UNIVERSIDADE ABERTA ISCED
FACULDADEDE CIENCIAS DA EDUCAÇÃO
CURSO DE LICENCIATURA EM ENSINO DE PORTUGUÊS
Análise da intertextualidade (tipos) e dos sentidos polissémicos literários dos
textos “a um poeta” e “surge et ambula”, antero de quental e rui de noronha,
respetivamente.
Nome da Estudante:
Código do estudante:
Quelimane, Agosto de 2022
UNIVERSIDADE ABERTA ISCED
FACULDADEDE CIENCIAS DA EDUCAÇÃO
CURSO DE LICENCIATURA EM ENSINO DE PORTUGUÊS
Análise da intertextualidade (tipos) e dos sentidos polissémicos literários dos
textos “a um poeta” e “surge et ambula”, antero de quental e rui de noronha,
respetivamente.
Trabalho de campo de carácter
avaliativo da cadeira de Estudos
literários, a ser entregue na Faculdade
de Ciências de Educação do curso de
Ensino de Português, lecionada pela
docente: Wiliam Zona
Nome da Estudante:
Código do estudante:
Quelimane, Agosto de 2022
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Índice
1. Introdução.................................................................................................................................2
1.1. Objectivos..............................................................................................................................2
1.2. Metodologia...........................................................................................................................2
2. Análise da intertextualidade (tipos) e dos sentidos polissémicos literários dos textos “a um
poeta” e “surge et ambula”, antero de quental e rui de noronha, respetivamente............................3
2.1. Dialogismo e intertextualidade..............................................................................................4
2.2. Análise dos textos: práticas intertextuais..............................................................................5
3. Conclusão..................................................................................................................................8
4. Bibliografia...............................................................................................................................9
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1. Introdução
A adopção de construções intertextuais, como uma estratégia de enriquecimento da escrita
literária e como um mecanismo de construção heterogénea do texto, é bastante comum no gênero
soneto como em outros gêneros textuais. Assim, nos textos que nos propomos a analisar, a
intertextualidade parece ser o elemento de convergência entre ambos, pois verifica-se um diálogo
entre os textos “A um poeta”, de Antero de Quental e “Surge et ambula” de Rui de Noronha
Atualmente, tem crescido bastante as discussões académicas voltadas para a noção de texto, o
que, de certa forma, revela que foram abandonadas as reflexões que se limitavam ao nível da
frase pois, tais abordagens mostravam-se insuficientes para dar conta dos diversos sentidos
envolvidos no texto. Consequentemente, começam a surgir interesses em temas como contexto
situacional e discursivo, coesão, coerência, intertextualidade e dialogismo.
1.1. Objectivos
Geral:
Verificar como se dá o processo de intertextualidade entre os textos “A um poeta” e
“Surge et ambula”.
Específicos:
Identificar o modelo de análise dessa intertextualidade ;
Fundamentar em torno das razões da ocorrência dessa intertextualidade.
1.2. Metodologia
Para a realização deste trabalho, o autor aplicou uma pesquisa bibliográfica.
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2. Análise da intertextualidade (tipos) e dos sentidos polissémicos literários dos textos
“a um poeta” e “surge et ambula”, antero de quental e rui de noronha,
respetivamente.
Atualmente, há um interesse crescente nos estudos do texto. Mas nem sempre foi assim, pois
durante muito tempo a Linguística Estrutural ocupou-se fervorosamente da língua como sistema e
código, com função meramente informativa. Nessa perspectiva, a frase assumia um papel
relevante, afinal era o elemento delineador do estudo da linguística.
Para a emergência da Linguística do Texto, foram identificados três momentos da sua
constituição, a saber: a) a análise transfrástica cuja orientação estava voltada para fenómenos que
não foram explicados pelas teorias sintáticas e/ou pelas teorias semânticas que ficassem limitadas
ao nível da frase; b) a construção de gramáticas textuais cuja essência girava em torno da
descrição da competência textual dos falantes por influência do sucesso da gramática gerativa; c)
as teorias do texto que o concebem como um processo resultante de operações comunicativas e
processos linguísticos em contextos sociocomunicativos (BENTES, 2005).
Nos primeiros dois momentos iniciais, pensava-se que as propriedades definidoras do texto
estivessem vinculadas ao material linguístico, ou seja, existiriam textos e não-textos. Em torno
dessa perspectiva, o conceito de texto mais adaptado a esta fase seria o de Stammerjohann (1975)
citado por Fávero e Koch (2000, p. 18):
Sobre o termo texto, […] se trata do conceito central da Lingüística e da Teoria de
Texto, abrangendo tanto textos orais quanto escritos que tenham como extensão mínima
dois signos lingüísticos, um dos quais, porém, pode ser suprido pela situação, no caso de
textos de uma só palavra, como “socorro!”, sendo sua extensão máxima indeterminada.
Essa definição privilegia os aspectos formais do texto como a extensão e os constituintes,
colocando de lado elementos como a natureza sígnica (poema, filme, pintura, etc.).
Dessa forma, a conceituação de texto já não se limita exclusivamente a passagens orais e escritas.
Abre-se espaço para outras manifestações humanas que vão desde a codificação oral e escrita até
as formas artísticas como as artes plásticas e a música. Essa ampliação conceitual permite que os
estudos linguísticos possam abarcar outras materialidades.
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2.1. Dialogismo e intertextualidade
A questão da heterogeneidade discursiva foi trazida inicialmente por Bakhtin, revolucionando os
estudos da linguagem. Para ele, todo o discurso é dialógico por natureza, o que significa que o
carácter dialógico da linguagem é o elemento constitutivo da língua na sua vertente prática, como
se pode ilustrar nas palavras do autor:
A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas
linguísticas, nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de
sua produção, mas pelo fenómeno social da interação verbal, realizada através da
enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade
fundamental da língua (BAKHTIN, 1992, p. 123).
Seria relevante frisar que para o autor, a concepção de diálogo extravasa os limites da conversa
feita em tom alto face a face entre dois ou mais interlocutores, por isso não se pode confundir
com o diálogo vulgar. Assim, qualquer ato de fala constitui um elemento da comunicação verbal,
consequentemente todo o discurso é marcado por traços dialógicos.
O dialogismo é também concebido como sendo o espaço de interação entre dois interlocutores
num texto. Nessa perspectiva, cada interlocutor (eu - tu) desempenha um papel relevante na
constituição do sentido, afinal o “tu” é sempre responsável pela definição da “eu”, ou seja,
nenhuma palavra é exclusivamente nossa, o que quer dizer que cada palavra resulta da
perspectiva de outra voz.
A noção de dialogismo comporta dentro de si o “diálogo entre os muitos textos da cultura, que se
instala no interior de cada texto e o define” (BARROS, 1999). Dessa forma, esse diálogo entre
vários textos que circulam no mundo materializa a intertextualidade.
Santʼanna (2003) aponta três modelos de interpretação deste fenómeno dos quais só o segundo
nos interessa por ser o que mais se ajusta a nossa análise. Esse modelo apresenta três
componentes: a paráfrase (desvio mínimo), estilização (desvio tolerável) e paródia (desvio total).
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Se olharmos para os textos de que dispomos, veremos que entre ambos há uma relação
parafrástica centrada no desvio mínimo, pois o autor do texto novo prima pela manutenção do
idêntico, como veremos mais adiante.
2.2. Análise dos textos: práticas intertextuais
Iniciaremos esta seção apresentando os textos “A um poeta” e “Surge et ambula”, para depois
discutirmos a intertextualidade do ponto de vista de forma e de conteúdo.
A um poeta Surge et ambula
Surge et ambula Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo…
Tu, que dormes, esse espírito sereno, Posto
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
à sombra dos cedros seculares, Como um
E tu dormes no outro o sono teu infindo…
levita à sombra dos altares, Longe da luta e
do fragor terreno, A selva faz de ti sinistro ermitério,
onde sozinha à noite, anda rugindo…
Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno,
Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério
Afugentou as larvas tumulares…
E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo…
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera um só aceno… Desperta. Já no alto adejam negros corvos Ansiosos
Escuta! é a grande voz das multidões! de cair e de beber aos sorvos Teu sangue ainda
São teus irmãos, que se erguem! são quente, em carne de sonâmbula…
canções…
Mas de guerra… e são vozes de rebate! Desperta. O teu dormir já foi mais do que terreno…
Ergue-te pois, soldado do futuro. E dos Ouve a voz do Progresso, este outro nazareno Que
raios de luz, do sonho puro, Sonhador, faze a mão te estende e diz: - África surge et ambuala!
a espada de combate!
Rui de Noronha (África nº 1 Lourenço Marques 8/12/36)
Antero de Quental (Sonetos completos, 1864-74)
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Os textos apresentados são da autoria de Antero de Quental e de Rui de Noronha, poetas
português e moçambicano, respectivamente. Antero de Quental e toda a geração de 70, em
Portugal, persistiram na estética do considerado terceiro romantismo cuja essência girava em
torno do apelo social que mais tarde abriu o caminho para o culto do sentimento de inquietação
intelectual. Rui de Noronha assume, na Literatura Moçambicana, o papel de precursor, ou seja, o
poeta da transição entre as fases iniciais da literatura em que grande parte das poesias produzidas
eram feitas sem vinculação ao universo cultural moçambicano. A partir dele, os textos literários
começam a incluir o universo cultural nacional (MENDONÇA, 1988).
No que concerne aos textos, como ponto de partida, incidiríamos sobre os aspectos formais. Em
“Surge et ambula”, Rui de Noronha copia o modelo típico de Antero de Quental como se pode
ver no texto “A um poeta”, ambos adoptam o gênero soneto cuja característica central é
apresentar duas quadras e dois tercetos. Essa prática revela o carácter heterogêneo do texto de
Rui de Noronha.
Do ponto de vista rimático, ambos os textos apresentam concordância no final dos versos, como
ilustram os esquemas das duas primeiras estrofes de cada texto: abab, abab e abba, abba.
No que tange aos títulos, podemos dizer que o texto “surge et ambula” serve se do subtítulo do
texto “A um poeta”. Por outras palavras, houve citação do intertexto “surge et ambula”. Esta
retomada do subtítulo reforça a legitimidade daquele poeta emergente, pois a imitação de um
“clássico da literatura portuguesa” revelaria prestígio na sua época.
Diante do que constatamos até agora, fica claro que existe uma relação intertextual entre os dois
textos em análise. Essa relação está voltada para a paráfrase ou intertextualidade por semelhança
como refere Santʼanna (2003). Assim, o modelo em voga seria o segundo que concebe a
paráfrase como desvio mínimo, afinal o parafraseador faz uma “imitação” dos aspectos formais
do texto. Sobre a imitação, podemos referir que é uma das técnicas da poesia clássica que
garantia a dialogicidade dos textos. Consequentemente, essa imitação de aspectos formais é
responsável por conferir ao texto o seu carácter heterogéneo (a voz de Antero de Quental
marcada/ecoando na produção textual de Rui de Noronha).
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Quanto aos aspectos de conteúdo, podemos dizer que o texto de Rui de Noronha vai buscar em
Antero de Quental uma espécie de conflito interior do “eu”, gerado, no contexto europeu, pelo
fato de os jovens não querem se envolver na guerra colonial que se intensificava nas colónias,
como se pode ler nos seguintes versos: “Tu que dormes, espírito sereno,/ Ergue-te pois, soldado
do Futuro,/ Sonhador, faze a espada de combate!”. Esses versos ocorrem no texto de Rui de
Noronha sob a forma de um intertexto mais acessível a variante linguística moçambicana e
ajustados àquele universo sócio-cultural, nos seguintes termos: “Dormes! e o mundo marcha, ó
pátria do mistério…/ Desperta. O teu dormir já foi mais do que terreno…/ Ouve a voz do
Progresso, este outro Nazareno.” Lendo minuciosamente os versos, compreende-se que tanto em
Portugal, quanto em África havia gente dormindo, pelo que era necessário acordar essas pessoas
para a guerra e o progresso daí resultante. Para os africanos havia que tomar consciência do seu
subdesenvolvimento e lutar pelo progresso e autonomia a vários níveis. Em suma, há uma relação
intrínseca entre os dois textos.
Do ponto de vista estilístico e lexical, o texto “Surge et ambula” também resgata elementos do
texto “A um poeta”. Ambos os textos retomam intertextualmente os verbos no subjuntivo e
imperativo: “Dormes…, Lança-te…, Desperta…, Ouve…” e “…dormes…, Acorda…, Escuta…,
Ergue-te… ”. Há uma relação de paralelismo típico da paráfrase na seleção vocabular que vai da
constatação da sonolência nos dois textos, passando pelo apelo para que se escute a voz do
progresso e culminando com a exortação para se levantar e agir. Este uso parafraseado de verbos
funciona como elemento de ordem para quem está dormindo demais. Aliás, é nessa paráfrase que
reside o carácter heterogêneo dos textos.
Em suma, os elementos aqui arrolados são suficientemente esclarecedores da intertextualidade
entre estes dois textos. Se tivermos que olhar para os modelos sugeridos por Santʼanna (2003),
diríamos que estamos diante do segundo modelo que nos sugere uma paráfrase enquanto desvio
mínimo pois, o texto se conforma com o seu intertexto. Por outras palavras, no texto “Surge et
ambula” há uma continuidade da ideologia dominante, fundando-se a manutenção do idêntico e
repetindo as informações como se de espelho se tratasse, como se pode ilustrar na relação entre o
título um texto e o subtítulo de outro.
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3. Conclusão
Em função das discussões feitas ao longo deste trabalho, bem como as análises aqui
desenvolvidas, conseguimos mostrar que o dialogismo, a intertextualidade e a paráfrase são
elementos que garantem a heterogeneidade do texto. Afinal de contas, qualquer texto para se
constituir busca fragmentos de outros textos previamente apresentados. Vimos também que o
intertexto é uma característica ligada à produção verbal dos seres humanos sendo gerados a partir
do dialogismo e da polifonia. Assim, o dialogismo é inerente à linguagem humana, assim, a
linguagem é responsável pelo diálogo entre indivíduos numa determinada situação comunicativa.
Nos textos analisados, constatamos que há uma relação entre si, baseada na intertextualidade por
semelhança porque, do ponto de vista, formal, por exemplo, o texto “Surge et ambula” retoma
intertextualmente o género soneto e o subtítulo do texto “A um poeta”. Essa retomada
parafrástica garante que parafraseador se mantenha fiel ao intertexto. Do ponto de vista de
conteúdo, concluímos também que o texto “Surge et ambula” retoma intertextualmente a temática
voltada para despertar consciências adormecidas do texto “A um poeta”. É certo que do lado
português, os adormecidos são os jovens que não se querem envolver na guerra e do lado
africano, o povo se faz pouco esforço para que o continente alcance o progresso.
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4. Bibliografia
BAKHTIN, M. (1992). Marxismo e filosofia da linguagem (6ª ed.). São Paulo: Hucitec.
BARROS, D. L. (1994). Dialogismo, polifonia, intertextualidade em torno de Bakhtin. São
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.
BENTES, A. C. (2005). Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras (5ª ed.). São Paulo:
Cortez Editora.
FÁVERO, L. L., & KOCH, I. G. (2000). Linguística textual: Introdução (5ª ed.). São Paulo:
Cortez Editora.
MENDONÇA, F. (1988). Literatura Moçambicana: a história e as escritas. Maputo: Faculdade
Letras e Núcleo Editorial da Universidade Eduardo Mondlane.
SANTʼANNA, A. R. (2003). Paródia, paráfrase e cia (7ª ed.). São Paulo: Ática Editora.