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A Rainha de Gelo - Elizabeth August

A história conta sobre um rainha de gelo que morava num reino desconhecido
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A Rainha de Gelo - Elizabeth August

A história conta sobre um rainha de gelo que morava num reino desconhecido
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  • CAPÍTULO I
  • CAPÍTULO II
  • CAPÍTULO III
  • CAPÍTULO IV
  • CAPÍTULO V
  • CAPÍTULO VI
  • CAPÍTULO VII
  • CAPÍTULO VIII
  • CAPÍTULO IX
  • CAPÍTULO X
  • CAPÍTULO XI

A Rainha de Gelo

The wife he wanted

Elizabeth August

Sedutor, envolvente... Um homem especial!


Quando o temido P. Bradley Franklin apareceu na empresa para verificar os livros de
contabilidade, Annabelle Royd jurou que não se deixaria cativar por seu encanto masculino.
Manteria o relacionamento deles num nível estritamente profissional. Mas o destino ignorou
seu juramento e ela viu-se enredada numa teia de desejo e loucos sonhos. A mulher fria,
distante, que jamais conhecera o fogo do amor, desaparecera!

Digitalização: S
Revisão: Cris Paiva
Copyright © 1992 by Elizabeth August
Originalmente publicado em 1992 pela Silhouette Books,
divisão da Harlequin Enterprises Limited.
Título original: The wife he wanted

CAPÍTULO I

— Saiba que P. Bradley Franklin não é nenhum idiota — Randall Swynite berrou.
Annabelle Royd, satisfeita por estar fora daquela discussão, permanecia quieta em seu
canto, como uma expectadora esquecida. Simulando prestar atenção aos documentos que
estava arrumando sobre a mesa de conferência, observava disfarçadamente o presidente das
Indústrias Swynite.
Aos sessenta e quatro anos de idade, Randall era um homem que impressionava. Alto.
medindo cerca de um metro e noventa, e com uma barriga proeminente, era o que se poderia
chamar de peso pesado. Mas, apesar das marcas da idade, o rosto ainda era notavelmente
bonito. Andando de um lado para o outro, ele confirmava sua condição de homem poderoso e
autoritário, o mais experiente da empresa. Tinha hábitos conservadores, e Annabelle notava
uma ligeira contrariedade, quando o via observar a decoração. As modernas e caríssimas
cadeiras cromadas. com estofamento de couro legítimo, e quadros surrealistas na parede
pareciam não agradá-lo. Freqüentemente o via torcer o nariz ao passar pela estupenda
escrivaninha com tampo de mármore no centro da sala.
— Parece que você anda um pouco nervoso ultimamente, pai — o homem mais jovem
comentou.
Annabelle olhou para Edward Swynite, seu chefe. Era o vice-presidente da área
comercial e aquele era seu escritório. Parecia uma versão mais jovem e esbelta do pai. Tinha
quarenta e cinco anos, cabelos castanho-escuro começando a ficar grisalho, o que lhe conferia
um ar de seriedade. E. aparentemente, não havia sinais de obesidade.
O chefão parou na frente da mesa do filho, olhando-o furioso.
— Não vai levar nem um minuto para ele descobrir que você não tem a menor condição
de dirigir sozinho esta empresa.
De cenho franzido. Edward encarou o pai.
— Não sou o estúpido que você pensa — replicou.
Annabelle meneou a cabeça. Trabalhava para as Indústrias Swynite havia sete anos e
nos últimos cinco fora assistente executiva de Edward. Vinha assistindo àquela briga desde o
primeiro dia de trabalho. O velho Swynite era sempre muito criterioso nos negócios e seu
conservadorismo era uma das razões pelas quais não gostava da nova mobília do escritório
do filho. Edward por outro lado, era mais liberal e dado a idéias verdadeiramente extremistas.
Algumas das idéias dele. Annabelle até aprovava, mas o velho Randall nunca admitiria que
eram boas.
Sentado à escrivaninha. Edward viu o pai colocar a palma das mãos sobre a superfície
gelada do mármore polido.
— Vamos deixar Annabelle atender o sr. Franklin. Desta vez você fica de fora — o
presidente ordenou, inclinando-se até quase encostar o nariz no rosto do filho.
— Não sou um incompetente. Sei perfeitamente como devo tratar o sr. Franklin —
retrucou Edward. irado.
— Ele não está interessado em aparências. Quer saber dos livros, dos resultados deste
departamento, algo em que você nunca teve grande interesse: realmente — argumentou o pai.
— Isso é coisa de burocratas — replicou Edward, com um trejeito de indiferença. — Sou
um homem de idéias arejadas e extremamente bom no trato com nossos clientes.
— Está bem — o pai resmungou. — Você permanece negociando com os clientes, mas
Franklin está interessado apenas nos aspectos burocráticos. Então, vamos deixar Annabelle
negociar com ele. E tem mais: não quero vê-lo conversando com ele sobre suas idéias.
— Pois fique sabendo que minhas idéias poderiam tirar esta empresa da Idade Média!
— Edward exclamou.
Randall não se convenceu.
— Temos uma diretoria claramente conservadora. Posso ser o presidente, mas graças
a sua irmã, ao divórcio e ao vingativo marido dela, não tenho mais o controle majoritário.
Howard Zyle provou isso, quando conseguiu aprovar sua proposta para que o presidente se
aposente aos sessenta e cinco anos. Felizmente minha posição está segura. Zyle não poderá
realizar seus propósitos, se apelar para a restrição de idade. Ele quer o lugar de presidente,
mas como tem quase a minha idade não pode usar essa estratégia.
Randall fez uma pausa, apertando os lábios com determinação.
— Portanto, enquanto eu viver — prosseguiu —, os outros membros da diretoria me
conservarão na presidência. Sabem que construí esta empresa do nada e respeitam meu
direito de permanecer no controle. E você deveria ter o mesmo ideal. Tenho sido claro na
minha intenção de deixá-lo no meu lugar. Eles votarão em você para presidente, a menos que
o relatório de Franklin seja desfavorável. Nesse caso, estou certo de que Howard lançará um
candidato do seu time. Por isso, não podemos desperdiçar qualquer chance. Franklin estará
aqui a qualquer momento e quero você longe dele.
— Está bem. faça como quiser — Edward rendeu-se. Annabelle sabia que ele acabaria
concordando. Sempre capitulava. Todos se rendiam a Randall, no final.
De repente, a atenção de Edward voltou-se para ela.
— Bem que você poderia tentar fazer-se um pouco mais feminina — ele sugeriu, com
ar de censura.
Annabelle pestanejou, surpresa pelo ataque. Ele nunca se incomodara com ela ante
— Ficaria melhor se soltasse o cabelo de vez em quando. Desse jeito, parece uma velha,
com esse coque apertado na nuca. E as roupas? São caríssimas, muito profissionais, mas não
têm um pingo de feminilidade. E sua postura? Quando anda pela sala não posso deixar de
pensar no iceberg que afundou o Titanic.
Ela sabia que Edward eslava nervoso, mas isso não lhe dava o direito de jogar suas
frustrações em cima dela. Procurou controlar-se. Estava tensa por causa da auditoria q ia ser
feita no departamento. Fitou-o com a
— Sr. Swynite, a maneira como me visto é...
— Os saltos altos para a idade, a única coisa feminina que você usa — ele a interrompeu,
determinado a continuando a crítica. — Mas não pense que me engana. Sei que usa saltos
apenas para parecer mais alta, como se precisasse disso. Acredite, mesmo descalça você
intimidaria a maioria dos homens que conheço.
Intimamente, ela admitia que as observações estavam corretas, mas tinha o direito de
decidir como se vestir e qual imagem apresentar ao mundo.
— O sr. Franklin vem inspecionai- os livros — ela argumentou friamente. — Não a minha
pessoa.
— Não fará mal a ninguém, se você usar um sorriso gentil para conseguir a cooperação
dele.
Annabelle sentiu um calafrio. As palavras dele trouxeram lembranças que levara anos
tentando esquecer. O estômago embrulhou e ela ficou nauseada. “O passado é passado”
pensou, empurrando para o fundo da mente as terríveis recordações.
— Pelo que tenho ouvido do sr. Franklin, ele não é do tipo que se deixa influenciar por
um sorriso bonito — Annabelle falou, séria.
Randall fitava o filho com atenção.
— Você não poderia encontrar melhor assistente do que Annabelle.
Nunca percebera tanta apreensão nos olhos do velho Swynile como naquele momento.
Estaria preocupado que ela tivesse se ofendido com as palavras de Edward? E que
pretendesse vingar-se, quando o sr. Franklin chegasse?
Ficou aborrecida, imaginando que o sr. Randall pensasse que seria capaz de tal
procedimento. Sempre tivera um relacionamento aberto e honesto com aqueles homens e ga-
nhara a confiança deles. Virou-se para Edward e viu-lhe nos olhos a mesma sombra de receio
e também uma expressão de autocensura.
— Sinto muito. Annabelle — ele se desculpou. — Essa coisa toda tem nos deixado
nervosos.
— Não tomei como ofensa — ela replicou.
Edward assentiu, mas continuou a observá-la especulativamente.
— O problema é que você não sorri — ele comentou com ar arrependido.
Annabelle apertou os papéis que trazia nas mãos e franziu as sobrancelhas. O
autocontrole falseou um pouco.
— Mas claro que sei sorrir.
— Está bem, você nunca flerta — ele corrigiu, com voz bajuladora. — Acha que, pelo
menos desta vez, conseguiria ser um pouquinho insinuante?
— Não — retrucou com convicção.
— Edward, você tem que deixar Annabelle ser ela mesma — Randall ordenou.
Edward ficou um pouco pensativo e depois voltou-se para o pai.
— Talvez devêssemos deixar Brenda receber o sr. Franklin.
Annabelle esperava que o velho Swynite ouvisse a sugestão como uma piada ruim. Em
vez disso. Randall pareceu considerá-la. Uma onda de irritação percorreu-a. Brenda Wright
era a secretária de Edward. Tinha vinte e três anos, muitas curvas, cabelos loiros, compridos,
e um sorriso falso e provocador. Annabelle sabia que os clientes masculinos gostavam de ver
Brenda andar pela sala com suas roupas exageradamente apertadas. Sabia também que a
habilidade dela em adicionar uma pitada de malícia na atmosfera do escritório fora uma das
razões de sua contratação. Mas, para ser justa. Annabelle tinha de admitir que Brenda era
também excelente secretária.
Gostava de Brenda. Na verdade, o que mais admirava era a autoconfiança com que a
moça se portava diante dos homens. Mas Annabelle não aprovava a sugestão, por achar que
Brenda não se sairia bem naquela tarefa.
— Pensei que o sr. Franklin precisasse de alguém que pudesse explicar o
funcionamento interno deste departamento — comentou.
— Claro que precisa — o velho Swynite concordou. Edward estava sorrindo, com ar de
quem acabara de ter uma grande idéia.
— Você está certa — concedeu. — Mas não fará mal algum se Brenda servir um
cafezinho de vez em quando, enquanto você atende o sr. Franklin.
Randall gesticulou afirmativamente com a cabeça e virou-se para Annabelle.
— Conto com você, para fazer este departamento parecer o melhor de todos desta
empresa. Naturalmente, se tivermos êxito, Edward não será o único beneficiado. Será bom
para você também.
Annabelle olhou-o confiante.
— Não terá com que se preocupar. Este é realmente o melhor departamento e pretendo
provar isso ao sr. Franklin.
— Ótimo. — Ele suspirou, aliviado. Edward sorriu.
— Você é um tesouro, Annabelle. Se tudo correr como planejamos, um dia você ainda
dirigirá este departamento.
— Gostaria disso — ela concordou com honestidade. Sua meta era ser vice-presidente
das indústrias Swynite e tanto o pai como o filho estavam cientes disso.
Um toque do interfone na mesa de Edward interrompeu a conversa.
— O sr. Franklin está aqui — Brenda anunciou, quando Edward atendeu.
Annabelle sentiu uma ligeira contração no estômago. Vira P. Bradley Franklin de longe,
no dia anterior. Era um pouco mais baixo que os Swynite. Parecia ter perto de um metro e
oitenta e cinco de altura, mas era mais musculoso. O queixo era mais reto e o nariz atilado
ajustava-se perfeitamente ao resto das feições. Tinha os cabelos loiro-acastanhados,
espessos e brilhantes.
— Lindo — Joan Maddenly dissera, com um ligeiro assobio.
Annabelle, entretanto, não teria usado a palavra "lindo", mas só de observá-lo na sala
de recepção ficara tensa. Intimamente o considerava apenas um formidável adversário.
Durante toda a noite anterior, procurara se conscientizar daquela verdade. Tentara convencer-
se de que ele era apenas um homem e de que no departamento comercial não havia nada
com que se preocupar.
Mas, quando ele entrou no escritório. Annabelle achou que, visto de perto, era mais
formidável do que imaginara. Tinha um sorriso educado, mas que não chegava a alcançar os
olhos incrivelmente azuis. Observava todas as pessoas e quando a olhou, ela retribuiu o olhar
com firmeza, embora intimamente se sentisse insegura. Havia tanta intensidade naquele olhar,
que ela achou-o capaz de penetrar a concha protetora que criara a sua volta. Em condições
normais, sustentaria o olhar de qualquer homem, mas P. Bradley Franklin não era um homem
igual aos outros. Calmamente, desviou a atenção, simulando súbito interesse por um arquivo
ali perto.
— Bradley, que bom vê-lo novamente — Randall cumprimentou-o efusivamente.
— E um grande prazer vê-lo também — replicou Bradley. Por um momento. Annabelle
desejou ter encorajado Edward, ou até mesmo Brenda a acompanhar o sr. Franklin na
verificação dos livros, mas ao mesmo tempo censurou-se por estar preocupando-se sem
motivo. Estava sendo ridícula.
— Temos um pequeno problema — Randall informou. — Eu e meu filho estamos com
uma reunião marcada com alguns clientes. Como Edward tem negociado com eles das outras
vezes, é possível que se ofendam se eu aparecer sozinho. Por isso sou obrigado a levá-lo.
Entretanto, esta é a srta. Royd e...
Randall fez uma pausa ao apresentar Annabelle.
— Ela é assistente executiva do meu filho e está plenamente capacitada a mostrar-lhe
os livros e responder a qualquer pergunta. Dessa forma, se nos der licença, sairemos agora
mesmo para atender nosso compromisso.
Edward levantou-se o mais sorridente possível, deu a volta na mesa e estendeu a mão
para Bradley Franklin.
— Desculpe não poder atendê-lo hoje, mas asseguro que ficará em boas mãos.
Aceitando o aperto de mão. Bradley olhou para Edward com gravidade.
— Se eu fizer alguma pergunta que a srta. Royd não puder responder, estou certo de
que poderemos nos encontrar em outra oportunidade.
Annabelle gelou. Bradley Franklin fora educado, mas havia uma velada ameaça no tom
de sua voz. Notou que Edward se amedrontara. Então, ela endireitou os ombros e levantou a
cabeça. O sr. Franklin podia ter deixado Edward constrangido, mas nenhum homem a faria
tremer nas bases.
— Naturalmente — Edward concordou com um sorriso, dando a entender que ficaria
feliz em receber o sr. Franklin em outra data.
Olhando para Randall, Annabelle percebeu que ele estava tenso. Por orgulho. Edward
poderia resolver ficar.
— Realmente, temos de ir — confirmou o presidente, afastando-se para que o filho
passasse na frente. — Vamos chegar atrasados, se não nos apressarmos.
Edward, embora parecendo contrariado, obedeceu.
— Tenho certeza de que a srta. Royd poderá responder a qualquer pergunta que você
fizer. Bradley — reafirmou Randall e saiu atrás do filho, sorrindo com indulgência paternal.
Quando a porta do escritório se fechou, Annabelle ficou apreensiva, mas readquiriu o
controle ao lembrar que, embora estivesse oito anos mais velha, ainda era faixa preta de caratê
e estava mais experiente.
— Estive observando a folha de pagamento e também seu currículo — ele comentou,
olhando-a com interesse. — Suas notas escolares foram boas, embora em algumas matérias
tenham sido apenas razoáveis. Entretanto, quanto ao seu ordenado, acho que está acima da
faixa salarial.
Annabelle sentiu o cabelo eriçar-se. Teve vontade de dizer que suas notas não lhe
diziam respeito, mas a autoridade com que fora investido pela diretoria dava-lhe o direito de
questionar qualquer aspecto da empresa.
— Posso não ter me formado como a primeira da classe, mas tenho excelente senso
comercial. Dedico-me inteiramente ao meu trabalho e já provei meu valor ao sr. Swynite.
— Ele obviamente a valoriza bastante — P. Bradley Franklin considerou, examinando-
a de alto a baixo.
Annabelle entendeu a insinuação de que havia algo mais íntimo entre ela e Edward e
que por isso tinha um bom salário. Ocorreu-lhe que Edward ficaria não só espantado, mas
horrorizado, se soubesse que alguém tivera um pensamento daqueles.
— Ele valoriza, sim — ela concordou, sorrindo secamente.
Os olhos azuis de Bradley estreitaram-se.
— E você está disposta a mostrar seu valor para mim também, srta. Royd?
Todos os músculos de seu corpo se retesaram.
— Aos livros, então — ele ordenou, franzindo o cenho com impaciência, mostrando a
mesa de conferência.
Annabelle respirou fundo para acalmar-se. Estava claro que ele não estava interessado
nela como mulher.
— Providenciei toda a documentação que requisitou, sr. Franklin — informou, dirigindo-
se à mesa.
Quando se preparava para sentar, ele antecipou-se e afastou a cadeira gentilmente.
— Sou da velha geração — brincou, sorrindo. — Recuo cadeiras e abro portas para
senhoras.
O sorriso fez com que se formasse uma covinha na face esquerda dele. Annabelle
sentiu um frio no estômago e o coração descompassado. Zangou-se consigo mesma pelo fato
de as atenções dele causarem tal reação. Ele era um inimigo. Além disso, insinuara que ela
conseguira a posição que ocupava mais por competência na cama do que no serviço.
— E eu sou da nova geração, sr. Franklin. Não preciso que me recuem a cadeira e abro
eu mesma as minhas portas.
Imediatamente ele largou a cadeira.
— Sempre acreditei que é melhor deixar as mulheres fazerem as coisas a sua maneira,
quando possível — comentou, com ar indulgente. — De qualquer modo, elas sempre o fazem
mesmo!
Normalmente ela riria com indiferença ao ouvir aquele comentário, mas com sr. Franklin
algo diferente estava acontecendo.
— Então, é porque estamos certas — replicou.
— É exatamente o que dizem minha mãe e minha irmã. Ele sorriu novamente, ao falar
da família.
No mesmo instante Annabelle se arrependeu de ter dado atenção ao comentário de
Bradley. Não estava interessada em vê-lo sorrir daquela maneira nem queria saber se havia
uma irmã e uma mãe, de quem ele gostasse. Manteria uma relação apenas profissional,
impessoal. Não entendia o motivo, mas aquele homem a deixava nervosa.
Com a mesma determinação com que enfrentara situações semelhantes em outros
tempos, focalizou a atenção nos documentos sobre a mesa.
— Vamos começar?
— Ao trabalho — ele concordou, assumindo uma expressão séria.
Mal haviam iniciado, entretanto, quando Brenda apareceu.
— Gostariam de um cafezinho0
Edward não ficaria desapontado, Annabelle pensou, se visse quando a secretária entrou,
toda empinada e de ombros levantados, procurando mostrar inteiramente as curvas femininas.
— Sim, um cafezinho vai bem — Bradley aceitou.
A indiferença dele para com Brenda surpreendeu Annabelle. Não desviou a atenção dos
documentos que examinava e pareceu nem mesmo notar a presença dela. A secretária ficou
olhando para P. Bradley Franklin. como se ele fosse um desafio.
— Voltarei num segundo — disse por fim.
Annabelle sabia que a audaciosa secretária gostava de ser admirada e não admitia ser
ignorada. Em outra circunstância, ela apenas ficaria esperando pelo passo seguinte de Brenda
para chamar a atenção de P. Bradley Franklin. Naquele momento, porém, a expectativa das
artimanhas da loira apenas a irritava.
— O que significa isto? — A voz de P. Bradley Franklin ressoou de repente.
— O quê?
Annabelle olhou rapidamente para os papéis, franzindo as sobrancelhas. Estivera
distraída. Não queria acreditar em tal absurdo, mas o comportamento de Brenda atrapalhara
sua concentração. A carreira sempre estivera em primeiro plano em sua vida, nos últimos anos.
Se o relatório do sr. Franklin fosse desfavorável a Edward. suas metas também ficariam
prejudicadas.
Com o dedo indicador, ele apontava para um número em particular, localizado em uma
determinada coluna. Annabelle leu rapidamente o cabeçalho da página e depois a coluna.
— São vendas específicas — esclareceu.
— Boa margem de lucro — ele comentou.
Nem bem ele atingira o rodapé da página seguinte, quando Brenda retornou. Annabelle
teve de se esforçar para conter um susto ao avistá-la. A secretária soltara mais dois botões da
blusa e, ao inclinar-se para servir o café ao sr. Franklin, Annabelle ficou preocupada com a
possibilidade de os volumosos seios escaparem e ficarem completamente de fora.
— Leite, açúcar ou ambos. sr. Franklin? — perguntou a secretária, permanecendo
inclinada na frente dele.
— Puro está bem — ele respondeu educadamente.
— Gostaria de um biscoito? — ela ofereceu, com um sorriso de sedução.
— Não, só café — ele replicou, com indiferença.
— Precisando de mais alguma coisa é só chamar — a moça avisou e saiu da sala.
rebolando sedutoramente, como a mostrar ao sr. Franklin o que ele estava perdendo.
— É de admirar que o sr. Swynite consiga trabalhar — ele comentou, tão logo a porta
fechou-se atrás dela.
Annabelle viu o brilho de aprovação masculina nos olhos azuis. Obviamente, ele não
era tão imune ao charme de Brenda, como queria fazer parecer, mas na voz dele havia também
um timbre de censura. O procedimento da moça não surtira o efeito desejado.
Annabelle estava certa de que aquele comportamento fora induzido por Edward. Ele
gostava de descobrir as fraqueza dos homens e explorá-las, mas daquela vez sua estratégia
não dera certo.
— Brenda é ótima secretária — Annabelle elogiou. — Extremamente competente, além
de ser muito dedicada ao trabalho.
Enquanto Annabelle falava sobre as qualidades de Brenda, P. Bradley Franklin a
observava, com as sobrancelhas zombeteiramente levantadas. O que ela dizia era verdade,
mas obviamente ele não estava acreditando. Pelo menos, não inteiramente. Não podia
censurá-lo por isso. Brenda se comportara com vulgaridade, dando toda a impressão de ser
uma simples secretária de cabeça oca. Depois de pensar um pouco, Annabelle decidiu mexer
com o ego do sr. Franklin.
— Brenda gosta de ser admirada — continuou. — Mão admite não ser notada,
especialmente por um homem que acha atraente.
Bradley pareceu estar tranqüilo e ela, intimamente, sentiu-se aliviada. De repente ele
deu um suspiro de descontração.
— Não me impressiono com muita facilidade, mas tenho meus limites. Você não acha
que ela vai voltar mais desabotoada ainda do que da outra vez, acha?
Ele fez a pergunta em tom tímido e tão juvenil, que Annabelle teve vontade de rir.
divertida. Mas as reações que estava experimentando a fizeram estremecer.
— Vou cuidar para que isso não aconteça — ela observou, levantando-se
imediatamente.
Saindo da sala antes que P. Bradley Franklin tivesse chance de responder, Annabelle
encontrou Edward do lado de fora, mas não se surpreendeu.
— Como vão as coisas? — ele perguntou em surdina.
Primeiro, Annabelle observou que a blusa de Brenda estava convenientemente
abotoada e. pela expressão de Edward, adivinhou que ele já sabia que a missão que armara
não fora bem-sucedida.
— Estavam indo bem, até que você mandou Brenda entrar — ela respondeu secamente.
— Bradley não é casado e, pelo que soube, não tem namorada atualmente — rebateu,
olhando para a porta do escritório com uma careta. — Pensei que um pouco de sensualidade
feminina flutuando no ambiente pudesse torná-lo mais maleável.
Annabelle balançou a cabeça em desaprovação.
— Acho que deveríamos nos concentrar mais nos negócios. Não estou disposta a fazer
mais nada, se a intenção for somente manobrar o sr. Franklin. Você não deveria estar na
reunião? Pensei que seu pai tivesse mesmo arranjado uma. Pelo menos para você ter alguma
coisa para comentar depois.
— Meu pai pode manobrar o Martin sozinho — Edward respondeu, continuando a olhar
para a porta fechada, pensativamente.
— O que você vai dizer se o sr. Franklin encontrá-lo aqui? — perguntou Annabelle.
procurando um meio de despachar Edward, antes que causasse mais problemas,
Ele deu de ombros.
— Direi que vim pegar umas fichas.
Quando Edward deixou a sala, Annabelle falou a Brenda: — Por favor, não entre na
sala toda desabotoada outra vez.
— Não se preocupe, entendi o recado. — A secretária sorriu, encabulada.

CAPITULO II

P. Bradley Franklin olhou indignado para Annabelle. Eram apenas cinco e quinze da
tarde e ela já anunciara que estava indo embora. Até admitia que haviam tido um dia cansativo,
examinando os registros de vendas, mas ainda não estavam nem na metade da tarefa.
— Tenho de preparar o relatório até quarta-feira. Pensei que fôssemos pedir o jantar e
continuar trabalhando — argumentou, em um tom de voz que mais parecia uma ordem.
— Pode ficar quanto quiser. Quanto a mim, tenho outro compromisso que não posso
cancelar de modo algum.
Na verdade, mesmo que pudesse, ela não cancelaria seu compromisso, embora
sabendo que sua atitude estava sendo ridícula. Bradley mal notara que ela era uma mulher,
pensou. "Aliás, não deve ter notado, absolutamente", corrigiu. Mas, de qualquer maneira, ele
a deixava nervosa. Não se sentiria segura, sozinha com aquele homem, num edifício comple-
tamente vazio.
Bradley observou-a sair. Era uma das mulheres mais frias que conhecera. Não dera um
sorriso, o dia inteiro. A despeito da quase masculinidade das roupas que usava, parecia es-
conder um corpo "cheinho" nos lugares certos. Mas aquele olhar de não-me-toque, de
solteirona, que exibia, certamente faria qualquer homem desistir de conferir melhor. Dando de
ombros, ele procurou ignorar suas próprias observações.
Nada tinha a ver com a vida pessoal da srta. Royd.
O que o instigava era apenas o nervosismo dela. Notara desde o começo. Olhando para
os papéis sobre a mesa, ele concluiu que, se ela e o sr. Swynite estivessem escondendo
alguma coisa iriam se arrepender amargamente.
Randall Swynite era o diretor-presidente da companhia. Edward também era membro
da diretoria, por causa das ações que possuía. Os outros membros da diretoria eram nove
investidores, donos do restante das ações. Bradley fora contratado pelos nove membros, para
verificar se o investimento deles era sólido, se a empresa estava sendo bem dirigida.
Portanto, sua reputação também estava em jogo e dependia da exatidão de seus
apontamentos. Novamente olhou para os papéis sobre a mesa. Duvidava que fosse encontrar
alguma irregularidade ali. Não o deixariam sozinho, se houvesse alguma coisa errada naqueles
documentos.
Recostando-se na cadeira, ele esticou as pernas e levantou bem os braços, até alongar
quase todos os músculos do corpo. Relaxado, continuou a olhar para a pilha de papéis.
Normalmente verificaria um por um. Era um homem meticuloso. Mas naquela noite sentia-se
cansado. Não costumava ficar cansado enquanto trabalhava, porém, aparentemente, o
nervosismo da sita. Royd afetara-o mais do que pensara.
Olhando paia a porta, lembrou-se de Brenda. Ela sabia como insinuar-se para um
homem. Depois das primeiras e infrutíferas investidas, ela desistira de tentar envolvê-lo, vol-
tando a comportar-se apenas como uma secretária exemplar. Porém, antes de sair, ao término
do expediente, deixara bem claro onde poderia ser encontrada.
— Estou indo embora — ela anunciara, entrando no escritório às cinco em ponto. — Se
não encontrarem algum documento podem me chamar. O número do meu telefone está na
escrivaninha. Estarei em casa a noite toda.
Enquanto falava, dirigia toda a atenção à srta. Royd. Mas, quando saiu. deu um rápido
olhar para ele, deixando evidente que não faria objeção se usasse aquele número para uma
chamada pessoal. Mas P. Bradley Franklin nunca misturava negócios com prazer. Talvez,
quando tudo terminasse, passasse algumas horas com a sita. Brenda Wright. Afinal, um
homem precisava de um pouco de diversão. Naquele momento, porém, tinha de concentrar-
se na investigação.
Ocorreu-lhe que as secretárias costumavam saber sempre mais do que demonstravam.
Brenda poderia ter as respostas de que ele precisava, se as perguntas fossem feitas do modo
certo. Mas, por enquanto. Bradley não sabia nem por onde começar. Esfregando os olhos,
estirou-se mais uma vez. A imagem de Annabelle não lhe saía do pensamento.
"Por que não?", pensou. A indisposição momentânea que estava sentindo sugeriu-lhe
uma idéia. Ou melhor, um desafio.
Annabelle estava irritada, dirigindo pelo trânsito lento da hora do rush. Tentava
afugentar P. Bradley Franklin para longe da mente desde que deixara o escritório, mas não
conseguia. Ficou mais irritada ainda, lembrando-se da última intervenção de Brenda.
— Não sou estúpida — resmungou para si mesma, olhando para o espelho retrovisor,
como se precisasse de alguém para conversar. — Sei que ela deixou o número do telefone
para o sr. Franklin e ele também percebeu.
Imaginou se ele iria sair com Brenda, agora que estava sozinho e livre para decidir. O
pensamento a fez sentir uma picada no estômago. Mas, ao mesmo tempo, decidiu que não
era da sua conta com quem ele gastava o tempo livre. Se quisesse gastar com Brenda, que o
fizesse. A única razão para continuar aturando-o. era porque ele poderia prejudicar-lhe a
carreira.
Mas, dentro de algumas horas. Bradley estaria fora de seus pensamentos, afirmou para
si mesma, quando chegava em casa. Os convidados da noite prometiam tomar toda sua
atenção e boa parte de sua energia, mas ela adoraria cada minuto. Bem, quase todos, corrigiu.
Bradley ficou trabalhando por mais uma hora. Depois, colocou algumas fichas na pasta
e deixou o escritório. Meia hora mais tarde chegava a um tranqüilo e bem-cuidado bairro
residencial, nos subúrbios de Pittsburgh, Pensilvânia. Na verdade, ele não tinha intenção de
continuar a examinar aquelas fichas com Annabelle, já que ela estava comprometida naquela
noite. Estava curioso de saber que tipo de homem uma mulher de gelo podia atrair.
Fez uma careta. Não seria alguém como ele. Mas por que estaria interessado na vida
particular da srta. Royd? Uma mulher irritável, que nem ao menos soma?
Saindo do carro, ele se dirigiu para a casa tipo sobrado, passando por um caminho
ladrilhado e orlado de flores. Provavelmente ela terá um gato, um canário, ou ambos, imaginou,
relacionando a imagem dela com a da própria solteirona. Mas não era justo pensar nela como
solteirona, censurou-se imediatamente. Annabelle tinha só vinte e nove anos.
Chegando à porta, bateu com o nó dos dedos.
Uma algazarra de crianças chorando lá dentro fez com que ele olhasse rapidamente o
número da casa para certificar-se de que estava no lugar certo. Lá estava o número 1427,
forjado em ferro e pintado de preto. Aquele era o número que copiara da ficha cadastral dela.
A porta abriu-se e um par de assustados olhos castanhos fixou-se nele.
Era Annabelle Royd, mas ao mesmo tempo parecia não ser. Aquela não era a mesma
mulher que vira no escritório. Estava usando calça jeans desbotada, uma velha camiseta e
tênis surrados que já conhecera dias melhores. Os cabelos castanhos foram amarrados em
um rabo-de-cavalo, mas alguns fios soltos emolduravam as faces rosadas. O próprio rosto
estava diferente. Mais suave, mais feminino. Havia ternura naquele olhar e até um sorriso. Mas,
de repente, as feições dela transformaram-se em uma expressão de cautelosa precaução.
Um grito agudo de criança chamou-lhes a atenção.
— Espere um instante — ela ordenou e correu para dentro de casa.
Por um momento, Bradley julgou que fosse uma irmã gêmea, mas a atitude de
indiferença que assumira ao reconhecê-lo dera-lhe a certeza de que era mesmo Annabelle
Royd.
Estranhando a própria curiosidade, ignorou a ordem para esperar e entrou. O interior da
casa não era como ele imaginara. Não havia gatos, pelo menos nenhum à vista. Sobre a mesa
do vestíbulo, ele viu várias cartas e revistas, em uma desordem generalizada. Três minutos
atrás, ele teria apostado que a eficiente srta. Royd teria um lugar para cada coisa e que cada
coisa ficaria em seu lugar.
Um recipiente aberto contendo sachês suavemente perfumados pareciam recebê-lo
com votos de boas-vindas. Lembrou-se de que era o mesmo perfume que sua irmã usava nos
sachês que deixava no vestíbulo da casa dela. Havia até mesmo um bilhete de aposta de
corrida de cavalos que não fora enviado. Talvez a srta. Royd considerasse um desperdício de
selos. A casa, enfim, era cheia de contradições, a começar pela própria dona.
Ouviu choro de criança. De repente pareceu que a casa estava inteiramente tomada por
crianças chorando. Andando em frente, chegou a uma espaçosa cozinha. Três crianças
estavam sentadas em suas cadeiras altas, ao redor de uma mesa. Duas eram loirinhas, de
olhos azuis, e pareciam gêmeas idênticas. A terceira parecia da mesma idade das outras, mas
tinha cabelos escuros e olhos cinzentos. Não teriam mais de um ano de vida. As loirinhas
choravam incessantemente, enquanto a moreninha permanecia em silêncio, com um olhar
espantado.
— Pensei que gostassem de melão — Annabelle estava dizendo.
Bradley notou que havia pedacinhos de melão no pratinho ao lado da criança de cabelo
escuro. As outras estavam com os pratos vazios. A fruta estava toda espalhada pelo chão e
em cima da mesa. Mas o que o espantou foi o comportamento de Annabelle. Calculara que
ela fosse fria e austera, no entanto estava sendo dócil e paciente. A não era realmente a mulher
que esperava encontrar.
— Suas? — perguntou, incapaz de pensar em qualquer outra coisa para dizer.
De acordo com a ficha cadastral, ela não era casada nem tinha filhos. Mas, afinal, as
pessoas nem sempre dizem a verdade. Talvez aquelas crianças fossem a razão do seu
nervosismo na presença dele.
Annabelle virou-se rapidamente, chocada ao perceber que ele estava ali dentro. Em
pânico, engoliu em seco. O coração pareceu dar uma parada e depois recomeçou a bater,
disparado, quando ela viu o "inimigo" entrar inesperadamente em sua cozinha. Um suor frio
brotou-lhe das mãos e as pernas tremeram. Com raiva daquela sensação de medo, varreu o
terror para longe e recobrou o autocontrole.
— São filhos da minha irmã — respondeu com firmeza.
O medo desaparecera quase tão rapidamente como aparecera, mas Bradley percebeu
que ela se amedrontara. Entretanto, naquele momento, a expressão fria da srta. Royd,
lembrava a de um gladiador preparado para o combate.
— Não tive intenção de assustá-la — ele se desculpou. — Estava muito gelado lá fora.
Nunca imaginei que, em fevereiro, fizesse tanto frio na Pensilvânia. Além disso, imaginei que
talvez você precisasse de ajuda.
— Não me assustou — ela mentiu. — Foi só um sobressalto.
De repente, Bradley deu alguns pulsos à frente e imediatamente Annabelle armou-se
para a luta.
— Pare — ele ordenou de repente, olhando na direção das crianças.
Annabelle virou-se e viu Sarah em pé na cadeira.
— Sarah, sente-se já — ela falou, correndo para a garota. A criança, por um momento,
ficou olhando para um e para outro, como que avaliando as chances de escapar e depois
sentou-se pesadamente.
— Não entendo como você consegue soltar-se — Annabelle censurou em tom maternal,
enquanto examinava o cinto de segurança da sobrinha.
Enquanto falava, tentava ignorar a presença de P. Bradley Franklin, mas era
praticamente impossível. Podia sentir o olhar dele em sua nuca, como se fosse um toque físico.
— Os outros parecem estar seguros, mas Sarah sempre dá um jeito de se livrar —
comentou, virando-se para ele.
Mesmo vestindo jeans e com o cabelo todo em desalinho. Annabelle passava a
silenciosa mensagem de ser inabordável. Bradley fora contratado para descobrir se havia algo
errado nas Indústrias Swynite e tinha obrigações para com as pessoas que o contrataram.
Agora queria saber o que aquela mulher estava escondendo. Não havia dúvida de que havia
alguma coisa.
— Sua irmã deve ter tido todos os filhos de uma vez — ele considerou, tentando iniciar
uma conversação.
— Pode-se dizer que sim. São trigêmeos. Sarah e Gail são idênticas — Annabelle
explicou, apontando para as loirinhas. Jack, o de cabelo escuro, é o único menino.
Bradley sorriu com uma expressão de cumplicidade para o menino.
— A vida vai ser dura para ele. Duas irmãs para cuidar e, além de tudo, gêmeas.
Sentindo que estava abaixando demais a guarda, Annabelle tratou de reforçar o escudo
de proteção a sua volta.
— Como pode ver, sr. Franklin, tenho muito o que fazer. Se puder dizer-me a que veio
e depois ir embora, ficarei muito grata.
Tinha muito o que fazer mesmo. Bradley concordou mentalmente, pensando que
poderia tirar vantagem disso. Talvez ela se distraísse e lhe desse uma pista do que estava
tentando esconder. Então saberia onde concentrar as atenções, no exame dos relatórios da
companhia.
— Tenho perguntas a fazer sobre alguns documentos e gostaria que me respondesse.
Annabelle olhou para os trigêmeos e depois para Bradley. Dera-lhes o melão para
distraí-los enquanto terminava de esquentar o jantar. Agora a comida estava fria outra vez.
— Sr. Franklin, não poderemos tratar desse assunto amanhã, durante o expediente? —
ela perguntou.
— Como já disse, tenho somente até quarta-feira para completar o relatório — Bradley
argumentou com insistência.
Annabelle mordeu o lábio, confusa. Estava com medo, mas daria um jeito. Não
prometera a si mesma que não deixaria o passado interferir em suas ações? De fato, estava
convencida de ter esquecido o passado, até que P. Bradley Franklin aparecera em sua vida.
Mas não podia deixar-se dominar pelo medo.
— Está bem. sr. Franklin — concordou, após uns instantes de reflexão. —- Mas terá de
esperar eu dar comida a estes três, antes que façam uma rebelião. Por que não espera na
sala?
Bradley decidiu que, naquele momento, o melhor seria fazer uma retirada estratégica.
Na sala, percebeu que ainda estava com a pasta na mão. Colocou-a no chão encerado, de
madeira, e percorreu toda a extensão do ambiente, com olhos pesquisadores. Notou que os
objetos mais frágeis estavam colocados bem no alto, longe do alcance das pequeninas mãos.
O sofá e as poltronas eram pesados, de estilo conservador, nas cores verde e azul. foscas.
Num canto, um cercadinho onde certamente as crianças ficavam guardava uma variedade de
brinquedos. Um jornal atirado no sofá dava a impressão de que ainda não fora lido. Por tudo
isso, era uma sala que refletia um ambiente de amor e alegria. Não era o que esperara
encontrar na casa de Annabelle Royd.
Annabelle era um enigma. Mas ele não descobriria a verdade sobre ela, ou sobre as
Indústrias Swynite, se ficasse parado ali naquela sala.
Tomando uma decisão repentina, tirou o paletó e a gravata, arregaçou as mangas da
camisa e marchou para a cozinha.
— Já dei de comer muitas vezes aos meus sobrinhos — ele chegou dizendo. — Não
sou o melhor, mas tenho muito jeito para isso. Que tal deixar-me ajudá-la?
Annabelle estava tão distraída colocando comida nas três bocas que não ouviu-o
aproximar-se. Levando um susto, virou a cabeça bruscamente para olhá-lo. O feitio justo da
camisa que ele usava salientava os ombros largos e vigorosos. Os braços peludos revelados
pelas mangas arregaçadas eram firmes e fortes. Tinha um corpo atlético, sem barriga. Ali
estava um homem que cuidava da forma física. Novamente, ela sentiu uma sensação de
arrepio e medo. A vontade de gritar para ele ir embora, ameaçando-o de chamar a polícia,
quase a esmagava. Mas se o fizesse ele pensaria que ela era realmente uma histérica.
Portanto, esforçou-se para controlar aquele impulso.
— Posso cuidar de tudo sozinha — respondeu. — Sua ajuda é realmente desnecessária.
Novamente Bradley julgou ter visto um lampejo de terror nos olhos dela. Pelas
investigações preliminares que fizera antes de ir para Pittsburgh, tinha certeza de que na
companhia estava tudo em ordem. Porém, toda vez que alguém tinha aquele tipo de
comportamento, ele descobria grandes irregularidades. Não podia mais retroceder.
— Parece que Jack gostaria da minha ajuda — ele interveio. Ignorando os protestos de
Annabelle. deu a volta na mesa e puxou uma cadeira para a frente do menino.
— Assumo este posto — acrescentou, apoderando-se da porção que cabia a Jack.
Annabelle acabou rendendo-se à insistência dele. P. Bradley Franklin lembrava um rolo
compressor. Uma vez que decidia fazer alguma coisa, era impossível detê-lo.
— Vamos lá, Jack, vamos mostrar a essas moças como é que se come — Bradley
brincou.
O medo confundiu-se com curiosidade. Por mais que se esforçasse, Annabelle não
conseguia imaginar P. Bradley Franklin dando sopinha de carne a uma criança de onze meses
de idade. E o mais surpreendente ainda era que Jack estava gostando. Normalmente ele não
aceitava estranhos com facilidade e era o que menos comia.
Quanto às meninas, pareciam agradar-se da presença do sr. Franklin. Ficaram
sossegadas, permitindo que Annabelle as alimentasse, enquanto o observavam, fascinadas.
"Bem, ele é o tipo de homem que as mulheres geralmente acham interessante", admitiu,
concentrando-se nas sobrinhas. De repente, imaginou-o como pai, cuidando dos próprios filhos.
E ela estava lá, como esposa dele. Mas logo se deu conta do que estava pensando. "Devo
estar sonhando, P. Bradley Franklin poderá ter filhos um dia, mas certamente não será
comigo."
— Parece que vencemos, camarada — Bradley anunciou, colocando a última colherada
na boca de Jack.
Annabelle franziu a testa. Suas divagações deviam tê-la deixado mais tensa ainda.
— Você costuma tratar tudo como se fosse uma competição, sr. Franklin?
— Suponho que sim. É por isso que sou tão bom no que faço. Encaro qualquer trabalho,
como um desafio — ele afirmou, com os olhos ligeiramente apertados.
Não havia aspereza nas palavras dele, mas Annabelle interpretou-as como um aviso.
Randall Swynite era realmente muito esperto em manter o filho longe de P. Bradley Franklin.
— E agora?
Annabelle olhou para Bradley, certa de que ouvira um tom de impaciência na voz dele.
Bem, fora ele que se oferecera para ajudá-la. Após o jantar, as crianças precisavam ser
trocadas. Normalmente, ela deixava duas em baixo e levava a terceira para o banheiro mais
amplo e confortável da parte de cima, onde havia um trocador. Costumava trocar uma de cada
vez, mas o sr. Franklin insistira em carregar todas juntas escada acima. Ele estava na porta,
com as duas crianças já trocadas no colo, esperando ela terminar de vestir Sarah.
— Agora vão brincar até que os pais venham buscá-las — ela informou. — Se colocá-
las na cama, terão de acordar no meio da noite.
O estômago de Bradley roncou, avisando de o que não tinha jantado.
— Não tive tempo de comer antes de vir — ele explicou, ao deparar com o olhar
indagativo dela.
Annabelle teve vontade de sugerir que ele fosse jantar em qualquer lugar, tivesse uma
boa noite de descanso, para no dia seguinte continuarem com o trabalho, Mas...
— Vou preparar um sanduíche para mim, gostaria de um para você também? —
ofereceu, e, surpresa consigo mesma, desviou a atenção para Sarah.
— Não, obrigado, fica para uma próxima vez.
Bradley se pegou imaginando que aqueles bebês eram seus, que aquela era sua própria
família. Mas de repente ficou tenso. Por que estaria tendo aqueles pensamentos logo na
presença de Annabelle Royd?
Definitivamente, ela não era o tipo de mulher que gostaria de ter como esposa. Ele
planejava casar-se, um dia, mas queria uma mulher responsável, que permanecesse em casa,
cuidando das crianças. Pessoalmente, duvidava que ainda existissem mulheres assim, ou
talvez nunca tivessem existido e tudo não passasse de um mito criado pelos ideais machistas.
Nem sua própria mãe atendera a esses requisitos. Cuidara da casa, mas também
trabalhara fora, como voluntária em um hospital. E quando ele e a irmã saíram de casa, ela
arranjara um emprego de meio período.
Tinha certeza de que a única coisa que Annabelle Royd amava acima de qualquer coisa
era a carreira profissional. Não era mulher para se imaginar tomando conta de uma casa.
constituindo família.
Sentindo o estômago roncar, de repente, ele arrependeu-se de não ter aceitado, quando
Annabelle lhe oferecera um sanduíche.
— Sabe que estou com fome? — comentou, ao retornarem para a sala. enquanto
colocavam os bebês no cercadinho. — Com estes três ao redor, é óbvio que não
conseguiremos fazer nada hoje à noite. Vou comer alguma coisa no hotel e depois dormir.
Continuaremos amanhã, no escritório.
Enquanto falava, ele ia pegando o paletó, a gravata e a pasta. Depois, dirigiu-se para a
porta, apressadamente.
Annabelle teve tempo apenas para dizer um rápido "até logo", antes que ele se fosse.
Quando a porta fechou-se, ela voltou-se para Sarah:
— Bem, querida, felizmente ele se cansou depressa da nossa companhia.
Mas a saída apressada do sr. Franklin a deixara intimamente confusa. Queria que ele
fosse embora, mas, ao mesmo tempo, sentiu-se estranhamente só.

CAPITULO III

Bradley não estava em um de seus melhores dias. Dormira mal. Sonhara que Annabelle
estava presa em uma cela, olhando-o através das grades. Os trigêmeos também estavam lá
com ela. Com uma menina em cada braço, Annabelle o fitava, enquanto Jack, agarrado em
suas pernas, tinha os olhos arregalados como se visse o próprio diabo. Bradley, do lado de
fora, segurava uma enorme argola, de onde pendiam as chaves da cela. Ele estava dizendo a
Annabelle que a cadeia era para os desonestos. Mas, embora estivesse convencido da
verdade do que estava dizendo, sentia-se terrivelmente penalizado e arrependido.
Procurou esquecer o sonho e entregar-se ao trabalho, mas a indisposição com que
acordara permaneceu. Quando Annabelle chegou ao escritório, ele sentiu-se mais aliviado.
Exibindo a sobriedade de seu conjunto de saia e casaco, trazendo o cabelo penteado para
trás, ela entrou com seu jeito frio e reservado. Mas a imagem dela usando jeans e camiseta e
com o cabelo em desordem permanecia em sua memória.
Durante o expediente, Annabelle esforçou-se para manter a concentração nos papéis a
sua frente, procurando não se importar com aquele homem ao seu lado.
Sua concentração, entretanto, estava prejudicada pelo cansaço. Também dormira mal.
Toda vez que fechava os olhos, P. Bradley Franklin aparecia em sua mente. Quando
conseguiu pegar no sono, sonhou com ele. No sonho, ele tomara-a nos braços e a beijara,
mas, naquele exato momento, ela acordara com um suor frio escorrendo-lhe pelo corpo. Ficara
assistindo à televisão por muito tempo, até conseguir dormir novamente.
Pela manhã, levantara-se tensa e cansada. Ali no escritório, junto do sr. Franklin, estava
evitando encará-lo. Como ele também parecia indisposto, ficou mais fácil.
Bradley sentia-se esgotado e ainda nem passara do meio-dia. Nunca ficara assim.
Normalmente fazia qualquer trabalho com absoluta tranqüilidade e profissionalismo. Mantinha
a devida distância das pessoas que estava investigando e, ao final, apresentava um relatório
justo e imparcial. Baseava-se exclusivamente em fatos e informações, sem se deixar envolver
emocionalmente. Isso fizera dele um dos mais conceituados auditores do país. Mas a idéia de
mandar Annabelle para a cadeia como no sonho o incomodava. Não tanto por ela, mas pelas
crianças. Aquela mulher fria, que passara toda a manhã fornecendo-lhe informações como um
computador humano, não precisava de compaixão. Por outro lado, não conseguia separá-la
da mulher dócil e de mãos suaves cuidando das crianças. Desejou nunca ter ido à casa dela.
Pediram que lhes levassem o almoço no escritório. Annabelle deu uma mordida no
sanduíche e um pouco de maionese ficou grudado no canto da boca. Olhando-a, Bradley teve
o pensamento de remover os resíduos com a língua, Mas... nem ao mesmo gostava de
maionese!
Annabelle sabia que ele a estava observando e aquilo a incomodava. Em outras
situações, apenas ignorava os olhares masculinos, mas o sr. Franklin era um homem difícil de
se ignorar. Sem conseguir dominar o incômodo que o olhar dele estava causando, fitou-o
também.
— Maionese — ele avisou, apontando-lhe o canto da boca.
Ela corou, entre embaraçada e irritada. Ele parecia censurá-la, como se aquilo fosse
um grande pecado. Bem, nunca pretendera ser perfeita! Com dignidade, mantendo a altivez,
Annabelle pegou um guardanapo e limpou a desonrosa mancha.
Bradley mastigou e engoliu um pedaço de sanduíche, fazendo um careta, como se não
tivesse gostado.
— Existe uma coisa que você precisa saber. Annabelle olhou-o apreensiva. Havia um
tom de ameaça na voz dele. Se algum homem a intimidava, esse era P. Bradley Franklin. Mas,
naquele momento, estava tão tensa que nenhuma intimidação a atingiria.
— O que preciso saber? — perguntou, aparentando uma serenidade que estava longe
de retratar seu real estado de nervos.
— Contratei um perito-contador que conheço e em quem confio. Vamos fazer uma
auditoria geral.
Bradley fez o comentário e ficou observando-a. Annabelle se sentiu um pouco confusa,
mas não atemorizada. Deu de ombros, como se aquilo não tivesse a menor importância.
— Pensei que tivesse analisado os livros antes de vir — ela considerou, aparentando
despreocupação. — Tivemos uma auditoria completa há dois meses e tudo e estava em ordem.
Mas, lá no fundo, estava quase explodindo de indignação. Edward Swynite poderia não
ter as melhores idéias para a empresa, mas certamente nenhuma delas incluía algo desonesto.
— Entretanto — ela continuou secamente —, sabemos que a diretoria lhe deu acesso
a tudo. Faça como quiser. Presumo que estão lhe pagando pelo trabalho completo, in-
dependente das horas que você gastar ou dos empregados que contratar. A maneira que
escolher para gastar seus recursos é problema seu.
Aquela reação de indignação, embora fosse justa por ter sido provocada, bem que
poderia esconder alguma coisa. Bradley pensou. Contudo, seu apurado instinto o avisava de
que poderia estar errado em suas suspeitas. Talvez ela estivesse nervosa apenas por excesso
de zelo pelo emprego. Algumas pessoas costumam tremer quando são colocadas à prova.
Annabelle não parecia esse tipo de pessoa, mas também ele nunca esperara vê-la usando
jeans e cuidando de três bebês com um jeito tão maternal.
— Diga-me, srta. Royd, de que maneira meu relatório poderia prejudicá-la — ele
indagou de repente.
— Se o seu relatório for favorável ao sr. Swynite e Edward conseguir o lugar de
presidente quando o pai se aposentar, então eu assumirei como vice-presidente comercial no
lugar de Edward. Mas se o seu relatório não for favorável, então tudo poderá permanecer como
está.
— E Randall vai ter um ataque do tamanho do Texas — Bradley completou, assombrado
com a franqueza dela.
— Randall vai ter um ataque do tamanho do mundo — ela corrigiu. — Tenho grande
admiração pelo velho Swynite e por isso faremos tudo dentro do mais alto grau de dignidade.
Bradley não poderia deixar de admirar a lealdade dela. Talvez fosse mesmo a
preocupação com a carreira que a deixava nervosa. A vice-presidência comercial era uma
meta considerável, especialmente para uma mulher jovem como ela.
— Deve ser difícil para Randall explicar-se com a diretoria — Bradley considerou. — Se
ele tivesse percebido que poderia perder o controle da companhia, eu gostaria de saber se,
mesmo assim, teria aberto o capital da empresa a novos investidores.
— Ele precisou de recursos para novos investimentos — Annabelle explicou —, mas
sempre planejou manter a maioria das ações.
Bradley concordou com um aceno de cabeça. Sabia da briga entre Howard Zyle,
segundo maior acionista, e Randall Swynite. Sabia também que Randall oferecera ao ex-genro
Gerard Muldam o triplo do valor das ações dele. Mas parece que Gerard Muldam tinha um
gênio extremamente vingativo. Em vez de aceitar a oferta de Randall. preferira vender para
Howard Zyle, embora por um preço inferior. Isto fortalecera a posição de Howard. Fora Howard
quem manobrara a aprovação da cláusula de aposentadoria do presidente por idade, nos
estatutos. E fora ele também quem coagira os outro membros da diretoria a concordarem com
aquela investigação.
— Não há o que temer, srta. Royd. Não costumo ser tendencioso. Se Edward Swynite
está realmente fazendo um bom trabalho, meu relatório não lhe custará o cargo de presidente.
Intimamente, Annabelle sentiu um grande alívio. Tinha plena certeza de que a empresa
estaria muito bem nas mãos de Edward, embora ele tivesse idéias não muito ortodoxas.
— Agrada-me saber disso — ela confessou, continuando a almoçar.
As horas passaram rapidamente na parte da tarde.
Annabelle estivera tão profundamente envolvida no trabalho com Bradley, que nem
percebera que os outros tinham ido embora. Eram sete da noite.
— Parece que estamos sozinhos — Bradley comentou, colocando de lado a última ficha
verificada.
Annabelle olhou para o relógio e só então se deu conta de como era tarde. Eram,
provavelmente, as últimas pessoas a permanecer naquele andar.
— Acho que fizemos o suficiente por hoje — ele afirmou, enquanto esticava-se na
cadeira para relaxar. — Que tal um jantar?
No mesmo instante Bradley franziu o cenho. Não queria acreditar que fizera mesmo
aquele convite. Não tinha intenção de gastar seu tempo com Annabelle fora do trabalho.
A sugestão despertou Annabelle. Estava distraída olhando pela janela, tentando não
pensar naquele homem viril com quem passara todo o dia. Por um lado, queria recusar edu-
cadamente, desaparecer do escritório e fugir para a segurança da sua casa, mas, por outro
lado, uma parte dela desejava aceitar.
Inconformado por ceder ao impulso inexplicável de convidá-la para jantar, Bradley
tentou remediar a situação.
— Bem, de qualquer maneira, suponho que tenha algo melhor para fazer e,
provavelmente, deve estar cansada da minha companhia.
Pelo tom de voz dele, Annabelle captou a mensagem. Formulara o convite, mas não
demonstrara real interesse. "Provavelmente pensa que me deve um jantar, só porque me
segurou até mais tarde", ela concluiu com inexplicável irritação.
— Tem razão — concordou. — Estou cansada.
Bem no fundo, Bradley não estava satisfeito com a recusa de Annabelle. Criticou-se por
ter dado a ela a chance de não aceitar. Mas não era isso que ele queria?, pensou. Lembrou-
se de Brenda. Tinha o número dela no bolso, mas perdeu a vontade de ligar, ao pensar
novamente em Annabelle.
— Quando sairmos, acompanho-a até o carro — ofereceu-se.
— Não é necessário — ela assegurou.
De repente, ouviram a voz de alguém que entrava na sala.
— Ela está dizendo a verdade. Annabelle é faixa preta caratê. Agora você já sabe. Ela
não só é minha assistente, como também, guarda-costas.
Annabelle virou-se abruptamente e viu Edward. Não era a primeira vez que ele fazia
aquela brincadeira. Já a fizera com alguns clientes antes e ela achara engraçado. Entretanto,
naquele momento fora diferente. O comentário fizera-a sentir-se totalmente desprovida de
feminilidade. Mas, afinal, não era o que ela pretendia?, refletiu.
Bradley surpreendeu-se, apesar de não ter demonstrado sua surpresa. Por que razão
espantar-se pela descoberta de mais aquele talento em Annabelle? Realmente, a arte marcial
combinava muito melhor com ela do que cuidar de três crianças gêmeas. Disposto a esquecê-
la e concentrar-se nos negócios, voltou a atenção para Edward Swynite.
— Estava quase saindo para jantar. Quer acompanhar-me0
Por um momento Edward hesitou. Depois, como que aceitando um desafio, sorriu.
— Naturalmente. Não tenho nenhum compromisso para hoje.
Annabelle sabia que Randall aprovaria que ela fosse junto, para certificar-se de que
Edward não diria nenhuma bobagem. Porém, P. Bradley Franklin deixara claro que não estava
interessado em tê-la por perto. Além disso, Edward podia se virar sozinho. Ele sabia quantas
coisas dependiam de sua conduta.
— Se vocês, por gentileza, me derem licença — ela interveio, dirigindo-se para a porta
—, estou indo embora.
Durante a volta para casa, ficou mais preocupada ainda. Mas não era com P. Bradley
Franklin e sim com ela mesma. Lamentavelmente, admitia que o sr. Franklin era um homem
atraente, e era isso o que a estava deixando nervosa.
— Parece que não estou conseguindo esquecer o passado como planejei — ela
murmurou.
Mais tarde, naquela noite, Randall andava em seu escritório, em casa, com sua
característica expressão de fúria.
— Suponho que você comentou com Bradley sobre suas idéias para o futuro da
empresa.
A voz dele soou tão alta. que as palavras ecoaram pelas paredes. Edward, carrancudo,
observava o pai. Fora lá para contar sobre o jantar com Bradley. Pelo que podia julgar, o jantar
fora um sucesso.
— Sim, falamos sobre o futuro — replicou, conservando-se calmo. O homem tem
mentalidade moderna. Sabe que hoje em dia não se pode dirigir uma empresa como nos
tempos medievais.
Randall parou e ficou olhando fixamente para o filho.
— Quantas vezes tenho de lhe dizer que nosso quadro de diretores é essencialmente
conservador? O que eles consideram sensato nos negócios, pode parecer antiquado para você,
mas são eles que dão as cartas.
— Bem, o que está feito, está feito. E, honestamente, não acredito que Bradley
desaprove minhas idéias e me apresente desfavoravelmente.
— Não podemos perder esta chance — Randall explodiu. — Se for necessário,
descobriremos uma maneira de desmoralizar o sr. Franklin.

CAPÍTULO IV

Annabelle tremia de frio, quando saiu da pequena loja e correu em direção ao carro.
Eram aproximadamente nove horas da noite. Nevava levemente quando deixara Pittsburgh
algumas horas antes. Mas, ali nas montanhas, os flocos de neve eram maiores e caíam mais
rapidamente.
Chegando ao carro, colocou a sacola de compras no banco da frente. As estradas
começavam a ficar perigosas. Aceitar a oferta de Randall para passar o fim de semana em sua
cabana nas montanhas parecera uma ótima idéia. A semana fora cansativa.
As reações despertadas por P. Bradley Franklin obrigaram-na a admitir a desagradável
verdade de que tinha medo de assumir uma relação mais íntima com um homem. Durante os
últimos oito anos, tentara convencer-se de que o incidente ocorrido naquela noite de verão não
deixara nenhuma marca permanente.
'Tenho estado mentindo para mim mesma", confessou pela décima vez naquele dia. ao
sentar-se ao volante.
Com um suspiro de indignação, deu partida no cano. Estava segura de que, no
momento em que aparecesse um homem que a atraísse de verdade, seria capaz de corres-
ponder. Em vez disso, estava fugindo para as montanhas, como uma lebre assustada.
Annabelle estava rindo de si mesma, quando sentiu o carro derrapar, logo na saída do
estacionamento. A estrada estava ficando péssima. Olhando a estrada perigosa, ela procurou
encorajar-se. Faltavam apenas dezesseis quilômetros para chegar à cabana.
"Tenho de conseguir", dizia para si mesma, dirigindo sob a neve que caía cada vez mais
densa.
Na verdade, "cabana" não era a designação mais apropriada para aquela bela
residência. Randall sempre se referia àquele lugar como sua "pequena cabana de madeira".
Era de madeira, mas tinha todo o conforto que poderia ter uma casa das mais modernas. Até
um gerador elétrico fora instalado, para suprir a falta de energia, no caso de um colapso no
fornecimento regular.
Annabelle nunca achara que a casa era pequena. Era uma sólida edificação construída
em dois andares e tinha pelo menos o dobro do tamanho da casa dela em Pittsburgh. Com
exceção do espaço reservado ao banheiro, a parte de baixo era um amplo e único ambiente.
Uma cozinha completamente equipada ocupava a parede oposta à porta de entrada. A parede
do lado sul abrigava uma enorme lareira suficiente para comportar uma criança em pé. Uma
pesada mesa entalhada, apoiada sobre um tronco de árvore, e bancos rústicos formavam a
sala de jantar. Confortáveis poltronas estofadas de couro e cadeiras de diretor,
estrategicamente distribuídas no ambiente de estar, eram um convite ao descanso, sem falar
do aconchegante conjunto de sofás ria frente da lareira. No andar superior, uma luxuosa suíte
com banheiro privativo, três quartos de hóspedes e mais um banheiro completavam o conforto
daquela singular vivenda.
Annabelle estivera lá outras vezes a pedido de Randall. Edward recusava-se a ir. Ao
contrário dela, não gostava da solidão das montanhas. O lugar civilizado mais próximo dali era
a pequena loja, onde ela fizera as compras.
Quando estava chegando. Annabelle aguçou a vista para enxergar melhor. De longe,
percebeu que as luzes da casa estavam acesas. Um cano estacionado ao lado da casa cha-
mou-lhe a atenção. O veículo estava coberto com uma grossa camada de neve, por isso era
impossível determinar a marca ou o modelo. Ocorreu-lhe que poderia ser o carro de Ida Crowe.
Ida morava a cerca de vinte quilômetros dali, perto de Rossiter. Pensilvânia. Fazia muitos anos
que trabalhava para Randall, limpando a casa duas vezes por mês. Mas o que Annabelle
estranhou foi que, geralmente, a mulher fazia suas faxinas durante a semana.
Olhando em volta, tudo o que podia ver era neve. De repente, a porta da cabana se
abriu e uma pessoa surgiu na varanda. Annabelle não queria acreditar em seus próprios olhos.
Não era Ida Crowe, nem tampouco um estranho. Era P. Bradley Franklin!
Annabelle ficou mais tensa, quando percebeu que ele andava em sua direção. Abriu a
porta do cano e saiu depressa, sentindo que os saltos das botas afundavam na neve fofa.
Por um instante, Bradley ficou em dúvida, sem saber se o que estava vendo era real ou
alguma alucinação. A última pessoa que esperava encontrar naquele lugar era Annabelle.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, ao aproximar-se.
— Randall ofereceu-me a casa para o fim de semana — ela respondeu, com expressão
de incredulidade.
Enfrentara aquela tempestade de neve para ficar longe daquele homem e agora ele
estava ali, bem na sua frente!
— Não estou entendendo nada — reclamou Bradley. — Edward ofereceu-me a cabana
também. Ele e o pai virão encontrar-se comigo amanhã. Vamos passar um relaxante fim de
semana*nas montanhas.
Embaraçada, ela procurou desesperadamente algo para dizer.
— Tive a impressão de que você nunca relaxava — comentou por fim.
Bradley a observava. A fria sita. Royd estava claramente confusa. Bem, ele também
não estava muito à vontade com aquela esquisita coincidência.
— Normalmente não relaxo, quando estou trabalhando. A verdade é que eu queria
observar como aqueles dois se comportam fora do escritório, antes de escrever a avaliação
final.
Annabelle olhou na direção da estrada, na esperança de ver algum carro se
aproximando, mas, evidentemente, não viu nenhum.
— Bem, na minha opinião, ninguém conseguirá chegar aqui amanhã — ela declarou,
olhando para o céu. — Já nevou bastante e pelo que parece vai continuar nevando pesado
por algum tempo.
— E ninguém vai conseguir sair daqui esta noite — ele acrescentou. — Deve haver de
oito a dez centímetros de neve na estrada, agora. E preferível ficar aqui a arriscar-se a sofrer
um acidente ou ficar encalhado em algum lugar.
Para Annabelle, ele falava como se a censurasse por ter feito a burrice de ter ido até a
cabana com um tempo horrível daqueles.
— Quando saí de Pittsburgh, não estava nevando tão forte — tentou justificar-se. —
Mas as condições pioraram quando eu estava a caminho.
Ela não mencionou que imaginara que poderia estar nevando muito naquela região,
mas que não se incomodara com isso. Queria ficar longe dele, sozinha com seus medos.
Bradley deu um breve suspiro. Annabelle Royd. De todas as mulheres que conhecia,
ela teria sido a última que ele escolheria para passar o fim de semana. Entretanto, não havia
outra solução e o melhor era conformar-se.
— Vamos entrar para não congelarmos — ele sugeriu. — Levo sua bagagem.
— Não se preocupe. Eu mesma posso levar. Nervosa, ainda considerou a possibilidade
de procurar um motel, onde estaria em segurança, mas naquele momento a idéia era
impraticável. Mesmo que conseguisse chegar à estrada principal, não conseguiria viajar com
tanta neve. Dessa maneira, teve de conformar-se em ficar ali mesmo. Suspirando, deu a volta
para abrir o porta-malas.
Irritado com aquela exibição descabida de independência, Bradley ficou tentado a largá-
la lá fora e entrar, mas estava muito frio, úmido, e o chão escorregadio demais.
— Não faz sentido fazer duas viagens — ele argumentou, colocando-se atrás dela para
apanhar a mala. — Levo isto e você leva as compras.
— Não entendo como os Swynite cometeram esse engano
— Annabelle ainda resmungou ao entrar na cabana. Bradley também estava sem
entender. Se fosse Brenda que aparecesse, ele saberia que não era engano. Mas Annabelle!
— Fiquei com o quarto da direita — ele informou, subindo a escada. — Vou colocar
suas coisas no da esquerda.
Se Bradley dissesse que queria ficar o mais longe possível dela, não seria tão claro.
Annabelle concluiu, vendo-o desaparecer escada acima. Colocando a sacola sobre a mesa da
cozinha, começou a desempacotar as compras.
— De fome não vai dar para morrer — Bradley comentou ao retomar. — Encontrei o
freezer cheio e também comprei alguma coisa, na vinda para cá.
A campainha do telefone interrompeu o breve diálogo. Bradley atendeu. Era Edward.
— Acabei de saber que meu pai ofereceu a cabana para Annabelle passar o fim de
semana — informou Edward.
— Eu não sabia de nada. O tempo ficou péssimo, muito rapidamente. Ela chegou bem?
— Chegou, sim — Bradley respondeu, como quem não está muito satisfeito. — Na
próxima vez, sugiro que fale com seu pai, antes de fazer planos.
Edward pediu para falar com Annabelle.
— Sinto muito pelo transtorno — se desculpou, quando ela pegou o fone. — Não me
ocorreu que meu pai pudesse ter oferecido a cabana a você.
— Custa-me acreditar que você tenha marcado encontro com alguém aqui — ela
declarou desconfiada. — Você odeia este lugar!
— Fiz umas averiguações — Edward tentou explicar — e descobri que Bradley tem uma
casa nas montanhas rochosas, para onde ele se retira quando não está trabalhando. Achei
que ele se sentiria em casa, aí na cabana. E, também, não podia adivinhar que iria nevar tanto.
— Na próxima vez, antes de aceitar qualquer oferta do seu pai, vou consultar você —
Annabelle declarou secamente.
— Não se preocupe. Ligue para Ida — Edward orientou, dando-lhe o número. — O
marido dela tem um limpador de neve adaptado ao jipe. Além disso, é possível que o tempo
esquente consideravelmente amanhã. Então, você poderá voltar para Pittsburgh no domingo
de manhã, sem problemas,
Quando Edward desligou, a palavra "domingo" ficou ecoando na cabeça de Annabelle.
"Com um pouco de sorte, poderei sair daqui amanhã, pensou."
Enquanto isso, na maior parte do tempo que ficassem presos naquele lugar, procuraria
simplesmente ignorar o sr. Franklin. Ele aplaudiria a decisão, pois era óbvio que ela lhe era
completamente indiferente.
Edward olhou para o pai, assim que colocou o fone no gancho.
— Eles estão lá, ilhados pela neve.
— Agradeça a Deus pela inesperada tempestade — Randall falou, sorrindo de orelha a
orelha. — Em vez de passarem apenas algumas horas sozinhos na cabana, terão de passar
a noite toda. Saiu melhor do que eu esperava.
— Ainda não entendi por que você queria os dois juntos na cabana — Edward comentou
interrogativamente. — Eles nem mesmo gostam um do outro!
— Acontece que só você e eu sabemos disso — Randall afirmou, arregalando os olhos,
conspirador. — Confie em mim. Podemos tirar vantagem disso.
No mesmo instante em que Randall se gabava da própria esperteza, Annabelle
telefonava para ida, fazendo contato para que o marido dela fosse com o jipe o mais rápido
possível.
— Por um momento, tive a impressão de que você estava contratando um resgate —
Bradley comentou, quando ela desligou.
— Não, apenas contratei o serviço de sempre... Um longo e pesado silêncio caiu entre
eles.
— Já que estamos presos aqui, o melhor é fazer o que pudermos para nos divertirmos
— ele sugeriu, resignado. — Sou especialista em preparar bifes. E você, é boa para preparar
saladas?
— O suficiente — Annabelle respondeu.
Bradley percebeu que ela ainda estava usando o pesado casaco com capuz.
— A lareira está acesa. Agora que está agradavelmente quente aqui dentro, acho que
deveria tirar o casaco — sugeriu.
Annabelle concordou. Não tirara o casaco porque, até aquele momento, tinha esperança
de encontrar uma maneira de sair dali. Finalmente, reconhecendo que não havia a mínima
possibilidade, tirou o casaco e o dependurou em um cabide próximo à porta. Ao despir o
agasalho, revelou a roupa que estava usando, composta de calça jeans e blusa. Desejou estar
vestindo o conjunto de trabalho mais severo que possuía. Embora duvidasse que o sr. Franklin
tivesse algum interesse por ela, sentia-se mais segura e protegida quando se escondia atrás
da austeridade das roupas profissionais.
Bradley olhava-a pelo canto dos olhos. Diabos! Ela era mesmo graciosa, vestida
daquela maneira descontraída. Sentindo-se perturbado com a reação de interesse por ela,
tratou de desviar os pensamentos para assuntos não tão pessoais. Ela era muito boa no seu
trabalho. Tinha certeza de que, mesmo que Edward não ganhasse a presidência, Annabelle
conseguiria alcançar suas metas. O que não tinha certeza era se aquele desastroso fim de
semana fora um lamentável engano ou uma trama dos Swynite para tentar envolvê-lo. Mas,
fosse o que fosse, ela parecia inocente.
Para alívio de Annabelle, a meia hora seguinte passou razoavelmente rápida,
concentrados que estavam na preparação da comida.
— Sinto muito por este transtorno — ela se desculpou, assim que se sentaram à mesa.
— Ainda bem que você não tem uma esposa, a quem teríamos de dar explicações.
— E você não tem nem mesmo um namorado — Bradley acrescentou, procurando
introduzir mais assunto para descontrair o ambiente.
Annabelle concordou com um aceno de cabeça enquanto se servia de um pedaço de
carne. Porém, estava difícil de engolir. O estômago não estava aceitando, pressionado pelo
nervosismo.
Enquanto isso, disfarçadamente. Bradley analisava-a. Ela o intrigava. No trabalho,
parecia um computador humano. Durante os dias que passara no escritório das Indústrias
Swynite, ele nunca a ouvira dar uma risada. Vira-lhe um sorriso nos lábios apenas uma ou
duas vezes. Por outro lado, a Annabelle que vira cuidando das crianças era tão meiga, tão
terna, que ele não acreditaria, se não visse com os próprios olhos.
— Você é daquelas mulheres que dedicam toda a energia ao trabalho, ou apenas está
sem namorado no momento — perguntou, de repente.
Annabelle sentiu-se enrijecer. Estaria enganada em confiar em P. Bradley Franklin?
Fitando-o bem no fundo dos olhos, acalmou-se. Não havia nada lá que denunciasse algum
interesse pessoal.
— Divido minhas energias entre meu trabalho e meus sobrinhos, quase sempre. Não
tenho tido muito tempo para um homem, em minha vida.
Bradley congratulou-se mentalmente. Ele estava certo. A srta. Royd era dedicada
exclusivamente à carreira e fria de sentimentos, pelo menos em relação a homens.
— E quanto a você? — Annabelle devolveu a pergunta, mas arrependeu-se no mesmo
instante, achando inoportuno intrometer-se na vida pessoal dele.
— Eu viajo muito — ele respondeu —, por isso, não gosto de me amarrar a um
compromisso mais sério.
A verdade era que, até então. Bradley não encontrara ninguém por quem se
interessasse realmente. Intimamente, admitia que Annabelle o interessava, mas de um modo
nada sentimental. Era como um exercício intelectual, uma observação do comportamento da
mulher moderna e suas relações com a carreira profissional.
Annabelle considerou que estava certa sobre o sr. Franklin. Definitivamente, ele não era
o tipo ideal. Para ela, um relacionamento permanente seria o único aceitável.
— Minha mãe e minha irmã sempre me dizem que é porque ainda não encontrei a
mulher certa — Bradley continuou, dando um sorrisinho.
Annabelle ficou imaginando qual seria a mulher certa para P. Bradley Franklin.
Quando terminaram o jantar. Bradley olhou de relance para o computador portátil.
Felizmente levara-o consigo, pensou. A idéia de passar o tempo procurando assunto para
conversar, ou simplesmente olhando para Annabelle em silêncio o enervava.
Annabelle percebeu o olhar dele para o computador. Seria ótimo que trabalhasse para
manter-se ocupado. Porém, não pôde evitar uma ligeira frustração. Ele a fazia sentir-se menos
importante do que uma cadeira. Mas porque importar-se com isso? Afinal, ele não servia
mesmo para ela!
— Se quiser ocupar-se com seu trabalho, fique à vontade. Vou lavar os pratos e depois
cair na cama. Hoje foi um dia muito longo.
— Tem certeza de que não quer ajuda com os pratos? — ele perguntou, para ser
cavalheiro.
— Tenho — Annabelle respondeu secamente, pensando que quanto mais longe ele
estivesse, melhor seria.
Em pouco tempo. Annabelle terminou de lavar os pratos e subiu para o quarto. Trocou
as roupas por um grosso pijama de tecido aflanelado e mergulhou na cama. Bradley estava
tão concentrado no trabalho que nem percebeu ela subir.
Enquanto isso, antes de dormir, Annabelle pensava naquele longo dia. Em alguns
momentos, reconhecera nos olhos de Bradley o mesmo olhar de aprovação que ele dirigia
para Brenda.
"Aposto que se fosse ela que estivesse aqui, ele não estaria tão compenetrado no
trabalho", pensou.
Por um breve momento, imaginou como Bradley reagiria se ela tentasse flertar, mas no
mesmo instante sentiu um calafrio percorrê-la.
"Não é o homem certo", afirmou para si mesma, mais uma vez.
Finalmente, exausta, tanto física como mentalmente, adormeceu.

CAPÍTULO V

Bradley sentou-se diante da lareira, onde ardiam as últimas brasas. Seria maravilhoso
dividir aqueles momentos com uma mulher realmente apaixonada e ardente, pensou. Em vez
disso, estava ali, preso com a "rainha do gelo". Talvez fosse melhor assim. Não precisava de
mais complicação em seu trabalho. Aquele relatório estava se tomando um assunto
desgastante.
Recostando-se na poltrona, fechou os olhos em meio aos mais variados pensamentos.
Logo teria de subir para dormir. O dia fora cansativo demais.
De repente, ouviu um gemido. A princípio, pensou que fosse o vento. Mas o som se
repetiu e era, sem a menor dúvida, um soluço humano, que foi-se transformando num choro
sufocado.
Imediatamente Bradley colocou-se de pé e correu para a escada. O choro vinha do
quarto de Annabelle.
— Não! Pare! Não! — ela suplicava, como se estivesse apavorada.
— Mas que diabo! — ele resmungou, sem saber o que ou quem conseguira entrar
naquele quarto.
Olhando ao redor, procurando algo que lhe servisse de arma, arrancou da parede uma
espada antiga, que fazia parte da decoração. Tentou girar a maçaneta, mas a porta estava
trancada por dentro. Tomando ligeiro impulso, aplicou um chute bem fume um pouco acima da
fechadura e a porta abriu-se. Como o quarto estava escuro, a única coisa que podia ver,
auxiliado pela luz do corredor, era Annabelle na cama. lutando desesperadamente com alguma
coisa. Rapidamente, acendeu as luzes e correu em direção à cama, com a espada em punho.
Annabelle se descobrira, de modo que. chegando mais perto ele pode ver que ela se debatia,
lutando contra algo invisível. Devia ser um terrível pesadelo, conjecturou, notando que ela não
acordara nem com a luz acesa, nem com o barulho que ele fizera ao arrombar a porta.
Mergulhada em seu pesadelo. Annabelle lutava com todas as forças, mas parecia estar
sendo subjugada por um inimigo mais forte.
— Não! Por favor! Não! — ela continuava a suplicar, com o rosto cheio de lágrimas,
Bradley nunca vira tanto desespero em uma pessoa. Compadecido, tentou acordá-la.
— Srta. Royd, acorde — gritou, sacudindo-a pelos ombros.
O corpo de Annabelle retesou-se. Ela estava determinada a escapar. Num rápido
movimento, estirou-se a cama, livrou-se das mãos dele e aplicou um violento golpe de caratê
com o pé.
Bradley recebeu todo o impacto do golpe no estômago. Com um gemido, foi atirado de
costas contra o armário embutido, escorregando pesadamente para o chão. Levantou-se
praguejando, ao sentir os puxadores das gavetas machucando-lhe as costas.
Para Annabelle, semiconsciente, o pesadelo continuava. Quando ouviu o baque contra
o guarda-roupa, seguido de uma imprecação, colocou-se de pé, em posição de ataque. Sua
mente ainda registrava a figura do homem que a atacava e, só muito lentamente, foi se
clareando.
— Pare aí mesmo, moça — ordenou Bradley, estendendo a mão direita, como um
guarda para parar o trânsito.
Toda a compaixão que sentira, desaparecera, restando a sensação de que era ele quem
precisava de ajuda.
Annabelle interrompeu o ataque e recuou, em posição de defesa. Aos poucos, o pânico
foi dando lugar à razão e ela lembrou-se de onde estava e quem era aquele homem
ligeiramente dobrado sobre si mesmo, com a mão no estômago. Obviamente, o golpe que
desferira não fora apenas no sonho.
— O que está fazendo no meu quarto? — ela interrogou.
— Você estava gritando por socorro — ele respondeu, respirando com dificuldade,
continuando com a mão no estômago. — Pensei que precisava de ajuda, mas parece que me
enganei.
Mantendo a mão levantada para proteger-se de um súbito ataque, ele foi se afastando
devagar. Saindo para o corredor, encostou a porta e sacudiu a cabeça, como se não
entendesse aquela confusão. Então, foi para o seu quarto.
Completamente embaraçada, Annabelle voltou para a cama, mas não conseguia
despregar os olhos da porta. Sentia-se horrivelmente mal por tê-lo acertado. E se Bradley
estivesse seriamente ferido? Rapidamente levantou-se, vestiu o roupão e saiu correndo atrás
dele.
Chegando à porta do quarto que Bradley ocupava, parou, hesitante. Ocorreu-lhe que
ela seria a última mulher no mundo que ele queria ver. Mas foi adiante. Tinha de certificar-se
de se estava bem. Bateu.
Quando a porta abriu-se. Annabelle deu instintivamente um passo atrás. Nu, da cintura
para cima, uma espessa nuvem de pêlos loiros cobria a musculatura firme do tórax bem-
definido. Os ombros eram verdadeiramente largos e fortes. Como mulher, não poderia deixar
de apreciar um físico como aquele.
— Sinto muito — desculpou-se.
— Talvez você devesse colocar um aviso: "Aproxime-se com cuidado" — ele sugeriu
secamente.
Annabelle teve vontade de chorar. Além de frustrada e tola, agora sentia-se também
como algo ameaçador. Mas, mantendo-se firme, apenas reiterou o pedido de desculpas e
voltou para o quarto. Logo uma leve dor de cabeça apareceu e ela desceu para tomar uma
aspirina na cozinha. Depois, cansada e sem coragem de subir as escadas de volta,
perambulou até a lareira, onde ficou de pé, observando as brasas que ainda restavam.
Lágrimas quentes banharam-lhe o rosto. Desejava desesperadamente que o passado parasse
de interferir em sua vida. Estava assim, pensando, quando ouviu a voz de Bradley:
— Agora é minha vez de pedir desculpas.
Com um sobressalto, Annabelle virou-se repentinamente. Ele estava ali, mas guardava
certa distância, como se não tivesse certeza de que seria seguro chegar mais perto.
— Como se sente? — perguntou, ansiosa.
— Nada que eu não possa suportar — Bradley assegurou. Annabelle parecia tão
perturbada que Bradley arriscou um artifício para abrandar-lhe o ânimo:
— Talvez uma ou duas costelas quebradas — continuou, com ar de brincadeira. — Mas
não se preocupe porque só dói quando dou risada.
Annabelle mordeu o lábio inferior. Percebera a brincadeira. Ele estava esforçando-se
para fazê-la sentir-se melhor. Entretanto, preferiu fazer-se de desentendida.
— Falando sério, tem certeza de que não deveríamos chamar um médico? Talvez haja
algum pelas redondezas, com um veículo apropriado para andar na neve, que poderia
examiná-lo.
— Estou bem — ele reafirmou, continuando a olhá-la, com dissimulado interesse. —
Deve ter sido terrível o seu pesadelo. Acontece com muita freqüência?
— Já foram mais freqüentes, mas ultimamente pensei que haviam parado. Fazia algum
tempo que não tinha um — respondeu com os olhos fixos na lareira, sem coragem de encará-
lo.
Naquele momento. Bradley notou-lhe o ar de fragilidade, mas reconsiderou o
pensamento. Não havia nada de frágil naquela mulher. Seu estômago dolorido que o dissesse.
Pensou em dizer-lhe "boa noite", desejar-lhe bons sonhos e ir para a cama. Mas, em vez disso,
permaneceu ali, premido por uma força que não sabia explicar.
— É o mesmo pesadelo que se repete, ou cada vez é um diferente?
— Sempre o mesmo — ela respondeu, com um tremor de pânico.
Bradley nunca poderia imaginar que Annabelle pudesse se tomar tão vulnerável. Afinal,
quase lhe quebrara as costelas com um pontapé!
— Você estava se debatendo, como se estivesse sendo agarrada pelo próprio diabo.
Annabelle fitava as brasas da lareira, com expressão de terror. De repente, encostou os
punhos cerrados no rosto, e começou a chorar convulsivamente.
— É assim mesmo que me sinto -— declarou entre soluços. — Fui violentada.
No mesmo instante, arrependeu-se de ter feito aquela revelação. Não queria acreditar
que fora capaz de confessar a P. Bradley Franklin o mais íntimo segredo de sua vida. Não
contara nem para a família. Afinal, eles nada poderiam fazer, a não ser ficar revoltados. Por
outro lado, admitia que receava que os pais soubessem. Sabia que a amavam, mas poderiam
julgá-la culpada pelo acontecido. Linda, sua irmã, acreditaria nela plenamente, mas não era
muito boa em guardar segredos. Era mais jovem, doce e inocente, sensível demais para tomar
conhecimento de tão horrível verdade. Por essas e por outras razões, que envolviam sua re-
putação, aquele fora seu grande segredo nos últimos oito anos.
Bradley recebeu a revelação como uma bomba. Uma raiva crescente tomou conta dele,
só de pensar que havia gente capaz de um ultraje daqueles.
— Procurou orientação de um psicólogo? — perguntou, sentindo-se solidário com ela
por aquele acontecimento infeliz.
— Procurei — ela respondeu, quase num sussurro. — Levaram-me a uma psicóloga
com quem conversei durante umas quatro horas, na mesma noite. Depois, não voltei mais.
— Por que não retornou?
— Não podia voltar. Acabaria sendo considerada culpada no relatório da polícia.
— Mas isso não faz sentido — Bradley comentou, mais confuso ainda.
Annabelle hesitou em contar toda a verdade. O que ele pensaria dela ao saber do seu
passado? Já sofrerá demais desde aquele incidente e não queria sofrer mais. Entretanto,
decidiu contar tudo. Precisava confiar nele e esperar que respeitasse sua privacidade.
— Foi tudo premeditado — ela começou. — O rapaz era de uma família muito rica e
influente. Estudávamos na mesma escola. Ele era capitão do time de futebol, presidente da
sua fraternidade e considerado um bom aluno. Fiquei lisonjeada quando ele me convidou para
sair. Eu não pertencia a nenhum clube e não tinha nenhuma função de destaque nó campus.
Annabelle fez uma longa pausa, reunindo forças para continuar.
— Perto dele e de seus colegas importantes, eu me considerava uma insignificância —
prosseguiu por fim. — Passava meu tempo estudando, ou trabalhando. Meus pais não podiam
pagar todas as despesas, por isso arranjei um emprego de meio período. Tive de estudar
duramente até me formar.
Bradley a ouvia com atenção. Achava difícil considerar
Annabelle uma pessoa insignificante. Apenas a considerava fria e impessoal, por causa
da imagem que ela mesma insistia em mostrar.
— Uma noite ele me convidou para uma festa. Comportou-se como um perfeito
cavalheiro e eu me sentia orgulhosa com tanta gentileza. Os amigos dele o arreliavam por
causa daquele comportamento, mas somente mais tarde fiquei sabendo que era tudo
encenação. Eu tinha uma prova no dia seguinte, por isso deixamos a festa mais cedo. Mas ele
não me levou direto para casa como havia prometido e decidiu dar uma volta.
Annabelle parou de falar outra vez. por alguns instantes.
— Maravilhada como estava, não fiz objeção — voltou a contar. — Afastamo-nos um
pouco da cidade e paramos, à beira de um pequeno lago. Então, ele sugeriu que fossemos
sentar em um lugar escuro, próximo a água, para conversarmos. Não percebi nenhuma
maldade, mas quando chegamos lá ele tomou-se agressivo.
Annabelle sentiu a voz morrer-lhe na garganta e precisou respirar fundo para vencer o
tremor que a sacudia.
— Disse-lhe que queria retomar para o alojamento — continuou —, mas ele jogou-me
de costas no chão e caiu por cima de mim. Tentei lutar, mas ele era muito forte e... No final,
concluído seu ato selvagem, ele apenas riu e confessou que ganhara uma aposta com os
amigos. Depois, simplesmente foi embora, deixando-me lá...
— Você está bem? — Bradley interrompeu, notando-lhe a palidez do rosto e os
espasmos do corpo.
Aproximou-se e pegou-a pela mão, convidando-a a sentar-se.
Annabelle recuou, soltando-se, e ele não insistiu.
Ela estava sentindo-se suja e desprezível como se estivesse vivendo aquela noite outra
vez. Passou os braços em tomo de si mesma para reprimir a náusea. Mas, em seguida, a raiva
que sentia suplantou todas as outras emoções.
— Levei duas horas para chegar à escola — contou. — Quando cheguei, procurei o
posto policial do campus e fiz meu depoimento. Levaram-me para o hospital local, onde os
médicos me examinaram e me encaminharam para a psicóloga com quem conversei. Nesse
meio tempo, a polícia procurou Vance.
Ela se calou e olhou para Bradley. Até aquele momento, ainda achava difícil aceitar o
que acontecera depois. Vacilante, apoiou-se no espaldar do sofá mais próximo, agarrando-se
com força. Mas continuou relatando seu infortúnio:
— A polícia foi me ver na manhã seguinte. Disseram que tinham ouvido Vance e seus
amigos. De acordo com eles, todas as noites eu vinha tentando seduzir Vance. Vance jurou
que fui eu quem sugeri o passeio e o ataquei. Que eu pedi dinheiro e, como ele não deu, tornei-
me violenta. Por isso, deixou-me lá.
— E acreditaram nele? — Bradley perguntou, adivinhando a resposta.
— Como disse, a família era muito influente e poderosa. Era a minha palavra contra a
de Vance e seus amigos. Não sei se acreditaram realmente, mas não tinham outra escolha e
eu também não. Ele fez muitas ameaças que prometeu cumprir, caso eu insistisse em acusá-
lo.
Annabelle levantou a cabeça e endireitou-se, num esforço desesperado para superar
aquele momento difícil, olhando com firmeza para Bradley.
— Então, compreendi que estava sozinha, que dependia de mim a solução do meu
problema. Terminei o semestre e pedi transferência para outra escola. Durante algum tempo,
li muitos livros sobre estupro e como superar os problemas decorrentes de tão hedionda
brutalidade. Por fim, concluí que tinha de continuar vivendo. Não podia esquecer, porque era
impossível, mas também não podia deixar que o fato interferisse na minha vida para sempre.
Assim pensei, assim fiz.
— Imagino que foi o fato de você estar isolada comigo neste lugar que provocou o
pesadelo — Bradley comentou.
Queria ajudá-la, mas não sabia como. Um desejo furioso de esganar aquele homem
sem caráter, estampava-se em seu rosto.
— Suponho que sim — ela concordou, sem confessar que talvez fosse a atração que
sentira por ele a verdadeira razão do pesadelo.
— Não precisa ter medo de mim — Bradley declarou. — Seria incapaz de fazer qualquer
coisa que a magoasse.
Annabelle esboçou um sorriso e ao mesmo tempo experimentou uma sensação de
desgosto. A indiferença dele era mais que evidente.
— Tenho certeza disso — replicou secamente.
Bradley nunca tivera um temperamento vingativo, mas não conseguia afastar o tal de
Vance da memória. O desejo de vê-lo punido era muito forte.
— E o que aconteceu depois com o mau-caráter? — perguntou.
Annabelle fez uma careta de horror.
— Morreu, dois meses depois. Estava dirigindo embriagado e bateu numa árvore. Os
três amigos que estavam juntos também morreram. No dia seguinte após o funeral, a mãe dele
procurou-me. Lembro-me do vestido preto de confecção exclusiva que usava e do véu
transparente que caía do chapéu, cobrindo-lhe o rosto. O perfume era dos mais caros, e o anel
de diamante, eu nunca vira um igual.
Na expressão do rosto. Annabelle revelava a angústia terrível que se aninhara em seu
íntimo durante anos.
— Ela disse — continuou — que Vance era filho único. e perguntou se havia
possibilidade de eu estar grávida. Se estivesse, ela queria que eu tivesse o bebê e afirmou
que pagaria cem mil dólares para ficar com ele.
Fazendo uma pausa para recompor as forças, Annabelle tinha os olhos molhados e,
não obstante o esforço, não conseguiu reter uma lágrima solitária.
— Eu não venderia um alfinete para aquela mulher. Quando contei-lhe que não estava
grávida, ela foi embora, mas, antes, jurou que me arruinaria para toda a vida, se eu contasse
aquela história para mais alguém. Por isso, gostaria que você esquecesse tudo o que ouviu.
— Não contarei nem uma palavra — Bradley prometeu, mas sabia que não ia esquecer
algo, que, por si só, explicava todo o comportamento arredio de Annabelle.
Sentindo-se exausta, ela olhou de relance para a escada e lembrou-se de que a porta
do quarto estava com a fechadura quebrada.
— Amanhã cedo, vou pedir ao sr. Crowe para consertar a fechadura — Bradley
comentou, adivinhando-lhe os pensamentos. — Para os Swynite, diremos que você assustou-
se com um rato e se recusou a descer da cadeira, com medo do animal. Tive que arrombar a
porta para resgatá-la.
Ele não conteve o riso diante da imagem de Annabelle, cheia de pavor, em cima de uma
cadeira, esperando ser salva de um rato.
Annabelle percebeu que, com aquela brincadeira, ele estava querendo ser solidário.
Não eram amigos de verdade e talvez nunca chegassem a ser, mas daquela vez Bradley
estava do lado dela.
— Obrigada — agradeceu.
Subiu para o quarto sem mais uma palavra.
Na manhã seguinte, Annabelle já estava na cozinha, quando Bradley levantou-se. Ela
se sentia encabulada por ter contado sua história, mas comportou-se como se nada tivesse
acontecido.
— Parou de nevar — ele chegou dizendo.
— Também já reparei. Telefonei para Ida e ela informou que os limpadores trabalharam
durante a noite e que a rodovia principal está transitável. O marido dela chegará aqui a
qualquer momento. Poderemos ir embora ainda hoje.
Bradley meneou a cabeça afirmativamente. Percebeu que Annabelle prendera o cabelo
para trás, como fazia quando estava em serviço. Havia traços de cansaço em seu rosto,
denunciando uma noite maldormida. Mas, apesar de não estar com sua melhor aparência, ela
despertou-lhe um sentimento de carinho que ele nunca experimentara antes.
— Sei fazer uma omelete deliciosa — ele declarou, abrindo a geladeira para pegar os
ovos.
Annabelle ficou pensando se ele não ficava constrangido perto dela, agora que sabia
do estupro.
— Omelete é uma boa opção — aceitou, decidida a não incomodar com o que ele
pensasse a seu respeito. Depois, quando sentaram-se à mesa, um pesado silêncio fez com
que Annabelle se sentisse mais encabulada ainda.
— O que significa o "P" do seu primeiro nome? — perguntou, só para descontrair o
ambiente.
Bradley levantou as sobrancelhas, como se considerasse a pergunta a mais indiscreta
que alguém pudesse fazer.
No mesmo instante, Annabelle arrependeu-se. Sempre fora do seu temperamento não
se intrometer na vida dos outros. Além disso, era do conhecimento de todos que ele não
costumava revelar o primeiro nome para ninguém, mas de qualquer maneira, decidiu ir em
frente.
— Parece apenas justo que você me conte. Revelei meu mais íntimo segredo e, seja
qual for o significado de "P", também parece que é um segredo bem guardado.
Bradley teve de admitir que admirava o brio daquela mulher.
— Significa Percival — ele respondeu quase automaticamente, como se não tivesse o
domínio da própria palavra.
— O nome do cavaleiro da corte do rei Arthur que procurou o Santo Graal? Se me
lembro bem, a lenda diz que ele tinha o coração tão puro que foi privilegiado com uma visão
do cálice sagrado, usado por Cristo na última ceia.
Sabia que estava exagerando, mas não resistiu ao desejo de saber mais sobre aquele
homem sentado a sua frente.
— E você tem o coração tão puro quanto seu homônimo? — perguntou.
Bradley sorriu.
— Não tenho a pretensão de ser puro, mas tento ser, pelo menos, honesto.
— A honestidade é uma grande virtude — ela comentou, voltando a concentrar-se na
refeição.
Bradley percebeu que nos olhos castanhos havia um brilho mais intenso, como se ela
estivesse flertando com ele, e aquilo o agradou. Depois viu apreensão. Pelo menos, agora
sabia por que ela ficava nervosa perto dele. Era natural, especialmente estando junto de um
homem que nem mesmo conhecia muito bem. Desejou poder ajudá-la. Mas não tinha dúvida
de que o único relacionamento que ela aceitaria seria o casamento e ele não estava
interessado em se amarrar a uma mulher que tivesse atividades fora de casa. Quando
encontrasse alguém para compartilhar sua vida, teria de ser uma mulher que quisesse um lar,
uma família, e nada mais. Annabelle encontraria outra pessoa para ajudá-la, pensou.
— Gostaria que você também guardasse meu segredo — ele pediu. — Já suportei
piadas demais por causa do meu nome, quando criança.
— Considere minha boca selada — ela garantiu.
— E agora vou trabalhar no relatório — Bradley informou, levantando-se e levando o
prato para a pia.
Ele não queria admitir, mas precisava fazer alguma coisa para se distrair.
Definitivamente, Annabelle estava ocupando demais sua mente.
Annabelle observava-o. Sentia-se excitada apenas ao vê-lo movimentar-se, mas, como
sempre, a excitação era substituída pelo medo.
— Deixe que eu cuide da louça — ela se ofereceu, quando ele ia começai- a lavar o
prato.
Sem protestar. Bradley interrompeu o que estava fazendo e dirigiu-se para a mesinha
onde colocara o computador. Quanto antes se concentrasse no trabalho, melhor. Embora
soubesse que a melhor coisa a fazer era deixar outro homem ajudar Annabelle. a idéia o
incomodava.
De onde estava. Annabelle via Bradley trabalhando. Para seu tormento, uma parte dela
queria apreciá-lo, enquanto a outra relutava. Precisava urgentemente encontrar uma saída.
Uma solução para seus traumas, Mas como?
Terminando a refeição, levantou-se e levou os outros pratos para a pia. De costas para
Bradley, ordenaria melhor os pensamentos.

CAPITULO VI

Era terça-feira. Desde sábado à tarde, quando se despedira de Bradley, Annabelle


evitava encontrar-se com ele. Sabia que era covardia, mas sentia-se melhor assim.
Naturalmente, não faria diferença se por acaso se cruzassem no caminho mil vezes por dia,
porque ele nunca a notaria.
Quanto aos Swynite, pai e filho pediram desculpas pela confusão, oferecendo a casa
aos dois ao mesmo tempo. Fizeram de conta que acreditaram na história do rato e recusaram-
se terminantemente a permitir que ela pagasse pelos estragos da porta. Bradley também se
oferecera para pagar e eles não aceitaram.
Embora estivesse evitando Bradley, ela não esquecera a decisão de fazer algo para
vencer seu trauma. No domingo, fora a uma livraria e comprara alguns dos mais recentes livros
sobre estupros e como resolver os problemas decorrentes.
Mas, após ler todos os livros, embora estivesse convicta de que poderia ter um
relacionamento agradável e gratificante. bem lá no fundo não conseguia livrar-se dos seus
medos. Passados oito anos, ela ainda sentia, embora com menos intensidade, a horrível
sensação de ter sido barbaramente humilhada.
Olhando pela janela, fitando o horizonte, concluiu que a melhor maneira de resolver seu
problema era enfrentá-lo.
E que a única maneira de enfrentá-lo era ter uma relação física com um homem. Aquela
idéia a fez estremecer. Mas ansiava por uma vida normal. Queria ter um futuro feliz, sem se
constranger com as sombras do passado.
O grande problema seria encontrar o homem certo. Tinha de ser alguém por quem ela
se apaixonasse realmente. P. Bradley Franklin apareceu em sua mente, mas ela descartou
aquela idéia ridícula. Ele a considerava tão interessante quanto um sapo!
Sorrindo de si mesma, continuou imaginando. Nos contos de fadas, o sapo era sempre
um príncipe que a princesa desencantava. Mas no caso dela, a história era invertida. Precisava
encontrar um príncipe que a transformasse em princesa. Por fim, chegou a conclusão de que
P. Bradley Franklin não estava disposto a ser seu príncipe.
Emaranhada em meio àquela teia de pensamentos, ouviu o interfone tocar em sua mesa.
Olhou para o relógio. Hora de voltar para o trabalho, refletiu com um suspiro.
— Você pediu para lembrar-lhe da reunião com a diretoria — Mary James, sua
secretária, avisou do outro lado da linha.
— Está bem, obrigada.
Durante anos. Annabelle atendera os vários membros da diretoria, mas nunca fora
convidada para uma reunião formal. Realmente, não sabia por qual motivo a haviam convidado
daquela vez.
Cópias do relatório de Bradley haviam sido entregues para todos os membros, no dia
anterior. Talvez Randall tivesse tanta certeza de que Edward seria eleito presidente, que queria
apresentá-la como a nova vice-presidente comercial, pensou. Um acontecimento como aquele
deveria fazê-la vibrar de alegria, mas não sentia nenhuma excitação. Depois de oito anos de
dedicação ao trabalho, de repente, a carreira passara para segundo plano. Mas, reorganizando
os pensamentos, esqueceu os problemas pessoais e dirigiu-se para a sala de reuniões.
Bradley e todas as outras pessoas presentes ficaram surpresos quando ela entrou,
menos os Swynite.
— Convidei a sita. Royd para participar da reunião — Randall informou, indicando-lhe
uma cadeira a um canto da sala.
Ao sentar-se, ela olhou para Bradley. A expressão dele era fria e indiferente, como se
os dois fossem totalmente estranhos um ao outro. Era como se a noite na cabana não tivesse
existido, como se nunca tivessem trocado confidencias. Era natural, ela pensou. P. Bradley
Franklin iria embora naquela mesma tarde e provavelmente nunca mais se veriam. Isso era
muito bom, Annabelle procurou convencer-se pela centésima vez.
Bradley percorreu com o olhar todos os membros da diretoria, fixando-se por um
momento em Randall e Edward. Sentira um ligeiro abalo, quando Annabelle entrara na sala.
Ela possuía o poder de mexer com seus nervos. Não queria admitir, mas estivera evitando-a
desde o fim de semana. Sentia um impetuoso desejo de ajudá-la em seus problemas íntimos,
mas receava ser indelicado, se tentasse levar adiante sua pretensão.
Randall bateu o martelo na mesa, chamando a atenção para o início da reunião.
— Li o relatório do sr. Bradley — começo.u. — Todos aqui têm pleno conhecimento de
que sempre defendemos idéias conservadoras. Embora ele tenha diplomaticamente
destacado que hoje em dia os negócios precisam ser dirigidos por pessoas com idéias
inovadoras para crescer e competir, reafirmo a necessidade de Edward ser eleito para a
presidência desta companhia. E. desde que nas Indústrias Swynite todos sabem da
competência da sita. Royd, quero acrescentar que ela está plenamente capacitada para
assumir o departamento comercial, em lugar do meu filho.
Howard Zyle interveio, contestador:
— O relatório diz simplesmente que seu filho teve bom senso ao aprovar projetos
elaborados em conjunto com outras pessoas, mas não diz que ele seja capaz de assumi-los
pessoalmente. Contudo, sua interpretação implica que isso seja possível.
Randall empertigou-se. Levantando-se. colocou as mãos na mesa e inclinou-se na
direção de Howard com expressão de fúria controlada.
— Tenho total confiança na capacidade de Edward e não sou tolo. Sei que você gosta
de ler nas entrelinhas e interpretar as coisas a sua maneira. E sei também que você está
esperando a oportunidade para colocar alguém do seu time na presidência.
Correndo o olhar ao redor da mesa para chamar a atenção de todos. Randall respirou
fundo e tornou a sentar-se, antes de continuar a falar.
— Por outro lado, quero deixar claro nesta reunião o que penso sobre a validade deste
relatório.
Bradley apenas observava, mas por dentro preparava-se para enfrentar problemas,
Tivera fortes adversários, antes, e não duvidava nem um pouco da força de Randall Swynite.
Randall olhou para Annabelle com o canto dos olhos. Ela reconheceu aquele olhar: o
presidente pretendia usar de algum artifício para atingir seus objetivos. Colocou-se em alerta.
Não sabia quais eram os planos dele, mas desconfiou que fazia parte deles.
— Penso que a imparcialidade do sr. Franklin está comprometida — declarou Randall.
— No último fim de semana houve um pequeno equívoco. Em conseqüência disso, a sita.
Royd e o sr. Franklin passaram uma noite inteira sozinhos em minha casa nas montanhas. Em
minha opinião, a srta. Royd, que todos sabem, sempre cobiçou o lugar do meu filho,
aproveitou-se da oportunidade para levar vantagem e melhorar sua carreira.
Annabelle corou.
— Não é verdade — ela contestou, levantando-se, indignada.
Ignorando-a, Randall virou-se para Bradley.
— E tenho a convicção de que este relatório é o reflexo de uma noite de luxaria, em
prejuízo de uma avaliação honesta da capacidade do meu filho.
Howard Zyle mostrou um sorriso desafiador.
— Pessoalmente, acho que está insatisfeito, porque o relatório sugere que você não
dirigiu a companhia com a eficiência que deveria — contra-atacou.
Randall lançou a Howard um olhar mortal.
— Isso também deve ser atribuído à ingratidão da srta. Royd. Meu filho e eu ensinamos
a ela tudo o que sabíamos sobre os negócios e esta é a maneira como nos agradece.
— Não é verdade — Annabelle repetiu em desespero, incapaz de organizar a mente
para dizer qualquer outra coisa.
— Para mim, parece mais provável que você, seu filho e a srta. Royd planejaram uma
armadilha para Bradley — acusou Zyle. — A diferença é que seus planos falharam, quando
ela resolveu usar o encontro amoroso em proveito próprio.
— Não! — Annabelle protestou, impotente. Enquanto Howard e Randall trocavam farpas,
os outros membros da diretoria a observavam. Davam a impressão de que olhavam para um
animal raro, que viam pela primeira vez. Lágrimas quentes encheram-lhe os olhos, mas ela
recusou-se a chorar. Reunindo todas as forças, levantou a cabeça, disposta a defender-se.
— Eu não fiz nada — afirmou com segurança e dignidade. Bradley passara momentos
difíceis em seu trabalho, de outras vezes, e sempre saíra ileso. Agora, a reputação que levara
anos construindo estava sendo ameaçada. Ninguém o subornara. Não se deixaria seduzir para
falsificar um relatório. E havia também a srta. Royd. Precisava defendê-la daquelas injustas
acusações. Uma única saída apareceu em sua mente. Era radical, admitia, mas não tinha outra
para o momento. Levantando-se, dirigiu-se a Annabelle.
— Querida, sinto muito — disse, olhando-a com seriedade.
Annabelle limitou-se a ficar olhando para ele, estupefata. Teria o sr. Franklin perdido o
juízo? Ela franziu a testa, confusa, sem saber o que aconteceria no instante seguinte.
A passos largos, ele chegou até onde ela estava sentada. Todos os olhares convergiram
para eles. Apoiando as mãos nos ombros dela, usando o corpo para ocultá-la dos outros, ele
inclinou-se até quase tocar-lhe o rosto com o seu.
— Apenas confie em mim — murmurou. — Vou tirar nós dois desta enrascada.
Havia um ar de imposição nos olhos intensamente azuis. Annabelle percebeu que não
tinha escolha, a não ser acreditar no que ele dizia. Então, lembrou-se de que já confiara nele,
quando contara seu segredo, e fez um leve sinal de aprovação.
Para seu espanto ainda maior, ele a beijou suavemente nos lábios e retornou para a
mesa.
— Admito que tenho um forte sentimento pela srta. Royd, ou melhor, Annie — ele
corrigiu, escolhendo um nome carinhoso, para dar mais autenticidade a sua história. — En-
tretanto, quero deixar claro que, em momento algum, tivemos a intenção de usar este relatório
para beneficiá-la na carreira. Na verdade, ela pretendia pedir demissão ainda esta tarde.
Vamos nos casar, e quero que cuide apenas do lar. Quanto ao relatório, é um trabalho honesto,
correto, e que confirmo inteiramente.
Fazendo uma pequena pausa. Bradley observou um a um os homens daquela sala.
— Quanto a Annie — continuou —, não permitirei que fique nem mais um dia neste
lugar, com pessoas que lhe dedicaram tão pouco respeito. E se houver mais alguma pergunta
sobre o relatório, estarei a disposição no escritório dela. Bom dia, senhores.
Depois disso, tomou Annabelle pelo braço e praticamente arrastou-a para fora da sala.
"Que maravilha", ela pensou com ironia, enquanto se retiravam. Não só não seria vice-
presidente, como também estava desempregada. Ao chegar ao escritório, ele trancou a porta
por dentro. Certificando-se de que estavam sozinhos, caminhou até a janela e ficou pensativo,
olhando para fora. Não estava muito satisfeito com aquela saída. Por que escolhera logo a
idéia do casamento? Não poderia ter pensado em coisa melhor?
— E agora? O que faremos'1 — Annabelle perguntou, tensa demais para ficar calada.
— Vamos planejar o casamento — ele respondeu. — Prefiro que seja coisa simples.
Talvez apenas para a família. Mas o que você decidir para mim estará bom. Pagarei todas as
despesas.
— Você não está falando sério!
— Não vejo outra opção. Minha reputação está em jogo, e a sua também. Em qualquer
lugar que você procurar emprego, vão exigir carta de apresentação. Randall poderá prejudicá-
la seriamente, se tiver oportunidade.
Annabelle refletiu. Bradley tinha razão. Entretanto, intimamente, sentia que ele não
estava satisfeito com aquela solução.
— Não acha que casamento é uma saída muito radical? — perguntou, com a intenção
de dar-lhe uma chance de reconsiderar a idéia.
— Situações difíceis exigem medidas radicais — ele argumentou. — Hoje em dia, são
comuns os casamentos por conveniência e de pouca duração. Podemos casar e depois de...
digamos, dois anos, nos divorciarmos amigavelmente.
Annabelle sabia que mais cedo ou mais tarde teria de enfrentar uma relação física com
um homem. O casamento era, sem dúvida, a melhor das oportunidades. Apenas hesitava em
dar a palavra final porque não queria que fosse daquele jeito, com um homem que se sentia
preso numa armadilha.
— Talvez pudéssemos combinar um noivado bem prolongado — ela sugeriu.
Bradley considerou aquela possibilidade, porém havia outro obstáculo.
— Temos de considerar o caso da fechadura quebrada. Se não houver casamento e
Randall abrir a boca, todos pensarão que forcei-a a manter uma relação comigo e que o
relatório serviu para comprar seu silêncio.
Annabelle sentiu um calafrio. Um boato como aquele poderia prejudicar Bradley
seriamente e ela não desejava que isso acontecesse.
Bradley não entendeu a indecisão dela até que, de repente, atinou com um possível
motivo.
— Não se preocupe. Não pretendo fazer nenhuma exigência. Podemos dormir em
quartos separados.
Ela não fez comentários, ainda indecisa.
— Prometo ensinar-lhe tudo sobre o meu trabalho e, em troca, terei uma excelente
assistente — ele argumentou, destacando um dos lados positivos da questão. — Então, depois
do divórcio, você poderá trabalhar por conta própria, ser sua própria patroa. Não terá que aturar
os Swynite da vida.
Annabelle sentiu-se uma idiota. Sempre sonhara com um casamento romântico, cheio
de emoções, e agora aquele homem traçava planos como se falassem de um contrato
comercial. Um outro pensamento ocorreu-lhe.
— Também não quero ser uma esposa de reserva, cujo marido tem seus encontros fora
de casa.
Bradley fez uma careta. Assim as coisas ficavam complicadas.
— Está bem. Trabalhei duro para chegar aonde cheguei. Não posso jogar fora anos de
trabalho e também não posso recomeçar tudo novamente. Acho que conseguirei sobreviver
com alguns banhos frios.
Definitivamente, aquilo era insultuoso demais. Ela sabia que não o havia encorajado a
vê-la como mulher, mas não podia aceitar aquele desprezo. A reação dele fora de total
indiferença. Bem, se ele preferia banhos frios, teria banhos frios.
— Se é assim, a partir de agora, você tem uma noiva e uma sócia nos negócios — ela
decidiu, finalmente.
— Ótimo — Bradley aprovou, estendendo a mão. Quando apertaram as mãos para selar
o acordo, Annabelle sentiu um calor subir-lhe pelo braço e se espalhar por todo o corpo. Depois
veio o medo, mas o calor continuou queimando. Ele poderia não ser o único a tomar banhos
frios, pensou.
Bradley surpreendeu-se com o calor da mão dela. Veio-lhe à mente a imagem de como
a vira, vestida de jeans e blusa, com os cabelos desarranjados, mas afastou-a do pensamento.
Annabelle não só exigia um compromisso sério, como também o merecia. Ele não estava
preparado para atender seus anseios e não via nela a mulher que sonhara ter como esposa.
Queria uma mulher que fosse dedicada ao lar. Annabelle pensava apenas na carreira
profissional.
— Vou procurar algumas caixas — ele falou, soltando a mão dela. Vamos embalar suas
coisas e sair daqui ainda hoje.
— Mas — ela protestou — não posso simplesmente virar as costas e ir embora. Tem
alguns assuntos pendentes que precisam ser resolvidos.
Em seguida, lembrando-se do que os Swynite tentaram fazer-lhe, concluiu que não
mereciam consideração.
— Pensando bem, ir embora é uma ótima idéia. Entretanto, assim que Bradley saiu. ela
chamou Dick Javis. Considerava-o a pessoa mais competente com quem trabalhara naquela
empresa. Quando Bradley retornou, encontrou-a em plena atividade.
— Odeio deixar as coisas pela metade — justificou-se, percebendo seu olhar
interrogativo. — Além disso, esta empresa não pertence apenas aos Swynite. Existem outros
acionistas a considerar.
Bradley tinha de admitir que admirava aquela dedicação. Não tinha a menor dúvida de
que ela seria uma sócia excepcional. Mas seria boa esposa? Não era fácil avaliar a situação
em que se metera.
— Dick trabalhou comigo em muitos destes projetos — ela explicou, vendo Bradley
aproximar-se. — Num instante estará tudo terminado. Mas não precisa ficar aqui, se não quiser.
— Pensei em ficar, apenas para o caso de ser consultado pelos diretores sobre o
relatório. Além disso, não quero deixá-la sozinha com aquelas duas cobras.
Embora estivesse realmente sendo sincero. Bradley lembrou-se de que Annabelle
poderia cuidar-se muito bem. A região do estômago ainda estava dolorida.
Annabelle olhou-o, admirada com o tom protetor de sua voz. Ao mesmo tempo
censurou-se: "Não seja tola, ele está simplesmente representando uma cena para Dick".
— Fazendo jus ao nome? — ela brincou.
Bradley levantou uma sobrancelha, repreensivo. Annabelle sabia que não devia fazer o
trocadilho com o primeiro nome dele e fez um breve trejeito com os.lábios como a pedir
desculpas silenciosamente.
Dick ficou olhando sem nada entender, mas continuou trabalhando, sem fazer perguntas.
Bradley pegou uma revista e foi sentar-se num canto para passar o tempo. Procurou
ignorar a presença deles, mas por mais que se esforçasse não conseguia. Disfarçadamente,
olhava para Annabelle. Notou que o homem ao lado dela estava tão perto que seus ombros
quase se esbarravam. Aquilo irritou-o. Lembrou-se que, com ele, ela sempre guardara certa
distância. Exceto quando dera o chute que quase lhe quebrara as costelas. Depois que
descobrira o motivo dos pesadelos, imaginara que o medo dela fosse o mesmo perto de
qualquer homem. Mas, aparentemente era só ele que desagradava a sita. Royd, pensou.
Assim, o casamento se tornaria mais difícil ainda.
Annabelle sentia-se agitada. Precisava controlar as emoções e cuidar mais da carreira,
que só estaria segura com aquele falso casamento. Quando o trabalho terminou, Dick saiu e
ela começou a juntar seus objetos pessoais. De repente, alguém bateu e em seguida entrou
na sala. Era Howard Zyle.
— Achei que gostariam de saber como está indo a reunião — comentou. — Mas,
primeiro, quero apresentar nossas desculpas pelo comportamento de Randall. Ele detesta per-
der.
Abriu um largo sorriso, antes de continuar:
— A verdade é que Edward poderia ter ficado com a presidência, sem problemas, se
Randall ficasse de boca fechada. O relatório não está tão crítico quanto ele entendeu que
estivesse. Admito que somos conservadores, mas somos homens de negócio. Sei que temos
de fazer mudanças e Randall tem sido o único a recusar novas idéias todos esses anos.
Ele balançou a cabeça, como a desaprovar o comportamento do presidente.
— Mesmo assim — continuou —, os diretores relevaram tudo e votaram em Edward,
depois que ele, brilhantemente, desculpou-se pelo pai.
— Essa é a ética masculina — Annabelle resmungou. Howard franziu o cenho,
obviamente agastado com a observação.
— Os diretores se convenceram de que a acusação de Randall foi invenção da cabeça
dele. Edward declarou que não tinha conhecimento do que o pai pretendia dizer na reunião e
acreditaram nele. Mesmo assim, não pretendo dar as costas para nenhum dos dois, de agora
em diante. Por fim, ele estendeu a mão a Bradley.
— Seu relatório foi perfeito. Tem a minha recomendação pessoal e, estou certo, de toda
a diretoria.
Bradley aceitou o aperto de mão.
— Fico agradecido por isso.
Então, Howard virou-se para Annabelle.
— Nestas condições, sinto muito que esteja indo embora. Você sempre foi muito
competente e manteve elogiável lealdade aos Swynite. Conte com minha carta de
recomendação para seu currículo, assim como o apoio de toda a diretoria.
Estendendo a mão, desejou-lhe boa sorte.
— Obrigada — ela agradeceu, aceitando a mão que ele lhe oferecia.
Annabelle estava admirada com a rapidez da mudança de aliados. Pensara que os
Swynite estivessem do seu lado, mas, de repente, o aliado era Howard Zyle.
Howard olhava tanto para Bradley como para Annabelle com uma expressão
desconfiada.
— Sei que os noivados são muito frágeis hoje em dia. Minha filha já passou por vários
deles, mas nunca subiu ao altar. No caso de vocês, porém, haverá muita gente observando,
esperando para conferir. Sugiro que não deixem nenhuma briguinha sem importância
atrapalhar seus planos.
Para Annabelle, estava claro que Howard suspeitava que aquele casamento era um
arranjo e estava avisando para que fosse executado. Bradley estava certo. Não tinham al-
ternativa, se quisessem ficar livres de boatos e insinuações.
De súbito, foram interrompidos por Edward, que entrou sorrindo, como alguém que está
de bem com o mundo.
— Veio dar alguns sábios conselhos ao casal. Howard? — ele perguntou, com uma
ponta de ironia.
— Apenas cumprimentando-os. E também apresentando desculpas pelo
comportamento de seu pai — o homem respondeu.
Edward ficou sério.
— Pois é exatamente o que vim fazer. Lamento tudo o que aconteceu e desejo o melhor
para vocês dois.
Olhava para Bradley e Annabelle com expressão um tanto desconfiada.
— Confesso que me surpreenderam — prosseguiu. — Poderia jurar que estavam se
evitando, nesses últimos dias.
Annabelle fez-se de desentendida. Concluiu que não fora por acaso que conseguira
evitar Bradley com tanta facilidade desde o fim de semana nas montanhas. Não lhe ocorrera
que ele também estivesse tentando evitá-la.
Bradley passou um braço pelos ombros de Annabelle, num gesto protetor.
— É que não queremos que nosso noivado se torne público — explicou. — Queremos
fazer tudo o mais discretamente possível.
Edward ficou pensativo e depois assentiu, aceitando o argumento. Estendeu a mão para
Bradley.
— Então, boa sorte. E espero que tenha aceitado minhas desculpas.
Bradley não se moveu, ignorando-lhe a mão estendida.
— Não gostei do que seu pai fez — observou, olhando-o firmemente nos olhos. — Vai
levar um bom tempo até que eu consiga perdoá-lo. Enquanto isso, será melhor não aparecer
o mais leve boato envolvendo meu nome e o de Annie.
Annabelle percebeu a expressão de temor de Edward, que levantou a mão em sinal de
paz.
— Annabelle sempre foi boa funcionária — ele elogiou. — Exemplar, para ser mais claro.
E você é um competente profissional. E tudo o que ouvirão de mim.
— E o que espero — Bradley replicou, com ar nada amigável.
Howard interveio, dando um tapinha nas costas de Edward.
— Está na hora de voltarmos para a reunião. Edward concordou rapidamente e os dois
deixaram o escritório.
— Será que os maus sempre vencem? — Annabelle perguntou, em tom de protesto.
Retirando o braço dos ombros dela. Bradley segurou-lhe o queixo carinhosamente.
— Dois dias atrás, você achava que Howard era o vilão. O que a faz pensar que de
repente ele ficou bonzinho?
— Você está certo — ela concordou com ar desiludido. — Talvez não exista ninguém
bom.
Bradley franziu a testa.
— Eu sou bom.
— O que ganhou com isso? Enroscou-se numa teia e agora não sabe como sair dela.
— Nós dois estamos enrascados — ele corrigiu. Então, com expressão determinada,
acrescentou: — Mas sairemos da teia juntos, sãos e salvos.

CAPITULO VII

— Noiva? Minha irmã mais velha, a mulher de negócios do século, noiva? Que surpresa!
— exclamou Linda Justin, olhando para Annabelle e Bradley, com os olhos arregalados de
incredulidade.
A extrovertida Linda mudou rapidamente de expressão e logo mostrou um largo sorriso.
— Bem-vindo à família, Bradley — falou, atirando-se nos braços dele.
Não poderia haver irmãs mais diferentes, Bradley pensou. Não havia a mínima
semelhança física. Linda era loira, baixa e de olhos azuis. As filhas tinham saído a ela. Quando
sorria, formavam-se duas fundas covinhas nas faces rosadas. Era sorridente e extrovertida,
ao contrário de Annabelle.
Depois que Linda soltou Bradley, foi a vez de Frank cumprimentá-lo. Bradley calculou
que Linda estivesse por volta dos vinte e cinco anos e Frank devia ser três ou quatro anos
mais velho. Era evidente que Jack, o terceiro trigêmeo, com olhos cinzentos e cabelos pretos,
saíra ao pai. Magro e de rosto anguloso. o homem observou Bradley com um olhar de
advertência, quase frio.
— Tenho grande consideração por Annabelle. E quero que ela seja muito feliz.
— Eu também — Bradley replicou.
Frank acenou afirmativamente com a cabeça e só então abriu um amplo e amigável
sorriso.
— Seja bem-vindo à família.
— Pensei que não ia dar sua aprovação. Frank — comentou Linda. — Desculpe-o.
Bradley, mas ele se preocupa muito com Annabelle.
— Fico feliz por saber que existem pessoas sinceramente preocupadas com Annie —
Bradley afirmou.
Linda estava radiante.
— Ainda não consigo acreditar. Minha irmã apaixonada à primeira vista!
Annabelle olhou para ela, meio desconfiada. Poderia estar enganada, Mas, se conhecia
bem a irmã, sabia que ela não estava totalmente convencida com aquela história de noivado.
— Aconteceu a mesma coisa com você. Linda, lembra-se? — Virando-se para Bradley,
ela continuou contando como a irmã e o marido tinham se conhecido:
— Linda veio passar o verão comigo. Frank, um solteirão solitário, morava na casa ao
lado e...
— Solteirão solitário, mas feliz — Frank interrompeu-a, brincando, e levou uma
cotovelada da esposa, nas costelas.
— Solteirão solitário, sim — Annabelle confirmou. — Feliz, não. Lembro-me de que, no
mesmo dia em que ela chegou, os dois se engalfinharam numa discussão por causa de um
gatinho que estava no telhado da casa dele. No fim, adivinhe quem venceu. Bem, ele foi
obrigado a subir no telhado para resgatar o animalzinho, apesar dos muitos protestos.
— Não havia necessidade de tanta confusão — Frank defendeu-se. — Era o que eu
estava tentando explicar a essa baixinha teimosa. — Segurando o queixo de Linda, olhou para
o rostinho de anjo. — Quem poderia imaginar que alguém com aparência tão dócil pudesse
ser tão insistente?
Com expressão de quem ainda continuava encantado pela esposa, como naquele
primeiro dia, ele dirigiu-se a Bradley:
— Não houve outro remédio, senão subir no telhado. Linda corou, envergonhada.
— Ele estava certo. O gatinho fugiu e desceu sozinho. Frank é que não conseguiu
descer depois.
— Detesto altura — ele confessou. Linda riu.
— Tive de subir na escada para ajudá-lo a descer! Ficou uma fera.
— Então, minha irmã decidiu ali mesmo que ele era o homem da vida dela — observou
Annabelle. — Frank não teve a mínima chance.
— Se eu soubesse o que ela estava pensando, teria arrumado as malas e desaparecido
— Frank brincou, fazendo uma careta. — Mas fui apanhado, sem nem mesmo saber o que
estava acontecendo.
— Não gostou de ser fisgado? — perguntou a mulher, com meiguice.
Carinhosamente, ele passou um braço por seus ombros.
— Nunca me arrependi, nem por um momento.
— Ele só é feliz porque tem alguém que sobe na escada para limpar as calhas de vez
em quando — Linda arreliou, rindo.
Vendo-os, Annabelle imaginava ter um relacionamento feliz como aquele, com o homem
com quem se casasse. "E terei", afirmou para si mesma. "Mas não nesse casamento de
mentira, que não passará de um pedaço de papel assinado."
— Por que não jantam conosco? — Linda convidou, livrando-se de Frank e enroscando
um braço no de Bradley. — Gostaria de conhecer melhor meu futuro cunhado.
Educadamente, Bradley recusou o convite.
— Realmente não podemos. Tenho de estar em outra cidade amanhã cedo para tratar
de alguns assuntos e pretendo fazer uns planos com Annie antes de partir. Linda aceitou a
recusa, desapontada.
— Quando tínhamos nossos planos para fazer, não queríamos nenhuma companhia —
o marido lembrou-a.
Ela corou e sorriu para Annabelle.
— Nos veremos amanhã, então — conformou-se. Virando-se para Bradley. deu-lhe
outro abraço. — Mais uma vez, seja bem-vindo à família.
Annabelle deu uni suspiro de alívio, quando ela e Bradley entraram em casa. A irmã e
o cunhado tinham recebido a notícia sem muitas perguntas. Entretanto, ela suspeitava que no
dia seguinte seria diferente.
— Sinto muito por Frank — desculpou-se.
— Não foi nada. Você também terá de enfrentar minha irmã!
— Não estou certa de que seja uma boa idéia. Annabelle não se sentia segura. Não
estava gostando de envolver as famílias na farsa daquele casamento.
— Não se preocupe. Ela quer me ver casado — Bradley tranqüilizou-a. — Acha que o
casamento será bom para mim. Vou dizer que, se ela a aborrecer, você me deixará sozinho,
esperando no altar. Ela ficará sem saída.
Annabelle tentou sorrir, mas estava muito tensa.
— Suponho que teremos que continuar com esta história — observou hesitante.
Bradley ficou sério. Ela não poderia estar se sentindo mais enroscada do que ele.
— Pelo que ouvimos de Zyle. não temos escolha — confirmou. Tirando uma agenda do
bolso, continuou: — Como disse, vou viajar hoje à noite. Quero pegar o vôo das oito horas
para Kansas. Tenho uma reunião amanhã cedo para tratar de um serviço que contratei há
meses e não posso faltar. Entendo que, quanto mais cedo for o casamento, mais cedo
estaremos divorciados. Terei de deixar os preparativos com você. Que tal marcarmos a
cerimônia para o sábado da próxima semana?
— Ótimo — Annabelle concordou. — Nada será verdadeiro mesmo!
— Será uma cerimônia simples, apenas para a família. Está bem para você?
— Claro que está. Quanto menos pessoas envolvermos, melhor.
— Acho que devemos nos casar aqui mesmo em Pittsburgh. Será mais fácil para você.
Pagarei todas as despesas. Traremos seus pais, os meus, minha irmã e a família. Todos de
avião.
Bradley fez uma pausa e olhou-a pensativo.
— Seus pais concordarão em viajar de avião? Sei que algumas pessoas não gostam.
— Nenhum problema.
— Ótimo. E sobre a cerimônia, onde gostaria que se realizasse? Numa igreja, numa
capela, no cartório ou... como é mesmo que fazem aqui na Pensilvânia?
Annabelle levantou as mãos, aturdida.
— Espere! Preciso de tempo para resolver.
Bradley assentiu, fechou a agenda e guardou-a no bolso.
— Vou deixar as providências por sua conta. Ah, não esqueça de organizar um jantar
de apresentação das famílias na véspera e uma recepção para após a cerimônia. Depois, é
só me avisar onde devo estar, e quando.
— Onde e quando — Annabelle repetiu, meio atordoada. Olhando-a, Bradley percebeu,
por sua expressão de desânimo, que não ia ser uma tarefa fácil para ela.
— Vamos ter de fazer isso, Annabelle — consolou.
— Eu sei.
Lembrando-se da reunião na sala da diretoria, ela bufou de raiva.
— Ainda não consegui acreditar que Randall tenha sido o causador de tudo isto.
Homens! — exclamou, estremecendo de irritação.
— Preciso ir. Telefonarei amanhã. Me avise quando souber o dia em que devo voltar.
Abrindo a pasta, tirou o talão de cheques.
— Isto deve cobrir as despesas — ele comentou, entregando um cheque preenchido.
Annabelle pestanejou ao ver a quantia. Quatro mil dólares!
Em seguida, acompanhou-o até o carro. Ao despedir-se, Bradley beijou-a com
suavidade, para o caso de alguém estar espreitando.
Assim que ele se afastou. Linda apareceu, correndo pelo gramado.
— Não pude esperar até amanhã — confessou, entrando em casa com Annabelle.
— Você não deveria estar preparando o jantar para Frank?
— Ele é perfeitamente capaz de se virar sozinho. As crianças estão alimentadas e
prontas para brincar. Tenho pelo menos duas horas livres.
Annabelle foi direto para o frasco de aspirinas e tomou dois comprimidos para aliviar a
dor de cabeça. Linda olhou-a preocupada.
— Para alguém que acabou de ficar noiva, você não parece muito feliz.
— Mas estou — ela afirmou, forçando um sorriso. Não gostava de mentir para a irmã,
mas Linda não era do tipo que conseguiria esconder uma farsa como aquela. Se soubesse da
verdade, os pais acabariam sabendo também. E ficariam aborrecidos. Contaria também para
Frank. Ele poderia compreender, mas certamente não aprovaria. Por tudo isso, Annabelle
queria fazer daquele casamento um acontecimento alegre, não um velório. Mais tarde contaria
a verdade a Linda.
— Foi um dia movimentado e estou exausta — Annabelle improvisou, para disfarçar.
Linda não pareceu convencida.
— Tive a impressão de que as coisas entre vocês não vão muito bem. Você tem se
mostrado um pouco esquisita nesses últimos dias.
— É nervosismo, só isso. Nunca estive apaixonada antes!
— A chegada do amor pode causar mudanças nas pessoas — Linda admitiu —, mas
pensei que com você fosse necessário bem mais do que uma semana para surtir efeito. Não
esperava que acontecesse tão rapidamente.
— Mas aconteceu. Estou tão surpresa quanto você. A verdade é que estamos
planejando nos casar na semana que vem.
— Na semana que vem? — a irmã repetiu, estarrecida. Annabelle estava preparada
para aquela reação.
— Bradley tem muitos compromissos agendados. Além disso, agora que já decidimos,
não vemos razão para esperar.
— Mas não dá para preparar um casamento em tão pouco tempo. Você é daquelas que
gostam de organizar tudo com antecedência! Sei que às vezes a censuro por fazer as coisas
muito devagar, mas desta vez está indo rápido demais. Faz apenas uma semana que se
conheceram!
— Você sempre disse que um dia apareceria o homem que me arrebataria — Annabelle
lembrou.
— Sim, mas não esperava que a tirasse de nós num piscar de olhos.
Naquele momento. Annabelle desejou poder confiar na irmã, mas o instinto avisou-a de
que não seria aconselhável. A verdade poderia ser mais desagradável ainda. Por isso. apenas
abraçou-a carinhosamente.
— Agradeço sua preocupação, mas não se incomode comigo. Sei o que estou fazendo.
— Sei que você sempre teve bom senso, mas e o seu trabalho? Onde Bradley mora?
Pretende se mudar para cá?
— Calma! Ainda não resolvemos aonde iremos morar, mas pedi demissão do emprego
e pretendo trabalhar com ele.
Linda ficou completamente chocada.
— Pediu demissão? Mas você não estava sendo apontada para a vice-presidência?
— As coisas mudam.
Annabelle já estava cansada daquele assunto. Decidiu usar uma nova estratégia para
contornar a situação.
— Preferi assim — explicou — e agora preciso do seu apoio.
Não gostaria que mamãe e papai ficassem aborrecidos por minha causa. Quero que se
sintam felizes, o que significa que você também tem que se sentir assim, e não questionar
minha decisão.
Por um momento, Linda permaneceu olhando para Annabelle, pensativa, silenciosa.
Depois, resignou-se.
— Frank costuma dizer que nunca conheceu uma pessoa tão sensata como você. Se
você acredita mesmo que será feliz, então lhe desejo toda a sorte do mundo.
Annabelle suspirou, aliviada.
— Obrigada.
— Apenas lembre-se — continuou a irmã — de que nós te amamos. Se as coisas não
saírem como você espera, estaremos aqui para recebê-la a qualquer momento.
— Agradeço muito, mas não se preocupe. Linda dirigiu-lhe um sorriso terno.
— As irmãs são feitas para se preocuparem — afirmou.
— É isso mesmo que a mamãe vive dizendo. Que as mães são feitas para se
preocuparem — Annabelle lembrou. — E agora vou telefonar a ela para contar a novidade.
Bradley quer que as famílias venham de avião. Espero que você diga à mamãe e ao papai que
meu casamento vai ser muito feliz.
— Claro — ela concordou.
Mas, lá no fundo. Linda sentia que havia algo estranho no ar.
Mais tarde, deitada na cama, Annabelle fitava a escuridão do quarto. Os pais ficaram
tão surpresos quanto a irmã. Concordaram em vir de avião e, pelo menos aparentemente, o
assunto em família estava resolvido. No dia seguinte teria de iniciar os preparativos. Um pouco
antes de dormir, pensou em Bradley. Como a família dele receberia a notícia?
Há quilômetros dali, Bradley estava em seu quarto de hotel.
— Este foi um dos dias mais movimentados da minha vida — resmungou.
Olhou para o relógio. Os pais moravam no Maine. Era muito tarde para ligar àquela hora,
mas podia ligar para a irmã, na Califórnia. Era melhor acabar logo com aquilo, pensou. Dois
minutos depois, Helen o atendia.
— Que surpresa, irmão! — ela exclamou, em tom preocupado. — Você não costuma
ligar no meio da semana!
— Em seguida, mudou o tom da voz para uma leve censura:
— Na verdade, você não ligou uma única vez, nos últimos dois meses.
— Sinto muito, querida, mas lenho andado muito ocupado.
— Está desculpado — ela replicou, mais tranqüila. — O que aconteceu? E não tente
me enganar. Conheço-o muito bem e sei que algo o preocupa.
Bradley torceu os lábios, aborrecido. Tentara parecer normal, Mas...
— Acontece que estou um pouco cansado. Mas tenho uma novidade e gostaria que
você soubesse o mais rápido possível. Vou me casar.
— Casar?! Não acredito! — a irmã gritou, rindo. — Meu irmão mais velho casando-se!
Então, foi uma namorada que o manteve ocupado nos últimos dois meses!
Bradley achou melhor deixá-la pensar daquele modo, mas ela obviamente descobriria
a verdade quando fosse ao casamento.
— Não faz tanto tempo assim que conheci Annie, mas você sabe como sou: quando
tomo uma decisão, gosto de agir rapidamente. O casamento vai ser em Pittsburgh, no sábado
da semana que vem. Gostaria que você, John e as crianças comparecessem.
— Na semana que vem? — a irmã ecoou e de repente sua voz assumiu um tom formal.
— Quero o nome da noiva e o número do telefone. Vou telefonar para saber se posso ajudá-
la em alguma coisa.
Ele gostava muito da irmã, mas sabia que se tornava uma bisbilhoteira impertinente,
quando ficava curiosa.
— Não é necessário. Você está muito longe para ajudar.
Ele estava evitando dizer que não queria que ela telefonasse, mas precisava proteger
Annabelle da bisbilhotice da irmã.
Helen ficou desconfiada.
— Estou com a impressão de que você não quer que eu fale com essa pessoa com
quem está pensando em se casar.
— Não estou pensando em me casar. Vou me casar!
Não fazia diferença que nem Annabelle nem ele quisessem aquele casamento. Para
salvar as aparências, a cerimônia teria de ser realizada.
— Então, na qualidade de sua irmã. é justo que eu telefone para cumprimentá-la, por
uma questão de educação — Helen insistiu.
Bradley sabia que estava perdendo aquela batalha. De qualquer maneira, elas teriam
de se conhecer no casamento. Então, não faria mal que tivessem o primeiro confronto por
telefone.
— Está bem, mas quero sua palavra de que não vai aborrecê-la com seu costumeiro
interrogatório.
Helen indignou
— Eu, que sou tão boazinha?
— Sim, você que é tão boazinha. Nem consigo me lembrar de quantas namoradas perdi
e que prometeram voltar a me telefonar só depois que eu me tomasse filho único.
— Nenhuma mulher será boa para você, se não for como eu — ela se justificou com
inocência na voz.
— Alguma vez você pensou que eu poderia gostar de uma mulher quieta, tímida e
retraída?
— Não me diga que está comprometido com uma ratinha. Você apenas acha que
gostaria de uma mulher submissa. Acabaria passando por cima, como se ela fosse um
capacho.
— Pois fique sabendo que ela não é submissa como você imagina. A verdade é que
entre você e ela, não sei qual é o páreo mais difícil.
— Ah, compreendo. Agora sei porque a admira tanto — a irmã concluiu.
Bradley admitia que admirava Annabelle. Desejava ajudá-la a vencer o medo de se
relacionar com um homem, mas ela não era a mulher que escolheria para esposa.
Algum dia, ela seria capaz de fazer um homem feliz, ele refletiu, logo que se despediu
da irmã e desligou o telefone. E quando isso acontecesse, ele também ficaria feliz.

CAPITULO VIII

A lista de providências a serem tomadas era extensa e dificultosa. Agora Annabelle


tinha certeza de que o pior do casamento eram os preparativos... Como se não bastasse, o
reverendo queria falar com Bradley e ela antes da cerimônia. Quando Bradley ligara, Annabelle
o informara desse "pequeno entrave". Não poderia se esquecer de dizer a ele para não revelar
ao reverendo que se conheciam havia tão pouco tempo...
Naquela manhã de segunda-feira, enquanto esperava Bradley no aeroporto,
experimentou a sensação de que a vida estava entrando nos eixos. Mas, quando o viu,
caminhando em sua direção, sentiu as pernas tremerem. A expressão fechada e as olheiras
denunciavam que ele não tinha dormido bem à noite. Entretanto, o que a confundiu realmente
foi a vontade de correr para ele para que se abraçassem como um casal apaixonado.
Bradley avistou-a. Annabelle estava usando calça comprida e um suéter bem largo. Os
cabelos soltos emolduravam-lhe o rosto com suavidade. Daquele jeito, ela quase parecia a
esposa com quem sonhava. Mas aquela não era a Annabelle real, pensou.
— Está bonita hoje — elogiou-a, ao aproximar-se. — Parece que terei de tomar muitos
banhos frios, nos próximos anos.
Annabelle fitou-o. Então, não era tão indiferente para ele quanto pensava.
Bradley arrependeu-se imediatamente do que dissera. Não queria que ela se
assustasse e desistisse do casamento. Estreitou os olhos para observá-la melhor, mas não viu
nenhum sinal de medo. Talvez os próximos dois anos não fossem tão difíceis, afinal.
— Suponho que teremos um dia cheio — Bradley comentou. — Pretendo retomar no
vôo das oito da noite. Espero terminar a primeira parte do meu trabalho até sexta-feira. Pensei
que teria algum tempo livre, Mas... Se tivesse, poderíamos viajar para algum lugar, já que
estaremos em lua-de-mel.
— Poderíamos...
— Sugiro que viaje comigo para Kansas no domingo e me ajude nas investigações finais
e no relatório. Ou, então, poderá sair para passear. O que não me parece certo é eu voltar
para lá sem minha esposa.
— Prefiro ajudar na investigação — ela decidiu, enquanto caminhavam para o
estacionamento.
O cartório foi a primeira parada. Assim que foram liberados, saíram apressados para a
entrevista com o reverendo.
— Acho que devemos comprar um par de alianças, não é mesmo? — Bradley perguntou.
Já tinham cumprido todas as tarefas e boa parte do dia já havia ido. Estavam ambos cansados
e tensos, uma vez que disfarçar diante do reverendo, um homem astuto e perspicaz, fora
necessário um trabalho de ator.
— Acho que daria mais veracidade ao casamento — Annabelle concordou, baixinho.
Saíram então à procura de uma joalheria.
— A sorte está do seu lado — o joalheiro brincou. — Temos um par de alianças na
medida exata. Como não precisam ser ajustadas, estarão prontas no sábado, com ás gra-
vações.
— Gravações?
Bradley não entendeu o que o joalheiro queria dizer.
— Muitos casais costumam gravar os nomes e a data do casamento no lado interno das
alianças. Dessa maneira, se você esquecer a data do casamento, basta tirar a aliança e olhar
na parte de dentro. Existem maridos que juram ter salvado o casamento assim — o joalheiro
explicou para Bradley. em tom conspirador.
Bradley deu de ombros.
— Para mim está bem, já que sou um defensor convicto das tradições.
Annabelle comprimiu os maxilares, indignada. Mais uma vez ele sugerira que, quando
se casasse de verdade, exigiria uma cerimônia e uma esposa nos moldes tradicionais. Sorriu
friamente e deu a entender que captara a mensagem.
— Sim, também acho que a gravação é uma ótima idéia — confirmou.
— Que nomes devo gravar?
— Bradley e Annie — Bradley atravessou-se na conversa. Annabelle teve uma idéia.
Se ele podia expressar livremente suas preferências, por que não ela?
— Na verdade, eu gostaria que fosse Annie e Percival — ela opinou, com um sorriso
sedutor.
Bradley olhou-a de rosto fechado. O joalheiro ficou confuso.
Talvez tivesse ido longe demais, Annabelle pensou, mas àquela altura não dava para
retroceder. Então, inclinou-se para o vendedor.
— Percival é o primeiro nome do meu noivo, mas ele não gosta de dizer isso a ninguém
— confidenciou em voz baixa. — Sabe que eu sempre sonhei em me casar com um cavaleiro
de brilhante armadura? — ela concluiu, sorridente.
O homem também sorriu, mas olhou para Bradley com ar interrogativo.
— Se ela prefere Percival que seja Percival — rendeu-se, dando um passo atrás e
curvando-se, fazendo uma mesura.
O joalheiro riu novamente.
— Gosto de ver um casal que discute os problemas e divide as responsabilidades com
senso de humor — declarou, enquanto anotava os nomes no pedido de serviço.
A expressão dele assumiu um ar paternal.
— Eu diria que vocês têm um belo futuro pela frente. Desejo que sejam felizes.
Annabelle forçou um sorriso. Esperava realmente que tivessem um belo futuro, mas não
juntos. "Exceto nos dois primeiros anos", refletiu. Mas, pensando bem, os próximos anos até
que seriam fáceis. Os próximos dias seriam o verdadeiro desafio.
CAPÍTULO IX

Diante do espelho. Annabelle olhava-se, pensativa. Era sábado, dia do seu casamento,
e dentro de alguns minutos o filho adolescente do pastor estaria tocando a marcha nupcial na
guitarra elétrica. Resistira um pouco, antes de concordar com a sugestão de Linda para que
ele tocasse, mas acabou aceitando. O rapaz era o único músico disponível.
— É ele ou um disco — a irmã declarara.
Linda admitira que o instrumento não era o mais adequado para a ocasião, mas gostava
da vibração que o som enérgico acrescentava à melodia. E os trigêmeos adoravam música de
guitarra.
Respirando fundo. Annabelle começou a dar os últimos retoques na maquilagem. As
apresentações e o jantar da noite anterior tinham corrido bem. A família de Bradley mostrara-
se muito agradável. A irmã dele telefonara uns dias antes, oferecendo ajuda, mas, morando
na Califórnia, obviamente fora apenas um pretexto para conversar com Annabelle. Felizmente,
não houvera tempo para muitas perguntas, porque Helen fora obrigada a desligar, quando
alguém tocara a campainha de sua porta.
Entretanto, no jantar do dia anterior, várias vezes Helen tentara arrancar de Annabelle
como ela e Bradley tinham se conhecido. Mas Bradley sempre interrompera seu interrogatório.
Os pais de Annabelle também receberam Bradley muito bem. Ficaram surpresos com
a precipitação do casamento, mas não fizeram perguntas.
A cerimônia fora programada para ser a mais simples possível.
Annabelle acabara comprando um vestido de cor creme, bem suave, de cetim e rendas.
Vestida com ele, sentira-se uma noiva de verdade.
Uma batida na porta arrancou-a das reflexões. Logo em seguida, Linda entrou, toda
animada.
— Está maravilhosa, querida! Queria dar-lhe um último abraço, mas não quero
desarrumá-la.
— Não vai desarrumar — Annabelle garantiu, abrindo os braços. — E você também
está belíssima.
As duas ficaram abraçadas por longos instantes, até que Linda soltou-se e arrumou a
mantilha de renda, no mesmo tom do vestido, que Annabelle usava em lugar de véu. Os
acordes da guitarra, no andar de baixo, avisaram que estava na hora de a cerimônia começar.
Annabelle respirou fundo e seguiu a irmã para fora do quarto. Desceram a escada, ao
encontro do pai, que abraçou Annabelle com evidente emoção.
— Você está maravilhosa, filhinha — ele murmurou.
— Obrigada, papai.
Por um instante, desejou ardentemente que Bradley também achasse que ela estava
maravilhosa. Que bobagem! Afinal, tudo não passava de uma farsa.
Lutando para controlar o nervosismo, ficou aguardando com o pai o momento de entrar
na sala de estar, enquanto Linda ia para junto dos convidados.
De repente, ouviu-se o som da marcha nupcial. Estava na hora. Quando entrou na sala
pelo braço do pai, caminhando vagarosamente, notou a surpresa de Bradley. Obviamente ele
não sabia que ela estaria vestida de noiva. Ela mesma não havia planejado aquilo! Quando a
surpresa transformou-se num olhar de aprovação, uma onda de prazer percorreu-a. Mas foi
uma rápida sensação.
"Não pense que aquele olhar significa alguma coisa", advertiu-se. "Ele gostou de me
ver assim, porque o vestido de noiva faz a cerimônia parecer mais autêntica."
Finalmente, os votos de amor e fidelidade foram trocados e Bradley beijou-a
suavemente. A primeira reação de Annabelle foi querer recuar. Mas o calor daquele beijo
envolveu-a e ela, sem perceber direito o que estava fazendo, enlaçou Bradley pelo pescoço.
Durante todo o tempo. Bradley tentara concentrar-se no reverendo, nas flores, em tudo,
menos na mulher ao seu lado. Mas o pensamento sempre voltava para ela e para o beijo que
trocariam no encerramento da cerimônia. Bradley planejara beijá-la superficialmente. Não
queria que ela se apavorasse e saísse correndo dali ou, pior ainda, que o atacasse novamente
com um golpe de caratê.
Quando seus lábios se encontraram, ele ficou surpreso ao descobrir a maciez dos dela.
Teve o desejo de aprofundar o beijo, com paixão, mas dominou-se. Todavia, ao perceber que
as mãos dela acariciavam-lhe a nuca, ele segurou-a firmemente e beijou-a com força.
Estavam tão unidos, que ele sentiu as curvas do corpo feminino contra o seu. A chama
de desejo acendeu-se dentro dele. Impressionado pela própria reação a um beijo quase casto,
trocado em público, interrompeu-o rapidamente.
Annabelle ficou perdida numa avalanche de sensações. Uma onda de prazer sacudira-
a da cabeça aos pés. Era o despertar de algo parecido com uma necessidade, uma ânsia, um
desejo ardente. Não sabia exatamente o que era, mas o que quer que fosse, era forte demais,
como uma explosão incontrolável. Uma das crianças choramingou e ela se deu conta de que
estava numa sala cheia de gente.
Corando, imaginou se o beijo deixara as pessoas constrangidas. Mas, quando virou-se,
só viu rostos sorridentes. Obviamente, o beijo fora perfeito.
Nas horas seguintes, Annabelle manteve-se ocupada, atendendo aos convidados, até
que, finalmente, o almoço terminou. As moças que o tinham preparado fizeram a limpeza e
foram embora. A família de Bradley retornou para o hotel e os pais dela foram para a casa de
Linda e Frank. Ela e Bradley ficaram sozinhos.
Annabelle pegou o buquê de noiva que deixara na mesinha de centro e jogou-se no
sofá. Era um buquê de rosas-chá, em tom bem clarinho, o mais lindo que já vira. Tirou os
sapatos e cruzou os pés sobre a mesinha para descansá-los. Sorrindo, lançou o buquê para o
alto e aparou-o novamente.
— Bela jogada! — Bradley exclamou, tirando o paletó.
— Estava na hora de atirar o buquê — ela explicou. — Não fiz isso na festa, porque não
havia nenhuma convidada solteira. Sou a que mais se aproxima dessa categoria e, como tenho
esperança de ter um marido e filhos algum dia, achei melhor pegar meu próprio buquê.
Sentado na poltrona, Bradley tirou também a gravata, e desabotoou o colarinho da
camisa.
Annabelle olhou-o fixamente. Era um bom momento para abordar um assunto que a
atormentara nos últimos dias. E se ele se recusasse a atendê-la? Havia uma grande possibi-
lidade disso. Seria embaraçoso, mas ela estava decidida a ir adiante. Lembrou-se do beijo e
da expressão de desejo nos olhos dele. Afinal, ele era homem e dois anos seriam tempo
demais, ela analisou, tentando ganhar coragem. "Vá em frente", incentivou-se.
— Gostaria de pedir-lhe um favor, Bradley. Annabelle procurara dar firmeza à voz, mas
a garganta parecera fechar-se e as palavras morreram.
— Que favor? — perguntou Bradley, animando-a a continuar.
Pelo nervosismo de Annabelle, ele imaginou que, depois daquele beijo, ela ia pedir para
colocar uma trava de segurança na porta do quarto.
Ela umedeceu os lábios, controlando-se.
— Pretendo ter um marido e filhos algum dia, mas acho que tenho um pequeno
problema.
Lembrando-se novamente do golpe sofrido no estômago, Bradley pensou que não
classificaria o problema como muito pequeno.
— O pavor que lhe provoca pesadelos — ele concluiu. Annabelle confirmou.
— Preciso vencer o medo. Já namorei algumas vezes, mas os relacionamentos foram
apenas platônicos. Não senti, realmente, nenhuma atração física pelos homens com quem saí.
Novamente, sentiu aumentar o nervosismo e a indecisão. Poderia ser humilhante. Num
último esforço, encheu-se de coragem.
— Embora eu não seja a mulher que você gostaria de ter como esposa e você não seja
o homem que eu gostaria de ter como marido...
Ela desviou o olhar por um momento. Aquilo não era totalmente verdade. Ele tinha
muitas qualidades que ela admirava. Era honesto, inteligente, e tinha senso de humor. Só que
não estava apaixonado por ela. Queria um homem que a amasse, tanto quanto Frank amava
Linda.
— Acho-o fisicamente atraente — ela completou, voltando a olhá-lo.
Percebendo o brilho de interesse nos olhos dele. Annabelle sentiu-se fortalecida para
continuar.
— Foi essa atração que me fez perceber que tenho verdadeiro pavor de um
relacionamento íntimo — confessou. — A agressão do estupro foi muito dolorosa e tenho medo
de que qualquer relacionamento seja parecido com aquele horror. Não tenho nenhum
problema físico e tudo o que já li me assegura que posso ter uma relação satisfatória com um
homem. Mas sinto que enquanto não fizer a experiência, vou continuar com medo.
Bradley já sabia claramente o que ela ia pedir.
— Suponho que seja natural sentir medo de algo que a fez sofrer — comentou.
— De qualquer maneira, já que teremos de viver tanto tempo juntos, estive pensando
se você poderia me ajudar a superar o pavor.
— Já aprendi que você pode se tomar muito perigosa, Annie-faixa-preta.
Annabelle empertigou-se, preocupada. Ele iria recusar-se a ajuda-ia.
Bradley, porém, refletiu que seria uma estupidez continuar negando que sentia atração
por ela também. Aquele poderia ser um bom negócio. O que sentia era apenas físico. Dormiria
com ela algumas vezes e, quando o casamento acabasse, estariam completamente livres.
— Dois anos demoram a passar — ele considerou — e um relacionamento íntimo
poderá nos ajudar a atravessá-los.
Ele concordara! Annabelle respirou aliviada.
— Não precisa se preocupar com uma gravidez indesejada — ela assegurou
rapidamente —, tomarei os cuidados necessários.
— Isso é bom — ele respondeu, pensando em como era prático tratar com uma mulher
de negócios. — Não queremos nenhuma complicação, quando terminarmos o casamento.
De repente, ela ficou apreensiva. E se ele fosse apressado e quisesse ter uma relação
imediatamente? Não tinha certeza de estar preparada, ainda.
Bradley observava-a. Ela parecia indecisa e um pouco temerosa. Novamente, sentiu um
forte desejo de ajudá-la.
— Não há pressa — acalmou-a. — Daremos um tempo, até que você se acostume
comigo.
Annabelle dirigiu-lhe um sorriso de alívio.
Olhando o leve arfar dos seios arredondados, Bradley sentiu o desejo acender-se outra
vez. Mesmo contra a vontade, era obrigado a admitir que nenhuma mulher o excitara com tanta
facilidade.
— Por que não trocamos de roupa e saímos para jantar? — ele sugeriu.
— Parece uma boa idéia.
Retirando-se para o quarto, Annabelle mal fechara a porta quando lhe ocorreu que
poderia precisar de ajuda para tirar o vestido de noiva. Pedir a Bradley que a ajudasse seria a
coisa mais razoável a fazer, mas o medo reapareceu e ela abandonou a idéia. Após colocar
de lado a mantilha, tentou abrir o zíper nas costas, mas não conseguiu. Lembrou-se de Linda,
mas não podia chamá-la. O que a irmã pensaria daquele pudor sem cabimento? A solução era
mesmo apelar para Bradley.
Descendo a escada, encontrou-o sentado no mesmo lugar, pensativo. Estaria
arrependido de ter concordado com sua proposta?
— Não consigo tirar o vestido sozinha.
Bradley levantou-se e foi até ela, achando-a tentadora, com o cabelo solto nos ombros.
Ele estivera imaginando como seria bom, quando finalmente a tomasse nos braços. De repente,
ela aparecia e pedia-lhe que a ajudasse a tirar o vestido. Ele precisaria de muito autocontrole
para não abraçá-la e beijá-la com ardor.
— Vire-se — ordenou quase asperamente. A atitude dele preocupou-a.
— Sinto muito estar sendo inconveniente — ela desculpou-se.
— Você não está sendo inconveniente. Está sendo uma tentação.
Incapaz de conter-se, ela sorriu. A preocupação desapareceu. Ele estava realmente
interessado em ajudá-la a vencer o medo e não era imune a sua feminilidade.
Bradley abriu o zíper, desabotoou os botões e ficou ainda mais excitado quando o
vestido deslizou, descobrindo um dos ombros. Com suavidade, pousou os lábios na pele clara
do ombro nu.
Annabelle sentiu o toque como um ferro em brasa na pele. Instintivamente, enrijeceu o
corpo, espantada com a intensidade de sua reação àquele contato.
Imediatamente, Bradley recuou.
— Não quis assustá-la — desculpou-se. — Considere apenas um pequeno teste.
O coração dela disparou.
— Não me assustou — confessou, mantendo-se de costas para esconder o quanto fora
afetada pela carícia.
Bradley percebeu-lhe a respiração irregular. Se não era medo, então não precisaria ir
tão devagar, pensou.
— Na verdade, até que foi bom — ela acrescentou, desejando que ele fizesse aquilo
outra vez.
Ele planejava parar por ali, mas outro beijo não faria nenhum mal. Avançando um pouco
mais, enlaçou-a pela cintura e beijou o outro ombro.
— Esse foi melhor ainda — ela informou, com um leve estremecimento.
Então. Bradley beijou-lhe a nuca e acariciou-lhe os seios.
Mesmo através do tecido, Annabelle sentiu o calor das mãos fortes. Inclinou o corpo
para trás, procurando maior contato, mas logo soltou-se do abraço, achando que estavam indo
depressa demais.
— Acho melhor subir e tirar o vestido — observou.
Bradley ficou decepcionado, mas não tentou retê-la.
Annabelle ficou aturdida com as próprias emoções. Talvez, inconscientemente, ela
esperasse que ele tornasse a abraçá-la, pois sentiu-se abandonada e desiludida. Queria andar,
mas as pernas não obedeciam, obrigando-a a continuar parada diante de Bradley.
Ele achava que estava indo muito depressa, mas já percebera que ela se inflamava com
uma simples carie ia.
— Talvez eu deva ir também, para o caso de você precisar de ajuda outra vez — sugeriu.
— É, pode ser — Annabelle concordou, sem acreditar que o estava encorajando.
Ao subir a escada, sentiu aumentar o desejo de continuar a experiência. Quando entrou
no quarto, olhou para trás, notando que Bradley parará na porta, fitando-a com uma expressão
séria no rosto.
— Tem certeza de que posso entrar? — ele perguntou, indeciso.
Queria entrar e também fazer muitas outras coisas, mas não queria, de jeito nenhum,
aumentar os traumas de Annabelle.
Olhando-o, ela descobriu que não tinha dúvidas. Queria que ele entrasse. Uma
necessidade forte, uma força incomum percorria-lhe o corpo.
— Quero que entre — respondeu. Cautelosamente, ele entrou.
— De qualquer modo, se você sentir medo e quiser que eu saia, é só avisar.
Ela concordou e começou a tirar o vestido.
Bradley aproximou-se e ajudou, procurando manter uma pequena distância e tocar nela
o mínimo indispensável.
Nervosa, Annabelle deixou o vestido escorregar até o chão, apanhou-o e foi pendurá-lo
no closet. Podia sentir o olhar de Bradley seguindo-a e ficou ruborizada ao ver seu corpo
seminu refletido no espelho. Olhou para Bradley. Nos olhos dele havia um calor tão intenso,
que ela se sentiu incendiar.
— Um de nós ainda está vestido — ela comentou, tentando vencer o constrangimento.
Bradley sorriu.
— Acho que posso dar um jeito nisso.
Quando começou a desabotoar a camisa, ela aproximou-se, para ajudá-lo. Imaginara
que sairia correndo dali naquele momento, entretanto, estava sendo atraída por ele como uma
mariposa pela luz.
Bradley percebeu que ela tremia levemente. "Vá devagar", disse para si mesmo. Mas,
não ia ser nada fácil. O indisfarçável arfar daqueles seios firmes parecia um aceno, um convite
irrecusável.
Vagarosamente, ela tirou-lhe a camisa e atirou-a de lado, acariciando-lhe o peito
musculoso.
— Tem um belo físico — elogiou.
— O seu, esconde uma promessa deliciosa. O que está escondido deve ser muito bonito
— ele replicou, abraçando-a para soltar o fecho do sutiã, nas costas.
Annabelle sentia como se uma fogueira a queimasse por dentro.
Bradley percebia as reações de desejo daquele corpo ligeiramente trêmulo, que
lentamente despiu. Manter um ritmo vagaroso para não apavorá-la, estava se tornando difícil.
Então, ele caminhou até a cama. afastou os cobertores e olhou-a interrogativamente,
esperando que decidisse.
Nervosa. Annabelle aproximou-se da cama. Estava chegando o momento de enfrentar
o medo. O coração batia tão forte que parecia querer sair do peito. Mas não queria perder a
oportunidade.
— Você ainda está vestido — avisou. Bradley sorriu.
— Não por muito tempo.
Assim que Annabelle se deitou, rapidamente, Bradley livrou-se do resto das roupas.
Ao encostar-se nela, imediatamente sentiu-lhe a reação de temor. "Não tenha pressa",
ordenou-se. Até aquele momento, não avaliara o quanto também era importante para ele que
tudo saísse bem. Desejava que a experiência fosse agradável para os dois, mas
principalmente para Annabelle.
— Não vou apressá-la — prometeu.
Annabelle sentiu os músculos relaxarem, à medida que ele acariciava-lhe o corpo inteiro
com os lábios e as mãos. Entre temerosa e maravilhada, viu-se perdida num mar de sensações
que ainda não conhecera.
Bradley sabia que ela estava pronta, mas não queria surpreendê-la e trazer todo o medo
de volta.
— Está na hora de passarmos para o estágio seguinte — ele murmurou, mordiscando-
lhe o lóbulo de uma orelha.
— Está, sim — ela concordou num murmúrio entrecortado. — Se esperarmos mais um
pouco, posso incendiar-me espontaneamente. Estou tendo uma visão de uma manchete nos
jornais: "Marido incendeia esposa na noite de núpcias". — Você vai ser uma lenda viva, em
seu próprio tempo. Ou será que já houve uma história assim0
— Provavelmente — Bradley admitiu, penetrando-a cuidadosamente.
Ela ficou tensa e pareceu emudecer, mas em seguida, deu um suspiro de alívio e sorriu.
— Ou você é realmente muito bom. ou não havia nada mesmo para sentir medo — ela
comentou, acariciando-lhe o peito.
— Meu ego gostaria de acreditar que o mérito é meu, mas provavelmente seria uma
grande mentira — ele falou.
Annabelle ofegava, sentindo-se transportada para um mundo desconhecido de prazer
alucinante.
Não conseguiu dizer mais nada, mergulhando numa torrente de sensações violentas e,
no entanto doces e cheias de magia.
Annabelle olhou pela janela do avião. Era domingo à noite e estavam viajando para
Kansas, para terminar o trabalho que Bradley estava fazendo. A não ser pelos poucos minutos
em que foram conversar com Linda e pedir-lhe que tomasse conta da casa, era a primeira vez
que ela e Bradley saíam, desde o dia do casamento. Felizmente, sobrara bastante comida do
almoço para poderem fincar trancados em casa, pensou, com um sorrisinho maroto.
Lembrou-se com satisfação do comentário de Linda, dizendo que ela estava com uma
aparência tranqüila e feliz.
— Estou me sentindo ótima — admitira.
Era como se uma nuvem negra tivesse se afastado de sua vida, e Annabelle nem tinha
palavras para dizer como estava contente por ter conhecido Bradley.
Bradley reclinou-se no assento. Estava cansado. Ele e Annabelle tinham estado em
constante atividade, desde o dia anterior. O relacionamento entre eles estavam se tornando
bem mais agradável do que seria de esperar. Olhou para ela, que estava usando calça cinzenta
e jaqueta de abotoar sobre uma blusa de seda. Penteara o cabelo para trás e o prendera num
coque. Era a perfeita imagem de uma executiva em viagem de negócios. Mas, agora, não a
via como uma mulher fria e calculista. Imaginava-a como a vira horas antes, deitada com ele,
nua. Despenteada, sorridente e feliz.
Respirou fundo. Mesmo cansado, desejou que estivessem sozinhos naquele momento.
"Está agindo como um adolescente", censurou-se. "Durma. Você precisa descansar", ordenou-
se. fechando os olhos.
"O casamento pode prejudicar minha concentração", ele pensou, alguns dias mais tarde,
na suíte do hotel. Ele e Annabelle estavam revisando os últimos tópicos do relatório. Ela
aprendera sua função com facilidade e o trabalho terminara rapidamente.
Annabelle andava pela sala, enquanto lia o relatório, e ele não conseguia concentrar-
se. Desviava a atenção para o suave balanço dos quadris arredondados. Finalmente, colocou
sua cópia de lado e levantou-se. Bloqueando a passagem dela, tirou-lhe o relatório das mãos
e atirou-o no sofá. Chegando mais perto, acariciou-lhe o cabelo com gestos suaves.
— Lembro-me de que você disse que desejava terminar o relatório ainda hoje —
Annabelle repreendeu, com um olhar malicioso.
— Terminaremos — Bradley assegurou, desabotoando-lhe a blusa. — Mas, neste
momento, não estou conseguindo fixar a atenção no trabalho.
Annabelle experimentou uma sensação de poder feminino.
— Suponho que um pequeno intervalo não fará mal algum — ela admitiu, sentindo a
pulsação acelerar.
— Acho que um intervalo fará bem para nós dois. Annabelle tirou a blusa e ajudou-o a
despir a camisa. As duas peças amontoaram-se numa cadeira.
— Dizem que os empregados se tomam mais eficientes, se tiverem um tempinho para
uma pausa de vez em quando
— Annabelle murmurou.
— Costumo mencionar isso nos meus relatórios — Bradley afirmou.
Annabelle riu e ele a beijou, começando a acariciar-lhe os seios.
Mais tarde, ainda na cama, Bradley tentava ler o relatório, mas o pensamento desviou-
se outra vez para Annabelle, deitada a seu lado. Estava nua sob os lençóis, que a cobriam até
pouco acima dos seios. Mantinha o lápis preso entre os dentes, enquanto lia sua cópia do
relatório.
— Estava pensando em viajarmos para minha casa nas montanhas, quando
terminarmos nosso trabalho aqui — ele comentou.
Olhando rapidamente para os papéis em sua mão, lembrou-se de que nunca havia
planejado levar Annabelle para lá. O que tinha realmente planejado era fugir sozinho para
aquele lugar e refugiar-se lá, quando o casamento forçado se tomasse um peso muito grande.
Não podia justificar a idéia de levar Annabelle para sua casa, alegando que era para
adiantar o trabalho, porque não era o caso. Ele mantinha um pequeno escritório em Rock
Springs, Wyoming, a cidade de tamanho razoável mais próxima da cabana.
Mildred Gryst, a secretária, tomava conta do lugar. A mulher estava na casa dos
cinqüenta, era inteligente e escrupulosamente honesta. Recebia a correspondência e o
mantinha informado de todas as ofertas de trabalho. Cuidava ainda da parte contábil, além de
responder às perguntas de qualquer possível cliente. Como ele estava sempre viajando,
aquela fora a melhor maneira de conduzir os negócios, de qualquer lugar onde estivesse.
O convite surpreendeu Annabelle. Os próprios pais dele tinham estado lá apenas uma
vez.
— O lugar parece uma caverna de ermitão — a mãe dissera. — E para lá que ele se
retira, quando quer isolar-se do mundo.
Annabelle olhou-o, mas Bradley mantinha os olhos fixos no relatório.
— Seria bom — respondeu, mostrando-se desinteressada, mas intimamente adorando
a idéia.
Bradley assentiu, continuando com a atenção voltada para os papéis a sua frente,
embora o cérebro não estivesse registrando nada do que ele lia. Convidara Annabelle para ir
à casa nas montanhas, seu refúgio. Bem, ela era sua esposa. Era natural que a levasse para
lá.
Alguns dias depois, numa manhã muito fria, mas clara, chegaram a Rock Springs, de
avião. Annabelle conheceu Mildred, de quem gostou muito, e em seguida os dois embarcaram
no jipe de Bradley, que ficava guardado na garagem atrás do escritório, e partiram.
A mãe dele tinha razão, quanto à solidão do lugar. Era tão distante de tudo que
Annabelle calculou que Bradley gastara um bom dinheiro, para puxar as linhas de telefone e
energia elétrica até lá.
Era uma bela casa. toda construída de madeira de cedro, no meio de muitas árvores.
Nos fundos, um pequeno riacho de águas muito claras corria tranqüilo. Como a cabana dos
Swynite, aquela também tinha todo o conforto. Um gerador próprio estava sempre pronto a
fornecer energia, no caso de um corte do fornecimento normal, por causa do mau tempo.
Annabelle foi olhar o riacho, através da janela envidraçada. na parte de trás da casa.
Era fim de março, mas ali o inverno ainda não terminara. Na verdade, continuava bastante
rigoroso. Atrás dela. Bradley tentava acendera lareira.
— E linda a vista aqui de cima — ela comentou. Bradley apenas sorriu, satisfeito por ela
ter gostado. Os dias seguintes foram de total descontração. Faziam as coisas normais, que
todo casal costuma fazer em casa, e à noite sentavam-se junto à lareira para ler ou conversar.
Bradley chegou a pensar que ela realmente parecia ajustar-se ao modo de vida que ele
apreciava. Estava adorando a companhia de Annabelle.
"O que é bom dura pouco", ele refletiu com pessimismo, quando sentaram-se para jantar,
num sábado. Fazia vinte dias que estavam lá.
— Mildred telefonou para avisar sobre um trabalho que devo começar — ele informou.
Annabelle sorriu.
— Pelo tempo que já descansei, tenho de admitir que estou ansiosa para voltar ao
trabalho.
Bradley ficou desapontado. Também estava achando falta do trabalho, mas esperava
que ela estivesse gostando de ficar em casa. Era realmente uma mulher que nunca iria
dispensar o trabalho fora do lar. Nunca seria a mulher que ele queria.
— Vamos tomar o avião domingo à noite. Tenho uma reunião marcada para segunda-
feira de manhã — Bradley explicou e depois passaram a discutir os detalhes do próximo
trabalho.
A vida a lado dele, Annabelle concluiu, estava sendo bem mais agradável do que ela
poderia imaginar.
Na manhã seguinte, entretanto. Annabelle foi obrigada a reavaliar aquele pensamento.
A mudança no comportamento de Bradley, desde a noite anterior, fora muito sutil, mas ela a
percebera. Haviam tido um relacionamento maravilhoso nas últimas semanas, mas, de repente,
era como se ele estivesse procurando manter uma certa distância. Falava pouco e quase não
sorria.
Parada no mesmo lugar em que estivera no dia da chegada, ela olhava pela janela
envidraçada. Um veadinho ia todas as tardes beber água no riacho. Ela gostava de observá-
lo. A idéia de nunca mais tomar a vê-lo a deixava triste. Mas estava começando a se acostumar
com a idéia de que nunca mais voltaria ali.
De súbito, ocorreu-lhe que Bradley podia estar preocupado, pensando que ela quisesse
tomar permanente aquele casamento.
— Estive pensando — declarou, virando-se para ele. — Seria uma boa idéia marcarmos
uma data definitiva para terminarmos nosso casamento. E a coisa mais prática a fazer. Melhor
do que esperar pelo dia em que descobrirmos que não dá mais para continuar.
Bradley riu-se intimamente. Enquanto considerava a possibilidade de conservá-la para
sempre, ela planejava o divórcio.
— Já está aborrecida comigo? — ele perguntou, como se não estivesse interessado
naquele assunto.
Annabelle olhou-o interrogativamente. Talvez ele não estivesse tão ansioso para livrar-
se dela, afinal. Ficou esperançosa.
"Que estupidez a minha", Bradley repreendeu-se. "Ela está certa. O melhor a fazer é
marcar a data."
— Desculpe minha hesitação. Foi apenas um pouco de orgulho masculino.
A esperança de Annabelle morreu imediatamente.
— Não precisa ficar com o orgulho ferido. Quero que fique tranqüilo, porque pretendo
cumprir minha parte no trato. Sou-lhe muito grata, e gostaria que você não ficasse preocupado
por estar amarrado a mim.
— Poderia ser coisa pior — Bradley admitiu.
A idéia de vê-la com outro homem causou-lhe uma sensação desconfortável, que ele
reprimiu.
— Tenho certeza de que encontrará o homem certo — acrescentou.
— Também tenho — ela replicou com firmeza. — O que acha de marcarmos a data
para dois anos a partir de hoje?
— Para mim está bem.
Annabelle imaginou que. tendo marcado a data exata para o casamento terminar, não
precisaria alimentar mais nenhuma fantasia. "Preciso planejar o resto da minha vida", pensou.
Mas encontrar o "homem certo" não ia ser uma tarefa fácil, ela raciocinou, alguns dias
depois.
Bradley observava-a. Nos últimos dias, percebera que Annabelle olhava disfarçada-
mente para os colegas de trabalho. O interesse dela por outros homens irritava-o.
— Compreenda que, apesar de tudo, espero de você a mesma fidelidade que você
espera, de mim — ele declarou, quebrando o silêncio.
Annabelle olhou-o surpresa.
— Naturalmente!
Ela parecia tão incrivelmente inocente que Bradley sentiu-se um idiota.
— Notei você observando os homens solteiros — continuou. — Na verdade, não posso
impedi-la de continuar sua vida, pois eu também gostaria de continuar a minha. Se não fossem
as fofocas que estamos tentando evitar, poderíamos terminar até antes do tempo. Mas...
Por um breve momento, Annabelle pensou que ele estivesse com ciúme. Mas, pelo que
acabara de dizer, estava preocupado mesmo era com a reputação dos dois.
— Estava só pesquisando futuras possibilidades — ela explicou. — Depois de todo o
trabalho que tivemos para fazer esta farsa parecer real, não faria nada que a comprometesse.
"Mude de assunto", Bradley pensou, mas não conseguiu vencer o impulso de fazer mais
uma pergunta.
— Encontrou algo interessante?
Annabelle deu de ombros.
— Por enquanto, nada.
Bradley alegrou-se, mas não demonstrou.
— Tenho certeza de que encontrará.
— E quanto a você? — Annabelle perguntou. — Como vai fazer para encontrar a
"mulher certa"? Vai visitar as salas de aula de economia doméstica? Talvez deva dar uma
olhada em algumas igrejas, não acha? Deve haver muitas mulheres disponíveis e do seu tipo,
nesses lugares.
Bradley fingiu não perceber a ironia.
— Realmente, ainda não pensei nesse assunto, embora possa considerar suas
sugestões.
A idéia de ver Bradley com outra mulher azedou a disposição de Annabelle, mas ela
não deu a perceber. Continuou comendo, embora a comida tivesse perdido o sabor.
— Espero que encontre o que procura — desejou. Bradley levantou o copo de água,
como para fazer um brinde.
— Ao sucesso da nossa procura. Annabelle acompanhou o brinde.
— Aos nossos pares perfeitos.
Um pensamento, então, passou-lhe pela cabeça: Bradley era tão perfeito para ela que,
provavelmente, nunca haveria outro igual. Annabelle descartou o pensamento perturbador. Ele
não a amava. Para tornar as coisas mais fáceis, tentaria encontrar nele alguns defeitos que a
desgostassem.
Dois meses depois, porém, Annabelle ainda procurava por aqueles defeitos. Era certo
que ele tinha um ou dois hábitos irritantes. Um deles era chacoalhar as chaves no bolso,
quando estava nervoso. O outro era deixar o tubo de creme dental aberto.
Nada grave, admitiu, enquanto massageava os ombros largos, como ele pedira,
alegando estar com os músculos tensos. Sentado ao computador na sala da suíte, ele dava
os últimos retoques no trabalho feito em Los Angeles. Estava sendo muito generoso. Pagava-
lhe um salário bem maior do que ela recebia nas Indústrias Swynite, que ficava integralmente
aplicado cm seu nome, no banco. Bradley queria que quando se separassem, ela tivesse uma
boa soma em dinheiro investido.
— Você tem as mãos mais macias que já senti — ele comentou, com um suspiro.
— As suas também são macias — Annabelle falou. Bradley sorriu e esqueceu um pouco
o relatório.
— Você acha? — perguntou, brincalhão. Imediatamente. Annabelle previu o que iria
acontecer.
— Pensei que quisesse terminar o relatório esta noite — comentou, com exagerada
inocência.
— Dez minutos de intervalo não vão alterar nada — ele argumentou.
— Dez minutos?
— Meia hora, então.
— Assim está melhor — ela aprovou, sorridente.
Haviam se adaptado perfeitamente um ao outro, Annabelle pensou, enquanto
caminhavam para o quarto. Tinham aprendido a se conhecer mutuamente, a se respeitarem,
e sabiam exatamente como dar prazer um ao outro.
Bradley. por sua vez, refletia que àquela altura já deveria estar cansado dela, mas cada
vez que faziam amor, parecia sempre melhor que a anterior. E não era só isso. Ele estava
gostando de trabalhar com ela. Annabelle era inteligente e tinha um gênio parecido com o seu.
Mais tarde, novamente sentado diante do computador, Bradley não conseguia afastar
Annabelle do pensamento. Ali sou nervosamente o cabelo com as mãos. Sua Annie estava
tirando-lhe a paz de espírito. "Ela não é minha Annie". corrigiu-se, alisando o cabelo outra vez.
Pensou numa maneira de colocar tempo e distância entre eles.
— Está com dor de cabeça? — ela perguntou, entrando na sala.
Bradley virou-se para olhá-la. De jeans, suéter velho e com os cabelos presos por um
lenço fino, ela era a imagem exata da mulher que estivera procurando durante anos. Em sua
imaginação, viu um bebê no quarto, como se ela houvesse acabado de fazê-lo dormir.
Annabelle pegou sua cópia do relatório e leu-o por alguns segundos.
— Acho que teremos de refazer a abertura — comentou, começando a escrever alguma
coisa a lápis, na margem do papel.
A visão da deliciosa cena doméstica esvaneceu-se na mente de Bradley, que sentiu
uma onda de irritação. Sem dúvida, precisava de algum tempo apenas para si.
— Estive pensando... Você aprendeu bem o trabalho e temos dois contratos em vista:
um com aquela companhia de Atlanta e o outro, na Flórida. Acho que está na hora de você
agir sozinha. Quer ficar com o trabalho de Atlanta? Ficarei com o da Flórida.
O estômago de Annabelle contraiu-se de tensão. Ela sabia que com o tempo ele ficaria
enjoado de sua companhia constante. No entanto, esperava que quando isso acontecesse
também estivesse farta dele. Com muita força de vontade, conseguiu mostrar entusiasmo.
— Seria ótimo — afirmou.
Bradley sentiu-se mal. Bem no fundo, esperava que Annabelle mostrasse relutância em
separar-se dele. Suspirou, resignado.
— Acho que está ansiosa por experimentar as asas num vôo solitário — brincou.
— Nós, que vivemos para nossas carreiras, somos independentes por natureza — ela
replicou.
Nunca o deixaria perceber que lhe doía pensar em ficar longe dele. Afinal, tinha orgulho.
Bradley assentiu. Tomara a decisão acenada, propondo uma separação temporária.
Contudo, ainda não se sentia preparado para ficar sem Annabelle. Queria mais alguns dias
com ela.
— Vamos terminar este trabalho na quinta-feira — observou. — Teremos tempo livre
até domingo, quando embarcaremos, cada um para um lado. O que acha de passarmos a
sexta e o sábado em San Francisco?
Annabelle deu de ombros, aparentando indiferença.
— Seria bom. Sempre quis conhecer San Francisco.
Mais tarde, porém, deitada ao lado dele, que já adormecera, começou a arrepender-se
de ter concordado, em trabalhar separadamente. O cérebro dizia que mais cedo ou mais tarde
teriam de separar-se, definitivamente, porque o casamento era apenas uma farsa. O coração,
entretanto, dizia coisas muito diferentes. Annabelle ficou olhando para as sombras, recordando
o sorriso de Bradley, pensando em sua gentileza, arrepiando-se ao pensar em sua habilidade
de fazê-la sentir prazer explosivo na cama.
Havia também os momentos de simples companheirismo, quando assistiam juntos à
televisão, ou liam em doce silêncio. Trabalhar com ele também fora a experiência mais
gratificante que tivera em sua vida profissional.
Lágrimas quentes encheram-lhe os olhos, quando ela viu a realidade fulgurante: estava
apaixonada por Bradley. Não adiantava mais dizer a si mesma que tudo não passava de mera
atração física. Era uma deslavada mentira. Amava Bradley com todas as forças de seu coração.
Não, não podia ir com ele para San Francisco. E se não pudesse disfarçar os
sentimentos e declarasse seu amor. embaraçando-o? Além de constrangido, Bradley poderia
sentir-se culpado e isso ela não poderia suportar.
Na manhã seguinte, à mesa do café. Annabelle mascarou o rosto com uma expressão
de calma, preparando-se para a encenação.
— Sabe de uma coisa? — perguntou com estudada indiferença. — Acho melhor você ir
a San Francisco sozinho. Vou aproveitar os dias livres para dar uma chegadinha em Pittsburgh
e ver como vão as coisas por lá. Linda sempre diz, quando conversamos pelo telefone, que as
crianças vão se esquecer de que têm uma tia.
Pronto. Estava feito. Com o coração acelerado, porém, desejou com verdadeira ânsia
que ele pusesse obstáculos a sua idéia, ou que então se oferecesse para acompanhá-la a
Pittsburgh. Sabia que era uma esperança vã, mas, talvez...
Bradley engoliu o desapontamento. Era duro ver como Annabelle estava ansiosa por
livrar-se dele. Estava sendo incoerente, raciocinou. Não fora ele que tomara a iniciativa de
propor uma separação, sugerindo que trabalhassem isoladamente?
— Está certo — concordou por fim. — Só que, nesse caso, não irei para San Francisco.
— Não?
— Prefiro ir para Rock Springs. Vou aproveitar para falar com Mildred a respeito de
alguns assuntos.
Annabelle assentiu, mas sentia-se magoada. Sabia que ele nunca mais a levaria para
seu refúgio nas montanhas, mas isso não a impedia de sofrer. De repente, teve vontade de
acabar de uma vez com aquele casamento, uma simples peça de teatro que estava se
tomando muito difícil para ela.
— Uma vez, você disse que se nos divorciássemos depressa demais poderíamos
provocar falatórios — comentou, em tom monótono. — Mas estive pensando e acho que
ninguém estranhará muito. Afinal, somos profissionais e atritos entre nós dois não seriam de
surpreender. Já ouvi falar de muitos casamentos que não duraram nem um mês.
— Aonde está querendo chegar. Annabelle?
— Acho que deveríamos começar a pensar no divórcio. Trabalharíamos algum tempo
separados e daqui a... cinco meses anunciaríamos a separação, alegando total incompa-
tibilidade.
Por um momento, Bradley pensou em rejeitar a proposta. Então, quase riu daquele
impulso descabido. Já não decidira que estava na hora de dar novo rumo a sua vida? E. sem
dúvida, Annabelle tomara a mesma decisão.
— Concordo — respondeu laconicamente.

CAPÍTULO XI

Annabelle chegou em Pittsburgh tarde da noite, na sexta-feira. Exatamente como


planejara. Queria ficar um pouco sozinha, antes de encontrar Linda e Frank.
Após um banho quente, vestiu um velho e confortável pijama de algodão e desceu.
Estava cansada e com sono. Esperava que estar em casa. entre suas coisas, a ajudasse a
esquecer Bradley. Apenas não contara com a lembrança das horas que tinham passado ali.
Lágrimas quentes brotaram-lhe dos olhos.
— Bobagem chorar por algo que já era esperado — repreendeu-se em voz alta.
Entrando na cozinha, avistou bem no centro da mesa uma torta com um bilhete ao lado.
Querida Annie
Bem-vinda ao lar. Esperamos por você. Preparei sua torta favorita: maçã com passas e
nozes. Naturalmente, jantaremos todos juntos, amanhã. Se Bradley conseguir mudar os planos,
está convidado também. Gostaria de passar algum tempo com meu adorável e unido cunhado.
Com amor. Linda.
— Logo será ex-cunhado — murmurou Annabelle resignadamente, ao mesmo tempo
em que novo rio de lágrimas banhava-lhe o rosto.
Assim que conseguiu controlar-se, serviu-se de um pedaço de torta e de um copo de
leite. Eram duas horas da manhã.
Naquele mesmo instante, em sua casa nas montanhas, Bradley olhava pela janela
envidraçada da sala de estar. Lá fora, a paisagem era iluminada apenas pelo luar e pelas
estrelas. Ali dentro, a única claridade vinha do fogo na lareira. Muitas vezes estivera sozinho
ali e sempre em paz com o mundo. Mas naquela noite estava inquieto. Aquela incrível solidão
o perturbava.
A imagem de Annabelle ocupava-lhe a mente por inteiro. Apertou os olhos tentando
dissipá-la, mas a imagem encantadora permaneceu, intacta.
— Estou aqui para esquecê-la — resmungou, inconformado. Pensou no tipo de mulher
com quem sempre sonhara. Antes, essa mulher aparecia em seus devaneios loira, ruiva ou
morena, mas, naquela noite, parecia-se com Annabelle. De repente, uma forte determinação
tomou conta dele. Tinha de fazer algo. Sabia o que queria e era um homem que sempre atingia
os objetivos.
No sábado de manhã. Annabelle acordou tarde e ainda permaneceu na cama por um
bom tempo. "Não posso ficar na cama o dia inteiro", refletiu. "Preciso ir ver Linda e Frank,
mesmo que meu desejo seja evitá-los."
Atirando as cobertas para o lado, obrigou-se a levantar. Ao meio-dia, estava na cozinha,
comendo um pedaço de torta, quando o telefone tocou.
— Quis telefonar antes, mas tive medo de atrapalhar, caso Bradley tivesse vindo
também — a voz da irmã soou do outro lado.
— Não atrapalharia nada. Bradley não veio.
Linda ficou em silêncio como se desconfiasse de alguma coisa e, antes que Annabelle
pudesse se manifestar, desligou. Poucos minutos depois, entrou como um furacão pela porta
da cozinha. Os olhos fixaram-se na torta sobre a mesa.
— Você comeu três quartos da torta sozinha! — exclamou, enquanto se abraçavam.
Annabelle deu de ombros.
— Está deliciosa. A melhor que você já fez.
— Mas é uma insensatez comer tanto de uma vez só. Você nunca fez isso. O que há
de errado? — Os olhos da irmã estreitaram-se. — Brigaram?
Estava na hora de contar a verdade, Annabelle decidiu. As lágrimas afloraram-lhe nos
olhos. Sabia que, se começasse a falar de Bradley, não conseguiria contê-las. Sentiu-se uma
idiota. Que consideração poderia esperar de um homem que nunca lhe prometera amor?
Queria contar a Linda, mas reconsiderou a idéia. Não queria perder a dignidade e cair em
prantos, como uma tonta apaixonada. Mais tarde contaria, mas não naquele momento.
— O casamento não está indo bem como esperávamos — foi tudo o que conseguiu
dizer.
Linda sentou-se diante dela, olhando-a com benevolência.
— Todos os casais têm problemas no começo — declarou, com ar de entendida. —
Tenho certeza de que conseguirão vencer essa fase difícil.
— Entretanto, separados, toma-se impossível — Annabelle replicou. — Teria de haver
compreensão de ambas as partes.
Com um nó na garganta, recordou o que lhe parecera uma expressão de alívio no rosto
de Bradley, quando se despediram no aeroporto.
— Por enquanto — continuou —, precisamos de um tempo sozinhos.
Não estava arrependida de ter feito aquele casamento. Sabia que um dia se separariam,
mas não que sofreria tanto, quando esse dia chegasse.
— Você está errada — declarou a irmã. — Tenho experiência e acho que deveria
telefonar ou, melhor ainda, ir ao encontro dele.
Se soubesse que o faria feliz, Annabelle sairia voando para o aeroporto naquele mesmo
instante. Mas sabia que não seria assim. A vontade de chorar tornou-se muito forte.
— Que tal um pedaço de torta? — ofereceu, tentando mudar de assunto. — Percebeu
que ainda não me falou dos trigêmeos? Jack já começou a falar, ou as meninas estão
tagarelando tanto que ele não tem chance de dizer uma palavra?
Linda franziu a testa, quase irritada.
— Fugir do problema nunca foi a melhor solução, minha querida irmã.
Annabelle suspirou, cansada.
— É, você está certa.
Esperar não ia tornar mais fácil falar de Bradley. Talvez, contar a verdade ajudasse a
diminuir a tristeza.
— Tem uma coisa que preciso dizer-lhe — começou. — Meu casamento...
Alguém tocou a campainha naquele exato momento, interrompendo-a.
— Não vai atender? — a irmã perguntou, vendo que Annabelle permanecia sentada e
em silêncio.
— Não! Não quero ver mais ninguém, além de você, agora. Estou me sentindo mal do
estômago.
Enquanto conversava, ela comera o restante da torta. Linda olhou para o prato vazio
com ar de censura.
— Não era para menos — replicou. A campainha soou novamente. Linda, então, correu
para atender.
— Vou despachar quem quer que esteja lá fora e volto rapidinho para continuarmos a
conversa — avisou.
"Estou me comportando ridiculamente", Annabelle concluiu ao ficar sozinha. "Afinal, não
é o fim do mundo."
Linda retornou, mas ficou parada na porta com um sorriso divertido.
— Frank tem idéias fabulosas para fazer as pazes comigo, quando brigamos — declarou.
— Mas, francamente, Bradley superou-o.
A princípio, Annabelle ficou confusa. Depois, ouviu barulho de metais atrás da irmã.
Linda afastou-se para dar passagem e Bradley entrou, completamente vestido com uma
armadura prateada, como um cavaleiro do rei Arthur.
Annabelle abriu a boca de espanto.
— Acho que está na hora de ir embora — a irmã observou, já saindo pela porta dos
fundos.
— Uma vez você disse que se casaria com um cavaleiro de armadura brilhante — ele
recitou. — Não sou tão puro como meu "xará", mas gostaria de ser seu cavaleiro, maravilhosa
dama.
Annabelle sentiu um aperto no coração. Pelo tom de voz de Bradley, poderia jurar que
ele estava sendo sincero. Mas decidiu não abrir muito a guarda.
— Quer ser meu cavaleiro pelos dois anos do contrato, ou por toda a vida? — perguntou.
— Para sempre — ele respondeu, com toda a convicção de quem sabe o que quer. —
Sei que não foi o que combinamos, mas gostaria de ter uma chance de provar-lhe que estou
realmente apaixonado.
Uma alegria indescritível inundou o íntimo de Annabelle.
— Pensei que quisesse uma mulher que fosse mais submissa — argumentou, ainda
com medo de acreditar nele.
— Eu queria — Bradley confessou. — Quando era criança, voltava da escola e
encontrava minha mãe fazendo biscoitos, me imaginava casado com uma mulher que também
se preocupasse apenas com o lar e a família. Mas não contava com a possibilidade de alguém
como você aparecer na minha vida. Quando a vi pela primeira vez, pensei ter visto apenas
uma mulher de carreira. Depois vim aqui e encontrei-a cuidando dos trigêmeos.
Ele ergueu o elmo da armadura e fitou-a com indisfarçável amor.
— Desde então, quanto mais convivia com você, mais perdia minha paz de espírito, até
que terminamos casados, por causa daquele fatídico fim de semana nas montanhas.
Ele deu um passo na direção dela e a armadura retiniu, produzindo barulho metálico,
estridente.
— Pensei que o casamento me livraria da fascinação que sentia por você. Mas, ao
contrário, passei a gostar da sua companhia, a admirar seu talento e, finalmente, fui obrigado
a admitir que estava apaixonado.
As palavras dele deixaram-na feliz, mas ao mesmo tempo com medo. Sabia que a dor
que sentira nos últimos dias não seria nada, comparada à dor que sentiria se tivessem que
desmanchar, mais tarde, um casamento de verdade.
— Fique sabendo que nunca poderei ser igual à mulher que você queria para esposa
— avisou, determinada a deixar bem claro aquele ponto.
— Eu sei — Bradley concordou. — Você é do tipo que gosta de ter uma carreira
profissional. Isso deve fazê-la feliz e, o que me interessa, na verdade, é sua felicidade. Gosto
do seu jeito de ser e de ter você trabalhando ao meu lado. Outros casais têm suas profissões
e suas famílias. Não vejo por que não poderíamos ter também.
O coração de Annabelle batia disparado, movido por uma sensação de felicidade que
ela jamais sentira.
— Acho que também posso me apaixonar por você — declarou, olhando-o com um
sorriso de admiração. — Você está muito bonito com essa roupa, isto é, com essa armadura.
Bradley sorriu e Annabelle, felicíssima, aproximou-se, mais confiante.
— E naturalmente também é bonito sem ela — completou.
Ele abriu um sorriso amplo e feliz.
— Preciso de ajuda. Não consegui nem dirigir, desde que saí da loja onde aluguei isto.
Precisei tomar um táxi para vir até aqui.
— Bem. naturalmente não vou deixá-lo preso aí dentro. Especialmente quando acho
que você está pretendendo iniciar suas manobras persuasivas imediatamente.
Bradley fez uma reverência.
— Estou às suas ordens, minha dama.
— Nesse caso...
Annabelle se interrompeu e começou ajudá-lo a despir-se da armadura.
Algum tempo depois. Annabelle descansava calmamente nos braços de Bradley.
Sempre gostara da companhia dele na cama, mas daquela vez fora mais excitante ainda.
Fizeram amor verdadeiramente e ela sentia-se em paz com o mundo.
— Annie — Bradley chamou baixinho —, preciso saber se existe uma chance de você
aprender a me amar. Sei que posso agradá-la na cama, mas gostaria que tivéssemos um
relacionamento bem mais profundo do que um simples contato físico. Quero ser realmente o
seu cavaleiro de armadura brilhante.
Ela exultou em saber que ele desejava de fato conquistar seu amor.
— Você é meu cavaleiro, sir Percival — afirmou — e eu te amo.
Então, tudo foi esquecido, quando o desejo reacendeu-se e os dois entregaram-se ao
amor e ao prazer. Estavam juntos no caminho da felicidade.
Daquela vez, para sempre.

ELIZABETE AUGUST vive em Wilmington, Delaware, com o marido, Doug, e três filhos:
Douglas, Benjamin e Matthew. Começou a escrever romances logo depois que Matthew
nasceu, mas sempre teve vontade de escrever profissionalmente. A noite, para vencer o
desejo de comer guloseimas, faz trabalhos em ponto-cruz, mas o truque nem sempre funciona.
Gosta de jogar boliche, embora saiba que não joga muito bem. Adora ir ao cabo Hatteras para
ver o sol subir sobre o oceano.
N° 769
O LIMITE DO AMOR
Liza Madley

O cozinheiro tinha adoecido, a noiva fugira e tio Jack corria atrás de qualquer barra de saia que aparecesse.
Mas Laura Sheldon, responsável pela festa na Pousada Parada de Diligências, estava conseguindo controlar
a situação... até que colocou os olhos em Mark Sinclair. Esse amigo do noivo havia sido uma vez um amigo muito
especial dela mesma, e Laura nunca superara a dor da separação ocorrida havia tanto tempo...

A Rainha de Gelo 
The wife he wanted 
Elizabeth August 
 
 
 
 
 
 
Sedutor, envolvente... Um homem especial! 
Quando o temid
Copyright © 1992 by Elizabeth August 
Originalmente publicado em 1992 pela Silhouette Books, 
divisão da Harlequin Enterprise
Sentado à escrivaninha. Edward viu o pai colocar a palma das mãos sobre a superfície 
gelada do mármore polido. 
— Vamos deix
Ela sabia que Edward eslava nervoso, mas isso não lhe dava o direito de jogar suas 
frustrações em cima dela. Procurou contro
Edward ficou um pouco pensativo e depois voltou-se para o pai. 
— Talvez devêssemos deixar Brenda receber o sr. Franklin. 
An
Durante toda a noite anterior, procurara se conscientizar daquela verdade. Tentara convencer-
se de que ele era apenas um hom
— Tenho certeza de que a srta. Royd poderá responder a qualquer pergunta que você 
fizer. Bradley — reafirmou Randall e saiu
— Sempre acreditei que é melhor deixar as mulheres fazerem as coisas a sua maneira, 
quando possível — comentou, com ar indul
Nem bem ele atingira o rodapé da página seguinte, quando Brenda retornou. Annabelle 
teve de se esforçar para conter um susto
Primeiro, Annabelle observou que a blusa de Brenda estava convenientemente 
abotoada e. pela expressão de Edward, adivinhou q

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