casos pode

(48) Ibidem.

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condicionar o destino do processo sem que o assistente nada possa fazer; é o que se passa, v.
g., com o arquivamento em caso de dispensa ou isenção da pena (…), com a limitação da
competência do tribunal (…), e com o requerimento para aplicação da pena em processo
sumaríssimo (…)” (49).

“O Assistente pode também recorrer, ainda que o MP o não faça, e sustentando posições
diversas.

O Assistente pode actuar com autonomia relativamente ao MP, como sucede no debate
instrutório e nas audiências, a sua intervenção é acessória. O Assistente não exerce
autonomamente a acção penal e antes auxilia o MP. Mesmo quando a actuação do assistente
condiciona o exercício da acção penal pelo MP, não lhe cabe nunca, para além do direito de
acusar, os poderes ou funções do MP, nomeadamente os de investigação para fundamentar a
acusação”.

A Constituição de Assistente

O artigo 66.º do Código de Processo Penal enumera as pessoas que têm legitimidade para
se constituírem assistentes no processo:

(49) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, vol. I, pp. 239 e ss. Na página 241 o autor
falou ainda da rotatividade da posição de colaborador entre o Assistente e o Ministério Público, postulando que:
Relativamente aos crimes públicos e semipúblicos a posição do assistente é claramente a de colaborador do
MP, já que os poderes processuais de que dispõe se traduzem em formas de auxílio direto ao MP, no inquérito, na
submissão ao tribunal de uma outra perspectiva fáctica ou jurídica do objecto do processo e participação na
discussão, no debate instrutório, no julgamento e nos recursos, o que tudo significa ainda uma colaboração indireta
com o MP na busca da solução justa para o caso.
Nos crimes particulares a posição de colaborador do MP não é tão clara, mas não deixa de o ser ainda,
porquanto, se é certo que, em razão da natureza dos crimes particulares, o assistente pode condicionar o
procedimento, limitando o objecto do processo, perdoando ao arguido os crimes pelos quais não deduz acusação,
e podendo submeter sempre a sua versão à apreciação do tribunal – o que, aliás, sucede também nos demais crimes
–, o MP deve submeter também à apreciação do tribunal a sua apreciação fáctico-jurídica, acompanhando ou não
o assistente, e não sofrendo qualquer limitação nos seus poderes de intervenção processual, sempre e só inspirado
pela justa realização do direito no caso.

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alínea a) – Os ofendidos, considerando-se como tais os titulares dos interesses que a lei
especialmente quis proteger com a incriminação, desde que maiores de 14 anos à data da
constituição; Sobre isto não nada a acrescentar!

alínea b) – Aqueles de cuja queixa depender – acrescenta-se –, ou acusação particular


depender o exercício da acção penal.

Está-se a referir ao Queixoso e aos titulares de direito da queixa e é uma norma que devia
ser direcionado ao crime de natureza particular e não ao semipúblico propriamente dito.

Sabe-se já que os titulares do direito de queixa e de acusação particular são, em primeiro


lugar, os ofendidos, mas se o ofendido morrer ou for incapaz sem ter renunciado à queixa, o
direito de queixa e de acusação particular pertence aos seus parentes ou representante legal, nos
termos prescritos no artigo 180.º, n.º 1, alínea b) e c), do CPP.

É de enaltecer, por fim, que a figura do Queixoso não se deve confundir com a figura
processual do assistente. O Queixoso não é sujeito processual enquanto não seja constituído
assistente – o que quer dizer que ele também tem a prerrogativa de se constituir assistente se
assim entender e a lei dá-lhe bastante tempo para requerer a sua constituição, podendo
atravessar toda a maratona processual que vai desde o início do procedimento criminal até faltar
apenas 7 dias para a audiência de julgamento, conforme atesta o n.º 1 do artigo 67.º do CPP.

Segundo o Professor Germano Marques da Silva “a sua intervenção processual é muito


restrita, embora de grande importância para a promoção e prossecução do processo, e os seus
direitos limitam-se à formulação da queixa, à desistência dela e ao direito de se constituir
assistente” (50). e,

alínea c) – Qualquer pessoa, nos crimes de corrupção, peculato ou abuso de funções de


autoridade pública. São casos de Acção Penal Popular em que é dada a qualquer pessoa a
possibilidade de se poder constituir assistente – o que se justifica pelo desejo de obter a
colaboração de todos na detecção e processamento de tais crimes.

(50) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, vol. I, p. 244.

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Em suma, a Constituição do Assistente, opera-se por despacho ou de MP (se requerido


durante a fase do inquérito) ou do juiz (se requerido na fase de julgamento), sobre requerimento
do interessado, depois de o arguido e o MP se pronunciarem – é a solução legal conferida pela
norma do n.º 2 do artigo 67.º do CPP.

Já se no mesmo requerimento em que é deduzida a acusação (tratando-se dos processos


nascidos de fora do MP – queixas crimes balizados e apresentados directamente pelos
advogados, o que geralmente acontecem nos crimes particulares em que a constituição do
assistente é requerida na própria queixa-crime –, e do RAI) se solicitar a constituição de
assistente, competirá ao juiz de instrução apreciá-la, nos termos do n.º 3 do artigo 67.º do CPP.

Representação Judiciária do Assistente ou Assistentes

O Assistente não intervém pessoalmente no processo, contrariamente ao arguido, pois a


lei é categórico em afirmar que “o assistente é sempre representado pelo advogado”, nos termos
do n.º 1 do artigo 69.º do Código de Processo Penal.

Explica o Professor Germano Marques da Silva que “a necessária representação judiciária


dos assistentes permite obstar a muitos dos reconhecidos inconvenientes da sua intervenção
como sujeito processual, além de assegurar a colaboração técnica no processo” (51).

Por seu turno, o n.º 2 do artigo 69.º é bastante esclarecedor ao prescrever que se
porventura existir vários assistentes num processo as suas representações vão se fazer por um
único advogado, sendo claro que se divergirem quanto a escolha do advogado a representar-
lhes, essa mesma escolha passará a competir ou ao MP ou ao Juiz.

Esta regra só não procede se eventualmente existir dentre os vários assistentes interesses
incompatíveis ou então serem diferentes os crimes imputados ao arguido. Aqui cada grupo de
assistentes pode escolher um advogado por cada um dos crimes, só não pode é cada grupo de
assistentes ser representado por mais de um advogado.

(51) Idem., p. 248.

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Os Poderes do Assistente

Os poderes processuais do assistente estão consagrados no artigo 68.º do Código do


Processo Penal. São mais ou menos idênticos com os poderes que cabem ao Ministério Público,
apesar de serem mais limitados, como, por exemplo, na fase do inquérito e para actos
determinados que a lei reserva ao MP, podendo a par deste último acusar, intervir nos actos
processuais, requerer diligências e diversos outros requerimentos.

No geral, o assistente colabora com o MP e presta a sua actividade subordinadamente às


prestadas pelo MP excetuando algumas consagrações legais.

É sintomático desta realidade o preceituado no n.º 1 do referido artigo 68.º do CPP, pois,
duma forma vincada, estabeleceu que “a intervenção processual do assistente é subordinada e
auxiliar da do Ministério Público”.

Mas, ao mesmo tempo, o n.º 2 do mesmo artigo abriu um leque de excepções, que é, no
fundo, atribuições de competências fundamentais para contrabalançar, na lógica de
complementariedade com vista à realização plena da justiça, o poderio que o Ministério Público
arvora no Processo Penal. Assim, ficou plasmado nas suas alíneas que o assistente pode:

alínea a) – Oferecer provas e requerer diligências pertinentes a descoberta da verdade –


o que deve ser interpretado como uma prerrogativa que ele tem de intervir no inquérito e na
instrução. No inquérito ele intervém oferecendo provas e requerendo diligências necessárias,
actividades subordinadas à actuação do MP e até de colaboração com ele. Na instrução também
ele intervém oferecendo provas e requerendo diligências necessárias que, não sendo actividade
subordinada, não vincula na mesma o juiz.

Esta última passagem pode gerar dúvidas, mas não deverá porque já sabemos que o juiz
investiga autonomamente, praticando os actos de instrução que achar convenientes e que se
repute essenciais para a descoberta da verdade, nos termos do n.º 4 do artigo 208.º do CPP,

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indeferindo, por despacho, os actos requeridos que não interessam à instrução ou servirem
apenas para protelar o andamento do processo (52).

O Assistente pode ainda participar no debate instrutório (artigo 208.º, n.º 2, do CPP).

alínea b) – Deduzir, no fim da investigação, acusação independente da do Ministério


Público – esta é, de facto, um importantíssimo poder do assistente e é, ao mesmo tempo, aquele
dentre os seus poderes que gera maior confusão na prática processual guineense (53), pelo que
a fixação do seu melhor entendimento deve ser cronologicamente pensado, destacando o antigo
entendimento fixado pelo CPP de 1993 e que vincou até 2011, data da revisão intercalar do
CPP e destacando o actual entendimento fixado com a revisão intercalar do CPP ocorrido em
2011, e que, de resto, foi encorajado pela boa doutrina portuguesa e a sua própria jurisprudência,
visto ter já algumas decisões naquele sentido.

● Antigo Entendimento Fixado pelo Artigo 68.º, n.º 2, alínea b), do CPP de 1993
Antes da Revisão Intercalar de 2011.

Dispunha a referida norma, sob epígrafe “Poderes do Assistente”, o seguinte:

«Deduzir acusação definitiva independente e por factos diversos da posição assumida


pelo MP, no fim da investigação».

Dispunha a sua norma de conjugação no mesmo Código, artigo 212.º, sob epígrafe
“Acusação do Assistente”, o seguinte:

«Se o MP tiver despachado no sentido da abstenção, o assistente poderá acusar


definitivamente pelos factos que julgue suficientemente indiciados, nos cinco dias imediatos
à notificação referido no artigo anterior».

(52) Idem., p. 249.


(53) No mesmo sentido relatou o Professor Germano Marques da Silva sobre as contendas encerradas em
Portugal, demonstrando que “no domínio da lei anterior, o Dec.-Lei n.º 35 007, de 13 de Outubro de 1945, dispunha
que também competia ao assistente «formular a acusação independente da do Ministério Público». Esta norma foi
objecto de larga querela na doutrina, confrontando-se duas posições: uma que defendia que o assistente só poderia
acusar se o MP também acusasse e outra que entendia que o assistente poderia deduzir acusação mesmo se o MP
se abstivesse de acusar”. Vide. Idem., p. 250.

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Compulsadas as decorrências legais de então, e as paralelas doutrinas na senda das


outorgas da lei, ficou gravado na mente das pessoas – e deve-se entender –, e ficou como
posição dominante a leitura fidedigna da lei que apontava para a possibilidade de o assistente
ostentar claramente o poder de deduzir acusação independente da do ministério público e pelos
factos diversos da posição assumida pelo MP, sempre que terminado o inquérito o MP
despachasse no sentido de abstenção – que deve se considerar pender para o arquivamento –,
sendo de concluir que não acusando o MP após o inquérito, poderá o assistente substituir o
papel funcional do MP e produzir acusação, sem mais, e com isso garantir a procedibilidade do
processo.

Na verdade este entendimento não era no então despiciendo e era utilizado como um
trunfo pelos advogados do assistente, despreocupando-os do papel inerte do MP e dando-os a
garantia de produzirem eles mesmo a acusação caso o MP não o faça. Só que o regime mudou,
e muito advogados não se descolaram da prática pretérita e hodiernamente ainda pretendem
lançar mão deste que era um importante poder do assistente no passado, e que já não é mais.

As páginas tantas debateu-se e descobriu-se que o entendimento sufragado supra, e


felizmente conformada pelo Código de Processo Penal de 1993 não revisto (Decreto-Lei n.º
5/93, de 13 de Outubro, publicado no suplemento ao B.O., n.º 41, de 13 de outubro de 1993), é
sem dúvida um entendimento e, na verdade uma prática, que atenta, fustiga e belisca vários
princípios orientadores do processo penal de estrutura acusatória, que nem é o nosso,
nomeadamente:

(i) a própria titularidade da acção penal;

(ii) a estrutura acusatória;

(iii) o princípio de acusação; e,

(iv) o princípio da vinculação temática.

Ora, a tal descoberta incitou uma actitude prospectiva que à boleia, da pretendida
jurisdiciarização da instrução ou da introdução do juiz de instrução no processo penal guineense
com competências específicas que tangem alguns actos do inquérito, igualmente reviu os

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superpoderes do assistente e conformou-os com a estrutura acusatória do processo penal (54)


caracterizada, dentre outras, pela separação de poder – e foi assim que, apercebendo-se de todos
estes dilemas prático-processuais, se deu à estampa a Revisão Intercalar do Código do Processo
Penal guineense em 2011, operada pela Lei n.º 15/2011, de 12 de Outubro.

● Actual Entendimento Fixado pelo Artigo 68.º, n.º 2, alínea b), do CPP de 1993,
Depois da Revisão Intercalar de 2011, revisto Lei n.º 15/2011, de 12 de Outubro.

Dispõe a referida norma, sob epígrafe “Poderes do Assistente”, o seguinte:

«Deduzir, no fim da investigação, acusação independente da do Ministério Público».

Uma nota intercalar se impõe neste sentido para explicar que se se atentar apenas a letra
da lei – e sem mais –, a conclusão mais natural que se poderia ter tirado é a de que não houve
em termos significativos o rompimento com o regime passado, tendo em conta que o assistente
ainda continuou a poder acusar independentemente da acusação do MP (mas atenção, desde já,
que não poderá ser este o entendimento fiel, sob pena de a revisão intercalar não mudar nada
de significativo nesta matéria). Assim:

Dispõe a sua norma de conjugação no mesmo Código, artigo 204.º-A, sob epígrafe
“Acusação pelo Assistente”, concretamente o seu n.º 1, o seguinte:

(54) Vide., nesta linha de pensamento o Insigne Penalista guineense, Mestre Julião Vieira Insumbo, que de
uma forma vincada, e num dos seus escritos, explicou que:
«(…) Assim, deve ser aqui referido que, no que toca ao sujeito processual assistente, o CPP, nomeadamente
no artigo 212.º, n.º 1, atribuiu-lhe poderes excessivos com o agravante de poder legitimar práticas judiciárias
corporizadas na discricionariedade do assistente, ao poder acusar pelos factos que só ele julgue suficientemente
indiciados. Ou seja, mostra-se, por essa forma, que a lei confere ao assistente a possibilidade de formular um juízo
de suficiência ou insuficiência de indícios.
No fundo, atribuições que apenas podem ser exercidas pelas autoridades judiciárias, já que, a não ser assim,
isso pressuporia, naturalmente, a justificação material para questionar a constitucionalidade do referido preceito
quando assim interpretada face a exigência constitucional da estrutura acusatória do processo penal.
Uma tal exigência normativa, determinou a revogação do artigo 212.º e consequentes alterações, a nível de
formulação normativa, dos artigos 67.º, n.º 3 e 68.º, n.º 2, al. b), e aditamento do artigo 204.º- A.». Conferir com
mais detalhes, Julião Vieira Insumbo – Revisão Intercalar do Código de Processo Penal da Guiné-Bissau, In:
Jornadas de Reflexão Sobre a Justiça Criminal, 2.° Fórum de Justiça decorrido, em Bissau, nos dias 27 e 29 de
Novembro de 2012.

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«Nos oito dias imediatos à notificação da acusação do MP prevista no artigo 205.º, o


assistente pode deduzir acusação pelos factos acusados pelo Ministério Público, por parte
deles ou por outros, desde que não representem a imputação ao suspeito de um crime diverso
ou a agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis ou acompanhar a acusação do
Ministério Público».

Uma nota intercalar igualmente se impõe neste sentido para explicar que esta norma
bloqueia, por assim dizer, todas as supostas acusações independentes do assistente e mesmo
quando abriu uma brecha prevendo a acusação por outros factos, voltou a obrigar que estes
novos factos não causassem alteração substancial dos factos, proibindo desde logo que sejam
factos diversos que levam a imputação de um crime diverso e proibindo que sejam agravados
os limites máximos de sanções.

Mais: a tal norma só quis verdadeiramente conferir poderes ao assistente havendo


acusação do MP e não quis conferir quando houver arquivamento do MP, pois, caso quisesse,
a norma do n.º 1 do artigo 204.º-A teria impreterivelmente incluído a palavra “arquivamento”
na sua redação, em que passaria a ser, por exemplo: «Nos oito dias imediatos à notificação da
acusação ou do arquivamento do Ministério Público (…)».

Não sendo efectivamente esta a letra da lei, dúvidas não restam que o «Deduzir, no fim
da investigação, acusação independente da do Ministério Público» constante da alínea b) do
n.º 2, do artigo 68.º do CPP, só pode ser interpretado conjuntamente com, a norma restritiva da
tal independência, o n.º 1 do artigo 204.º-A, no qual o poder de assistente ficará circunscrito a:

(i) dedução de acusação pelos factos acusados pelo Ministério Público;

(ii) dedução de acusação pela uma parte dos factos acusados pelo MP;

(iii) dedução de acusação por outros factos não constantes da acusação do MP, desde que
não implicarem a imputação de um crime diverso ou agravação dos limites máximos da pena.
Se implicarem, quebra a pequena independência e o assistente deixará de poder acusar por esses
factos; e,

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(iv) por e simplesmente prestar um papel inactivo de apenas acompanhar a acusação do


Ministério Público, concordando com tudo o que lá estiver e não podendo, nesse campo, fazer
nada de diferente.

Dispõe ainda, outra sua norma de conjugação no mesmo Código, artigo 205.º, sob
epígrafe “Notificação”, que aliás já tinha sido apontado como norma de remissão nos termos
do já referido n.º 1 do artigo 204.º-A, o seguinte:

«O despacho de arquivamento ou de acusação provisória é notificado ao suspeito, ao


assistente e ao lesado ainda não constituído assistente mas com legitimidade para se
constituir, sob a cominação de que se não requererem a impugnação contraditória no prazo
de oito dias o despacho se torna definitivo».

Outra nota intercalar, finalmente, se impõe neste campo, para dizer que quando a norma
referiu “requererem a impugnação contraditória” está exactamente a querer dizer o RAI
(Requerimento para a Abertura de Instrução) e que se atento ficarmos, repararemos que já nesta
norma de conjugação se falou do “Despacho de Arquivamento” e do “Despacho de Acusação”
e perante os dois conferiu sim um verdadeiro poder – e fica já como a única reação possível –,
ao assistente para, perante um despacho de arquivamento, poder reagir contra a morte do
processo, mas não pela via da acusação independente, porque por essa via estará vedado, mas
sim pela via de requerimento para abertura de instrução na qual vai ter que, à luz do artigo 207.º
do CPP indicar as razões de facto e de direito que fundamentam a oposição ao arquivamento,
que é no fundo, e mutatis mutandis, o proferimento de uma acusação, em cumprimento das
finalidades da instrução constante do n.º 1, do artigo 206.º do CPP.

Aqui chegados, e já que recenseamos e bem as normas que levam a construção de um


bom posicionamento, deve-se, amparando na doutrina maioritária, firmar o nosso entendimento
daqui em diante.

Assim, e antes de tecermos as posições convergentes com a nossa, prognosticamos que a


revisão intercalar rompeu com o superpoder do assistente que consistia em acusar de forma
independente e por factos diversos dos constantes na conclusão do MP, e que, agora, o
assistente, não concordando com acusação só pode é moldá-la não imputando crime diverso

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nem agravando os limites da pena, contudo nada parece impedir alterar a qualificação jurídica
desde que não leva a alteração substancial dos factos; ou, não concordando com o
arquivamento, só poderá produzir um RAI para salvar o processo e as suas pretensões, posto
que no tal requerimento vai poder acusar da forma pretendida.

Com efeito, este poder do assistente de acusar de forma independente da do MP, deve ser
melhor entendida separando as naturezas dos crimes.

Pois, se estivermos a falar de um crime de natureza particular (que infelizmente não temos
formalmente na Guiné), que, relembrando, requer (no sentido de depender) a queixa e a
acusação particular:

Ensina-nos o Professor Germano Marques da Silva que: «findo o inquérito o MP notifica


o assistente para deduzir acusação particular. Só se o assistente acusar o MP pode também
acusar, mas não tem o dever de fazê-lo. Se acusar, só pode fazê-lo pelos mesmos factos
constantes da acusação particular, por parte deles, ou por outros que não envolvam alteração
substancial daqueles factos constantes na acusação particular (55). Na mesma linha,

Ensina-nos a Professora Paula Marques Carvalho que: «nos crimes particulares o


assistente tem o direito de acusar, independentemente da posição que o MP venha a assumir no
processo. Se o assistente não deduzir acusação, o MP carece de legitimidade para continuar
com o processo, devendo arquivar o inquérito. Assim, nos crimes particulares é a acusação do
MP que se encontra subordinada à do assistente.» (56).

Já se estivermos a falar de natureza de crimes públicos e semipúblicos, a solução passa


necessariamente por aquela que já prognosticamos supra, e teremos aqui que emprestar vozes
a alguns doutrinadores que ajudaram a cercear esta altercação:

→ Germano Marques da Silva «(…) O art. 284.º do CPP-Pt dispõe que, até cinco
dias após a notificação da acusação do MP, o assistente pode também deduzir acusação pelos

(55) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, op. cit., p. 251.
(56) Cfr. Paula Marques Carvalho – Manual Prático de Processo Penal, 11.ª edição, Lisboa, Almedina, 2019,
p. 141.

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factos acusados pelo MP, por parte deles ou por outros que não importem uma alteração
substancial daqueles.

Assim, relativamente aos crimes públicos e semipúblicos, o assistente não pode acusar
se o MP o não tiver feito e, tendo o MP acusado, o assistente pode aderir à acusação já deduzida
– art. 284.º, n.º 2, al. a), ou acusar autonomamente pelos mesmos factos, por parte deles ou por
outros que não importem uma alteração substancial daqueles – art. 1.º, al. f).

Se o MP não acusar, nos crimes públicos e semipúblicos, o assistente também não o pode
fazer. Resta-lhe, se discordar da posição assumida pelo MP, requerer a abertura da
instrução. O mesmo sucede relativamente a factos pelos quais o MP não tiver deduzido
acusação e o assistente entender que o deveria ter feito, desde que a alteração importe uma
alteração substancial da deduzida pelo MP.

Assim, se o MP não deduzir acusação ou o assistente entenda que a acusação é


insuficiente e deveria ser substancialmente diversa, o assistente pode requerer a instrução – art.
287.º, n.º 1, al. b), que visa precisamente “a comprovação judicial da decisão de deduzir
acusação ou de arquivar o inquérito” total ou parcialmente (art. 286.º, n.º 1)» (57).

→ Paulo Pinto de Albuquerque «(…) Havendo indícios suficientes da prática de


crime público ou semipúblico e tendo o MP deduzido acusação, o assistente pode tomar uma
das três posições: a) aderir à totalidade dos factos acusados pelo MP; b) aderir a parte dos factos
acusados pelo MP; c) acusar por factos novos desde que não importem alteração substancial
dos factos da acusação pública.

A adesão do assistente no todo ou em parte aos factos acusados pelo MP não impede que
o assistente os qualifique de modo diverso.

A acusação do assistente por factos novos que alterem substancialmente a acusação


do MP deve ser rejeitada pelo juiz de julgamento (…).

(57) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, op. cit., p. 250.

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Tendo o MP arquivado o processo em que se indiciava a prática de crimes públicos e


semipúblicos, o assistente pode requerer a abertura de instrução, mas não pode deduzir
acusação por estes crimes. Tendo o MP arquivado o processo em que se indiciava a prática de
crimes públicos e semipúblicos e notificado o assistente para, querendo, deduzir acusação no
que respeita aos crimes particulares indiciados nos autos, o assistente pode simultaneamente
acusar pelos crimes particulares e requerer a abertura da instrução quanto aos crimes públicos
e semipúblicos.» (58).

→ Paula Marques Carvalho «(…) nos crimes públicos e semipúblicos, o assistente


só pode deduzir acusação se o MP o tiver feito previamente. A acusação do assistente, para
além de ser facultativa, quando deduzida, é sempre subordinada (e complementar) à do MP.

Se o MP não acusar, ao assistente é facultado o direito de requerer a abertura de instrução,


oferecendo provas e requerendo as diligências que se afigurem necessárias, bem como conhecer
os despachos que sobre tais iniciativas recaírem (cfr. os arts. 69.º, n.º 2, al. a) e 287.º, n.º 1, al.
b) do CPP-Pt).» (59).

→ Vinício Ribeiro «(…) continuando ainda na senda dos crimes públicos e


semipúblicos … Se o MP, em vez de acusar, exarar despacho de arquivamento, o assistente
não pode, por sua iniciativa, deduzir acusação (neste sentido, Frederico de Lacerda da Costa
Pinto, Direito Processual Penal, AAFDL, Lisboa, 1998, cit., págs. 143).

Neste caso, o assistente, se pretender evitar que o processo termine por força daquele
despacho, pode lançar mão de outros mecanismos de índole hierárquica (intervenção
hierárquica - artigo 278.º) ou de índole judicial (abertura da instrução - alínea b) do n.º 1 do

(58) Paulo Pinto de Albuquerque – Comentário do Código de Processo Penal à luz da Constituição da
República e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, 4.ª edição atualizada, Lisboa, Universidade Católica
Editora, 2011, pp. 772-773.
(59) Cfr. Paula Marques Carvalho – Manual Prático de Processo Penal, 11.ª edição, op., cit., p. 140.

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artigo 287.º). Eventualmente, poderá ainda, caso se verifiquem os respectivos pressupostos,


requerer a reabertura do inquérito (artigo 279.º)». (60). O Negrito é nosso.

alínea c) – Recorrer das decisões que o afectem – trata-se de um poder que reveste o
assistente da legitimidade de recorrer, contudo é, no trilho do Professor Germano Marques da
Silva, uma legitimidade mais limitada que a do MP; Este pode recorrer de quaisquer decisões,
ainda que no exclusivo interesse da defesa, enquanto o assistente só o pode fazer das decisões
contra ele proferidas, como sucede também com o arguido (61).

Já no trilho da Professora Paula Marques Carvalho, “compete também em especial aos


assistentes interpor recursos das decisões que os afectem (ou seja, das decisões contrárias às
pretensões sustentadas no processo), mesmo que o MP o não tenha feito. Para esse efeito, os
assistentes dispõem de acesso aos elementos processuais imprescindíveis, sem prejuízo do
regime aplicável ao segredo de justiça (cfr. o art. 69.º, n.º 2, al. c). Neste caso, é irrelevante a
natureza do crime em causa.)” (62).

alínea e) – Formular o pedido de indemnização por perdas e danos emergentes do crime


– trata-se de um poder que o CPP guineense confere ao assistente e que se encontra plasmado
no artigo 70.º. De referir que também é um poder respeitante aos denominados partes civis.

Finalmente, além destes poderes do assistente elencados no artigo 68.º, também tem
outros inerentes a sua participação na audiência de julgamento e a sua concordância para a
suspensão provisória do processo.

(60) Cfr. Vinício Ribeiro – Código de Processo Penal – Notas e Comentários, 2.ª edição, Coimbra, Coimbra
Editora, 2013, p. 775.
(61) Cfr. Germano Marques da Silva, op., cit., p. 251.
(62) Cfr. Paula Marques Carvalho, op., cit., p. 141.

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Da Parte Civil

As partes na acção civil são, pois, o lesado, que corresponde ao autor na acção
correspondente na acção declarativa de condenação em processo civil, e os demandados, que
correspondem aos réus na correspondente acção em processo civil, e os terceiros intervenientes,
que correspondem às várias figuras de terceiros previstas no artigo 320.º do CPC e que assumem
a posição de partes na acção civil conexa com a criminal, do mesmo modo que é permitido no
processo civil.

Vaticinou o Professor Jorge de Figueiredo Dias que: “as partes civis, se podem (e
porventura devem) ser consideradas sujeitos do processo penal num sentido eminentemente
formal, já de um ponto de vista material são sujeitos de acção civil que adere ao processo penal
e que como acção civil permanece até ao fim”.

Legitimidade para o Pedido de Indemnização Civil

O pedido de indemnização civil fundado na prática de um crime é deduzido pelo lesado,


entendendo-se como tal a pessoa que sofreu danos ocasionados pelo crime, ainda que se não
tenha constituído ou não possa constituir-se assistente.

O lesado para esses efeitos é toda e qualquer pessoa que, segundo as normas do direito
civil, tenha sido prejudicada em interesses seus juridicamente protegidos, ou seja, todos aqueles
que sofreram danos e que, segundo as regras de direito processual civil, tiverem a legitimidade
para formular o pedido indemnização.

Representação Judiciária das Partes Civis

O artigo 71.º, n.º 1, do CPP é claro em afirmar que: «sempre que o pedido de
indemnização for deduzido contra um responsável que não seja o agente do crime, deverá ser
representado pelo advogado». Ou seja, a representação é feita pelo advogado. O n.º 2 do mesmo
artigo delimitou os poderes do representante judiciária da parte civil, isto é, conferiu-lhe os
mesmos poderes do defensor do arguido.

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Bissau, 28 de maio de 2020, Quinta-Feira.

Do Objecto do Processo

Definições (63):

Para o Professor Eduardo Correia o Objecto do Processo é uma concreta e hipotética


violação jurídico-criminal acusada;

Para o Professor Manuel Cavaleiro de Ferreira o Objecto do Processo é o facto na sua


existência histórica, que importa averiguar no processo;

Para o Professor António Castanheira Neves o Objecto do Processo é o caso jurídico


concreto trazido pela acusação; e,

Para o Professor Jorge de Figueiredo Dias o Objecto de Processo é um recorte, um pedaço


da vida, um conjunto de factos em conexão natural;

Razão de Ser:

Objecto do processo. Questões fundamentais (excepção de litispendência, eficácia do


caso julgado e amplitude da actividade probatória) (64).

(63) Cfr. Mário Tenreiro – Considerações sobre o objecto do processo penal, pp. 1017 e ss e Paulo de Sousa
Mendes – Lições de Direito Processual Penal, 3.ª Edição / Reimpressão, Coimbra, Edições Almedina, S.A., 2015,
p. 145 e ss. Apud. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, 2.ª Edição – Reimpressão, Coimbra, Edições
Almedina, S.A., 2019, p. 194.
(64) O Objecto do Processo oferece uma blindagem ímpar contra a volatilidade e incertezas no concernente às
decisões jurídico-penais, ora porque evita o ne bis in idem, ora porque excepciona a litispendência permitindo o
julgamento de todas as vertentes de um crime plurifacetado praticado por um único agente, num ou em dois
processos diferentes e em único ou em vários momentos, ora porque confere eficácia ao caso julgado visto permitir
o julgamento completo de todos os factos integrantes a actuação criminosa, ora porque estende a actividade
probatória para lá do julgamento do processo em questão – o que justifica a reabertura do inquérito no processo
penal sempre que surdir novos elementos de prova propensos a gerar indícios fortes (vide. artigo 204.º-C do CPP).

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O Problema da Identidade do Objecto do Processo

Nota inicial e preponderante:

O problema da identidade do objecto do processo só se coloca num sistema do processo


penal que tenha a estrutura acusatória, como é sintomático o caso guineense e o português.

No caso guineense o tribunal só age no pressuposto de existência de uma prévia acusação


ou, eventualmente, dum RAI (Requerimento para a Abertura da Instrução).

Daí que, é a própria estrutura acusatória do processo que exige – furtando aqui a expressão
do Professor Paulo de Sousa Mendes –, a identidade entre o acusado, o conhecido e o decidido.

Tudo isto é assim por conta do cumprimento das garantias processuais a bem dos
interesses quer do arguido, quer do público:

O interesse do arguido é tutelado desde momento em que o objecto do processo se


mantém igual e inalterado desde a acusação até à sentença, pois ele não correrá o risco de
deparar com surpresas incriminatórias;

O interesse público é tutelado se o objecto do processo se mantiver estanque e imutável,


pois ver-se-á aplicado o direito penal, ver-se-á uma eficaz perseguição e ver-se-á,
consequentemente, uma efectiva e assertada condenação por delitos cometidos.

I - Princípios Relativos à Definição e Conhecimento do Objecto do Processo

1. Princípios da Identidade – é um princípio que manda que o objecto do processo se


mantém idêntico (tal e qual) desde a acusação até à sentença definitiva. Utilizando aqui a
expressão do Professor Castanheira Neves “tem que existir uma correlatividade intencional
entre um problema e a sua solução”. Atenção: este princípio não é linear ou absoluto.

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2. Princípio da Unidade ou Indivisibilidade – é um princípio que impõe que o objecto


do processo seja conhecido na sua totalidade, de uma forma unitária e de um modo indivisível.
Isto quererá dizer, amparando no entendimento do Professor Eduardo Correia, que “um
problema unitário deve ser resolvido num só processo”.

3. Princípio da Consumpção – é um princípio segundo o qual, uma vez conhecido e


decidido o objecto do processo, que seja considerado esgotado a apreciação jurídico-criminal
do mesmo processo ainda que se venha a descobrir factos integradores de um crime continuado
atinente ao processo já condenado. O que quererá dizer que as tais descobertas não deverão dar
lugar à nova acusação adveniente de um novo e independente inquérito.

II – O Critério da Identidade do Objecto do Processo

Existe, neste particular, um manancial de ideias explicativas que não nos cabe aqui
recensear, uma vez que a finalidade a que estamos adstritos é a de gerar a compreensão rápida
e não propriamente a de realização de um estudo aturado e minucioso, razão por que apenas
iremos reproduzir as ideias que mais apreciamos, nomeadamente a de:

Professor Manuel de Cavaleiro Ferreira – que diz que o objecto sobre que incide o
processo tem de ser um facto concreto na sua existência real e não um conceito de facto, e o
conceito de identidade do facto não irá buscar-se, assim, ao direito material. Querendo com isso
dizer que a identidade do facto tem de ser apreciada naturalisticamente, como facto concreto e
real;

Professor Eduardo Correia – que, em jeito de discordância e crítica, vem dizer que a
construção naturalística do objecto do processo não logra dar soluções precisas e exatas ao
problema dos limites da identidade do facto; e,

Professor Paulo de Sousa Mendes – que, buscando a concretização, diz que a identidade
do objecto do processo tem que comportar uma dimensão subjetiva (respeitante à identidade do
arguido com a obviedade de que se mudar a referida identidade do arguido, mudará

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automaticamente o objecto do processo) e uma dimensão objectiva (em que o enfoque vai para
o Nomen Iuris, querendo significar que se mudar/alterar a Qualificação Jurídica, por exemplo:
de furto para abuso de confiança, com base nos mesmíssimos factos, aqui sim o objecto do
processo não deverá mudar).

III – A Fixação do Objecto do Processo e o Âmbito de Aplicação do


Princípio de Vinculação Temática

É naturalmente entendido que o objecto do processo fixa-se com a acusação ou com a


pronúncia. Diz também que com a acusação o processo ganha um rosto, ganha uma identidade,
ganha uma concretização e ganha um tema.

Ou seja: saberemos da existência de um facto criminoso e das circunstâncias que


nortearam a sua prática e, por via delas, será determinada a sanção ou indemnização ajustável;
saberemos quais normas substantivas foram violadas e saberemos, por fim, a descrição
pormenorizada do agente do crime.

Ganhando um tema, as questões controversas que levam a uma boa decisão devem girar
em torno daquele mesmo tema com que o processo nasceu e o referido tema deve servir de base
da fundamentação da acusação (fase do inquérito), da pronúncia (fase da instrução) e da decisão
(fase do julgamento).

No fundo, a fixação do objecto do processo reporta ao momento de fixação da acusação


que, como é óbvio, não poderia ser igual para todas as naturezas do crime, pelo que a referida
fixação do objecto do processo difere em função da natureza dos crimes. Assim:

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1 – Na Primeira Fase Processual – A Fase do Inquérito

(i) nos crimes públicos e semipúblicos o objecto do processo é fixado a partir do momento
em que existir a acusação pelo Ministério Público (artigos 204.º, ex. vi. 204.º-A, do CPP). Não
existindo acusação, o objecto do processo começa a fixar-se a partir do momento em que existir
o RAI (nos termos do artigo 206.º, n.º 2, do CPP);

(ii) nos crimes particulares o objecto do processo é fixado a partir do momento em que
existir a acusação particular.

Destes dois eventos para frente passa a vigorar o denominado “Princípio de Vinculação
Temática” que é um princípio que, dentre outros feitos, delimita ou, se se preferir, traça os
limites máximos do objecto do processo.

2 – Na Segunda Fase Processual – A Fase de Instrução (ou Fase Eventual)

A fixação do objecto do processo nesta fase, ao existir, dá-se com a pronúncia, mas
existindo uma acusação dá-se por esta, não a existindo então dá-se com a exaração do RAI (nos
termos do artigo 206.º, n.º 2, do CPP), o que abre e ao mesmo tempo delimita, em parte, o
círculo dentro do qual o juiz de instrução pode realizar as suas diligências investigativas.

Ora, se o juiz extravasar os limites do círculo traçado pelo objecto do processo e


pronunciar, por exemplo, o arguido pelos factos que constituem a Alteração Substancial de
Factos descritos na acusação do MP ou do Assistente ou no RAI, deve essa decisão instrutória
ser automaticamente nula nos termos do artigo 212.º do CPP, ex. vi. artigo 106.º, n.º 2, do CPP.

Atenção: uma questão se impõe, se essa nulidade não for detectada e o processo passar e
chegar às mãos do juiz do julgamento, pode este arguí-la de ex-officio?

A resposta é afirmativa. Pode o juiz de julgamento ignorar a alteração substancial de facto


ou declarando-a nula nos termos do artigo 106.º, n.º 2, e condenar o arguido só em relação aos
factos não substancialmente alterados.

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Questões Posteriores a Fixação do Objecto do Processo

IV – A Alteração de Factos

Verifica-se, quase que com incessante frequência, que mesmo após a Fixação do Objecto
do Processo, surgem Factos Novos. Sobre isso ninguém discute.

Notas Gerais para o Entendimento Inicial:

Se os factos novos acrescentados ou levados ao processo ou que surdirem no decorrer do


processo (está-se a pensar exclusivamente na Fase de Instrução) forem “Factos Totalmente
Independentes” dos que já constavam no processo (se quiser, na acusação) – o que
indubitavelmente geraria um concurso real da infracção –, prescreve o Código de Processo
Penal guineense, à semelhança do Código de Processo Penal português, que esses factos novos
independentes, no sentido de serem destacáveis ou autonomizáveis dos anteriores factos,
conhecerão dois caminhos concomitantes:

--o Juiz de Instrução não poderá incluí-los (refere-se aos factos novos autonomizáveis ou
independentes) na sua decisão instrutória de pronúncia; e,

--devem (refere-se aos factos novos autonomizáveis) ser comunicados ao Ministério


Público para que este abra o adequado inquérito para os perseguir (no momento e no processo
diferente), em função da natureza do crime (sendo ela particular, o MP terá que esperar que
haja queixa e acusação particular, sendo ela semipública, terá o MP que esperar que haja pelo
menos a queixa ou vontade processual do titular). É o que consta do artigo 210.º, n.º 5, do CPP.

O grande problema é em relação aos factos novos não autonomizáveis do objecto do


processo que podem ou provocar a alteração substancial dos factos ou não provocar a alteração
substancial dos factos (que seria igual a provocar alteração não substancial de factos).

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Se houver “alteração não substancial de facto”, aqui não se coloca problemas de monta,
visto que o Código de Processo Penal dá soluções inquestionáveis nos números 1, 2 e 3 do
artigo 210.º, conforme se evidenciará infra:

no n.º 1 consta que, se no decorrer da instrução aparecerem factos novos que implicam
uma “alteração não substancial de factos” descritos na acusação ou no RAI, o Juiz de instrução
só tem de comunicar esse acontecimento, de ex-officio, ao defensor de suspeito (lê-se arguido)
dando-lhe um prazo para este defender e aquele deve adiar a audiência se for necessário;

no n.º 2 consta uma remissão para o artigo 83.º, n.º 1, conferindo, assim, ao defensor do
arguido o prazo de 5 dias – que é o prazo geral para a realização de qualquer acto processual –
, para este preparar a defesa sobre os referidos factos novos que não alteraram substancialmente
o objecto do processo; e,

no n.º 3 o legislador guineense é categórico em afirmar que o Juiz de Instrução pode levar
em conta, na sua decisão instrutória, os novos factos que não implicaram a alteração substancial
do objecto do processo, desde que, apenas, se cumpra as imposições legais resultantes dos n.ºs
1 e 2, ou seja: baste que o Juiz comunique a existência dos novos factos ao defensor e que lhe
dê 5 dias para preparar a sua defesa em relação aos tais factos novos.

Obs: temos um problema sério na Guiné-Bissau uma vez que o legislador processual
penal não nos ofereceu uma definição da Alteração Substancial de Factos, ao invés do que fez
o legislador português que plasmou a referida definição na alínea f), do artigo 1.º, do CPP-Pt.,
tendo resultado que se considera Alteração Substancial de Factos “aquela que tem por efeito a
imputação ao arguido de um crime diverso ou a agravação dos limites máximos das sanções
aplicáveis”.

Assim sendo, há que se agarrar nas regras de experiência para perceber duas coisas
fundamentais, a saber:

(i) a leitura atenta do regime guineense, quer dizer de dois números de dois artigos
referentes à alteração substancial de factos nas fases de instrução e de julgamento – está-se a
referir aos artigos 210.º, n.º 4, do CPP e 249.º, n.º 5, CPP –, conduz-nos à conclusão de que o
legislador ao proibir o tribunal de conhecer ou, melhor, de incluir na sua decisão, sob pena de

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nulidade, os factos que representam “a imputação ao suspeito/arguido de um crime diverso


ou a agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis”, estará a referir aos factos novos
que impliquem “a alteração substancial de factos” porque os factos descritos nos n.ºs 1 dos
referidos artigos 210.º e 249.º do CPP, aludidos pelos n.º 3 e 4 destes artigos, versam sobre
factos novos que impliquem “a alteração não substancial” (o mesmo é dizer que “não
impliquem a alteração substancial”), logo deve-se subentender que também estará a dar uma
definição da alteração substancial de factos nos referidos n.º 4 e 5, dos artigos 210.º e 249.º, do
CPP, o que quer, em definitivo, significar que é havido como definição da alteração substancial
de factos, na Guiné-Bissau, aquela que representar “a imputação ao suspeito/arguido de um
crime diverso ou a agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis”.

Se quiser:

Considerar-se-á estar em face de uma Alteração Substancial de Factos sempre que os


novos factos conduzirem a imputação ao arguido de um crime diverso ou implicarem a
agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis. E do contrário,

Considerar-se-á estar em face de uma Alteração Não Substancial de Factos sempre que
os novos factos não conduzirem a imputação ao arguido de um crime diverso ou não implicarem
a agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis.

(ii) às vezes, os factos novos que impliquem a alteração substancial podem coincidir com
aqueles factos novos susceptíveis de alterar a qualificação jurídica (só que nem sempre é assim).
Mas, atenção que, o inverso não é verdadeiro. Ou seja: a alteração da qualificação jurídica não
implica uma alteração substancial de factos.

Notas Densas para o Entendimento Final:

O Regime de Alteração Substancial de Factos: Passos para a compreensão do


mínimo exigido.

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1.ª Nota: O Regime de Alteração Substancial de Factos ou, se quisermos ser mais
precisos, as consequências do surgimento de um facto novo no decorrer do processo conta com
duas sedes principais no ordenamento jurídico guineense, máxime no Código do Processo
Penal, que foram instituídas em função das fases processuais, abarcando apenas duas fases
processuais a saber: a fase de instrução e a de julgamento.

No fundo, falamos de surgimento de factos novos na fase de instrução (se houver) e na


fase de julgamento. Não é razoável cogitar falar de factos novos que alteram o objecto do
processo na fase de inquérito, uma vez que no decurso dela (a fase do inquérito) o objecto ainda
não se encontra fixado, e mesmo estando, com o surgimento de um facto novo é possível até o
prazo de duração do inquérito ser prorrogado, por despacho do Ministério Público, com
fundamento em complexidade do processo (vide. o n.º 2, do artigo 200.º do CPP), para poder
ter tempo de o referido novo facto ser devidamente investigado, tratado e integrado na decisão
de arquivamento ou da acusação.

Logo, se os factos novos surgirem na fase de instrução ficamos a saber nitidamente que
o regime com que vamos trabalhar é o que está sedeado nos vários números do artigo 210.º do
CPP. Por seu turno, se os factos novos surgirem na fase de julgamento ficamos igualmente a
saber que o regime com que vamos trabalhar é o que está sedeado nos vários números do artigo
249.º do CPP.

De referir, para concluir, que estes dois artigos são quase que totalmente idênticos e
plasmam as mesmas soluções quer para os Factos Novos Não Autonomizáveis em relação ao
Objecto do Processo que Provocam a Alteração Não Substancial de Factos (ou se preferir, que
não provocam alteração substancial de factos) – compare os n.ºs 1, 2 e 3 do artigo 210.º com os
n.ºs 1, 2 e 4 do artigo 249.º, ambos do CPP –, quer para os Factos Novos Não Autonomizáveis
em relação ao Objecto do Processo que Provocam a Alteração Substancial de Factos – compare
o n.º 4 do artigo 210.º com o n.ºs 5 e 6 do artigo 249.º, ambos do CPP –, e quer para os Factos
Novos Autonomizáveis em relação ao Objecto do Processo – compare o n.º 5 do artigo 210.º
com o n.º 7 do artigo 249.º, ambos do CPP.

Se nos for exigido o apontar das diferenças entre estes dois artigos (210.º e 249.º) do CPP
diríamos que:

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a primeira diferença, e também a mais saliente diferença, é a de que o artigo 210.º versa
sobre o surgimento de factos novos na Fase de Instrução e só é utilizado para resolver questões
ligadas a esta fase, ao passo que o artigo 249.º versa sobre o surgimento de factos novos na Fase
de Julgamento e, igualmente, é só usado para dar soluções às questões atinentes a esta fase; e,

a segunda diferença é a de que o artigo 210.º reserva o seu n.º 6 para falar da alteração da
qualificação jurídica e concomitantemente conferiu ao juiz de instrução a prerrogativa de
efectuar a alteração da qualificação jurídica dos factos descritos na acusação ou no RAI (e o
artigo 249.º não contém uma norma similar quando na verdade deveria conter, tendo em linha
de conta que a alteração da qualificação jurídica pode ocorrer também na fase de julgamento),
o que ao juiz é permitido apenas quando a alteração da qualificação jurídica pretendida não
implicar a alteração substancial de factos, ou seja, apenas quando implicar a alteração não
substancial de factos e desde que ao defensor seja dado, pelo menos, 5 dias para preparar a
defesa sobre a nova qualificação jurídica, ao passo que o artigo 249.º reserva o seu n.º 3 para
falar da excepção à garantia de defesa delatada que assiste ao defensor (coisa que o artigo 210.º
não fez), querendo o dito significar que o defensor não terá benefícios de prazo de 5 dias quando
for ele próprio quem tenha alegado um facto novo que implica a alteração não substancial. Isto
é assim, porque presume-se ter já conhecido o facto e sobre ele já tenha meditado ao ponto de
não se olvidar de o invocar no julgamento, pelo que não precisa dos 5 dias para preparar a
defesa sobre os factos do seu conhecimento e da sua alegação.

De comum, e para finalizar este paralelismo entre os dois supra-referidos artigos, é de


exaltar a redacção lacunosa, na fase de instrução, e a postura neutra do legislador, na fase do
julgamento, quanto a prerrogativa que assiste o tribunal (quer por via do juiz de instrução, quer
por via do juiz de julgamento), de efectuar a alteração da qualificação jurídica nas situações em
que provoca a alteração substancial de factos, seja lá porque a alteração da qualificação jurídica
tenha implicado a imputação ao arguido de um crime diverso, seja lá porque tenha implicado a
agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis.

Aqui chegados, urge perguntar o que fazer quando a nova qualificação jurídica levar à
alteração substancial de factos descritos na acusação ou no despacho de pronúncia? Ao que
teremos que responder que se trata de uma questão bastante discutida, não passível de reunir

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consensos e de cujas posições existentes se apresentam impossíveis de aqui reproduzir, de tão


numerosas e complicadas que são (65) e até geradoras de incompreensão ao principiante.

Seja como for, temos apenas que demonstrar a posição que angariou a nossa simpatia e
que nos parece mais acertada, em que resulta a priori que os juízes, já agora, podem sim alterar
a qualificação jurídica mesmo quando conduz a alteração substancial de factos.

Professor Manuel Cavaleiro de Ferreira diz que o juiz é inteiramente livre na qualificação
jurídica dos factos acusados (66);

Professor Frederico Isasca considera que existe a liberdade de qualificação jurídica por
parte do tribunal (67) e esclarece que o princípio da vinculação temática não implica vinculação
à qualificação jurídica, visto que a modificação desta não tem como consequência a alteração
do objecto do processo (68);

Professor Ivo Miguel Barroso faz um paralelismo na qual resulta que o objecto da prova
são os factos, não a qualificação jurídica, e concluiu que seria ilógico o tribunal poder apreciar
livremente a prova, e em contraponto, negar-lhe a liberdade de qualificar os factos objecto do
processo (69); e,

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, na sua sentença de 10 de outubro de 1985,


havia considerado que a convolação (quer dizer na altura a modificação do nomen iuris ou a
mudança da qualificação jurídica), não viola o artigo 6.º, n.º 3, alínea a), da CEDH – Convenção
Europeia de Direitos do Homem (70).

(65) Havendo curiosidades incessantes, havendo interesses extra licenciatura em direito ou vindo a ser um tema
para a tese de mestrado ou doutoramento, deve-se ler, de forma aturada e para se ter uma visão holística, Ivo
Miguel Barroso – Estudos sobre o Objecto do Processo Penal, 1.ª edição, Lisboa, Vislis Editores, 2003, pp. 103-
122.
(66) Cfr. Cavaleiro de Ferreira – A Pronúncia, p. 23. Apud. Ivo Miguel Barroso – Estudos Sobre o Objecto...
op., cit., p. 107.
(67) Cfr. Frederico Isasca – Alteração Substancial de Factos, op., cit., p. 126.
(68) Cfr. Frederico Isasca – Sobre a alteração da qualificação jurídica em processo penal, p. 375.
(69) Cfr. Ivo Miguel Barroso, op., cit., p. 109.
(70) Apud., Ivo Miguel Barroso, Idem., p. 111.

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2.ª Nota: Trata-se de uma nota preponderante nesta matéria e nela há que
imperativamente ter a perfeita noção de que os factos novos sempre surgirão no decorrer de um
processo, e sobre isso ninguém pode fazer nada, e há que imperativamente separar, ab initio,
para a melhor compreensão, três (3) tipos de Factos Novos, qual sejam:

1. Factos Novos Autonomizáveis (de quê? R: de objecto inicial do processo);

2. Factos Novos que Constituem Casos Duvidosos; e,

3. Factos Novos Não Autonomizáveis (de quê? R: de objecto inicial do processo):

3.1. Factos Novos Não Autonomizáveis na Fase da Instrução – que conta com a
resolução mediante três teses / três construções doutrinárias a saber:

3.1. a) – A Tese de Repetição do Inquérito;

3.1. b) – A Tese de Organização de um Novo Processo com Todos os Factos;

3.1. c) – A Tese de Continuação do Processo.

3.2. Factos Novos Não Autonomizáveis na Fase de Julgamento – que conta com a
resolução mediante duas teses / duas construções doutrinárias a saber:

3.2. a) – A Tese de Organização de um Novo Processo com Todos os Factos;

3.2. b) – A Tese de Continuação do Processo.

1. Factos Novos Autonomizáveis:

Tal como o próprio nome indica, estes factos caracterizam-se pela possibilidade de serem
separados, destacados ou destrinçados daqueles factos inicialmente constantes no processo e
que constituíram objecto do processo, de tal sorte que, sem prejuízo para o processo em curso,
sejam criadas as condições para se iniciar um outro processo penal, sem violação do princípio
de Ne Bis In Idem.

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Quanto a eles a lei processual penal guineense é clara em traçar as formas de


enquadramento dos mesmos, pois, se os factos novos forem efectivamente autonomizáveis em
relação ao objecto do processo, tratando-se do processo na fase da instrução, diz o n. 5 do artigo
210.º do CPP que os tais factos devem ser comunicados ao Ministério Público para que este
abra um adequado inquérito para os perseguir. Tratando-se da fase de julgamento, diz o n.º 7
do artigo 249.º do CPP que os tais factos devem ser comunicados ao Ministério Público para
que este abra um adequado inquérito.

Ou seja, os factos novos que se revelarem autonomizáveis devem ser desintegrados do


processo em curso e dar lugar à abertura do inquérito noutro processo penal, mas para isso
ocorrer há que se ter em linha de conta a natureza do crime correspondente aos factos novos
comunicados ao MP, uma vez que este não vai poder ter o impulso processual de forma
automática se de crimes de natureza semipúblicos e particulares se tratassem, visto que nestes
casos o impulso processual depende da existência da queixa, no primeiro caso, e da queixa e
acusação particular, no segundo caso. O tal impulso processual automático, se se preferir, a
abertura do inquérito para perseguir os factos novos comunicados ao MP, só haveria lugar se
de factos correspondentes a um crime público se tratasse.

Dito isto, fica patente que o processo primitivo correrá os seus trâmites normalmente e
que os factos novos autonomizáveis não hão de ser considerados nele, nem para efeitos da
pronúncia, nem para efeitos da determinação da pena e nem para nenhum outro efeito.

Na realidade, a possibilidade de autonomização de factos novos, na fase de julgamento,


verifica-se nas situações de concurso ideal de infracções, por exemplo: um homicídio para
encobrir o outro crime de violação contra a mesma vítima.

Nesse caso, o julgamento deve prosseguir, e o arguido será apenas julgado por homicídio,
numa clara desconsideração do outro crime de violação. Crime esse que se, porventura, vier a
ser julgado, a condenação já deve ser em concurso de crimes e a uma pena conjunta que o
tribunal da última condenação deve somar a pena da anterior condenação.

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2. Factos Novos que Constituem Casos Duvidosos:

As dúvidas geralmente nascem em sede dos crimes complexos, nos quais existem a
manutenção duma filiação de especialidade em relação a dois ou mais tipos fundamentais (está-
se a referir ao tipos criminis).

Tem-se, neste âmbito, como exemplo paradigmático, o do crime de Roubo – artigo 151.º
do Código Penal –, que aglutina os elementos do tipo de crime de Furto – artigo 145.º do CP –
, do crime de Abuso de Confiança – artigo 147.º do CP –, e do crime de Violência após a
Subtração – artigo 152.º do CP.

Como é notório, nesses casos, facilmente um crime complexo pode transformar-se em


duas infracções separadas – o que levaria a abertura de inquérito relativamente aos factos
descobertos na instrução ou no julgamento, sem prejuízo de continuação do processo em curso.

Só que, a possibilidade de separação de infracções não deve ser levada em consideração,


pois, caso contrário, cairíamos na desconformidade com os princípios do processo penal de
estrutura acusatória.

Postula o Professor Paulo de Sousa Mendes (71) que não seria de admitir embarcar nos
meros expedientes formais, tripartindo um crime só para cumprir formalmente com os desígnios
do CP se isto mexe e não obedece o espírito de respeito pelo valor da pessoa do arguido e do
seu direito de defesa.

Com isso, não se deve querer o formalismo criminal que ia verificar-se com a tripartição
de, por exemplo, crime de Roubo, ao ponto de suplantar os princípios da indivisibilidade e
consumpção do objecto do processo, pois a não ser assim difícil seria observarmos a
manutenção do objecto do processo. Logo, por norma, nesses casos, o crime de Roubo não deve
converter-se em vários processos penais independentes.

(71) Cfr. Paulo de Sousa Mendes – Lições de Direito Processual Penal, 3.ª Edição / Reimpressão, Coimbra,
Edições Almedina, S.A., 2015, pp. 150-151.

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3. Factos Novos Não Autonomizáveis:

Se as soluções são fáceis quando se tratar de um facto novo autonomizável ou de casos


duvidosos, não são já assim tão fáceis de se chegar quando se está a falar de factos novos não
autonomizáveis do objecto inicial do processo, pois estes requerem uma busca de soluções mais
longas, porquanto existem posições doutrinárias divergentes e ambas bem fundamentadas em
função de diversos pontos de vista processuais.

Na verdade, quando os factos novos forem inseparáveis do objecto do processo em curso,


faz da solução não gerenciadora da unanimidade, obrigando, assim, a busca de respostas através
da concordância prática dos interesses em causa, em que se convida a ponderar entre ter por
prevalecente o interesse particular ou, melhor dizendo, individual (o do arguido) ou então o
interesse público. As respostas serão encontradas nas diversas teses arrumadas em função das
fases processuais.

3.1. Factos Novos Não Autonomizáveis na Fase da Instrução

3.1. a) – A Tese de Repetição do Inquérito

Focaliza-se na utilização da norma do processo civil, mormente o expediente de


suspensão da instância, amparando na outorga realizada pela norma do artigo 2.º do Código de
Processo Penal, em que se aproveitaria para repetir o inquérito e o MP avaliaria se resultou ou
não do novo inquérito os indícios suficientes que levariam a tomada de decisão de alterar a
acusação inicial, isto é, introduzindo o novo facto não autonomizável ou então ignorá-lo e
permanecer fiel à sua primeira acusação – o que passaria ao juiz de instrução para efeitos de
avaliação de suficiência e da comprovação, podendo culminar ou com despacho de pronúncia
ou com despacho de não pronúncia.

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No fundo, por força do artigo 2.º do CPP, lança-se a mão da utilização dos artigos 276.º,
n.º 1, alínea c) conjugado com o artigo 279.º, ambos do Código de Processo Civil, para
suspender a instância, fazer retornar a acusação inicial ao MP – por se ajuizar incompleta ou
não integradora de facto novo não autonomizável que provoca a alteração substancial de factos
–, germinando para o MP o ónus de repetição do inquérito e criando, assim, a sensação de que
o juiz de instrução avalia a completude do trabalho do MP (o que, aos olhos nus, chocaria).

O tal choque motivou o posicionamento do Professor Paulo de Sousa Mendes que é


notoriamente contra esta construção doutrinária ao ter considerado que não é de aceitar, sob
pena de desvirtuar o sistema e preconizar a ideia segundo a qual é consentida que o juiz de
instrução dê ordens ao MP ou o dirige, no sentido de indicar-lhe a necessidade de reformular
uma investigação aparentemente deficiente.

3.1. b) – A Tese de Organização de um Novo Processo com Todos os Factos

Esta tese tem o seu acento tónico na utilização, a par da anterior tese, da deixa dada pelo
artigo 2.º do CPP, em conjugação com artigo 288.º do CPC, para, em face do surgimento de um
facto novo não autonomizável do objecto do processo e que provoca a alteração substancial de
factos, na fase de instrução, absolver a instância e arquivar o processo (o termo “arquivar o
processo” aqui utilizado, podia gerar perplexidades sobre se não seria a usurpação, por parte do
juiz de instrução, das prerrogativas legalmente destinadas ao MP ou sobre se não corresponderia
ao termo “emissão de despacho de não pronúncia” que teria os mesmos efeitos práticos dos do
arquivamento e que propriamente caberia ao juiz de instrução. Mas, de facto, esta tese
preconizou a ideia de arquivar o processo na fase de instrução, tal como se evidenciará infra).

Quer dizer, segundo esta tese, o juiz de instrução nem se quer vai prosseguir com a
instrução propriamente dita, o que quer dizer que não vai emitir nem um despacho de pronúncia
e nem o de não pronúncia, como o que é habitual, mas sim emitirá uma decisão de forma – que,
no fundo, não é uma decisão de mérito da causa, mas apenas uma decisão que aprecie a questão
prévia de falta de poderes de cognição do juiz, motivado pela existência do obstáculo de falta
de um verdadeiro pressuposto processual relativo ao objecto do processo.

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Bem, parece que a alteração substancial de factos daria azo à inexistência da acusação,
que colocaria o juiz de instrução numa situação de absoluta incompetência em razão da matéria,
que configuraria na falta de um pressuposto processual que fundamenta a absolvição da
instância.

O Professor Paulo de Sousa Mendes critica novamente esta solução e rejeitou-a por ser
frontalmente contrário ao princípio da legalidade e por aderir ao princípio da oportunidade – o
que não é admissível, justamente porque lava ao juiz a não decidir, contrariando a obrigação de
decidir que é inerente a sua função, in casu, de pronunciar os factos do objecto do processo, só
porque a este acresce um outro facto novo não autonomizável e só por isso o juiz já considera
que é inoportuno decidir – o que seria equiparável a invalidação de uma acusação sem mais
nem menos (72).

3.1. c) – A Tese de Continuação do Processo

Esta tese é, na verdade, a que mais faz sentido dentre as três, visto que é a única, segundo
a opinião do Professor Paulo de Sousa Mendes (73), a qual nós aderimos, que oferece uma
resposta / solução compatível com a concreta estrutura acusatória do nosso processo penal, na
qual a função do juiz de instrução é materialmente judicial e não materialmente policial ou de
averiguações.

Na senda desta tese, se na fase de instrução sobrevier factos novos indestrinçáveis do


objecto do processo em curso, o juiz não deverá fazer nada em relação a eles, deve é ignorá-
los, não os deve incluir na sua decisão instrutória e, sendo assim, deve deixar o processo seguir
os seus trâmites em total desconsideração dos tais factos novos, arcando, como é óbvio, com o
indesejável sacrifício parcial do conhecimento da verdade material ínsitos ou transportados no
interior dos factos novos não autonomizáveis.

(72) Cfr. Paulo de Sousa Mendes – Lições de Direito Processual Penal, op., cit., pp. 153-154.
(73) Cfr. Idem., p. 154.

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Esta solução é, aliás, a preconizada pelo legislador do Código de Processo Penal


guineense ao proibir, no n.º 4 do artigo 210.º, a inclusão dos factos novos não autonomizáveis
em relação ao objecto do processo que provocam a alteração substancial de factos, sancionando
com a nulidade uma eventual actitude do juiz de instrução nesse sentido.

3.2. Factos Novos Não Autonomizáveis na Fase de Julgamento

3.2. a) – A Tese de Organização de um Novo Processo com Todos os Factos

Na fase de julgamento, o Professor Frederico Isasca já não defende a ideia de suspender


a instância, como de resto fez na de instrução, mas sim propõe que, se porventura surgirem
factos novos não autonomizáveis do objecto do processo e que provoquem a alteração
substancial de factos, na fase de julgamento, que sejam considerados os tais factos dentro da
medida da pena legal que caberia aos factos do objecto inicial do processo.

3.2. b) – A Tese de Continuação do Processo.

No seguimento desta tese o Professor Paulo de Sousa Mendes não inoculou nada do já
não havia inoculado nos argumentos de que se serviu para fundamentar posição que tomou na
tese de continuação do processo na fase de instrução.

Se quiser, repetiu os mesmos argumentos segundo aos quais os factos novos não
autonomizáveis em relação ao objecto do processo que provocam a alteração substancial de
factos devem ser ignorados pelo juiz julgador que deverá prosseguir julgando apenas os factos
que haviam constados no objecto do processo inicialmente fixado.

E esta solução é, ao cabo e ao resto, a preconizada pelo legislador do Código de Processo


Penal guineense ao proibir, nos n.ºs 5 e 6 (máxime o n.º 5) do artigo 249.º, a inclusão dos factos
novos não autonomizáveis em relação ao objecto do processo que provocam a alteração

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substancial de factos, sancionando com a nulidade uma eventual actitude do juiz de julgamento
ou, se se preferir, de juiz julgador nesse sentido.

O regime fixado no artigo 249.º é deveras curioso e merece maior elucidação tendente a
evitar incompreensão, se não vejamos:

O n.º 5 inculca a clara ideia de que a Alteração Substancial de Factos implica a imputação
ao suspeito de um crime diverso ou a agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis.

O perguntado é: o que é um crime diverso? E sobre isso responde o Professor Germano


Marques da Silva que o crime será diverso “quando implicar alteração do juízo base de
ilicitude” (74).

Sendo assim, também seria pertinente perguntar se a imputação ao suspeito do crime


diverso levaria automaticamente a consideração de existência da alteração substancial de
factos? A isto responde a Professora Maria João Antunes que “crime diverso não significa,
seguramente, que há alteração substancial se apenas houver a imputação de um outro tipo
legal de crime. A imputação de um crime diverso significa, isso sim, que os novos factos
conhecidos pelo tribunal vão além do objecto do processo fixado pela acusação ou pela
pronúncia (…)” (75).

O n.º 6 encerra um debate interessantíssimo porquanto representa uma excepção ao


cumprimento escrupuloso do princípio de acusação – o que faz nascer para nós a obrigação de
delimitar o âmbito da sua compreensão. Assim:

Diz a norma que «é nula a sentença que condenar por factos diversos dos descritos na
acusação ou na pronúncia, se a houver, fora dos casos e das condições previstas nos números
3 e 4, e nos casos em que o Ministério Público, o suspeito e o assistente estiverem de acordo

(74) Cfr. Germano Marques da Silva – Direito Processual Penal Português. Noções e Princípios Gerais.
Sujeitos Processuais. Responsabilidade Civil conexa com a Criminal. Objecto do Processo, Lisboa, Universidade
Católica Editora, 2017, p. 385. Apud. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, 2.ª Edição – Reimpressão,
Coimbra, Edições Almedina, S.A., 2019, p. 194.
(75) Cfr. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, 2.ª Edição – Reimpressão, Coimbra, Edições
Almedina, S.A., 2019, p. 194.

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com a continuação do julgamento pelos novos factos, se estes não determinarem a


incompetência do tribunal».

Duma leitura atenta desta norma pode resultar várias interpretações – e há que dizer que
a norma não é muito bem redigida –, desde logo:

(i) a sentença que condenar por factos diversos dos descritos na acusação ou na pronúncia
é nula tout court;

(ii) se houver a condenação fora dos casos e das condições previstas nos números 3 e 4 –
o que inculca a ideia de se estar a referir a condenação por factos diversos mas que não implicam
a alteração substancial de factos, se quiser que implicam a alteração não substancial de factos,
que são casos em que os tais números 3 e 4 concluíram no sentido de deixar o tribunal conhecer
desses factos desde que dê ao arguido um prazo para a preparação da defesa (que é subentendido
como sendo de 5 dias – artigo 249.º, n.ºs 1, 2 e 4 conjugado com o artigo 83.º, ambos do CPP).
Por essa mesma linha de raciocínio, deve-se ter por assente que o tempo de preparação de defesa
não é devido ou não é observado se for a própria alegação da defesa que gerou a alteração;

(iii) nos casos em que o Ministério Público, o suspeito e o assistente estiverem de acordo
com a continuação do julgamento pelos novos factos – deve-se perguntar aqui, que novos factos
estará a norma a referir? Serão os novos factos que provocam a alteração substancial ou serão
os que não provocam a alteração substancial? Há dois entendimentos possíveis.

No primeiro, deve-se ter como predominante a leitura coerente e seguidista da numeração


do artigo e pensar que como quer o n.º 1, 2, 3 e 4 dizem respeito à alteração não substancial,
então, os “factos novos” a que se refere o n.º 6, permitido pela concordância dos principais
sujeitos processuais, são os factos novos que geram a alteração não substancial (inclui quer a
alteração da qualificação jurídica quer a condenação por factos diversos dos descritos na
acusação e na pronúncia, mas que não implicam a alteração substancial de factos);

No segundo, pode-se tomar como primordial uma leitura desgarrada dos anteriores
números e concluir em função da parte final da norma que reforçou com a “não determinação
da incompetência do Tribunal” para dizer que os factos novos referidos no n.º 6 podem ser:
quaisquer factos diversos dos descritos na acusação ou na pronúncia (repare que estes não

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geram automaticamente a alteração substancial) e quaisquer factos que constituem alteração


não substancial.

Tomamos como fiel este último entendimento, que na verdade não é incongruente com o
primeiro, por nos parecer aquele que mais se assemelha com a estruturação do regime
guineense, isto é não abarcando os factos novos que provocam alteração substancial de factos,
por via de agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis – o que altera verdadeiramente
e quase que sempre os factos. Ou seja, quanto a nós, a concordância dos sujeitos processuais só
é válida em relação aos factos novos que não provocam a alteração substancial de factos e desde
que não determinem a incompetência do tribunal.

Mas atenção que, há posição que roça a aceitabilidade da concordância dos sujeitos
processuais sem se preocupar com a natureza dos factos novos, podendo eles implicar quer a
alteração não substancial, quer a alteração substancial, como, de resto, parece resultar da
descrição inicial da Professora Maria João Antunes, passamos a citar «(…) ressalvam-se as
situações em que o ministério público, o arguido e o assistente estiverem de acordo com a
continuação do julgamento pelos novos factos, caso em que é dado ao arguido, se requerido,
prazo para preparação da sua defesa. Há aqui uma entorse ao princípio da acusação, no
sentido de ser uma mesma entidade, o juiz de julgamento, a “investigar”, a “acusar” e a
“julgar”. Tal ocorre em nome da celeridade e da economia processuais, legitimando-se na
concordância daqueles sujeitos processuais e, em geral, em uma ideia de abertura a soluções
processuais consensuais (…)» (76). Atenção que esta solução não vincou em Portugal após as
alterações introduzidas no CPP-Pt em 2007.

Aqui chegados, apenas resta-nos finalizar com a distinção entre a alteração da


qualificação jurídica de factos e a alteração substancial de factos.

Numa primeira tentativa diríamos que há alteração da qualificação jurídica de factos


quando os factos se mantêm, alterando-se somente a sua qualificação jurídica, enquanto que há
alteração substancial de factos se no novo expediente a realizar pelo tribunal advenientes de

(76) Cfr. Maria João Antunes – Direito Processual Penal, op., cit., p. 195.

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acção investigativas ou probatórias resultarem factos distintos dos descritos na acusação ou na


pronúncia.

Numa segunda tentativa, já recorremos aos exemplos distintivos de escola em que,


lançando a mão aos dados pela Professora Maria João Antunes, teremos como exemplo de
alteração da qualificação jurídica a situação em que a pessoa é acusada de homicídio simples
por se compreender que o resultado morte não foi produzido em circunstâncias reveladora de
uma especial censurabilidade ou perversidade do agente, e essa mesma pessoa vier a ser
condenado por crime de homicídio qualificado, por tribunal de julgamento, perante os mesmos
factos.

Doutro polo, já teremos a alteração substancial de factos se da prova produzida em


audiência, resultarem factos distintos dos descritos na acusação ou na pronúncia que tiverem
por efeito a agravação do limite máximo da sanção aplicável. É o exemplo da pessoa acusada
de homicídio simples, punível com pena de prisão de 2 a 18 anos – artigo 107.º do CP –, sendo
produzida a prova na audiência de julgamento da qual resultam factos distintos dos descritos na
acusação qua levam a subsunção do comportamento do agente no tipo legal de homicídio
agravado punível com pena de prisão de 12 a 25 anos – artigo 108.º do CP (77).

Nota final: o arguido tem sempre o direito de se defender dos factos que lhe são
imputados, bem como da qualificação jurídica dos mesmos factos – o que confere relevância à
distinção entre a auto-defesa que o arguido faz em relação aos factos a que lhe são imputados e
a defesa técnica que o arguido faz, por via do seu defensor, em relação a qualificação jurídica
dos factos que lhe são imputados.

(77) Cfr. Idem., p. 197.

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Dos Actos Processuais


Nota inicial: É uma matéria muito importante no geral, mas a parte respeitante à sua
classificação por ser uma matéria essencialmente teórica, repare que não lhe retire a pertinência
intrínseca, não é habitual, entretanto, fazer-lhe constar do objecto de avaliação.

Directório:

O Código de Processo Penal dedicou 5 densos capítulos aos actos processuais, que vão,
desde logo, dos artigos 77.º a 111.º, sendo certo, e convém que seja já dito, que “todo o processo
penal ou todo o Código Processual Penal é uma sequência de actos processuais”.

Observação Enquadrante dos Actos Processuais:

Procedimento VS Processo

Procedimento – é a sequência de actos correspondentes ao modelo que se inicia com o


acto de abertura e visa a uma notícia criminis em concreto. É também conjunto de trâmites,
conjuntos de formas e tempos; e,

Processo – é o modelo legal da sequência de actos que nascem com a notícia criminis ou,
melhor, com acto da abertura do inquérito ordenado pelo Ministério Público.

A distribuição dos Capítulos do Título IV segue a seguinte ordenação:

Capítulo I

Vai dos artigos 77.º a 81.º do CPP e diz respeito às Disposições Gerais;

Sinaléticas Importantes:

Artigo 78.º do CPP versa sobre a publicidade do processo – que é uma garantia de
transparência da justiça e consequentemente um modo de facilitar a fiscalização da legalidade
do procedimento.

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Segundo o artigo citado, o processo é público a partir de acusação definitiva.

Artigo 80.º do CPP fala de segredo de justiça – que é uma garantia de eficácia na
investigação e consequente desmantelamento das manobras dos criminosos em frustrar a
descoberta da verdade, devendo somar a tudo isto o facto de ser igualmente a garantia de defesa
da honra e consideração devidos ao suspeito e, outrossim, visa evitar a exposição da vítima,
preservando a sua intimidade, mormente nos crimes de violação sexual ou abuso sexual.

Factores que contribuem para a quebra de segredo de justiça:

(i) – o chamado jornalismo de investigação ou jornalismo investigativo – que toma


dianteira nas investigações processuais, máxime quando envolve as figuras mediáticas, por
exemplo, do futebol, do cinema, da política, etc...;

(ii) – a relação quase que harmónica existente entre as secretarias do tribunal e a imprensa
– em que as pessoas que têm acesso recorrente aos autos do processo e facilidades de
reprodução dos documentos facultam-nos aos interessados; e,

(iii) – o exibicionismo policial tendente a demonstração de eficácia – em que é divulgado


todos os seus méritos operacionais (tácticas, equipamentos e tecnologias) sempre que de uma
apreensão ou captura de grande relevo se tratasse.

Capítulo II

Vai dos artigos 82.º a 94.º do CPP e diz respeito ao tempo (prazos), forma e a
documentação dos actos;

Destaques:

Artigo 83.º dispõe sobre o prazo geral para a prática de qualquer acto processual e diz-
nos que é de 5 dias;

Artigo 85.º versa sobre a contagem dos prazos para diferentes actos e para diferentes
momentos;

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Prazos Processuais: noção, função e espécies:

O prazo é o período de tempo a que a lei sujeita a prática de um determinado acto


processual.

Tem por função permitir a coordenação dos diversos actos, sob um ponto de vista
temporal, garantindo a celeridade da decisão dos processos, a certeza e estabilidade das
situações jurídicas, o tempo necessário para a afirmação e defesa dos direitos e a salvaguarda
de direitos fundamentais, a liberdade em função da duração das medidas de coacção na sua
modalidade mais severa que é a prisão preventiva e da própria detenção.

Os prazos assumem a seguinte trilogia:

Os prazos dilatórios – são os que marcam o momento a partir do qual o acto processual
pode ser praticado ou ter início a sua execução, a qual se encontra, de certo modo, suspensa no
decurso do prazo. Ex.: o prazo para a declaração de contumácia – que é uma forma de pressionar
o arguido a comparecer perante o juízo mediante a congelação de todos os seus bens (património
e contas bancárias) conhecidos e registados em seu nome no país onde decorre contra ele o
processo –, e que só pode ser declarada decorridos trinta dias da notificação edital para que o
arguido se apresente em juízo. Atenção que ainda não temos a contumácia no nosso regime,
mas já é hora de sabermos o que é e quais são os seus efeitos práticos abonatórios ao processo.

Os prazos peremptórios ou preclusivos – são os que estabelecem o período de tempo


dentro do qual o acto pode ser praticado. Se o acto não for praticado no prazo peremptório não
poderá, por via de regra, ser já praticado. Ex.: os prazos para arguir nulidades e irregularidades,
requerer a instrução ou interpor recursos.

Os prazos ordenadores ou cominatórios – são os que estabelecem um limite para a sua


prática, mas nem por isso se praticados após esse limite perdem validade, podendo, entretanto,
o agente que não o respeitou sofrer uma sanção. Ex.: são, por norma, a generalidade dos prazos
processuais do tribunal, do MP na fase do inquérito, e da secretaria.

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Artigo 87.º fala da nomeação do interprete nas situações em que existir documentos
escritos nas línguas estrangeiras ou nas que requer a prestação de declarações de surdos, mudos
e surdos-mudos que não sabem escrever. O artigo citado fala da nomeação do intérprete e da
obrigação que sobre ele impende de prestar o compromisso, dando azo para a diferenciação
subsequente:

Compromisso VS Juramento

Compromisso – é sob a forma oral e sob os seguintes dizeres: “comprometo-me, por


minha honra, a desempenhar fielmente as funções que me são confiadas”. Quem presta o
compromisso são os peritos, os interpretes e funcionários públicos, dentre estes principalmente
os funcionários de justiça e apenas quando não intervenham no processo naquela qualidade,
pois caso contrário devem os mesmos serem dispensados de prestar compromisso, uma vez que
já o prestaram aquando dos seus empossamentos/admissões enquanto funcionários de justiça.
A escolha do intérprete deve observar as regras previstas para os institutos de escusa e de
suspeição (Cfr. n.ºs 2 e 3 do artigos 87.º conjugado com artigo 46.º, ambos do CPP).

Juramento – é sob a forma oral e sob os seguintes dizeres: “juro, por minha honra, dizer
toda a verdade e só a verdade”. Quem presta o juramento no âmbito do processo penal são as
testemunhas (Cfr. artigo 122.º, n.º 2, alínea c)).

Capitulo III

Vai dos artigos 95.º a 98.º e diz respeito às notificações (que podem ser: (i) pessoal; (ii)
edital; (iii) verbal; e (iv) telefónica);

Destaques:

Artigo 95.º fala de notificação e abriu-se uma brecha para a contemplação de notificação
telefónica, no n.º 2, tendo preferido a denominação “convocação telefónica”, telegrama ou por
outro meio de telecomunicação, em caso de manifesta urgência. O n.º 4 do mesmo artigo parece
versar-se sobre a notificação verbal.

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Artigo 96.º diz respeito as formas de notificação, tendo falado no n.º 1 de notificação: por
via de contacto pessoal com o notificado (aqui se encaixa, na perfeição, as modalidades de
notificação pessoal e verbal – sem descurar do dito supra), por via postal através de carta
registada ou por via de edital.

O n.º 2 do artigo 96.º é deveras importante, porquanto fala, em detalhes, dos denominados
Actos de Notificação Pessoal – entende-se do assistente e do suspeito/defensor –, que são:

(i) – Notificação da Acusação;

(ii) – Notificação do Arquivamento;

(iii) – Despacho que designa dia para julgamento; e,

(iv) – Despacho que aplicar a medida de coacção ou de garantia patrimonial.

O n.º 5 fala da notificação da pessoa presa (é uma notificação feita através de contacto
pessoal, é requisitada ao Director de estabelecimento prisional que mandará efectuar por
funcionário prisional);

O n.º 6 fala da notificação do funcionário público (que é requisitada ao seu superior


hierárquico); e,

O n.º 7 fala da notificação de menores de 14 anos ou de interditos por anomalia psíquica


(que é feita na pessoal do seu representante legal).

Artigo 98.º fala da diversas ocorrências que levam a nulidade de uma notificação.

Capítulo IV

Vai dos artigos 99.º a 104.º do CPP e diz respeito ao registo criminal;

Capítulo V

Vai dos artigos 105.º a 111.º do CPP e diz respeito às nulidades dos actos processuais.

Destaque:

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Artigo 105.º plasma o princípio de tipicidade da nulidade…

Atenção: Existem ainda outros actos ou eventos tidos como processuais sedeados fora
desta sequência do Código de Processo Penal, como são os casos de:

--Dedução de pedido de indemnização civil em separado do processo criminal (trata-se


de um pedido que pode equivaler a compensação de uma eventual renúncia de queixa ou de
acusação). Ou seja, é um acto exterior ao processo mas que produz efeitos processuais;

--Factos jurídicos processuais stricto sensu, e dá-se como exemplos:

(i) a morte do arguido;

(ii) o decurso de prazo máximo de prisão preventiva;

(iii) o decurso de prazo de prescrição de procedimento criminal.

Classificação dos Actos Processuais

1.ª Classificação:

Quanto à Função do Acto Processual na Sequência Processual

1.1. – Actos de Iniciação – acto do MP ou de terceiro (tratando-se do crime de natureza


particular) – artigo 50.º, n.ºs 1 e 2, do CPP.

1.2. – Actos de Desenvolvimento – acto de acusação – artigo 48.º, alínea b), e artigo 204.º,
ambos do CPP.

1.3. – Actos de Encerramento – são aqueles que fundamentam a existência de recurso de


revisão – artigos 261.º e ss do CPP.

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2.ª Classificação:

Quanto à Função do Acto no Processo

2.1. – Actos Determinantes – são aqueles que produzem efeitos jurídicos em atenção à
vontade do agente. Ex: acusação particular e desistência da queixa.

2.2. – Actos Condicionantes – são os que limitam a condicionar a prática, o conteúdo ou


os efeitos de actos determinantes. Ex: autorização, requerimento, promoção.

2.3. – Actos de Execução – são aqueles que se limitam a dar expressão material a efeitos
jurídicos produzidos, embora essa expressão material possa produzir também efeitos jurídicos.

3.ª Classificação:

Quanto à Entidade que os Praticam

3.1 – Actos dos Sujeitos Processuais (do Tribunal, do Juiz, do Ministério Público, do
Arguido, do Assistente).

3.2. – Actos de Terceiros ou de Intervenientes Processuais (Peritos, Intérpretes,


testemunhas e Força Pública = Agentes Policiais “artigo 77.º/2 do CPP”).

4.ª Classificação:

Quanto às suas Estruturas (estruturas dos próprios actos processuais)

4.1. – Actos Materiais – são aqueles que produzem efeitos processuais através de
alterações de situações de facto.

4.2. – Declarações – são as que produzem efeitos processuais através de um evento


psíquico. Podem ser:

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4.2.1. – As Declarações de Ciência – expressam conhecimentos sobre determinados


factos ou matérias.

4.2.2. – As Declarações de Vontade – dirigem-se à produção de determinado efeito


jurídico.

4.2.3. – As Simples Declarações Voluntárias – nelas a vontade cobre apenas a


própria declaração.

5.ª Classificação:

Quanto à Repetição ou não de Actos em Audiência de Julgamento

5.1. – Actos Repetíveis – geralmente são repetíveis todas as diligências de prova realizada
no decurso de inquérito e da instrução, com excepção das declarações pessoais.

5.2. – Actos Não Repetíveis ou Irrepetíveis – geralmente são os depoimentos das


testemunhas; as declarações do assistente; as declarações das partes civis; as declarações dos
peritos e dos consultores técnicos; e, as acareações em caso de doença grave.

6.ª Classificação:

Quanto à Fase Processual em que são Praticados

6.1. – Actos de Inquérito;

6.2. – Actos de Instrução;

6.3. – Actos de Julgamento;

6.4. – Actos de Recurso; e

6.5. – Actos de Execução.

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Nota Importantíssima: logicamente, as declarações para a memória futura pertenceriam


à fase de julgamento, mas cronologicamente são praticados nas fases do inquérito ou de
instrução.

Outra Classificação Importante dos Actos Processuais se Impõe:

7.ª Classificação:

Actos Decisórios vs Actos não Decisórios:

Obs: a obrigatoriedade de fundamentação do acto decisório vem plasmada no artigo 93.º


do CPP. De referir que, o citado artigo não nos concede uma definição do acto decisório,
contudo teremos por acto decisório o conceito infra descrito.

7.1. – Actos Decisórios – são actos que dão solução ao processo, pondo-lhe termo,
conhecendo ou não o seu objecto, ou a qualquer questão interlocutória.

7.1. a) – Actos Decisórios do Juiz – são actos que põem termo a uma questão,
definitivamente ou num dado grau de jurisdição, optando o juiz por uma de entre duas ou mais
soluções possíveis.

7.2. b) – Actos Decisórios do Ministério Público – São actos decisórios os que põem
termo à fase do inquérito ou em que o MP dá solução a uma questão.

7.2. – Actos não Decisórios – não são actos decisórios, por exemplo, os actos de mero
expediente e nem os são aqueles que não traduzem a solução de qualquer questão.

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Nulidade dos Actos Processuais

Nesta sede, pouco acrescentou a doutrina fora dos prenúncios efectuados pelo legislador
do Código de Processo Penal guineense, se não vejamos:

O artigo 105.º plasma a tipicidade das nulidades e determina, isto é, bipartindo a forma a
que os vícios processuais penais assumem, tendo vaticinado, no n.º 1, que estaremos em face
da forma mais grave da categorização dos vícios processuais, refere-se a nulidade dos actos
processuais apenas quando a lei expressamente o determinar. Já do n.º 2 resulta, por exclusão
de partes, que os vícios dos actos processuais assumirão a denominação de irregularidades
quando, não obstante violadores ou inobservadores das normas de processo penal, não
apresentarem a denominação de nulidade.

O vício mais grave, que é a nulidade, encontra-se dividido em: nulidades sanáveis e
nulidades insanáveis.

São as nulidades insanáveis as constantes do catálogo fixado nas várias alíneas do n.º 1
do artigo 106.º do CPP e não só (mas sobre isso falaremos mais adiante), e tratam-se de
nulidades que não carecem de arguição por parte do seu verdadeiro beneficiário e nem carecem
da verificação de prazos preclusivos, por assim dizer, uma vez que são de conhecimento
oficioso, querendo isto significar que podem ser arguidas oficiosamente (por MP ou por
Tribunal) e igualmente podem ser arguidas em qualquer das fases tradicionais ou consensuais
do processo (são elas a de inquérito, a de instrução e a de julgamento), contando que só vão
poder ser arguidas, no máximo, até ao trânsito em julgado da decisão final, conforme de resto
resulta do n.º 2 do supra referido artigo.

Obs.: Existem, contudo, alguns casos/actos/actuações/actitudes que geram ou que


constituem nulidades insanáveis que não constam do catálogo do artigo 106.º do CPP e nem do
capítulo V do CPP e são sintomáticos desta realidade, por exemplo: (i) o interrogatório do
suspeito ou do réu – que não se seguiu à detenção ou à prisão –, efectuado nas altas horas/fora
de hora/durante madrugada, conforme o n.º 3 do artigo 82.º do CPP e, consequentemente, (ii) a
busca na cada de habitada ou na dependência fechada realizadas nos horários que perturbam o
sossego e o sono do habitado, conforme artigo 139.º do CPP.

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São nulidades sanáveis todas as que a lei não tenha apelidado de insanáveis com o enfoque
para o catálogo constante nas várias alíneas do n.º 1 do artigo 107.º do CPP, e tratam-se de
nulidades dependentes de arguição, não só por parte dos sujeitos processuais, mas sim por parte
de todos os intervenientes processuais que as não originaram, dentro do prazo legalmente
determinado. De referir que o prazo é de cinco dias previsto no artigo 108.º, n.º 1, do CPP, que
é considerado, sem margem para a dúvida, um prazo peremptório. Finalmente, a sanação deste
tipo de nulidade é feita por recurso às normas do artigo 109.º do CPP.

Os vícios menos graves são as irregularidades que se encontram plasmadas no artigo 110.º
do CPP, tendo resultado do seu n.º 1 que os actos irregulares serão considerados inválidos
quando o vício puder pôr em causa o valor do acto praticado de modo a comprometer a
descoberta da verdade. A declaração da irregularidade segue os prazos constantes do artigo
107.º do CPP. As irregularidades podem ser oficiosamente reparadas se se reunir os requisitos
para o efeito, isto é, se não der azo ao comprometimento da verdade e nem à violação de
algumas garantias processuais.

As normas do artigo 111.º do CPP são deveras importantes, porquanto o n.º 1 fixa a
competência subordinada às fases processuais para declarar a nulidade ou irregularidade dos
actos processuais, o que não deixa dúvidas que apenas habilita o MP e o Tribunal a declararem
as nulidades ou irregularidades dos actos processuais e porquanto o n.º 2 determina o grau de
afectação, tendo abarcado não só o acto afectado, assim como os termos subsequentes do
processo que possam conter máculas.

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Da Prova

Nota prévia: A matéria da prova é intrinsecamente ligada a matéria dos actos


processuais, visto que a própria produção ou validação de qualquer prova é feita no âmbito de
um processo – portanto um acto processual.

E no concernente a este último são apontadas algumas invalidades, havendo uma violação
ou inobservância das disposições da lei sobre o processo penal.

E, igualmente, são apontadas algumas inadmissibilidades e isto nos interessa, e de que


maneira, neste capítulo de prova, exactamente porque pela imposição da lei resulta uma
inadmissibilidade que quer dizer a não admissão de determinado acto na sequência processual
e dentre estas inadmissibilidades destacamos a inadmissibilidade de certos meios de prova e
também as próprias proibições de prova.

Em resumo, a lei determina:

--A proibição de prova – que corresponde à sua inadmissibilidade no processo; e,

--A nulidade de prova – que é deduzida em duas situações:

Havendo obtenção de prova sem o respeito das formalidades; e,~

Havendo obtenção de prova por métodos proibidos.

Conceito de Prova. Enquadramento Jurídico-Constitucional

Obs: A descoberta do conceito de prova impõe certo exercício ou, se quiser, vários
exercícios são precisos, mas apraz-nos apenas fazer o seguinte:

--O processo existe para possibilitar a aplicação do direito …

e logicamente que →

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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense

--A aplicação do direito depende da existência ou verificação dos factos …

e naturalmente que →

--A existência de tais factos leva à produção de um certo efeito jurídico …

Se quiserem, em duas frases, o processo visa:

--A verificação dos factos que condicionam a aplicação do direito; e

--A aplicação do direito.

Daí que a actividade probatória destina-se a convencer da existência ou não dos factos.

Do conceito arcaico da prova resulta um espelhar da sua função, razão por que se afirma
que a prova tem por função a demonstração da realidade do facto.

Só que esta noção não nos serve hodiernamente, porquanto não esgota a finalidade da
prova, daí ser necessário adicionar àquela noção a finalidade de realização de um processo justo
e equitativo. Isto porque, só faz sentido condenar quem efectivamente praticou o facto
criminoso.

Por isso que deve-se concluir que a função ou as finalidades do processo são a
demonstração da realidade do facto e a garantia da realização de um processo justo – o que veda
a possibilidade de as autoridades judiciárias procurar demonstrar a existência dos factos a
qualquer preço, sendo em definitivo permitida a tal demonstração apenas por recurso aos meios
lícitos.

O termo prova suscita várias discussões e implica uma utilização num tríplice sentido, a
saber:

a) – Prova como actividade probatória – que são actos ou complexo de actos destinados
a formar a convicção da entidade decisória sobre a existência ou não de uma determinada
situação factual;

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b) – Prova como resultado da actividade probatória – que é a convicção da entidade


decisora formada no processo sobre a existência ou não de uma situação factual; e,

c) – Prova enquanto meios de prova – que é aquele instrumento probatório para formar
aquela convicção.

Algumas Garantias Constitucionais Relativas à Prova

Prova e Presunção de Inocência

Esta presunção não é um mero postulado ideal, mas sim um verdadeiro princípio de prova,
directamente vinculante às autoridades na sua totalidade.

Protege os suspeitos que só deverão ser julgados culpados após a demonstração dos factos
a que são imputados através de uma actividade probatória inequívoca.

Assim, a imputação só será válida se se fundar nas provas obtidas legalmente.

Encontra-se sediada no artigo 42.º, n.º 2, da Constituição da República da Guiné-Bissau


e recebe a força vinculante mediante o artigo 30.º, n.º 1, da CRGB.

A título exemplificativo e efectuada uma deriva para o direito comparado e os precedentes


históricos, denota-se que a presunção de inocência consta dos artigos:

11.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem;

6.º, n.º 2, da Convenção Europeia dos Direitos do Homem;

14.º, n.º 2, do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos.

Nota Preponderante: A dúvida sobre a culpabilidade é a razão de ser do processo penal e,


por seu turno, a certeza deveria ser o fim do processo.

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Princípios Relativo à Prova

Princípio de In Dúbio Pro Reo e a questão de Ónus da Prova:

Impõe este princípio que qualquer dúvida existente no capítulo de prova seja valorada a
favor do arguido.

Diga-se de passagem que a questão de ónus de prova não tem relevância em processo
penal uma vez que a dúvida sobre o facto resolve-se em função do princípio da presunção de
inocência.

O Professor Germano Marques da Silva vaticinou que há uma unanimidade na doutrina


no concernente à não existência de ónus de prova em sentido formal – que é traduzida no
encargo de produzir a prova por parte da acusação o da defesa.

E, alertou ainda que esta unanimidade já não é tão dominante no concernente à ónus de
prova em sentido material – que se traduz na ideia de sujeição às consequências desfavoráveis
resultantes da falta de prova. Ex.: Se eu, na qualidade de arguido, poder e ter como facultar
provas que dissipam o Fummus Comici Delicti que paira sobre mim, devo ou não fazê-lo?

A contra questão é se se não fazer e ter o azar de ver as incertezas da acusação


transformadas em certezas firmes capazes de afastar o Princípio de In Dubio Pro Reo, posso
me arriscar a ser condenado por um crime que não cometi – logo, dar-se-á ao caso do chamado
Erro Judiciário ou Erro da Justiça.

No sistema inglês, o direito ao silêncio como corolário da presunção da inocência não se


verifica, pois aí o arguido tem o ónus de jurar pela sua inocência, persuadindo a realização de
algumas diligências probatórias abonatórias e facultando, se possível, provas suficientes que o
iliba, sob pena de ser condenado.

No sistema português é notório que é sobre a acusação que recai a incumbência de provar
os factos imputados ao arguido – logo é como que há um ónus material que incumbe à acusação.

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Autores há que acharam que impende sobre o arguido a prova das circunstâncias
justificativas ou desculpantes por si alegados. Mas, conclui o Professor Germano Marques da
Silva que este entendimento viola o princípio da presunção de inocência, na justa medida em
que poderia conduzir à condenação de uma pessoa por um facto que talvez pudesse não ser
punível, por diversas circunstâncias nomeadamente por ser duvidoso por falta de prova.

O Princípio da Investigação

Inculca a ideia de que sobre o juiz recai o encargo de investigar e esclarecer oficiosamente
o facto submetido ao julgamento.

No trilho do Professor Jorge de Figueiredo Dias, a actividade investigatória do tribunal


não é limitada pelo material de facto aduzido pelos outros sujeitos processuais, mas sim abarca,
de modo autónomo, todas as circunstâncias que se afigurem relevantes.

O princípio da investigação tem a sua sede no artigo 228.º do Código de Processo Penal.

Verdade Processual ou Verdade Formal

Trata-se de uma verdade resultante do contraditório – artigo 222.º do CPP – ou seja das
alegações de facto da acusação e da defesa e da prova dessas alegações.

Esta verdade só é suportável quando se verifica uma efectiva igualdade de possibilidades


por parte da acusação e da defesa.

A própria natureza da sanção penal (lembrar aqui que o Penal tem mecanismos reactivos
enérgicos que mexem com as liberdades), considera a verdade processual insatisfatória,
porquanto transporta com ela a ideia insuportável de que alguém possa ser penalmente punido
só porque a sua defesa é fraca face a acusação.

Chegados aqui deve-se concluir que o interesse dos órgãos de administração da justiça
(MP e o Tribunal) é única e exclusivamente a realização da justiça, isto é condenando o culpado
e absolvendo o inocente, daí que o Tribunal é obrigado a procurar a verdade histórica para

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melhor realização da justiça, suprindo, dentro dos limites legais, e respeitando ao máximo o
princípio da vinculação temática, as deficiências dos demais sujeitos processuais ou
intervenientes processuais.

Assim, é chegado a verdade material quando o próprio tribunal faça o uso das suas
prerrogativas de investigação – ordenado ou possibilitado pelo princípio da investigação –,
suprindo algumas debilidades e inverdades ou, se quiser, também é-lhe chegado quando o
tribunal se recusa de ser passivo na aquisição e na produção da prova.

Nota: A verdade processual não é necessariamente a verdade. É uma verdade


processualmente válida ou apurada e pode não coincidir com a verdade material ou a verdade
histórica.

Atenção: o Professor Germano Marques da Silva nega essa dicotomia de verdades


assinaladas por verdade material e verdade processual e sustenta a visão de que existe apenas a
verdade.

O Direito à Prova

Diz respeito à faculdade que os sujeitos processuais têm de participar activamente na


produção da prova, requerendo a sua admissão e participando na sua produção.

O Principio de Livre Apreciação da Prova

Ao tribunal, por intermédio do juiz, ou ao Ministério Público, é conferido a faculdade de


apreciar as provas segundo as suas livres convicções e, sobre isso, não poderá haver discussões
porquanto o artigo 123.º da Constituição da República da Guiné-Bissau atesta que o juiz só
deve obediência à lei e a sua consciência no exercício das suas funções.

Ora, a única imposição legal existente é que as tais convicções sejam balizadas ou, se se
preferir, que assentassem nas chamadas:

--Regras de Experiência; e,

--Critérios da Lógica.

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O Princípio de livre apreciação da prova encontra-se plasmado no artigo 117.º do Código


de Processo Penal. Não obstante esse facto, a verdade é que este princípio não é um postulado
absoluto, na medida em que resulta do n.º 2 do artigo 117.º do CPP a consagração de duas
excepções à regra de livre apreciação das provas em função da livre convicção do julgador. Ou
seja: existem duas provas que escapam ao tal critério de livre apreciação do julgador e que
assumem os semblantes de provas plenas, em relação aos quais se faz a fé pública e que só
podem ser postas em causa, no caso da Prova Documental concernente aos factos constantes de
documentos autênticos ou autenticados, mediante a arguição da falsidade dos referidos
documentos e, no caso da Prova Pericial, atestado por um relatório pericial, este só poderá ser
posto em causa por um outro relatório igualmente pericial.

A prova pericial tem a sua sede no artigo 133.º e ss, máxime no artigo 136.º do CPP.

A prova Documental, no concernente aos factos constantes de documentos autênticos ou


autenticados tem a sua sede nos artigos 131.º, n.º 1, do CPP, que deverá ser conjugado – por
força do artigo 132.º do CPP que estatui a lei subsidiária –, com artigos 362.º e ss do Código
Civil, mormente artigos 369.º, 370.º, 371.º e 372.º no tocante aos documentos autênticos e artigo
377.º respeitante aos documentos autenticados.

Princípio da legalidade da Prova (….)

Princípio da (…)

Princípio da Imediação, da Oralidade e da Contraditoriedade das provas

O princípio da imediação – respeita predominantemente à audiência de julgamento e é


compreendido em dois sentidos. No primeiro sentido, traduz na utilização de meios de provas
originais ou seja a sua apreciação e obtenção mais directa. No segundo sentido, pressupõem a
oralidade no processo para os sujeitos processuais procurarem uma visão conjunta dos
fundamentos fácticos da causa.

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O princípio de contraditoriedade – respeita a audiência de julgamento, tem assento


constitucional no artigo 42.º, n.º 5, da CRGB e visa promover o debate ou discussão entre a
acusação e defesa.

A Tutela Cautelar da Prova

Visa a conservação de provas recolhidas noutras fases anteriores para serem apresentadas
e discutidas em audiência de julgamento. Ex: artigo 54.º, art. 58.º, n.º 1, art. 137.º, n.º 1, art.
141.º, n.º 1 e art. 194.º, alínea b), 198.º e 219.º, ambos do Código de Processo Penal.

De resto, entende o Professor Paulo de Sousa Mendes que, também, são mecanismos de
tutela cautelar da prova todas as medidas de coação.

__________________________________________________________________

Outra acepção da prova

A Prova

1 – As definições da prova

1.1. A Prova enquanto actividade probatória – é o esforço metódico através do qual


são demonstrados os factos relevantes para a existência do crime, a punibilidade do arguido e a
determinação da pena ou medida de segurança aplicável aplicáveis e, porque não, as
indemnizações que ao caso caberiam.

1.2. A Prova enquanto meios de prova – são elementos com base nos quais os factos
relevantes podem ser demonstrados.

1.3. A prova enquanto o resultado da actividade probatória – é a motivação da


convicção da entidade decisora acerca da ocorrência dos factos relevantes, contanto que essa
motivação se conforme com os elementos adquiridos representativamente no processo e
respeite as regras de experiência, as leis científicas e os princípios da lógica.

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1.4. A Prova na sua acepção prosaica – isto é enquanto provas materiais, são os
objectos relacionados com a preparação e a prática do facto qualificado como crime. Aqui a
palavra prova vem retratar os objectos relacionados com o crime ou que possam servir de prova.

2 – O regime de meios de prova

Pode-se pensar que contamos com um regime falaciosamente aberta, livre e democrática
resultante dos dizeres do legislador processual guineense, fundamentalmente quando nos diz
que “em processo penal é admissível qualquer meio de prova que não seja proibido por lei” no
artigo 113.º do Código de Processo Penal.

Ou seja: a tal liberdade é falaciosa em tese tendo em conta que a escolha de meio de prova
deve respeitar a tipicidade e a taxatividade – o que afasta liminarmente a liberdade de escolher
outros meios diferentes dos dos taxados ou tipificados. Mas, sobre isto, afirma o Professor
Germano Marques da Silva que não são só os meios de prova tipificados ou regulamentados
por lei que são admitidos, mas sim todos os que não forem proibidos, mesmo sendo atípicos.

As Proibições de Prova

Trata-se de uma denominação inventada por Beeling, doutrinador alemão, que abrange
quer as proibições de produção de prova quer as proibições de valorações de prova.

(i) Na proibição da produção de prova, o que é proibido é a actuação inicial por virtude
da qual se ia obter uma certa prova.

(ii) Na proibição da valoração de prova, o que é proibido é a actuação contínua por virtude
da qual ia-se validar a produção de certa prova. De referir que tudo isto levaria a seguintes
consequências:

--Invalidade do acto processual por se ter violado a proibição de prova;

--O efeito à distância da violação das proibições de prova;

--As garantias de defesa tendentes a tornar ineficaz o acto processual inválido; e,

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--A responsabilização disciplinar e criminal dos funcionários (agentes da


autoridade) que violarem as proibições de prova (vide. artigos 33.º e 123.º/3 da CRGB, 327.º/2
do CPP e 6.º do Estatuto dos Magistrados Judiciais).

Há uma pequena discussão acerca da proibição da prova, a saber:

Doutrina Extremista – admite, em síntese, que a prova obtida ilicitamente deve ser válida
e eficaz, responsabilizando quem o obtiver por meios ilícitos. Ora, se assim fosse, haveria
agentes da autoridade (polícias e não só) obcecados em perseguir e prender certos criminosos
que não importariam certamente como as consequências que sofreriam, desde que cumprissem
com as suas obsessões de prender ou de obter as provas.

Doutrina Moderada – considera que a única sanção eficaz para impedir os abusos na
obtenção de prova é a de inadmissibilidade de toda a prova ilicitamente obtida, com o natural
acréscimo de responsabilização disciplinar ou criminal destinada aos violadores do princípio
da lealdade processual.

Nota: o regime de proibição de prova foi pensado para tutelar os direitos ou interesses
fundamentais dos cidadãos, mas representa um limite sério à descoberta da verdade.

1 – As Proibições de Produção de Provas

São reconduzíveis a uma das seguintes espécies, a saber:

1.1. Os Temas de Prova Proibidos – constituem aquelas categorias de temas classificados


como proibidos e que não são susceptíveis de investigação. O exemplo de escola que se dá nesta
matéria é o chamado segredo de Estado, em que ocorrerá duas situações proibitivas:

a) – É proibida a utilização de testemunha para obter depoimento sobre os factos


que constituem segredo do Estado. Artigo 120.º, n.º 1, principalmente o n.º 2, do CPP; e,

b) – É proibida a obtenção de prova documental relativo aos factos cobertos pelo


segredo de Estado.

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Aqui temos nitidamente a sobreposição do interesse público na salvaguarda do segredo


do Estado sobre o também interesse público de descobrir a verdade material.

1.2. Os Meios de Prova Proibido – dizem respeito à proibição de produção de provas


através de meios técnicos e respectivas transcrições quando tiver sido gravado as conversões
em que participaram o Presidente da República, o Presidente da ANP ou Primeiro-Ministro,
mesmo quando autorizado por despacho do juiz de instrução no âmbito do inquérito processual.
Aqui é o próprio meio de prova é que está inquinado.

Pode-se, por hipótese, encaixar aqui a proibição do meio de prova – escutas telefónicas –
tendentes a captar comunicações efectuadas entre o Suspeito (deve-se ler Arguido) e o
Defensor, conforme atesta o n.º 3 do artigo 144.º do CPP, se bem que isso diz mais respeito ao
direito de liberdade.

1.3. Os Métodos de Prova Proibido – prendem com os procedimentos usados pelas


autoridades judiciárias, pelas polícias criminais, pelos advogados e até pelos particulares –
ofendidos –, para aquisição de maios de prova e sua utilização no processo.

O Princípio chave nessa matéria diz-nos que os meios de prova não devem ser obtidos
mediante procedimentos contrários dos direitos de liberdade, salvo nos casos em que a própria
constituição estabelecer.

Há que se distinguir primeiro entre os métodos de prova absolutamente proibidos e os


métodos de prova relativamente proibidos, distinções estas feitas directamente nos artigos 114.º
e 115.º do CPP em obediência ao artigo 42.º, n.º 6, da CRGB, mas que melhor são
compreendidas após a subdistinção infra:

1.3. a) – Os Métodos contrários aos Direito de Liberdade – será inquestionável a


velha máxima de que o processo penal é o direito constitucional aplicado se considerarmos
apenas que nesse campo de obtenção dos meios de prova, a constituição no seu artigo 42.º, n.º
6, elevou à categoria dos direitos fundamentais a conciliação das provas com a dignidade da
pessoa humana.

Na verdade do referido artigo da Constituição da República da Guiné-Bissau resulta uma


unicidade de tratamento que dá ideia de nulidade total de todas as provas obtidas mediante

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tortura, coacção, ofensa à integridade física ou moral da pessoa, abusiva intromissão na vida
privada, no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações.

Já o Código de Processo Penal obedeceu uma abordagem mais apropriada visto que dele
pode-se retirar a seguinte leitura:

A Tortura, a coacção ou ofensa à integridade física ou moral das pessoas, em geral, são
métodos absolutamente proibidos de obtenção de provas. Vide. Artigo 114.º do CPP.

Já a intromissão na vida privada, no domicílio, na correspondência ou nas


telecomunicações são métodos relativamente proibidos. Vide. Artigo 115.º CPP.

1.3. b) – Os Procedimentos Violadores das Formalidades – são aqueles que


conduzem a ilegalidade do acto se não forem observados. Exemplos:

(i) – Os polícias devem entregar a cópia do despacho que autorizou a busca


ou a revista – artigo 38.º, n.º 5, do CPP;

(ii) – As testemunhas devem ser tratadas com urbanidade durante o


interrogatório – artigo 122.º, n.º 1, alínea c), do CPP;

(iii) – A revista deve respeitar o pudor do visado – artigo 38.º, n.º 3, do CPP;

(iv) – As entidades são obrigadas a advertir os parentes do suspeito da


faculdade que lhes assiste de recusar a depor, sob pena de o depoimento ser considerado nulo
– artigo 119.º, n.º 3, do CPP; e,

(v) – A busca domiciliária só pode ser feita entre 06h00 e 20h00 – artigo 139.º
do CPP.

Nesta esteira algumas questões não se calam, como por exemplo a de saber se existe ou
não a autorização por parte do mandante ou então se se carece ou não da tal autorização numa
situação de flagrante delito?

O que levará a chamada de atenção no seguinte sentido, nos crimes comuns e habituais
as formalidades têm que ser observadas, contudo nos chamados crimes organizados ou
criminalidade organizada e transnacionais, as buscas e revistas, intromissão no domicílio, nos

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escritórios e escutas, são permitidas mesmo sem consentimento do titular do direito em causa,
desde que houver para o efeito a autorização do juiz e existir situação de flagrante delito.

Ora mesmo assim a pergunta continua a não calar, porquanto importa ainda saber se
inexistindo a autorização do juiz, imaginemos numa situação dos policiais à paisana que
detectaram uma rápida preparação dum ataque a bomba dum suposto camicase que terá
execução imediata e que ceifará várias vidas e provocará várias lesões ao corpo de várias
pessoas e sendo incompatível e impossível obter a autorização do juiz naquele curto espaço de
tempo, deverão os policiais actuar ou não para impedir a explosão da bomba mesmo que
implique abater o camicase antes de apertar o detonador da bomba?

É na verdade uma questão de difícil resposta, mas atendendo a lesividade do bem jurídico
em causa a qual só é compreendida a Vida e a Integridade Física, a actuação policial não poderá
ficar dependente da autorização do juiz servindo-se do fundamento de que no âmbito dos
poderes gerais dos polícias previstas no artigo 54.º do CPP, têm por obrigação, e por iniciativa
própria, impedir a prática do crime e quando se de um crime altamente violento se tratar a tal
obrigação cresce e assume as vestes duma imperatividade.

2 – As Proibições de Valoração de Prova

São tidas como consequência processual do reconhecimento do carácter proibido das


provas que determinam as suas não utilizações na fundamentação de decisões prejudiciais ao
arguido.

A não valoração da prova implica a sua desanexação dos autos.

Representa o método mais eficaz que o legislador encontrou de prevenir a tentação de


obtenção de provas a qualquer preço.

A proibição abarca a não utilização e a não repetição das mesmas provas por outros meios.

Ex.: O polícia que invade sem autorização judicial, nem consentimento do proprietário
da casa e descobrir a arma do crime.

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Afirmações:

→ A proibição de produção de prova gera normalmente proibidos de valoração de prova.

→ Há proibição de produção de prova cuja violação não traz consigo qualquer


consequência processual. Ex.: Homem que revista mulher através de apalpação dos seios ou
introdução vaginal para descobrir droga é no mínimo desrespeitador do pudor do visado, mas
não implica a subtração da prova obtida para a posterior valoração.

→ Há algumas proibições de valoração de prova estranha à existência de qualquer vício


na anterior produção de prova. Ex.: Uma gravação devidamente autorizada pelo juiz mas
duvidosa quanto a vozes dos intervenientes e quanto ao eco detectado a quando da
reconstituição do facto. Ex.: Escutas montadas a certos números, devidamente autorizada pelo
juiz, registadas, transcritas e apresentadas ao mesmo juiz que a autorização, mas respeitantes a
factos que não cabem dentro do catálogo do crime em investigação. São os chamados
conhecimentos fortuitos – factos casualmente descobertos –, mas independentes do crime cuja
investigação legitimara a escuta telefónica.

Ex.: Os tunezas = Julgamento do Cabrito. Ex.: Uma busca domiciliária para apreensão de
documentos relevantes para a descoberta do crime que conduziu a apreensão do diário íntimo
no qual se confessou os factos criminosos, marcação de datas reveladoras de crimes
incestuosos, etc.

Excepção: Factos confessórios de crime de violação sexual de menor de idade.

Testemunhas de Ouvi Dizer

Uma prova obtida por intermédio de uma testemunha que não presenciou directamente o
facto, mas que afirma ter escutado de alguém que viu ou que ouviu os factos que ele quer relatar,
tem uma validade condicionada. Isto é, só servirão se eventualmente a pessoa referenciada
depor e confirmar, na primeira pessoa do singular, tudo o que viu ou ouviu.

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Se assim não for, o primeiro depoimento ou a parte dele deve ser considerado de
inexistente, pelo menos é o que se consegue retirar da norma do n.º 2 do artigo 118.º do CPP.
Esta situação não é catalogada como sendo uma nulidade, pelo que deve-se concluir que se trata
duma irregularidade.

Efeito à Distância

Prende-se com a chamada nódoa de ilegalidade extensível às provas dependentes ou


produzidas a mercê daquela prova primária que atenta contra os direitos de liberdade, no sentido
de prescrever o seu inaproveitamento.

Excepção: Uma das raras excepções nesta matéria prende-se com a chamada Descoberta
Inevitável adveniente do caso Nix vs Williams de 1984, em que o Supremo Tribunal dos EUA
aplicou o conceito de Descoberta Inevitável para admitir como prova o cadáver da vítima, que
tinha sido descoberto pela polícia mediante uma confissão do arguido obtida de forma ilegal.
Na verdade o Tribunal considerou que o cadáver teria na mesmo sido descoberto pelas equipas
de busca.

Esta excepção é tão criticada por alguns comentadores judiciais norte-americanos,


provocando o Tribunal a estabelecer limites à própria excepção da Descoberta Inevitável,
postulando que a tal excepção só teria aplicação se a acusação demonstrasse, com um grau de
probabilidade superior a 50 %, que a informação teria sido inevitavelmente descoberta por
meios legais.

A outra excepção menos usual de Descoberta Inevitável tem a denominação de Percursos


de Investigação Hipotéticos.

Professor Paulo de Sousa Mendes, Helena Morão e Pinto de Albuquerque recusaram esta
excepção.

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Conhecimento Fortuitos

Fortuitamente descobriu-se factos paralelos mas que não cabem dentro do catálogo do
crime que estava a ser investigado.

São factos causalmente descobertos mas independentes do crime cuja investigação


legitimara a escuta telefónica, por exemplo, ou

Diário íntimo apreendido na busca cujo âmbito visava descobrir os documentos


relevantes para a descoberta da verdade.

Mas imaginemos que a descoberta incidiu sobre um crime de violação sexual praticado
contra uma menor de idade, aí sim as provas terão de ser valorados.

Agentes Encobertos – Agentes Infiltrados – Agentes Provocadores

No regime guineense não há previsão dos Agentes Encobertos ou, grosso modo, das
Acções Encobertas, pelo menos no Código de Processo Penal, contudo existe uma anunciação
reconduzível às acções encobertas pressentidas directamente das entregas controladas prevista
na Lei da Droga, Decreto-Lei n.º 2-B/1993, concisamente no artigo 34.º, que referiu os Agentes
Encobertos como sendo funcionários de investigação criminal. Nesta senda, torna imperativo
visitar o artigo 31.º, n.º 1, do mesmo diploma para ter a noção sobre a autorização das acções
encobertas, adiantando que podem ser autorizadas pelo Ministério Público ou caso a caso
(podendo isso significar a Direcção da Polícia Judiciária, quando não for pelo MP, na fase do
Inquérito, e o Juiz, na fase de instrução).

As Acções Encobertas normalmente integram a vertente táctica da polícia e, sendo a


polícia um órgão da polícia criminal fundamental para a prossecução penal, deverão ser
conhecidas e estudadas em termos paralelísticos e numa perspectiva de direito a constituir, já
que não é uma matéria desenvolvida no regime jurídico guineense.

Assim, por aquilo que consta no direito a constituir, consideram-se Acções Encobertas
aquelas que são desenvolvidas por funcionários de investigação criminal ou por terceiro

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actuando sob o controlo da Polícia Judiciária enquanto representante digno dos Órgãos da
Polícia Criminal para prevenção ou repressão dos crimes indicados na lei (CPP e Lei de
Investigação Criminal), com ocultação da sua qualidade e identidade.

Os crimes que integram o âmbito das acções encobertas são vários, por exemplo,
homicídio, crimes com engenhos explosivos, contra autodeterminação sexual, fraude em
concurso público, tráfico de estupefacientes, etc…

Os Agentes Encobertos, de concreto, são funcionários de investigação criminal ou


terceiros sob controlo da PJ que, no âmbito duma acção encoberta, praticam actos preparatórios
ou de execução de uma infracção em qualquer forma de comparticipação diversa da instigação
e da autoria mediata, sempre que guarde a devida proporcionalidade com a finalidade da
investigação.

Nota: Os Agentes Encobertos não são propriamente agentes infiltrados, em tese, mas
cumprem a mesma tarefa no interesse da investigação.

Doutro polo, os Agentes Provocadores são funcionários de investigação criminal ou


terceiros sob controlo da PJ que, no âmbito duma acção encoberta, determinam a criação da
vontade da realização do facto criminoso nas pessoas que não a tinham inicialmente.

Em termos de valoração da prova, resulta que as provas produzidas mediante as acções


encobertas são valoradas enquanto que os resultantes das acções de provocações ou produzidas
por agentes provocadores não deverão ser valoradas.

No direito a constituir existe um artigo que, de forma expressa, fala da Exclusão Legal,
na epígrafe, em que ficará patente que as provas produzidas por Agentes Provocadores não será
valorada e mesmo as produzidas pelos agentes encobertos ou infiltrados fora do âmbito da
infiltração ou fora dos limites da legalidade dos factos por eles praticados motivados por
negligência, erro, curiosidade compreensível ou vis absoluta.

A sanção legal é a não valoração das provas produzidas, sendo certo que ficou
salvaguardada a não punibilidade das suas condutas, mas são capazes de incorrerem em sanções
disciplinares para evitar as possíveis obsessões no decurso da investigação.

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Compêndio das Matérias do Direito Processual Penal Guineense

Meios de Prova

Constam do Título V, Capítulo II, do Código de Processo Penal, correspondentes aos


artigos 118.º a 136.º do respectivo diploma legal.

Nota Prévia: O Código de Processo Penal guineense não faz uma distinção entre os
chamados Meios de Prova e os Meios de Obtenção de Provas que constam igualmente no Título
V, mas já do Capítulo III, respeitantes aos artigos 137.º a 147.º. Tratou-os todos com sendo
meios de prova – o que faz brotar a natural pergunta sobre se o legislador verdadeiramente quis
confundir o meios de prova com o meio de obtenção de prova ou se se trata de um mero erro
de escrita ou da impressão do Código de Processo Penal. Queremos acreditar que tudo não
passa de um mero erro, porque na realidade:

Os Meios de Prova – são formas padronizadas de produção, registo e consideração de


prova. O Professor Germano Marques da Silva considera que os meios de prova “são fontes de
convencimento que ajudam a formar a convicção e a fundamentar um juízo” (78). Enquanto que,

Os Meios de Obtenção de Prova – são procedimentos ou actitudes concretas dos


intervenientes processuais conducentes a atestar a existência, localização e identificação dos
objectos relacionados com o crime. O Professor Germano Marques da Silva entende que os
meios de obtenção de prova “não são de per si fontes de convencimento, mas permitem obter
coisas ou declarações dotadas de aptidão probatória. Acrescentou ainda dizendo que a
expressão meios de obtenção de prova refere precisamente a actividade de recolha de meios de
prova que poderá ter lugar em qualquer fase do processo” (79).

A questão dos Meios de Prova Atípicos:

Não há possibilidade de existência de meios de provas atípicos, pois se há uma liberdade


e abertura nos termos do artigo 113.º – no sentido de admitir qualquer meio de prova que não
seja proibido por lei –, não há já a tal liberdade no concernente à tipicidade, ou seja: não é

(78) Cfr. Germano Marques da Silva – Curso de Processo Penal, II Vol., Lisboa, Editorial Verbo, 1993, p. 81.
(79) Cfr. Germano Marques da Silva – Ibidem.

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permitida a modificação do modelo legal do meio de prova. Não há liberdade para alterar as
regras dos meios de prova já disciplinados no Código.

Conclusão: Os meios de prova não estão subordinados ao princípio de taxatividade, mas


isso não significa que é permitido modificar os meios típicos preexistentes no CPP para
transformá-lo em atípicos.

Valor Probatório do Auto da Notícia do Crime

O auto de notícia do crime é sempre subordinado aos princípios da oralidade e


contraditoriedade da audiência de julgamento no termos dos artigos 224.º e 222.º do CPP.

Contudo, assume maior força ou menor força probatória em função da forma do processo.
Assim:

Na Forma do Processo Comum – o valor probatório de auto de notícia do crime é


diminuto; e,

Na Forma do Processo Especial, máxime no Processo Sumário, o valor probatório de


auto de notícia do crime é maior e significativo visto que substitui a acusação nos termos do
artigo 323.º, n.º 2, do CPP.

Atenção: o Auto de Notícia não prova o crime, mas prova os factos materiais dele
constantes, enquanto prova bastante.

Densificação dos Meios de Prova

1. Prova Testemunhal

Tem-se por testemunha aquela pessoa que se encontrava em face do objecto ou do


acontecimento, que viu ou ouviu e que conserva a imagem ou o som do que viu ou ouviu
enquanto um mero espetador ou observador.

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Segundo Bentham (apud. Germano Marques da Silva), as testemunhas são os olhos e


ouvidos da justiça.

Capacidade e Dever de Testemunhar

Tem Capacidade para Testemunhar qualquer pessoa que tiver aptidão física e mental,
conforme resulta do artigo 119.º, n.º 1, do CPP.

Tem Dever de Testemunhar qualquer pessoa que lidou directamente com o


acontecimento, isto porque a lei faz impender sobre todas as pessoas o dever de colaborar com
a justiça na descoberta da verdade. O dever de testemunhar nasce com a capacidade de
testemunhar. Ou seja: qualquer pessoa que tem a capacidade para testemunhar tem o dever de
testemunhar.

Observação: uma diferenciação se impôs nesta matéria porque é efectivamente


importante elucidar o seguinte:

1. Testemunhas Hábeis – são as detentoras de aptidões físicas e psíquicas.

2. Testemunhas Inábeis – que são distinguidas entre:

2.1. Inábeis por Incapacidade Natural – tem que ver com aquelas testemunhas que
não têm as referidas capacidades físicas e mentais obrigatórias nos termos do n.º 1 do artigo
119.º do CPP, ora por terem anomalia psíquica, ora por terem problemas visuais ou auditivas
de tal forma que podem confundir o acontecido, ora porque padecem de Alzheimer que lhes
gerou um apagão na memória, ora por serem menores de 07 anos de idade conforme o plasmado
no artigo 617.º, alínea c), do CPC aplicável por força do artigo 2.º do CPP.

2.2. Inábeis por Imposição da Lei – diferentes situações podem ser integrados aqui,
desde logo:

2.2. a) – A Proibição de Testemunha de Ouvi Dizer – a lei é categórica em


afirmar que a testemunha deve depor sobre os factos de que tenha conhecimento directo e que
interessa para a decisão da causa, segundo o n.º 1 do artigo 118.º, e sobre os factos resultantes
das meras convicções pessoais das testemunhas ou sobre os que resultaram dos conhecimentos
técnicos, científicos ou artísticos das testemunhas, conforme o n.º 3 do artigo 118.º do CPP.

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Logo, não é admitido ab initio a chamada Testemunha de Ouvi Dizer, porque essa testemunha
não teve nem o conhecimento directo, nem o contacto directo com o facto que quis testemunhar,
não resultou das suas convicções pessoais e nem dos seus conhecimentos técnicos, científicos
ou artísticos. Contudo pode esse tipo de testemunha ser admitida se eventualmente a testemunha
que ouviu dizer indicar a outra que teve conhecimento directo dos factos e esta depor
confirmando as declarações da primeira, conforme resulta, de resto, do artigo 118.º, n.º 2, do
CPP.

2.2. b) – O Impedimento Testemunhal por parte do Assistente e o


Suspeito/Arguido ou Réu – quer dizer que, à luz do artigo 119.º, n.º 2, do CPP, estão impedidos
de depor como testemunhas nos processos em que assumiram as tais qualidades. Em Portugal
as Partes Civis também não podem depor como testemunhas nos processos em que assumiram
a tal qualidade (Vide. artigo 145.º do CPP-Pt).

2.2. c) – A Escusa e a Proibição de Testemunha por Dever de Segredo – Está-


se a pensar nos segredos religiosos, nos segredos profissionais, nos segredos do Estado e nos
segredos dos Bancos. Engloba diferentes segredos, a saber:

(i) – Segredos Religiosos, nomeadamente dos Padres em relação aos


assuntos abordados nos confessórios;

(ii) – Segredos Profissionais, nomeadamente os do Advogado em


relação ao seu constituinte e os do Médico em relação ao seu paciente;

(iii) – Segredos do Estado, referentes aos do Funcionário Público, dos


Agentes Secretos, dos Agentes de Segurança de Estado, dos Agentes Infiltrados ou dos da
Espionagem; e,

(iv) – Segredos Bancários pertencentes aos bancários, com o natural


arrastamento para os banqueiros, etc …

2.2. d) – A Proibição de Testemunha por Motivos de Ordem Moral – que no


fundo é um acréscimo realizado pelo artigo 618.º do Código de Processo Civil, aplicado, mais
uma vez, por força do artigo 2.º do CPP, que estabelece em várias alíneas do seu n.º 1, certas
pessoas que não deveriam ser testemunhas, sobretudo: os que podem depor como partes, os

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ascendentes nas causas dos descendentes e vice-versa, o sogro ou a sogra nas causas do genro
ou nora, e vice-versa, o marido nas causas da mulher, e vice-versa, os que, por estado ou
profissão, estejam vinculados ao sigilo profissional, quanto aos factos abrangidos por este.

Imunidades, Prerrogativas e Recusas

a) – No concernente às Imunidades – deve-se dizer que o Código de Processo Penal,


no seu artigo 121.º, prescreve um regime englobante no sentido de levar em consideração todas
as imunidades e prerrogativas estabelecidas na lei.

As imunidades resultam geralmente do direito internacional ou do direito público interno


e, por exemplo, a tal imunidade de os deputados guineenses não deporem directamente (e sem
a autorização da plenária) como testemunhas decorre forçosamente dos artigos 82.º e 83.º da
Constituição da República da Guiné-Bissau.

b) – No concernente às Prerrogativas de Inquirição – deve-se dizer que as principais


prerrogativas de inquirição constam dos artigos 624.º a 626.º do Código de Processo Civil,
postulando a possibilidade de algumas individualidades serem inqueridas nas suas próprias
residências ou nas sedes das instituições que dirigem, como por exemplo: O Presidente da
República, Presidente da Assembleia Nacional Popular e da Câmara Corporativa, Membros do
Governo, Conselheiros de Estado, Presidente da Câmara, Arcebispos e Bispos, os Agentes
Diplomáticos, Procurador-Geral da República, Juízes do Supremo Tribunal de Justiça e os de
Tribunal da Relação, Bastonário da Ordem dos Advogados, etc.

c) – No concernente as Recusas – o CPP é claro ao plasmar a faculdade que assiste


aos parentes do arguido – compreende-se os ascendentes, descendentes, cônjuge, irmãos e
parentes até ao 2.º grau –, no n.º 3 do artigo 119.º do CPP, de recusarem de testemunhar contra
o referido arguido.

Notas Finais Esclarecedoras de Algumas Dúvidas Existenciais

→ A Prova Testemunhal – tem um enorme déficit de fidelidade na medida em que só terá


peso se for o único meio de se chegar a verdade e mesmo nesses casos não levam a um

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convencimento automático do juiz, que deverá avaliar exaustivamente a possibilidade de ser


considerada ou não.

No meio disto tudo, fica por responder a questão em que num determinado processo
termos uma testemunha essencial para descoberta da verdade que não está abrangido por
imunidades, nem prerrogativas e nem recusas, mas que apenas nega a colaboração com a justiça
ou nega testemunhar ou até falta deliberadamente todas as audiências em que devia
testemunhar.

A questão é, qual mecanismo a ser usado para fazer-lhe comparecer? Pode ser detido e
constrangido a testemunhar?

A resposta é obtida por partes, assim:

→ O Código de Processo Penal estabelece alguns direitos às testemunhas, incluindo o


direito de serem pagas, se pretenderem (vide. o n.º 1 do artigo 122.º, máxime alínea b)), mas
também estabelece alguns deveres, deveres esses que nos interessa, constam do n.º 2 do artigo
122.º e são:

--o de alínea a) – que é o dever de apresentar no tempo e no lugar para que for
notificado;

--o de alínea d) – que é o dever de manter à disposição da entidade que preside a


inquirição:

No seguimento disto tudo resultaram algumas obrigações, nomeadamente:

→ O artigo 186.º, n.º 1, do CPP prevê a detenção do interveniente que faltar acto
processual com excepção do magistrado e advogado;

→ O artigo 237.º, n.º 1, do CPP falou na possibilidade de assegurar a comparência da


testemunha na audiência; e,

→ Por indicação do artigo 2.º do CPP que permite: (i) a analogia com as normas do CPP;
(ii) observância das normas do CPC harmonizáveis com o processo penal; e (iii) observância
dos princípios gerais do processo penal, fica evidente a clara possibilidade de detenção da

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testemunha por recurso às normas do artigo 629.º do CC, nomeadamente a norma da alínea e)
do n.º 1 que fala na possibilidade de depoimento debaixo da prisão; do n.º 2 que fala em
mandado de captura e depoimento sob prisão; e, finalmente, do n.º 3 que fala em manutenção
de testemunha em custódia e na possibilidade dela pagar a multa.

Mas atenção que, estes mecanismos só procedem na ausência de imunidades,


prerrogativas e recusas, mormente se atentarmos ao conteúdo do artigo 119.º, n.º 3, do CPP, em
que a testemunha tem o direito de recusar testemunhar contra os seus ascendentes,
descendentes, cônjuges e parentes até 2.º grau.

2. Prova por Confissão

A Declaração do Arguido/Suspeito/Réu

Tem a sua sede no artigo 124.º do Código de Processo Penal e uma dupla natureza
processual, a saber:

– A natureza de Meio de Prova; e,

– A natureza de Meio de Defesa.

→ A Confissão – terá o valor probatório sujeitado a livre apreciação do Tribunal no geral,


mas dependendo da fase do processo, pode ocorrer algumas variações:

– Uma confissão ocorrida na fase do inquérito – não encerra a possibilidade de as


autoridades produzirem as provas para precaverem o possível acto de invalidação da confissão
do suspeito que deixaria o tribunal sem saída.

– Uma confissão na fase de julgamento – encerra qualquer possibilidade de sobre


aqueles mesmos factos se produzir a prova, desde que a confissão é feita de forma livre e
esclarecida e não haja motivos para o tribunal suspeitar da sua veracidade e, sobretudo, quando
se tratar de factos que integram o crime cuja moldura máxima da pena não exceda a 3 anos de
prisão.

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→ A Declaração do Co-Suspeito – é valorada, quando feita integralmente, da mesma


forma.

→ A Declaração do Assistente – comporta a natureza de meios de prova e é equiparado


a prova testemunhal. Pelo menos é o que consta do artigo 125.º, n.º 2, do CPP.

3. Prova por Acareação

Está plasmado no artigo 126.º do CPP e tem lugar quando houver declarações
contraditórias que o tribunal achar pertinente esclarecer.

Atenção que uma declaração contraditória não é rigorosamente sinónimo de declaração


mentirosa. É sim diferença na apreensão da sensação, percepção e expressão dos factos.

Há uma excepção: o perito não é posto a contraditar por uma razão lógica que se prende
com as faculdades de desequilíbrio que ele tem, sendo ele detentor de conhecimentos
específicos que não estão à altura de qualquer pessoa confere-lhe sim argumentos capazes de
assassinar os do seu contra-argumentador, numa acareação.

Não há referência ao perito no artigo 126.º do CPP que estabelece a possibilidade de


existência de acareação entre alguns participantes processuais.

Também não há referência em relação às partes civis, mas compreende-se que estes sim
podem ser sujeitadas a acareação.

A acareação pode ser feita em qualquer fase do processo em que seja permitida prova por
depoimento.

4. Prova por Reconhecimento

Está prevista no artigo 128.º do Código de Processo Penal e incide fundamentalmente


sobre as pessoas – falar-se-á de reconhecimento de pessoas, tendo como norma acolhedora o
artigo 128.º do CPP e sobre os objectos – falar-se-á de reconhecimento de objectos, tendo como

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norma acolhedora o artigo 129.º que observa as estipulações dos vários números do artigo 128.º
do CPP.

A prova por reconhecimento tem um apertado regime de validade que importa aqui
detalhar, desde logo:

a) – o facto de não ser o método directamente aplicável, quer dizer que só se aplica quando
a partir do seu relato das características faciais da pessoa do suspeito o agente caracterizador
construir a imagem facial do suspeito e ele não conseguir identificá-la cabalmente, segundo as
exigências do artigo 128.º, n.º 1, do CPP; e,

b) – o facto de o reconhecimento dever ser realizado, por norma, no decorrer de uma


audiência, no tribunal, e fora dela apenas quando for respeitada todas as exigências plasmadas
no n.º 2 do artigo 128.º do CPP, que se prendem com a colocação da pessoa a reconhecer no
meio de várias outras pessoas com características físicas idênticas e idênticos modos de vestir,
em que quem deve proceder ao reconhecimento deve em primeira mão declarar se algum dos
presentes é a pessoa a reconhecer e se sim quem é de concreto.

Ex: Já temos vários casos em que isto aconteceu, como por exemplo, no processo de
Domingos Simões Pereira VS Pansau Ntchama e no processo de Iaia Dabó.

Nota: O Reconhecimento consiste na confirmação de uma perceção sensorial anterior.


Não serve para introduzir um elemento novo de prova, mas sim para confirmar um elemento de
prova já admitido.

Sem embargo do CPP ter falado apenas de reconhecimento de pessoas e reconhecimento


de objectos, a verdade é que o meio de prova denominado reconhecimento pode incidir ainda
sobre: (i) sons; (ii) cheiros; e, (iii) qualquer outros fenómenos captados pelos órgãos de sentido.

Isto porque não são meios de prova proibidos nos termos do artigo 113.º, significa
automaticamente que nada tolhe que se proceda com reconhecimento de sons e cheiros. Ex.:
Há um caso de direitos reais que tinha a ver com a prova do direito da propriedade, que foi feito
mediante reconhecimento do som de uma música que tocava repetidas vezes durante a
madrugada e que importunava os vizinhos inclusive, tendo estes últimos sido chamado à
confirmação do som da música.

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A prova por reconhecimento carecerá de valor probatório, se efectivamente se conseguiu


provar a existência, por parte do reconhecedor, de um contacto visual prévio, no sentido de ser-
lhe exibido de antemão uma fotografia do suspeito.

Obs: A prova por reconhecimento é uma prova irrepetível.

5. Reconstituição do Facto

Não vinha previsto, de modo autonomizado, no Código de Processo Penal português


aquando da criação do Código de Processo Penal guineense em 1993, daí não ser decalcado
neste último.

O actual Código de Processo Penal português prevê a figura de Reconstituição do Facto


no seu artigo 150.º e o CPP guineense ainda não a prevê.

Mas isso não quer dizer que a figura jurídica de reconstituição de facto não é aplicada na
Guiné-Bissau – o que tornou possível por força da Inspecção Judicial existente no âmbito do
Processo Civil, concretamente no artigo 612.º, que confere ao tribunal a possibilidade de
realizar a reconstituição dos factos.

Contudo, uma diferenciação se impôs entre:

→ A Inspecção Judicial – que é um meio de obtenção de prova. Ao passo que,

→ A Reconstituição dos Factos – que é em si um meio de prova, visto que é uma fonte
de convencimento, que ajuda a formar a convicção e que ajuda a fundamentar um certo juízo.

Reconstituição de Facto – significa repetir a ocorrência de determinado facto. Se quiser,


é a representação da realidade suposta. Incide sobre o próprio facto típico, uma parte dele ou
parte dos seus elementos ou circunstâncias.

Na Reconstituição dos Factos podem intervir os peritos para execução de operações


determinadas.

A publicidade na diligência da reconstituição deve ser evitada.

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Nota Final: Na Guiné-Bissau, a reconstituição de factos é admitida por força do princípio


da máxima admissibilidade de meio de prova, constante no artigo 113.º do CPP.

6. A Prova Documental

O Código de Processo Penal guineense, ao invés do CPP português que dá definição do


documento no seu artigo 164.º, n.º 1, não dá uma definição do documento, pelo que só
alcançamos a tal noção por via da deixa constante no artigo 2.º do CPP, principalmente por via
do artigo 132.º do CPP que abriu a possibilidade de socorrer-se da definição do documento
constante no artigo 362.º, n.º 1, do CC, segunda a qual o Documento é qualquer objecto
elaborado pelo homem com o fim de reproduzir ou representar uma pessoa, coisa ou facto.

Nota: A prova documental, por via dos documentos autênticos, autenticados ou


particulares autenticados, faz prova plena e escapa ao critério de apreciação segundo a livre
convicção da entidade julgadora, segundo o que consta do artigo 117.º, n.º 2, do CPP.

Espécies de Documentos:

1 – Documentos Particulares – têm a sede nos artigos 131.º, n.º 1, do CPP conjugado com
artigo 373.º e ss do CC, e são, a partida, livremente apreciados pelo tribunal quando não forem
autenticados – artigo 131.º, n.º 1, do CPP. Quando forem autenticados ou reconhecidos
assinatura, o CC reconhece-lhes a força probatória plena, conforme resulta da leitura conjugada
entre artigos 376.º e 377.º do CC.

2 – Documentos Autênticos – são os exarados pela autoridade ou oficial público


competente – fazem prova plena, ab initio, a não ser que a sua autenticidade ou a veracidade do
seu conteúdo sejam postas em causa, por via da arguição de falsidade do documento. Artigo
131.º, n.º 2, do CPP conjugado com artigo 371.º, n.º 1, do CC.

3 – Documentos Autenticados – também fazem prova plena, ab initio, nos termos dos
artigos 131.º, n.º 2, do CPP conjugado com artigo 377.º do CC, e só deixarão de fazer se a
veracidade do seu conteúdo for posta em causa.

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4 – Documentos Falsos – são definidos no n.º 2 do artigo 372.º do CC e não têm qualquer
valor probatório no âmbito do processo penal.

Obs.: Os documentos falsos não só não têm qualquer valor probatório como
também é obrigatório, uma vez detectados num determinado processo, que o juiz participa-os
ao Ministério Público para que este abra um competente inquérito por crime de falsificação
previsto no artigo 199.º do CP, conforme resulta da leitura conjugada das normas dos n.ºs 3 e 4
do artigo 131.º do CPP.

7. Prova Pericial

A Perícia – é a apreciação dos factos probandos efectuada por pessoas dotadas de


especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos.

O objecto da prova pericial é a percepção dos factos ou a sua valoração, e porque não a
sua apreciação.

A prova pericial vem prevista no artigo 133.º do Código de Processo Penal da Guiné-
Bissau, e trata-se de uma prova repetível ou renovável a qualquer altura do processo, sempre
que as circunstâncias do caso assim determinar e desde que se demonstre fundadamente os
motivos, conforme atesta o artigo 135.º do CPP.

Valor probatório da prova pericial – o relatório pericial se impõe ao julgador sem


necessidade de contraprova, se não existir a discordância técnica, científica ou artística. Quer
isto significar que ab initio, a prova pericial faz prova plena e leva a um convencimento directo
do juiz – o que quer significar que a prova pericial é uma prova de valor reforçado que escapa
inclusive o critério de livre apreciação do juiz e que apenas poderá ser afastada se eventualmente
existir um outro relatório pericial de igual valor que o inquinou por completo, de acordo com o
postulado no 136.º e no n.º 2, do artigo 117.º do CPP.

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Autópsia e o seu tratamento:

Avaliações efectuadas para descobrir a identidade da vítima, as circunstâncias naturais ou


artificiais qua a vitimou e descobrimento de mecanismos utilizados para se ter a vítima como
resultado da actuação.

Reconhecimento de cadáver:

Pode ser um mecanismo que antecede a realização da autópsia ou exame no concernente


à descoberta da identidade da vítima.

Exames nas ofensas à integridade física e nos crimes sexuais

Visam determinar a incidência da lesão provocada para saber como classificar a ofensa.

Visam comprovar a existência ou não da penetração a sua lesividade e identidade da


pessoa do violador.

Meios de Obtenção de Prova

São meios de que servem as Autoridades Judiciais para investigar e recolher meios de
prova.

Por vezes o próprio meio de obtenção de prova acaba por ser também um meio de prova.
Ex.: A escuta telefónica é um meio de obtenção de prova, mas as gravações são já meios de
prova.

Os meios de prova constam dos artigos 137.º a 147.º do Código de Processo Penal
guineense, contudo se olharmos para aquilo que está escrito como enunciação do Capítulo III
pertencente a estes artigos veremos que está “Dos Meios de Prova” o que é, antes de mais,
muito repetitivo e gerador de dúvidas quando confrontado com a enunciação do Capítulo II,
que vão dos artigos 118.º a 136.º do CPP, em que também consta “Dos Meios de Prova”, mas
a verdade é que a tal incongruência nunca poderá ser interpretado como sendo a real intenção

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do legislador contando que, a partida, os meios de prova não são confundíveis com os meios de
obtenção de prova e isso deverá bastar para a condução à uma reflexão lógica da qual resulta
que se trata de um mero erro de escrita afastando o possível desconhecimento que poderia ser
imputado ao legislador e afastando a possível confusão na mente dos interpretes e aplicadores
do Código de Processo Penal.

O Código de Processo Penal tipifica no artigo 137.º a 147.º os meios de obtenção de


prova, e fala-nos:

--Das Revistas – no artigo 137.º, n.º 1;

--Das Buscas – no artigo 137.º, n.º 2;

--Das Apreensões – no artigo 141.º;

--Dos Exames – no artigo 143.º; e,

--Das Escutas Telefónicas – no artigo 144.º.

Nota Prévia: Os meios de obtenção de prova não são fontes de convencimento de


realidade factual, não interferem directamente na formação de convicção e não servem para
fundamentar, de per si, um certo juízo, contrariamente aos meios de prova que são fontes de
convencimento da existência de certa realidade factual, que ajudam a formar convicção e que
ajudam a fundamentar um juízo.

Eles são os meros mecanismos de actuação que conduzem, como o próprio nome indica,
à obtenção de meios de prova.

Garantia Constitucional

A garantia constitucional passa por já badalado artigo 42.º, n.º 6, da CRGB que considera
nula todas as provas obtidas mediante torturas, coacção, ofensa à integridade física ou moral da
pessoa, abusiva intromissão na vida privada, no domicílio, na correspondência ou nas
telecomunicações.

A tutela ou reserva jurisdicional e as suas excepções:

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O Ministério Público joga um papel importantíssimo na justa medida em que é ele quem
emite o despacho para autorizar a maioria de actuação tendentes à obtenção de meios de prova.
Assim é nas situações de: (i) Buscas e Revistas – artigo 138.º, n.º 1, do CPP; (ii) Apreensões –
artigo 141.º, n.º 1, CPP; e, (iii) Exames às pessoas que carecem do despacho do Ministério
Público – artigo 143.º, n.º 3, do CPP lido ao contrário.

Há dois tipos de excepções nesta matéria:

1 – Excepções legais ou dadas pela lei – em que temos a dispensa do despacho prévio do
Ministério Público que autoriza as buscas, revistas e apreensões, havendo situações de flagrante
delito – nos termos dos artigos 138.º, n.º 1, e 141.º, n.º 1, conjugados com artigos 58.º, n.º 1, e
54.º, ambos do CPP.

Quanto ao exame a excepção lega cinge de um modo cabal sobre: os lugares e as coisas.
E de um modo fracionado sobre: as pessoas que não carecem do despacho prévio do Ministério
Público – artigo 143.º, n.º 3, do CPP.

2 – Excepções pessoais ou dadas pela pessoa do visado – em que temos o consentimento


que gera a dispensa do despacho autorizativo prévio do Ministério Público para a sua realização.
Exemplos:

--A partida, uma pessoa não pode ser revistada fora do caso de flagrante delito se não for
apresentado o despacho do MP que autorizou a revista – artigo 138.º, n.º 1 e 5, do CPP, mas se
a pessoa consentir por escrito – repare que o consentimento verbal não serve –, a diligência já
torna válida – artigo 140.º, n.º 1, CPP.

--Uma casa de habitação não pode ser objecto da busca durante final da noite e durante a
madrugada, isto é, nem depois das 08 horas da noite, nem antes das 06h00 de manhã – segundo
artigo 139.º do CPP, mas se for consentido por escrito torna a diligência válida – artigo 140.º,
n.º 2, do CPP.

Doutro polo, o juiz joga um importantíssimo papel no concernente àquela parcela de


meios de obtenção de prova chamado de escutas telefónicas, na medida em que é ele, só ele, e
mais ninguém, quem emite o despacho que autoriza as escutas, segundo artigo 144.º, n.º 2, do
CPP.

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Tópicos:

Revista

Vem prevista no artigo 137.º, n.º 1, do CPP, incide sobre uma pessoa e visa a apreensão
de objectos relacionados com o crime que possam servir como meio de prova que alguém
transporta (na mala, no carro, no caixote, etc.) ou que esconde na sua pessoa (no bolso, nas
axilas, na boca, no boné / chapéu, etc…).

É efectuada pelos órgãos de polícia criminal – artigo 138.º, n.º 2, do CPP.

Deve respeitar a dignidade pessoal e o pudor do visado – 138.º, n.º 3, do CPP.

Buscas

Vêm igualmente previstas no artigo 137.º do CPP, mas já no n.º 2 do referido artigo, e
incidem sobre casas, escritórios, consultórios, oficinas, condomínios privados,
estabelecimentos, fábricas ou qualquer outro lugar reservado ao público.

Visa apreensão de objectos relacionados com o crime que possam estar escondidas
naquelas localidades, ou a própria apreensão de uma pessoa que deva ser detida, mas que está
foragida, escondida ou em fuga.

É efectuada pelos órgãos de polícia criminal – artigo 138.º, n.º 2, do CPP –, e deve
igualmente respeitar a dignidade pessoal e o pudor do visado.

Apreensões

Vêm previstos no artigo 141.º do CPP e incidem sobre objectos, veículos, documentos,
dinheiro do crime, etc…

Diferenças de tratamento dos objectos apreendidos:

--Se for documentos – serão juntos ao processo – 141.º, n.º 2, do CPP;

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--Se for pertences – serão guardados pelo escrivão da secção ou por fiel depositário – caso
se tratar de joias, pedras preciosas ou veículos, se a Polícia, o MP, ou o Tribunal não tiver cofres
fortes próprios ou salas das provas ou parques próprios – artigo 141.º, n.º 2, do CPP; e,

--Se for coisas perigosas ou perecíveis o MP ordenará a sua destruição, venda ou


afectação à finalidades socialmente úteis – artigo 141.º, n.º 3, do CPP.

Destinos dos objectos apreendidos

Por imposição do artigo 142.º do CPP normalmente todos os objectos apreendidos devem
ser restituídos a final, salvo os:

--perigosos;

--perecíveis; e

--os que devem ser confiscados.

O n.º 1 diz que, por norma, os objectos apreendidos não devem ser considerados perdidos
a favor do Estado.

O n.º 2 diz que a restituição é efectuada desde que se torne desnecessária a apreensão para
efeitos de prova ou quando a decisão final transitar em julgado.

Os titulares dos objectos apreendidos serão notificados do despacho que ordenou a


restituição e devem, no período de 60 dias, a contar da notificação, proceder com os seus
levantamentos. Se não o fizerem, os mesmos serão declarados perdidos a favor do Estado –
artigo 142.º, n.º 3, do CPP.

Exames

Vêm previstos no artigo 143.º do CPP e é feita às pessoas, aos lugares e às coisas,
conforme atesta o artigo 143.º, n.º 1, do CPP.

Tem como finalidade: --documentar vestígios deixados pelo crime, e,

--descobrir: Quem? Como? Quando? e Onde? o crime foi


praticado, segundo resulta do artigo 143.º, n.º 2, do CPP.

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Escuta Telefónica

Vem previsto no artigo 144.º do CPP e conta com as seguintes limitações legais:

--Só pode ser ordenada relativamente a crimes puníveis com pena superior a 3 anos de
prisão e se a escuta for essencial à descoberta da verdade – artigo 144.º, n.º 1, do CPP;

--Só pode ser autorizada pelo juiz – artigo 144.º, n.º 2, do CPP;

--Não pode incidir sobre conversas entre o arguido e o seu defensor – artigo 144.º, n.º 3,
CPP.

Artigo 146.º permite a realização de gravações particulares desde que se cumpra 2


requisitos:

--Dar conhecimento prévio ao juiz, segundo o n.º 1; e,

--Não provocar que o outro interlocutor diga coisas que o incriminem, conforme o n.º 2.

Artigo 147.º do CPP prevê um princípio de equiparação que abarca, as conversações, as


comunicações, os correios eletrónicos, as câmaras de vídeo vigilância, filmes ou filmagens,
fotografias, satélites, screenshots, etc.

Algumas excepções:

--A questão da criminalidade organizada ou transnacional aí a escuta dificilmente carece


de autorização ou da ordenação do juiz, sobretudo se num caso de terrorismo a escuta se revelar
como o meio mais eficaz para evitar o resultado e se o resultado poria em causa a integridade
física das pessoas ou então a vida das pessoas.

--A possibilidade de extradição dos nacionais contrariando as normas constitucionais e


penais.

--A possibilidade de inversão de ónus de prova, por exemplo no crime de branqueamento


de capital – vide a nova lei do CIENTIF – artigos 5.º, 93.º, 96.º e 156.º.

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As Medidas de Coacção e de Garantia Patrimonial

Definição de Medida de Coacção – entende-se por medida de coacção e de garantia


patrimonial toda e qualquer limitação dos direitos pessoais de liberdade ou direitos patrimoniais
destinadas a acautelar certos riscos ou à satisfação de certas exigências processuais.

A sua aplicação depende fundamentalmente da observância de:

1 – Princípios;

2 – Condições Gerais;

3 – Requisitos Gerais;

4 – Requisitos Específicos; e,

5 – Critérios de Escolha.

1 – Princípios:

Na verdade os princípios das medidas de coacção são também aplicados às medidas de


garantia patrimonial e são desde logo:

1.1. – Princípio da Legalidade – vem previsto no artigo 148.º do CPP e diz-nos, no


seu n.º 2, que as medidas de coacção aplicáveis têm que ser exclusivamente aquelas que estão
previstas na lei e que só podem ser aplicadas para satisfazer as exigências processuais de
natureza cautelar. No n.º 2, do mesmo artigo, consta uma pequena separação que consiste em
as medidas de coacção serem aplicadas apenas aos suspeitos/arguidos enquanto que as medidas
de garantia patrimonial já podem ser aplicadas quer ao suspeito / arguido, quer ao responsável
civil.

O referido artigo excetua do âmbito da conceção de medidas de coacção, o simples facto


de um agente policial interpelar qualquer cidadão e exigir-lhe que identifique. Ou seja, do n.º 3

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do referido artigo resulta uma clara exclusão de obrigação de identificação de qualquer cidadão
perante autoridade competente.

1.2. – Princípio da Proporcionalidade – que engloba num sentido amplo a


necessidade, a adequação e a proporcionalidade em sentido restrito –, vem previsto no artigo
149.º do CPP, sendo certo que:

alínea a) – diz respeito a vertente da adequação;

alínea b) – diz respeito a vertente da proporcionalidade; e,

alínea a) – voltou a dizer respeito indirectamente a vertente da necessidade;

alínea c) – plasma o denominado Princípio da Preferência ou de Aplicação Mínima


ou, se se pretender, Princípio da Subsidiariedade das medidas de coacção.

1.3. – Princípio da Judicialidade – vem previsto no artigo 151.º do CPP, mormente


nos n.ºs 2 e 3 do mesmo e quer nos deixar a informação de que a aplicação da medida de
coacção, com excepção do TIR que também pode ser aplicado pela polícia, só pode ser
efectuada por duas das autoridades judiciárias, o Ministério Público – se o processo se encontrar
na fase de inquérito e o Juiz de Instrução – se o processo se encontrar na fase de instrução. De
referir que a aplicação da medida de coação pressupõe a existência prévia de um processo que
deverá ser tutelado por uma das autoridades judiciárias – dai a adveniência da judicialidade.

1.4. – Princípio da Subsidiariedade, também denominado de Princípio de


Preferência ou Princípio de Aplicação Mínima das Medidas de Coacção – vem previsto no
artigo 149.º, alínea c) do CPP e quer nos passar a ideia de que sempre que possível as medidas
de coacção a aplicar deve ser a partida a menos gravosa, menos insidiosa ou menos restritiva
dos direitos, o que não deixa margem para concluir que o legislador quis atribuir a natureza
subsidiária à duas principais medidas que são: (i) a prisão preventiva – artigo 160.º do CPP; e
(ii) a obrigação de permanência na habitação – artigo 159.º do CPP. A Guiné-Bissau parece não
ter de forma clara esta última medida, porquanto o legislador apenas diz tratar-se de obrigação
de permanência, ao que suscitará a dúvida sobre se se trata de obrigação de permanência na
habitação (a mais grave em relação) ou se se trata de obrigação de permanência no país (a menos
grave em relação). Grosso modo, o artigo está mais virado para a obrigação de permanência no

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país, contudo se pode fazer uma leitura do espírito da norma da alínea b), do n.º 1, do artigo
159.º e dela concluir que “do local em que vive” constante da referida norma levará ao
entendimento de que se trata da habitação, a casa de morada ou o local da residência.

1.5. – Direito de Defesa e Audiência – é mais uma garantia do que propriamente


um princípio, não veio contemplado directamente no nosso sistema, contudo pode ser retirado
da própria regra geral do artigo 148.º, n.º 1, do CPP, que diz que as medidas de coacção só
podem ser aplicadas ao suspeito / arguido. Significando isto que se ele já é / foi constituído
arguido é automaticamente porque já foi dado o direito de audiência – observando o
contraditório –, e a sua defesa já está a ser garantida rigorosamente.

2 – Condições Gerais:

Prende-se fundamentalmente com apenas duas condições que são igualmente extensíveis
às medidas de garantia patrimonial, e são elas:

2.1. – A taxatividade das medidas de coacção e de garantia patrimonial – constante


do n.º 2 do artigo 148.º do CPP.

2.2. – A prévia constituição do arguido – constante do n.º 1 do artigo 148.º do CPP.

3 – Requisitos Gerais:

Os requisitos gerais de medidas de coacção são extraídos das velhas máximas processuais,
vulgarmente conhecidas por “Fumus Comissi Delicti” e “Periculum Libertatis”.

Do Fumus Comissi Delicti – retiramos a ideia de que para a aplicação de qualquer


medida de coacção é necessário que seja possível formular um juízo de indiciação da prática de
certo crime doloso do agente e ao mesmo tempo não deva existir fundados motivos para crer
na existência de qualquer causa de isenção de responsabilidade ou extinção do procedimento
criminal.

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Do Periculum Libertatis – encontramos a exigência de que para se optar pela


aplicação de medidas de coacção há que existir efectivamente riscos constantes do artigo 150.º
do CPP, a saber: (i) alínea a) – fuga ou fundado perigo de fuga do suspeito; (ii) alínea b) –
fundado perigo de perturbação da investigação ou da realização da audiência do julgamento; e,
(iii) fundado perigo de continuação da actividade criminosa ou perturbação da tranquilidade
pública em razão da natureza e circunstâncias do crime e da personalidade do agente.

4. – Requisitos Específicos:

Prende-se com aqueles requisitos pertencentes a cada uma das medidas de coacção que
complementam os requisitos gerais de aplicação das mesmas e são encontrados, sem nenhuma
surpresa, nos artigos que falam detidamente e de modo singular de cada modalidade de medida
de coacção.

5. – Critérios de Escolha da Medida de Coacção a aplicar – as imposições


legais em relação a esta questão vão no sentido de considerar que a escolha de qualquer medida
deve respeitar, no caso concreto, a necessidade, a adequação e a proporcionalidade conforme o
estampado no artigo 149.º do CPP.

As Modalidades de Medidas de Coacção

Importa dizer que na Guiné-Bissau temos as seguintes medidas de coacção:

(i) – TIR – Termo de Identidade e Residência – artigo 153.º do CPP;

(ii) – Obrigação de Apresentação Periódica – artigo 154.º do CPP;

(iii) – Caução Carcerária – artigo 155.º do CPP;

(iv) – Obrigação de Permanência no País – artigo 159.º do CPP; e,

(v) – Prisão Preventiva – artigo 160.º do CPP.

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Em termos paralelos, em Portugal há as seguintes medidas:

(i) – TIR – Termo de Identidade e Residência;

(ii) – Obrigação de Apresentação Periódica;

(iii) – Caução Carcerária;

(iv) – A Suspensão do Exercício da Profissão, de Funções, de Actividades e de Direitos;

(v) – A Proibição e Imposição de Condutas

(vi) – Obrigação de Permanência na Habitação; e,

(vii) – Prisão Preventiva.

TIR – Termo de Identidade e Residência

Vem previsto no artigo 153. º do CPP e é a única medida de coacção que pode ser aplicada
no âmbito de qualquer processo (comum ou especial, independentemente da gravidade da pena
aplicável, bastando que se verifique a constituição do arguido) e é a única que também pode ser
aplicada por qualquer entidade da investigação criminal, num sentido lato, e, num sentido
estrito, é a única que pode ser aplicada pela polícia, as restantes nunca podem ser aplicadas pela
polícia.

Há uma possibilidade clara de o TIR ser acumulável com qualquer outra medida de
coacção ou de garantia patrimonial – artigo 153.º, n.º 1, do CPP.

Há quem diga que o TIR não é uma verdadeira medida de coação por não ser abrangidos
pelos requisitos gerais do artigo 150.º do CPP, logo na primeira parte. Mas deve se compreender
que o TIR é sim uma verdadeira medida de coacção, pois não se encontra na excepção prevista
no artigo 148.º, n.º 3, do CPP uma vez que é mais pesada do que uma mera obrigação de
identificação perante polícia que pode calhar a qualquer pessoa. E, mais, o facto de o TIR poder
ser aplicado pela polícia não lhe retira o carácter de medida de coacção e não obstante o facto
de ser uma medida de coacção bastante leve não lhe retira, de uma ou outra forma, o carácter
restritivo de liberdade e a obrigação de concessão de satisfação à polícia sobre a residência.

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A Obrigação de Apresentação Periódica

Vem prevista no artigo 154.º do CPP e só pode ser aplicada se o crime for punível com
pena superior a um ano, mediante o despacho geralmente do Ministério Público que delimita a
forma como a apresentação passará a ser feita – o que pode ser perante uma autoridade judiciária
ou entidade policial.

A Caução Carcerária

Vem prevista no artigo 155.º e trata-se de uma medida aplicável ao crime punível com
pena superior a dois anos de prisão e que não prevê directamente a autoridade judiciária que a
aplica, contudo por via indirecta, isto é, atento a norma do n.º 2 do artigo 157.º do CPP que
dispõe sobre a quebra de caução em que refere a impugnação da caução ou por via da
reclamação ou por via de recurso “conforme tenha sido o Ministério Público ou o Juiz,
respectivamente, quem a aplicou”.

Com base nestas palavras do legislador ficaremos a saber que a caução carcerária é
aplicada ou pelo Ministério Público ou pelo juiz.

Segundo o artigo 156.º do CPP, a caução carcerária pode ser substituída por qualquer
outra medida de coação, excepto a prisão preventiva.

O artigo 158.º, n.º 1, do CPP estabelece as regras de levantamento da caução e diz-nos


que o tribunal, oficiosamente, declara sem efeito a caução se houver: (i) decisão final transitada
em julgado; (ii) a prisão do arguido; (iii) se verificar qualquer causa de extinção da
responsabilidade criminal; e, (iv) se porventura a caução se tornar desnecessária.

O n.º 2 do referido artigo estabelece que o levantamento da caução implica o


cancelamento do registo da hipoteca, ou restituição do depósito ou objectos penhorados ou
extinção da responsabilidade do fiador.

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Obrigação de Permanência no País

É uma medida aplicável aos crimes com pena de prisão superior a três anos que consiste
em criação de mecanismos impeditivos da ausência ou viagem sem autorização por parte do
arguido, previstos no n.º 1 do artigo 159.º do CPP.

Medidas estas que podem levar a apreensão dos passaportes, que são considerados
documentos de viagens por excelência, sem descurar o caso guineense em que por causa dos
efeitos da regionalização ou comunitarização, tendo sido autorizado a livre circulação de
pessoas e bens dentro do espaço da CEDEAO e sabendo que a tal circulação é sim facilitado
bastando ter o Bilhete de Identidade de um dos Estados membros da comunidade, faz nascer a
obrigação de a autoridade judiciaria que a aplica também apreender o respectivo Bilhete de
Identidade. A exigência não só tem que ver com a simples apreensão, mas também com a
comunicação da mesma às entidades emissoras e as que estão encarregues de controlo
fronteiriço.

Esta medida pode ser levantada a requerimento do arguido que prestar ou reforçar a
caução que o tribunal entenda adequada às circunstâncias cautelares exigíveis no caso.

Neste tipo de medida pode ser cogitável a utilização de meios tecnológicos de controlo à
distância, como é o caso de utilização de pulseira electrónica.

Prisão Preventiva

Vem prevista no artigo 160.º do CPP e trata-se de uma medida que só pode ser aplicado
por juiz e, igualmente, é uma medida apenas aplicável se se observar cumulativamente os seus
requisitos específicos constantes do n.º 1 do artigo 160.º do CPP, sendo certo que da alínea a)
resulta um erro que deve ser corrigido, pois onde se lê “1 anos” deve ler-se 3 anos, por
variadíssimas razões que não nos apraz aqui arrolar, sendo que será suficiente apenas dizer que
a prisão preventiva é a mais gravosa de todas as medidas de coação e enquanto tal nunca poderá
ter um requisito específico de moldura penal inferior à moldura penal exigida no requisito
igualmente específico destinado a obrigação de permanência no país – lembra-se que plasma
crimes puníveis com penas superiores a três anos –, que é a medida imediatamente mais gravosa

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que a prisão preventiva. Na mesma senda, também resulta da alínea b) um erro, pois onde se lê
“insolvência” deve-se ler insuficiência.

Feito isso, importa assinalar que do n.º 2 do artigo 160. º do CPP consta a única excepção
a regra intransponível de aplicação das medidas de coacção apenas aos suspeitos formalmente
constituídos e apenas no âmbito de um processo formalmente aberto, pois é categórico em
afirmar que é possível aplicar a prisão preventiva a uma pessoa que penetrar ou permanecer
irregularmente no país ou contra quem corre o processo de extradição ou expulsão.

A aplicação da prisão preventiva requer a observância do contraditório, quer


antecedentemente, quer precedentemente a sua efectiva aplicação pelo juiz a quem deve ser
presente a pessoa do arguido, conforme, de resto, atesta a norma do n.º 3 do artigo 160.º do
CPP.

Duração da Prisão Preventiva

Trata-se de uma questão inteiramente ligada a questão dos prazos de duração do inquérito
previsto no artigo 200.º do CPP tendo em linha de conta que neste artigo se retratou duas
situações possíveis: (i) uma situação em que há presos preventivos e (ii) a outra em que não há
presos preventivos. Logo se temos no artigo 161.º uma epígrafe sobre a duração da prisão
preventiva fica obrigatório perceber a dinâmica à volta da duração do inquérito, pelo que deve-
se atentar ao seguinte:

O prazo de duração do inquérito, na Guiné-Bissau, é aferido em conformidade com os


momentos (iniciais e finais), situações em que se encontram os suspeitos e complexidade
investigativa de cada facto, assim:

(i) na situação de máxima restrição (quando houver suspeitos presos


preventivamente/aplicação da medida de coação prisão preventiva) o prazo inicial de duração
do inquérito é de três meses (90 dias) – artigo 200.º, n.º 1, do CPP –, e o prazo final é de cinco
meses (150 dias) – resultante da prorrogação estipulada no n.º 2 do artigo 200.º do CPP,
destinada à casos de especial complexidade investigativa, mediante o despacho do MP;

(ii) na situação de mínima restrição (quando não houver suspeitos presos


preventivamente) o prazo inicial de duração do inquérito é de seis meses (180 dias) – artigo

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200.º, n.º 3, do CPP –, e o prazo final é de oito meses (240 dias), isto é se se contar com a
referida prorrogação do n.º 2 do artigo 200.º do CPP.

Nota telegráfica: o prazo do inquérito na situação de máxima restrição deve ser


conjugado, para melhor perceção, com os prazos constantes do artigo 161.º do CPP em que
pode ser contabilizado prazos mais prolongados do que os constantes no referido artigo 200.º
do CPP, mas que isso não crie nenhumas dúvidas em relação à contagem de prazo e a sua regra
supra explicada, porque o artigo 200.º diz respeito aos prazos mínimos e máximos da duração
do inquérito – que é uma única e, por conseguinte, a primeira fase processual –, incluindo as
situações de presos preventivos/máxima restrição, enquanto que o artigo 161.º dispõe sobre os
prazos máximos de duração de prisão preventiva – que é uma situação que pode estender para
lá da fase do inquérito se as especificidades do caso a justificar e ou se a perigosidade inerente
à pessoa do arguido a requer.

Feitas estas considerações que evitam a possível confluência, deve-se concluir que o
constante no artigo 161.º – que narra a situação de duração da prisão preventiva –, deve ser
visto como cláusula travão ou algo que quebra o à-vontade ou a inoperância do Ministério
Público conquanto que as normas das alíneas do seu n.º 1 obriga ao mesmo (e não só, também
obriga ao Tribunal) a desenvolver qualquer tarefa nos prazos mais curtos, ou seja: ainda que
vão ter aqueles meses todos, mas deve-se ter apenas parcelas dos mesmos para desencadear
certos atos de acordo com cada fase do processo, isto é, do inquérito ao julgamento.

Obs.: Há outras especificidades ainda da prisão preventiva que já não vou a tempo
de esclarecer.

Meios de Impugnação de Medidas de Coacção

Com exceção do TIR, as outras medidas de coacção são impugnáveis por:

Reclamação para o superior hierárquico, se forem aplicadas pelo Ministério


Público, nos termos dos n.ºs 1 e 2 do artigo 170.º do CPP; e,

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Recurso, se forem aplicadas por juiz, nos termos do artigo 170.º, n.º 1, do CPP.

Habeas Corpus por Prisão Ilegal – artigo 171.º do CPP conjugado com artigo 39.º, n.º 3,
da CRGB. As suas formalidades constam do artigo 172.º do CPP.

Habeas Corpus por Detenção Ilegal – artigo 190.º do CPP conjugado com artigo 39.º, n.º
3, da CRGB. As suas formalidades constam do artigo 190.º, n.º 1 e 2, do CPP.

Medidas de Garantia Patrimonial

1 – Caução Económica – vem prevista no artigo 174.º do CPP e o seu n.º 1 plasma que é
só aplicada quando houver fundado receio de que a pessoa ou, nesse caso, o arguido pode vir a
faltar o pagamento da pena pecuniária ou quando houver artifícios do mesmo que diminuam
substancialmente as garantias de pagamento da pena pecuniária ou imposto de justiça. Ex.: se
o presumível condenado começar a vender ou a doar o seu património.

Desencadeamento da sua aplicação:

--Pode ser aplicada oficiosamente; ou,

--Pode ser aplicada a requerimento da parte ou do presumível afectado, com a delapidação


do património por parte do presumível condenado.

É aplicada ao arguido tal como as outras medidas, conforme o n.º 1 do artigo 174.º do
CPP, mas também é aplicado ao responsável civil, segundo o n.º 2 do referido artigo.

A lei prevê, como garantia substitutiva da caução económica, o arresto preventivo, no


artigo 175.º do CPP (há que se ver os artigos 619.º do CC, 402.º do CPC e 403.º do CPC). O n.º
2 do artigo 175.º do CPP diz ser possível arrestar até os bens de um comerciante.

O carácter substitutivo do arresto face à caução económica é atestado pelo n.º 3 do artigo
175.º do CPP, na medida em que o arresto é obrigatoriamente revogado logo qua a caução
económica seja paga.

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Finalidades das medidas de garantia patrimonial – destinam-se fundamentalmente ao:

--Multa (penas de multa);

--Imposto de Justiça;

--Custas do Processo;

--Indemnização Civil.

A caução económica é aplicada a qualquer crime independentemente da sua gravidade


desde que se prevê contas por pagar a final.

Meios de Impugnação de Garantias Patrimoniais

A impugnação é feita mediante o recurso.

As garantias patrimoniais podem ser prestadas por uma das possíveis modalidades:

--Depósito;

--Penhor;

--Hipoteca;

--Fiança Bancária; e,

--Fiança.

Obs.: É o juiz quem escolhe a modalidade.

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