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A Direção Do Tratamento e Os Princípios de Seu Poder

O documento discute o texto "A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder" de Lacan. Apresenta uma crítica do pós-freudismo e uma exposição do primeiro ensino de Lacan, contrapondo suas perspectivas em um quadro. Defende que Lacan fez um retorno a Freud enquanto o pós-freudismo representou um desvio, priorizando o ego em vez do inconsciente.

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Ezequiel Martins
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A Direção Do Tratamento e Os Princípios de Seu Poder

O documento discute o texto "A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder" de Lacan. Apresenta uma crítica do pós-freudismo e uma exposição do primeiro ensino de Lacan, contrapondo suas perspectivas em um quadro. Defende que Lacan fez um retorno a Freud enquanto o pós-freudismo representou um desvio, priorizando o ego em vez do inconsciente.

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A DIREÇÃO DO TRATAMENTO E OS PRINCÍPIOS DE SEU PODER

Psicanálise: Clínica - 14 de novembro de 2017


Seminário

A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI

Capítulo I

A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder

Vicente De Nardin, um dos organizadores do Seminário, observou há pouco que


este auditório (do Centro de Estudos Galba Velloso) recebeu o meu nome. De fato… e
isso aconteceu em 1987, ou seja, há exatamente 30 anos. 1987, para mim, foi um ano
extremamente importante, também por outros motivos. Em Curitiba, num Encontro
Brasileiro do Campo Freudiano, fiquei conhecendo Jacques-Alain Miller. Algo que
precipitou a decisão de levar a fundo minha formação lacaniana.
Minha primeira formação psicanalítica aconteceu no Círculo Psicanalítico de
Minas Gerais, após dois períodos de análise com dois analistas (cerca de 9 anos), além
de formação teórica e supervisão. O Círculo dominava amplamente o cenário
psicanalítico de Minas Gerais.
Em 1980, liderei a criação do Colégio Mineiro de Psicanálise, fazendo um corte
na hegemonia absoluta do Círculo. O Colégio, entre outras coisas, difundiu em Minas o
interesse pelo ensino de Lacan. Supunha, entretanto, que seria uma evolução contínua,
sem rupturas. Exatamente por esse motivo, o Colégio acabou, em 1984.
Experimentei na própria carne: levar a fundo a orientação lacaniana exigiria
mudar tudo. Nova análise, nova formalização, nova prática, nova instituição.
Recomeçar!
Sim, nova análise: dois ciclos, com dois analistas. Meu fim de análise lacaniana
aconteceu somente em 2013. No meu último livro (O bem-estar na civilização) deixo
um testemunho dele.
Não pensem que evito meu tema. Pelo contrário, introduzo-me na questão.
Afinal, o que é o artigo de Lacan, título da aula de hoje: “A DIREÇÃO DO
TRATAMENTO E OS PRINCÍOS DE SEU PODER”?
Trata-se de texto de 1958, publicado nos “Escritos”. Para localizá-lo
minimamente: o ensino lacaniano propriamente dito começara em 1953, com o Discurso
de Roma, e sua excomunhão da IPA ocorreu em 1963.
“A DIREÇÃO DO TRATAMENTO” é parte do primeiro ensino de Lacan, no
qual se situam também os outros temas que serão abordados no primeiro semestre deste
ano. O texto versa essencialmente sobre teoria da prática psicanalítica e apresenta duas
vertentes cruciais: uma crítica dos pressupostos vigentes na IPA e uma exposição das
formulações lacanianas.
Em sua crítica, a referência principal é “La psychanalyse d’aujourd’hui” (PDA),
cujos autores Lacan evita nomear, talvez por delicadeza. Citarei, não obstante, os mais
importantes. O editor é Sacha Nacht. O prefaciador é Ernest Jones. Entre os autores,
temos: Serge Lébovici, Maurice Bouvet, Pierre Mâle, Favreau, Diatkine.
As críticas de Lacan ao pós-freudismo não são apenas ácidas. São simplesmente
demolidoras. Não fica pedra sobre pedra…
Olho para minha estante da época, para os grandes mestres de minha primeira
formação, e o que vejo? “A presença do analista” (Sacha Nacht), “O ego e os
mecanismos de defesa” (Anna Freud), “Teoria psicanalítica da neurose” (Oto Fenichel),
“Inveja e Gratidão” (Melanie Klein), “Análise do Caráter” (Wilhelm Reich), “Técnica
Psicanalítica” (Heinrich Racker), “Teoria Psicanalítica da Libido” (Karl Abraham), “A
Estrutura da Teoria Psicanalítica” (David Rapaport), etc., etc. Pois bem. Tudo isso terá
seus fundamentos radicalmente questionados, direta ou indiretamente.
Antes de continuar, um comentário. Alguém poderá, com justa razão,
argumentar: Como apresentar tema tão amplo e complexo como “A DIREÇÃO DO
TRATAMENTO E OS PRINCÍPIOS DE SEU PODER” em apenas uma aula?
De fato, a crítica tem procedência. Pode-se, inclusive, ampliá-la: é tema para um
seminário, ou para um cartel, e não para uma aula. O mesmo poderia ser dito, no
entanto, para todas as outras aulas do Seminário. Como falar, num só fôlego, da direção
do tratamento da histérica, ou do obsessivo, ou do psicótico? Os temas do segundo
semestre, concernentes ao o último Lacan (A segunda clínica de Lacan, A interpretação
borromeana, A doutrina clássica do passe, O passe do parlêtre) não são, quanto a isso,
diferentes.
Reconheço e dou a mão à palmatória. Proponho, mesmo, que se formem cartéis
sobre o(s) tema(s). Trago, porém, meu plano. O que pretendo é uma síntese. Uma
redução. Como falar do que é complexo da maneira mais simples?
É claro que isso tem limites. Mas, tem seu alcance. Para os iniciantes, funciona
como provocação, convocação, estímulo. Para os mais avançados em sua formação,
uma oportunidade de sistematização de suas reflexões.
Em outras palavras: a capacidade de análise implica, dialeticamente, a
capacidade de síntese. Lacan, certa feita, manifestou-se como quem fala de muitíssimas
coisas e, ao mesmo tempo, sempre a mesma coisa.
Miller, por seu turno, propôs resumir todo o primeiro Lacan numa única frase:
“O inconsciente está estruturado como uma linguagem “. Ou todo o último Lacan em
outra frase: “A relação sexual não existe”. Tal é a essência do matema: o que é
complexo da forma mais reduzida, ou mais simples (com menos elementos). Eis o
paradoxo: síntese que exige análise.
Num esforço de síntese, proponho então: “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO E
OS PRINCÍPIOS DE SEU PODER” é um texto que leva adiante, de um lado, uma
crítica radical dos pressupostos teórico-técnicos do pós-freudismo, e de outro lado, uma
exposição metódica da fundamentação da prática do que se convencionou chamar de
primeiro Lacan.

Pós-freudismo X Primeiro Lacan


Minha leitura terá como eixo, por conseguinte, uma contraposição entre a
perspectiva pós-freudiana e a perspectiva lacaniana, considerando-se o primeiro ensino
de Lacan.
QUADRO I

PÓS-FREUDISMO PRIMEIRO LACAN

Desvio de Freud Retorno a Freud

Imaginarização da psicanálise Significantização da psicanálise


(Eu, Defesa, Pessoa do analista, (Sujeito, pulsão, desejo, fantasia,
Contratransferência, Identificação, etc.) inconsciente, transferência, sintoma,
etc.)

Prevalência do eu Prevalência do inconsciente

Contratransferência Desejo do analista

Análise das resistências Interpretação

Presença do analista O analista paga com sua pessoa


(ser do analista) (falta-a-ser do analista)
Reeducação emocional Transmutação do sujeito

A análise como relação dual A análise como relação com o analista


(relação de objeto) (relação com o objeto)

O analista frustra (ou atende) a O analista sustenta a demanda


demanda

Imaginarizar o desejo Tomar o desejo ao pé da letra

Fim de análise: Fim de análise:


Identificação com o analista Identificação com o nome próprio
Des-ser

Apresento um quadro com duas colunas. Na primeira, perfilo considerações


atinentes ao pós-freudismo e na segunda coluna indico o que se opõe a elas no ensino
lacaniano. Assim temos, de um lado, um conjunto capaz de configurar a psicanálise pós-
freudiana, e de outro lado, na outra coluna, uma caracterização do primeiro Lacan. Se,
em vez de uma leitura vertical, for realizada uma leitura horizontal, linha por linha,
percebe-se a cada lance a oposição entre as duas perspectivas.
Aprendi esse método de abordagem com Miller, que o utiliza sistematicamente.
Permite formalizar e elucidar o tema examinado, principalmente quando se procura,
como é nosso caso agora, uma visão de síntese.
À luz da perspectiva lacaniana, como definir, numa única fórmula, a psicanálise
pós-freudiana? Seria, sem dúvida: uma psicologia do ego. Aliás, trata-se de
autodenominação: é por demais conhecida a expressão “ego psychology”, nome sob o
qual se organizou poderosa tendência dentro da IPA.
Quanto ao primeiro Lacan, poderia também ser reduzido a uma fórmula: uma
leitura estruturalista de Freud. Este é, por sinal, o título de importante obra de Oscar
Masotta, autor que introduziu Lacan na Argentina.

Desvio de Freud X Retorno a Freud


Para Lacan, o pós-freudismo é um desvio de Freud. Não se trata, propriamente,
de um abandono de Freud, mas de uma leitura recortada. Poderia ser dito que toda
leitura é um recorte. É verdade. Sendo então, mais preciso: uma leitura recortada de
Freud que deixou fora exatamente o que há de fundamental, o que há de subversivo na
descoberta freudiana.
Sendo ainda mais preciso: o recorte deixou fora aspectos cruciais da primeira
tópica e privilegiou aspectos amenos da segunda tópica. Houve um abrandamento, uma
domesticação da psicanálise, que contribuiu para fazer dela uma pílula palatável para a
cultura ocidental, mormente a norte-americana. Operação que surtiu efeito: a psicologia
do ego dominou amplamente o cenário psi nos Estados Unidos, durante tempo
considerável.
O preço, entretanto, foi alto: a descaracterização da psicanálise, deixando de
lado exatamente a pérola do legado freudiano. Daí a expressão forte: desvio de Freud.
Forçando um pouco os termos, poderia ser dito que, para Lacan, os pós-freudianos são
pré-freudianos.
É nesse contexto que o ensino lacaniano se apresenta como um retorno a Freud.
Também uma leitura recortada, mas que privilegia a originalidade, a base, a virulência
da descoberta psicanalítica. O próprio Lacan formula, de maneira elegante: “O sentido
do retorno a Freud é o retorno ao sentido de Freud”.
A leitura estruturalista retoma o texto freudiano à luz dos conceitos linguísticos.
Principalmente três: significante, que foi buscar em Saussure, metáfora e metonímia,
que foi buscar em Jakobson.

Imaginarização X Significantização da psicanálise


Qual é o cerne do desvio pós-freudiano? Em termos lacanianos, poderia ser dito
que se trata de uma imaginarização da psicanálise. O conceito fundamental, como já foi
dito, é o de eu (ego). A partir daí, é dada grande importância às defesas do eu,
responsáveis pelas resistências à análise. Outra concepção imaginarizada é a ênfase
dada à pessoa do analista, que, com sua presença no cenário analítico, desempenharia
papel de relevo no processo terapêutico. Outros termos amplamente utilizados foram
abordados sobretudo pelo viés imaginário: transferência, contratransferência, fantasia,
identificação, etc.
O primeiro ensino de Lacan, por seu turno, pode ser marcado com justeza como
uma significantização da psicanálise. Darei exemplos.
O falo, concebido inicialmente como objeto imaginário, foi considerado em
seguida como um significante. Num primeiro momento, como significante da castração.
No Seminário 3, sobre “As psicoses”, Lacan avança na elucidação da operação
fundamental dessa estrutura clínica. Afirma tratar-se basicamente de uma rejeição
(Verwerfung). Mais adiante, acrescenta que se trata da exclusão de um significante
primordial. Finalmente, identifica esse significante como sendo o do Nome-do-Pai. E
assim, em termos de afirmação ou exclusão significantes (Bejahung ou Verwerfung),
formaliza as operações fundamentais das três estruturas clínicas.
Vários outros conceitos são reconhecidos em sua dimensão primariamente
significante. Citarei alguns: inconsciente, pulsão, desejo, fantasia, transferência,
identificação, Édipo.
A certa altura, no entanto, Lacan faz uma pausa. Nem tudo é significante. Há
uma exceção: o objeto (a). É o início da virada no seu ensino.

Prevalência do eu X Prevalência do inconsciente


A psicologia do ego (ego psychology) teve um trio fundador: Hartmann, Kris e
Lowenstein.
Lowenstein foi o analista de Lacan; sua análise com ele durou sete anos.
Kris foi o analista do homem dos miolos frescos, célebre caso que Lacan
comenta em “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO”.
Quanto a Hartmann… bom, Lacan morreu internado na Clínica Hartmann. Um
Hartmann nada tem a ver com o outro, mas, para quem é lacaniano, estas coisas
pesam…
A psicologia do ego tornou explícita uma tendência que grassava na IPA: a de
valorizar o ego e os processos conscientes em detrimento do inconsciente e da pulsão. A
isso se opôs com veemência o retorno lacaniano a Freud.
O retorno à primazia do inconsciente está resumido numa frase, sobre a qual
muita tinta já se gastou: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”.
Inconsciente concebido não como um conteúdo, mas como uma hiância (ou um lugar), e
regido por duas operações principais: a metáfora (condensação) e a metonímia
(deslocamento).
Sua expressão clínica é dada pelas formações do inconsciente: sonhos, atos
falhos, chistes, sintomas.

Contratransferência X Desejo do analista


Entre os pós-freudianos, uma tendência assumiu importância notável: a de
mudar o estatuto da contratransferência, passando a considerá-la como bússola do
tratamento. Um dos expoentes dessa tendência foi Heinrich Racker. De que maneira
isso aconteceria? Suponha-se que um analista fique com raiva de seu analisante. Isso
seria indicativo de uma transferência agressiva. Se o analista experimenta atração
sexual, isso apontaria uma transferência sedutora. Se o analista fica com sono, e ameaça
dormir, é sinal de uma transferência que visa colocá-lo fora de combate.
Ou seja: a bússola do tratamento estaria baseada numa imaginarização, num
espelhismo, apoiados no par transferência X contratransferência.
Lacan faz oposição radical a essa postulação. Para ele, como para Freud, a
contratransferência é, sim, uma reação à transferência, mas é algo que perturba o
andamento de uma psicanálise.
No lugar da contratransferência, como bússola da psicanálise, Lacan cunha novo
conceito: o de desejo do analista, cujo sintagma mais próximo é desejo de saber. Como
se vê, de novo um salto do imaginário ao simbólico. Importa assinalar que o saber que
está em jogo é o saber inconsciente: quer dizer, aquele capaz de decifrar o enigma do
sintoma.

Análise das resistências X Interpretação


Se existe a primazia do eu, se ele está no centro da análise, o principal a ser feito
é trabalhar as defesas, ou seja, as resistências que ele oferece ao que está subjacente. Tal
a proposta dos pós-freudianos.
Lacan contrapõe: numa análise, a resistência não está do lado do analisante, está
do lado do analista. Dizendo o mesmo em outras palavras: se o analisante resiste, ele
está no seu papel; se o analista resiste, porém, está nele o entrave de uma análise.
Não é papel do analista centrar-se nas defesas. Seu papel é: interpretar.
E o que é interpretar, no primeiro momento de Lacan?
É decifrar. É desvendar o sentido oculto do sintoma, ou da formação do
inconsciente. É transpor a barra que separa o enigma do sintoma (ou o sonho) e seu
sentido latente.
A interpretação pode fazer desaparecer o sintoma.
O sentido latente, porém, traz um outro significante, um novo enigma…

Ser do analista X Falta-de-ser do analista


Outra tendência marcante entre os pós-freudianos: a de considerar o psicanalista
como uma pessoa. Ou enquadre é de uma relação interpessoal, ou intersubjetiva.
Enquadre que faz apelo a concepções humanistas, ou, na melhor das hipóteses,
existencialistas.
Lacan, quanto a isso, é rude: o que importa não é o ser do analista, mas, sim, sua
falta-de-ser. Em outras palavras, o analista não deve se apresentar como pessoa; pelo
contrário, deve esquivar-se disso, deve pagar com sua pessoa. Abrir um parêntesis em
seu julgamento moral, em seus valores éticos, em suas preferências pessoais. Ocultar
seus dados pessoais e suas inclinações políticas ou religiosas, fazendo semblante, ou
transformando-se numa tela, onde será projetado o atributo da transferência.

Reeducação emocional X Transmutação do sujeito


Na bojo da proposta do analista como pessoa está a ideia de reeducação
emocional. Ideia que concebe a análise como pedagogia. Isso tem implicações sérias.
Significa admitir que uma nova relação possa corrigir os erros de uma relação pregressa.
De novo, o espelhismo, ou a abordagem imaginarizada: uma ação e reação diferente
pode retificar uma ação e reação problemática.
Lacan é, decididamente, antipedagogo. Não se trata de corrigir mediante nova
relação. Trata-se de interpretar e trabalhar (perlaborar).
A reeducação emocional propõe mudança gradativa, contínua, quantitativa.
A proposta psicanalítica implica transmutação do sujeito, ou mudança subjetiva:
o que exige ruptura, mudança qualitativa.

Relação de objeto X Relação com o objeto


Os pós-freudianos teorizam de diferentes maneiras a relação de objeto. Um
ponto a ser considerado: para Freud a pulsão sexual buscaria primariamente satisfação;
para alguns autores, buscaria primariamente objeto. A ênfase no objeto pode ser
estendida, até conceber a psicanálise como relação simétrica, entre duas pessoas, ou
entre dois sujeitos, numa interação terapêutica.
Para Lacan, o analista não é uma pessoa, nem um sujeito, é simplesmente um
ator que se apaga enquanto pessoa ou enquanto sujeito. Trata-se de relação assimétrica.
Mais precisamente, o analista é ator que faz semblante (simulacro) de objeto. A
relação analítica, por conseguinte, é peculiar, diferente de toda e qualquer relação
existente.
Na tela dessa relação peculiar, é tecido e desenvolvido o drama da análise, sob o
espectro da transferência.
Não uma relação de objeto, mas uma relação com o objeto.
Frustrar X Sustentar a demanda
Freud costuma dizer que uma análise se faz sob abstinência. Os pós-freudianos
entenderam que os analistas devem frustrar a demanda dos analisantes. Ou seja: que
uma análise deve acontecer sob atmosfera de frustração.
Houve quem discordasse. Ferenczi, por exemplo, defendeu a ideia de um papel
ativo na transferência, com o analista gratificando o analisante em certos casos. Freud
discordou dele, mas, posteriormente, outros pós-freudianos retomaram a proposta da
postura ativa do analista (no sentido da gratificação), desenvolvendo técnicas como, por
exemplo, a da maternagem.
Para Lacan, a abstinência freudiana não implicaria frustrar nem gratificar,
possibilidades que se inserem, uma vez mais, numa perspectiva imaginarizada. Trata-se,
isso sim, de sustentar a demanda, ou seja, de tentar elevá-la a outro patamar, que não
seja o da satisfação imediata. Operação que abriria campo para a interpretação e para o
trabalho da análise.

Imaginarizar o desejo X Tomar o desejo ao pé da letra


Na IPA, a hegemonia da psicologia do ego não foi absoluta. A psicanálise
kleiniana seria um exemplo de divergência. Os kleinianos sempre privilegiaram a
abordagem do inconsciente e sempre consideraram a pulsão de morte. Há, porém, um
aspecto importante. Sua concepção de inconsciente é imaginarizada, assim como sua
concepção de fantasia.
Embora reconheça a dimensão imaginária da fantasia e do desejo, Lacan prioriza
sua dimensão simbólica. A fantasia pode ser condensada numa frase. E o desejo deve
ser tomado ao pé da letra.
Todo um seminário é dedicado ao desejo e sua interpretação. A conclusão é uma
frase que resume todo o percurso: o desejo é sua interpretação.

Fim de análise:
Identificação com o analista X Identificação com o nome próprio
Lacan comenta que a IPA promoveu uma obsessivação do tratamento
psicanalítico, ao estabelecer um standard do que seria uma psicanálise propriamente
dita. Estão predeterminados a frequência das sessões, a duração de cada sessão, o
contrato analítico, os procedimentos técnicos mais importantes, a forma de terminação.
Será dado destaque a um aspecto. O final de análise é concebido como uma
identificação com o analista, ou mais precisamente, uma identificação com o ego do
analista, ou mais precisamente ainda, com o ego forte do analista. Como se vê, por onde
quer que se caminhe reencontra-se a estrutura: imaginarização da psicanálise.
Lacan concebe o final de análise de diferentes maneiras, ao longo de seu ensino.
Em “Variantes do tratamento padrão”, texto publicado em 1955, o fim de análise é
formulado como identificação com o nome próprio. Na “DIREÇÃO DO
TRATAMENTO” Lacan diz que a interpretação aponta o horizonte desabitado do ser,
ou o nada que é o ser (des-ser). As duas formulações não são incompatíveis, uma vez
que, nesse momento em que é nítida a influência hegeliana, a palavra é tomada como a
morte da coisa. Também aqui, reencontra-se a estrutura: significantização da
psicanálise.
Para concluir esta parte, uma confirmação: é possível opor, passo a passo, a
psicanálise lacaniana à pós-freudiana, ainda que se considere que os pós-freudianos não
formam um conjunto homogêneo, mas uma colcha de retalhos.
Lacan, por sua vez, é autor complexo, que se reformula várias vezes ao longo de
seu ensino. Por muitas razões, também os lacanianos se pluralizaram, também eles
passaram a constituir uma colcha de retalhos.
De vez em quando, alguém me pergunta: Será que ainda é possível, nos dias
atuais, falar em psicanálise? Haveria ainda alguma consistência nesse termo?
Tenho uma resposta. Sim, é possível. O caminho passa por um critério
epistemológico e por um critério metodológico.
Critério epistemológico: só há psicanalista freudiano. Diferentes leituras,
diferentes recortes, mas a base é Freud. Seu texto é, por assim dizer, a nossa Bíblia. O
campo epistemológico aberto por Freud reune os psicanalistas.
Critério metodológico: a formação psicanalítica é constituída por um tripé. Em
primeiro lugar, o mais importante: a própria análise. Em segundo lugar, a formação
teórica, ou o que os lacanianos chamam de matema. E em terceiro lugar, a supervisão ou
controle. Não há psicanálise minimamente defensável que não tenha sua formação
baseada nesse tripé.

O percurso de uma análise


Freud compara o percurso de uma análise a uma partida de xadrez. O início e o
fim são bem definidos, mas o meio é inteiramente imprevisível, devido a um número
infinito de situações possíveis.
A procura de uma análise se faz a partir de um sofrimento, o sofrimento do
sintoma, também chamado de gozo do sintoma. Mas o sintoma não é só sofrimento, é
também enigma; ou seja, faz questão para o sujeito, que não sabe por que sofre.

Gozo

Sintoma

Enigma

Se o interesse é apenas conseguir alívio, não há demanda de análise, há apenas


demanda terapêutica. A demanda de análise ocorre quando o sujeito, mais do que alívio,
quer saber sobre o sintoma.
E mais: é preciso que o sujeito atribua ao analista um saber sobre seu sintoma,
fazendo dele um sujeito suposto saber. Algo que se constata a partir do significante da
transferência.
O saber de que se trata é o saber inconsciente do próprio sujeito, um saber que
não se sabe. Se a notação do enigma é S1, a notação do saber é S2.
Situado o analista como sujeito suposto saber, a interpretação consiste numa
decifração, que desvela o enigma do sintoma. Ou seja, o saber inconsciente, de modo
retroativo, aponta o sentido latente do sintoma, desfazendo o enigma.

Analista (SSS)

Enigma (S1) Interpretação (S2)

Vinheta: Uma jovem senhora é indicada por um gastrenterologista devido a


náusea persistente para a qual não foi encontrada nenhuma causa orgânica. Convidada a
falar, suas associações trazem um cruzeiro pelo Caribe que fez em companhia do
marido. Numa das ilhas paradisíacas recebe visita de seus “pais” e de seu “irmão”
americano: morou com eles durante um ano de intercâmbio cultural, quando manteve
com o “irmão” um amor platônico. Na ilha, sai a sós com ele, quando então trocam
declarações amorosas, abraços e beijos. Na continuação da viagem, experimenta
sensações fortes e passa mal com náuseas (enjoo marítimo). Na volta a Belo Horizonte,
sente ímpetos de ligar para o “irmão”, mas entra em conflito, quando se lembra do
marido. De forma irônica, comenta: “O meu drama amoroso, doutor, é um drama
bilingue”. Interpreto: ––O seu sintoma é náusea: podemos separar essa palavra em
duas: NAU e SEA; o que você acha? Ela ri e responde: “Com certeza, não há o que
contestar…” O sintoma não mais retorna, após ser retroativamente ressignificado por
meio da interpretação.
O enigma do sintoma, portanto, é da ordem do significante, e a decifração põe
em jogo um outro significante, que estava latente no discurso do analisante. Passa-se de
significante a significante: por esse motivo, é mais preciso dizer que, em vez de
desaparição, há transmutação do sintoma.
O que foi trazido até agora acontece sob a égide do sujeito suposto saber,
semblante (simulacro) que o analista sustenta e que prevalece no início da análise.
Até agora, a ênfase recaiu sobre o enigma do sintoma. Dirigindo o foco para o
gozo, verifica-se que a mutação sintomática traz alívio, mas o gozo não se extingue, ele
se desloca. Quando uma análise ultrapassa sua fase inicial, a importância do sintoma
cede lugar cada vez mais à importância da fantasia.

Analista (SSS)

Gozo do sintoma Fantasia

Em outras palavras, no início da análise está mais presente a relação do sujeito


com o significante, ou a relação do sujeito com o enigma de seu sintoma, ao passo que,
quando a análise avança, assume maior relevo a relação do sujeito com o objeto, ou a
relação do sujeito com seu desejo e seu gozo.
Da mesma forma, se no início o analista faz semblante de suposição de saber,
em etapas posteriores da análise a convocação do analista é para fazer semblante de
objeto. No primeiro caso, como foi visto, a interpretação é uma decifração. E no
segundo caso?
O analista como semblante de objeto é ator de um percurso da análise que Lacan
denominou travessia da fantasia, que é a melhor definição do final de análise no
primeiro ensino. O que é a travessia da fantasia? Questão complexa, aqui será apenas
introduzida.

Analista (a)

Fantasia Travessia da fantasia

Se o sintoma concerne interpretação, o mesmo não se pode dizer da fantasia.


Não se interpreta a fantasia. A operação própria à fantasia é a construção.
Em seu artigo “Construções em análise”, Freud faz excelente diferenciação entre
uma e outra, utilizando a metáfora do arqueólogo. A interpretação é comparada ao
trabalho do arqueólogo quando ele retira uma peça do soterramento. Algo que estava
submerso vem então à tona, revelando um passado desaparecido. A construção, por
outro lado, acontece quando o arqueólogo descobre não uma peça, mas um fragmento
mínimo, um caco, e, a partir daí, é necessário o trabalho de reconstituir o objeto perdido.
A fantasia, por conseguinte, não é um achado, não é uma descoberta, é uma
construção do analista e do analisante em torno de um vazio de sua história. Geralmente
uma frase, cujo paradigma poderia ser: “Uma criança está sendo espancada”.
A fantasia tem a ver com o desejo, tem a ver com o gozo. O desejo desconhece
sua verdade, e o segredo da verdade do desejo é o gozo. Como esclarecer esse aspecto?
Para Freud, a pulsão é sempre satisfeita. Já o desejo tem origem no não, numa interdição
fundamental. O desejo é estruturalmente insatisfeito, mas busca satisfação, ainda que
interditada. Se o desejo fosse plenamente satisfeito, equivaleria à pulsão.
A fantasia é o que há de mais avançado no campo do significante em relação ao
gozo. Como deslindar de forma mínima sua travessia? Trata-se, segundo Miller, de
nova aliança com a pulsão. Implica necessariamente duas coisas. A primeira é o
reconhecimento da perda inerente ao impossível do desejo (-). A segunda é o
reconhecimento do ganho inerente ao possível da pulsão e sua satisfação (a).

Sugestões bibliográficas:

Jacques Lacan (1998) A direção do tratamento e os princípios de seu poder


(1958). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Jacques-Alain Miller (1987) Duas dimensões clínicas: sintoma e fantasia. In:
Percurso de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

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