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Crimson Shadows 1 - Eve Newton

Grimson Shadow 1

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Mika Gomes
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CRIMSON SHADOWS

UM HARÉM REVERSO PARANORMAL


DESCENDÊNCIA IMORTAL
BOOK 1

EVE NEWTON
Direitos Autorais © 2024 por Eve Newton
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida de qualquer forma ou por quaisquer meios
eletrônicos ou mecânicos, incluindo sistemas de armazenamento e recuperação de informações, sem
permissão por escrito da autora, exceto para o uso de breves citações em uma resenha de livro.
CONTENTS

Nota Da Autora
Prologue
1. Adelaide
2. Adelaide
3. Adelaide
4. Adelaide
5. Corvus
6. Adelaide
7. Adelaide
8. Adelaide
9. Zephyr
10. Adelaide
11. Corvus
12. Zaiah
13. Adelaide
14. Ignatius
15. Adelaide
16. Corvus
17. Zephyr
18. Adelaide
19. Adelaide
20. Adelaide
21. Zaiah
22. Zephyr
23. Ignatius
24. Adelaide
25. Adelaide
26. Zaiah
27. Corvus
28. Adelaide
29. Ignatius
30. Adelaide
31. Zephyr
32. Adelaide
33. Zaiah
34. Adelaide
35. Ignatius
36. Corvus
37. Adelaide
38. Adelaide
39. Zephyr
40. Adelaide
41. Adelaide
Also By
NOTA DA AUTORA

Este é um Romance Paranormal de Harém Reverso Dark para Jovens


Adultos. Todos os personagens principais têm 21 anos.
Os rapazes de Immortal Descent são essencialmente os vilões e este
livro contém conteúdo adulto e gráfico, sendo aconselhável discrição do
leitor. Este é o LIVRO 1 de 3. Você terminará com mais perguntas do que
respostas... é disso que se trata uma trilogia ;-)
Esta não é uma leitura extremamente sombria, mas há alguns avisos de
gatilho para este livro/série. Eles podem ser encontrados exclusivamente no
meu site. Confira-os para este livro, pois há algumas cenas que exigem
discrição: https://evenewton.com/immortal-descent
Junte-se ao meu grupo no Facebook para atualizações em tempo real
sobre futuras leituras: https://facebook.com/groups/evenewton
Escaneie-me para avisos de gatilho
PROLOGUE

A DELAIDE

U M TROVÃO ESTRONDEANTE ME ACORDA À MEIA - NOITE . P OSSO OUVIR O


relógio na lareira do andar de baixo bater a hora.
Feliz décimo terceiro aniversário para mim.
A chuva açoita contra a janela do meu quarto, criando sombras
assombrosas nas paredes. Sempre adorei tempestades; elas parecem se
encaixar com a maneira como vejo o mundo, em tons de escuridão em vez
de luz, o que é estranho porque meu sobrenome, Légère, significa luz. Mas
esta noite parece diferente. Há uma carga no ar que não tem nada a ver
com os relâmpagos cortando o céu antes do trovão ribombar, fazendo
parecer que o chão vai se partir.
Enterro-me mais fundo sob meu edredom, tentando afastar o
desconforto que sobe pela minha espinha. É só o tempo. Nada para ter
medo.
Mas no fundo da minha alma, sei que é diferente. Não consigo explicar,
mas algo não está certo.
Dou um pulo quando ouço uma batida alta e insistente na nossa porta
da frente.
Meus batimentos cardíacos disparam. Quem é?
Deslizo para fora da cama, meus pés descalços tocando o carpete fino.
As batidas continuam, ficando mais urgentes a cada segundo que passa.
A curiosidade supera meu bom senso. Pode ser alguém com problemas
lá fora nesta tempestade. Rastejo até a porta do meu quarto e a abro
lentamente, estremecendo com o leve rangido. O corredor está escuro, mas
um feixe de luz se espalha pelas escadas vindo da entrada lá embaixo.
Ando na ponta dos pés até o topo da escada, agachando-me para espiar
a porta da frente.
Minha mãe espia pelo olho mágico e pragueja, seu sotaque francês
forte devido à raiva. Ela abre a porta uma fresta, a corrente esticada ao
máximo enquanto ela aperta o roupão.
— O que você está fazendo aqui? — ela sibila pela fresta.
Uma voz masculina responde, baixa e urgente. — Por favor, preciso vê-
la. Você não pode me manter afastado para sempre.
Esforço-me para ver além da mãe, mas a fresta na porta é muito
pequena.
— Você precisa ir embora — mamãe diz bruscamente, em voz baixa. —
Você não pode estar aqui.
— Posso, e estou — o homem insiste. — Deixe-me entrar para que
possamos conversar.
Um arrepio me percorre ao ouvir sua voz. É arrepiante, imponente.
Estou com medo.
— Vá embora — mamãe diz e tenta fechar a porta, mas o homem bate a
mão contra ela, e a corrente se rompe. Mamãe ofega e recua enquanto eu
observo, paralisada de horror. O estranho na porta tem cabelos escuros e
pele pálida. Suas roupas estão encharcadas, a água da chuva formando
poças aos seus pés no nosso capacho esfarrapado e encharcado.
A voz da mamãe baixa para um sussurro, mas ainda consigo distinguir
suas palavras. — Você não pode entrar.
O homem faz um som de frustração. — Deixe-me entrar, Edie, você não
pode me manter longe dela.
— Posso e vou. Ela está protegida. Ela é uma criança.
— Eu sei disso — o homem sibila. — Você está me mantendo
ativamente longe dela, Edie, e isso vai acabar mal para todos.
— Isso é uma ameaça, Rand? Vá para o inferno onde é seu lugar!
O estranho dá um passo à frente, mas parece esbarrar em uma barreira
invisível, e vejo mamãe ficar tensa. Ele pragueja, mas então seu rosto se
entristece. — Por favor — ele diz, sua voz falhando. — Estou implorando.
Apenas cinco minutos.
— Eu disse não.
— Maldita seja, Edie!
Em um movimento fluido, mamãe alcança algo na gaveta da mesa
lateral perto da porta. Não consigo ver o que é, e forço meus olhos e estico
o pescoço para ter uma visão melhor. Eu deveria estar correndo, me
escondendo, mas não consigo me mover. Estou congelada no lugar. Mamãe
empurra o objeto em direção ao rosto do homem, e ele sibila alto, um som
antinatural que desliza pelos meus nervos como unhas em um quadro-
negro.
Meus olhos se arregalam quando mamãe o levanta mais alto, e vejo o
que é. Uma cruz de madeira.
O estranho recua, tropeçando para trás, seus lábios entreabertos e os
dentes à mostra. Por uma fração de segundo, eu poderia jurar que vejo...
presas?
Pisco com força, certa de que devo estar vendo coisas. Presas não são
reais. São coisas de filmes e fantasias de Halloween. Não é algo que você
vê em um homem aleatório na sua porta no meio da noite.
Certo?
— Não volte, Rand. Ela está morta para você — mamãe diz, sua voz
dura como aço.
Ela bate a porta na cara dele, o som ecoando por nossa pequena casa
geminada de dois quartos no Norte da Inglaterra. Por um longo momento,
ela apenas fica lá, com a testa pressionada contra a porta de vidro duplo
barata. Posso ver seus ombros tremendo levemente.
Quero chamá-la, perguntar o que está acontecendo. Mas o medo me
mantém pregada no lugar.
Finalmente, mamãe se endireita. Ela se vira, e seu olhar sobe as
escadas. Nossos olhos se encontram, e vejo um lampejo de medo passar por
seu rosto.
— Addy — ela diz suavemente. — O que você está fazendo acordada?
Abro a boca, mas nenhuma palavra sai. O que posso dizer? Que vi
tudo? Que estou assustada e confusa?
Mamãe sobe as escadas lentamente, seu rosto uma máscara de calma
forçada. — Você deveria estar na cama, querida. É tarde.
— Quem era aquele homem? — consigo perguntar, minha voz mal
passando de um sussurro.
A expressão da minha mãe se endurece por um momento antes de
suavizar. — Ninguém com quem você precise se preocupar.
— Mas-
— Sem mas — ela interrompe gentilmente, acariciando meu cabelo
preto como breu que cai reto pelas minhas costas e beijando o topo da
minha cabeça. — Feliz aniversário, Adelaide, mas você precisa dormir.
Temos um grande dia planejado, lembra?
Ela me conduz de volta ao meu quarto, sua mão no meu ombro
parecendo mais pesada que o normal. Enquanto subo na cama, minha
mente está girando com perguntas. Quem era aquele homem? O que ele
queria comigo? E o que eu realmente vi quando minha mãe ergueu aquela
cruz?
— Boa noite, querida — diz minha mãe, demorando-se na porta. —
Bons sonhos.
Mas quando ela fecha a porta, me deixando sozinha na escuridão, sei
que não há chance de ter bons sonhos esta noite. Não com a imagem
daquelas presas impossíveis gravada na minha memória.
Fico acordada por horas, ouvindo a tempestade rugir lá fora e o
ocasional ranger do assoalho enquanto minha mãe anda de um lado para o
outro no andar de baixo. Cada sombra parece esconder um segredo, cada
rajada de vento carrega uma ameaça sussurrada enquanto as cólicas na
minha barriga pioram. Com um gemido, me viro e então saio da cama.
Rastejando até o banheiro no corredor, sinto a umidade entre minhas
pernas e sei que minha menstruação começou. Eu estava esperando por
isso, e agora chegou.
— Feliz aniversário pra mim — murmuro enquanto pego os absorventes
que minha mãe comprou para mim no armário. — Feliz droga de
aniversário.
1

ADELAIDE

A MEMÓRIA daquela noite do meu décimo terceiro aniversário inunda meus


pensamentos. O tique-taque do relógio na lareira parece anormalmente alto
no silêncio tenso da nossa sala de estar. Estou sentada na beira do sofá,
meus dedos tamborilando um ritmo ansioso na minha coxa enquanto encaro
o homem sentado à minha frente. O mesmo homem que vi há oito anos em
uma noite tempestuosa como esta.
Seu cabelo escuro e pele pálida parecem absorver a luz fraca do
ambiente. Ele está impecavelmente vestido com um terno preto sob medida
que provavelmente custa mais que nossa casa inteira. Seus olhos, tão
escuros que são quase negros, estão fixos em mim com uma intensidade que
me faz querer me contorcer.
— Adelaide — ele diz, sua voz um ronco baixo e hipnótico. — Sei que
você tem perguntas...
Resisto à vontade de bufar. — Quem é você? — interrompo, embora
tenha um pressentimento ruim de que já sei a resposta. Eu me pareço muito
com ele.
Ele se inclina ligeiramente para frente, os cotovelos apoiados nos
joelhos. — Meu nome é Randall Black — diz ele, fazendo uma pausa como
se para avaliar minha reação. Quando não respondo, ele continua: — Sou
seu pai, Adelaide.
As palavras pairam no ar entre nós, pesadas e sufocantes. Olho para
minha mãe, de pé em silêncio junto à janela. Seu rosto é uma máscara de
calma rígida, sem surpresa com nada disso. Ela sabia o tempo todo, percebo
com um sobressalto.
— Meu pai — repito, as palavras com gosto amargo na minha língua.
— O mesmo pai que esteve ausente pelos últimos vinte e um anos?
Randall tem a decência de parecer desconfortável. — Sei que tenho
muito a responder — diz ele. — Mas havia circunstâncias que me
impediram de fazer parte da sua vida. Circunstâncias que estou aqui para
explicar agora.
Mal estou ouvindo. Minha mente continua voltando àquela noite. A
noite em que pensei ter visto presas brilhando em sua boca enquanto ele
recuava da cruz que minha mãe empurrava em sua direção. A memória é
tão vívida, tão real, que quase posso ouvir a chuva açoitando as janelas,
sentindo o arrepio que percorreu minha espinha.
— Adelaide? — A voz de Randall me traz de volta ao presente. — Está
me ouvindo?
Eu pisco, focando nele novamente. — Você estava dizendo?
Ele suspira, passando a mão pelo cabelo. — Eu estava tentando explicar
por que não pude fazer parte da sua vida. Sua mãe queria criá-la como uma
criança humana, esconder de você quem você realmente é.
Minha mãe sibila quando ele diz isso, parecendo jogá-la debaixo do
ônibus proverbial para quaisquer mentiras que estejam prestes a ser
despejadas. — Criança humana — murmuro enquanto meu cérebro
processa. — O que mais eu seria?
Randall abre a boca para responder, mas um clarão de relâmpago
ilumina a sala, seguido de perto por um estrondo de trovão que parece
sacudir as fundações de nossa pequena casa geminada. Eu pulo
ligeiramente, meu coração acelerado. O relógio na lareira bate 21h00.
Randall se inclina para frente, colocando um envelope preto na mesa de
centro entre nós. Meu nome está escrito nele em elegante caligrafia
dourada: Adelaide Légère.
— O que é isso? — pergunto, minha voz soando estranha.
Os lábios de Randall se curvam em um sorriso que eu quero dizer que é
sinistro, mas não chega a ser. — É sua carta de aceitação para a
Universidade MistHallow.
Franzo a testa. — Nunca ouvi falar dela. — Olho para minha mãe
novamente, mas sua expressão permanece inalterada.
Randall se recosta em sua cadeira, me estudando com aqueles olhos
anormalmente escuros. — Você é especial, Adelaide. Você é o que
chamamos de Vesperidae - um ser de dois mundos. Meio vampira, meio
humana. A missão de MistHallow é fornecer educação e orientação para
jovens seres sobrenaturais. É um refúgio seguro para aqueles que precisam
aprender controle, para almas perturbadas que precisam de foco e direção.
Suas palavras passam por mim enquanto luto para processar o que ele
está dizendo. Uma Vesperidae. Meio vampira, meio humana.
As palavras me atingem como um golpe físico. Eu deveria estar
chocada, incrédula. Mas à medida que a revelação se assenta, tudo que sinto
é alívio. De repente, todos os pensamentos sombrios que me atormentaram
por anos, os estranhos impulsos e desejos que tentei reprimir, parecem fazer
sentido.
— Eu sou um vampiro puro-sangue — Randall continua como se esta
fosse a conversa mais natural do mundo e não uma que me pegou de
surpresa apesar da minha pronta aceitação em acreditar que não sou apenas
perturbada da cabeça. — Um dos mais antigos e poderosos de nossa
espécie. Sua mãe é humana, o que faz de você o que chamamos de Vesper -
um indivíduo raro e excepcionalmente dotado.
— Então você é um vampiro — digo, minha voz monótona. — Um
vampiro puro-sangue que decidiu ter um filho com uma mulher humana. E
depois nos abandonou por vinte e um anos.
A expressão de Randall endurece. — Não foi tão simples assim,
Adelaide. O mundo sobrenatural é complexo, cheio de leis e costumes
antigos. Sua mãe não queria que você crescesse nesse mundo.
— Você continua culpando ela, mas tudo que vejo são desculpas —
disparo. — Você tinha uma escolha. Se você é essa criatura poderosa,
poderia ter lutado mais.
— Não contra a bruxaria.
— O quê? — Olho para minha mãe, que apenas suspira e dá de ombros
levemente. — Você é uma bruxa?
Ela balança a cabeça, aparentemente sem palavras.
— Vespers são incrivelmente raros, Adelaide — Randall intervém em
seu nome. — Você tem habilidades que alguns vampiros puro-sangue só
podem sonhar. Existem facções em nosso mundo que não mediriam
esforços para controlá-la, para aproveitar seu poder para seus próprios fins.
Eu rio, mas não há humor nisso. — Poderes? Que poderes? Sou apenas
uma garota normal. Bem, uma garota normal com alguns problemas sérios,
mas ainda assim normal. — Mas não há como negar que suas palavras
tocam uma corda profunda em minha alma moralmente cinzenta.
Automaticamente, esfrego meu pulso onde finas cicatrizes prateadas se
entrecruzam em minha pele. Pela primeira vez em anos, não sinto a
vergonha habitual associada a elas. Em vez disso, é como se um peso
tivesse sido tirado dos meus ombros. Há uma razão para toda essa confusão.
— A escuridão que você sentiu todos esses anos — diz Randall
suavemente — os impulsos que tentou suprimir - essa é sua natureza
vampírica. Ela estava adormecida, esperando para ser despertada.
Como ele sabe tudo isso?
Minha garganta fica seca. — E MistHallow? Qual é seu papel em tudo
isso?
— A Universidade MistHallow é um lugar onde jovens seres
sobrenaturais como você podem aprender a controlar e aproveitar suas
habilidades. Não é apenas para Vespers ou outros híbridos, mas vampiros
puro-sangue, fadas, elementais e inúmeras outras criaturas que você só leu
em histórias. — Ele se inclina para frente novamente, seus olhos intensos.
— Em MistHallow, você aprenderá sobre sua herança, sobre o mundo
sobrenatural que existe ao lado do mundo humano. Você desenvolverá seus
poderes sob a orientação de mentores experientes.
Recosto-me, minha mente girando com todas essas novas informações.
Parte de mim quer descartar tudo isso como uma piada elaborada ou uma
alucinação vívida. Mas no fundo, em um lugar que sempre tentei ignorar,
algo ressoa com as palavras de Randall.
Isso explica tanta coisa. Minha obsessão por sangue, dor e morte; minha
depressão e mal-estar durante as horas do dia e a noite quando ganho vida;
minha aversão a ser tocada porque minha pele parece muito sensível, muito
frágil como papel antigo que vai se desmanchar se você respirar muito forte
perto dela; minha antipatia por outras pessoas, humanos, que parecem não
me entender e me rotulam como a garota gótica emo com drama demais, a
lista continua.
— Digamos que eu acredite em você — digo lentamente, meus olhos no
relógio enquanto ele marca 21h05. — Digamos que eu aceite que sou essa...
Vesperidae. O que acontece agora?
Randall gesticula para o envelope preto na mesa. — Agora, você tem
uma escolha. Pode continuar vivendo no mundo humano, ignorando sua
verdadeira natureza e lutando para se encaixar. Ou pode aceitar seu lugar
em MistHallow e aprender a abraçar quem você realmente é.
Encaro o envelope, meu coração acelerado. É tentador, tão tentador,
simplesmente dizer não. Fingir que esta conversa nunca aconteceu e voltar
à minha vida normal. Seja lá o que isso for. A escolha parece simples.
Continuar lutando em um horário noturno quando a maior parte deste
mundo opera durante o dia ou ir para um lugar onde há outros como eu, e
não preciso fingir o quão fodida eu sou, o que exige mais energia do que
normalmente tenho para dar.
Mas mesmo enquanto penso nisso, sei que não há escolha. Nunca me
encaixei no mundo humano. Sempre me senti uma estranha, como se
houvesse algo fundamentalmente errado comigo. E agora sei o porquê.
Com dedos trêmulos, pego o envelope. É mais pesado do que parece, o
papel é grosso e caro. Quebro o selo e puxo a carta dentro, meus olhos
percorrendo as palavras.
— Cara Srta. Légère — diz. — Temos o prazer de informar que você foi
aceita na Universidade MistHallow para o Ano 3 de 4...
Olho para Randall, perguntas queimando em minha língua. Mas antes
que eu possa falar, minha mãe se adianta pela primeira vez desde que esta
conversa surreal começou.
— Addy — ela diz suavemente, sua voz carregada de emoção. — Sei
que isso é muito para absorver, e sinto muito que tenha levado tantos anos
para você descobrir. Os feitiços de proteção em você eram fortes. Eu me
certifiquei disso. Seu pai não podia vê-la. Eles se quebraram hoje, por isso
ele está aqui agora. Você é uma adulta agora, e esta escolha tem que ser sua.
Por mais que eu deseje poder continuar te protegendo, isso já durou mais do
que deveria. Sei que você sente dor vivendo neste mundo, então agora você
tem a escolha de decidir o que quer fazer.
Encaro-a, sentindo traição, mas entendendo suas escolhas.
Lágrimas cintilam em seus olhos. — Sinto muito, querida. Eu quis te
contar tantas vezes, mas... algo sempre me impedia.
Olho entre eles, essas duas pessoas que moldaram minha vida de
maneiras tão diferentes. Minha mãe, sempre presente, sempre amorosa, mas
escondendo este enorme segredo. Randall, meu pai, ausente por tanto
tempo, mas agora me oferecendo uma chave para me entender. Não consigo
nem lidar com esse conhecimento do que realmente sou, e não posso
mostrar o quão aliviada estou comigo mesma com os dois me encarando
assim.
Levanto-me abruptamente, agarrando a carta de aceitação de
MistHallow em minha mão. — Preciso de um tempo — digo, minha voz
tremendo ligeiramente.
Randall assente, parecendo desapontado, mas não surpreso. — Claro.
Mas não demore muito. O ano começa na próxima semana.
Não respondo. Em vez disso, viro-me e saio rapidamente da sala de
estar, ignorando o suave chamado do meu nome pela minha mãe. Subo as
escadas de dois em dois degraus, batendo a porta do meu quarto atrás de
mim com mais força do que o necessário.
No santuário do meu quarto, afundo-me na minha cama, encarando a
carta em minhas mãos. A empolgação surge quando percebo que posso
deixar meu trabalho sem futuro no necrotério e ir fazer algo incrível.
Sempre quis ir para a Universidade e aprender o máximo de coisas possível,
mas tentar reunir energia para aulas diurnas era demais para mim. Agora,
com vampiros vagando pelos corredores de MistHallow, terá que haver
aulas noturnas, e não apenas por algumas horas como na Faculdade Técnica
da rua, mas a noite toda sobre todo tipo de assunto.
Leio a carta. Ela descreve o currículo único de MistHallow, projetado
para ajudar seres sobrenaturais a entender e controlar suas habilidades. Há
cursos de teoria mágica, história sobrenatural, meditação e foco.
Enquanto leio, sinto aquela faísca de empolgação se acender. É isso.
Esta é a explicação que venho procurando toda a minha vida.
Posso não querer nada com Randall Black, mas essa chance de me
entender, de pertencer a algum lugar, é algo que não posso deixar passar.
Enquanto o trovão ribomba fora da minha janela, tomo minha decisão.
Vou para a Universidade MistHallow. Vou aprender quem e o que realmente
sou.
E talvez, finalmente encontre onde pertenço.
Respirando fundo, sinto algo mudar dentro de mim. A escuridão que
sempre tentei suprimir, a parte de mim que sempre tive medo - não parece
mais tão assustadora. Em vez disso, parece uma força, um poder esperando
para ser liberado.
Pela primeira vez na minha vida, não tenho medo de quem sou. Estou
ansiosa para descobrir mais.
2

ADELAIDE

S USPIRANDO , sei que tenho que me levantar e ir trabalhar. Hora de encarar a


realidade. O necrotério não espera. Enquanto me arrumo, posso ouvir vozes
abafadas no andar de baixo — Randall e Mãe, provavelmente resolvendo
anos de tensão não dita.
Não é meu circo, não são meus macacos.
Agora, tenho coisas mais importantes na cabeça.
Enfio a carta de aceitação debaixo do travesseiro e pego minha bolsa.
Descendo as escadas, sou interceptada por Randall novamente.
— Adelaide.
— Não estou interessada. Preciso ir trabalhar.
— Espere — ele diz e, quando me viro para ele, tira algo mais do bolso
do casaco.
— O que é agora?
Ele não responde; apenas segura o envelope branco para que eu pegue.
A curiosidade fala mais alto, então eu pego e abro.
Estreitando os olhos para o cartão bancário preto dentro, faço uma
careta quando puxo a carta que o acompanha.
Então, quase engasgo com minha própria saliva.
— Que porra é essa? — cuspo, encarando mais zeros do que
provavelmente verei em toda a minha vida de trabalho no necrotério.
— Eu venho guardando dinheiro para você desde antes de você nascer
— Randall diz com o tom mais suave que já ouvi dele até agora.
— Guardando dinheiro — murmuro, tentando não entrar em pânico. Há
dinheiro demais aqui para eu sequer contemplar estar de posse. — Não,
obrigada — acrescento secamente, devolvendo.
Ele não pega. — É seu. Faça o que quiser com ele. Gaste tudo de uma
vez ou não. Não me importo, não é meu — ele afirma com arrogância.
— Randall. — A voz da minha mãe, afiada e cortante. — Não é assim
que fazemos as coisas.
— Bem, é assim que eu faço as coisas — ele retruca, seu olhar nunca
deixando o meu. — Adelaide é minha filha, e ela merece saber que tem
opções, especialmente agora.
Ignorando a discussão deles, olho novamente para o cartão preto.
Imagens do que imagino que seja esta Universidade MistHallow passam
pela minha mente — corredores escuros cheios de segredos, professores
que poderiam me ensinar coisas que meu professor de ciências do ensino
médio nunca pôde, estudantes como eu, e eles provavelmente são todos
ricos e mimados e privilegiados. Tenho exatamente duas opções. Cortar o
nariz para prejudicar o rosto ou aceitar o que ele está me dando e foda-se.
Escolho foda-se.
Fui pobre a vida toda. Se algum babaca quer me dar alguns milhões de
libras, quem sou eu para impedi-lo? Isso me faz pensar em quanto dinheiro
ele tem... o que me leva a pensar em quantos anos ele tem. Os vampiros são
imortais como nos mitos? Eu sou? Ou sou meio-imortal? Seja lá o que isso
possa implicar, quem diabos sabe. Tenho perguntas. Ele pode me respondê-
las. Ele sabe disso e está me olhando com expectativa. Mas agora, não
quero dar a ele a satisfação de respondê-las.
Seguro o cartão com força e o enfio no bolso antes que qualquer um
deles possa dizer algo. — Tá bom. Vou ficar com ele — murmuro. — Mas
isso não nos torna quites.
Randall assente uma vez. — Entendido.
Sem esperar que mais constrangimento se desenrole, saio rapidamente
da casa e pulo na minha bicicleta. O ar da noite está frio, cortando meu
casaco enquanto pedalo furiosamente em direção ao necrotério. Minha
mente fervilha com mil pensamentos sobre MistHallow — como será, quem
vou conhecer. Ou se isso é tudo um sonho do qual vou acordar. Sei que, se
for esse o caso, ficarei arrasada. Isso responde a tantas perguntas da minha
vida, e sempre estive pronta para acreditar que algo mais existe lá fora. Não
achei que eu seria uma deles.
Minhas dúvidas aumentam enquanto pedalo. Randall é de confiança? E
se tudo isso for uma grande piada? Ou talvez ele seja delirante? Por que
minha mãe está concordando com isso, se for esse o caso?
— Argh! — rosno enquanto todas essas perguntas inundam minha
mente. Fui tão rápida em aceitar tudo porque era o que eu queria que fosse
real, mas agora, na dura escuridão da noite, não parece possível.
Será?
Quando chego, o necrotério está morto — sempre está. Ninguém
realmente quer trabalhar com cadáveres no meio da noite, exceto esquisitos
como eu e o legista-chefe, Wesley.
O necrotério está estranhamente silencioso quando passo pelas pesadas
portas duplas, aparentemente mais do que o normal. O cheiro familiar de
desinfetante misturado com algo menos agradável me atinge, mas mal
percebo mais. Este lugar tem sido meu santuário no último ano, um lugar
onde os mortos não julgam e os vivos raramente se aventuram.
Enquanto prendo meu cabelo em um coque apertado, ouço um baque
abafado vindo da sala de exames principal. Curiosa, me dirijo ao som.
A cena que me recebe quando abro a porta me deixa paralisada.
Wesley está em pé sobre um corpo na mesa de exame. Não é incomum,
mas desta vez, a visão faz meu sangue gelar, e arrepios percorrem minha
pele. A mão de Wesley está agarrada a um objeto de madeira que está
enterrado fundo no peito do homem morto.
Observo, congelada de horror, enquanto o corpo na mesa começa a se
desintegrar. Ele se desfaz como cinzas ao vento, deixando apenas um pó
cinza fino sobre a superfície de aço inoxidável.
Um arquejo estrangulado escapa dos meus lábios antes que eu possa
contê-lo.
A cabeça de Wesley se vira bruscamente, seus olhos arregalados de
choque ao encontrar os meus. Por um longo momento, apenas nos
encaramos, nenhum de nós se movendo.
— Addy — ele finalmente quebra o silêncio, sua voz tensa. — Eu... isso
não é o que parece.
Quero rir do absurdo de sua declaração, mas o medo paralisou minhas
cordas vocais. Que diabos eu acabei de testemunhar?
Infelizmente, já vi episódios suficientes de Buffy, a Caça-Vampiros para
saber o que acabei de ver. Uma estaca.
Wesley dá um passo em minha direção, e eu instintivamente recuo. —
Deixe-me explicar — ele diz, levantando a mão.
Mas conforme ele se aproxima, algo em sua expressão muda. Ele franze
a testa, inclinando a cabeça levemente como se estivesse ouvindo algo que
não consigo escutar. Suas narinas se dilatam, e seus olhos se estreitam ao
focarem em mim com uma intensidade que me faz tremer.
— O que você é? — ele murmura.
Isso quebra o feitiço da minha paralisia. Sem pensar, eu me viro e corro,
meu coração batendo loucamente. Ouço Wesley me chamando, seus passos
ecoando no corredor enquanto ele me persegue.
Irrompo do necrotério para o ar fresco da noite, ofegante, mirando
minha bicicleta onde a deixei. Atrapalhando-me com as chaves para
desbloquear a corrente, as portas do necrotério se abrem com força, e
Wesley para enquanto olha ao redor procurando por mim. Minhas mãos
estão escorregadias de suor, e as chaves caem no chão antes que eu tenha
chance de desbloquear o cadeado.
— Merda — murmuro. — Merda. Merda. Vamos lá.
Wesley me vê e caminha em minha direção. Ele não parece ter pressa.
— Addy — ele diz enquanto a chave finalmente desliza para dentro da
fechadura.
Deixando a corrente e as chaves caírem no chão, pulo na minha
bicicleta e pedalo furiosamente, sem ousar olhar para trás.
O vento açoita meu cabelo enquanto corro pelas ruas vazias. Minha
mente está girando. O que eu acabei de ver? Aquilo era... era um vampiro?
E Wesley? Quem é ele? Por que ele estacou aquele vampiro?
Ao dobrar a esquina para minha rua, vejo uma figura familiar saindo de
nossa casa. Randall. Estou feliz em vê-lo.
Paro bruscamente na frente dele, quase caindo da bicicleta na minha
pressa. — Randall — ofego, lutando para recuperar o fôlego.
Seus olhos se arregalam ao ver minha aparência desarrumada. —
Adelaide? O que aconteceu?
Antes que eu possa responder, ouço um carro virando na rua. Viro-me
para ver o velho sedan preto de Wesley vindo em nossa direção.
Sem pensar, dou um passo atrás de Randall, buscando proteção do
homem com quem trabalhei lado a lado por meses, mas que agora parece
um estranho.
A postura de Randall muda instantaneamente. Ele se endireita, sua
presença de repente parecendo preencher toda a rua.
Wesley dirige em nossa direção, com a janela abaixada enquanto nos
encara.
É surreal, algo saído de um filme de terror.
O carro de Wesley diminui a velocidade enquanto passa por nós, seus
olhos fixos em Randall. A tensão no ar é sufocante enquanto esta cena se
desenrola em câmera lenta. Prendo a respiração, meio que esperando
Wesley saltar do carro e atacar.
Mas ele não o faz.
Depois do que parece uma eternidade, o carro de Wesley acelera e
desaparece na esquina. Solto uma respiração trêmula.
Randall se vira para mim, seu rosto uma máscara de preocupação e
raiva. — O que aconteceu? — ele exige.
As palavras saem de mim em um jorro. — Eu vi Wesley no necrotério.
Ele estava... ele estacou alguém. Um vampiro? O corpo simplesmente virou
pó.
A expressão de Randall fica pétrea. — Droga — ele murmura enquanto
seus olhos escuros vasculham meu rosto. — Você está bem? Ele te
machucou?
Balanço a cabeça, ainda tentando processar tudo. — Não, não estou
bem! Eu o vi estacar alguém, e então foi como se ele soubesse sobre mim,
sobre o que você me contou. Ele veio atrás de mim! — Enfio as mãos no
meu cabelo, esquecendo que está preso no coque que uso para o trabalho.
A expressão de Randall endurece. — Um Caçador — ele cospe a
palavra como se fosse veneno. — Eu deveria ter imaginado.
— Um Caçador? — repito, sentindo como se tivesse entrado em algum
universo paralelo bizarro.
Ele acena sombriamente. — São humanos que dedicam suas vidas a
erradicar seres sobrenaturais. Especialmente vampiros.
Minha cabeça gira. Isso é demais. Vampiros, Caçadores, eu, Randall...
Mas a lembrança do rosto de Wesley, a intensidade em seus olhos
quando perguntou: 'O que você é?' me envia um arrepio pela espinha.
— Precisamos tirar você daqui — diz Randall, seu tom urgente. — Não
é mais seguro para você.
— Mas e a Mãe? — pergunto, olhando de volta para nossa casa. — Não
podemos simplesmente deixá-la.
A expressão de Randall suaviza um pouco. — Sua mãe ficará bem. Ela
é humana. Eles não vão, não podem, tocá-la.
Balanço a cabeça, lutando para processar tudo. — Isso é insano. Ontem,
eu era apenas uma garota normal, embora um pouco estranha, trabalhando
em um necrotério. Agora eu sou o quê, algum tipo de fugitiva sobrenatural?
— Minha voz ficou estridente, e isso irrita meus nervos. Dou um passo para
trás e respiro fundo para trazer de volta o manto de apatia que reservo para
a maioria das coisas.
— Bem-vinda ao nosso mundo — diz Randall secamente. — Agora,
precisamos nos mover. MistHallow é o lugar mais seguro para você agora.
— Mas o período letivo só começa daqui a uma semana — protesto
fracamente.
— Oficialmente, mas os portões se abrem esta noite.
— O quê?
Ele dá de ombros. — É uma coisa...
— Então você o quê? Ou esperava que eu pulasse nisso sem pensar duas
vezes, ou você ia me sequestrar?
— O quê? Não! — ele diz, parecendo um pouco ofendido. — Quero
dizer, os portões se abrem esta noite e ficarão abertos pela próxima semana.
Depois eles fecham. Os estudantes são livres para chegar quando quiserem,
mas quanto mais cedo, melhor, admito.
— Por quê? — Estou intrigada apesar do medo ainda correndo em
minhas veias.
— Primeiro a chegar, primeiro a escolher a acomodação.
— E você não pensou em me dizer isso antes! Eu não quero acabar no
maldito porão! — Minhas mãos vão para o meu cabelo novamente, e eu
arranco o elástico, deixando meu cabelo cair pelas minhas costas,
praticamente alcançando o topo da minha bunda.
Ele ri. — Você não vai acabar no porão, Adelaide. Você é minha filha.
— E? — sibilo.
— Esqueça o porão, precisamos nos mover, ou esse idiota do Wesley
vai voltar, e desta vez, ele saberá o que você é. Ele te viu comigo.
Quero argumentar, exigir mais explicações, mas a lembrança de Wesley
enfiando aquela estaca no peito daquele pobre homem sem qualquer chance
de se defender me gela a alma.
— Tudo bem — cedo, o medo impulsionando minha decisão. —
Preciso fazer as malas e pelo menos me despedir da Mãe.
Randall acena bruscamente. — Seja rápida.
Corro de volta para a casa, encontrando Mãe no corredor, suas mãos
envolvendo uma caneca fumegante de chá. Seus olhos estão vermelhos, e
ela olha para mim com tristeza e resignação.
— Você ouviu tudo isso? — pergunto.
Mãe acena, seus olhos brilhando. — Eu sabia que este dia chegaria
eventualmente. Esperava que tivéssemos mais tempo, no entanto.
Corro para frente e a abraço, inalando seu cheiro familiar de lavanda e
lar. — Sinto muito, Mãe. Não quero deixar você.
Ela se afasta, segurando meu rosto em suas mãos. — Oh, Addy. Você
não tem nada pelo que se desculpar. Isto é quem você é. Eu soube desde o
dia em que você nasceu. Eu só queria proteger você pelo máximo de tempo
que pudesse.
— Mas e você? Você vai ficar segura?
Mãe sorri, embora seja um sorriso forçado e falso. — Eu vou ficar bem,
querida. Os Caçadores não têm interesse em humanos, como seu pai disse.
Não quero apontar que eles podem vir atrás dela em busca de
informações. Talvez isso seja só nos filmes. Eu realmente preciso arranjar
outro hobby; gemo internamente ao perceber que estou baseando tudo sobre
essa situação inteira no que assisto na droga do Netflix.
Mas então a realidade da situação me atinge como um soco no
estômago. — Mãe, estou com medo — sussurro.
Ela me puxa para perto novamente. — Eu sei, querida. Mas você é
forte. Mais forte do que imagina. E MistHallow é onde você pertence. Onde
você vai aprender a ser quem realmente é.
Faço que sim com a cabeça contra o ombro dela, tentando memorizar
tudo sobre esse momento - seu calor, seu cheiro, o som de suas batidas
cardíacas.
— Vá fazer as malas — ela diz suavemente. — Vou preparar alguns
sanduíches para a viagem.
Corro para o andar de cima, abro meu guarda-roupa e pego braçadas de
roupas. Enfio-as desajeitadamente na minha maior bolsa de viagem, junto
com meu laptop, carregadores e alguns livros queridos. Pego a foto
emoldurada de mim e da mãe da minha mesa de cabeceira e a coloco no
meio das minhas roupas para protegê-la.
Randall aparece na minha porta. — Precisamos ir, Adelaide. Agora. Os
tubarões estão circulando.
Fecho o zíper da minha bolsa e aceno com a cabeça, meu coração
acelerado. Isso está realmente acontecendo. Randall pega a bolsa enquanto
coloco minha mochila nos ombros, e faço uma pausa na porta, olhando para
trás e me perguntando se algum dia verei esse lugar novamente.
Lentamente, desço as escadas, meus pensamentos um turbilhão de
emoções e tumulto. Estou fazendo a coisa certa, saindo cegamente pela
noite com Randall? Não sei nada sobre ele. Isso pode ser uma armadilha.
Talvez ele seja um Caçador. Afasto esse pensamento. Minha mãe sabe os
detalhes e ela não me deixaria cair numa emboscada. Deixaria? Ela mentiu
para mim por duas décadas, afinal. Balançando a cabeça, digo a mim
mesma para parar. Ela tinha suas razões, e se tudo isso se revelar verdade,
eu entendo. Provavelmente teria feito a mesma coisa para proteger meu
filho. Não a culpo.
Não, eu culpo o maldito Randall Black.
Olho feio para ele antes de me virar para a Mãe e abraçá-la uma última
vez. — Eu te amo — sussurro.
— Eu também te amo, querida — ela responde, sua voz carregada de
emoção. Ela me entrega uma lancheira com sanduíches e salgadinhos, e eu
sorrio. — Obrigada. Ligarei quando puder. Supondo que eu possa — franzo
a testa e lanço um olhar inquisidor para Randall.
Ele ergue uma sobrancelha. — Por que não poderia?
Por que não, de fato.
Sigo Randall para a noite, meu coração batendo forte nos meus ouvidos.
Um carro preto elegante está parado na calçada, seu motor ronronando
suavemente.
— Entre — diz Randall, abrindo a porta do passageiro para mim antes
de jogar minha bolsa no banco de trás.
Hesito por um momento, olhando de volta para nossa pequena casa
geminada. Mãe está parada na porta, lágrimas brilhando em suas bochechas.
Quero correr de volta, dizer a ela que mudei de ideia. Mas a lembrança do
rosto de Wesley, a intensidade em seus olhos, sua pergunta e a perseguição
me impulsionam para frente.
Deslizo para o assento de couro no piloto automático, guardando minha
mochila aos meus pés. Em algum momento, tudo isso vai me alcançar, e
então sei que será um caso de colapso e destruição. Só espero que o dano
não seja muito extenso.
Enquanto nos afastamos da calçada, estico o pescoço para manter Mãe à
vista pelo maior tempo possível. Quando viramos a esquina e ela
desaparece de vista, sinto como se uma parte de mim tivesse ficado para
trás.
— Onde exatamente fica MistHallow? — pergunto, tentando me distrair
da dor crescente no meu peito.
— De certa forma, na floresta de Kielder — responde Randall, seus
olhos fixos na estrada à frente. — No Parque Nacional de Northumberland.
É... bem escondido. — Ele me lança um olhar significativo.
— De certa forma — murmuro. Que porra isso significa?
Não faço ideia, então aceno com a cabeça, não confiando em mim
mesma para falar mais. A realidade do que estou fazendo começa a cair.
Estou deixando tudo que já conheci para ir para uma escola de seres
sobrenaturais. Com um homem que acabei de conhecer e que afirma ser
meu pai.
Addy, onde você foi se meter?
3

ADELAIDE

O CARRO desliza suavemente pela noite, com os postes de luz passando


num ritmo hipnótico. Olho pela janela, observando as ruas familiares da
minha cidade natal darem lugar ao campo desconhecido. O silêncio no
carro é denso e pesado, repleto de perguntas não feitas e verdades não ditas.
Randall pigarreia, quebrando o silêncio. — Sei que isso é muita coisa
para processar, Adelaide.
Bufo, sem conseguir me conter. — Isso é o eufemismo do século.
Ele suspira, apertando as mãos no volante. — Entendo que você esteja
com raiva de mim. Tem todo o direito. Mas espero que me dê a chance de
explicar tudo.
Viro-me para olhá-lo, realmente olhá-lo pela primeira vez. Seu perfil é
marcante e aristocrático. Na luz fraca do carro, sua pele parece quase
translúcida. É estranho como posso ver partes de mim em suas feições - o
formato do nariz, os olhos, o cabelo, aquele olhar superior que já me
acusaram de ter.
— Tudo bem — digo, cruzando os braços. — Explique.
Randall respira fundo. — Por onde começar?
— Quantos anos você tem?
Ele bufa. — Nossa, ok, já foi direto ao ponto. Tenho mil e quinhentos
anos.
Eu hesito.
Acho que nunca hesitei antes em toda a minha vida, mas aqui estou eu...
hesitando diante dele. — Como é que é? — gaguejo.
— Um e meio — ele murmura com um sorriso lento.
— Puta que pariu — gemo, deixando minha cabeça cair em minhas
mãos. — Isso parece uma piada de mau gosto.
— Infelizmente não. Sou velho.
— Não brinca, Sherlock. Você é tipo do início da Idade das Trevas.
— Porra — ele murmura. — Quando você coloca desse jeito.
— Eu sei fazer matemática. Sou muito boa nisso. Você não é velho;
você é um ancião.
Ele ri, e eu me sinto relaxando. Não sei se é porque estou começando a
realmente aceitar essa realidade bizarra ou se é só o absurdo da situação,
mas me pego rindo junto com ele.
— Então, você viu muita coisa na sua vida — digo, tentando assimilar
sua idade.
Randall assente. — Mais do que você pode imaginar. Testemunhei a
ascensão e queda de impérios, o nascimento de novas tecnologias, a
mudança do mundo.
— E onde eu me encaixo em tudo isso? — pergunto a questão que tem
queimado em minha mente desde que ele apareceu na nossa porta.
Ele fica quieto por um momento, os olhos fixos na estrada escura à
frente. — Você, Adelaide, é algo verdadeiramente especial. Uma
Vesperidae - metade vampira, metade humana. É uma ocorrência
incrivelmente rara.
— Mas por quê? — insisto. — Por que você gerou uma criança com
minha mãe?
A expressão de Randall suaviza um pouco. — Eu amava sua mãe,
Adelaide. Ainda amo, à minha maneira. Mas nossos mundos eram muito
diferentes. Ela queria uma vida normal para você, longe dos perigos do
mundo sobrenatural, e não é como se tivéssemos escolha. Vampiros podem
procriar com outros vampiros ocasionalmente. Esses vampiros também são
bastante raros e muito poderosos, mas nascimentos de espécies mistas são...
únicos.
— Mas existem mais da minha espécie? — Balanço a cabeça. Minha
espécie.
— Alguns, não mais que isso.
— Você os conhece?
— Sei da existência deles. Um Vesperidae, ou Vesper, não nasce há
vários séculos.
Engulo em seco diante da enormidade dessa notícia enquanto Randall
verifica o retrovisor pela centésima vez. — Estamos sendo seguidos?
— Não, ainda não.
— Ainda não.
— Sua verdadeira natureza foi descoberta. Eles virão. — Sua
declaração direta não faz nada para acalmar meus nervos crescentes
enquanto viajamos mais fundo no extremo norte do interior da Inglaterra.
Estremeço, olhando para a escuridão além das janelas do carro. A
realidade da minha nova situação está começando a se instalar novamente.
Mas desta vez, não é apenas uma fantasia que desejo ser verdade. Agora sei
que tudo isso é real. Não estou apenas deixando minha casa - estou fugindo
do perigo, de pessoas que aparentemente querem me caçar.
— Então, esses Caçadores — digo, quebrando o silêncio tenso. — O
que exatamente eles querem comigo?
O maxilar de Randall se aperta. — Como eu disse, os Vespers são
incrivelmente raros e poderosos. Alguns Caçadores iriam querer estudar
você e fazer experimentos. Outros simplesmente iriam querer eliminá-la,
vendo você como uma abominação.
Um arrepio percorre minha espinha. — Fazer experimentos comigo?
Me eliminar? Jesus.
— É por isso que MistHallow é tão importante — Randall continua. —
Não é apenas uma escola - é um santuário. É protegida por magias antigas
que a mantêm escondida daqueles que fariam mal a seres sobrenaturais. É
por isso que quero você lá, Adelaide.
Aceno lentamente, tentando processar tudo. — E o que eu vou aprender
lá? Como ser uma vampira?
Randall ri. — Entre outras coisas. Você aprenderá sobre sua herança,
como controlar suas habilidades, a história e os costumes do mundo
sobrenatural. Mas mais importante, você estará entre outros como você.
A ideia é ao mesmo tempo emocionante e aterrorizante. Toda a minha
vida, me senti como uma intrusa, nunca me encaixando completamente, e
agora estou indo para um lugar onde finalmente posso pertencer. Mas
também significa deixar para trás tudo o que já conheci.
Recosto-me no assento, soltando um longo suspiro. — Isso é muita
coisa para assimilar.
O aceno de Randall beira o simpático, mas duvido que ele tenha essa
emoção depois de tanto tempo. — Eu sei. Sinto muito que esteja
acontecendo tudo tão rápido. Mas depois do que você viu hoje à noite com
Wesley, não temos o luxo do tempo. Estou feliz que você tenha encarado
isso com determinação, Adelaide. Mostra sua força.
Penso no necrotério, em Wesley estacando aquele vampiro. Um tremor
me percorre. — Estacas, decapitação, fogo? Todas essas coisas podem
matar você?
— A mim? Não. A você? Sim.
— Eu sou imortal?
— Sim e não. Com seu lado humano no controle, você envelhecerá.
— E se meu lado vampiro estiver no controle? — Minha voz é baixa,
pois nem percebi que essa era uma opção.
— Então você será como eu.
Engulo o gemido que quase escapou. Seja como ele. Antigo, cansado,
um pouco assustador. É isso que quero para minha vida?
— Então, o que pode te matar? — arrisco.
— Não muita coisa.
— Mas algo pode? — Ele está sendo evasivo demais para o meu gosto
agora. Quero respostas.
Ele suspira. — Não estou sendo deliberadamente obscuro, Adelaide. É
desconhecido.
— Não testado?
Ele sorri ironicamente. — Pode-se dizer que sim.
— É por isso que Wesley não parou antes?
— É provável — diz Randall sombriamente. — Mas os Caçadores são
implacáveis uma vez que identificam um alvo. Mas não se preocupe, você
estará segura em MistHallow.
Caímos em silêncio novamente enquanto o carro acelera pela noite.
Observo a paisagem mudar, tornando-se mais selvagem e acidentada.
Estamos nos dirigindo para o interior do Parque Nacional de
Northumberland agora, as estradas ficando mais estreitas e sinuosas.
Afundo-me no banco de couro, minha mente girando com tudo o que
aprendi. A paisagem passa rapidamente lá fora, escura e desconhecida.
— Então, me conte mais sobre MistHallow — digo, quebrando o
silêncio que se instalou entre nós. — Como é?
— É bem diferente de qualquer outro lugar onde você já esteve. O
campus em si está escondido nas profundezas da Floresta de Kielder,
envolvido por uma magia poderosa que o mantém invisível aos olhos
humanos. Os edifícios são uma mistura de estruturas antigas de pedra e
instalações mais modernas.
— E os alunos? — pergunto, curiosa sobre com quem vou estudar.
— Um grupo diversificado — responde Randall. — Vampiros, fadas,
elementais, metamorfos e outros seres sobrenaturais que você
provavelmente nunca ouviu falar.
Tento imaginar uma escola cheia de criaturas sobre as quais só li em
livros ou vi em filmes. Parece surreal.
— E os professores? — pergunto.
A expressão de Randall fica séria. — Alguns dos seres sobrenaturais
mais conhecedores e poderosos do mundo. Muitos deles ensinam em
MistHallow há séculos.
Séculos. A palavra ainda me causa um choque. Ainda estou lutando
para entender a ideia de vidas tão longas.
Depois do que parece horas, Randall sai da estrada para uma trilha de
terra que leva a uma densa floresta. As árvores se erguem sobre nós, seus
galhos criando um dossel que bloqueia o pouco de luar que havia.
— Uhm — murmuro.
— Estamos quase lá — diz Randall suavemente.
Espio pela janela, tentando vislumbrar esta misteriosa Universidade,
mas tudo o que posso ver é escuridão e árvores. Então, de repente, estamos
dirigindo através de uma nuvem de névoa cintilante, e a floresta se abre.
Eu ofego.
Diante de nós se ergue um enorme castelo, suas torres e pináculos
alcançando o céu noturno. Parece antigo, como algo saído de um conto de
fadas, com hera subindo por suas paredes de pedra e gárgulas empoleiradas
em suas ameias. Mas também há toques modernos - grandes janelas de
vidro que brilham com luz quente e edifícios elegantes que parecem se
misturar perfeitamente com as estruturas mais antigas, todos iluminados por
holofotes que duvido serem alimentados por eletricidade.
— Bem-vinda à Universidade MistHallow — diz Randall.
Olho maravilhada enquanto passamos por portões de ferro forjado que
se abrem à nossa aproximação e subimos por uma entrada sinuosa. Outros
carros estão estacionados nas bordas, e posso ver figuras se movendo.
Ao pararmos, Randall se vira para mim. — Está pronta?
Respiro fundo, tentando acalmar meus nervos. — Tanto quanto posso
estar.
— Apenas lembre-se de que você pertence a este lugar, Adelaide.
Assinto, segurando esse aviso de som ominoso. Intimidada não chega
perto de descrever a sensação que me atinge quando saio do carro.
— Você precisa seguir sozinha daqui — diz Randall, pegando minha
mala e colocando-a aos meus pés. — Vá para o escritório de Alojamento
assim que puder.
— E onde fica isso? — murmuro, olhando ao redor com admiração.
Randall aponta para um grande edifício de pedra à nossa direita, suas
janelas brilhando calorosamente. — Aquele é o escritório de Alojamento.
Eles vão te ajudar com seu quarto.
Assinto, de repente me sentindo muito pequena e sozinha. — Você não
vem comigo?
Ele balança a cabeça. — Esta é a sua jornada agora, Adelaide. Não
posso te guiar por ela. Mas estarei por perto se você precisar de mim. — Ele
me entrega um pequeno cartão preto com um número de telefone.
Pego o cartão, colocando-o no meu bolso. — Certo. Tudo bem então.
Randall me dá um pequeno sorriso. — Você vai ficar bem. Lembre-se,
você pertence a este lugar.
Com isso, ele volta para o carro e vai embora, me deixando sozinha na
frente deste imponente castelo. Respiro fundo, coloco minha mochila no
ombro e seguro minha mala com mais força.
— Lá vamos nós — murmuro enquanto inspiro profundamente e tento
acalmar meus nervos, que estão a mil por hora. — Lá vamos nós para tudo.
4

ADELAIDE

M AS EU NÃO VOU A LUGAR ALGUM . Fico enraizada no lugar, meus olhos


arregalados enquanto absorvo a magnificência esparramada da
Universidade MistHallow. Quanto mais tempo fico parada olhando, mais
coisas aparecem diante dos meus olhos. Quase como se estivesse se
revelando para mim, um pedaço de cada vez. Está fazendo um strip-tease, e
eu me pergunto qual será o grand finale. A parte central do castelo se ergue
diante de mim, uma estrutura colossal de pedra antiga com adições
modernas que parecem desafiar as leis da física e da arquitetura. Torres e
pináculos se estendem em direção ao céu, de alguma forma passando pelas
árvores como se elas não existissem, suas silhuetas destacadas contra a
escuridão da noite. Hera sobe pelas paredes desgastadas, seus tentáculos
tecendo padrões intrincados que parecem mudar e se mover à luz
bruxuleante das lanternas ornamentadas que alinham os caminhos.
O campus se estende diante de mim, um labirinto de edifícios antigos e
novos. Por toda parte, há um ar de magia que faz o ar ao meu redor vibrar
com energia.
Dou um passo hesitante à frente e então me encolho, meio que
esperando que alguém se materialize das sombras e exija saber o que estou
fazendo aqui. Mas ninguém aparece, e eu continuo, meus olhos disparando
para todos os lados, tentando absorver cada detalhe.
Enquanto caminho, percebo como o layout do campus parece mudar e
se transformar. Prédios que eu poderia jurar que estavam à minha esquerda
de repente aparecem à direita. Caminhos se retorcem e viram de maneiras
que não fazem sentido lógico. É como se toda a universidade existisse em
algum tipo de plano paralelo, desafiando as leis da física e da geografia.
— Puta que pariu — murmuro, minha cabeça girando enquanto tento
entender meu entorno. É isso que Randall quis dizer quando falou que
MistHallow era protegida por magias antigas?
Estou tão absorta em minhas observações que quase perco o som de um
veículo se aproximando. O ronronar de um motor potente corta o ar
noturno, e me viro para ver um elegante Rolls Royce preto deslizando pelo
caminho em minha direção. O carro se move com uma graça sobrenatural,
sua superfície polida refletindo o luar como um espelho.
Pulo para o lado, e ele passa por mim. Dou uma olhada no motorista -
um homem de rosto severo com olhos que parecem brilhar na escuridão.
O Rolls para a alguns metros à minha frente, e a porta traseira se abre.
Um homem sai, e minha respiração fica presa na garganta.
Ele é devastadoramente bonito de uma maneira impossivelmente
inumana. Alto e esguio, está vestido com um terno preto perfeitamente sob
medida, camisa preta e uma gravata roxo-escuro que parece cintilar ao luar.
Seu cabelo é negro como a asa de um corvo, penteado de uma maneira que
parece ao mesmo tempo despretensiosa e impossivelmente perfeita. Como
eu, uma mulher que odeia o sol, sua pele é pálida... e agora eu sei por quê.
Será que essa criatura impossivelmente bela é um vampiro?
Seus olhos realmente me cativam. São de um tom de roxo, com
redemoinhos prateados que parecem dançar e mudar conforme ele se move.
Há algo ao mesmo tempo sedutor e ameaçador nele, uma aura de poder e
perigo que faz meu coração disparar.
Ele olha ao redor, seu olhar varrendo o campus com um ar de posse
casual. Por um momento, acho que seu olhar vai pousar em mim, e sinto um
sobressalto de antecipação e medo. Mas fico me sentindo ao mesmo tempo
aliviada e estranhamente desapontada quando ele nem sequer me nota.
Sem dizer uma palavra, ele se vira e se afasta a passos largos, seus
movimentos graciosos e predatórios. Observo-o partir, sentindo-me agitada
e desequilibrada. Será que ele é algum tipo de realeza sobrenatural?
Com um suspiro profundo, me forço a desviar o olhar da figura que se
afasta e continuo meu caminho para o escritório de Alojamento. O prédio
que Randall apontou se ergue diante de mim, sua fachada de pedra
acolhedora e convidativa, apesar de seu tamanho imponente.
Quando me aproximo das pesadas portas de madeira, elas se abrem por
conta própria. Hesito por um momento, então entro, meus olhos se
arregalando ao absorver o interior.
O hall de entrada é uma mistura impressionante de antigo e novo.
Tapeçarias antigas pendem nas paredes ao lado de displays mágicos que
piscam com informações. Um enorme lustre pende do teto abobadado, seus
cristais parecendo flutuar no ar, lançando arco-íris de luz pelo piso de
mármore polido.
Atrás de uma mesa curva feita do que parece ser madeira petrificada,
senta-se uma criatura feminina. Sua pele tem um leve tom azulado, e seu
cabelo se move como se estivesse debaixo d'água. Ela olha para cima
quando me aproximo, seus olhos inteiramente azul-escuros se fixando em
mim com uma intensidade que me faz querer me contorcer.
— Nome? — ela pergunta, sua voz melodiosa e ligeiramente ecoante,
como se estivesse falando do fundo de um poço.
— Adelaide Légère — gaguejo, de repente muito consciente de como
me sinto deslocada.
— Légère. Légère? Tem certeza?
Bufo, apesar da pontada de medo que percorre minhas veias. —
Completamente certa. É o sobrenome da minha mãe e o meu desde o
nascimento.
— Não tenho nenhuma Légère. — Ela pisca para mim. Seu olhar
examina meu rosto. — Primeiro nome de novo?
— Adelaide — sussurro, esperando que isso seja algum tipo de mal-
entendido, e ela esteja escrevendo errado.
— Adelaide Black — ela declara com os lábios azuis franzidos.
— Erm, não...
— Sim — ela diz, virando a tela para que eu possa ver uma foto de mim
mesma. — É você?
— Parece comigo — murmuro.
— Então você é Adelaide Black.
— Maldição, Randall — resmungo ao perceber que ele me deu seu
sobrenome. Babaca.
A mulher azul me lança um olhar estranho, mas eu sorrio e deixo que
ela faça o que tem que fazer. Acho que ele precisava que eu tivesse o
sobrenome dele para entrar nesta instituição. Mas um aviso prévio teria sido
bom. Mas então ela me dá um olhar divertido e ligeiramente piedoso. —
Você é bastante rara, sabia? A equipe tem estado em polvorosa com sua
chegada há semanas.
Ótimo. Lá se vai minha chance de passar despercebida.
— Certo — digo, tentando soar mais confiante do que me sinto. —
Então, para onde eu vou?
A mulher acena com a mão, e uma pequena esfera brilhante aparece no
ar diante de mim. — Isto vai guiá-la até seu quarto.
Por favor, que não seja no porão. — E onde fica?
— Siga a esfera. — Ela acena com a mão de forma dismissiva, e não há
nada mais que eu possa fazer além de me mover, já que uma fila está se
formando atrás de mim.
Estendo a mão hesitantemente para tocar a esfera, esperando que minha
mão passe direto por ela. Em vez disso, ela é sólida e quente, como uma
pedra lisa que esteve ao sol.
— Obrigada — digo, sem saber o que mais acrescentar.
A mulher acena com a cabeça, já voltando sua atenção para o próximo
estudante.
A esfera começa a flutuar, e eu me apresso para segui-la. Ao sair do
escritório de Alojamento, lanço um último olhar por cima do ombro, na
esperança de ver novamente o homem misterioso do Rolls Royce na fila,
mas ele não está em lugar algum.
Estou realmente aqui, em uma universidade para seres sobrenaturais,
um lugar onde eu finalmente posso entender quem e o que sou. Um lugar
onde, pela primeira vez na minha vida, eu possa realmente pertencer. Por
mais inacreditável que isso seja, não me arrependo de ter entrado no carro
com Randall. O chão sob meus pés cintila enquanto caminho. Ele me aceita,
todo este lugar não me acha estranha. Na verdade, ao ver uma mulher com
cobras no lugar de cabelos passear por mim com um homem que tem
escamas no lugar da pele, percebo que não sou a fruta mais exótica desta
árvore. A sensação de alívio que vem com esse conhecimento é
surpreendente e me deixa tonta.
A esfera me leva por um caminho curto e através de um arco que parece
surgir do nada. Passo por outros estudantes — alguns que parecem
humanos, outros que decididamente não são — e tento não encarar. Um
grupo de garotas com asas transparentes passa voando, suas risadas soando
como sinos de vento. Um rapaz com pelos e orelhas pontiagudas me dá um
aceno amigável enquanto passa correndo de quatro.
Nem estou com medo. Estou extasiada e maravilhada com cada uma
dessas criaturas magníficas.
Segundos depois, a esfera para em frente a uma torre gótica anexada à
parte central do castelo. Gárgulas esculpidas olham de cima da porta, que é
uma coisa pesada de madeira cravejada que parece pesar uma tonelada.
Respiro fundo, endireitando os ombros enquanto encaro a imponente
porta de madeira. É isso. Minha nova vida começa agora.
Com a mão trêmula, estendo o braço e agarro a maçaneta de ferro em
forma de argola. Está fria sob meus dedos e, por um momento, hesito. Estou
pronta para isso? Posso realmente fazer isso?
Mas então penso em Wesley no necrotério, no medo e na confusão com
os quais vivi toda a minha vida. Penso nas palavras de Randall: "Você
pertence a este lugar, Adelaide".
Antes que eu possa me questionar novamente, levanto a maçaneta e a
giro. O som da porta se abrindo ecoa pela noite, parecendo reverberar
através das próprias pedras do edifício.
Respiro fundo e dou um passo à frente, deparando-me com um conjunto
de escadas de pedra que sobem pelo lado esquerdo da torre. Ao colocar o pé
no primeiro degrau, dou um pulo de um metro e sufoco meu grito quando
um morcego vem voando em direção ao meu rosto e desvia por pouco,
subindo e saindo pela porta antes que eu possa me recompor, meu coração
batendo freneticamente.
— Porra — murmuro enquanto tento me acalmar o suficiente para subir
os degraus íngremes enquanto equilibro minha pesada mala de viagem e a
mochila, seguindo a esfera impaciente que está flutuando como uma maçã
na água diante da minha lentidão. — Já vou. Calma aí, esferinha.
Se eu não soubesse melhor, juraria que ouvi uma risadinha enquanto
subo os degraus lentamente, não querendo dar um passo em falso e cair de
bunda no chão.
Malditas torres de castelo. Por que não podiam ter instalado um
elevador?
5

CORVUS

P LANANDO sob os beirais da torre, pouso de cabeça para baixo e envolvo-


me com minhas asas negras enquanto contemplo a moça que acabou de
entrar na Torre Norte. Eu não esperava que alguém estivesse aqui. A Torre
Norte é geralmente reservada para convidados importantes e membros
visitantes do corpo docente, não para estudantes. No entanto, tudo nela grita
'estudante'.
Mas há algo diferente nessa garota. Mesmo na minha forma de
morcego, posso sentir. Há um poder irradiando dela, bruto e indomado. Ele
chama a escuridão dentro de mim, fazendo minhas presas doerem de
necessidade.
Quem é ela? Por que está aqui? O que ela é?
A curiosidade me vence. Solto meu aperto nos beirais e me transformo
no ar, pousando silenciosamente em meus pés na base da torre. Meus
sentidos aguçados captam seu cheiro - uma mistura intoxicante de humano
e algo mais. Algo familiar, mas estranho. Passo a mão pelo meu cabelo
escuro, ajeitando-o após a transformação, meus olhos azuis estreitados
enquanto olho fixamente para a torre.
Pelo que vi, ela é deslumbrante. Longos cabelos negros cascateiam
pelas suas costas, sua pele pálida e olhos escuros hipnotizantes mesmo após
apenas um segundo de observação.
— Quem é você, beldade? — murmuro, debatendo se devo segui-la
escada acima.
Decidindo não fazê-lo, viro-me e me afasto, instigando-me com a
curiosidade sobre essa garota. Nunca a vi antes, e nunca senti nada
remotamente parecido com ela. Isso me deixa cauteloso, então aproximar-
me dela, como eu normalmente faria com a nova garota gata, não está nos
planos agora, já que estou incomumente precavido.
Talvez este lugar esteja me influenciando, afinal.
Sorrio com desdém. Improvável. Sou cabeça-quente e impulsivo, e se
isso não é o que um vampiro puro-sangue deveria ser, então que me matem.
Ao virar a esquina, quase colido com o Professor Blackthorn, meu professor
de Estudos de Vampiros Antigos.
— Sr. Sanguine — ele diz, seu tom desaprovador como sempre. —
Espero que não esteja causando problemas na primeira noite de volta?
Coloco meu sorriso mais charmoso. — Claro que não, Professor.
Apenas aproveitando o ar da noite.
Seus olhos se estreitam, claramente não acreditando. — Hmm. Bem,
tente ficar longe de confusões. Temos alguns novos alunos muito
importantes chegando esta noite.
Isso desperta meu interesse. — Ah é? Alguém que eu deveria conhecer?
A expressão do Professor Blackthorn fica cautelosa. — Não cabe a mim
dizer. Agora, se me der licença.
Ele passa por mim, suas vestes rodopiando dramaticamente. Observo-o
partir, minha mente acelerada. Novos alunos importantes? Será que aquela
garota misteriosa é uma deles?
Fico tentado a voltar para a Torre Norte, para satisfazer minha
curiosidade sobre ela. Mas algo me impede. Se ela é tão importante quanto
Blackthorn insinuou, definitivamente é sábio pisar com cuidado até que eu
saiba mais.
Em vez disso, decido ir para o Blood Bar. É a primeira noite de volta,
afinal, e eu poderia tomar uma bebida.
Quando empurro a porta para abri-la, o lugar está morto. E não quero
dizer no sentido vampírico. Geralmente fervilha de atividade, já que
alimentações ao vivo são estritamente proibidas nas propriedades da
Universidade e estão sujeitas a uma ordem de expulsão, o que é pior do que
parece. Você é bloqueado, praticamente banido da comunidade
sobrenatural. É uma punição severa, mas se você é estúpido o suficiente
para quebrar a mais mundana das regras em um lugar onde os limites
devem ser testados, então merece levar uma cruz de madeira no traseiro no
mundo real. Dizem que MistHallow é a construção de si mesmo, e não
estão errados. É um lugar interessante. Muitos vêm aqui para aprender
sobre foco e disciplina com seus poderes e habilidades, mas alguns, como
eu, estão aqui simplesmente porque é um lugar de contenção para aqueles
desajustados que são mais problemáticos do que valem a pena lá fora. Meus
pais decidiram que MistHallow era o melhor lugar para me manter longe de
problemas e aprender alguma disciplina. Mal sabem eles que encontrei
muitas maneiras de testar os limites aqui também. Só que de forma mais
discreta.
Aproximo-me do balcão com um andar descontraído, acenando para o
bartender. — O de sempre, Grim.
Grim, uma criatura volumosa com pele acinzentada e olhos vermelhos
brilhantes, grunhe em reconhecimento. Ele alcança debaixo do balcão e
puxa uma garrafa de líquido carmesim.
— Especial da primeira noite — ele resmunga, servindo-me um copo
generoso. — O negativo, fresco da fonte.
Ergo uma sobrancelha. — Ah é? E quem seria a fonte?
Os lábios de Grim se curvam no que passa por um sorriso em seu rosto
esquelético. — Digamos apenas que tivemos um doador muito generoso.
Mas isso fica entre nós, hein?
— Sempre — murmuro e dou um gole, saboreando o gosto rico e
acobreado. É definitivamente de alta qualidade, sangue virgem saudável. É
um clichê, mas clichês são clichês por uma razão, certo?
Enquanto estou apreciando minha bebida, a porta se abre novamente.
Viro-me, meio que esperando ver a garota misteriosa da Torre Norte. Em
vez disso, são Lucian e Asher, dois dos meus inimigos mais agressivos em
MistHallow.
— Corvus! — Lucian grita, seus olhos dourados brilhando com malícia.
— Começando cedo, não é?
Tomo outro gole da minha bebida, deliberadamente devagar, antes de
me virar para encará-los completamente. — Lucian, Asher. Que prazer vê-
los. Eu ofereceria para comprar uma bebida, mas não tenho certeza se eles
servem híbridos de baixo escalão aqui.
Asher, o mais alto dos dois vampiros, mostra as presas num rosnado. —
Cuidado, Sanguine. Não estamos aqui para suas patéticas tentativas de
sagacidade.
— Não? — Ergo uma sobrancelha, fingindo surpresa. — Então me
esclareçam. O que traz dois parasitas como vocês ao meu refúgio favorito?
Lucian dá um passo à frente, seus movimentos fluidos e predatórios. —
Apenas checando nosso detestável encrenqueiro — ele diz, sua voz
pingando falsa doçura. — Garantindo que você não está planejando nada
perturbador para o novo ano.
Mantenho meu rosto cuidadosamente neutro, mesmo que minha mente
esteja acelerada. Eles estão pescando informações, mas sobre o quê? — É
mesmo? E eu aqui pensando que vocês dois estavam ocupados demais
beijando a bunda dos professores para se preocuparem com o pequeno e
velho eu.
Asher se inclina, seus olhos disparando ao redor como se procurasse por
bisbilhoteiros. — Sabemos que você está aprontando algo, Corvus. Você
sempre está. Desta vez, vamos pegar você no ato e garantir que seja expulso
da vida. Permanentemente.
Não consigo esconder minha diversão com isso. — Ora, ora, não
estamos paranóicos? Odeio desapontá-los, rapazes, mas estou aqui apenas
aproveitando uma bebida tranquila. Nada de esquemas nefastos esta noite,
receio.
Os olhos de Lucian se estreitam com suspeita. — Você espera que
acreditemos nisso? Faça-me o favor. Você está sempre tramando algo.
Sorrio, mostrando todos os dentes e presas. — Talvez eu esteja, talvez
não. Isso é para eu saber e vocês, bem, nunca descobrirem.
Por um momento, a tensão crepita no ar entre nós. Posso ver o desejo de
começar uma briga ardendo em seus olhos, e parte de mim o recebe de bom
grado. Faz tempo que não tenho uma boa briga.
Mas não vou deixar esses dois idiotas me provocarem a dar o primeiro
golpe. Não agora, não nunca.
— Por mais que eu adorasse continuar esta conversa encantadora —
digo, esvaziando o resto da minha bebida —, tenho coisas melhores para
fazer com minha noite do que trocar insultos com vocês dois imbecis.
Os olhos de Lucian brilham perigosamente. — Isso não acabou, Corvus.
Estamos de olho em você.
Levanto-me, esticando-me em toda a minha altura de um metro e
oitenta e cinco. Embora ambos os vampiros sejam mais corpulentos que eu,
poucos se igualam à minha altura ou à minha força de sangue puro. Seriam
necessários dois ou mais híbridos mais fracos, aqueles que foram
transformados em vez de nascidos de vampiros, para me derrubar, mas
esses dois parecem não ter recebido o memorando. A menos que estejam
escondendo algo que desconheço. — Observem o quanto quiserem — digo,
baixando minha voz para um tom grave e perigoso. — Mas lembrem-se,
nem todas as sombras escondem segredos. Às vezes, elas mordem de volta.
Com isso, passo por eles, ignorando as ameaças murmuradas de Asher.
Minha mente está a mil por hora enquanto saio para o ar fresco da noite.
Algo está acontecendo, algo grande o suficiente para deixar Lucian e Asher
nervosos e procurando me culpar por isso. Parte de mim se pergunta se está
relacionado à garota que vi mais cedo.
Preciso saber mais - não apenas por curiosidade agora, mas por
necessidade. Se há problemas se formando em MistHallow, preciso estar
preparado. Se é para evitá-los ou mergulhar de cabeça neles, ainda não
tenho certeza. Tudo depende dos jogadores.
Começo a andar sem um destino específico em mente. O campus está
mais quieto agora, a maioria dos estudantes ainda se acomodando ou já
recolhidos em seus quartos. Mas posso sentir uma excitação no ar, uma
sensação de antecipação. Algo grande está por vir, e tenho um palpite de
que aquela garota misteriosa está no centro de tudo isso.
Ao passar novamente pela Torre Norte, faço uma pausa, olhando para as
janelas iluminadas. Será que ela está lá em cima agora? O que está
pensando? Será que ela sabe o alvoroço que está causando só por estar
aqui?
Balanço a cabeça, tentando clarear meus pensamentos. Estou me
adiantando.
Uma coisa é certa - para onde quer que essa garota vá, estarei
observando. E esperando.
Afinal, o que é a vida universitária sem um pouco de perseguição?
6

ADELAIDE

D EPOIS DE MUITO esforço e pausas para descansar do peso da minha bolsa,


finalmente chego ao topo das escadas, ofegante pela subida. O orbe paira
em frente a uma pesada porta de madeira com uma aldrava de latão
ornamentada em forma de uma besta rosnando. O orbe balança expectante
enquanto encaro a porta e alcanço a maçaneta para girá-la, mas está
trancada.
— Merda — sibilo. — A mulher da água azul não me deu uma chave!
— A ideia de descer tudo de novo, só para entrar no final da fila para pedir
uma chave e então subir todos esses degraus novamente, é um pouco mais
do que posso aguentar no momento. Minha tolerância está baixa, e eu
precisava que isso não acontecesse.
O orbe balança agitadamente enquanto fico ali parada, olhando
tristemente para a porta. Então, ele dispara para baixo e bate contra minha
mão direita. Irritada, encaro-o enquanto ele bate repetidamente nas costas
da minha mão até que eu a vire e ele bate contra minha palma.
— Você é a chave? — murmuro, e ele pula algumas vezes, o que
interpreto como um sim.
Procurando por fechaduras em forma de orbe na porta, não encontro
nenhuma e solto um suspiro de frustração.
O orbe, claramente tendo tido o suficiente da minha estupidez nessa
área, voa para fora da minha mão e bate contra um painel liso de madeira,
mantendo a posição até que eu coloque minha mão sobre ele novamente.
Posso praticamente sentir o suspiro de alívio do orbe de que finalmente
estamos chegando a algum lugar.
— Desculpe — murmuro enquanto a porta se abre com um clique.
O orbe voa para dentro do quarto, e eu empurro a porta para entrar
cambaleando com as bolsas que decidiram se transformar em blocos de
concreto.
Meus olhos se arregalam enquanto deixo as bolsas caírem e absorvo
meu novo espaço de vida. Eu não sabia exatamente o que esperava, mas
isso supera qualquer expectativa que estava formando. É um quarto circular
espaçoso com um teto alto e abobadado. O luar entra pelas janelas altas e
arqueadas, iluminando os móveis luxuosos.
Há uma cama de dossel coberta com veludo roxo profundo, um guarda-
roupa de carvalho maciço e uma poltrona fofinha perto de uma lareira
crepitante que oscila e brilha de forma antinatural. Magia? Estantes que
cobrem uma parede estão cheias de tomos encadernados em couro.
— Caramba — murmuro.
Enquanto exploro, noto pequenos detalhes que confirmam o uso de
magia. As velas nos candelabros de parede se acendem sozinhas quando
passo. Quando olho para o espelho acima da penteadeira ornamentada, ele
parece ondular como água.
Aproximo-me do espelho com cautela, hipnotizada por sua superfície
fluida. Quando me inclino para olhar mais de perto, meu reflexo de repente
muda e se transforma. Por um momento, vejo a mim mesma com olhos
brilhantes e presas alongadas. Recuo com um ofego, piscando rapidamente.
Quando olho novamente, meu reflexo normal me encara de volta, com os
olhos arregalados e pálida.
— Certo — murmuro, passando uma mão trêmula pelo cabelo.
Um suave tinido chama minha atenção para o orbe pairando sobre a
escrivaninha. Noto um envelope grosso repousando sobre a superfície
polida. Quando o pego, o orbe se acomoda na madeira e para de brilhar.
Pisco para ele.
Isso é um ronco?
Balançando a cabeça, sorrio e volto a olhar para o envelope em minha
mão. É pesado, feito de pergaminho grosso com meu 'nome' - Adelaide
Black - escrito em letra cursiva na frente. Rasgo-o, puxando várias folhas
de papel.
— Bem-vinda à Universidade MistHallow — leio em voz alta, passando
os olhos pelo conteúdo. Horários de aulas, regras do campus, um mapa que
parece mudar e se transformar enquanto o observo. Meus olhos se fixam em
um parágrafo em particular:
"Como uma Vesperidae, você será obrigada a participar de sessões
adicionais para ajudá-la a entender e controlar suas habilidades únicas. Seu
mentor, Professor Blackthorn, se reunirá com você amanhã de manhã para
discutir seu currículo especializado."
Suspirando, jogo os papéis na escrivaninha e me jogo na cama. É
ridiculamente confortável, como deitar em uma nuvem. Olho fixamente
para o dossel, observando como padrões parecem rodopiar e dançar pelo
tecido.
Eu deveria levantar e desfazer as malas, mas depois de tudo o que
aconteceu hoje, estou exausta e só agora me lembro que é meu aniversário.
— Feliz aniversário do caralho — murmuro enquanto meus olhos se
fecham, e o sono me arrasta para baixo.
7

ADELAIDE

U M ZUMBIDO incessante no meu ouvido me acorda. Abrindo os olhos,


percebo que estou dura, ainda vestida e faminta. Sentando-me na cama
suntuosa, me espreguiço e vejo Orby flutuando por aí, fazendo aquele
barulho infernal.
— Cala a boca — resmungo e desço da cama para espiar pelas janelas
de piso ao teto sobre o dossel enevoado de árvores. — Bem, não posso
reclamar da vista — murmuro. — Mas onde ficam o banheiro e o
refeitório?
Orby, sendo prestativo em tudo, voa pela sala até um painel na parede
que eu não teria visto se ele, sim, sim, ele, não estivesse dançando na frente
dele. — O que tem aqui, então? — pergunto, pegando minha nécessaire na
esperança de que haja um banheiro... e um elevador, já que estou assumindo
que o único lugar para ir é para cima.
Estou certa.
Sobre subir. Não o elevador. Infelizmente, há apenas degraus, mas bem
mais civilizados do que os que me trouxeram ao meu quarto. Largos e de
madeira com corrimão, faço minha ascensão, mais alto ainda, até chegar a
um banheiro glorioso aninhado sob o topo da torre. — Uau — murmuro
enquanto observo tudo. O chuveiro é enorme e tem um painel de vidro
fosco que serve como parede externa da torre de um lado. Tem três
chuveiros.
Mas primeiro o mais importante. Estou estourando para fazer xixi e
preciso escovar os dentes.
Minutos depois, tiro minhas roupas e entro no chuveiro luxuoso,
maravilhada com os múltiplos chuveiros, que estão todos apontados para
mim, fazendo parecer que estou sob uma cachoeira. O trabalho intrincado
de azulejos dispostos em mosaicos azul profundo e branco é
impressionante. Enquanto a água quente cai sobre mim, fecho os olhos e
solto um suspiro de contentamento. Por um momento, quase posso esquecer
a estranheza da minha situação e apenas desfrutar do simples prazer de um
bom banho.
Grata pelo painel fosco quando vejo criaturas voando lá fora, dou
risadinhas e me pergunto como deve ser voar.
Lavando-me rapidamente, impelida pelo meu estômago roncando,
desligo o chuveiro e me enrolo em uma toalha fofinha. Volto para o meu
quarto, me sentindo revigorada, mas faminta.
— Então, onde eu vou para comer? — pergunto a Orby, agora seu
nome, mas então me lembro dos sanduíches que minha mãe fez e os pego
da minha bolsa. Sento-me na cama com a lancheira e me sirvo, o queijo e
presunto caem bem e fazem as coisas parecerem um pouco menos
assustadoras.
Só um pouco, no entanto. Não posso me esconder neste quarto para
sempre, embora pudesse fazê-lo muito feliz. Mas o Professor Blackthorn
está me esperando, e preciso descer e descobrir como encontrá-lo. Talvez a
senhora da Água Azul possa me ajudar.
Terminando meu café da manhã, me visto rapidamente com uma camisa
branca e calças pretas. O branco me faz parecer mais pálida que o normal,
mas acho que é isso que estou buscando. Não quero parecer humana em
uma universidade cheia de não-humanos. Faz sentido para mim, então dou
de ombros e escovo meu cabelo antes de pegar minha mochila e sair com
Orby ao lado do meu ouvido. Fecho a porta atrás de mim e ouço a
fechadura clicar. Com Orby liderando o caminho, desço os degraus
traiçoeiros e saio para a manhã, onde todo o campus está quieto.
Eu diria morto, mas o pensamento me faz rir internamente e é
provavelmente totalmente inapropriado. A névoa rodopia ao meu redor
enquanto volto para o escritório de Alojamento, onde a senhora da Água
Azul me ajudou ontem. Realmente preciso descobrir como a espécie dela é
chamada. Ela provavelmente ficaria insultada em saber como a chamo.
As portas se abrem para mim, e entro, olhando ao redor. Há alguns
estudantes circulando, que parecem ter chegado esta manhã, mas nenhum
membro do corpo docente está à vista ainda.
— Senhorita Black.
Dou um pulo de um metro com a voz suave vindo de trás e acima de
mim. Virando-me, vejo o falante, um senhor distinto e alto que parece estar
no início dos quarenta anos. Ele está vestido com um terno cinza e uma
capa preta esvoaçante.
— Sim, e o senhor é? — pergunto, fazendo uma careta ao perceber
como isso soa rude.
— Professor Blackthorn — ele afirma. — Você está comigo hoje.
— Sim, acredito que sim.
— Temos muito a discutir. Você comeu?
— Sim, mas onde vou para comer? Eu tinha sanduíches de casa.
Ele pisca. — Você tem o mapa?
Eu pisco de volta. — Ah, o mapa, certo... — Mordo meu lábio. Está lá
em cima na mesa, embaixo da carta de boas-vindas, da qual eu tinha me
esquecido completamente.
O Professor Blackthorn ri e estala os dedos. Um pedaço de pergaminho
aparece em sua mão, e ele o estende para mim. Eu o pego e olho fixamente.
— Ali — ele diz, apontando para uma área no mapa que diz Refeitório.
— Ah, ok. Muito bem — digo e depois reviro os olhos para mim
mesma. Muito bem? Quem diabos fala isso?
— Venha — diz o Professor Blackthorn e gira nos calcanhares para me
levar mais fundo no prédio.
Sinto olhares sobre mim enquanto sigo Blackthorn por um corredor
escuro iluminado intermitentemente por tochas de fogo mágico. Ou
presumo que sejam mágicas. Elas não emitem nenhum calor quando passo
por elas. Minha pele formiga, e os pelos da minha nuca se arrepiam
enquanto sigo o Professor Blackthorn pelo corredor sinuoso, tentando não
ficar boquiaberta com os retratos em constante mudança nas paredes.
— Então, Professor — digo, quebrando o silêncio, — o que exatamente
significa ser uma Vesperidae? Ainda estou tentando entender tudo isso.
Ele se vira rapidamente, com o dedo nos lábios. — Silêncio, menina.
Não tão alto.
— Hã? — murmuro, mas baixo a voz de qualquer forma. — Por quê
não?
— Você é um segredo bem guardado e é assim que pretendemos mantê-
lo. Pelo menos por enquanto.
— Por quê?
— Muitas razões — ele diz de forma enigmática. Ele abre a porta de
uma sala de aula comum, me faz entrar e fecha a porta.
Ele se movimenta, procurando algo em seus bolsos enquanto Orby
zumbe pela sala antes de se acomodar em cima da minha mochila, que eu
encosto em uma das mesas. Encontrando o que quer que estivesse
procurando, Blackthorn murmura algumas palavras, e uma caixa aparece,
maior que uma caixa de sapatos, mas não muito.
— Isto é tudo que sabemos sobre a sua espécie.
Pressiono os lábios. Não parece muito. — Hum...
— Exatamente — diz ele secamente. — Acreditamos que você só
descobriu sobre si mesma ontem e chegou aqui sob pressão, por assim
dizer. Caçadores?
— É isso que o Randall lhe contou? — arrisco.
Ele assente.
— Bem, então, sim. Meu chefe no necrotério estacou um vampiro na
minha frente e depois decidiu que eu seria a próxima. Quaisquer feitiços de
proteção que minha mãe tinha em mim caíram, então ele deve ter sido
capaz de sentir que eu não era totalmente humana. — Quer dizer, ele parece
saber das coisas, e eu não tenho nada a esconder. Talvez ele possa me ajudar
a entender tudo isso.
— De fato — ele murmura. — Randall fez a coisa certa, trazendo você
para nós imediatamente. Você está segura aqui, mas suponho que tenha
muitas perguntas.
— Muitas é pouco — digo, sentando-me. — Randall disse que não
havia muitos da minha espécie por aí.
— Três no momento. Dois que estão por aí há muitos anos e, bem,
agora, você.
— Quantos anos?
— Séculos.
— Então, eles são imortais?
— Sim.
— Mas podem ser mortos?
— Estacas, fogo, decapitação, os suspeitos de sempre.
— Então, o que me torna tão especial? Eu tenho poderes?
Ele sorri. — Poderes, não. Mas habilidades... sim. Você tem força,
velocidade e reflexos aprimorados, cura acelerada. Pode consumir sangue
para um impulso, as coisas vampíricas usuais. Mas o que a torna diferente
dos vampiros, e este é o cerne da sua situação única, senhorita Black, é que
você tem a capacidade de amplificar os poderes dos outros quando em
contato físico com eles.
Encaro o Professor Blackthorn, tentando processar o que ele acabou de
me dizer. — Eu posso amplificar os poderes dos outros? O que isso
significa?
Ele assente, com o rosto sério. — Significa, senhorita Black, que
quando você toca alguém com habilidades sobrenaturais, os poderes deles
se tornam mais fortes. Significativamente mais fortes.
— Mas eu nunca notei nada parecido antes — protesto.
— Claro que não — diz ele, acenando com a mão de forma dismissiva.
— Você nunca esteve em contato prolongado com outros seres
sobrenaturais.
Okay, dã. Isso faz total sentido. Afundo-me mais na cadeira, minha
mente girando. — Então, o quê, eu sou algum tipo de bateria sobrenatural?
O Professor Blackthorn ri. — Essa é uma forma de ver, suponho. Mas
você é muito mais do que isso. Sua espécie é incrivelmente rara e valiosa. É
por isso que devemos manter sua verdadeira natureza em segredo por
enquanto.
— Valiosa para quem? — pergunto, sentindo um arrepio na espinha.
Sua expressão fica grave. — Para muitos, senhorita Black. Há aqueles
que buscariam usar suas habilidades para seu próprio benefício. Alguns
podem até tentar machucá-la para impedir que outros a usem.
— Puta que pariu — murmuro, passando a mão pelo cabelo. — Então o
que eu devo fazer? Me esconder no meu quarto para sempre e não tocar em
ninguém?
— De forma alguma — diz ele, balançando a cabeça. — Você está aqui
para aprender, entender e controlar suas habilidades. Mas devemos ser
cautelosos. Por enquanto, manteremos sua verdadeira natureza confidencial.
Você frequentará aulas regulares como qualquer outro estudante, mas
também terá sessões privadas comigo para trabalhar no aproveitamento de
seus talentos únicos.
Assinto, tentando absorver tudo. — Okay, então eu finjo que sou uma
vampira, ou o quê?
— Não há fingimento nisso, senhorita Black. Você é uma vampira em
sua essência. Você precisa se misturar o máximo possível enquanto
trabalhamos no desenvolvimento de suas habilidades em segredo.
— Certo — digo, me sentindo sobrecarregada. — Mas e quanto a...
alimentação? Eu preciso beber sangue?
— Você pode — ele responde. — Isso vai melhorar suas habilidades e
cura, mas não é estritamente necessário para sobrevivência como é para
vampiros completos. Temos sangue sintético disponível se você quiser
experimentar, ou pode ficar com comida humana se preferir.
Eu não faço uma careta ao pensar em beber sangue, mas torço o nariz
para o tipo sintético. Vamos ser realistas por um segundo. Eu já bebi meu
próprio sangue. Quem nunca, quando você se corta e coloca o dedo nos
lábios... ou, no meu caso, cortou os braços e depois os lambeu, tanto faz.
Mesma coisa. Eu sempre tive um fascínio por sangue que faz sentido para
mim agora e não me faz sentir estranha ou nojenta. Eu apenas aceno com a
cabeça enquanto penso, e quanto às minhas presas?
— Você está se perguntando se tem presas, não é? — ele ri.
— Obviamente — retruco. — Eu tenho? Como eu, você sabe...? —
Coloco meus dedos indicadores para fora para imitar presas.
Ele bufa e estala suas presas para baixo. — Assim.
— Como assim? Você não me mostrou nada além de talvez como se
exibir.
— Mostre os dentes — ele diz — e então apenas... — Ele pisca, e suas
presas voltam.
Encaro o Professor Blackthorn, tentando imitar o que ele acabou de
fazer. Mostro os dentes e me concentro, mas nada acontece. Me sinto um
pouco boba, como se estivesse apenas fazendo caretas estranhas para ele.
— Não force — ele diz gentilmente. — É um instinto, como piscar.
Tente relaxar e deixe acontecer naturalmente.
Aceno com a cabeça e decido esquecer as presas por enquanto. Posso
praticar sozinha no meu quarto na frente do espelho como lição de casa. —
E agora?
O Professor Blackthorn junta as mãos. — Agora, começamos seu
treinamento. Mas primeiro, vamos familiarizá-la com o campus e seu
horário.
Ele acena com a mão, e um pedaço de pergaminho se materializa,
flutuando no ar entre nós. Estendo a mão e o pego, examinando o conteúdo.
É um horário de aulas, repleto de matérias que nunca ouvi falar antes.
— Teoria da Magia Elemental? Ética Paranormal? Estudos Avançados
de Linhagem? — leio em voz alta, com as sobrancelhas erguidas.
— Todos cursos essenciais para alguém com seu histórico único —
explica Blackthorn. — Você também terá sessões particulares comigo três
vezes por semana para começar a trabalhar no controle de suas habilidades
de amplificação.
Aceno com a cabeça, ainda me sentindo sobrecarregada. — Certo —
murmuro, guardando o horário na minha bolsa. — Então, para onde vamos
primeiro?
— Vamos começar com um tour — ele diz, movendo-se em direção à
porta. — É melhor que você se familiarize com o layout lógico do campus.
MistHallow tem o hábito de mudar ocasionalmente. Nos mantém alerta!
Jogando minha mochila sobre o ombro com Orby saltitando ao meu
lado, saímos para o corredor, e a sensação de empolgação e apreensão me
atinge no estômago como um soco. Esta é minha nova vida agora - aulas
sobre magia, segredos para guardar e habilidades que não entendo
completamente. É aterrorizante e empolgante ao mesmo tempo.
O Professor Blackthorn me guia por corredores sinuosos que mudam e
se transformam enquanto caminhamos. Retratos nas paredes sussurram e se
movem, seus olhos nos seguindo enquanto passamos. Emergimos em um
pátio extenso, onde estudantes de todas as formas e tamanhos estão
circulando.
— Este é o pátio principal — explica Blackthorn. — A maioria das suas
aulas será nos prédios ao redor dele.
Tento não encarar quando um grupo do que parecem ser fadas passa
voando, suas asas brilhando à luz do sol. Um garoto com chifres crescendo
na testa rosna ao passar.
— Lembre-se — diz Blackthorn em voz baixa — misture-se. Aja como
se tudo isso fosse perfeitamente normal para você.
Eu aceno com a cabeça, engolindo em seco. — Certo. Totalmente
normal. Apenas mais um dia na universidade de criaturas mágicas.
Ele me dá um sorriso irônico. — Você se acostumará mais rápido do
que imagina.
Conforme continuamos nosso tour, começo a relaxar um pouco. O
campus é lindo, e uma sensação de paz me envolve mais rápido do que eu
esperava. Passamos pela biblioteca, um edifício enorme para o qual
Blackthorn me conduz. — No andar de cima, você encontrará a seção sobre
vampiros — diz ele baixinho. — Sugiro que comece por lá e aprenda tudo o
que puder sobre esse seu lado, certo?
Eu aceno ansiosamente. Estou ansiosa para mergulhar nos textos
antigos.
— Suas aulas começam na noite de segunda-feira. Temos um horário
misto de dia e noite para acomodar todas as criaturas que estudam aqui.
— Hum, eu estive andando por aí durante o dia — murmuro, com os
olhos arregalados. — Se eu supostamente sou uma vampira, as pessoas não
acharão isso suspeito?
— Não — diz ele, balançando a cabeça. — Você vê alguma luz do sol lá
fora, senhorita Black?
Eu espio lá fora. Está claro, mas sombrio, sombreado pelas enormes
árvores que cercam o campus. — Ah, então é apenas a luz direta do sol que
prejudica.
Ele acena. — Para a maioria. Alguns são fracos demais para suportar a
luz do dia como um todo. Você não é uma deles.
— O que devo dizer às pessoas sobre mim? — sussurro.
— Você diz a eles que é filha de Randall Black — ele afirma. — Isso é
tudo o que eles precisam saber.
Fácil para ele dizer. Ele não é quem será questionado. Mas tudo bem.
Tentarei do jeito dele.
Por enquanto.
8

ADELAIDE

O P ROFESSOR B LACKTHORN me deixa sozinha na biblioteca e eu absorvo o


lugar com olhos arregalados e uma empolgação que me emociona. Este
lugar é magnífico em todos os sentidos da palavra. O teto se ergue bem alto,
sustentado por colunas ornamentadas que parecem se contorcer e se mover
quando não estou olhando diretamente para elas. Fileiras e mais fileiras de
estantes se estendem até onde posso ver, cheias de tomos de todos os
tamanhos e cores. Enquanto estou de pé no saguão de piso de mármore e
olho para cima, vejo mais sete andares acima de mim. Respiro fundo,
inalando o cheiro de livros antigos e magia ancestral. É inebriante.
Percebendo que ainda estou parada no meio do saguão como uma idiota, me
recomponho e caminho em direção às escadas. O Professor Blackthorn
disse que a seção de vampiros ficava no último andar e, como é típico de
MistHallow, não há nenhum elevador à vista. O lado positivo? Acho que
você poderá fazer uma moeda de cinquenta centavos quicar na minha bunda
quando este ano terminar.
Enquanto subo, fico maravilhada com a imensa variedade de criaturas
que vejo estudando nas mesas ou folheando as prateleiras.
Tento não encarar, lembrando do conselho de Blackthorn de agir como
se tudo isso fosse normal. Mas é difícil quando tudo é tão fantástico.
Finalmente, chegando ao último andar, é mais frio e escuro que o resto
da biblioteca. As cortinas estão fechadas e iluminadas com velas, mágicas,
eu espero, com todos esses livros ao redor. A madeira escura e o tapete
felpudo vermelho-escuro contrastam com o resto do visual clássico de
mármore e madeira clara lá embaixo. Examino as prateleiras, mas não sei
realmente o que estou procurando. Decido começar com 'V' de vampiro,
esperando que haja um tomo escondido aqui que me dê uma visão geral
sobre essas criaturas da noite.
Não faço ideia por onde começar. Jogo minha mochila sobre uma mesa,
e Orby volta a dormir em cima dela enquanto eu percorro as centenas e
centenas de livros. Sobrecarregada, solto um suspiro e giro nos calcanhares
para tentar uma seção diferente quando vejo um homem me encarando do
outro lado da mesa. Eu nem sequer o ouvi se aproximar. Ele sorri, mas não
é um sorriso amigável. É sinistro e faz meu sangue disparar de medo, o que
percebo ser um grande erro quando ele fecha os olhos e respira fundo, seu
sorriso se alargando.
Aproveito a oportunidade e me movo rapidamente em um esforço para
me desbloquear do canto em que estou encurralada.
Seus olhos se abrem de repente. — Fique parada — ele murmura, seus
olhos azuis chocantemente brilhantes fixos nos meus de uma maneira
intensa que confunde meu cérebro e me deixa pregada no chão. — Melhor.
— Sua voz é melodiosa e quieta. Ela me envolve e acalma o pânico que
havia surgido com sua aproximação furtiva. Ele se move para mais perto até
estar parado na minha frente. Ele é alto e se ergue sobre mim enquanto olha
para baixo com aqueles olhos hipnóticos. Seu cabelo castanho-escuro cai
sobre sua testa, mas de uma maneira elegante, nem um pouco desleixado.
Ele está usando um terno azul-meia-noite e uma gravata combinando,
ligeiramente afrouxada no colarinho de uma camisa branca impecável. Meu
olhar é atraído para seu pescoço, onde uma pulsação bate suavemente.
Ele sorri com malícia quando vê onde meu olhar pousa, me mostrando
as pontas de suas presas. Então, vampiro... confirmado. Mas uma pulsação?
Essa é nova para mim. Acho que realmente preciso fazer essa pesquisa.
— Quem é vo-
— Shh — ele murmura, colocando o dedo nos lábios.
Contra minha vontade, fecho a boca, meus olhos se arregalando ao
perceber que ele tem controle total sobre minhas ações. Meu coração
dispara novamente quando a percepção de que estou totalmente indefesa
agora me atinge, e minhas palmas começam a suar.
Ele abaixa a mão para o lado e se inclina mais perto, me cheirando
como se eu fosse um petisco saboroso. Quem sabe? Talvez eu seja para ele.
— Bonita — ele murmura.
— Brincando com a comida de novo, Corvus? — uma voz baixa
murmura.
Desvio o olhar, meus olhos aparentemente a única coisa que posso
mover agora, para a porta onde o homem impossivelmente lindo do Rolls
Royce está encostado no batente, seus olhos encontrando os meus e
mantendo meu olhar. Sou incapaz de baixá-lo enquanto ele me encara, e
engulo em seco, sentindo medo verdadeiro pela primeira vez na minha vida.
Se eu achava que fugir de Wesley era ruim, isso é cem vezes pior. Sou um
alvo fácil.
O vampiro chamado Corvus ri e dá um passo para trás enquanto vira a
cabeça. — Zephyr. O que você está fazendo tão alto aqui?
— Checando a garota nova — ele ronrona, seu olhar ainda perfurando
meus olhos. — As notícias correm rápido por aqui.
— Não é mesmo — Corvus murmura.
Zephyr se junta a Corvus na minha frente e finalmente desvia o olhar do
meu, mas apenas para baixá-lo para meu decote. Ele lambe os lábios e
estende a mão para passar as costas de seu dedo frio pelo meu pescoço e
para dentro da gola da minha camisa. Ele puxa gentilmente. — Pele como
alabastro — ele murmura. — Exatamente como uma boneca de porcelana...
linda e quebrável.
A repulsa ao seu toque me atinge com força. Odeio que as pessoas me
toquem. Tento me mover, mas estou presa no lugar por qualquer feitiço que
Corvus lançou sobre mim.
— Vocês percebem que esta é a filha de Randall Black, não é? — Uma
terceira voz masculina diz, quase com diversão, enquanto Zephyr dá um
passo para trás com um sorriso lento que me faz ofegar um pouco. Ele é
incrivelmente lindo, mas Corvus também é. Ambos são criaturas
incrivelmente fortes, mas enquanto sei que Corvus é um vampiro, não acho
que Zephyr seja, então isso levanta a questão de quem e o que ele é.
Corvus sibila e me encara como se eu tivesse ocultado essa informação
de propósito. — Isso é verdade?
— Sim — eu grasno.
— Hmm. — Ele dá um passo para trás e remove qualquer feitiço que
tinha sobre mim, me fazendo suspirar de alívio.
Era como um torno ao redor da minha alma.
Quando ele se afasta, vejo o terceiro falante. Um cara de aparência
muito fofa com cabelos brancos puros e olhos brancos, vestido com calças
de combate pretas e uma camiseta preta, sorri para mim e parece muito
mais amigável do que essas outras duas criaturas distantes e ameaçadoras
na minha frente.
— Andem logo, rapazes — ele diz. — Vocês não querem ficar do lado
ruim de Randall Black mexendo com a filha dele, querem?
Corvus e Zephyr trocam um olhar, então se afastam de mim fluidamente
como se fossem feitos de água ou do próprio ar ao nosso redor. O alívio que
sinto me deixa tonta.
— Minhas desculpas, Senhorita Black — diz Corvus suavemente,
embora seus olhos ainda brilhem com um interesse predatório. —
Estávamos apenas dando as boas-vindas à MistHallow.
— Que boas-vindas — murmuro, finalmente encontrando minha voz.
Zephyr ri, um som baixo que envia uma onda de pura luxúria pelas
minhas veias. — Nos veremos por aí, Senhorita Black — ele ronrona, antes
de ele e Corvus saírem da biblioteca com um andar lânguido.
Solto um suspiro trêmulo, sentindo meus joelhos fracos. O cara de
cabelos brancos se aproxima de mim. — Você está bem? — ele pergunta,
com genuína preocupação em sua voz.
Aceno com a cabeça, ainda um pouco abalada. — Sim, obrigada.
— Não se preocupe com esses dois. Eles latem mais do que mordem. —
Ele gargalha da própria piada.
— Bem — bufo. — Me desculpe se não acredito em você.
— É, provavelmente é melhor que não acredite mesmo. Corvus e
Zephyr são perigosos e ambiciosos, além de uma boa dose de problemas.
Mas, então, não somos todos nós? — Seu sorriso se torna mais malévolo
quando diz isso.
— E você é? — disparo.
— Zaiah. Ao seu dispor, milady. — Ele faz uma reverência profunda, e
algo sobre toda essa interação está me dando um puta medo. Ele olha para
cima com uma piscadela. — Você não gostaria de ser mais forte para que da
próxima vez pudesse se livrar da compulsão?
— Compulsão — murmuro. É isso que Corvus estava fazendo comigo?
Me compelindo.
— Hmm. Você não gostaria?
Franzo a testa. — Eu não gostaria do quê?
— De ser mais forte? — Ele pisca para mim.
— O que você é? — pergunto desconfiada.
Ele sorri novamente, todo amigável. — Ok, você me pegou. Sou um
djinn. Um cara tem que tentar, sabe?
— Não, eu não sei. E não faça isso de novo. Eu não desejo nada, e
nunca desejarei.
— Veremos — ele diz com uma risada e estala os dedos, desaparecendo
num piscar de olhos.
— Porra — murmuro após esse encontro que me deixou abalada, mas
mais necessitada de informações do que nunca. Volto-me para as estantes,
apenas para descobrir que as pilhas se reorganizaram, e agora estou ainda
mais perdida do que estava. Uma coisa é certa. Preciso me atualizar e com
habilidades dignas do Flash antes que Corvus ou Zephyr venham atrás de
mim novamente. Na próxima vez, não acho que vou me safar tão
facilmente.
9

ZEPHYR

C ONTEMPLATIVAMENTE ENCOSTADO em uma das muitas árvores desta


floresta, ao sul do campus principal, estreito os olhos para o andar superior
da biblioteca, visível do meu lugar. Corvus está pendurado precariamente
sobre minha cabeça em forma de morcego, mas desde que ele não cague em
mim, não me importo nem um pouco.
— A filha de Randall Black — murmuro, incapaz de tirar isso da minha
cabeça.
— O segredo mais bem guardado do mundo sobrenatural — diz Zaiah,
piscando ao meu lado.
Dou-lhe uma olhada preguiçosa, não surpreso com sua aparição
repentina como ele esperaria. — Mas você sabia e não nos contou. Djinn
traiçoeiro.
— Quando você vai aprender? Ser traiçoeiro é do que sou feito.
Corvus cai de seu poleiro e se transforma no meio do ar para aterrissar
aos meus pés, completamente vestido, graças a Deus. — Sem dúvida, djinn-
matreiro. Tem mais alguma coisa pra compartilhar? Tipo, que porra ela está
fazendo aqui? Como ninguém sabia que ela existia até agora? E,
principalmente, que merda ela é?
— Ela é uma vampira — Zaiah dá de ombros.
— Não — diz Corvus com um sorriso cheio de presas, o que me faz
revirar os olhos. — Não é uma vampira.
— Totalmente uma vampira — digo, me afastando da árvore, ajeitando
o paletó e limpando sujeira imaginária da manga.
— E como você saberia? Fae Negros não têm nenhum senso quando se
trata de não-vampiros.
— Quem se importa, afinal? — retruquei, pego de surpresa. Corvus está
certo. Os Fae Negros são completamente inúteis em sentir outras criaturas.
Mas não vou admitir isso para ele. — O ponto é que ela é a filha de Randall
Black. Isso a torna proibida e perigosa.
Corvus bufa. — Desde quando proibido e perigoso já nos impediu? O
papai te deu umas chineladas no traseiro durante o verão, Zeph?
— Vai se foder — resmungo, embora ele não esteja muito longe da
verdade. Meu pai é um enorme pé no saco. Rei dos Fae Negros, embora
nem de longe perto de se aposentar ou morrer, ele é brutal em sua
disciplina, esperando me colocar na linha antes que eu tenha que
administrar o Reino. As chances disso acontecer são praticamente nulas, no
entanto. Eu desprezo regras e vou quebrá-las sempre que puder. Porém, e há
um gigantesco "mas" nesta conversa... ela é a filha de Randall Black e isso
significa algo por aqui, quer admitamos isso para nós mesmos ou não.
— Vocês dois estão perdendo o ponto — interrompe Zaiah, seus olhos
brancos brilhando com malícia. — Pensem nisso. A filha de Randall Black,
escondida todo esse tempo, de repente aparece em MistHallow? Há mais
nisso do que aparenta.
Estreito os olhos, considerando suas palavras. Ele está certo, é claro.
Nada acontece por acaso em nosso mundo, especialmente quando envolve
alguém tão poderoso e influente quanto Randall Black.
— O que você sabe? — exige Corvus, dando um passo ameaçador em
direção a Zaiah, mas ele é só fanfarronice, e Zaiah sabe disso.
Zaiah levanta as mãos, ainda sorrindo. — Quem disse que eu sei de
alguma coisa? Mas não sou cego nem estúpido, e vou dizer isso - aquela
garota vai abalar as coisas por aqui. E pessoalmente, mal posso esperar para
ver isso acontecer.
Bufo diante das merdas crípticas de Zaiah. Típico de djinn, sempre
falando em enigmas. Mas ele está certo sobre uma coisa - a presença da
Srta. Black em MistHallow vai causar ondas. Grandes ondas.
— Qual é o nome dela? — murmuro.
— Adelaide — responde Zaiah. — No mundo humano, Adelaide
Légère.
— Légère? Luz. E ainda assim seu nome aqui é Black. Justaposição
interessante.
Corvus bufa. — Ooh, alguém foi forçado a frequentar a escola de verão
dos Fae Negros nas últimas semanas?
Não me digno a responder. Apesar da minha atitude naturalmente
rebelde, gosto de aprender.
— Então, qual é o plano aqui? — pergunta Corvus, interrompendo meus
pensamentos, seus olhos brilhando com interesse predatório. — Agora que
senti o cheiro dela, não vou desistir disso.
— Eca — murmuro. — Mas nós não vamos. Nem fodendo. A
Bonequinha de Luz vai virar completamente Black antes que o primeiro
semestre acabe.
— Você sente a aura dela? — pergunta Corvus, intrigado.
— Naturalmente — zombo. — Ela é pura, não inocente, mas é ingênua,
delicada. Ela está aterrorizada com algo lá fora, mas mais ainda conosco.
Está feliz por estar aqui, mas confusa e curiosa.
— Você percebeu tudo isso em poucos minutos com ela? — pergunta
Corvus, ligeiramente com inveja.
Sorrio, exibindo meus dentes afiados. Posso não ter presas, mas meus
caninos são perversamente afiados como facas e vão derramar sangue com
a mesma facilidade. — Percebi. Sangue é a sua especialidade, emoções são
a minha. Ela será fácil de manipular por um tempo.
— Não tenha tanta certeza — zomba Zaiah. — Ela percebeu que eu
estava tentando fazê-la fazer um desejo muito rapidamente. Foi... — Ele
respira fundo pelo nariz. — Irritante.
Ergo uma sobrancelha diante da admissão de Zaiah. É raro um djinn ser
frustrado, especialmente ele. Essa Adelaide está se mostrando mais
interessante a cada minuto.
— Bem, bem — digo arrastado. — Parece que a Bonequinha de Luz
tem algum fogo nela, afinal.
Corvus ri sombriamente. — Mais um motivo para nos aproximarmos.
Eu adoro um desafio. E se estamos lidando com fogo, você sabe de quem
precisamos.
Eu rio. — Ignatius estará aqui amanhã. Ele tinha... coisas para resolver.
— A erupção vulcânica em Feeore? — pergunta Zaiah com um sorriso
conhecedor.
— Quem sou eu para dizer? Mas voltando à Srta. Black. Há algo
intoxicante na ideia de corromper alguém tão pura.
— Oh, você não tem ideia de quanto estou ansioso por isso — murmura
Corvus.
Minha mente volta para o verão no Reino dos Fae Negros. As
intermináveis lições sobre diplomacia e governança, as monótonas
cerimônias rituais, a pressão constante para ser o príncipe perfeito - era
sufocante. Mas também aprimorou minhas habilidades e aguçou meus
poderes de maneiras que eu não esperava. Eu evoluí, e esse é um segredo
que pretendo guardar pelo maior tempo possível.
Flexiono meus dedos, sentindo as sombras dançarem entre eles. A
escuridão responde a mim agora mais do que nunca, uma entidade viva e
respirante sob meu comando. Posso manipular emoções com mais finesse e
tecer ilusões tão reais que podem enganar até o olhar mais perspicaz. A
magia da natureza... bem, digamos que a floresta ao redor de MistHallow
nunca me pareceu tão viva. As palavras do meu pai ecoam em minha
cabeça, um mantra martelado em mim pelos últimos vinte e um anos: —
Somos necessários, Zephyr. Trazemos equilíbrio à luz; lembramos ao
mundo de suas sombras. Sem nós, não há contraste, não há profundidade
na existência.
— Você está tramando — observa Zaiah, me tirando de meus
pensamentos incessantemente vagantes. — Posso praticamente ver as
engrenagens girando nessa sua mente ardilosa.
Sorrio, sem me preocupar em negar. — Sempre, meu amigo. Sempre.
Corvus se inclina, seu interesse despertado. — Quer compartilhar com a
turma?
Considero por um momento. Esses dois, junto com Ignatius, são meus
aliados mais próximos em MistHallow, por mais que eu odeie admitir. Já
causamos nossa cota de caos juntos, empurramos limites que deveriam ter
permanecido intocados. Mas isso... isso parece diferente. Maior.
— Ainda não — decido. — Vamos ver como nossa Pequena
Bonequinha de Luz se adapta primeiro. Ter uma leitura melhor dela.
— Tudo bem — ele resmunga. — Mas não pense que pode me manter
fora disso por muito tempo. Eu quero uma parte da ação.
Aceno com a cabeça, reconhecendo sua reivindicação. — Você terá sua
chance. Todos nós teremos. Afinal, compartilhar é se importar.
Zaiah bate palmas, seus olhos brancos brilhando de excitação. — Bem,
cavalheiros, este promete ser um ano interessante. Eu, por um, mal posso
esperar para ver como tudo se desenrola.
Com isso, ele pisca para fora da existência, deixando para trás nada
além de um leve aroma de sândalo e magia.
Corvus permanece por mais um momento, seus olhos perscrutando os
meus. — Cuidado, Zeph — ele adverte. — Randall Black não é alguém
com quem se deva brincar.
Dou-lhe um sorriso feroz. — Nem eu, Corvus. Nem eu.
Ele acena, com um toque de respeito em seu olhar, antes de se
transformar em sua forma de morcego novamente e levantar voo. Eu invejo
essa habilidade? Às vezes. Faes, diferentemente das fadas, não têm asas, o
que é bom na maioria dos dias, mas hoje, estou agitado. Adelaide Black
cravou suas garras em minha alma e tem um aperto que não soltará.
Finalmente sozinho, solto um longo suspiro, sentindo o peso da
expectativa se instalar em meus ombros. Como o príncipe herdeiro dos Faes
Sombrios, estou acostumado à pressão. Mas isso parece diferente. Há uma
carga no ar, uma sensação de mudança iminente que faz minha pele
formigar de antecipação.
Fecho os olhos, estendendo meus sentidos. A floresta ao meu redor
pulsa com vida, cada árvore e lâmina de grama cantando sua própria canção
única. Posso sentir as emoções das criaturas que chamam este lugar de lar -
o contentamento de um coelho em sua toca, a fome de uma coruja caçando
e a excitação nervosa dos novos alunos chegando ao campus.
E lá, bem na borda da minha percepção, algo novo - uma presença que
parece ao mesmo tempo familiar e totalmente estranha - Adelaide. Mesmo
desta distância, posso sentir o turbilhão de suas emoções - medo, excitação,
curiosidade, tudo misturado em uma combinação inebriante.
Abro os olhos, um sorriso lento se espalhando pelo meu rosto. Oh sim,
isso vai ser divertido.
Com um pensamento, me fundo às sombras, permitindo que a escuridão
da densa floresta me envolva. É um abraço reconfortante, fresco e familiar.
Movimento-me através das árvores invisível, voltando para o campus
principal.
Enquanto viajo, minha mente contrasta MistHallow com meu lar no
Reino dos Faes Sombrios. Os corredores intermináveis do palácio de
obsidiana, os sussurros e complôs da corte, o peso do mundo em meus
ombros. É um mundo tão diferente de MistHallow, mas de muitas maneiras,
o mesmo. As regras, a disciplina, o foco. É um dreno emocional quando
tudo que quero fazer é causar estragos e esquecer o que sou e apenas ser
quem eu sou.
É uma liberdade que eu valorizo, mesmo sabendo que é temporária.
Emerjo das sombras perto da biblioteca, meus olhos imediatamente
atraídos para a janela no andar superior novamente.
Por um momento, sou tentado a usar meus poderes para observá-la de
perto sem seu conhecimento. Uma simples ilusão poderia me tornar
invisível, permitindo que eu me sentasse ao lado dela sem que ela soubesse.
Mas algo me impede. Talvez seja a influência persistente das lições do meu
pai sobre honra e contenção. Ou talvez seja apenas a emoção do
desconhecido, a antecipação de desvendar seus mistérios lentamente, peça
por peça tentadora.
Em vez disso, viro-me, indo em direção ao meu quarto na Ala Leste.
Enquanto caminho, posso sentir os olhos de outros estudantes em mim.
Alguns cheios de medo, outros de admiração, outros ainda com ódio mal
disfarçado. Ignoro todos eles, acostumado à atenção que meu status traz.
As aulas começarão na próxima semana, e os jogos estarão em pleno
vigor. Pretendo estar no centro de tudo, puxando cordas, tecendo tramas e
vendo até onde posso empurrar antes que algo - ou alguém - empurre de
volta.
Ao chegar ao meu quarto, faço uma pausa, com a mão na maçaneta
dourada. Pobre Adelaide, lançada neste mundo de política sobrenatural e
rancores antigos sob o disfarce de uma instituição de ensino amigável. Ela
vai precisar de aliados, amigos em quem possa confiar nesta toca de
monstros.
Com esse pensamento, entro em meu quarto, já planejando meu
primeiro movimento neste delicioso novo jogo. — Cuidado, Pequena
Bonequinha. Sua luz está prestes a encontrar as sombras mais escuras que
MistHallow tem a oferecer.
10

ADELAIDE

S ACUDINDO o desconforto persistente do meu encontro com os três homens


misteriosos e sobrenaturais, volto minha atenção para a tarefa em questão.
A biblioteca parece sentir meu desespero em saber sobre vampiros e como
neutralizar essa assustadora habilidade de me fazer fazer o que eles querem,
simplesmente com uma palavra dita, quando de repente, um livro chama
minha atenção. Sua lombada brilha suavemente, como se me chamasse.
Estendo a mão e o puxo da prateleira, surpresa com seu peso.
— Vampiros: Um Guia Abrangente sobre os Filhos da Noite — leio em
voz alta, traçando meus dedos sobre o título em relevo. Bem, isso
certamente é direto ao ponto.
Acomodo-me em uma poltrona macia escondida em um canto, longe de
olhares curiosos - não que haja alguém aqui em cima para começar. Quando
abro o livro, as páginas parecem brilhar, e sou atingida por uma lufada de
algo metálico. Sangue? Reprimo o impulso de lamber as páginas e
continuo.
O livro me envolve rapidamente. É fascinante, mergulhando fundo no
folclore e na biologia dos vampiros. Aprendo sobre sua força e velocidade
aprimoradas, sua capacidade de cura rápida e seus sentidos aguçados. Ele
explica a habilidade de compulsão que Corvus usou em mim, um poder que
permite aos vampiros controlar as mentes de seres mais fracos. Estremeço,
lembrando o quão impotente me senti.
— Fraca — murmuro, meus dedos roçando essas palavras. É isso que
eu sou - fraca. Não quero ser fraca. Não quero que essas criaturas venham
atrás de mim porque acham que podem fazer o que quiserem comigo. Já
passei por isso na escola primária. Intimidada até meu primeiro episódio de
automutilação, jurei nunca mais estar nessa posição. Eu seria mais forte ou,
na pior das hipóteses, simplesmente não me importaria.
Já domino a apatia. A maioria das coisas não me interessa, mas nos
últimos dois dias tive mais emoções passando por mim do que
realisticamente sei lidar. Não estou equipada para lidar com isso, então
preciso descobrir uma maneira, rápido, de ficar mais forte.
Continuo lendo, absorvendo informações sobre as fraquezas dos
vampiros, sendo a luz solar direta a pior e mais limitante, sua necessidade
de sangue e seu lugar na hierarquia sobrenatural, que é bem alto na cadeia
alimentar. Suponho que tenho isso a meu favor, pelo menos em parte.
Aprendo sobre vampiros nascidos de dois vampiros que são fortes,
enquanto vampiros transformados são muito mais fracos e estão sujeitos a
mais limitações e restrições. Estou supondo que meu compelidor, Corvus, é
um vampiro nascido. Não há nada de mediano ou fraco nele.
Lendo sobre sangue e hábitos alimentares, percebo que estou ficando
com fome. Os sanduíches da minha mãe já eram, então vou ter que levantar
a bunda e encontrar o refeitório, imaginando se posso guardar alguns extras
para lanches no meu quarto para mais tarde, ou melhor ainda, comida
suficiente para não ter que descer novamente até amanhã. Estou
extremamente cautelosa depois de ter sido submetida à compulsão e não
quero dar a esses caras uma segunda chance comigo.
Ainda não, pelo menos.
Relutantemente, fecho o livro e me levanto, esticando os nós nas costas.
Lembro-me do meu mapa mágico que me guia pelo campus, então,
perturbando Orby, vasculho minha mochila até encontrar o pedaço de
pergaminho dobrado.
Ao desdobrá-lo, ele ganha vida, com a tinta se espalhando pela
superfície para formar um mapa intrincado de MistHallow. É bonito e um
pouco confuso, com edifícios que parecem se mover e mudar enquanto
observo.
— Certo — murmuro. — Como uso essa coisa? — Como se em
resposta, um ponto brilhante aparece no mapa, pulsando suavemente. Deve
ser eu.
— Okay, mapa mágico — digo, me sentindo apenas um pouco ridícula
falando com um pedaço de papel. — Onde fica o refeitório?
Um caminho se ilumina no mapa, levando da minha localização na
biblioteca, passando por corredores sinuosos e atravessando um pátio até
um grande edifício.
Coloco a mochila no ombro e parto, seguindo o caminho brilhante, com
Orby ao meu lado. Os corredores de MistHallow estão quietos, o que é
ótimo para mim.
Ao atravessar o pátio, o ar sombrio do meio da manhã me refresca
depois de ficar confinada na biblioteca.
Chego ao refeitório, empurrando as pesadas portas de madeira. Lá
dentro, o salão é vasto, com longas mesas se estendendo pelo comprimento
da sala. Há centenas de estudantes amontoados lá dentro, o que me faz
perceber que é mais tarde do que eu pensava. É hora do almoço, e eu não
poderia ter escolhido um momento pior para vir procurar comida.
No extremo oposto, avisto a área de servir. Ao me aproximar, fico
surpresa ao ver que a comida aparece fresca e quente diante dos meus
olhos.
Tudo cheira maravilhosamente, mas meus olhos são atraídos para os
grandes copos para viagem de sangue com canudos saindo deles. Deve ser o
sangue sintético que o Professor Blackthorn mencionou. Estendo a mão
para um, hesitante, e dou de ombros.
— Que se dane, Addy. Você bem que poderia experimentar. — Além
disso, isso me dá todo aquele visual de ela-é-uma-vampira que estou
tentando passar.
Encontrando um lugar vazio em uma das longas mesas, sento-me e
coloco meus lábios sobre o topo do canudo e chupo. O gosto metálico
atinge minha língua, e reprimo o gemido de pura satisfação.
Uma sombra cai sobre mim, fazendo meu coração saltar, e olho para
cima para ver uma garota mais ou menos da minha idade com cabelo roxo
vibrante e olhos que parecem mudar de cor enquanto observo.
— Oi — ela diz, sua voz amigável. — Você é Adelaide Black, certo? Eu
sou Lyra.
Aceno com a cabeça, aliviada por não ser Corvus, Zephyr ou Zaiah. —
Sim, sou eu. Prazer em conhecê-la.
Lyra senta-se na minha frente, seu sorriso largo e genuíno. — Você está
se adaptando bem? Ficarei feliz em te mostrar o lugar e te ajudar a se
acostumar com o velho campus, se quiser.
Seu entusiasmo é um pouco avassalador depois do dia que tive, mas é
bom encontrar alguém que não pareça querer me comer, me compelir ou me
enganar para fazer desejos.
— Acho que estou me virando — murmuro enquanto Orby está rolando
em círculos na mesa à minha frente. Os olhos de Lyra se voltam para ele, e
ela ergue uma sobrancelha. — Você tem um orbe?
— Sim. Ele é bem útil.
— Aposto que sim — ela murmura, e sua atitude amigável diminui um
pouco.
Okay, nota mental. Orbes não são dados a todo mundo. Eu nem tinha
percebido.
Lyra de repente fica tensa, seus olhos fixos em algo atrás de mim. — Uh
oh — ela murmura. — Problemas às seis horas.
Eu me viro para ver o que ela está olhando, e meu coração afunda.
Corvus e Zephyr acabaram de entrar no refeitório, seus olhos examinando o
local até pousarem em mim. Sorrisos lentos e predatórios se espalham em
seus rostos.
— Amigos seus? — Lyra pergunta, com a voz baixa.
Balanço a cabeça. — Não exatamente. Tivemos um pequeno
desentendimento mais cedo na biblioteca.
A expressão de Lyra fica séria. — Tenha cuidado com esses dois,
Adelaide. Eles são má notícia.
— Sim, eu tive essa impressão — murmuro.
— Não deixe Zaiah te enganar pensando que ele é o policial bonzinho.
Ele é perigoso.
— Eu sei.
Ela continua falando como se eu nem tivesse falado.
— E o elemental de fogo realmente fofo que anda com eles é legal, mas
tome cuidado com ele também.
Franzo a testa para ela. Parece-me que ela está exagerando ao tentar me
afastar desses caras com quem não tenho intenção de falar novamente, se
depender de mim. Será que ela tem um motivo oculto ou está apenas
tentando ajudar?
Quando ela olha para o orbe novamente e fica com o rosto petrificado
por um segundo antes de ajustar suas feições, percebo que essa mulher não
é confiável. Forço um sorriso e aceno para Lyra, mas agora estou alerta. —
Obrigada pelo aviso — digo, mantendo minha voz neutra. — Vou manter
isso em mente.
Enquanto Corvus e Zephyr se aproximam de nós, sinto uma onda de
pânico. Não estou pronta para encará-los novamente, não depois do que
aconteceu na biblioteca. Preciso de mais tempo para processar, para
descobrir como me proteger.
— Preciso ir — digo abruptamente, levantando-me e pegando minha
mochila enquanto Orby voa para o alto. — Foi bom te conhecer, Lyra.
Ela parece irritada por eu tê-la dispensado. — Claro, tanto faz. Te vejo
por aí.
Viro-me para sair, mas Corvus e Zephyr já estão lá, bloqueando meu
caminho. Os olhos roxos e prateados de Zephyr dançam com diversão,
enquanto o olhar de Corvus é intenso, quase faminto.
— Indo a algum lugar, Adelaide? — Zephyr pergunta, sua voz suave
como seda.
Tento passar por eles, mas a mão de Corvus dispara, segurando meu
braço frouxamente. Seu toque envia um choque através de mim, medo e
algo mais que não quero nomear, mas começa com 'l' e termina com
'uxúria'.
— Me solta — rosno, puxando meu braço. Para minha surpresa, ele me
solta imediatamente.
— Só queremos conversar — diz Corvus, seus olhos azuis perfurando
os meus. — Sem compulsão, eu prometo.
Eu zombo. — Claro, porque eu deveria realmente confiar na palavra de
um vampiro que já fodeu com minha mente uma vez hoje.
Zephyr ri, o som enviando arrepios pela minha espinha. — Bem, ela te
pegou nessa.
— Mm, foder com a mente — Corvus murmura, e eu coro pela primeira
vez em muito tempo. É mortificante.
Olho ao redor, procurando uma rota de fuga, mas o refeitório de repente
parece impossivelmente lotado. Lyra desapareceu, me deixando sozinha
com esses dois predadores.
— Olha — digo, tentando manter minha voz firme — não sei qual é o
jogo de vocês, mas não estou interessada. Só me deixem em paz.
— Sem jogo, Adelaide — diz Zephyr, sua expressão ficando séria. —
Estamos aqui para fazer as pazes.
— Fazer as pazes? Por me compelir e me tocar contra minha vontade —
sibilo.
Os olhos de Zephyr se estreitam, e ele dá um passo para trás,
marginalmente, mas me dá espaço mesmo assim. Seus olhos examinam os
meus, e ele acena imperceptivelmente, mas é como se ele entendesse. —
Pedimos desculpas, Senhorita Black.
Ele agarra Corvus pelo braço, arrastando-o para longe, protestando em
voz alta.
Suspiro de alívio, mas agora estou mais confusa do que nunca. Pegando
minha bebida de sangue, saio apressadamente do refeitório o mais rápido
que posso sem derramar o líquido carmesim por toda a minha camisa
branca. Esqueço completamente de estocar comida para o próximo dia ou
dois. Só quero voltar para o meu quarto, onde estou segura e ninguém pode
me tocar.
11

CORVUS

E U OBSERVO Adelaide sair apressadamente do refeitório, seu longo cabelo


preto balançando atrás dela enquanto foge de nós. Uma parte de mim quer
persegui-la, encurralá-la e, bem, não tenho certeza exatamente do que faria
em seguida. Essa garota me deixa completamente confuso. Mas não posso
ir a lugar nenhum. O aperto firme de Zephyr em meu braço me mantém no
lugar. Ele é mais forte que eu. Ligeiramente, mas ainda assim. Isso me
frustra, e é algo que nunca direi a ele; seu ego já é grande o suficiente.
Então, lanço-lhe um olhar superior e me desvencilho dele. Ele me solta com
os lábios franzidos.
— Que diabos, Zeph? Tínhamos ela exatamente onde queríamos.
Os olhos de Zephyr encontram os meus, com uma seriedade que
raramente vejo neles.
— Não, não tínhamos. Nós a assustamos, Corvus. E não da maneira
divertida que normalmente buscamos. Isso não me parece certo.
Bufo.
— Desde quando você se importa em assustar as pessoas? Não é esse
tipo de coisa que fazemos?
— É diferente com ela. Tem algo... não consigo explicar direito. Está lá,
mas é como tentar segurar água.
— O quê? — disparo, ficando irritado com essa besteira.
Zephyr suspira, parecendo exasperado.
— Ela tem aversão ao toque, seu idiota. E não é só do tipo "ah, não
gosto que estranhos me toquem". É mais profundo que isso. Quando a
toquei antes, não senti. Percebi algo que interpretei como medo da situação
toda, mas não, é mais do que isso. Suas palavras e suas emoções só
confirmaram isso.
Franzo a testa, lembrando da reação de Adelaide – o medo em seus
olhos, a maneira como ela puxou o braço para longe de mim como se meu
toque a queimasse.
— Você ser um empata tira a graça de tudo — murmuro, mas ele me
deixou intrigado. — Não gosto de bancar o bonzinho, especialmente
quando a Bonequinha é perfeitamente maleável.
Ele sorri, um pouco de sua travessura habitual voltando aos olhos.
— Ah, pode acreditar, sei exatamente como você se sente. Mas este é
um caso em que devemos pisar mais leve.
— Quer dizer, ser mais astuto — rio baixinho.
— Algo assim.
Com isso, ele se vira e sai do refeitório com passos largos, deixando-me
para refletir sobre suas palavras. Balanço a cabeça, ainda não totalmente
convencido, mas disposto a entrar no jogo. Por enquanto.
Pego uma xícara de sangue sintético e faço uma careta. Nunca provei
essa coisa, mas Adelaide tinha uma, e quero saber o que ela está provando
quando bebe. Dou um gole e quase engasgo.
— Eca — murmuro, mas estou com fome e necessidade faz lei, e tudo
mais.
Saio do refeitório e me dirijo ao meu quarto na Ala Leste, onde a
maioria dos estudantes do quarto ano está alojada, pelo menos os mais
perigosos. Chego ao meu quarto, uma suíte espaçosa que condiz com meu
status como um dos vampiros mais fortes, uma das criaturas mais fortes do
campus. A decoração é de madeira escura e vermelho profundo, tudo muito
clichê, mas já tivemos essa conversa antes. Jogo-me no sofá macio,
colocando os pés sobre a mesa de centro.
Status. A nobre casa Sanguine é uma das linhagens vampíricas mais
antigas e respeitadas. Geralmente, eu me deleito na escuridão do meu
mundo. A força, a velocidade, a habilidade de dobrar os outros à minha
vontade com apenas algumas palavras, mas o lado político, as infinitas
encenações e as punhaladas pelas costas que vêm com o fato de fazer parte
da alta sociedade vampírica, é algo que eu poderia dispensar.
É por isso, em parte, que estou aqui em MistHallow. Oficialmente, estou
aqui para aprimorar minha educação e me preparar para meu futuro papel
na sociedade vampírica. Extraoficialmente, estou aqui porque é o mais
longe que pude chegar dos meus pais superprotetores sem realmente sair do
país.
Fecho os olhos, deixando meus sentidos se expandirem. Posso ouvir as
batidas dos corações das criaturas nos quartos próximos e sentir o cheiro
persistente de sangue. Mas por baixo de tudo isso, aquele estranho e
inebriante aroma que se agarra a Adelaide. Não exatamente vampiro, mas
algo mais.
Levanto-me, subitamente inquieto. Talvez um voo clareasse minha
mente. É a habilidade vampírica que me dá mais prazer – o poder de me
transformar em morcego à vontade. Há uma liberdade nisso que não
encontro em nenhum outro lugar.
Caminhando até a grande janela que ocupa a maior parte de uma parede,
abro-a. O ar fresco entra, trazendo consigo os aromas da floresta além do
campus. Sem hesitação, piso na beirada e me deixo cair para frente.
A transformação é instantânea. Em um momento, estou despencando
em direção ao chão, no outro, estou voando pelo ar com asas de couro. O
mundo parece diferente assim: mais nítido, mais definido. Posso ver cada
folha em cada árvore e ouvir o movimento dos pequenos animais na
vegetação rasteira.
Perdendo-me na simples alegria do movimento, voo mais alto, passando
pelo dossel das árvores. Como um sangue-puro, não sou tão afetado pela
luz do sol quanto os vampiros transformados, mas ainda prefiro a noite. É
quando me sinto mais vivo.
Mergulhando e girando, serpenteando pelo ar, fico entediado mais
rápido do que o esperado. Adelaide Black e sua natureza misteriosa me
incomodam de maneiras às quais não estou acostumado. Voando de volta
para a janela, entro flutuando e volto à minha forma humana. Paciência
nunca foi meu forte, e o plano de Zephyr de jogar o jogo longo não vai
funcionar para mim. Preciso de ação e preciso de respostas.
Caminho até minha escrivaninha, pegando um diário encadernado em
couro. É onde mantenho o registro de todas as informações interessantes
que aprendi sobre meus colegas – seus pontos fortes, suas fraquezas, seus
segredos. Afinal, informação é poder.
Abro uma página em branco e escrevo "Adelaide Black" no topo.
Embaixo, anoto o que sei até agora:

- Vampira... de certa forma.


- Filha de Randall Black
- Aversão ao toque
- Fácil de compelir
- Cheiro incrível

Não é muito para se basear, mas é um começo. Bato a caneta contra o


papel, pensando. Há muito mais que quero saber. Quais são as habilidades
dela? Quão forte ela é? E o mais intrigante, por que ela foi escondida todo
esse tempo?
Uma batida na minha porta interrompe minhas reflexões. Fecho o
diário, deslizando-o de volta para seu esconderijo.
Atravessando o quarto para abrir a porta, vejo um rosto familiar.
Ignatius, o elemental do fogo que anda com Zephyr, Zaiah e eu, está ali,
com aquele sorriso malicioso no rosto. — Sentiu minha falta, otário? — ele
diz, seus olhos âmbar brilhando levemente na penumbra do meu quarto
enquanto passa a mão pelos cabelos escarlates.
— Como um buraco na cabeça, Ig — respondo arrastado, dando um
passo para o lado para deixá-lo entrar.
Ignatius entra no meu quarto, sua presença imediatamente aquecendo o
ambiente. Literalmente. A temperatura sobe alguns graus enquanto ele se
joga no meu sofá, apoiando os pés na mesa de centro como eu tinha feito
antes. Mantenho minha distância. A pele dele não pode me queimar até
virar cinzas, mas arde, e embora eu goste de dor tanto quanto o próximo
vampiro, dor causada por fogo é ir longe demais.
— Então — ele diz, me lançando um olhar conhecedor —, o boato é
que você e o Zeph tiveram um pequeno encontro com a novata. Adelaide
Black, certo?
Estreito os olhos para ele. — As notícias correm rápido.
Ele dá de ombros, com um brilho travesso no olhar. — O que posso
dizer? Tenho meus ouvidos em todo lugar. Ou, neste caso, nos sussurros do
fogo. — Ele estala os dedos, e uma pequena chama dança em sua palma,
que observo com cautela. — Então, desembucha. Como ela é?
Hesito, incerto sobre quanto revelar. Ignatius é um amigo, mas também
é imprevisível. Como o próprio fogo, ele pode ser quente e reconfortante
em um momento e destrutivo no seguinte.
— Ela é interessante — digo finalmente.
Ignatius se inclina para frente, intrigado. — Interessante? — ele zomba.
— Essa é uma palavra para isso. A filha vampira de Black tem que ser mais
do que apenas interessante. O que você não está dizendo?
Olhando fixamente para o fogo na mão de Ignatius, faço uma pausa, não
muito certo do que dizer. Mas de repente me atinge com toda a força de
uma realização que esteve diante do meu rosto o tempo todo. Sei
exatamente o que ela é. Sorrindo lentamente, secretamente, lanço a Ig um
olhar inexpressivo. — Nada, cara. Ela é um enigma.
Mas um que eu acabei de decifrar.
12

ZAIAH

E NQUANTO A NÉVOA se adensa ao redor da Universidade MistHallow, eu


pairo invisível, nebuloso e intrigado do lado de fora da janela da Torre
Norte de Adelaide Black. Ela poderia me ver se estivesse inclinada a se
concentrar e separar a névoa da minha forma, mas duvido que o faça. Essa
garota é um enigma que desperta minha curiosidade. Tenho observado ela
desde que chegou a MistHallow, intrigado pelas ondas de mudança que já
está causando neste lago estagnado de política sobrenatural.
Como um djinn, estou acostumado a observar das margens. Não
devemos interferir diretamente, apenas conceder desejos e deixar o caos se
desenrolar. Mas há algo em Adelaide que me faz querer quebrar todas as
regras. Talvez seja a maneira como ela resistiu à minha tentativa de enganá-
la para fazer um pedido anteriormente. Não são muitos que conseguem
fazer isso, especialmente alguém que sinto não ser tão forte quanto poderia
ser ainda. Randall Black a manteve em segredo por todo esse tempo, mas
me pergunto se sua verdadeira natureza foi suprimida de alguma forma. Isso
significaria que ela não é totalmente vampira. Ela é algo mais misturado.
Humana? Bruxa? Metamorfa? Algo.
Observo enquanto ela anda de um lado para o outro em seu quarto, seu
orbe de estimação agitado pelo seu humor. Olho feio para o orbe enquanto
ele zune até a janela e paira, quase como se me visse. Para ser justo,
provavelmente vê. Essas coisas estão acima do meu nível de pagamento,
magicamente falando, e são dadas apenas aos estudantes VIP mais 'I'.
Claramente, Adelaide Black é uma delas. Não que eu esperasse menos da
filha de um dos membros fundadores da Universidade MistHallow. Ela é
tão 'I' quanto se pode ser.
Com um pensamento, sintonizo meus sentidos à sua frequência,
deixando-a me envolver. É uma corrida inebriante, como mergulhar em um
mar turbulento. Sua energia é tão crua, tão intensa. É refrescante depois de
anos lidando com as emoções abafadas de seres sobrenaturais de longa
vida.
Adelaide para de andar e pega sua bebida de sangue, dando um pequeno
gole e parecendo saborear o gosto. — Estúpidos, arrogantes idiotas
sobrenaturais — ela murmura. — Quem eles pensam que são?
Eu rio silenciosamente. Se ela soubesse a metade disso. Corvus e
Zephyr pensam que são os tais, mas têm o poder e o background
necessários para sustentar isso.
Ela suspira e tira um livro de sua mochila. Enquanto Adelaide se
acomoda para ler, eu me alimento de sua essência, puxando-a para cada
célula da minha forma dissipada. Aos vinte e um anos, sou pouco mais que
um bebê em termos de djinn. A maioria dos meus semelhantes são seres
antigos com séculos ou até milênios de experiência. Mas eu? Sou uma
anomalia, um djinn nascido na era moderna. O único. Isso me torna incrível
também.
Meus pais, ambos djinns poderosos por direito próprio, ficaram
chocados quando eu vim à existência. A reprodução dos djinns é rara,
acontecendo apenas uma vez a cada poucos séculos. Ter um filho nesta era
de tecnologia e ceticismo era inédito.
Desde o momento em que nasci, eu era diferente. Enquanto outros
djinns se agarravam a tradições antigas e regras rígidas sobre a concessão
de desejos, eu abracei o caos do mundo moderno. Por que se limitar a
lâmpadas e anéis quando você poderia se esconder em smartphones ou se
aninhar na nuvem?
Flexiono meus músculos mágicos, sentindo a familiar onda de poder.
Como um djinn, posso manipular a própria realidade, dobrando o tecido da
existência à minha vontade. Mas é mais do que apenas conceder desejos. É
sobre entender a intrincada teia de causa e efeito, vendo as ondulações que
cada ação cria no lago da realidade.
Com um pensamento, crio uma pequena dimensão de bolso dentro do
quarto de Adelaide e me movo para dentro dela. Para ela, nada mudou. Mas
neste espaço oculto, posso me mover livremente, experimentando com
meus poderes sem medo de detecção.
Conjuro um vórtice turbilhonante de areia, cada grão um futuro
potencial, um possível resultado. É assim que vejo o mundo - não como
uma realidade fixa, mas como uma paisagem em constante mudança de
possibilidades. É o que torna a concessão de desejos tão complicada e tão
divertida.
Volto minha atenção para Adelaide. Ela ainda está lendo, alheia à minha
presença ou à dimensão em miniatura que criei em seu quarto. Eu me
pergunto o que ela desejaria se tivesse a chance. Poder? Conhecimento?
Amor?
É tentador me revelar, oferecer a ela três desejos como nas velhas
histórias. Mas não é assim que funciona, não realmente. Desejos são coisas
traiçoeiras, nascidas dos desejos mais profundos do coração. Mas eles
precisam ser falados em voz alta e concedidos por um ser místico. Eles
estão constantemente sendo feitos e realizados, moldando o mundo de
maneiras sutis.
Meu trabalho é empurrar esses desejos adiante. Encontrar os desejos
ocultos e trazê-los à luz, muitas vezes com consequências inesperadas. É
um jogo de estratégia e caos, e eu amo cada minuto disso. Essa é a beleza
de ser um djinn. Não se trata de poder cósmico ou magia que altera o
mundo. É sobre as pequenas mudanças, o efeito borboleta que pode
transformar um pequeno desejo em um furacão de consequências.
Isso me torna uma espécie de pária em nossa comunidade, o que está
bem. É por isso que estou aqui em MistHallow em primeiro lugar. A
instituição que acolhe os desajustados, os desinformados e os rebeldes.
Acaba chegando aqui uma bagunça bem misturada de criaturas, mas é isso
que torna tudo ainda mais interessante. Você não sabe com quem vai se
deparar.
Enquanto me concentro intensamente em nossa garota, percebo que ela
adormeceu, o livro escorregando de suas mãos. Estou tentado a usar minha
magia para cobri-la, para aliviar a ruga de concentração de sua testa. Mas
isso seria cruzar uma linha que ainda não estou pronto para ultrapassar. Em
vez disso, simplesmente observo enquanto ela dorme inquieta, seus sonhos
sem dúvida cheios de presas e magia e o estranho novo mundo em que se
encontrou.
Flutuo mais perto, estudando seu rosto. Há poder escondido sob a
superfície. Poder que poderia rivalizar até mesmo com os seres
sobrenaturais mais antigos se devidamente aproveitado. É intoxicante estar
perto, como ficar à beira de uma tempestade.
De repente, o impulso de nos unir me cutuca. É arriscado, quebrar as
regras de não interferência que foram marteladas em mim desde o
nascimento, mas que ignoro quase diariamente. Quero que ela seja minha
assim como sou dela. Tenho um anseio por ela, que me faz doer. É
repentino, perigoso e irracional, mas o que um djinn quer, um djinn
consegue.
Com um aceno de mão, envio um fio de magia em direção à forma
adormecida de Adelaide. É sutil, tão sutil que nem mesmo os seres mais
poderosos de MistHallow notarão até que seja tarde demais para ela fazer
algo a respeito. Ela está ligada a mim agora, e nada mudará isso a menos
que eu quebre o vínculo. Mas sei que está lá, uma pequena ondulação que
pode se transformar em uma onda gigante.
Conforme retiro minha magia, sinto um arrepio de excitação. É por isso
que adoro ser um djinn na era moderna. Os antigos se contentam em esperar
séculos para que suas intromissões se desdobrem. Mas eu quero ver
resultados agora, estar no meio da ação enquanto acontece. Gratificação
instantânea.
Olho para o relógio na mesa de cabeceira de Adelaide. Está ficando
tarde, e meu horário noturno está uma bagunça. Devo voltar para meu
quarto e me ajustar conforme necessário. Mas antes de ir, decido deixar
mais uma pequena surpresa.
Com um estalar de dedos, crio uma pequena garrafa ornamentada na
escrivaninha de Adelaide. Não é uma lâmpada tradicional de djinn, mas
uma versão moderna do conceito. Dentro, névoas de possibilidades
esperam, prontas para conceder um desejo, mas apenas se ela descobrir
como usá-la.
É um risco, deixar um traço tão óbvio da minha presença, especialmente
com aquela esfera irritante flutuando por aí, me farejando. Mas algo me diz
que Adelaide vai precisar de toda a ajuda possível nos próximos dias. Se ela
for esperta o suficiente para resistir à minha primeira tentativa de enganá-la,
talvez seja inteligente o bastante para usar esse presente com sabedoria.
Enquanto me preparo para partir, dou uma última olhada na bela
adormecida. Adelaide Black, a garota que poderia mudar tudo. Posso ser
jovem para um djinn, mas sei o suficiente para reconhecer um momento
decisivo quando o vejo. O que quer que aconteça a seguir, vai ser uma
aventura e tanto.
Com um sorriso, desapareço da vista, minha forma se dissipando em
fumaça enquanto fecho a dimensão de bolso e viajo na névoa de volta ao
meu quarto, minha mente já fervilhando de possibilidades. Como Adelaide
reagirá ao meu presente? O que ela fará com a centelha de poder que lhe
dei? E como posso me posicionar para estar bem no meio do caos quando
tudo se desenrolar?
De volta ao meu quarto, me materializo completamente, esticando
minha forma corpórea. Meu quarto é uma mistura de tecnologia moderna e
artefatos antigos, um reflexo do meu lugar único no mundo dos djinns. Um
setup de jogos de última geração está ao lado de um tapete persa milenar...
um tapete voador, se preferir, protegido por magia e forças invisíveis. Meu
celular - um portal para incontáveis desejos esperando para serem
manipulados - está na minha escrivaninha ao lado de uma lâmpada de óleo
tradicional.
Me jogo na cama, minha mente ainda zumbindo com os eventos da
noite. Observar Adelaide, ligá-la a mim, deixar a garrafa... é uma
intervenção mais direta do que já tentei antes. Meus pais ficariam furiosos
se soubessem. Mas, por outro lado, eles nunca realmente me entenderam.
Para eles, ser um djinn é tudo sobre manter o equilíbrio e jogar o jogo
longo. Eles não entendem por que me importo com redes sociais,
videogames ou qualquer uma das armadilhas da vida moderna. Somos seres
atemporais. Por que se preocupar com as fantasias passageiras dos
mortais?
Mas é exatamente por isso que eu amo. O ritmo acelerado, a mudança
constante, o fluxo interminável de desejos e vontades flutuando pelo éter
digital. É um playground para mim, cheio de oportunidades para causar
travessuras e confusão.
Pego meu celular, rolando pelas várias redes sociais. Cada post, cada
comentário, cada curtida é um pequeno desejo esperando para ser atendido
ou distorcido. A garota esperando que sua paixão note sua última selfie. O
cara desejando que seu tweet inteligente se torne viral. O influenciador
desesperadamente querendo atingir o próximo marco de seguidores.
Com alguns toques e um pouco de magia de djinn, coloco algumas
engrenagens em movimento. A paixão notará a selfie, mas apenas porque
um detalhe embaraçoso no fundo se tornará viral. O tweet inteligente
explodirá, mas desencadeará uma controvérsia para a qual o autor não
estava preparado. O influenciador receberá um influxo massivo de
seguidores, mas todos serão bots que destruirão suas taxas de engajamento.
Coisas pequenas, mas caos, mesmo assim. É para isso que eu vivo.
Encontro meus pensamentos voltando para Adelaide. Ela é diferente dos
mortais usuais com quem lido. Seus desejos e vontades são mais profundos
e complexos. Ela não quer fama, fortuna ou validação passageira. Ela quer
compreensão, controle e um lugar para pertencer.
É refrescante, na verdade. E desafiador. Como você realiza um desejo
assim? Como você distorce algo tão puro e focado completamente em si
mesmo? É envolvimento próprio em seu auge, mas não de forma ruim. Ela
está sozinha, verdadeiramente sozinha, então as pessoas e coisas ao seu
redor não significam nada.
Ainda.
Quando meu vínculo tiver crescido em força, ela me terá.
Ela só não sabe disso.
Deito-me com um sorriso enquanto continuo a passar pelo meu celular.
— Cuidado, MistHallow — murmuro. — Você não tem absolutamente
ideia do que está por vir.
13

ADELAIDE

A CORDO SOBRESSALTADA , desorientada e sonolenta. O livro que eu estava


lendo está aberto sobre meu peito, e percebo que devo ter cochilado
enquanto estudava. Esfregando os olhos, me sento e olho para o relógio. Já
é tarde da noite. Devo ter dormido por horas.
Quando me espreguiço, algo parece estranho. Há uma sensação estranha
me puxando, como um fio invisível puxando suave, mas insistentemente.
Não consigo identificar exatamente o que é ou de onde vem, mas está lá,
uma presença constante na borda da minha consciência.
— Que diabos? — murmuro, balançando a cabeça como se pudesse me
livrar da sensação. Mas ela persiste, um puxão sutil na minha alma. Acho
que estar aqui em MistHallow está transformando meu corpo de maneiras
que nem percebo.
Tentando ignorar a sensação, balanço as pernas para fora da cama e me
levanto. É então que noto um pequeno frasco ornamentado em minha
escrivaninha. Franzo a testa, certa de que não estava lá antes de eu
adormecer.
Cautelosamente, me aproximo da escrivaninha. O frasco é lindo, feito
do que parece ser vidro fumê com intrincados designs prateados gravados
em sua superfície. Dentro, posso ver névoas rodopiantes de algo. É
hipnótico, e estendo a mão para tocá-lo antes que possa me conter.
Quando meus dedos roçam o vidro frio, sinto um choque de poder e
magia. Não tenho certeza, mas faz com que a estranha sensação de puxão se
intensifique por um momento antes de voltar ao seu nível anterior.
— Tá bem, isso é oficialmente esquisito — digo para Orby, que está
pairando por perto tão despreocupadamente quanto um orbe mágico pode.
— De onde isso veio? E que diabos é isso?
Virando-o, não há rótulo, nem instruções, nada que indique seu
propósito ou origem. Mas algo nele parece familiar. Como se fosse
destinado a mim, de alguma forma.
Balançando a cabeça, coloco o frasco de volta. Já tenho mistérios
suficientes para lidar agora sem adicionar um misterioso artefato mágico à
mistura.
Voltando-me para minha cama, pego o livro da biblioteca que estava
lendo antes de adormecer. "Vampiros: Um Guia Abrangente sobre os Filhos
da Noite". Certo. Porque essa é minha vida agora. Estudando sobre o que
sou - ou pelo menos, metade do que sou.
Folheio as páginas, tentando me concentrar nas palavras, mas aquela
sensação persistente de puxão continua me distraindo. É como uma coceira
que não consigo coçar, um pensamento que não consigo captar
completamente.
Determinada a ignorar a sensação, mergulho de volta no estudo. Leio
sobre os pontos fortes dos vampiros - velocidade, força e sentidos
aprimorados. Não que eu tenha notado algo disso em mim ainda.
Então, há as fraquezas menos conhecidas. Prata queima ao contato. Não
uso joias, mas guardo essa informação de qualquer forma, só por precaução.
Olho para o relógio quando meu estômago ronca. Já passou da hora do
jantar agora, e aquele sangue, embora particularmente satisfatório na hora,
não me encheu. Preciso de comida humana. Acho que vou ter que encontrar
um equilíbrio. Torta de carne regada com uma xícara de sangue. Ou talvez
um bife mal passado seria incrível. Cortar aquela suculência com sangue
escorrendo por todo o prato. Minha boca começa a salivar, e isso me faz
levantar e ir em direção à porta. Infelizmente, não há outra opção. Vou ter
que enfrentar o refeitório novamente. O pensamento me deixa nervosa.
Depois do meu último encontro com Corvus e Zephyr, não estou
exatamente ansiosa para me colocar no caminho deles novamente.
Mas a fome vence a cautela.
Ouvindo o suave tamborilar da chuva nas janelas, pego meu casaco,
lembrando do cartão preto guardado no bolso, e vou em direção à porta.
Antes de sair, meu olhar cai novamente sobre o frasco misterioso. Sem
pensar muito, pego-o e coloco no bolso. Algo me diz que não devo deixá-lo
para trás.
Os corredores de MistHallow estão fervilhando de atividade, o que me
faz sentir mais segura, de certa forma. Encontrando o refeitório facilmente
desta vez, empurro as portas, aliviada ao ver que está movimentado, mas
não lotado. Alguns estudantes estão espalhados, alguns debruçados sobre
livros, outros conversando baixinho. Não há sinal de Corvus ou Zephyr.
Dirijo-me à área de serviço, examinando a seleção. Quase como se
soubesse que eu estava pensando em bife mal passado, um aparece em um
prato à minha frente com batatas fritas e um acompanhamento de legumes.
Estreitando os olhos com suspeita, dou de ombros, ansiosa para fincar meus
dentes nele, e o levo para uma mesa no canto.
Tiro meu casaco e me acomodo na cadeira, mantendo minhas costas
para a parede para que eu possa ver toda a sala. Enquanto corto o bife, o
rico aroma faz minha boca salivar. A primeira mordida é o paraíso, a carne
praticamente derretendo na minha língua enquanto o sangue enche minha
boca. Fecho os olhos, saboreando a delícia.
— Aproveitando sua refeição?
Meus olhos se abrem de repente ao ouvir a voz desconhecida com o
sotaque estranho, mas leve. Isso é australiano? Um rapaz está parado ao
lado da minha mesa, com um sorriso amigável no rosto. Seus olhos âmbar
parecem brilhar levemente na luz fraca do refeitório, e seu cabelo escarlate
está artisticamente desgrenhado.
— Hum, sim — murmuro, pega de surpresa. — Está bom.
Ele sorri mais. — Se importa se eu me juntar a você? Sou Ignatius, a
propósito.
Antes que eu possa responder que não, eu preferiria que ele não o
fizesse, ele já está deslizando para o assento à minha frente.
— Adelaide — digo secamente, esperando que ele entenda a indireta e
vá embora.
Sem sorte. Ignatius se inclina para frente, seus olhos brilhando de
interesse. Supero minha irritação um pouco diante da pura fofura desse
cara. Ele é adorável. — Então, Adelaide. Você está causando bastante
alvoroço por aqui, sabia?
Franzo a testa, espetando um pedaço de bife com mais força do que o
necessário. — Não estou tentando causar nada.
Ele ri. — Às vezes, apenas existir é suficiente para agitar as coisas,
especialmente quando você é a filha de Randall Black.
Enrijeço ao ouvir o nome do meu pai. Como todo mundo parece saber
quem eu sou? — Você sabe quem eu sou? — pergunto mesmo assim,
ficando irritada.
Ignatius sorri, com um brilho travesso em seus olhos âmbar. — Todo
mundo sabe quem você é, Adelaide. A misteriosa filha de um dos
fundadores de MistHallow aparece de repente depois de ficar escondida por
anos. Você é o assunto mais quente do campus.
Ótimo. Exatamente o que eu precisava - ser o centro das atenções.
Espera! O quê? Um dos fundadores de MistHallow? Bom, ele manteve isso
bem quieto, não é, o filho da puta. Mas faz sentido, considerando como ele
conseguiu me colocar aqui, me deu o que acho ser o melhor quarto e essa
coisa de orbe que a Lyra estava tão invejosa.
Dou outra mordida no bife, mastigando lentamente enquanto considero
minha resposta. — Estou aqui apenas para aprender — digo finalmente. —
Não estou interessada em agitar as coisas ou ser tema de fofocas.
— Justo — diz Ignatius. — Mas você pode não ter muita escolha no
assunto. Especialmente com certas pessoas interessadas em você.
Estreito os olhos. — Certas pessoas como Corvus e Zephyr, você quer
dizer?
Ele assente, parecendo impressionado. — Você pega rápido. É, esses
dois geralmente não prestam muita atenção em novos alunos. Mas você os
intrigou.
— Que sorte a minha — murmuro sarcasticamente. — Acho que isso
faz de você o, como era mesmo? Ah, sim, 'elemental do fogo muito fofo'?
Ignatius ri, o som quente e genuíno. — Aww, quem te falou sobre mim?
— Enquanto ele fala, percebo que o ar ao seu redor parece tremer
levemente, como ondas de calor subindo do asfalto em um dia quente de
verão.
— Fui avisada sobre você — corrijo-o — e isso não é da sua conta.
— Se alguém está falando de mim, quero saber quem é. — Seus olhos
âmbar perfuram os meus.
— Ah, é? Bom, agora você sabe como é.
Ele sorri. — Oh, touché, senhorita Black. Você é uma bomba, não é? —
Ele estende a mão, e faíscas dançam ao redor de seus dedos.
— E você é um pouco exibido — afirmo, enfiando o último pedaço de
bife na boca antes de me levantar enquanto ainda estou mastigando. O prato
desaparece, e eu pego meu casaco e o visto novamente, sentindo o peso da
garrafa no bolso.
Ignatius se levanta também, seus olhos âmbar brilhando com diversão.
— Ah, vamos lá, não vá embora. Estávamos começando a nos divertir.
Reviro os olhos. — Sua ideia de diversão e a minha provavelmente são
muito diferentes, atiçador de fogo.
Ele se aproxima, baixando a voz. — Prodígio. Ótima música, mas eu
não teria tanta certeza disso, Adelaide. Acho que poderíamos nos divertir
muito juntos.
O ar ao nosso redor parece crepitar com energia, e sinto um calor que
não tem nada a ver com seus poderes elementais. Por um momento, estou
tentada a ficar, para ver onde essa provocação pode levar. Mas a lembrança
da compulsão de Corvus e do toque de Zephyr me deixa cautelosa.
— Obrigada, mas não, obrigada — digo, dando um passo para trás. —
Já tive 'diversão' suficiente com seres sobrenaturais por um dia.
Ignatius levanta as mãos em falsa rendição. — Justo. Mas lembre-se,
nem todos nós somos como Corvus e Zephyr. Alguns de nós realmente
sabem brincar direitinho.
— Vou me lembrar disso — murmuro, virando-me para sair. Enquanto
me afasto, posso sentir seus olhos em mim, aquela estranha sensação de
puxão no meu peito ficando mais forte por um momento antes de diminuir
novamente para um suave fervor.
Fora do refeitório, respiro fundo, tentando clarear minha mente. Entre
Corvus, Zephyr, Zaiah e agora Ignatius, parece que não posso ir a lugar
nenhum sem me meter em problemas. Só quero me concentrar nos meus
estudos e descobrir que diabos eu sou, não me envolver em quaisquer jogos
que esses seres sobrenaturais estejam jogando.
— Por que você não está mais preocupado com tudo isso? — murmuro
para Orby, que está alegremente flutuando ao meu lado. — Você sente
perigo? Ou você é apenas um guia mágico, barra companheiro, barra chave
para o meu quarto?
Não surpreendentemente, ele não me responde.
Enquanto volto para o meu quarto, não consigo me livrar da sensação de
que estou sendo observada. Os corredores parecem mais escuros, as
sombras mais profundas. Apresso o passo, ansiosa para voltar à relativa
segurança do meu quarto.
14

IGNATIUS

A DELAIDE DEIXA O REFEITÓRIO , seu longo cabelo preto balançando atrás


dela enquanto se afasta a passos largos. Sorrio enquanto saboreio o calor
persistente do nosso encontro. Ela certamente não é o que eu esperava - e
isso quer dizer muito, considerando os rumores que circulam em
MistHallow sobre a misteriosa filha de Randall Black.
Enquanto volto para minha mesa, repasso nossa conversa em minha
mente. Seu raciocínio rápido, as respostas afiadas, a maneira como ela não
recuou ou se derreteu com minhas flertas como tantas outras fazem. É
refrescante. Intrigante.
Acomodo-me em minha cadeira, distraidamente conjurando uma
pequena chama na palma da minha mão. O fogo dança entre meus dedos,
um reflexo dos meus pensamentos inquietos. Adelaide Black. Uma força a
ser reconhecida por si só, independentemente de quem seja seu pai.
O calor da chama é uma extensão da minha pele, uma sensação
reconfortante que está comigo desde que descobri minhas habilidades pela
primeira vez. Sou um elemental do fogo, mas não apenas um pirocinético
comum. Não, venho de uma longa linhagem de manipuladores de fogo,
minha descendência remontando aos antigos xamãs que primeiro
aprenderam a dominar o poder bruto da chama.
Fecho o punho, extinguindo a chama visível, mas o calor permanece,
correndo por minhas veias como lava. Está sempre lá, uma presença
constante que me conforta e me impulsiona. Alguns dias, parece que minha
pele mal consegue conter o inferno em minha alma. Esses são meus dias
mais... erráticos. Alguns poderiam chamá-los de destrutivos.
Mas tudo se resume à natureza versus criação.
Crescendo em uma comunidade remota escondida no interior da
Austrália, nosso clã, os Emberkin, vive lá por gerações, aprimorando nossas
habilidades e mantendo nossa existência em segredo do mundo exterior.
Lembro-me da primeira vez que chamei o fogo para minhas mãos. Eu mal
tinha cinco anos e já mostrava mais potencial do que muitos adultos em
nosso clã.
Os anciãos ficaram empolgados. Eles me viam como o cumprimento de
uma antiga profecia, aquele que levaria nosso povo a uma nova era. Mas
com essa empolgação vieram pressão e expectativas que às vezes pareciam
me esmagar sob seu peso.
Flexiono meus dedos, sentindo o familiar formigamento de calor logo
abaixo da superfície da minha pele. Mesmo agora, a milhares de
quilômetros da terra tostada pelo sol da minha pátria, ainda posso sentir a
conexão com minhas raízes, com a força primordial do fogo que moldou
meu povo por milênios.
A provocação final de Adelaide - me chamando de "incendiário" - traz
um sorriso irônico ao meu rosto. Se ela soubesse o quão apropriado esse
apelido realmente é. Não sou apenas alguém que pode criar e controlar o
fogo; eu sou o fogo encarnado. As chamas respondem à minha vontade de
maneiras que até mesmo outros elementais acham difícil de compreender.
Olho para meus braços, traçando com os olhos os padrões intrincados
das tatuagens do meu clã. Para os não iniciados, parecem simples desenhos
tribais. Mas cada curva e linha são um condutor para meu poder,
aprimorando meu controle e me permitindo ultrapassar os limites do que
deveria ser possível com a manipulação do fogo.
Com um pensamento, ativo uma das tatuagens no meu antebraço. A
tinta ganha vida, brilhando com uma luz interior enquanto o calor se
espalha pelo meu braço. De repente, o ar ao meu redor treme com o calor, e
sei que se alguém me tocasse agora, recuaria da temperatura escaldante da
minha pele.
Esta é apenas uma das muitas habilidades que aperfeiçoei ao longo dos
anos. Posso elevar a temperatura do meu corpo a níveis quase impossíveis,
criar e moldar o fogo à vontade, e até mesmo imbuir objetos com energia
ígnea. Mas talvez o mais impressionante seja que posso absorver e
redirecionar calor e chamas, tornando-me imune a ataques baseados em
fogo.
Claro, essas habilidades vêm com seu próprio conjunto de desafios.
Controlar um poder tão bruto requer foco e disciplina constantes. Um
deslize, um momento de emoção descontrolada, e eu poderia facilmente
incendiar todo o campus. É uma responsabilidade que pesa sobre mim, um
lembrete constante de por que preciso manter meu verdadeiro potencial
oculto, e por que os anciãos do clã me enviaram para MistHallow.
Reclino-me na cadeira, deixando meu olhar vagar pelo refeitório. Os
outros estudantes, mesmo os outros usuários de fogo, não têm ideia do
inferno que ruge dentro de mim. Para eles, sou apenas Ignatius, o charmoso
e flertador elemental do fogo com um talento para truques de chamas
impressionantes, mas no fim das contas inofensivos.
É um papel que desempenho bem, uma máscara cuidadosamente
construída que me permite me misturar enquanto ainda me destaco o
suficiente para satisfazer meu ego. Mas encontros como o que tive com
Adelaide despertaram em mim uma emoção que eu não achava possível: a
necessidade de alguém que possa ver além da atuação e apreciar a
verdadeira profundidade de quem eu sou.
Fecho os olhos, focando no meu fogo interior. A cada respiração, posso
senti-lo pulsando, crescendo, se espalhando pelo meu corpo até que eu
esteja preenchido com um calor confortável e abrangente. Este é meu
centro, meu verdadeiro eu. O fogo que queima eternamente, que define
quem eu sou na minha essência.
Quando abro os olhos novamente, o mundo parece mais nítido e vívido.
Meus sentidos aprimorados, outro dom da minha natureza elemental,
entram em overdrive. Posso sentir as sutis variações de temperatura em toda
a sala e ver as tênues assinaturas térmicas deixadas por aqueles que
passaram por aqui.
É nestes momentos, quando me permito abraçar plenamente minha
natureza, que me sinto mais vivo. O poder pulsando através de mim, a
consciência aguçada do mundo ao meu redor - é inebriante. Mas também é
isolante, porque como posso realmente me conectar com os outros quando
tenho que manter tanto de mim mesmo escondido?
Com a chegada de Adelaide, não consigo me livrar da sensação de que
as coisas estão começando a se encaixar. Há algo nela, algo além de sua
inteligência rápida e beleza óbvia - um poder, talvez, ou um destino que está
entrelaçado com o meu de maneiras que não consigo compreender.
Mas eu sei disso.
Levanto-me, pronto para voltar ao meu quarto. Enquanto caminho,
deixo um pouco do meu poder escapar, elevando a temperatura ao meu
redor o suficiente para fazer o ar tremer. É uma pequena indulgência, uma
minúscula liberação da pressão constante de conter minha verdadeira
natureza.
De volta ao meu quarto, abandono a persona pública que mantenho
cuidadosamente. Aqui, na privacidade do meu próprio espaço, posso ser
verdadeiramente eu mesmo. As paredes são revestidas com materiais
resistentes ao fogo, uma precaução necessária devido à minha tendência de
literalmente entrar em combustão quando minhas emoções ficam intensas.
Movo-me para o centro do quarto e fecho os olhos, concentrando-me na
respiração. Inspirando e expirando, cada exalação carregando um filete de
fumaça. Sinto o fogo dentro de mim, sempre ardendo, sempre faminto. Com
um pensamento, deixo-o sair.
Chamas irrompem da minha pele, envolvendo-me em um casulo de
fogo. Mas não sinto dor nem medo. Este é o meu elemento, minha
verdadeira forma. O fogo dança ao meu redor, respondendo à minha
vontade e moldando-se em padrões e formas intrincados.
Abro os olhos, observando o jogo de luz e sombra nas paredes. Esta é a
parte de mim que nunca posso mostrar aos outros, o poder cru e primordial
que me define. É belo e aterrorizante, um lembrete constante do meu
potencial e da responsabilidade que vem com ele.
Enquanto as chamas recuam, afundando de volta sob minha pele, movo-
me para a janela, olhando para os terrenos iluminados pela lua de
MistHallow. Em algum lugar lá fora, Adelaide está tentando encontrar seu
lugar neste mundo de magia e mistério. Nossos caminhos estão destinados a
se cruzar novamente, para o bem ou para o mal.
Continuarei observando Adelaide e tentando desvendar o mistério que a
envolve. Não apenas por curiosidade ou atração, mas porque tenho a
sensação de que ela será fundamental para o que quer que esteja por vir.
E seja lá o que for esse algo... é grande.
15

ADELAIDE

— Q UAL É o problema com os caras deste lugar? — murmuro enquanto uso


Orby para abrir a porta do meu quarto na torre. — Não, espera. Qual é o
problema com todo mundo neste lugar? — Lyra também não era
exatamente confiável, não que eu seja a pessoa mais confiante do mundo.
Muito pelo contrário, mas por aqui, a única pessoa... criatura... em quem
sinto que posso mais ou menos confiar é o Professor Blackthorn. Ele
conhece meu pai e tem sido gentil e prestativo. Ele não tentou me enganar,
não teve inveja de mim, nem tentou entrar nas minhas calças.
Suspirando enquanto fecho a porta e me apoio nela, olho fixamente para
a noite. Sinto minha energia aumentar e todo o meu ser ganha vida. Este é o
meu momento, e finalmente entendo o porquê.
Tirando meu casaco, coloco-o em uma cadeira perto do guarda-roupa e
então pego o frasco para olhá-lo novamente. Ele está quente ao toque, o que
acho um pouco estranho, considerando que é apenas uma névoa rodopiante
dentro dele. Deslizando-o para debaixo do meu travesseiro, tiro minha
camisa e então me pergunto como farei minha lavanderia. Deve haver um
lugar, e o mapa vai me mostrar. Tiro-o da minha mochila e olho para ele. —
Lavanderia — murmuro.
Sorrindo quando um ponto vermelho brilhante aparece, aceno com a
cabeça. Não muito longe daqui, felizmente. Não gostava da ideia de desfilar
com minhas roupas sujas por meio campus. Colocando o mapa de volta,
endireito-me usando apenas meu sutiã e então minha respiração fica presa.
O impulso do fundo do meu ser surge, o impulso que tento manter sob
controle para não assustar minha mãe ou as pessoas ao meu redor. Mas
minha mãe não está aqui, e ninguém mais está. Sem nem pensar sobre isso,
alcanço minha bolsa de viagem, que ainda está meio arrumada, e coloco
minha mão bem no fundo, sob o forro de plástico que mantém o fundo
firme, e puxo a faca que escondi ali. Olhando para ela, hesito.
— Espera — murmuro e jogo-a na cama, atravessando o quarto até o
livro aberto sobre vampiros. — Cura rápida...
Nunca tive isso antes, apenas velhas cascas e cicatrizes comuns. Bebi
uma xícara de sangue hoje e comi aquele bife mal passado... será que isso
poderia ser algo que vai começar agora que estou aqui e fazendo coisas que
vampiros fazem?
— Só há uma maneira de descobrir e matar dois coelhos com uma
cajadada só — murmuro enquanto volto para a faca e a pego. Uma pequena
faca de caça, que foi tudo que pude comprar, não é nada especial, mas serve
para o propósito. A lâmina brilha sob o luar enquanto a levanto. Meu
coração dispara com antecipação e um toque de medo. Já fiz isso antes, mas
nunca com a possibilidade de cura rápida.
Respirando fundo, pressiono a ponta da faca contra meu antebraço. A
familiar ardência enquanto ela rompe a pele me dá um rush. Arrasto a
lâmina lentamente, observando o sangue brotar em seu rastro.
A dor é requintada, apaziguando minhas arestas ásperas de uma maneira
que nada mais consegue. Por um momento, todas as minhas preocupações
sobre este estranho novo mundo desaparecem. Há apenas isso - a mordida
afiada da lâmina, o calor do meu sangue.
Espero, observando atentamente. No início, nada parece diferente. O
corte sangra constantemente, gotas rolando pelo meu braço. Engulo em
seco e então dou um pulo de um quilômetro quando algo atinge meu quarto
com um forte baque, me assustando quase até a morte.
— Que porra é essa? — exclamo, olhando feio para Orby como se ele
devesse saber o que está acontecendo, enquanto marcho até a porta e espio
pelo olho mágico. Não consigo ver nada, então abro uma fresta da porta e
encaro o morcego gigante no chão, que diante dos meus olhos se transforma
em um homem bem vestido com um rosto que poderia lançar mil navios e
um sorriso malicioso que brilha quando ele olha para mim.
— Adelaide — diz Corvus. — Senti cheiro de sangue. Está tudo bem aí
dentro?
Engulo em seco e me certifico de que a porta está cobrindo meu braço o
máximo possível, esquecendo por um segundo que estou de pé usando
apenas meu sutiã. Quando essa realização me atinge, congelo como um
cervo no farol.
— Adelaide? — insiste Corvus, seu rosto se contraindo em uma careta.
Para seu crédito, ele não olha fixamente para meus seios, apenas para
meus olhos com um foco laser que é desconcertante, e tenho a sensação de
que ele está tentando me compelir a dizer algo. Desviar meu olhar do dele é
como tentar empurrar uma montanha para cima de uma montanha maior.
Isso me faz ofegar com o esforço, e sinto meus joelhos fraquejarem.
Corvus estende a mão e me segura para me equilibrar antes que seu
rosto fique pétreo. Ele me solta, mãos para cima, e dá um passo para trás.
Mas como ele entrou no meu quarto em primeiro lugar? Os vampiros não
deveriam receber um convite? Agora que penso nisso, não vi nada que
mencionasse isso ainda e eu, claramente, posso ir onde quiser.
Hmm.
— Obrigada — balbucio, já que ele me impediu de cair no chão, apesar
de ter colocado as mãos em mim. Tropeço para trás e deixo meu braço cair,
que agora está doendo por ter sido cortado e mantido em um ângulo não
natural enquanto eu tentava escondê-lo.
O olhar de Corvus pousa na ferida aberta em meu braço, e ele congela
como um coelho atordoado.
Somos um belo par esta noite.
— Entendo — diz ele. — Posso?
Ele estende a mão, levantando-a lentamente para não me assustar.
— Por quê? — sussurro. Será que ele quer beber de mim?
— Posso ajudar a curá-lo — ele murmura, seus olhos estreitados em
curiosidade.
Bem, acho que minha farsa foi por água abaixo. Nenhuma garota
vampira normal aqui. — Como? — murmuro.
Ele levanta a mão mais alto, e eu aceno uma vez, dando-lhe permissão
para me tocar. É como se minha vontade fosse arrancada de mim, mas não
acho que ele esteja me compelindo desta vez. Sua mão fria agarra meu
braço atrás do cotovelo, e ele o levanta até seus lábios. Ele deixa escapar
um gemido que, pela expressão mortificada em seu rosto, não pretendia
deixar escapar.
Quando ele abaixa a boca para o corte, solto um suspiro ao sentir sua
língua tocar e provar meu sangue. Mas então ele para e levanta a cabeça
com um sorriso lento. — Parece que você não precisa de mim, afinal — ele
murmura.
Olho para baixo e vejo que o corte está se curando. Lentamente se
fechando até que minha pele está inteira, sem nenhuma cicatriz à vista.
— Merda — murmuro.
— Então definitivamente meio vampira — Corvus murmura. — E sua
outra metade é... humana, certo? Você é uma Vesperidae.
Não é uma pergunta, mas uma afirmação direta. Não respondo a ele. Fui
avisada que isso deveria ser um segredo. Não conheço Corvus; com certeza
não confio nele. Mas o grande porém é que ele está sendo gentil comigo
agora, como uma, o que foi que Zephyr me chamou... uma boneca de
porcelana.
Respiro fundo, tentando me acalmar. Corvus ainda está ali parado, seus
intensos olhos azuis fixos em mim. Estou extremamente consciente de que
estou seminua, mas de alguma forma, isso parece menos importante do que
o fato de que ele agora sabe o que eu sou.
— Você não pode contar a ninguém — digo, com a voz baixa e urgente.
— Sobre... o que eu sou. É para ser um segredo.
Corvus ergue uma sobrancelha, um pequeno sorriso brincando nos
cantos de sua boca. — Seu segredo está seguro comigo, Adelaide. Mas você
talvez queira ser mais cuidadosa no futuro. Nem todos aqui são tão...
discretos quanto eu.
Bufo com isso. — Claro. Porque você tem sido o retrato da discrição até
agora.
Ele me dá aquele sorriso irritante. — Justo. Mas estou falando sério -
não contarei a ninguém sobre sua natureza Vesper. Você tem minha palavra.
Olho para ele ceticamente. — E por que eu deveria confiar na sua
palavra?
Corvus se aproxima, seus olhos perfurando os meus. — Porque,
Adelaide, quer você goste ou não, estamos conectados agora. Seu sangue
me chama de uma maneira que nunca experimentei antes, e isso torna você
muito, muito interessante para mim.
Um arrepio percorre minha espinha com suas palavras. Não tenho
certeza se é medo ou outra coisa.
— Isso não me faz exatamente me sentir melhor — murmuro.
— Não era para fazer — diz Corvus com um sorriso malicioso. — Mas
é a verdade, e neste lugar, a verdade é uma mercadoria rara.
Dou um passo para trás, de repente muito consciente da minha
seminudez e vulnerabilidade. — Certo. Bem, obrigada pela ajuda. Acho que
ficarei bem agora.
Os olhos de Corvus percorrem meu corpo, demorando-se na pele recém-
curada do meu braço antes de franzir a testa. — Automutilação não é a
resposta, Adelaide, não mais. Existem outras maneiras de lidar com a fome,
com a intensidade do que você está sentindo.
Fico irritada com sua presunção. — Você não sabe nada sobre mim ou o
que estou sentindo.
— Talvez não — ele admite. — Mas se você quiser conversar sobre isso
— ele diz — ou se precisar de ajuda para descobrir suas habilidades, sabe
onde me encontrar.
Bufo. — Claro. Porque você tem sido tão prestativo até agora.
Ele ri. — O que posso dizer? Estou tentando virar uma nova página. Me
dê uma chance, Adelaide. Você pode se surpreender.
Antes que eu possa responder, ele volta para o corredor. — Bons
sonhos, Pequena Boneca — ele murmura antes de se transformar
novamente em morcego e voar para fora da seteira na parede da torre.
— Então é assim que você entrou, seu esquisito. — Bato a porta e me
apoio nela, levantando meu braço para olhá-lo com admiração. — Ok,
então super velocidade de cura, não, mas definitivamente mais rápido que
antes. — Será que isso depende da quantidade de sangue e de que tipo?
Sintético versus real? E se for assim, onde consigo sangue real por aqui?
Bufando de frustração, aposto que Corvus sabe, e eu acabei de deixá-lo
ir embora. Ótima maneira de fazer amigos e influenciar pessoas, sua idiota.
Gemendo porque quero chamá-lo de volta e fazer essas perguntas, mas
não faço ideia de para onde ele foi, então deslizo pela porta e fico olhando
para meu braço. — Você! — disparo para Orby, assustando-o. — Qual é o
seu verdadeiro propósito, hein? Por que você está aqui?
Orby flutua no ar, aparentemente impassível com minha explosão.
Claro, ele não responde. Afinal, é apenas um orbe mágico. Não um ser
senciente. Certo?
Certo?
Suspiro, passando a mão pelo cabelo. — Isso é ridículo. Estou falando
com uma bola flutuante e esperando respostas.
Levantando-me, vou até minha cama e me jogo nela, olhando para o
teto. Os eventos do dia giram em minha mente - o encontro na biblioteca, a
garrafa misteriosa, Ignatius no refeitório, e agora Corvus descobrindo meu
segredo. É tudo demais. Este dia foi uma merda, e me sinto mal por nem ter
tentado entrar em contato com minha mãe ainda.
— O que estou fazendo aqui? — murmuro para mim mesma. — Eu não
pertenço a este mundo de magia e monstros.
Mas mesmo enquanto digo isso, sei que não é verdade. Eu pertenço
aqui, de uma maneira que nunca pertenci ao mundo humano.
Viro-me de lado, meu olhar pousando na faca caída no chão onde a
deixei cair quando o garoto-morcego bateu na minha porta. A vontade de
me cortar ainda está lá, uma coceira constante sob minha pele. Mas agora
sei que não me dará o alívio que procuro. As feridas simplesmente vão se
curar, deixando-me insatisfeita.
Terei que encontrar outras maneiras de lidar com a intensidade. Parece
que vou ter que procurar Corvus amanhã e pedir que ele me mostre essas
outras maneiras. Repouso minha mão na parte de trás do meu cotovelo onde
ele me tocou. Não vomitei. Não corri. Não achei o toque de pele na minha
repulsivo. Por quê? Por que isso quando apenas minha mãe sempre foi
capaz de me tocar, e mesmo assim, em curtos períodos de tempo? Nem
sempre fui assim. Quando criança, eu era reservada e nervosa, mas não
ativamente enojada pelo toque de alguém. Então veio minha menstruação,
aquele dia em que vi Randall pela primeira vez e as coisas mudaram.
Piscando, pego meu telefone para verificar a data. Minha menstruação.
Era para vir hoje. Será que ainda vou tê-la agora que minha verdadeira
natureza está sendo revelada? E o que isso tem a ver com qualquer coisa? É
tudo uma grande coincidência que comecei a me sentir realmente estranha
no meu décimo terceiro aniversário? Ou há algo mais sinistro em jogo aqui?
Exausta com meus pensamentos, ligo para minha mãe.
O telefone corta, e suspiro. Obviamente, não funciona aqui. Estamos em
um universo paralelo onde a rede de celular não tem cobertura. No entanto,
vi criaturas com seus telefones. Então, como faço para entrar na rede deles?
Mais uma coisa para descobrir amanhã. Só espero que Randall tenha
dito à minha mãe que cheguei sã e salva. Mas agora, preciso continuar
lendo e me adaptar completamente a um horário noturno antes que as aulas
comecem na próxima semana.
16

CORVUS

E NQUANTO VOO pelo céu noturno em minha forma de morcego, o gosto do


sangue de Adelaide ainda persiste em minha língua. É inebriante, diferente
de tudo que já experimentei antes. No momento em que senti o cheiro de
seu sangue, fui atraído para sua torre tão inevitavelmente quanto a maré
para a costa. Não poderia ter me contido nem se quisesse.
Mirando minha janela aberta, voo para dentro do meu quarto e me
transformo de volta à forma humana. Minha mente está acelerada, tentando
processar o que acabou de acontecer e que minhas suspeitas foram
confirmadas.
Adelaide Black. Uma Vesper. Metade vampira, metade humana. Isso
explica tanto e ainda assim levanta ainda mais perguntas.
Tirando minha jaqueta e afrouxando a gravata, tiro minha camisa. O
impulso de voltar ao quarto de Adelaide, de provar seu sangue novamente,
é quase avassalador. Mas resisto. Ela virá até mim. Sei que virá. Dei a ela
mais do que o suficiente para pensar, e esse era o plano.
A maneira como seu sangue me chama, a determinação feroz em seus
olhos, a vulnerabilidade que ela tenta esconder com tanto afinco, tudo
forma uma atração que estou achando cada vez mais difícil de resistir. Ela é
um enigma que estou desesperado para resolver.
Paro em frente ao espelho ornamentado pendurado na parede. Meu
reflexo me encara de volta - um privilégio de ser um sangue puro. Meus
olhos azuis estão brilhantes com uma intensidade que me surpreende.
Sempre me orgulhei do meu controle, da minha capacidade de permanecer
distante e desapegado. Mas Adelaide abalou esse controle de uma maneira
que eu nunca esperava. Tento organizar meus pensamentos confusos.
O fato de ela ser uma Vesper é significativo, claro. Vespers são raros.
Não é de admirar que Randall Black a tenha mantido escondida todos esses
anos.
Mas é mais do que isso. Há algo em Adelaide que me atrai, me faz
querer protegê-la mesmo quando sou tentado a levá-la aos seus limites. É
uma combinação perigosa, que pode levar a problemas se eu não tomar
cuidado. Mas então, isso é parte da diversão.
Voltando-me para a janela, olho para os terrenos iluminados pela lua de
MistHallow. Adelaide provavelmente ainda está tentando entender suas
habilidades de cura recém-descobertas. Eu deveria ter ficado e explicado
mais, mas a intensidade da minha reação ao seu sangue me assustou.
Minha família ficaria horrorizada se soubesse o quanto eu escorreguei.
Os Sanguines são uma das linhagens de vampiros mais antigas e
respeitadas. Não ficamos perturbados por garotas bonitas, não importa quão
único seja seu sangue. Certamente não fazemos promessas de guardar
segredos ou oferecer ajuda sem esperar algo em troca. Quid pro quo,
sempre.
Mas eu nunca fui alguém que segue o manual da família muito de perto.
Crescer na grandeza opressiva da Mansão Sanguine em uma área deserta do
Lake District, as intermináveis lições sobre história e política vampírica, e a
pressão constante para ser o herdeiro sangue puro perfeito eram sufocantes,
e eu me rebelei contra elas a cada oportunidade.
Mas Adelaide... Não quero que ela se importe com nada disso. Quero
que ela olhe para mim e veja além da fachada cuidadosamente construída,
da atuação do príncipe vampiro charmoso.
Movo-me para minha escrivaninha, puxando meu diário encadernado
em couro e viro para a página reservada para Adelaide e adiciono:

- Sangue tem gosto extraordinário


- Tendências de automutilação?
- Ficando mais forte com o consumo de sangue sintético (foi
capaz de resistir à compulsão)
- Vínculos?
Não sei o que isso significa, mas existe um vínculo - um estranho que
você tem simplesmente por ser da mesma espécie, mas também mais do que
isso. Não consigo entender exatamente, o que está me deixando louco.
Há muito mais que quero saber. Que outras habilidades ela tem? Quão
forte ela é comparada a um vampiro completo? E, mais intrigantemente, por
que ela foi escondida todo esse tempo?
Fecho o diário, deslizando-o de volta para seu esconderijo. A coisa
inteligente a fazer seria manter distância, observar Adelaide de longe e
reunir informações sem me envolver pessoalmente. É isso que minha
família esperaria de mim.
Mas desde quando eu faço a coisa inteligente?
Um sorriso se espalha pelo meu rosto enquanto tomo minha decisão.
Vou ajudar Adelaide a entender suas habilidades e ensiná-la sobre o mundo
vampírico do qual ela foi mantida afastada por tanto tempo, e no processo,
talvez eu descubra por que ela me afeta tão fortemente.
Atravessando até a estante que ocupa uma parede do meu quarto, passo
os dedos pelas lombadas de tomos antigos e textos modernos. Puxo um
volume empoeirado sobre lendas vampíricas, folheando-o até encontrar a
seção muito curta e muito breve sobre Vesperidae.
As informações são escassas, principalmente especulações e mitos.
Vespers são tão raros que poucos tiveram a chance de estudá-los em
profundidade. Esta é minha chance de expandir esse conhecimento. A ideia
de que terei essa vantagem sobre minha família me dá um arrepio que é
difícil de negar, e sorrio lentamente, sabendo que as coisas estão prestes a
mudar, não apenas por aqui, mas também de volta em casa.
17

ZEPHYR

A NÉVOA PAIRA pesada no ar, um espesso cobertor cinzento que abafa o som
e obscurece a visão. É início da manhã, e a floresta ao redor de MistHallow
está estranhamente silenciosa, exceto pelo suave tamborilar da chuva nas
folhas e o ocasional chamado distante de um pássaro.
Eu me movo silenciosamente por entre as árvores, minha natureza Fae
me permitindo navegar pela densidade com facilidade. O frio não me
incomoda, nem a umidade que se infiltra em minhas roupas, grudando na
minha pele como uma segunda camada.
Ao me aproximar de uma pequena clareira, avisto uma figura familiar
encostada em um carvalho enorme. Ignatius, com seu cabelo vermelho-fogo
brilhante na manhã cinzenta, está olhando para o horizonte, aparentemente
perdido em pensamentos.
— Um pouco úmido para um elemental de fogo, não é? — eu grito.
Ignatius se vira, seus olhos âmbar se iluminando com diversão. —
Zeph. Não esperava ver mais alguém louco o suficiente para estar fora com
esse tempo.
Dou de ombros, movendo-me para ficar ao lado dele sob o abrigo
relativo dos galhos do carvalho. — Você me conhece. Eu vivo pelo drama
de tudo isso.
Ele bufa, uma pequena chama dançando entre seus dedos enquanto fala.
— Você é uma rainha do drama, sem dúvida.
— Diz o cara que acabou de voltar de explodir um vulcão — eu
retruquei, erguendo uma sobrancelha.
Ignatius sorri. — Ah, Feeore. Foi uma liberação de energia tão
magnífica. Falando em magnífico... o que você acha da nossa nova
chegada?
Eu não preciso perguntar a quem ele está se referindo. Adelaide Black
tem sido o assunto de MistHallow desde que chegou, e ela não saiu dos
meus pensamentos.
— Ela me intriga.
— Eu tive uma pequena conversa com ela no refeitório ontem à noite.
Ela tem garra, aquela ali.
— Ah, é? E como foi isso? Espero que melhor do que minhas
interações com ela.
Ele ri. — Tão bem quanto você pode imaginar. Me chamou de exibido e
saiu tempestuosamente.
Apesar de mim mesmo, eu rio. — Parece certo. Ela não parece ser do
tipo que cai nos nossos encantos usuais.
— Não, não parece — Ignatius concorda, sua expressão pensativa. — O
que a torna ainda mais intrigante, não é?
Eu aceno, não confiando em mim mesmo para falar. Ignatius sempre foi
perceptivo, e eu não quero revelar muito do meu próprio interesse em
Adelaide, ainda.
Ficamos em silêncio amigável por um tempo, ouvindo a chuva e
observando a névoa rodopiar ao nosso redor. São momentos como estes que
eu valorizo - camaradagem tranquila com alguém que entende o peso das
expectativas e do destino.
— Sabe — diz Ignatius de repente —, acho que ela pode ser boa para
nós.
Sem olhar para ele, pergunto: — Como assim?
— Estamos no topo da cadeia alimentar aqui por tanto tempo, Zeph. É
fácil esquecer como é ser desafiado, ter que trabalhar pela atenção ou
respeito de alguém.
Eu reflito sobre suas palavras, encontrando um grão de verdade nelas.
— Não posso discordar disso.
Antes que ele possa responder, um movimento na borda da clareira
chama minha atenção. Uma figura emerge da névoa, e eu sorrio.
Adelaide.
Ela está vestida para o clima com uma capa de chuva preta, seu cabelo
escuro puxado para trás em um coque desarrumado. Ela ainda não nos
notou, sua atenção focada em algo em sua mão - uma bússola, talvez?
Ao meu lado, sinto Ignatius ficar levemente tenso. — Ora, falando no
diabo — ele murmura. — Bom dia, Adelaide! Um pouco cedo para um
passeio, não é?
A cabeça de Adelaide se levanta bruscamente, seus olhos se arregalando
ao nos ver. Por um momento, ela parece que pode fugir. Mas então seu
queixo se firma em uma linha determinada, e ela começa a andar em nossa
direção.
— Eu poderia dizer o mesmo para vocês — ela responde, sua voz
carregando claramente apesar do efeito abafador da névoa. — Vocês
parecem estar tramando, ou se escondendo.
— Não pode ser os dois? — eu pergunto.
À medida que ela se aproxima, posso ver a cautela em seus olhos. É
compreensível, dados nossos encontros anteriores.
Adelaide olha entre nós, sua expressão de diversão reprimida. É um
começo. — Pode ser, mas isso não torna melhor, apenas mais perigoso.
— E aí está toda a diversão.
— Hmm. — Ela se vira para ir embora, mas Ignatius dá um passo à
frente.
— Espere — diz Ignatius, sua voz incomumente suave. — O que te traz
aqui tão cedo, Adelaide?
Ela hesita, olhando entre nós com desconfiança. Quase posso ver o
debate interno acontecendo por trás de seus olhos. Finalmente, ela suspira.
— Estou tentando acompanhar as mudanças — ela admite, erguendo o que
agora vejo que é realmente uma bússola. — Este lugar é confuso. Fico me
perdendo o tempo todo.
Eu aceno, compreendendo. — Ele fica entediado e se move muito.
— Entediado? — Ela me lança um olhar intrigado.
Eu aceno. — Entediado. Quando as coisas ficarem mais animadas por
aqui, ele vai se acalmar.
— E por ficar mais animado você quer dizer... — Ela parece
preocupada, e com razão.
— Ele quer dizer quando o período letivo começar oficialmente —
Ignatius interrompe antes que eu pudesse elaborar uma resposta sedutora.
Eu lanço um olhar para Ignatius, mas ele apenas dá de ombros, uma
pequena chama dançando entre seus dedos. Os olhos de Adelaide dardejam
entre nós, sua cautela claramente aumentando.
— Certo — ela diz, dando um passo para trás. — Bem, eu
provavelmente deveria ir andando. Tenho muito para explorar antes das
aulas começarem.
Eu me movo para frente, meus movimentos fluidos e predatórios. —
Por que a pressa, Adelaide? — Minha voz é baixa, quase um ronronar. —
Mal tivemos a chance de nos conhecer.
Ela fica tensa, sua mão apertando a bússola. — Acho que já nos
conhecemos o suficiente, obrigada.
— Mesmo? — eu pergunto, circulando-a lentamente enquanto Ignatius
se senta para me observar trabalhar. — Não acho que você me conheça de
verdade, Adelaide. Não realmente.
Ela se vira, mantendo-me em sua visão. Garota esperta. — Eu sei o
suficiente — ela diz, sua voz firme apesar de seu óbvio desconforto. —
Você é imprevisível. Isso significa problemas.
Eu rio, o som afiado e frio. — Imprevisível? É assim que estão
chamando agora? — Eu me inclino para perto, minha respiração roçando
sua orelha. — Eu prefiro selvagem. Tem um som tão agradável, não acha?
Adelaide se afasta bruscamente, com os olhos arregalados. — Fique
longe — ela adverte, mas agora há um tremor em sua voz.
Energia sombria crepita ao meu redor, as sombras parecendo se
aprofundar apesar da luz do início da manhã. — Você sequer sabe o que eu
sou, Bonequinha?
— Por que você me chama assim? E não, não sei, nem desejo saber.
Com um movimento do meu pulso, as sombras se condensam ao nosso
redor, deixando-nos em uma bolha de escuridão. Posso ouvir sua respiração
em ofegos curtos e apavorados.
— O que você está fazendo? — ela exige, sua voz aguda de medo.
Eu a circundo novamente, deixando tentáculos mágicos percorrerem seu
braço. Ela estremece, mas não se afasta. Isso me diz muito sobre sua
aversão ao toque, como eu esperava. — Fae das Trevas — murmuro.
As sombras pulsam ao nosso redor, assumindo formas monstruosas.
Posso ver o terror nos olhos de Adelaide enquanto ela as observa, incapaz
de desviar o olhar.
— Fae? — ela murmura. — Como fadas?
— Não. Não somos as criaturas dos seus contos de fadas — continuo,
minha voz um sussurro sedutor. — Não somos espíritos benevolentes ou
travessos trapaceiros. Somos os monstros que assombram seus pesadelos
mais sombrios.
A respiração de Adelaide está ofegante agora, seus olhos movendo-se
freneticamente. — Me deixe ir — ela implora.
Por um momento, considero ir mais longe. O medo emanando dela é
inebriante, despertando as partes mais sombrias da minha natureza.
Mas haverá tempo para isso depois. Com um suspiro, libero a magia. As
sombras se dissipam, deixando-nos de volta na clareira enevoada. Adelaide
está me encarando com medo, tremendo. Sem dizer uma palavra, ela se vira
e corre, desaparecendo na névoa.
Ignatius ri. — Bem, isso foi interessante, mas você a fez correr.
— Ótimo — digo, minha voz baixa. — Deixe-a correr. Isso tornará a
caçada muito mais satisfatória.
Ignatius balança a cabeça, mas posso ver a diversão em sua expressão.
— Você está jogando um jogo perigoso, Zeph.
— Eu não estou sempre? — respondo, lançando-lhe um sorriso
malicioso.
— Ela é mais forte que isso — diz Corvus, juntando-se a nós
aparentemente do nada.
— Você está espreitando?
— Esgueirando-me — ele diz com um largo sorriso.
Bufo. — Espionando.
— Protegendo. Adelaide é especial.
— Oh, eu sei — murmuro. Este encontro só acelerou o que quer que eu
estivesse sentindo por ela. Sou uma criatura de sombra e caos, herdeiro da
Corte das Trevas. Não fui feito para relacionamentos ou qualquer coisa
além de um caso casual, mas Adelaide despertou algo profundo dentro de
mim. Uma fera que está se desdobrando e esticando suas garras, faminta
por mais. É claro que Corvus sabe algo sobre ela que não sabemos. Ou acha
que sabe. De qualquer forma, isso não é uma competição. Quem chegar a
ela primeiro, a consegue para todos nós. Todos sabemos disso. Nem
precisamos discutir. É um acordo tácito entre nós. A emoção da caçada, o
desafio de conquistá-la, é inebriante.
18

ADELAIDE

E U TROPEÇO PELA FLORESTA ENEVOADA , meu coração acelerado. O encontro


com Zephyr me deixou abalada.
Fae das Trevas.
Os monstros que assombram seus pesadelos mais sombrios.
Suas palavras ecoam em minha mente, enviando arrepios até minha
alma. Nunca ouvi falar dos Fae das Trevas antes, mas sei que preciso fazer
algumas pesquisas. Preciso saber quais são seus poderes e o que ele pode
fazer comigo.
Ao irromper da linha de árvores, me encontro de alguma forma de volta
aos terrenos de MistHallow. A imponente estrutura gótica se ergue diante de
mim, ameaçadora e reconfortante em sua solidez. Me curvo, mãos nos
joelhos, tentando recuperar o fôlego e acalmar meus pensamentos
acelerados.
Que diabos acabou de acontecer? Em um minuto, eu estava em uma
caminhada matinal, tentando me orientar neste lugar confuso, e no seguinte,
estava presa em uma bolha de escuridão com um cara que afirmava ser
algum tipo de criatura de pesadelo.
Acho preocupante que haja algo inegavelmente atraente em Zephyr. A
maneira como ele se move é fluida e predatória. A energia sombria
crepitando ao seu redor. Mesmo enquanto eu estava aterrorizada mais cedo,
uma parte de mim queria se inclinar para aquela escuridão, deixar que ela
me envolvesse.
— Merda — murmuro, passando a mão pelo cabelo úmido. — O que há
de errado comigo?
— Senhorita Black — a voz do Professor Blackthorn me surpreende. —
Está tudo bem?
Eu me endireito. — Sim, Professor. Fui fazer uma corrida.
Ele acena lentamente com a cabeça, os olhos estreitos, não muito
convencido pela minha mentira. — De fato. Haverá a escolha das Casas
hoje para os alunos que já estão aqui em cerca de uma hora. Será no Salão
Principal.
— Ah? Preciso levar alguma coisa?
— Apenas você mesma — ele diz com um sorriso amigável.
Faço um aceno rápido, tentando manter a compostura. — Obrigada,
Professor. Estarei lá.
Enquanto Blackthorn se afasta, respiro fundo. A escolha das Casas. O
que isso significa? É mais um passo neste estranho novo mundo em que me
encontro. Parte de mim está animada, curiosa para ver onde vou parar. Mas
outra parte está aterrorizada. E se eu não me encaixar em lugar nenhum? E
se eles olharem para mim e perceberem que eu não pertenço a este lugar
afinal?
Balanço a cabeça, tentando afastar os pensamentos negativos. Não
posso me deixar entrar em espiral desse jeito.
Voltando para meu quarto, tento me acalmar. Tenho uma hora antes da
escolha. Tempo suficiente para um banho rápido e uma troca de roupa. Ao
entrar na água quente, deixo que ela lave um pouco do medo do meu
encontro na floresta.
Limpa e vestida com roupas frescas, respiro fundo e endireito os
ombros.
— Você consegue, Addy — murmuro. — Você pertence a este lugar
tanto quanto qualquer outra pessoa.
Fazendo meu caminho até o Salão Principal com a ajuda do mapa, já
que Orby está estranhamente ausente, sinto um tremor de nervosismo no
estômago. Os corredores estão agitados agora com outros estudantes se
dirigindo a essa escolha. Pego pedaços de conversa animada enquanto fico
de lado, me sentindo como uma peça sobressalente.
Corvus, Zephyr, Zaiah e Ignatius entram despreocupadamente, unidos
como unha e carne, cochichando juntos, o que me deixa ainda mais nervosa.
Ao entrar no Salão Principal, todos os pensamentos sobre meu encontro
anterior com Zephyr desaparecem momentaneamente. A pura grandeza do
espaço me tira o fôlego.
O teto se eleva bem acima, uma obra-prima da arquitetura gótica.
Abóbadas nervuradas intrincadas se estendem pela extensão, encontrando-
se em belíssimos fechos esculpidos. Vitrais alinham as paredes, retratando
cenas de várias mitologias e histórias sobrenaturais. A luz sombria do sol
que os atravessa lança um caleidoscópio de cores no piso de pedra polida.
Enormes candelabros pendem do teto, seus cristais captando e
refratando a luz. Mas estas não são luminárias comuns - as chamas que
dançam nelas parecem mudar de cor, alternando pelo espectro em uma
exibição hipnótica.
No extremo oposto do salão há um tablado elevado, sobre o qual se
encontra uma longa mesa. Os professores já estão sentados lá, seus rostos
solenes. No centro, o Professor Blackthorn se levanta, sua presença
exigindo atenção imediata.
— Bem-vindos, alunos de MistHallow — sua voz ecoa sem esforço
pelo salão. — Hoje, nos reunimos para a cerimônia preliminar de escolha
das Casas.
Um silêncio cai sobre a multidão enquanto Blackthorn continua.
— Como alguns de vocês já sabem, e para o benefício de nossos novos
alunos, a Casa em que vocês são colocados muda a cada ano. Isso é para
encorajar a diversidade, para desafiá-los a se adaptar e para prevenir a
estagnação.
Ele gesticula para quatro grandes estandartes pendurados atrás do
tablado, cada um ostentando um símbolo e uma cor diferentes.
— Nossas quatro Casas são Cartago, representada pelo azul; Atenas, em
verde; Roma, em vermelho; e Troia, em dourado. Cada Casa valoriza
qualidades diferentes, e cada uma oferecerá oportunidades únicas para
crescimento e aprendizado.
Eu me inclino para frente, intrigada apesar do nervosismo persistente.
— A escolha não é aleatória, nem é baseada apenas em suas próprias
preferências — explica Blackthorn. — Ela leva em conta suas qualidades
inerentes, seu potencial e qual ambiente melhor fomentará seu crescimento
este ano.
Ele faz uma pausa, seu olhar percorrendo os alunos reunidos. —
Quando eu chamar seu nome, por favor, dê um passo à frente. O emblema
da Casa que brilhar será seu lar para este ano acadêmico.
Meu coração começa a acelerar quando Blackthorn começa a chamar os
nomes. Observo enquanto aluno após aluno dá um passo à frente, cada um
recebido por um emblema brilhante e uma rodada de aplausos de seus
novos colegas de casa.
— Corvus Sanguine — chama Blackthorn.
Eu me tenso, meu olhar atraído para o enigmático vampiro.
Corvus avança com um andar arrogante, parecendo estranhamente
rígido. Por um momento, nada acontece. Então, o emblema azul de Cartago
começa a brilhar.
— Cartago dá as boas-vindas, Sr. Sanguine — anuncia Blackthorn.
Enquanto Corvus se dirige à seção de Cartago, seu olhar encontra o meu
brevemente, mas de forma intensa.
— Zephyr Nightshade.
— Nightshade — sussurro. — Nome bonito para um rosto bonito.
Zephyr se move com graça fluida, mas posso ver a tensão em seus
ombros. O emblema verde de Atenas se acende, e o rosto de Zephyr
permanece impassível enquanto ele se junta aos seus novos colegas de casa.
— Ignatius Emberkin.
O iniciador de fogo avança, com um sorriso no rosto. O emblema
vermelho de Roma brilha intensamente, e Ignatius ergue o punho em
aparente satisfação.
— Zaiah Wishmaster.
O djinn praticamente flutua até a frente, sua expressão de divertimento
distante. O emblema dourado de Troia ganha vida, e Zaiah faz uma
reverência teatral antes de se juntar às fileiras troianas.
Minhas palmas estão suando agora. Deve ser minha vez em breve.
— Adelaide Black.
Todos os olhares se voltam para mim, e eu congelo por um momento,
então me forço a me mover. O salão parece impossivelmente longo,
enquanto sou observada por centenas de estudantes e Professores enquanto
me dirijo à frente. Chego ao Professor e me viro para encarar os emblemas,
meu coração batendo tão alto que tenho certeza que todos podem ouvir.
E se nenhum deles acender? E se eu for uma pária? Sem casa? Será
que vão me banir?
Nada acontece pelo que parece uma eternidade. Então, lentamente, o
emblema azul de Cartago começa a brilhar.
— Cartago dá as boas-vindas, Srta. Black — diz Blackthorn, com um
leve sorriso no rosto.
Respirando fundo, me dirijo à seção de Cartago. Ao passar por Corvus,
ele me dá uma piscadela que mexe com minha alma.
Eu o ignoro e me concentro intensamente em Blackthorn enquanto ele
continua a distribuir todos nas casas.
Quando não restam mais estudantes, Blackthorn se vira para nós
enquanto os outros Professores se levantam e se separam nas várias Casas.
— Para nossos novos Cartagineses — Blackthorn começa, seu olhar
pousando em mim por um momento —, sou o Mestre da Casa de vocês para
este ano. Vocês foram escolhidos por sua resiliência, sua adaptabilidade e
seu potencial de liderança. Cartago valoriza aqueles que podem se erguer da
adversidade, que podem se reconstruir e se reinventar.
Suas palavras ressoam profundamente dentro de mim, tocando cordas
que eu nem sabia que existiam.
— Os Cartagineses são as fênix do nosso mundo — a voz de Blackthorn
ecoa, clara e forte. — Vocês se erguem das cinzas da adversidade, mais
fortes e determinados do que nunca. Sua resiliência é sua maior força.
Eu me endireito um pouco, sentindo uma centelha de orgulho acender
em meu peito.
— Em Cartago, valorizamos a adaptabilidade — ele continua. — O
mundo está sempre mudando, e aqueles que podem dobrar sem quebrar
sempre sobreviverão. Vocês são a água que molda a rocha, o vento que
redireciona a chama.
Memórias de todas as vezes que tive que me adaptar, mudar para me
encaixar ou sobreviver, passam pela minha mente. Pela primeira vez, não
sinto vergonha dessas memórias, mas um senso de realização.
— Liderança em Cartago não é sobre governar os outros — os olhos de
Blackthorn parecem encontrar os meus por um momento. — É sobre
inspirar mudanças, sobre ver potencial onde outros veem ruína. Vocês são
os visionários, aqueles que podem construir impérios do zero.
Penso em minha mãe, em como ela sempre me encorajou a me
defender, a forjar meu próprio caminho. Talvez eu tenha mais potencial de
liderança do que eu percebia.
— Acima de tudo — a voz de Blackthorn suaviza ligeiramente —,
Cartago valoriza a integridade. Em um mundo de lealdades mutantes e
agendas ocultas, vocês são as constantes. Sua palavra é sua garantia, suas
ações falam mais alto que qualquer proclamação.
Um nó se forma em minha garganta. Integridade. É algo pelo qual
sempre me esforcei, mesmo quando teria sido mais fácil mentir.
Talvez seja aqui que eu deva estar. Talvez aqui, cercada por outros que
valorizam as mesmas coisas que eu, eu possa finalmente começar a
entender quem realmente sou. Em Cartago, talvez eu encontre não apenas
uma casa, mas um lar.
— A cor da sua casa é azul — Blackthorn continua —, representando o
vasto oceano que Cartago uma vez dominou. Como o mar, espera-se que
vocês sejam profundos, poderosos e capazes de grandes mudanças.
Enquanto Blackthorn prossegue, olho ao redor para meus novos colegas
de casa. Há uma mistura de expressões - empolgação, nervosismo, orgulho.
Corvus me olha e dá seu sorriso irritante.
Ótimo. Um ano inteiro lidando com ele de perto e pessoalmente.
Mas enquanto ouço Blackthorn descrever as qualidades de Cartago,
sinto um senso de pertencimento.
— Agora — diz Blackthorn com um sorriso lento. — Vamos começar
com uma missão! Quem está pronto para o desafio?
Corvus levanta a mão, seus olhos nunca deixando os meus. Eu levanto a
minha, e franzo a testa por um momento, mas acho que isso é tudo eu.
Como eu poderei ter certeza, no entanto?
Mas é isso. Este é um novo capítulo na minha vida em MistHallow, e é
melhor eu me acostumar rápido ou ficar para trás.
19

ADELAIDE

E NQUANTO OS OLHOS de Blackthorn passam pelas mãos levantadas, ele


acena em aprovação. — Excelente. Agrupem-se agora.
Meu coração dispara enquanto me movo para ficar ao lado de Corvus.
Ele se inclina levemente ao sussurrar: — Pronta para uma aventura, Dollie?
Reprimo um arrepio, não tendo certeza se é de desconforto ou
excitação. — Nasci pronta — murmuro de volta, mantendo meus olhos
fixos em Blackthorn enquanto vasculho o bolso da calça jeans procurando
um elástico de cabelo. Encontro um e recolho meu cabelo, enrolando-o em
um coque apertado no topo da cabeça com uma facilidade nascida de anos
de aulas de balé quando criança. Ignoro os olhos de Corvus em mim
enquanto me concentro em Blackthorn.
Os olhos do professor brilham com algo que pode ser diversão enquanto
ele se dirige a nós. — Sua missão é recuperar o Cálice de Cartago do
Labirinto das Sombras.
Um suspiro coletivo ecoa pela multidão. Eu não faço a menor ideia do
que isso significa, mas claramente, essa não é uma tarefa pequena.
— O Labirinto das Sombras — continua Blackthorn — é uma
construção mágica que muda e se transforma. Foi projetado para testar suas
habilidades físicas, sua força mental e trabalho em equipe também. O cálice
está escondido em seu coração.
Ele faz uma pausa, seu olhar se intensificando. — Fiquem avisados: o
labirinto está cheio de ilusões e armadilhas. Confiem em seus instintos, mas
mais importante, confiem uns nos outros. Vocês têm até o pôr do sol para
completar sua missão.
Com um aceno de mão, um portal cintilante aparece à nossa esquerda.
Através dele, posso ver a entrada do que deve ser o Labirinto - um arco
imponente de pedra escura, além do qual há uma névoa impenetrável.
— Boa sorte — diz Blackthorn, com um leve sorriso nos lábios. — E
lembrem-se, em Cartago, nós enfrentamos todos os desafios.
Corvus se vira para mim, seus olhos azuis brilhando de excitação. —
Vamos lá, parceira?
Respiro fundo, endireitando os ombros. — Parceira? Desde quando?
Ele dá de ombros. — Melhor nos juntarmos. Você não notou que somos
os únicos vampiros na Casa este ano?
Olho ao redor, mas não encontro nada. Não consigo distinguir um
vampiro de um metamorfo em forma humana. — Por que será? —
murmuro.
— Oh, posso pensar em algumas boas razões — Corvus murmura de
volta. — Vamos? — Ele faz uma leve reverência, deixando-me passar para
atravessar o portal atrás de todos os outros.
A magia formiga contra minha pele quando passamos sob o arco de
pedra, a névoa rodopiando ao nosso redor, fresca e úmida. O portal pisca e
some atrás de nós, deixando-nos sozinhos no silêncio fantasmagórico do
Labirinto.
— Bem — diz Corvus, sua voz anormalmente alta no silêncio —, isso é
aconchegante.
Reviro os olhos, mas estou grata por sua tentativa de humor. A
atmosfera opressiva do lugar já está começando a me afetar.
Avançamos, a névoa se afastando relutantemente diante de nós, apenas
para se fechar novamente atrás. As paredes do Labirinto se erguem de
ambos os lados, feitas da mesma pedra escura do arco da entrada. Elas
parecem absorver a pouca luz que há, tornando difícil ver mais do que
alguns metros à frente.
— Ei! — digo de repente. — Onde estão todos os outros?
Corvus olha ao redor, olhos estreitados. — Nos separou.
— E por que faria isso? — disparo, minha ansiedade crescendo por este
Labirinto idiota ter me forçado a ficar em proximidade solitária com uma
criatura na qual não confio nem um pouco.
Ele dá de ombros novamente, despreocupado. — Vamos nos concentrar
na missão, ok? Agora é uma corrida para encontrar o cálice primeiro.
— Então nos separou de propósito? Como isso é trabalho em equipe?
Ele não me responde, seus olhos examinando nosso entorno.
— Alguma ideia de como navegar neste lugar? — pergunto, tentando
manter minha voz firme.
— Num labirinto normal, eu diria para mantermos uma mão na parede e
segui-la. Mas algo me diz que este lugar não segue regras normais.
Como que para provar seu ponto, a parede à nossa direita de repente se
move, derretendo para revelar uma nova passagem.
— Ok — murmuro —, isso é desconcertante.
— Ainda está com aquela bússola, Dollie?
— Não.
— Imaginei. Vamos — diz Corvus com determinação. — Temos que
continuar nos movendo. Ficar parado não nos levará a lugar algum.
Continuamos, fazendo curvas aparentemente aleatórias. O Labirinto está
constantemente mudando ao nosso redor, passagens aparecendo e
desaparecendo, às vezes até enquanto estamos andando por elas. É
vertiginoso e mais do que um pouco aterrorizante.
Depois do que parece horas vagando, viramos uma esquina e nos
encontramos cara a cara com... nós mesmos.
Pisco, surpresa. É como olhar em um espelho, exceto que o reflexo está
se movendo independentemente. A outra Adelaide e o outro Corvus estão
nos olhando com as mesmas expressões surpresas que tenho certeza que
estamos usando.
— Que porra é essa? — solto.
Corvus sibila. — É uma ilusão. Não interaja com ela.
Ela?
Mas quando tentamos passar, nossos doppelgangers entram em nosso
caminho.
— Tem certeza disso? — diz o outro Corvus, sua voz idêntica à do real.
— Talvez nós sejamos os reais, e vocês as ilusões.
Sinto um arrepio percorrer minha espinha. A outra Adelaide está me
olhando com pena e desprezo que parecem desconfortavelmente familiares.
— Você não pertence aqui — ela diz, ecoando meus medos mais
profundos. — Você não é especial, é apenas um erro. Uma aberração
mestiça que não se encaixa em lugar nenhum.
Eu me encolho, as palavras atingindo mais fundo do que gostaria de
admitir. Ao meu lado, Corvus está me encarando enquanto as duras palavras
da outra Adelaide me afetam mais do que eu gostaria.
— Não escute eles — ele diz.
Por instinto, estendo a mão e agarro a dele. Sua pele está fria contra a
minha, mas há uma faísca de eletricidade no contato.
Seu aperto frouxo em minha mão se aperta após uma hesitação que diz
muito. — Eles estão apenas jogando com nossas inseguranças. Nós somos
reais, estamos aqui e vamos completar esta missão.
Aperto sua mão. — Você está certo. Boa tentativa, outros nós, mas não
vamos cair nessa.
Com um som como vidro se estilhaçando, os doppelgangers se
dissolvem em névoa. A passagem à frente está livre.
Sorrindo um para o outro, caminhamos adiante, ainda de mãos dadas.
Nenhum de nós menciona isso, mas pela primeira vez na minha vida, estou
grata pelo contato. É um lembrete de que não estou sozinha neste mundo
estranho e mutável. Parece natural, o que é a coisa mais antinatural do
mundo para mim. Tento não pensar muito nisso e me concentro no que
estou fazendo.
Enquanto navegamos pelas passagens sinuosas, o Labirinto parece
determinado a nos testar a cada curva. Dobramos uma esquina e, de repente,
o chão sob nossos pés começa a desmoronar.
— Adelaide, pula! — Corvus grita, apertando minha mão.
Eu salto para frente bem quando o chão cede completamente, revelando
um poço de sombras ondulantes abaixo. A velocidade vampírica de Corvus
permite que ele avance rapidamente e me pegue no ar, me puxando para a
segurança do outro lado do abismo.
Ficamos ali por um momento, corações acelerados, olhando fixamente
para o vazio onde havia chão sólido segundos antes.
— Obrigada — eu respiro, ainda agarrada ao braço dele. — Acho que
meu lado vampiro está lento para reagir.
Corvus assente, seus olhos examinando o caminho à frente, ignorando
meu comentário. — Precisamos ser mais cuidadosos. Este lugar está
ativamente tentando nos eliminar.
Mal as palavras saem de sua boca, ouvimos um som baixo de estrondo.
As paredes de ambos os lados começam a se mover, lenta mas
inexoravelmente se fechando.
— Ah, você só pode estar brincando — murmuro, olhando
freneticamente em busca de uma rota de fuga.
Corvus pega minha mão novamente. — Por aqui! — ele grita, me
puxando para frente em uma corrida.
Corremos pelo corredor que se estreita, as paredes raspando nossos
ombros enquanto avançamos. Sua velocidade vampírica está me arrastando
em sua esteira, e meus pés não conseguem acompanhar. Eu tropeço, mas ele
não diminui o ritmo. Em vez disso, pareço decolar do chão e flutuar atrás
dele enquanto ele me puxa. É a experiência mais surreal que já tive, e me
deixa sem fôlego.
À frente, posso ver a passagem terminando em uma parede sólida.
— Corvus, é um beco sem saída! — eu grito, o pânico subindo pela
minha garganta.
Mas ele não diminui a velocidade. Em vez disso, ele se vira no meio da
corrida e envolve um braço em minha cintura e grita: — Segure-se firme!
Usando sua força vampírica, Corvus salta para cima assim que
chegamos ao final do corredor.
— Aaah! — eu grito enquanto ficamos no ar, e estou sendo segurada no
lugar com apenas um braço.
Seus dedos agarram o topo da parede e, com um grunhido de esforço,
ele nos puxa para cima e para o outro lado.
Caímos no chão do outro lado, rolando para longe da borda bem quando
as paredes se fecham com um estrondo ensurdecedor.
Por um momento, ficamos ali deitados, recuperando o fôlego. Então
Corvus começa a rir. Sem medo, sem exaustão, sem pânico, apenas alegria.
— Bem — ele diz, sentando-se e tirando a poeira de suas roupas — isso
foi emocionante.
— Você é completamente maluco! — eu retruco, mas me junto à sua
risada, a liberação de tensão quase eufórica. — É sempre assim quando o
semestre começa? — pergunto.
Corvus sorri, me ajudando a ficar de pé. — Só nos dias bons.
Ele me solta e eu lamento a perda do toque de sua pele fria na minha.
Parece aliviar a coceira que fica logo abaixo da superfície.
Conforme continuamos, fico mais sintonizada com os truques do
Labirinto. Quando uma seção do chão à frente de repente se torna
translúcida, revelando outro poço de sombras, sou eu quem percebe
primeiro.
— Espera! — eu grito, agarrando a parte de trás do paletó de Corvus
para puxá-lo de volta. — Olha o chão.
Ele acena com aprovação. — Boa observação. Mas como vamos
atravessar?
Afasto o pensamento incômodo de que ele me deixou ter essa e olho ao
redor, notando uma série de pedras salientes na parede ao nosso lado.
— Apoios para as mãos — digo, apontando. — Podemos escalar para
atravessar.
Corvus levanta uma sobrancelha. — Arriscado, mas pode ser nossa
única opção. As damas primeiro?
— Ah, que legal, assim você pode ver se eu caio para a morte primeiro?
— Você é imortal. Vai sobreviver — ele dá uma risadinha.
— Vai se ferrar — resmungo e respiro fundo, me preparando. Então,
esticando o braço, agarro o primeiro apoio e começo a atravessar pela
parede. É lento, e meus braços logo estão doendo com o esforço, mas me
forço a continuar me movendo.
Na metade do caminho, meu pé escorrega. Por um momento de parar o
coração, estou pendurada pelas pontas dos dedos sobre o poço de sombras.
— Adelaide! — Corvus grita, com alarme claro em sua voz.
Mas algo dentro de mim se recusa a desistir. Com um grunhido de
esforço e uma força que eu não sabia que tinha, balanço meu corpo,
conseguindo enganchar meu pé de volta num apoio. Rangendo os dentes,
continuo, finalmente alcançando o outro lado.
— Lado vampiro, ativado — Corvus grita. — Bom trabalho.
Assim que meus pés tocam o chão sólido, me viro para assistir Corvus
fazer a travessia. Ele se move rápida e graciosamente, exibindo suas
habilidades sobrenaturais enquanto cruza a distância rapidamente.
Ele aterrissa ao meu lado, com uma nota de genuína admiração em sua
voz. — Você sentiu?
Eu sorrio, sentindo uma onda de orgulho. — Mais ou menos. Sim, na
hora sim, agora nem tanto.
Ele acena como se entendesse, mas como pode quando nem eu mesma
entendo?
Conforme avançamos mais fundo no Labirinto, os desafios se tornam
cada vez mais traiçoeiros. Viramos uma esquina e somos imediatamente
confrontados por um longo corredor alinhado com buracos de aparência
ameaçadora nas paredes.
— Não gosto da aparência disso — murmuro, olhando a passagem com
cautela.
Corvus acena, seu corpo tenso. — Fique alerta. Tem algo errado aqui.
Damos um passo cauteloso à frente e, de repente, um jato de chamas
irrompe de um dos buracos, quase chamuscando meu cabelo.
— Volta! — Corvus grita, me puxando contra a parede enquanto mais
chamas disparam em rápida sucessão.
O calor é intenso, o rugido do fogo ensurdecedor. Posso sentir o suor se
formando em minha testa enquanto nos pressionamos contra a pedra fria.
— Precisamos sincronizar isso perfeitamente — Corvus diz, seus olhos
se movendo rapidamente de um lado para o outro, estudando o padrão das
chamas. — Há uma brecha de fração de segundo entre as explosões.
Teremos que correr e esquivar.
Eu aceno, meu coração acelerado. — Ok-kay, mas eu não sou tão rápida
quanto você!
Ele sorri e estende a mão. Eu estendo a minha e a pego, tremendo
incontrolavelmente.
Corvus faz a contagem regressiva: — Três... dois... um... Agora!
Corremos para frente, abaixando e desviando enquanto jatos de chamas
irrompem ao nosso redor. O calor é esmagador, e posso sentir o cheiro de
tecido queimado quando uma chama pega a borda da minha manga. Mas
não há tempo para parar. Continuamos correndo, guiados pelos aguçados
sentidos vampíricos de Corvus e meus próprios instintos crescentes.
Bem quando chegamos ao final do corredor, uma última explosão de
chamas dispara diretamente em nosso caminho. Corvus me agarra e me
puxa para baixo em um deslize. Deslizamos pelo chão de pedra, as chamas
passando inofensivamente sobre nossas cabeças, e tombamos na próxima
câmara, ele por cima de mim, me esmagando com seu peso.
Por um momento, ficamos deitados ali, ofegantes, olhando nos olhos
um do outro. Seus lábios estão a milímetros dos meus, e deixo escapar um
pequeno suspiro. Seu olhar cai para minha boca e permanece lá por um
instante. Uma corrente elétrica percorre meu corpo. Mas então ele pisca, e o
momento passa. Ele rapidamente rola para o lado e se levanta, oferecendo
uma mão para me ajudar.
— Você está bem? — ele pergunta, sua voz um pouco mais rouca que o
normal.
Aceno com a cabeça, tentando ignorar o frescor persistente onde seu
corpo estivera pressionado contra o meu. — Sim, estou bem. Só um pouco
chamuscada. — Examino a borda queimada da minha manga com pesar.
Corvus estende a mão e toca suavemente o tecido queimado, seus dedos
frios roçando minha pele. — Isso foi por pouco — ele murmura, então
parece se dar conta e dá um passo para trás.
Mas nossa trégua é curta. A sala ao nosso redor começa a se mover. O
chão inclina-se bruscamente para um lado, depois para o outro. As paredes
parecem girar, o teto se tornando o chão, e vice-versa.
— Que diabos? — exclamo, lutando para manter o equilíbrio enquanto
a sala gira ao nosso redor, me deixando nauseada com o movimento.
Corvus se agarra a uma pedra saliente, se ancorando. — A gravidade
está mudando! Precisamos nos adaptar rápido!
Enquanto ele fala, o "chão" em que estamos de repente se torna uma
parede. Começo a cair, mas Corvus estende a mão, pegando a minha.
Ficamos pendurados por um momento antes da sala mudar novamente, e
nos apressamos para encontrar apoio no que antes era o teto.
— Isso é loucura! — grito, minha mente lutando para entender a
orientação em constante mudança.
— Não pense sobre isso! — Corvus responde. — Apenas reaja! Confie
nos seus instintos! Você tem uma vampira forte dentro de você, Adelaide.
Deixe-a assumir o controle.
Respirando fundo, tento deixar de lado minhas preconcepções sobre o
que é em cima e embaixo. Relaxo e permito que a vampira dentro de mim
assuma o controle. Conforme a sala continua a mudar, eu me movo com ela,
saltando de parede para teto para chão à medida que a gravidade se
realinha.
Corvus e eu navegamos pela câmara como uma dança bizarra, saltando
e girando, às vezes nos segurando, às vezes usando o impulso das mudanças
para nos impulsionar para frente. É tonteante e emocionante, e quando
finalmente chegamos à saída, não tenho certeza de qual direção é para cima.
Cambaleamos para o próximo corredor, desabando enquanto esperamos
o mundo parar de girar.
— Se importa se eu vomitar? — solto, fechando os olhos e segurando
minha cabeça.
— Só se você se importar se eu fizer o mesmo — ele rebate.
Antes que eu possa responder, o ar ao nosso redor cintila. De repente,
estamos cercados por múltiplas versões de nós mesmos, cada uma
apontando para um caminho ramificado diferente. — De novo não — gemo
enquanto nos levantamos.
— Por aqui! — todos gritam simultaneamente, suas vozes uma
combinação perfeita com as nossas.
Fico paralisada, sem saber para onde me virar. — Corvus? — sussurro,
estendendo a mão para ele.
Mas quando olho, há vários, cada um me instando a seguir um caminho
diferente. O pânico começa a subir pela minha garganta. Qual é o
verdadeiro? Como posso saber?
— Adelaide — todos dizem —, confie em mim. Este é o caminho certo.
Fecho os olhos, tentando bloquear a confusão visual. Penso no que
Corvus disse mais cedo sobre confiar nos meus instintos. Respirando fundo,
estendo meus sentidos, tentando sentir o Corvus verdadeiro.
Perto de mim, ouço um pulso fraco, um cheiro familiar e uma atração
em certa direção. Sem abrir os olhos, estendo a mão e agarro uma das mãos.
— Por aqui — digo com firmeza, puxando o verdadeiro Corvus por um dos
caminhos.
Enquanto nos movemos, ouço as ilusões se despedaçando atrás de nós.
Quando finalmente abro os olhos, estamos sozinhos em um corredor normal
pela primeira vez.
Corvus me olha com algo suave demais para o meu gosto. — Como
você soube?
Dou de ombros, me sentindo um pouco surpresa também. — Eu senti.
Algo sobre os outros não parecia certo.
Ele acena lentamente, um sorriso malicioso curvando seus lábios. —
Você me conhece, Dollie. Estou tocado.
Dou um soco em seu braço com toda a força que tenho, então solto um
grito, sacudindo meu punho. — Você é um babaca, sabia? — disparo.
— Já fui chamado de coisa pior — ele ri. — Vamos. Vamos terminar
isso.
Não consigo conter a onda de orgulho. Estamos enfrentando esses
desafios juntos, sim, mas também estou descobrindo forças que nem sabia
que tinha. Pela primeira vez desde que cheguei a MistHallow, estou
começando a entender por que estou aqui.
— Esses testes parecem feitos para vampiros — murmuro.
— Definitivamente. É por isso que nos separou, para nos testar com
desafios específicos para cada espécie.
— Este labirinto é um idiota.
— Não diga isso muito alto, ainda não estamos fora de perigo.
Finalmente, depois do que parece uma eternidade de testes e
armadilhas, viramos uma esquina e nos encontramos em uma grande
câmara circular. Um cálice de prata reluzente está no centro, sobre um
pedestal de mármore negro.
— O Cálice de Cartago — Corvus suspira, seus olhos arregalados.
Nos aproximamos com cautela, atentos a qualquer armadilha final. Mas
nada acontece enquanto nos aproximamos. O cálice está lá, brilhando
inocentemente na luz fraca.
— Devo...? — pergunto, minha mão pairando hesitante.
Corvus acena. — Vá em frente. Você mais que mereceu.
— Parece fácil demais?
— Depois do que acabamos de passar? Você assistiu a filmes demais do
Indiana Jones — ele brinca.
— Ou talvez não o suficiente — murmuro, mas tomo coragem e estendo
a mão.
Assim que meus dedos se fecham ao redor do metal frio do cálice, há
um súbito clarão de luz azul. As paredes do Labirinto se desfazem, e nos
encontramos de volta ao Salão Principal de MistHallow.
Blackthorn se aproxima, um sorriso orgulhoso em seu rosto. —
Parabéns — ele diz. — Vocês completaram com sucesso sua missão e
provaram ser verdadeiros Cartagineses.
Olho para o cálice em minhas mãos, depois para Corvus. Ele está
sorrindo, seu cabelo geralmente perfeito bagunçado, e suas roupas um
pouco desarrumadas pela nossa aventura. Percebo que provavelmente estou
tão machucada quanto ele, mas não consigo me importar.
— Conseguimos — digo, um sorriso lento se espalhando pelo meu
rosto.
Corvus acena, seus olhos brilhando com algo que pode ser admiração.
— Formamos uma ótima equipe, Dollie.
— Adelaide, Corvus — Blackthorn diz, pegando o cálice de mim. —
Vocês demonstraram coragem, engenhosidade e trabalho em equipe
excepcionais hoje. Essas são as qualidades que mais valorizamos em
Cartago. Mais do que isso, vocês demonstraram a capacidade de enfrentar
seus medos e superá-los. Adelaide, você confiou em Corvus e deixou que
ele a guiasse, e Corvus, você assumiu o papel de mentor para ajudar
Adelaide. Vocês são realmente uma ótima equipe. Essas são as verdadeiras
marcas de um Cartaginês. O Cálice de Cartago é mais do que apenas um
troféu. É um símbolo do potencial dentro de cada um de vocês. Assim como
vocês dois trabalharam juntos para recuperá-lo, toda Cartago deve trabalhar
unida este ano para enfrentar os desafios que nos aguardam.
Enquanto Blackthorn termina seu discurso, meu olhar é atraído para
Corvus. Ele está ouvindo atentamente, mas há uma suavidade em sua
expressão que não vi antes. Quando ele me pega olhando, me dá um
pequeno sorriso genuíno que faz meu coração pular uma batida.
Desvio o olhar rapidamente, sentindo um rubor subir às minhas
bochechas. O que há de errado comigo? Este é o Corvus - o arrogante e
irritante Corvus que tentou me compelir. Eu não deveria estar sentindo o
que quer que seja isso. Ou deveria?
Mas não posso negar que algo mudou entre nós. Enfrentar os desafios
do Labirinto juntos, ver um ao outro em nossos momentos mais vulneráveis
criou um vínculo que não sei bem como definir.
Quando Blackthorn nos dispensa, Corvus se inclina para perto.
— E aí, parceira. Que tal pegar algo para comer? Não sei quanto a você,
mas experiências de quase morte sempre me deixam faminto.
Rio apesar de mim mesma. — Claro, por que não? Eu poderia comer
um boi inteiro depois de tudo isso.
— Bem, não posso prometer um boi, mas tenho certeza de que podemos
encontrar algo para satisfazer seu apetite — ele diz com uma piscadela.
Enquanto nos dirigimos ao refeitório, me pego lançando olhares furtivos
para Corvus. O jeito como ele se move, confiante mas relaxado. O modo
como seus olhos se enrugam levemente nos cantos quando ele sorri. A
maneira como ele parece estar sempre ciente de onde estou, ajustando seu
ritmo para acompanhar o meu.
É desconcertante, mas não de todo desagradável.
Pegamos nossa comida - um bife mal passado para mim, uma xícara de
sangue sintético para Corvus - e encontramos um canto tranquilo para
sentar.
— Então — diz Corvus enquanto nos acomodamos — foi uma aventura
e tanto, não é?
Aceno com a cabeça, cortando meu bife. — Foi intenso. Nunca
experimentei nada parecido antes.
— Você se saiu bem — ele diz, e há uma nota de admiração genuína em
sua voz que me faz olhar para cima. — A maioria das pessoas teria
desmoronado ao enfrentar seus medos mais profundos daquele jeito.
Dou de ombros, tentando minimizar o elogio. — Tenho certeza de que
você já enfrentou coisas piores.
Corvus fica quieto por um momento, girando sua xícara
pensativamente. — Você ficaria surpresa — ele diz finalmente. — Todos
nós temos nossos demônios, Adelaide. Até mesmo aqueles de nós que
parecem ter tudo sob controle.
Há uma vulnerabilidade em sua voz que me pega de surpresa. Por um
momento, vejo além da fachada arrogante a pessoa por baixo - alguém que,
como eu, está tentando encontrar seu lugar em um mundo que nem sempre
faz sentido.
— Bem, estou feliz que enfrentamos nossos demônios juntos.
Corvus olha para mim, surpreso. Então ele sorri, um sorriso real e
caloroso que transforma seu rosto.
— Eu também, Dollie — ele diz suavemente. — Eu também.
20

ADELAIDE

P ASSANDO pela biblioteca no caminho de volta para o meu quarto, procuro


livros sobre Fadas Negras no catálogo de magia e encontro a seção no
terceiro andar. Subindo rapidamente as escadas, encontro a enorme área no
canto do andar e começo minha busca por Introdução à Magia das Fadas
Negras. Quero saber exatamente quais poderes Zephyr tem para poder me
armar da próxima vez. Pegando emprestado o pesado tomo, desço as
escadas e saio para a noite que se aproxima. Para alguém que supostamente
deveria manter um horário noturno, estou saindo mais durante o dia do que
nunca. Amanhã, pretendo corrigir isso.
Antes que eu possa alcançar a porta da Torre Norte, paro bruscamente
quando Zaiah aparece na minha frente, me fazendo pular.
— E aí, gata — ele diz. — Ouvi dizer que você ganhou o Cálice de
Cartago.
— As notícias correm rápido — murmuro, olhando fixamente para seus
olhos brancos. — E não, antes que você diga qualquer outra coisa, eu não
desejo nada. Nunca vou desejar nada. Entendeu?
Ele ri e levanta as mãos. — Tudo bem, relaxa. Não ia falar sobre isso.
Você não vai me perguntar se eu ganhei o Cálice de Troia?
— Bem, eu não ia, mas acho que você está morrendo de vontade que eu
pergunte, então, Zaiah, você ganhou o Cálice de Troia?
— Ora, sim, eu ganhei. Obrigado por perguntar, Adelaide! — Ele sorri
radiante para mim, e eu rio como uma idiota. Tudo isso é tão normal que
esqueço o quão perigosos os gênios podem ser - bem, djinn, no caso dele.
Todos sabemos que os desejos não são tão simples assim. Tem que haver
equilíbrio.
— Bem, parabéns — digo, tentando passar por ele. — Eu realmente
deveria voltar para o meu quarto agora.
Mas Zaiah se move comigo, bloqueando meu caminho. Seu sorriso
ainda é amigável, mas a intensidade em seu olhar me deixa desconfortável.
— Tudo bem, Adelaide?
Aperto o livro com mais força contra o peito, sentindo meu coração
acelerar. — Estou cansada — minto. — Foi um longo dia.
Zaiah dá um passo à frente, e eu instintivamente recuo, me vendo
pressionada contra a parede da torre. Ele não me toca, mas está perto o
suficiente para que eu possa sentir as ondas de poder emanando de seu
corpo.
Minha respiração fica presa na garganta enquanto o pânico começa a
tomar conta. Neste momento, com Zaiah tão perto, parece que minha pele
está se arrepiando. Mas ele não me tocou de fato, e uma pequena parte do
meu cérebro reconhece que ele está sendo cuidadoso para não fazê-lo. É
então que percebo que minha pele não está coçando para se afastar dele,
mas sim o oposto.
Zaiah coloca as mãos na parede de cada lado da minha cabeça, me
encurralando sem fazer contato. Seus olhos brancos penetram nos meus, e
de repente, sinto aquela estranha puxada na minha alma novamente. É como
se um fio invisível estivesse nos conectando, me puxando em sua direção
apesar do meu medo.
— O que você está fazendo comigo? — sussurro, minha voz trêmula.
Ele inclina a cabeça, com uma expressão curiosa no rosto. — Você sente
isso?
É aterrorizante e emocionante, mas me sinto conectada a Zaiah em um
nível fundamental, como se nossas almas estivessem se reconhecendo. A
parte racional do meu cérebro está gritando para eu correr, para empurrá-lo
para longe, mas outra parte - uma parte que eu nem sabia que existia - quer
se aproximar ainda mais, especialmente quando vejo que ele também sente
isso. O que isso significa?
Minhas emoções são um turbilhão. Medo, curiosidade, atração e algo
mais profundo, mais primitivo, se misturam até que eu não consiga
distinguir onde um termina e o outro começa. O livro em minhas mãos
parece uma âncora, a única coisa me mantendo ancorada na realidade.
O olhar de Zaiah se suaviza, e ele se inclina ligeiramente. — Adelaide
— ele sussurra, meu nome soando como uma carícia em seus lábios.
De repente, algo dentro de mim se rompe. Antes que eu possa pensar no
que estou fazendo, estendo minha mão livre, agarro um punhado da camisa
de Zaiah e o puxo para mim. Nossos lábios se chocam em um beijo
profundo, apaixonado e completamente inesperado.
Por um momento, Zaiah fica congelado de surpresa. Então, com um
gemido baixo, ele responde, seus lábios se movendo contra os meus com
uma habilidade que faz meus joelhos fraquejarem. É o melhor beijo que já
dei. É como fogo e gelo, doce e picante, suave e duro ao mesmo tempo.
Minhas emoções explodem em um caleidoscópio de sensações. O medo
ainda está lá, mas é ofuscado por uma onda de desejo tão intensa que me
tira o fôlego. Minha boceta está molhada, e me sinto poderosa e vulnerável,
assustada e excitada. É avassalador e inebriante, e por um momento,
esqueço tudo o mais.
Mas então, tão repentinamente quanto começou, acaba. Zaiah se afasta
abruptamente, me deixando ligeiramente cambaleante. Abro os olhos,
confusa e um pouco magoada, apenas para vê-lo com o braço estendido, a
palma da mão voltada para fora.
Meu olhar segue o braço de Zaiah, e sinto meu corpo congelar de terror
quando ouço um grito agudo que faz meu sangue gelar.
Pairando no ar, preso na magia de Zaiah, está uma criatura saída
diretamente de um pesadelo. É como uma águia gigante, mas com
elementos distintamente sobrenaturais. Suas penas brilham com uma
iridescência sobrenatural, e seus olhos brilham com uma inteligência
anormal. Mas o que prende minha atenção são suas garras - afiadas como
navalhas e claramente destinadas a cortar e fatiar.
A criatura luta contra o domínio de Zaiah, seu grito aumentando de tom
até que eu queira cobrir meus ouvidos. Mas não consigo me mover. Estou
congelada no lugar, minhas costas ainda contra a parede da torre, o livro
apertado contra meu peito como um escudo.
Enquanto encaro a besta, minha mente girando com a mudança abrupta
de um beijo apaixonado para perigo mortal, um pensamento consegue
romper o pânico:
Que diabos é essa coisa?
21

ZAIAH

E U SENTI segundos antes de me afastar de Adelaide. Percebi o perigo. Era


como uma mudança no ar, um distúrbio no tecido mágico de MistHallow.
Reagi puramente por instinto, estendendo minha mão para pegar a criatura
em pleno voo.
O Strix luta contra minha magia enquanto Adelaide solta um grito de
pânico. Suas garras afiadas como navalhas estão cortando o ar inutilmente.
Seu grito perfura a noite, e eu sei que não temos muito tempo antes que
mais cheguem.
Sem hesitar, envolvo um braço ao redor da cintura de Adelaide,
ignorando seu ofego de surpresa. — Segure-se firme — murmuro, e num
piscar de olhos, não estamos mais no pátio, mas no meu quarto.
Solto Adelaide e me movo rapidamente até as janelas, fechando-as e
puxando as cortinas pesadas. O quarto mergulha na penumbra, iluminado
apenas pelo suave brilho de orbes encantados flutuando perto do teto.
— Zaiah, que porra... — Adelaide começa, sua voz trêmula.
— Shh — interrompo, levantando uma mão. Fecho os olhos,
concentrando minha energia. Em voz baixa, murmuro um chamado que
ecoa pelas frequências mágicas de MistHallow.
— Zephyr, Corvus, Ignatius. Venham.
Momentos depois, quando abro os olhos, o ar cintila e Zephyr rodopia
para dentro do quarto com Corvus em seu aperto firme. Ignatius surge no
quarto em uma torre flamejante que se dissipa revelando seu rosto
preocupado. Suas expressões mudam de confusão para alerta ao observarem
a cena.
— Strix — digo a título de explicação. — Pelo menos um, mais a
caminho.
Os olhos de Corvus se estreitam. — Strix? Aqui? Como isso é possível?
— O que é um Strix? — Adelaide pergunta, sua voz pequena e
assustada.
Viro-me para ela, notando seu rosto pálido e mãos trêmulas. O livro que
ela estava carregando ainda está agarrado a ela como se fosse salvá-la. — É
um assassino sobrenatural — explico gentilmente. — E parece que alguém
os enviou para... bem, para ser franco, te eliminar.
Os olhos de Adelaide se arregalam em choque. — Eu? Por que não
você?
— Eu não tenho tantos inimigos.
— Nem eu — ela sibila.
— Que você saiba. Você é nova neste mundo, Pequena Boneca —
Corvus murmura.
— Então quem... — Ela para, parecendo ainda mais assustada.
— Essa é a pergunta da hora, não é? — Zephyr diz, sua energia escura
crepitando ao seu redor. — Os Strix não são enviados por qualquer um.
Alguém importante.
— O quê? — Adelaide balança a cabeça, parecendo perdida. — Eu não
entendo. Não conheço ninguém que me queira morta. Acabei de chegar
aqui!
Observo enquanto Corvus se move em direção a ela, seus movimentos
lentos e não ameaçadores. Ele acaricia a bochecha dela com as costas da
mão. — Ei, está tudo bem — ele diz suavemente. — Não vamos deixar
nada acontecer com você.
Num instante, estou ao lado dele, afastando sua mão. — Não toque nela
— rosno.
Os olhos de Corvus brilham brevemente em vermelho, mas ele se
acalma instantaneamente e dá um passo para trás.
Adelaide respira fundo, seus ombros relaxando levemente enquanto
olha para ele.
Uma pontada de ciúme me atravessa, surpreendente em sua intensidade.
Nosso beijo ainda está fresco em meus lábios, nosso vínculo agora mais
forte do que nunca, mesmo que ela ainda não saiba o que é.
Mas vê-la responder a Corvus desperta algo primitivo e possessivo
dentro de mim.
Afasto esse sentimento, concentrando-me no assunto em questão. —
Precisamos descobrir quem enviou o Strix e por quê — digo, minha voz
talvez um pouco mais afiada do que o necessário.
Ignatius, que tem estado incomumente quieto, se manifesta. — Mais
importante, precisamos manter Adelaide segura até que possamos resolver
isso.
Um baque pesado contra a janela faz Adelaide pular, um pequeno grito
escapando de seus lábios. Outro baque segue, depois outro. Os Strix estão
tentando entrar.
Atravesso até as janelas e abro as cortinas uma fração. Os Strix estão
grudados contra a janela, sentindo a presença de seu alvo aqui dentro. Eles
estão contidos por enquanto, mas isso não vai durar.
Movo-me instintivamente, colocando-me entre Adelaide e a janela. —
Precisamos levá-la de volta à sua torre — digo. — Ela está protegida.
Adelaide, ainda de pé perto de Corvus, balança a cabeça. — Mas
Corvus conseguiu entrar — ela diz. — Como isso é seguro?
Corvus sorri, um brilho malicioso em seu olhar. — Não está protegida
contra mim, Boneca — ele diz.
Zephyr dá um passo à frente, sua expressão mais curiosa do que
qualquer outra coisa. — Todos nós iremos — ele diz. — Para garantir que
Adelaide esteja segura.
Aceno com a cabeça, mesmo que parte de mim queira protestar. O
vínculo que compartilho com Adelaide - aquele que tenho fortalecido
sutilmente desde que ela chegou - pulsa com a necessidade de protegê-la.
Mas sei que agora, sua segurança é mais importante do que meus desejos.
— Mas se está protegida, como vamos entrar? — ela pergunta, sua voz
tremendo.
— Posso criar dimensões de bolso. Isso nos permitirá entrar no quarto,
mas então você terá que ser quem nos puxa para dentro.
— O quê? Eu não posso fazer isso! — ela diz, seu tom subindo várias
oitavas.
— Você pode e vai — digo a ela. — É a única maneira de te levar de
volta ao seu quarto sem passar por eles. — Aceno com a mão em direção à
janela.
— Merda — ela murmura. — Merda!
Coloco uma mão levemente no ombro de Adelaide. O contato me envia
um choque, e vejo seus olhos se arregalarem em resposta. Não há dúvida
agora - ela também sente o vínculo.
Com um pensamento, transporto todos nós para o quarto da torre de
Adelaide em um pequeno outro mundo dentro deste mundo.
— E agora? — Adelaide pergunta, olhando ao redor para todos nós
amontoados na dimensão de bolso.
— Saia — murmuro.
Ela hesitantemente dá um passo, e a bolha se rompe.
— Agora — digo, encontrando seu olhar, — descobrimos quem quer
você morta e por quê. Mantemos você segura até que o façamos.
Ao dizer essas palavras, faço um juramento silencioso. Quem quer que
esteja por trás disso, sejam quais forem suas razões, não terá sucesso.
Protegerei Adelaide com tudo o que tenho - não apenas por causa do
vínculo, não apenas por causa do beijo, mas porque agora sei que a força
que me puxava em direção a ela não era um mero capricho ou uma
curiosidade incômoda. O vínculo que criei entre nós é real e está crescendo
a cada segundo que estou em sua presença como resultado.
Zephyr para de andar de um lado para o outro enquanto os Strix,
claramente visíveis através das janelas do chão ao teto do quarto de
Adelaide na torre, circulam como abutres. — Não faz sentido — ele diz. —
Adelaide acabou de chegar a MistHallow. Quem ela poderia ter irritado o
suficiente para justificar uma tentativa de assassinato?
— Com quem você falou desde que chegou aqui? — pergunta Corvus.
— Vocês, Blackthorn e uma garota chamada Lyra. Ah, e a senhora da
Água Azul na recepção. Orby!
— Hã? — murmuro enquanto me viro para olhar para onde ela correu.
O orbe mágico está zumbindo, vibrando intensamente enquanto ela se
aproxima dele.
— Onde você estava mais cedo? — ela pergunta.
A coisa não responde. Não pode. É senciente até certo ponto, pelo que
posso perceber. Entende, mas não pode responder com palavras. Ele salta
pelo quarto com tanto vigor que todos nos abaixamos, exceto Ignatius, que
está um pouco lento hoje. O orbe dispara em direção à cabeça dele e rebate,
fazendo-o gemer enquanto rimos de sua situação.
— Ai — ele grunhe. — Seu pestinha.
— Orby, acalme-se! — Adelaide atravessa o quarto e o agarra no ar. Ele
praticamente a arrasta até a janela e treme em sua mão. — Eu sei — ela
murmura, acariciando-o suavemente. Eu me maravilho com o fato de que
ela está morta de medo, mas ainda assim está se dando ao trabalho de
acalmar o orbe de estimação, que ficou meio maluco.
— Adelaide — murmura Corvus.
Ela se vira para olhar para ele e balança a cabeça levemente.
Ele sabe de algo que eles não estão compartilhando.
— Seja lá o que for, precisamos saber. Essas criaturas são má notícia,
querida. Você precisa contar a verdade.
— Não posso. O Professor Blackthorn disse que tem que permanecer
em segredo — ela murmura e joga o livro pesado que esteve segurando o
tempo todo na cama.
Isso imediatamente chama a atenção de Zephyr, e ele sorri
maliciosamente. — Aprendendo sobre mim, Bonequinha?
— Pare de me chamar assim — ela sibila — e sim. Você é má notícia.
Quero saber com o que estou lidando, e algo me diz que eu preferiria
arriscar minhas chances lá fora com eles. — Ela gesticula com a mão para
indicar os Strix.
O sorriso de Zephyr se alarga. É lento e sinistro, e eu suspiro. Isso
acabou de passar de uma situação ruim para muito, muito pior.
22

ZEPHYR

A TENSÃO na torre de Adelaide acabou de subir um nível. O ar está


carregado de magia e medo. Posso senti-lo na língua, doce e inebriante. Os
Strix circulando do lado de fora da janela são uma ameaça, mas também
uma oportunidade. Uma oportunidade de mostrar à Adelaide exatamente do
que sou capaz.
Caminho em sua direção, meus movimentos suaves e intimidantes. Ela
se enrijece, seus olhos se arregalando enquanto me observa aproximar. Ela
está cautelosa, e com razão.
— Quer saber contra o que estás lutando, Bonequinha? — ronrono,
minha voz baixa e sedutora. Energia sombria estala no ar ao meu redor,
sombras dançando aos meus pés. — Tens certeza de que podes lidar com
isso?
Adelaide dá um passo para trás. O medo em seus olhos é hipnotizante,
mas há curiosidade. Desejo, até. Isso me dá um arrepio de emoção.
— Não tenho medo de ti — ela diz, mas sua voz treme levemente.
Inclino-me mais perto, meus lábios quase roçando sua orelha. —
Deverias ter — sussurro.
Os outros na sala desaparecem ao fundo enquanto foco inteiramente em
Adelaide. Posso sentir seu coração acelerado e sentir o cheiro da adrenalina
correndo por suas veias. É inebriante.
— Nós nos alimentamos de medo, dor e desejo. Podemos moldar a
própria realidade — murmuro, sombras rodopiando ao nosso redor. —
Dobrar a luz e a escuridão à nossa vontade. Tua mente, tua própria alma,
são brinquedos para nós.
Estendo a mão, traçando uma sombra escura ao longo de sua mandíbula.
Ela estremece. — Uma coisinha tão delicada — reflito. — Tão frágil. Tão
tentadora.
— Zephyr — a voz de Corvus corta o ar. — Já chega.
Ignoro-o, meu foco inteiramente em Adelaide. — Queres ver mais,
pequena? — pergunto, minha voz sedutora. — Queres saber como é o
verdadeiro poder?
Adelaide engole em seco, o conflito claro em seus olhos. O medo luta
contra a curiosidade, a cautela contra o desejo. É uma visão deliciosa.
— Eu... — ela começa, então para, lambendo os lábios nervosamente.
Inclino-me mais perto, meus lábios quase tocando os dela. — Basta
dizer a palavra — sussurro. — Posso te mostrar maravilhas além dos teus
sonhos mais loucos. Ou horrores que te assombrarão por toda a eternidade.
A escolha é tua.
Por um momento fugaz, somos apenas nós dois. Seus olhos se fecham, e
há uma atração magnética entre nós, meu poder chamando algo dentro dela.
Uma pequena parte dela anseia por se render à escuridão. Seu anseio é
apetitoso.
Mas então ela abre os olhos, e a realidade volta. — Não — ela afirma
com firmeza. — Não vou fazer parte disso.
Dou um passo para trás. Um sorriso lento e perverso se espalha pelo
meu rosto. — Tens certeza disso, pequena? — pergunto. — Porque acho
que uma parte de ti está muito curiosa.
Adelaide me encara, seu medo se transformando em raiva. — Tens
razão — ela cospe. — Estou curiosa. Curiosa sobre como me proteger de
canalhas manipuladores como tu.
Suas palavras doem mais do que gostaria de admitir, mas não deixo
transparecer. Em vez disso, rio, o som escuro e rico. — Oh, Adelaide. Podes
tentar resistir o quanto quiseres. Mas nós dois sabemos a verdade. A
escuridão te chama. E mais cedo ou mais tarde, tu responderás.
— Já chega, Zephyr — diz Zaiah, colocando-se entre nós. — Temos
assuntos mais urgentes para tratar agora, caso tenhas esquecido.
Dou um passo para trás, meus olhos nunca deixando os de Adelaide. Ela
está abalada, mas há um fogo em seus olhos que não estava lá antes. É
intrigante.
— Claro — digo suavemente, virando-me para encarar os outros. — Os
Strix. Alguma ideia de como lidar com nosso pequeno problema de pragas
que não envolva eu sair lá fora e aniquilá-los todos em um massacre digno
dos lugares mais sombrios do que MistHallow?
— Parece bem sombrio aqui para mim — Adelaide murmura, me
fazendo sorrir. Então ela levanta a voz. — Se podes matá-los, o que estás
esperando?
— Os Strix não são apenas assassinos sobrenaturais comuns — digo.
Minha voz é baixa, mas carrega uma corrente subjacente de poder que exige
atenção. — São criaturas antigas, nascidas da sombra e da malícia. Eles se
alimentam do medo.
— Como tu — ela sibila.
Meus olhos se fixam nos de Adelaide. — De muitas maneiras, eles não
são tão diferentes dos Fae Escuros. Poderíamos dizer que nos entendemos.
A testa de Adelaide se franze. — Queres dizer que poderias controlá-
los?
Eu rio, o som rico e escuro. — Controlar? Não, pequena. Os Strix não
se curvam a ninguém, exceto ao seu mestre.
— Não quero que ninguém morra, mesmo que estejam tentando me
matar!
— E é aí que precisas mudar, Adelaide. Não vês que é tu ou eles? Não
há negociação.
Antes que ela possa responder, há uma forte explosão, e todos nos
viramos para as janelas. Os Strix estão sendo tratados eficientemente pela
Ordem da Sombra Carmesim. — Demoraram o bastante — murmuro.
— Com certeza — Ignatius concorda. — Com licença, o dever me
chama. — Ele sorri e, com um movimento de mão, usa magia para abrir a
janela, então se transforma em uma ave de fogo, voando pela abertura e
mergulhando em direção ao chão.
— Que diabos? — Adelaide grita enquanto corre para as janelas.
Estendo a mão e fecho a janela com força quando um Strix avista sua
abertura e mergulha direto para nós.
— Hoje não, imbecil — murmuro enquanto ele bate no vidro protetor.
— Ah! — Adelaide grita quando ele então explode, carne e penas se
espalhando pelo vidro em todas as direções. — O que é isso? Que porra de
lugar é esse?
— Isso, Adelaide, é o mundo em que entraste. Escuro, perigoso e
absolutamente cativante.
Adelaide cambaleia para longe da janela, seu rosto pálido. — Eu não
me inscrevi para isso — ela sussurra.
— Oh, mas tu te inscreveste — Corvus intervém, sua voz
surpreendentemente gentil. — No momento em que aceitaste teu lugar aqui,
te tornaste parte deste mundo. Para o bem ou para o mal.
Observo enquanto Adelaide processa isso. O medo em seus olhos está
sendo lentamente substituído por algo mais - determinação, talvez. Ou
resignação. De qualquer forma, é fascinante de se testemunhar.
— E agora? — ela pergunta, sua voz mais forte do que antes. — Como
paramos esses... Strix?
— Não paramos — diz Zaiah, dando um passo à frente. — A Ordem
cuidará deles agora. Nosso trabalho é te manter segura e descobrir quem os
enviou.
Adelaide acena lentamente com a cabeça e então se vira para mim. — E
quanto a você? — ela pergunta, com os olhos semicerrados. — Vai ajudar
ou vai continuar tentando me assustar?
Não consigo evitar sorrir com sua ousadia. — Oh, Pequena Boneca. Eu
sempre estou ajudando. Você só pode não gostar dos meus métodos.
Ela revira os olhos, mas eu percebo o leve tremor que percorre seu
corpo. Ela é afetada por mim, quer admita ou não.
E isso... é progresso.
23

IGNATIUS

E NQUANTO VOO PELO AR NOTURNO , minha forma uma ave de fogo


flamejante, sinto uma onda de excitação. A Ordem da Sombra Carmesim
finalmente chegou, e é hora de fazermos o que fazemos de melhor - manter
o equilíbrio no mundo sobrenatural.
Avisto meus companheiros da Ordem no chão, já engajados com os
Strix. Keira, seus cabelos prateados cintilando ao luar, empunha um cajado
crepitante de energia elétrica. Ao lado dela, Roran invoca vinhas espinhosas
que chicoteiam pelo ar, enlaçando Strix à esquerda e à direita. Vex usa
tentáculos de escuridão para açoitar ao seu redor, atacando os Strix com
precisão mortal.
Então tem eu. O fogo personificado.
Mergulho em direção a eles, minha forma ígnea iluminando o céu
noturno. Ao me aproximar, solto um grito que é parte brado de guerra, parte
saudação.
— Já não era sem tempo! — grito, após me transformar de volta à
forma humana em uma explosão de chamas.
— Desculpe pelo atraso — Keira sorri. — Tivemos alguns problemas
para chegar aqui.
Roran grunhe enquanto lança outra vinha contra um Strix em voo
rasante. Lanço uma bola de fogo contra um Strix que mergulha em direção
a Vex. Ela explode no ar, nos banhando com cinzas e penas.
— Perguntas depois — Vex grita, sua voz calma apesar do caos ao
nosso redor. — Mas isso é preciso saber.
Ele está certo. É mesmo. Precisamos saber quem diabos enviou esses
idiotas. Mas agora, me concentro na batalha, deixando a familiar onda de
adrenalina tomar conta. O fogo dança nas pontas dos meus dedos,
respondendo à minha vontade tão facilmente quanto respirar.
Os Strix são oponentes formidáveis. Suas garras e bicos afiados como
navalhas são uma ameaça constante, e sua habilidade de se mover através
das sombras os torna alvos escorregadios. Mas nós também não somos nada
fáceis de derrubar.
Envio uma onda de fogo varrendo o pátio, conduzindo um grupo de
Strix em direção a Keira. Ela sorri ferozmente, seu cajado girando em um
borrão de movimento. Relâmpagos saltam de sua ponta, atingindo os Strix
com precisão cirúrgica.
Roran criou uma verdadeira floresta de vinhas espinhosas, prendendo
vários Strix. Envio jatos de chamas através das vinhas. Os Strix explodem,
não mais vivos.
— Vex, às suas três horas! — grito, avistando um Strix mergulhando em
direção ao seu ponto cego.
Ele reage instantaneamente, uma parede de sombra se erguendo para
encontrar a criatura. O Strix se choca contra ela, desorientado, e os
tentáculos de escuridão de Vex o envolvem, esmagando-o até o nada.
— Agradecido — ele acena com a cabeça, já se movendo para enfrentar
seu próximo oponente.
Um Strix particularmente grande de repente se separa do grupo
principal, indo direto para a torre de Adelaide. Praguejo baixinho. — Me
deem cobertura! — grito para os outros, já me transformando de volta em
minha forma de ave de fogo.
Disparo em direção à torre, me forçando a voar mais rápido do que
jamais voei antes. Posso ver o Strix se aproximando da janela, suas garras
estendidas, pronto para estilhaçar o vidro ou morrer tentando.
Colido com o Strix no ar, minha forma ígnea o envolvendo. Rolamos
pelo ar, uma bola de fogo e sombra. Posso ouvir seus gritos de dor e fúria
em minha alma, sentir suas garras arranhando minha pele flamejante.
O chão está se aproximando rapidamente. No último segundo, me
separo do Strix, abrindo minhas asas para pegar uma corrente ascendente. O
Strix, desorientado e gravemente queimado, não tem tanta sorte. Ele se
choca contra o chão com um baque nauseante.
Aterrisso nas proximidades, voltando à forma humana. O Strix se
contorce fracamente, então se dissolve em sombra, deixando nada além de
uma marca de queimadura na grama.
— Ignatius! — Vex chama, correndo até mim. — Relatório de situação?
Aceno com a cabeça, ofegando levemente. — Operacional.
Ligeiramente chamuscado nas bordas — brinco com pesar. — Situação
atual?
Ele olha ao redor, seus olhos escuros avaliando o campo de batalha. —
Acredito que esse foi o último deles. Keira e Roran estão fazendo uma
varredura final para confirmar.
Enquanto caminhamos de volta para Keira e Roran, me pergunto quem
os enviou. O aparecimento dos Strix é preocupante, para dizer o mínimo.
Alguém poderoso quer Adelaide morta ou capturada, e não tem medo de
fazer uma jogada ousada.
Mas ao mesmo tempo, não posso negar a emoção de tudo isso. É por
isso que me juntei à Ordem em primeiro lugar - para estar na linha de
frente, protegendo o equilíbrio do nosso mundo.
A expressão de Vex é séria. — Esse nível de agressão é sem
precedentes. Alguém está fazendo uma declaração. Nós sequer sabemos
quem é o alvo?
— Adelaide Black — murmuro, olhando para a torre.
Isso chama a atenção de todos. — A filha de Randall?
— A única... que conhecemos — respondo. — A questão é, o que
vamos fazer sobre isso?
Keira gira seu cajado, eletricidade crepitando ao longo de seu
comprimento. — O que for preciso, Garoto de Fogo.
Vex acena em concordância. — Manteremos a vigilância, mas à
distância por enquanto. Nossa prioridade deve ser rastrear esses Strix até
sua fonte. Nossa presença aqui é disruptiva.
— A presença dos Strix é mais disruptiva — murmuro, mas Vex está
certo. A Ordem da Sombra Carmesim é uma força de guerreiros de elite que
opera nas sombras, e nossa presença em MistHallow poderia levantar
questões desconfortáveis.
— Algo especial sobre Adelaide Black que devemos saber? — Vex
pergunta.
Balanço a cabeça. — Nada que saibamos. Ela tem um pai poderoso que
tem mais de um milênio de idade. Tenho certeza de que não preciso dizer
que é provável que ele tenha mais inimigos do que amigos.
Vex bufa. — Muito provável, de fato. Agora, é melhor irmos ver Ellis.
Ele vai ter perguntas.
— Boa sorte com isso — murmuro e os observo desaparecer para falar
com o Diretor de MistHallow. Estou isento de tal interrogatório a menos
que seja chamado. Como estudante, meu trabalho é estar aqui se a Ordem
precisar de mim no campus. Tenho quase certeza de que eles chegarão ao
fundo disso. Afinal, é isso que a Ordem faz de melhor. Encontramos a
verdade, não importa quão profundamente ela esteja enterrada.
Algo me diz que a verdade sobre Adelaide Black e quem quer ela morta
vai ser uma revelação e tanto.
24

ADELAIDE

U MA SIRENE soa por todo o campus de MistHallow, e um alto-falante


crepita.
— Todos de volta aos seus quartos designados. Estamos em
confinamento temporário enquanto garantimos a segurança do campus.
A adrenalina do ataque Strix está começando a passar, me deixando
exausta e mais do que um pouco sobrecarregada.
— Bem, isso foi empolgante — diz Zaiah, seu tom alegre demais para o
meu gosto. — Nada como uma experiência de quase morte para apimentar
sua primeira semana na escola, hein?
Lanço-lhe um olhar fulminante. — Isso é normal em MistHallow?
Porque se for, acho que preciso reconsiderar minhas escolhas educacionais.
Corvus ri. — Confia em mim, Dollie, isso não é normal. Nem mesmo
para nós.
— Exatamente — acrescenta Zephyr, seus olhos roxos escaneando o
quarto como se procurassem por ameaças ocultas. — Alguém se deu muito
trabalho para chegar até você, Adelaide. A questão é, por quê?
Afundo-me na minha cama, de repente me sentindo muito pequena e
muito sozinha. — Não sei — murmuro.
Zaiah bufa. — Ah, qual é. Você é a filha de Randall Black. Só isso já te
torna um alvo.
— Não está ajudando, Zaiah — murmura Corvus.
Olho para eles. — Então, o que faço agora?
— Por enquanto, você fica aqui — diz Zephyr. — O confinamento dará
tempo à Ordem para vasculhar o campus e garantir que não haja mais
surpresas desagradáveis à espreita.
Como se fosse uma deixa, uma voz ecoa pelo sistema de interfone como
se falasse especificamente conosco. — Atenção a todos os alunos e
funcionários. MistHallow está em confinamento temporário. Por favor,
retornem aos seus quartos designados até segunda ordem. Isto não é um
exercício.
Zaiah se espreguiça, seus movimentos lânguidos e felinos. — Bem, por
mais que eu adorasse ficar e conversar, estamos sendo indevidamente
expulsos.
Ele se move em minha direção, e por um momento, penso que ele vai
tentar me tocar, até me beijar. Mas ele para logo antes, me dando apenas
uma piscadela. — Fique segura, gata. Tente não sentir muita saudade de
mim.
Com isso, ele desaparece em uma nuvem de fumaça, deixando para trás
o mais leve aroma de especiarias exóticas e uma pontada no meu coração
com sua ausência.
Corvus revira os olhos. — Exibido — murmura. Então ele se vira para
mim, sua expressão suavizando. — Você vai ficar bem, Dollie?
Concordo com a cabeça, tentando projetar mais confiança do que sinto.
— Sim, vou ficar bem. É melhor você ir.
Ele hesita por um momento, então acena. — Se precisar de alguma
coisa...
— Sei onde te encontrar — completo por ele, mesmo que isso não seja
estritamente verdade.
Ele acena e se vira para a porta. Abre-a e se transforma em um morcego
para voar através da seteira.
Isso deixa apenas Zephyr. Ele tem estado inquietantemente quieto, sua
energia sombria rodopiando ao seu redor como uma capa.
— Suponho que você também deva ir — digo, sem ter certeza se quero
que ele fique ou vá embora.
Zephyr sorri, e não é uma expressão reconfortante. Ele dá um passo à
frente, e tenho que me forçar a não recuar. — Que pena — ele murmura. —
Você me fascina, Adelaide Black. Eu gosto de proteger o que me fascina.
— Então, o que isso significa, exatamente?
— Significa que você é minha, Pequena Dollie. — Seus olhos agora
estão completamente negros, e com isso, ele se derrete na escuridão, não
deixando nenhum rastro.
Sou deixada sozinha no meu quarto, meu coração disparado. O silêncio,
depois de todo o caos, é quase ensurdecedor.
— Pelo amor de Deus — murmuro. — Isso é ridículo. Randall Black,
você tem muito o que explicar.
Vejo o livro sobre magia das Fadas Sombrias que eu havia jogado na
cama mais cedo. Bem, pelo menos o confinamento me dá uma chance de
colocar a leitura em dia e, finalmente, entrar em um horário noturno
adequado.
Enquanto a escuridão cai do lado de fora da minha janela, me acomodo
com o livro. As palavras nadam diante dos meus olhos no começo, minha
mente ainda cambaleando com os eventos do dia. Mas gradualmente,
começo a me concentrar.
O livro, "Introdução à Magia das Fadas Sombrias", é muito mais
abrangente do que eu inicialmente pensava. Não é apenas um livro didático
seco; é uma janela para um mundo que eu nunca soube que existia. As
páginas estão cheias de ilustrações intrincadas de Fadas Sombrias em várias
formas, desde assombrosamente belas até terrivelmente grotescas. Posso
ver ambas em Zephyr. Por mais que eu odeie admitir, ele também me
fascina, e a ideia de ser dele não é tão desagradável quanto deveria ser.
O primeiro capítulo mergulha nas origens das Fadas Sombrias, traçando
sua linhagem de volta à escuridão primordial que existia antes da luz. É um
relato poético, quase mitológico, mas o autor insiste que é baseado em
evidências factuais.
Conforme leio, me vejo atraída pela complexa hierarquia da sociedade
das Fadas Sombrias. Existem cortes e reinos, alianças e feudos que duraram
milênios com apostas mais altas do que posso imaginar. Há um retrato
colorido do Rei das Fadas Sombrias, que está no poder há séculos. Ele é
régio e selvagem. Posso dizer pelo sorriso cruel em seu rosto. Traço meu
dedo levemente sobre ele e vejo uma familiaridade que desperta meu
interesse.
— O que você está escondendo, Zephyr das Fadas Sombrias?
A seção sobre as habilidades das Fadas Sombrias é particularmente
fascinante. Fala sobre seu poder sobre sombras e escuridão, sua capacidade
de manipular emoções e sonhos. Algumas Fadas Sombrias, o livro afirma,
podem até dobrar a própria realidade à sua vontade. Já vi Zephyr fazer isso,
então isso levanta ainda mais questões sobre quem ele realmente é.
Há um capítulo inteiro dedicado aos Fae Sombrios e seus
relacionamentos com outros seres sobrenaturais. Vampiros, lobisomens,
bruxas - cada um tem sua própria história complexa com os Fae Sombrios.
Não posso deixar de me perguntar onde os Vesperidae como eu se encaixam
nessa intrincada teia.
Conforme me aprofundo no livro, me vejo tanto aterrorizada quanto
estranhamente empolgada. Esse mundo de escuridão e sombra, de poder e
magia antiga, é tudo tão novo, mas parece familiar de alguma forma. Como
se uma parte de mim sempre soubesse que isso existia, sempre estivesse
esperando para descobri-lo.
Estou tão absorta em minha leitura que, quando uma batida soa na
minha porta, quase pulo da pele.
Com o coração acelerado, me aproximo da porta com cautela.
Espiando pelo olho mágico, fico surpresa ao ver o Professor Blackthorn
parado ali, parecendo tão calmo e composto como sempre.
—Professor? —chamo, sem abrir a porta ainda. —Como o senhor
entrou aqui? Pensei que a torre fosse protegida.
Ouço uma risada do outro lado da porta. —Ah, Srta. Black. Sempre
fazendo as perguntas certas. Eu mesmo coloquei as proteções nesta torre,
minha cara. Elas me reconhecem.
Ok, bem, isso não é nem um pouco suspeito.
Hesito, com os olhos estreitos, não convencida. —Como posso saber
que o senhor é realmente o Professor Blackthorn?
—Bem —vem a resposta divertida —, nós tivemos uma conversa bem
interessante ontem sobre sua herança única. Eu deixei você na biblioteca
para fazer pesquisas.
Sabendo que tudo isso é verdade, ainda estou cautelosa, mas destranco a
porta e abro, recuando para deixá-lo entrar.
O Professor Blackthorn entra, seus olhos rapidamente examinando o
quarto antes de se fixarem em mim. —Confio que você esteja ilesa, Srta.
Black?
Aceno com a cabeça, fechando a porta atrás dele. —Sim. O que eram
aquelas coisas? —Já que ele está aqui, é melhor ouvir do Prof.
—Strix. Assassinos sobrenaturais enviados apenas pelos mestres mais
poderosos.
—E esse seria...?
—O que precisamos descobrir. —Ele me encara por um momento, me
deixando desconfortável. —Parece que você já tem um círculo protetor bem
formado ao seu redor.
—Se ao menos eu soubesse por quê —suspiro.
—Bem, Corvus, eu entendo... ele pode ensinar você, guiá-la... mas
esteja ciente de que esses homens são problema, Srta. Black. Não entre em
uma aliança às cegas.
—Aliança?
Ele acena. —Precisamos trabalhar no desenvolvimento de suas
habilidades. —Ele estala os dedos, e uma bandeja aparece na cômoda com
um prato coberto por uma redoma prateada e um grande frasco de prata. —
No frasco, você encontrará sangue humano —ele murmura. —Isso não é
algo que permitimos no campus, então mantenha isso em segredo por
enquanto, se não se importa. Mas acredito que esta seja a chave para ativar
suas habilidades dormentes.
—Ah, é?
—Tome pequenos goles com frequência. Não tente beber tudo de uma
vez, não importa o quão tentador possa ser. Precisamos de um aumento
gradual, não de uma súbita avalanche avassaladora. Amanhã à noite, nos
encontraremos e veremos se suas habilidades se manifestaram de alguma
forma. Eu esperava que estar no Labirinto sob circunstâncias de pressão
com Corvus tivesse desencadeado algo, mas temo que não tenha
acontecido.
—O senhor armou pra mim? Foi muito perigoso lá dentro! —disparo,
furiosa por ele poder ter me matado.
—Corvus não teria deixado isso acontecer —ele diz com desdém. —E
todos os alunos têm que passar por isso no início de cada ano. Se
tivéssemos te segurado, mais perguntas teriam sido feitas.
Rosno suavemente, mas não discuto. Afinal, ele não está errado. —O
senhor tem alguma ideia de por que os Strix estavam atrás de mim? —
pergunto.
Ele me dá um sorriso lento que não me conforta nem um pouco. —
Quem disse que eles estavam atrás de você, Srta. Black?
Nossos olhares se mantêm por alguns segundos antes dele desaparecer
de vista de uma maneira que me faz pensar que ele realmente não estava
aqui.
—Quem disse que eles estavam atrás de você? Boa porra de pergunta.
Os caras disseram. Zaiah, em particular, foi veemente em dizer que não era
ele.
Afundo de volta na minha cama, de repente me sentindo muito cansada.
—Eu não entendo nada disso. Minha cabeça dói.
Orby se aproxima e me aconchega, oferecendo algum conforto nessa
tempestade em que eu caí no meio.
—Obrigada, Orby. Queria que você pudesse falar.
Minha mente gira com perguntas e possibilidades. Olho para o livro
sobre magia dos Fae Sombrios, ainda aberto na cama ao meu lado.
Bem, dizem que conhecimento é poder, então tenho muito o que ler.
Seja o que for que esteja vindo para mim, ou não; seja o que eu estiver
destinada a me tornar, ou não; estou determinada a seguir em frente. Passei
vinte e um anos sem saber quem eu realmente era na minha pele. Agora sei,
e preciso me esforçar. Essas habilidades dormentes precisam vir à tona, e eu
preciso mostrar a todos em MistHallow que a novata não é mole.
Especialmente para esses caras que têm demonstrado tanto interesse em
mim. Por mais sedutores que sejam, por mais lindos que sejam, por mais
que me façam sentir viva e não como uma velha seca esperando murchar e
morrer, eu preciso ser cautelosa com eles. Eles são os mais perigosos de
todos.
Gemendo, me jogo de volta na cama e então me enrolo de lado,
apoiando o livro para continuar lendo. Vampiros, eu já entendi bem. A
verdade não está muito longe do mito na maioria dos casos, mas o resto?
Não faço a mínima ideia. A biblioteca e eu vamos ficar bem íntimas nos
próximos dias enquanto aprendo sobre essas criaturas que colocaram seus
olhos em mim.
25

ADELAIDE

A LUA ESTÁ DESAPARECENDO , trazendo consigo o amanhecer crescente.


Foram alguns dias infernais em MistHallow, mas tenho a sensação de que
isso não é novidade. Meu cérebro implora por descanso de todos esses
pensamentos que não me deixam em paz sobre os rapazes, os Strix, eu.
Afasto o livro enquanto a névoa rodopia lá fora, a luz sombria mal
sendo uma chama.
Apago quase instantaneamente, mergulhando direto no fundo do
oblívio.
Meus olhos piscam e estou completamente acordada no meu quarto na
torre - exceto que está diferente. Está carregado com uma energia que
vibra contra minha pele. O ar está espesso com um aroma escuro e doce
que me envolve como um cobertor.
Meu coração dispara. Sombras se agarram aos cantos, observando,
esperando. Parece que o quarto está vivo e faminto, e isso combina com o
desejo que cresce dentro de mim.
Gemo quando o desejo me inunda. Estou sozinha, mas não parece
assim. Há uma presença aqui, familiar e chamando pela parte sobrenatural
de mim que tem se agitado sob minha pele por toda a minha vida e mais
ainda desde que descobri o que sou.
— Quem está aí — murmuro, desafiando as sombras, sentindo outra
presença.
A expectativa cresce, densa e irresistível. Quase posso sentir o gosto, e
tem sabor de poder, de segredos compartilhados na calada da noite. É
inebriante.
Zaiah aparece com aqueles olhos que prometem problemas. — Sabia
que era você — murmuro, mas antes que eu possa dizer mais, sua presença
me envolve, me atraindo como um ímã.
Sua voz é uma carícia que deixa meus nervos à flor da pele. — Coisas
boas vêm para quem sabe esperar, Adelaide.
— Que se dane a espera.
Ele sorri, afiado e rápido. — Como quiser.
— Não é um desejo — murmuro quando ele se aproxima, perto o
suficiente para que eu sinta seu calor. É antinatural, essa atração entre nós,
mas é tão real quanto o chão sob meus pés. Seus dedos percorrem meu
braço, leves mas ardentes.
— Porra — respiro, minha pele ganhando vida sob seu toque.
— Isso é um convite? — Zaiah provoca, mas seus olhos contêm uma
fome que me diz que ele está falando sério.
— Talvez — rebato, tentando manter minha voz firme. Posso sentir a
Vesper dentro de mim respondendo à sua magia djinn, subindo à superfície.
Está lá, eu sei.
Sua mão paira perto da minha bochecha, e meu corpo reage,
arqueando em sua direção. Minha respiração falha, um gemido escapando
de mim. — Deixe-me te tocar, Adelaide. Posso te fazer sentir coisas que
você nunca experimentou antes.
— Por favor — ofego, me perguntando no fundo da minha mente por
que estou permitindo isso. — Zaiah... — Não termino porque seu toque
apaga todos os pensamentos da minha mente quando ele acaricia minha
bochecha, e eu suspiro.
— Shh — ele diz, agora próximo. — Apenas sinta, Adelaide. Sem mais
palavras.
O quarto se transforma, virando um jardim exuberante sob um céu
iluminado pela lua. É como algum Éden sombrio, preenchido com o aroma
de jasmim que nos envolve, denso e inebriante.
— Onde estamos? — sussurro, girando em um círculo para contemplar
a maravilha ao meu redor.
— Em um lugar perfeito — Zaiah murmura.
A visão me deixa sem fôlego. Ele é como algum deus escuro nu, com
linhas poderosas e beleza impressionante. Meus dedos coçam para tocá-lo,
para confirmar que ele é real.
Estendo a mão, passando-as pelo seu peito. Seu calor me queima.
Posso sentir seu batimento cardíaco, o ondular dos músculos. Olho para
baixo quando a brisa acaricia minha pele sensível e percebo que também
estou nua.
Como isso aconteceu?
— Continue me tocando, Adelaide. É tão bom.
Cada toque envia ondas de choque de desejo através de mim que me
eram desconhecidas até agora. Já fiz sexo. Duas vezes. Beijei alguns caras
aqui e ali. Ser avessa ao toque torna difícil querer estar com alguém dessa
maneira, mas Zaiah está derrubando essas paredes sem nem mesmo fazer
realmente nada além de ficar ali, nu, quente, com um pau do tamanho de...
Engulo em seco. Nem consigo compará-lo a nada.
Seus braços me envolvem, me puxando contra ele. O contato é elétrico
quando meus seios se comprimem contra seu peito.
— Zaiah — murmuro, mas soa mais como uma súplica do que qualquer
outra coisa. — O que você está fazendo comigo?
— Apenas o que você quer — ele sussurra no meu ouvido. — Apenas o
que você sempre quis.
— Zaiah — exalo, minha voz tremendo. Ele sorri, aquela curva
maliciosa de seus lábios prometendo confusão.
— Minha Adelaide — ele murmura, e então sua boca está na minha. O
beijo não é apenas um encontro de lábios; é um choque de quem somos -
Vesper e djinn, unidos por sussurros noturnos e segredos não ditos. Seus
lábios esmagam os meus, arrancando de mim uma resposta que é ao
mesmo tempo primitiva e nova.
Não sei como navegar isso, como me soltar sem me perder. Mas
conforme nossas bocas se movem em sincronia, percebo que não preciso
saber. É sobre confiar nele, sobre me afogar no momento.
Seus dedos traçam fogo pela minha espinha, cada toque uma faísca. O
jardim desaparece, o aroma de jasmim apenas um eco atrás da tempestade
que ele está agitando dentro de mim.
— Porra — suspiro contra sua boca, e ele ri, o som vibrando através de
mim. Suas mãos vagam possessivamente, atiçando as chamas ainda mais
alto.
— Deixe queimar, Addy — Zaiah respira, sua voz impregnada de
pecado. — Deixe consumir você.
Quando ele nos guia para baixo, estou de volta à minha cama, os
lençóis frescos são bem-vindos contra o calor da pele de Zaiah enquanto
ele pressiona contra mim. Seus quadris se movem contra os meus,
arrancando gemidos profundos da minha alma.
— Puta merda, Zaiah — ofego. — Não para.
— Nunca — ele rosna, sua voz rouca.
Ele mergulha seu pau dentro da minha boceta com uma estocada
rápida, e eu grito, arqueando as costas e empurrando meus quadris. É duro
e rápido, depois dolorosamente lento, me provocando até o limite. Cada
investida alimenta o fogo no meu sangue, a parte Vesper em mim viva e
arranhando a superfície.
— Addy — Zaiah sussurra, seus lábios roçando minha orelha. — Você é
tão gostosa.
Suas palavras são uma carícia enquanto eu nos viro, precisando
assumir o controle. Suas mãos exploram cada centímetro de mim,
acariciando meus seios e beliscando meus mamilos. O quarto é um borrão
enquanto eu giro meus quadris, nos deixando loucos.
— Isso mesmo, Addy. Me faz gozar como um bom garoto.
Meus olhos se abrem de repente com essas palavras murmuradas que
acenderam um fogo totalmente novo em mim. — Puta que pariu — ofego.
— Mais — ele implora sem vergonha. — Me dá mais.
Eu respondo capturando sua boca em outro beijo, silenciando suas
súplicas enquanto aumento o ritmo, cavalgando-o com força e rapidez.
— Caralho, você é apertada — ele murmura. Seus dedos encontram
meu clitóris, circulando lentamente, o que me deixa à beira do precipício.
Mas eu não quero ainda. Quero que isso dure.
— Cavalga em mim com sua velocidade de vampiro — ele ofega. — Me
dá tudo.
Eu hesito. Eu não tenho velocidade de vampiro.
Mas mesmo enquanto penso nisso, sei que não é verdade. Posso sentir
borbulhando dentro de mim. Posso sentir meus quadris se movendo mais
rápido.
Meu foco se aguça, e uma dor nos meus dentes me faz ofegar de dor.
Passando minha língua sobre os dentes superiores, sibilo quando corto
minha língua. — Merda — murmuro. Minhas unhas se afiaram como
garras, e eu as enterre no peito dele.
Ele geme, seu pau pulsando violentamente dentro de mim enquanto eu o
excito. — Isso mesmo, Mestra. Me machuca, me faz sangrar por você.
— Zaiah... — Seu nome é um mantra, uma oração, enquanto me perco
na sensação. Não há espaço para pensamento, apenas sentimento - a vara
do seu pau enterrada profundamente dentro de mim, a pressão dos seus
dedos, a construção implacável do prazer.
— Goza pra mim, Addy — Zaiah insiste, sua voz desesperada pelo meu
orgasmo. — Preciso te sentir.
Minha resposta é um grito abafado, meu corpo se aperta enquanto eu
convulsiono, minha boceta agarrando seu pau enquanto me desfaço. Os
gemidos de Zaiah se misturam com os meus, crus e sem filtro.
— Puta merda, sim — ofego, cavalgando as ondas do meu clímax.
Zaiah agarra meus quadris e, com um movimento rápido, me joga de
volta na cama, martelando dentro de mim tão forte que acho que posso
quebrar.
Seus movimentos se tornam erráticos, dando lugar a algo primordial.
Eu envolvo minhas pernas em volta da sua cintura, puxando-o mais fundo,
e com uma última estocada, ele endurece acima de mim enquanto se
derrama dentro de mim, enchendo minha boceta com tanto gozo que posso
senti-lo escorrendo de volta.
Ofegante, me agarro a Zaiah, nossos corpos suados pressionados um
contra o outro enquanto ambos atingimos esse limite arrasador. Seu pau
pulsa dentro de mim, cada estocada enviando ondas de choque através do
meu núcleo.
— Addy — ele rosna, e o som do meu nome em seus lábios é como uma
faísca na lenha.
— Zaiah, eu- — As palavras me falham; são inúteis quando cada parte
de mim está focada neste crescendo de prazer. Mas não é apenas o
orgasmo. É o toque. A intimidade do momento, a conexão de nossas almas.
Lágrimas enchem meus olhos enquanto o pensamento dele me deixando é
agonizante.
Por um momento, o tempo para. Estamos congelados no tempo, peitos
arfando, o único som nossas respirações ofegantes sincronizando no
silêncio.
Mas então o que sei ser a realidade se infiltra de volta. O domínio do
sonho se afrouxa, mas a intensidade do que compartilhamos persiste, me
amarrando a Zaiah com um fio invisível.
— Puta merda, não quero que isso acabe — sussurro, sentindo o mundo
dos sonhos escorregar enquanto me agarro forte aos seus braços fortes
para mantê-lo comigo.
Os dedos de Zaiah traçam minha mandíbula, uma promessa silenciosa
no gesto. — Eu nunca estou longe, Addy.
E então é apenas escuridão, a memória de seu toque queimando em
minha pele. Fico ofegante, ansiando por mais, sabendo que quando abrir
os olhos, o quarto estará vazio - mas a conexão, aquele laço feroz e ardente
que agora sei ser o puxão em minha alma, permanecerá.

— N ÃO !
Meu grito me sacode. Meus olhos se abrem de repente, sou recebida
pelo vazio frio do meu quarto na torre. Minha pele formiga com o calor
persistente, o toque de Zaiah está gravado em cada terminação nervosa. Os
lençóis debaixo de mim estão úmidos, e estou nua e dolorida.
— Merda — murmuro, meu coração ainda acelerado. A sensação dos
lábios de Zaiah nos meus se agarra teimosamente, recusando-se a
desvanecer com o resto do sonho.
Mas não foi um sonho. Eu sei que não foi.
Meu corpo se rebela contra a solidão que desce. O desejo está
arranhando minhas entranhas. A necessidade de estar com Zaiah, de ter seus
braços ao meu redor, seus lábios nos meus, seu pau dentro de mim. A parte
lógica do meu cérebro quer acreditar que foi apenas um sonho, mas a parte
crua e primitiva sussurra que foi algo mais - uma conexão, um vínculo que
se estende além do reino físico.
Minhas mãos tremem enquanto passo os dedos pelo meu cabelo, e passo
a língua sobre meus dentes normais com uma decepção esmagadora. — O
que você fez comigo?
Balanço minhas pernas para fora da cama e desço as escadas para o
banheiro para me limpar.
Vendo o sangue enquanto me limpo, gemo. — Timing perfeito, como
sempre — murmuro e alcanço os absorventes internos quando uma grande
figura negra bate contra a janela da torre, de alguma forma se agarrando ao
painel de vidro liso, a forma de suas asas me mostrando que é um morcego.
— Corvus — murmuro e olho para baixo. — Ah, pelo amor de Deus!
Você está brincando comigo?
26

ZAIAH

O S PRIMEIROS RAIOS da aurora estão se infiltrando pela minha janela


enquanto me materializo de volta no meu quarto, meu corpo formigando
com a energia residual do encontro com Adelaide. A conexão onírica que
compartilhamos parece mais real do que o mundo físico ao meu redor, e por
um momento, tenho que me apoiar na parede para me estabilizar.
— Merda — murmuro, passando a mão pelo cabelo. O aroma de
jasmim ainda está impregnado em mim, um lembrete fantasmagórico do
jardim que criamos naquele cenário onírico compartilhado. É tão vívido, tão
tangível, que por um momento, me pergunto se trouxe um pedaço daquele
mundo de volta comigo.
Vou até a janela, olhando para os terrenos de MistHallow. A neblina da
manhã está apenas começando a se dissipar levemente, revelando as árvores
antigas e os gramados extensos que têm sido o lar de incontáveis seres
sobrenaturais ao longo dos séculos. Tudo parece tão comum, tão mundano
em comparação com o que acabou de acontecer. Mas eu sei que não é. Nada
jamais será comum novamente, não depois de me conectar com Adelaide
em um nível tão profundo.
O vínculo entre nós, aquele que tenho nutrido desde que ela chegou,
cresceu exponencialmente mais forte. Posso senti-lo pulsando no que existe
como minha alma, um fio vivo conectando nossas essências. É empolgante
e aterrorizante. Quando criei esse vínculo pela primeira vez, nunca imaginei
que pudesse se tornar algo tão intenso. Era para ser uma maneira de brincar
com ela, de fazê-la me desejar. Nunca esperei que se transformasse em algo
que me consumisse.
Será que ela sente o mesmo?
Sempre me orgulhei do meu controle, de manter minhas emoções em
cheque. É uma necessidade quando você é tão poderoso quanto eu. Um
deslize, um momento de emoção descontrolada, e as consequências
poderiam ser catastróficas. Mas Adelaide estilhaçou esse controle com um
único toque, um único beijo.
Minha mente corre, revivendo cada momento do nosso encontro. A
maneira como ela respondeu ao meu toque, o fogo em seus olhos, a
necessidade crua em sua voz. Foi mais do que apenas atração física. Foi um
encontro de almas, um reconhecimento de algo mais profundo. Algo antigo
e poderoso, algo que vai além do vínculo que eu criei.
É o destino.
— Porra — gemo, encostando a testa no vidro frio. Estou
completamente perdido, e sei disso. Nunca senti isso por ninguém ou
qualquer coisa antes. Nunca precisei de alguém dessa maneira. Dói estar
sem ela. O que começou como uma travessura saiu pela culatra de uma
maneira que me pegou de surpresa.
Viro-me da janela, andando de um lado para o outro no meu quarto. A
energia que corre por mim se recusa a se acalmar. É como se minha própria
essência estivesse se estendendo e buscando a presença de Adelaide. Posso
sentir sua confusão, seu desejo, sua força, mesmo a esta distância. É
enlouquecedor e eletrizante.
O que sinto por Adelaide vai além da simples atração ou curiosidade. É
uma atração tão forte, tão abrangente, que me assusta. E isso, mais do que
qualquer coisa, é o que é verdadeiramente aterrorizante. Sua força, sua
vulnerabilidade e a maneira como ela está abraçando seu eu sobrenatural é
poderosa. Há algo sobre o poder que ela possui. É o suficiente para fazer
minha cabeça girar. Posso senti-lo, logo abaixo da superfície, esperando
para ser liberado. O potencial é impressionante. Mas não sei por quê. O que
mais há nela que poderia causar isso?
Estou me apaixonando por ela, e não há uma maldita coisa que eu possa
ou queira fazer a respeito.
O pensamento paira no ar, carregado de implicações. Este é um
território perigoso. Um djinn e uma vampira? É inédito. Existem regras e
limites que não deveriam ser ultrapassados. O próprio tecido da realidade
poderia estar em risco se combinássemos totalmente nossos poderes.
Mas desde quando eu me importo com regras?
O vínculo entre nós vibra com potencial. Posso senti-lo ficando mais
forte a cada momento que passa, preenchendo o espaço entre nós mesmo
agora. O que começou como minha criação tornou-se algo real, algo vivo.
Não é mais apenas uma construção mágica; é uma conexão viva e pulsante
entre nossas almas.
Afundo-me na minha cama. Ao fechar os olhos, alcanço através do
nosso vínculo. Mesmo a esta distância, posso senti-la - sua confusão, seu
desejo, sua força. Posso sentir ela lutando para entender o que aconteceu
entre nós, tentando compreender a profundidade da nossa conexão.
Por um momento, considero ir até ela. Quero abraçá-la, sentir seu calor
contra mim, perder-me em seus olhos, explicar tudo e ajudá-la a entender o
que está acontecendo entre nós.
Mas não. Ainda não. Ela precisa de tempo para processar o que
aconteceu entre nós e para aceitar a intensidade do nosso vínculo. Eu
preciso colocar minha cabeça no lugar. Preciso descobrir como navegar
nesta nova realidade que criamos.
O mundo parece mais brilhante e mais vibrante. As cores são mais
intensas e os sons mais claros. É como se Adelaide tivesse despertado algo
em mim que estava adormecido durante toda a minha vida.
Tento acalmar meus pensamentos acelerados, mas tudo o que vejo é
Adelaide - sua pele corada, seus lábios entreabertos, a maneira como ela se
contorceu contra mim. A lembrança de seu toque envia eletricidade por
todo o meu corpo.
— Porra — murmuro, abrindo os olhos. Isso está ficando fora de
controle. Preciso recuperar alguma aparência de controle.
Levanto-me abruptamente, precisando me mover, fazer algo. Meus
poderes estão turbilhonando logo abaixo da superfície, implorando para
serem usados. Eu poderia conceder mil desejos agora e remodelar a
realidade num piscar de olhos. Mas o único desejo que quero realizar é o
meu próprio - estar com Adelaide novamente.
Mas essa é a ironia aqui. Não posso desejar nada. Sou forçado a ver os
caprichos dos outros sendo atendidos, a criar desequilíbrio enquanto faço
isso, mas para mim, um desejo está tão longe quanto as estrelas.
27

CORVUS

A GARRO - ME À JANELA , tentando desesperadamente não escorregar pelo


vidro e cair no chão vários andares abaixo. Tentando ter uma visão melhor
do interior, vejo Adelaide se aproximar, enrolando uma toalha firmemente
ao redor de si. Seu cheiro me atinge novamente, mais forte agora, e tenho
que lutar para manter minha compostura. O aroma de seu sangue é
enfeitiçante, despertando algo primitivo em minha alma vampírica.
Ela abre uma fresta na janela, com uma expressão irritada. — Corvus,
que diabos você está fazendo? — ela sibila. — Esse lugar não deveria estar
em lockdown?
Não posso responder nesta forma, mas bato minhas asas e entro
rapidamente, fazendo-a soltar um gritinho de surpresa. Uma vez dentro, me
transformo de volta em minha forma humana, pousando suavemente no
chão do banheiro.
— Desculpe pela entrada dramática — digo, tentando manter minha voz
firme apesar do cheiro avassalador de seu sangue. — O lockdown foi
suspenso há alguns minutos, e então senti o cheiro do seu sangue.
— De novo? Você está me assustando seriamente com isso! — ela
resmunga.
— Não posso evitar. Você é como uma droga para mim — murmuro,
examinando seu corpo de cima a baixo, mas não vendo nenhum ferimento.
Os olhos de Adelaide se arregalam ligeiramente, e ela puxa a toalha
mais apertada ao redor de si. — Estou bem — ela diz entre os dentes.
Leva um momento para eu ler nas entrelinhas, e quando o faço, me sinto
um completo idiota. — Ah — digo eloquentemente. — Certo. Desculpe,
não quis... intrometer-me.
Adelaide revira os olhos, mas há um toque de diversão em sua
expressão agora. — Tudo bem. Mas talvez da próxima vez, tente bater em
vez de se esborrachar na minha janela?
Eu rio, grato pela quebra de tensão. — Anotado. Embora, em minha
defesa, os morcegos não sejam conhecidos por suas aterrissagens graciosas.
Ela sorri, com diversão dançando naquelas profundezas negras. — Você
acha que eu posso me transformar em morcego?
Sorrindo de volta, dou de ombros. — Talvez um meio-morcego. Ah,
talvez como uma cabeça humana, mas com corpo de morcego! Ou-
— Ah, cala a boca — ela ri, jogando sua esponja de banho em mim. —
Blackthorn diz que você deveria ser meu mentor, não um bobo que fica
zombando de mim.
Pego a esponja com facilidade, meus reflexos vampíricos entrando em
ação. — Posso ser os dois — digo com uma piscadela. — Um mentor com
senso de humor. É um pacote completo.
Adelaide balança a cabeça, mas posso ver o sorriso puxando seus lábios.
— Que sorte a minha — ela diz secamente.
O ar entre nós muda, tornando-se carregado com algo mais do que
apenas brincadeiras. Estou agudamente consciente de seu estado de nudez,
a fina toalha mal escondendo suas curvas. O cheiro de seu sangue ainda é
forte, misturando-se com o aroma persistente de sua excitação. É
intoxicante.
— Corvus — ela diz suavemente, sua voz assumindo uma qualidade
rouca que envia uma onda de luxúria diretamente para o meu pau. — Você
provavelmente deveria ir.
Sei que ela está certa. Eu deveria sair, dar-lhe privacidade, manter
alguma aparência de decoro neste momento de humanidade para ela. Mas
cada instinto em meu corpo está gritando para que eu fique, para que eu
diminua a distância entre nós, para que eu a prove.
— Eu sei — murmuro, dando um passo mais perto em vez de recuar. —
Mas não quero.
A respiração de Adelaide falha, seu pulso acelerando. Posso ouvi-lo, o
correr de seu sangue nas veias, seu coração batendo forte.
— Isso é uma má ideia — ela sussurra, mas não se afasta. Se é que é
possível, ela se inclina ligeiramente, seu corpo traindo suas palavras.
As palavras de Adelaide pairam no ar entre nós, mas nenhum de nós se
move. Posso ouvir seu coração acelerar, ver o rubor subindo por seu
pescoço.
— Provavelmente — concordo, minha voz baixa. — Mas quando isso já
me impediu?
Seus olhos se movem para meus lábios, então voltam para encontrar
meu olhar. — Corvus — ela respira, e é tanto um aviso quanto um convite.
Dou um passo mais perto, atraído por seu cheiro, seu calor. Estamos a
poucos centímetros de distância agora. — Me diga para sair — murmuro.
— Me diga que você não quer isso, e eu irei.
Adelaide engole em seco. Seus dedos agarram a borda da toalha com
força. — Eu... não posso — ela admite.
Isso é toda a permissão que preciso. Em um movimento fluido, fecho a
distância entre nós, capturando seus lábios com os meus. Ela ofega no beijo,
seu corpo derretendo contra o meu. Seus lábios são macios, mas há uma
fome subjacente que leva ainda mais excitação ao meu pau.
Minhas mãos encontram sua cintura, puxando-a contra mim. A fina
toalha faz pouco para esconder o calor de seu corpo. Os braços de Adelaide
se enrolam em meu pescoço, seus dedos se emaranhando em meu cabelo.
Aprofundo o beijo, minha língua buscando entrada. Ela se abre para
mim de bom grado, um gemido suave escapando dela. Seu gosto é
intoxicante, melhor do que eu poderia ter imaginado.
Mas há algo mais que é distintamente não dela.
Zaiah.
O djinn esteve com ela recentemente. Seu cheiro está por toda parte
nela. Eu rosno, mas não por ciúme. Não, é por um anseio de tê-los visto
envoltos um no outro...
Quebro o beijo, ofegando ligeiramente. Os olhos de Adelaide se abrem,
confusão e desejo lutando em suas profundezas.
— O que há de errado? — ela pergunta, sua voz rouca.
Passo meu polegar sobre seu lábio inferior, saboreando a suavidade. —
Zaiah esteve aqui, não é?
Os olhos de Adelaide se arregalam, um rubor subindo por suas
bochechas. — Eu... como você soube?
— Posso sentir o cheiro dele em você — explico, minha voz baixa. —
O cheiro dele está por toda parte em você.
Ela desvia o olhar, culpa passando por seu rosto. — Foi apenas um
sonho — ela sussurra. — Pelo menos, acho que foi.
Seguro seu queixo, gentilmente virando seu rosto de volta para mim. —
Não foi um sonho, Dollie. Foi uma dobra na realidade. Ele é um pequeno
safado. Você queria?
— Sim — ela diz instantaneamente, e isso é tudo que preciso saber. —
Mas eu quero você também... o que isso diz sobre mim?
— Isso diz que você tem espaço para mais de um em seu coração,
Dollie. Seu vampiro está esticando seus músculos.
— É uma coisa de vampiro? — ela pergunta com uma careta, e posso
dizer exatamente o que ela está pensando.
Eu rio. — É sim, e se você está se perguntando se tenho mais do que
você na minha vida, a resposta é não.
— Eu não estava pensando isso! E mesmo se você tivesse, isso entre
nós é...
— É o quê?
— Eu não sei. — Ela suspira.
Minhas mãos repousam levemente em seus quadris novamente, e eu
aperto o abraço, puxando-a para mais perto. — Deixe-me te provar —
murmuro.
— Eu não estou pronta para isso. Morder é... Eu não estou pronta para
isso.
— Quem falou alguma coisa sobre morder? — murmuro e puxo sua
toalha.
Ela ofega ao entender minha intenção e balança a cabeça. — Não.
— Sim — murmuro.
— Corvus, não. — Ela levanta as mãos, mas eu as seguro suavemente e
me ajoelho. — Merda. Não. Isso é nojento. É... não!
Sorrindo para ela, lanço uma pequena compulsão sobre ela. Não o
suficiente para que ela ainda possa me mandar para o inferno, mas o
bastante para tirar um pouco de sua inibição.
— Corvus — sua voz treme enquanto seus joelhos vacilam.
Solto suas mãos e coloco as minhas em seus quadris novamente,
baixando minha boca até sua buceta.
Ela geme de mortificação quando deslizo minha língua e a provo.
— Puta que pariu — gemo. — Adelaide.
— Jesus — ela murmura, com as mãos sobre o rosto. — Isso é... — Ela
joga a cabeça para trás quando minha língua pressiona seu clitóris.
Suas mãos vão para o meu cabelo, e eu a devoro com fome, lambendo o
sangue acumulado em sua buceta, feliz por tê-la pego antes que ela
estancasse o fluxo com o absorvente interno que jaz inutilmente no chão ao
nosso lado.
Adelaide ofega quando minha língua mergulha mais fundo, explorando
cada centímetro de sua buceta perfeita. Seus dedos se apertam em meu
cabelo, me segurando contra ela enquanto seus quadris começam a se
mover. O gosto de seu sangue misturado com sua excitação é irresistível,
me deixando louco de desejo.
— Corvus — ela geme, sua voz ofegante e desesperada. — Oh, Deus...
Eu rosno contra ela, as vibrações fazendo-a estremecer. Minhas mãos
agarram sua bunda, puxando-a para mais perto enquanto eu a devoro. Seu
cheiro me envolve, preenchendo meus sentidos até que não haja nada além
de Adelaide.
Suas pernas começam a tremer quando me concentro em seu clitóris,
circulando-o com minha língua antes de sugar suavemente. Adelaide grita,
arqueando as costas enquanto se esfrega contra meu rosto.
— Não pare — ela ofega. — Por favor, não pare.
Eu não tenho intenção de parar. Não quando ela tem um gosto tão
divino, não quando seu prazer está crescendo tão lindamente.
Os gemidos de Adelaide ficam mais altos, mais desesperados. Seus
quadris se movem erraticamente enquanto ela implora por seu clímax.
Posso sentir o quão perto ela está, provar isso na inundação de umidade
cobrindo minha língua.
— Corvus! — ela grita quando goza, seu corpo tremendo. Eu a seguro
firme, lambendo cada gota enquanto ondas de prazer a inundam.
Quando seus tremores diminuem, eu me levanto. Os olhos de Adelaide
estão nebulosos de prazer, suas bochechas coradas. Ela age imediatamente,
me entregando a esponja que ela havia jogado em mim anteriormente.
Bufando, eu a pego dela e me limpo. — Obrigado — rio.
Adelaide pisca. — Isso foi intenso — ela respira.
— Espere só até eu poder realmente te provar — digo, passando minha
língua sobre minhas presas.
Ela estremece e não diz nada, mas há um calor em seu olhar que me diz
que isso vai acontecer. Em breve.
— Te vejo à noite — murmuro, sabendo que é hora de ir embora agora
antes que eu a arraste para sua cama e a pregue nela com meu pau, quer ela
queira ou não.
— Até mais tarde — ela murmura e espera enquanto eu me transformo
de volta em minha forma de morcego. Dou uma última olhada em Adelaide
e alço voo pela janela aberta, ainda sentindo o gosto de seu sangue em
minha língua. Essa foi a coisa mais erótica em que já estive envolvido, e
isso é dizer muito.
Perdido em pensamentos, quase não noto as duas figuras espreitando
nas sombras perto da base da torre de Adelaide, mas elas são meio difíceis
de perder com sua presença muito conspícua aqui.
Faço uma curva acentuada, me transformando no ar e pousando
graciosamente no chão. — Lucian. Asher — rosno em advertência. — Um
pouco longe dos seus quartos, não é?
Lucian dá um passo à frente, aquele sorriso cruel tornando seu rosto
ainda mais feio. — Corvus — ele arrasta as palavras. — Que coincidência
te encontrar aqui. Checando a novata, é?
Asher ri, um som desagradável que me dá nos nervos. — É, muito
nobre da sua parte, Corvus. Tenho certeza que o corpo docente adoraria
saber sobre suas visitas noturnas ao quarto de uma aluna.
— Vá em frente. Blackthorn sabe que estou aqui. Mas vocês dois... é,
nem tanto.
Lucian dá de ombros, fingindo inocência. — Estamos apenas
aproveitando o ar da noite e de olho nas coisas. Você sabe como é, Corvus.
Temos que garantir que todos estejam seguindo as regras.
A ameaça em suas palavras é clara. Eles estão procurando sujeira,
qualquer desculpa para me meter em problemas. Mas eles estão latindo para
a árvore errada. Eu não menti. Blackthorn sabe que estou aqui.
— Escutem com atenção — digo, minha voz baixando para um sussurro
perigoso enquanto mostro minhas presas e sibilo. — Adelaide Black está
sob minha proteção. Se eu sequer suspeitar que vocês estão planejando
machucá-la, ou usá-la para me atingir, farei vocês gritarem com tanta
agonia que desejarão poder morrer. Ficou claro?
Asher dá um passo à frente, suas presas brilhando sob o luar. — Isso é
uma ameaça, Corvus?
Encaro seu olhar firmemente. — É uma promessa. Ninguém mexe com
ela. Espalhem a palavra.
Por um momento tenso, ficamos ali parados, o ar pesado com desafios
não ditos.
— Doces sonhos, Corvus — Lucian chama enquanto ele e Asher
recuam. — Dê nossos cumprimentos à adorável Senhorita Black da
próxima vez que a vir.
Espero até ter certeza de que eles se foram antes de alçar voo
novamente, voltando para meu quarto. Adelaide está protegida naquela
torre. Apenas Blackthorn e eu podemos entrar sem um convite. Ou uma
dimensão de bolso para outro mundo... djinn idiota.
Aterrisso graciosamente em meu quarto e me transformo de volta à
forma humana. O encontro com Lucian e Asher me deixou tenso. A
presença deles perto da torre de Adelaide não foi coincidência, e suas
ameaças mal disfarçadas fazem meus problemas de raiva terem problemas
de raiva.
Tento acalmar a fúria crescendo dentro de mim porque isso não levará a
nada de bom e, mais provavelmente, acabará chutando meu próprio traseiro.
Algo me diz que ela não será receptiva a ficar trancada em sua torre, então
ela está segura de idiotas como Lucian e Asher, sem mencionar os Strix e,
mais importante, o mestre desses assassinos.
O gosto de Adelaide ainda persiste em minha língua, uma lembrança
agridoce do que acabou de acontecer entre nós. Mas agora, esse momento
de felicidade é ofuscado pela ameaça iminente e pelo crescente desejo de
manter esta Vesper segura, não apenas pelo que ela é, mas por quem ela está
se tornando para mim.
28

ADELAIDE

F ICO PARADA ALI em choque por vários momentos depois que Corvus sai,
meu corpo ainda formigando com seu toque. Que porra foi essa que acabou
de acontecer?
Primeiro aquele sonho incrivelmente vívido, ou não-sonho com Zaiah, e
agora isso com Corvus? Minha cabeça está girando. Sinto como se estivesse
perdendo o controle, como se estivesse sendo puxada em várias direções ao
mesmo tempo. E a parte mais assustadora é que eu meio que gosto disso.
Vejo meu reflexo no espelho e mal reconheço a mulher que me encara
de volta. Minhas bochechas estão coradas, meus lábios inchados, meus
olhos brilhando com uma fome que nunca vi antes. É assim que abraçar
meu lado vampiro se parece? Porque se for, então eu definitivamente
preciso explorar mais.
Mas primeiro preciso organizar o lado humano de mim. Me abaixo para
pegar o absorvente interno ainda em sua embalagem e me ponho a
trabalhar.
Depois de um banho rápido, minhas pernas ainda estão um pouco
bambas enquanto visto um pijama limpo. Esses dois homens sobrenaturais
me fizeram sentir coisas hoje que nunca experimentei antes, e eu quero
mais.
Olhando para a névoa do início da manhã, meu estômago ronca e me
afasto da janela em direção à cômoda onde o frasco de sangue humano
espera. Ainda não o experimentei. Desisti várias vezes durante a noite, mas
preciso fazer isso porque o Professor Blackthorn espera que eu tenha bebido
todo esse frasco e ele disse em doses pequenas e frequentes.
Com a mão tremendo, pego o frasco e desrosqueio a tampa. O cheiro
me atinge e rosno baixinho. Minhas presas descem, cortando minha língua e
lábios. É algo automático. Não tenho controle sobre elas.
Respiro fundo, me preparando. O cheiro de sangue é avassalador,
fazendo minha cabeça girar. Mas preciso fazer isso. Preciso abraçar quem
eu sou.
Lentamente, levo o frasco aos lábios. O primeiro gole é indescritível.
Rico, metálico, potente. Meu corpo vibra com energia enquanto engulo,
sentindo o sangue deslizar pela minha garganta.
— Puta merda — sussurro, lambendo os lábios.
Tomo outro gole, maior desta vez. O efeito é instantâneo. Meus sentidos
se aguçam, as cores se tornam mais vívidas. Posso ouvir o farfalhar das
folhas fora da minha janela com clareza cristalina.
Minhas presas doem, querendo mais. É preciso toda a minha força de
vontade para não beber o frasco inteiro de uma vez. Mas lembro das
palavras de Blackthorn sobre me controlar. Relutantemente, rosqueio a
tampa de volta e coloco o frasco no lugar.
Meu reflexo chama minha atenção novamente. Há uma selvageria na
minha aparência, um brilho predatório que me aterroriza. É isso que eu
realmente sou?
Balanço a cabeça, tentando me livrar dos pensamentos selvagens que
descem. Quero caçar, me alimentar, sentir minhas presas cortando uma veia
quente...
— Que se foda — murmuro e pego o frasco novamente e abro. Tomo
outro gole, o mais devagar que consigo, que se transforma em um grande
gole e outro. Com um suspiro, afasto minha boca do topo e me forço a
fechá-lo. Batendo-o de volta na cômoda, atravesso para o outro lado do
quarto, precisando me afastar dele.
— Você sabia que isso ia acontecer? — murmuro, encarando o frasco.
— Sabia que eu ia querer perder o controle?
Minha confiança em Blackthorn cai um degrau ou dois. Ele deve ter
sabido.
Enfiando as mãos no cabelo, rastejo de volta para a cama e pego o livro
sobre Fae Obscuros para continuar lendo sobre Zephyr. Na próxima vez que
nos encontrarmos, terei uma melhor noção do que ele é capaz. Não que eu
possa fazer muito a respeito, mas pelo menos não serei pega de surpresa.
Tento me concentrar nas palavras à minha frente, mas minha mente
continua voltando para Zaiah e Corvus. A intensidade desses encontros me
deixou atordoada. Parte de mim quer atribuir isso a algum estranho instinto
de acasalamento vampiro, mas sei que é mais do que isso. Há uma conexão
se formando entre nós, algo que não consigo explicar exatamente, mas é
muito real e muito intenso.
O livro cai das minhas mãos quando outra onda de fome me invade.
Meu olhar dispara para o frasco na cômoda. Só mais um gole...
Não. Cerro os punhos, lutando contra o impulso. Preciso manter o
controle.
Saio da cama e levo meu travesseiro e o livro para a janela, onde me
enrolo no pequeno pedaço de luz fraca do sol que luta para atravessar a
manhã nebulosa. Instantaneamente, sinto a letargia me atingir. É como
fechar um par de cortinas. Bocejo e me acomodo para continuar lendo.
Mas quanto mais tempo fico sentada ali, pior o cansaço fica. Bocejando
novamente, sinto meus olhos se fecharem.

A CORDO SOBRESSALTADA , DESORIENTADA . O LIVRO CAIU NO CHÃO E A LUZ


do sol se afastou da janela, mas ainda está claro lá fora. Devo ter cochilado
por um tempo.
Gemendo, me espreguiço e verifico as horas. Dormi a maior parte do
dia, o que suponho ser o que preciso fazer para me adaptar a um horário
totalmente noturno. O frasco de sangue chama minha atenção. Sem pensar,
me levanto, pego-o e tomo outro longo gole antes que eu possa me
convencer do contrário. O efeito é imediato - uma onda de energia e
sentidos aguçados.
— Puta que pariu — murmuro, recolocando a tampa no frasco. Preciso
ter mais cuidado com essa coisa. É fácil demais perder o controle.
Coloco o frasco de volta, tentando ignorar o gosto persistente de sangue
na minha língua. Minha mente está mais clara agora, a névoa do sono se
dissipando. Preciso me preparar para meu encontro com o Professor
Blackthorn. Enquanto me visto com jeans e uma camiseta e reúno minhas
coisas, não consigo deixar de pensar em Zaiah e Corvus. A intensidade
desses encontros ainda persiste, fazendo minha pele formigar com a
lembrança.
Mas não há tempo para pensar nisso agora. Tenho responsabilidades,
aulas para assistir, todo um novo mundo sobrenatural para aprender. Não
posso me deixar distrair, por mais tentador que seja. Preciso me manter
focada. Tenho muito a aprender e estou determinada a aproveitar ao
máximo meu tempo em MistHallow agora que estou aqui.
Orby aparece ao meu lado. Ele parece estar entrando e saindo no
momento e percebo que sinto falta dele quando não está por perto. —
Vamos lá então — digo para ele. — Vamos começar essa festa.
Pego o frasco e o coloco na mochila, mas depois penso melhor e o tiro.
Blackthorn disse que sangue humano não era permitido no campus. Os
vampiros serão capazes de sentir o cheiro a quilômetros de distância.
Enquanto desço as escadas da torre, me preparo para o que a noite possa
trazer quando eu abrir a porta da torre.
Surpresa, me deparo com uma criatura corpulenta, que eu diria ser um
vampiro, mas posso estar completamente errada. — Oi — digo enquanto
fecho a porta atrás de mim.
Ele não está exatamente espreitando, mas também não está apenas
passando. — Oi, Adelaide, certo? Sou Lucian.
— Oi, Lucian e sim, Adelaide.
Ele sorri, mas há algo predatório em seu olhar que me deixa
desconfortável. — Prazer em finalmente conhecê-la. Todos nós estávamos
tão curiosos sobre a nova vampira do terceiro ano no campus.
Forço um sorriso, tentando manter um tom leve. — Bem, aqui estou eu.
Nada muito emocionante, receio.
Lucian dá um passo mais perto, invadindo meu espaço pessoal. — Oh,
eu não diria isso. Uma vampira chegando tão tarde é bem fascinante, se
você me perguntar.
Meus instintos estão gritando para eu me afastar dele, mas mantenho
minha posição. — Acho que sim. Olha, estou indo me encontrar com o
Professor Blackthorn, preciso ir.
— Claro — ele diz suavemente, mas não se move. — Eu só queria me
apresentar. Talvez possamos tomar algo alguma hora? Eu adoraria saber
mais sobre como você não sabia que era uma vampira até recentemente.
— Quem disse que eu não sabia? — pergunto desconfiada.
Aquele sorriso se alarga. — Os boatos pelo campus.
— Bem, obrigada pelo convite, mas estou bem ocupada me
estabelecendo — respondo, tentando contorná-lo.
A mão de Lucian dispara, agarrando meu braço. Não é doloroso, mas é
firme o suficiente para me fazer parar e me dar a maior repulsa da minha
vida inteira. Minha pele quer se encolher e desintegrar com seu toque
através da minha jaqueta. — Ah, não seja assim. Somos todos amigos aqui
em MistHallow.
Estreito os olhos, sentindo uma onda de raiva. — Me solta — disparo.
Por um momento, Lucian parece que vai argumentar, mas então um
borrão preto e roxo passa por mim em alta velocidade e arremessa Lucian
contra a parede da torre, arrancando-o de mim e me fazendo tropeçar.
— Zephyr — murmuro ao ver o Fae das Trevas rosnando para o
vampiro que tem em seu domínio.
— Nunca mais toque nela — Zephyr declara, todo frio e calmo
enquanto meu coração bate como um pássaro selvagem tentando escapar da
minha caixa torácica.
— Estávamos apenas nos conhecendo — Lucian retruca.
— Não — diz Zephyr e estala os dedos na direção de Lucian.
A magia do Fae das Trevas, uma sombra negra de pura malevolência,
envolve a garganta de Lucian, sufocando-o. Seus olhos se arregalam em
pânico enquanto ele tenta arrancar a força invisível.
Zephyr se vira para mim, seus olhos brilhando com uma luz
sobrenatural. Por um momento, vejo o verdadeiro poder do Fae das Trevas,
e é perturbador. — Você está bem?
Incapaz de falar, simplesmente aceno com a cabeça, mesmo que meu
braço esteja dolorido pelo toque.
Zephyr se volta para Lucian, que ainda está sufocando com a magia. —
Você ousou tocá-la — ele rosna, seu tom como gelo. — Você precisa
aprender seu lugar, vampiro.
O rosto de Lucian está ficando roxo, suas lutas cada vez mais fracas.
— Zephyr — murmuro, mas não é para pará-lo. Meu lado vampiro está
se deleitando com essa escuridão e é um encorajamento.
Zephyr me ignora, no entanto, concentrando-se totalmente em Lucian.
— Você acha que pode tocar no que é meu? — declara, acenando
suavemente com a mão e enviando cortes pelo rosto de Lucian que o fazem
guinchar de dor.
Estou cativada. Há uma sedução sombria na selvageria de Zephyr, e
uma parte primitiva de mim responde à sua brutalidade.
Os olhos de Lucian reviram, seu corpo ficando mole. Zephyr o solta,
deixando-o desabar no chão. Ele se vira para mim, seus olhos ainda
brilhando com aquela luz assombrosa. — Ninguém toca em você — declara
friamente.
Há uma parte de mim que quer protestar contra sua possessividade, para
afirmar minha independência. Mas há outra parte, uma parte mais sombria,
que está excitada com suas palavras.
Nossos olhares se encontram e o resto do mundo desaparece ao meu
redor.
Os olhos de Zephyr perscrutam os meus, o brilho diminuindo
ligeiramente. — Você não está com medo — ele murmura.
Balanço a cabeça. — Não, não estou.
Ele dá um passo mais perto, sua mão estendendo-se para tocar minha
bochecha. Seu toque é gentil. — Você me permite tocá-la. Isso faz de você
minha para proteger — ele murmura, seu polegar acariciando minha pele.
Antes que eu possa responder, ele se inclina, seus lábios roçando os
meus em um beijo suave e fugaz. Acaba antes que eu possa reagir,
deixando-me atordoada e sem fôlego.
Zephyr se afasta, seu olhar penetrando o meu. — Minha — ele diz, e
então desaparece, sumindo nas sombras tão rapidamente quanto apareceu.
Fico parada por um momento, meus dedos tocando meus lábios onde
ele me beijou. Minha mente é um turbilhão de pensamentos e emoções,
tentando processar o que acabou de acontecer.
Um gemido de Lucian me traz de volta à realidade. Olho para ele, ainda
caído no chão. Ele parece patético, toda sua bravata anterior desaparecida.
— Saia daqui — disparo, cutucando-o com o pé. — E se você chegar
perto de mim novamente, deixarei Zephyr terminar o que começou, depois
que eu tiver terminado com você.
Lucian se levanta aos tropeços, mantendo uma grande distância de mim
enquanto se afasta cambaleante. Observo-o ir embora, uma sensação de
satisfação me invadindo. Nunca me defendi assim antes, nunca tive o poder
de sustentar minhas palavras. É bom. Rio e sinto um peso sendo tirado dos
meus ombros que eu não sabia que estava me esmagando.
Aceitação de quem eu realmente sou.
Respiro fundo enquanto caminho em direção ao escritório de
Blackthorn. Zephyr é uma contradição, um quebra-cabeça que quero
resolver. Sua selvageria, sua possessividade, sua gentileza inesperada. E
aquele beijo... porra, mal foi algo, mas me deixou desejando mais.
Balanço a cabeça, tentando clareá-la. Preciso me concentrar. Tenho essa
reunião com Blackthorn e preciso estar em meu melhor estado. Mas
enquanto Orby me leva até a sala onde Blackthorn e eu nos encontramos
antes, não consigo afastar a sensação de que meu mundo acabou de mudar,
que dei um passo em um caminho sombrio do qual não há volta.
Mas eu não quero voltar.
Blackthorn abre a porta, seus olhos me examinando da cabeça aos pés.
— Senhorita Black — ele cumprimenta, dando um passo de lado para me
deixar entrar. — Você parece diferente.
Ergo uma sobrancelha ao entrar em seu escritório. — Diferente como?
Ele fecha a porta atrás de mim, seu olhar demorando-se em meu rosto.
— Mais viva — ele diz finalmente. — Mais você.
Sorrio, sentando-me em frente à sua mesa. — Eu me sinto mais eu —
admito. — Como se estivesse finalmente acordando depois de um longo
sono.
Blackthorn assente, tomando seu próprio assento. — Bom. Isso
significa que você está abraçando sua verdadeira natureza. Agora, me conte
sobre seu progresso com o sangue.
Me remexo na cadeira. — É intenso — digo, escolhendo minhas
palavras cuidadosamente. — Posso sentir o poder nele, a energia. É um
desejo, um que estou achando difícil resistir. — Exponho isso para ver se
consigo perceber se ele sabia que isso aconteceria comigo.
Blackthorn se inclina para frente, seus olhos intensos enquanto ignora
minha pergunta. — E como isso te faz sentir? Física e emocionalmente?
Penso na onda de energia, nos sentidos aguçados, na fome selvagem. —
Forte. Como se eu pudesse fazer qualquer coisa.
Um sorriso lento se espalha pelo rosto de Blackthorn. — Excelente. É
exatamente assim que deveria sentir. Esses desejos, você está resistindo a
eles?
Assinto. — Sim, mas é difícil. Eu quero mais, sempre. Mas estou
controlando, não deixando que me controle.
— Bom — diz Blackthorn, recostando-se em sua cadeira. — Muito
bom. Termine o frasco e depois mude para sangue sintético. Você pode
beber tanto desse quanto quiser.
— Bom saber — murmuro, já planejando passar pelo refeitório para
pegar um pouco depois disso.
Por dentro, sou uma massa turbilhonante de desejos sombrios e poder
recém-descoberto.
— Agora, Senhorita Black, é hora de discutirmos suas habilidades
únicas. Como uma Vesper, você possui poderes que vão além dos de um
vampiro comum. Um deles, como mencionei antes, é a habilidade de
aumentar os poderes dos outros.
— Como isso funciona exatamente?
— É isso que estamos aqui para descobrir — diz Blackthorn,
levantando-se. Ele se move até um armário e retira uma pequena caixa
ornamentada. — Isso contém um artefato mágico. Por si só, tem um alcance
limitado de influência. Quero que você o segure e se concentre em
aumentar seu poder.
Ele coloca a caixa na minha frente. É feita de madeira escura, com
entalhes intrincados adornando sua superfície. Estendo a mão hesitante,
meus dedos roçando a madeira fria.
— Vá em frente — Blackthorn encoraja. — Pegue-a e concentre-se.
Imagine seu poder crescendo, expandindo.
Respiro fundo e levanto a caixa. É surpreendentemente leve. Fecho os
olhos, tentando sentir a magia. No início, não há nada. Então, lentamente,
percebo uma pulsação fraca, como uma batida cardíaca.
— Posso sentir algo — murmuro, ainda de olhos fechados. — Está
pulsando.
— Bom — a voz de Blackthorn vem de algum lugar à minha esquerda.
— Agora, concentre-se nessa pulsação. Faça-a crescer mais forte, expandir.
Franzo a testa, concentrando-me intensamente. Na minha mente,
imagino a pulsação crescendo, espalhando-se da caixa em ondas. De
repente, sinto uma onda de energia. Meus olhos se abrem.
A caixa em minhas mãos está brilhando, uma suave luz azul emanando
dos entalhes. Blackthorn está de pé a alguns metros de distância, seus olhos
arregalados de excitação.
— Notável — ele respira. — O alcance do artefato dobrou.
Olho fixamente para a caixa brilhante, admiração e apreensão me
invadindo. — Isso é normal?
Blackthorn balança a cabeça. — Não, Senhorita Black. Isso é
extraordinário. Sua habilidade de aumentar é muito mais potente do que eu
antecipava. Com prática, quem sabe do que você pode ser capaz?
Pousoocuidadosamente a caixa, observando enquanto o brilho
desaparece. — O que mais eu posso fazer?
Os olhos de Blackthorn brilham de excitação. — Vamos descobrir, não
é? Tenho mais alguns testes preparados. — Ele retira uma pequena pedra
iridescente da gaveta de sua mesa. — Este é um encanto básico de proteção
— ele explica, colocando-o na minha palma. — Normalmente, pode
proteger quem o usa de pequenas maldições dentro de um raio de cerca de
um metro. Vamos ver se você pode expandir seu alcance.
Fecho os olhos, concentrando-me na superfície lisa da pedra. Imagino
seu poder como uma bolha cintilante, pulsando suavemente. Concentrando-
me intensamente, faço a bolha crescer, se esticar para fora. Uma sensação
de formigamento se espalha da minha mão pelo meu braço.
— Notável — murmura Blackthorn. Abro os olhos para vê-lo andando
pelas bordas da sala, agitando uma varinha que emite faíscas. — O encanto
agora está protegendo todo o escritório. Você aumentou seu poder dez
vezes.
Em seguida, ele produz um frasco de líquido verde rodopiante. — Uma
simples poção de cura — ele diz. — Normalmente, pode curar pequenos
cortes e hematomas. Quero que você aumente sua potência.
Seguro o frasco com as duas mãos, imaginando a poção dentro ficando
mais brilhante, mais vibrante. O líquido começa a brilhar, sua cor se
aprofundando para um rico tom esmeralda.
Blackthorn pega o frasco, examinando-o de perto. — Fascinante. Isso
agora poderia curar ossos quebrados, possivelmente até lesões internas
graves. As implicações para a medicina mágica são impressionantes.
Para o teste final, Blackthorn fica diante de mim, sua expressão séria. —
Vou lançar um simples feitiço de iluminação — ele diz. — Quero que você
tente aumentar minha produção mágica.
— Espere — digo. — Você tem magia? Pensei que fosse um vampiro?
Ele sorri, mas não responde à minha pergunta, o que me deixa ainda
mais cautelosa sobre essa criatura agora, mas ele definitivamente está me
ajudando a perceber meu potencial. Então, deixo isso de lado e tento me
concentrar no lado bom.
Enquanto ele começa a murmurar a invocação, imagino seu poder como
uma chama brilhante. Mentalmente, alimento essa chama, fazendo-a
queimar mais forte e mais quente.
De repente, a sala é inundada por uma luz ofuscante. Protejo meus
olhos, pontos dançando em minha visão. Quando o brilho desaparece, vejo
Blackthorn olhando para suas mãos com admiração.
— Em todos os meus anos — ele sussurra, — nunca produzi magia tão
poderosa.
Estou encharcada de suor, meu corpo tremendo de esforço. A onda de
poder é inebriante, mas cobrou seu preço. Desabo na minha cadeira,
respirando pesadamente.
— Você superou todas as expectativas, Senhorita Black — diz
Blackthorn, parecendo tanto impressionado quanto ligeiramente
preocupado. — Mas lembre-se, com grande poder vem grande
responsabilidade e grande risco.
Aceno fracamente com a cabeça, cansada demais para falar. Apesar da
exaustão, há uma profunda sensação de satisfação se instalando em meus
ossos. Pela primeira vez, sinto que estou tocando a superfície do meu
verdadeiro potencial. É emocionante, mas ao mesmo tempo, está me
assustando mais do que qualquer coisa que encontrei aqui em MistHallow
até agora. — Obrigada, eu acho. Então, o que acontece agora?
Blackthorn senta-se novamente atrás de sua mesa, sua expressão
tornando-se séria. — Agora, começamos seu verdadeiro treinamento. Você
precisa aprender a controlar essas habilidades, a usá-las efetivamente e,
mais importante, precisa aprender quando não usá-las.
Eu aceno com a cabeça, entendendo a gravidade de suas palavras. —
Estou pronta — digo, e falo sério. Apesar do cansaço, me sinto mais viva
do que nunca.
Blackthorn me dá um pequeno sorriso. — Eu acredito que você esteja,
mas tenha cuidado. Um poder como o seu... pode ser inebriante. Não deixe
que ele te consuma.
Ao sair do escritório de Blackthorn, minha mente está girando. A
extensão das minhas habilidades, o potencial que possuo, me fazem sentir
como se estivesse à beira de algo imenso, algo que poderia mudar tudo.
Mas enquanto me dirijo ao refeitório, com Orby saltitando ao meu lado,
toco meus lábios, lembrando do beijo de Zephyr, do arrepio sombrio que
senti ao vê-lo torturar Lucian. Penso na corrente do sangue, no poder que
senti ao potencializar aqueles objetos mágicos.
Estou caminhando em uma linha tênue, entre o controle e o caos, entre a
luz e a escuridão. Légère e Black.
Estou convencida de que isso significa algo mais do que apenas dois
nomes aleatórios. Eu simplesmente preciso descobrir o quê.
29

IGNATIUS

O REFEITÓRIO ESTÁ cheio de atividade quando entro, a cacofonia de vozes e


o barulho de pratos me envolvendo. Meus olhos examinam o ambiente, um
hábito nascido de anos sendo hiper-consciente do meu entorno. É quando a
vejo parada perto do dispensador de sangue sintético, com uma expressão
de concentração enquanto enche um grande copo.
Meu coração dá aquele estúpido pulinho que parece dar sempre que a
vejo. É ridículo. Sou um poderoso elemental do fogo, pelo amor de Deus.
Não deveria ficar todo atrapalhado como um adolescente apaixonado.
Mas Adelaide é diferente. Especial.
Seja lá o que for que a torna única está pressionando meus sentidos, me
impelindo a descobrir o máximo que puder sobre ela. Corvus já sabe, mas
não está falando. Então isso significa que preciso fazer a investigação eu
mesmo.
Faço meu caminho até ela, tentando parecer casual. — Oi — digo,
alcançando um copo d'água. — Como você está depois do caso dos Strix?
Estremeço internamente. Que coisa idiota de se perguntar a ela.
Ela se vira para mim com uma risadinha suave, e sou atingido
novamente por como ela é linda. Seu cabelo escuro cai reto pelas suas
costas, e seus olhos parecem brilhar com um fogo interno que não estava lá
antes. Ela está mudando, entrando em seu poder, e é uma visão e tanto.
— Ora, olá, australiano incendiário da misteriosa Ordem — ela diz,
seus olhos se iluminando. — Acho que estou bem.
Aceno com a cabeça, entendendo muito bem essa confusão. — É muita
coisa para absorver, tenho certeza. Especialmente para alguém que não
cresceu neste mundo. — Esse é um comentário de teste, mas é tão claro
quanto o nariz na minha cara que ela não cresceu.
Adelaide toma um gole cauteloso de seu sangue. Percebo como seus
olhos se fecham brevemente, saboreando o gosto. Quando ela os abre
novamente, há um toque de constrangimento em sua expressão. — É,
parece ser a notícia do dia. Todo mundo está falando sobre isso, sobre mim.
Dou uma risada, lembrando dos meus primeiros dias em MistHallow. —
As primeiras semanas são sempre as mais difíceis. Mas você parece estar se
adaptando bem.
Nos movemos para uma mesa próxima, sentando um de frente para o
outro. Estou super consciente de sua presença, do jeito que ela se move, das
sutis mudanças em sua expressão. É como se meus sentidos estivessem no
máximo perto dela.
— Eu queria te perguntar uma coisa. Sobre seus poderes, na verdade.
Ergo uma sobrancelha, intrigado. — Ah é? O que você gostaria de
saber?
Ela hesita por um momento, como se organizando seus pensamentos. —
Bem, eu sei que você é um elemental do fogo. Mas o que exatamente isso
significa? O que você pode fazer? — Ela baixa a voz para perguntar: — E o
que é essa coisa da Ordem?
Considero suas perguntas. Não é comum que eu discuta minhas
habilidades, mas com Adelaide, me vejo querendo me abrir.
— Bem — começo —, não posso dizer nada sobre a Ordem, mas como
um elemental do fogo, tenho uma conexão profunda com o elemento fogo.
Posso criar e controlar chamas, manipular o calor e até sentir a energia
térmica ao meu redor.
Para demonstrar, estendo minha mão, palma para cima. Com um
pensamento, uma pequena chama ganha vida sobre minha pele. Adelaide se
inclina, fascinada.
— Isso é incrível — ela sussurra. — Não machuca?
Balanço a cabeça, sorrindo. — De jeito nenhum. O fogo é parte de mim.
É tão natural quanto respirar.
Com um movimento do pulso, apago a chama. — Mas não é só sobre
criar fogo — continuo. — Também posso absorver calor e chamas, me
tornando praticamente à prova de fogo. E em situações extremas, posso até
transformar meu corpo em uma chama viva.
Os olhos de Adelaide se arregalam. — Uau. Isso parece incrivelmente
poderoso.
Aceno com a cabeça, minha expressão ficando séria. — É sim. Mas o
fogo é volátil. Pode aquecer e nutrir, mas também pode destruir se não for
controlado adequadamente.
Ela acena, um lampejo de entendimento em seus olhos. — Estou
começando a perceber isso eu mesma, e às vezes é avassalador.
Sinto uma pontada de simpatia, lembrando das minhas lutas com o
controle quando era criança, onde eu entraria em chamas involuntariamente.
— Vai ficar mais fácil — garanto a ela. — Você só precisa de tempo e
prática.
Caímos em um silêncio confortável, Adelaide bebericando seu sangue
enquanto eu tomo um gole de água. Eu a estudo, notando as mudanças sutis
em sua postura, o jeito como ela se porta com mais confiança agora.
— Posso te perguntar algo agora?
Ela pisca e acena. — Justo é justo.
— O que você é? De verdade?
— Me conte sobre sua Ordem, e eu te conto o que realmente sou — ela
rebate com tanta facilidade que me engasgo com minha risada.
— Bem, caramba, você negocia duro, né?
Adelaide sorri para mim, um brilho travesso em seu olhar. — Estou
aprendendo a jogar o jogo.
— Touché. Okay, que tal isso - eu te conto uma coisa sobre a Ordem, e
você me conta uma coisa sobre você. É uma troca de segredos, por assim
dizer.
Ela considera isso por um momento, então acena. — Feito. Você
primeiro, já que eu perguntei primeiro.
Me inclino mais perto, baixando a voz. — A Ordem da Sombra
Carmesim é antiga, mais velha que a maioria das raças sobrenaturais.
Somos encarregados de manter o equilíbrio no mundo mágico.
Adelaide acena lentamente, e posso ver as engrenagens girando. —
Interessante. É minha vez, eu suponho. — Ela toma um fôlego profundo e
baixa a voz para um sussurro. — Eu sou uma Vesper - metade vampira,
metade humana.
Agora é minha vez de ficar surpreso.
Chocado, na verdade.
Vespers são incrivelmente raros, quase míticos. — Isso é... uau, okay.
Definitivamente não era isso que eu esperava que você dissesse... — Franzo
a testa para ela. — Esse é um segredaço e tanto, garota.
— É, eu sei. Mas tenho a impressão pelo que você não disse que o seu
também é, então estamos quites, certo?
Eu a estudo por um momento. — Garota esperta — murmuro,
impressionado que ela tenha lido nas entrelinhas, mas também ligeiramente
preocupado. Não esperava isso também. Na verdade, essa mulher é cheia de
surpresas. — É, estamos quites.
— Você tem um sotaque fofo, sabia? — ela diz, levantando-se e
pegando sua xícara. — Me faz querer saber mais.
— Então para onde você está indo?
— Tenho merdas para aprender. Te vejo por aí, incendiário.
— Até mais, espertinha.
Ela solta uma gargalhada alta e acena os dedos para mim.
Eu a observo se afastar, uma série de emoções se agitando dentro de
mim. Intriga, atração e um toque de desconforto. Uma Vesper. Só li sobre
elas em textos antigos. Dizem que são incrivelmente poderosas, com
habilidades que superam muitas criaturas sobrenaturais quando totalmente
exploradas.
Enquanto fico sentado ali, refletindo sobre nossa conversa. Seu segredo
está seguro comigo. Eventualmente vai vir à tona. Tem que vir. É grande
demais para manter em segurança, mas nenhum filho da puta vai ouvir isso
de mim.
Termino minha água e me levanto, minha mente acelerada. Preciso falar
com Corvus e descobrir se é isso que ele sabe. Se for, podemos discutir e
nos preparar para o que isso possa significar.
Desaparecendo em chamas do refeitório, apareço do lado de fora do
quarto de Corvus e bato com força. Ele abre a porta, seus olhos se
estreitando ao me ver. — Iggy. O que houve?
Coloco uma mão levemente em sua camisa para afastá-lo do meu
caminho e entrar em seu quarto, sem esperar por um convite. — Precisamos
conversar sobre Adelaide.
Corvus fecha a porta atrás de mim. — O que tem ela?
Eu me viro para encará-lo. — Você sabe o que ela é?
Ele pisca. — Você sabe?
Bom. Ele não soltou de uma vez. Isso é bom. Significa que ele vai
protegê-la. Até de mim.
— Sim, ela acabou de me contar.
Ele zomba. — Não acredito nisso nem por um segundo.
— Por quê? Ela te contou, se você está dizendo a verdade sobre saber.
— Na verdade, eu deduzi. — Ele me lança um olhar superior.
— Bem, parabéns para você — murmuro. — Então se você sabe, sabe
que temos que garantir que esse segredo permaneça trancado pelo maior
tempo possível.
— Sem dúvida.
— Não acredito que você saiba — desafio-o.
— Bem, eu também não acredito que você saiba — ele retruca.
Dou de ombros. — Olha, você sabe de algo, eu sei de algo. Não quero
dizer caso você não tenha todos os fatos.
— Idem.
Nos encaramos.
— No três? — sugiro como uma armadilha.
— Ah, por favor. Você espera que eu caia nessa.
— Não, na verdade não. Ok, olha, eu sei que ela é rara.
— Muito.
— Como vamos superar isso?
— Traga ela aqui e pergunte.
Considero a sugestão de Corvus por um momento. Trazer Adelaide aqui
para confirmar o que sabemos poderia funcionar, mas também parece uma
violação da confiança dela. Ela compartilhou essa informação comigo em
confidência.
— Não — digo finalmente. — Não podemos fazer isso com ela. Ela já
está lidando com muita coisa, tentando se ajustar a tudo isso. Não devemos
colocá-la numa situação dessas.
Corvus ergue uma sobrancelha. — Desde quando você se preocupa
tanto com os sentimentos dela?
Sinto uma onda de irritação com seu tom. — Desde o dia em que falei
com ela pela primeira vez.
Ele me estuda por um longo momento, seus olhos escuros ilegíveis.
Finalmente, ele diz: — Você se importa com ela. — Não é uma pergunta.
Eu não nego. Não há motivo. — E você não?
Um lampejo de emoção cruza seu rosto. — Eu me importo. Muito. Mas
o que eu sinto é irrelevante. O que importa é mantê-la em segurança.
Concordo com a cabeça, aliviado por estarmos na mesma página sobre
isso, pelo menos. — Concordo. Então, o que fazemos?
Corvus anda pelo quarto, pensando. — Nós a observamos. Protegemos
quando pudermos. E mantemos o que sabemos para nós mesmos, até um do
outro.
— Fechado — digo, e apertamos as mãos porque a situação ficou séria,
e posso ver isso escalando rapidamente assim que o segredo vazar. Sempre
escala.
30

ADELAIDE

D EPOIS DA MINHA conversa esclarecedora com Ignatius, sei que tenho uma
grande pesquisa pela frente, como se já não tivesse o suficiente. É como
tentar recuperar vinte e um anos de estudos sobrenaturais perdidos. Minha
mente fervilha com pensamentos sobre fogo e o calor do sorriso de Ignatius.
Dos quatro homens com quem me familiarizei, bem, cinco se incluirmos
Lucian, ele é o menos ameaçador. É doce, inteligente e super fofo. Sinto
uma amizade se formando, e gosto disso.
As paredes de pedra parecem absorver a luz tremeluzente das tochas
enquanto caminho pelo pátio em direção à biblioteca. O ar está fresco e
ligeiramente úmido, carregando o cheiro da floresta e algo mais, algo
distintamente mágico que cheira a ozônio.
Quase colido com o Professor Blackthorn enquanto ele marcha pelo
pátio, perdido em seus pensamentos. Sua figura alta e imponente surge
repentinamente diante de mim, e tenho que sufocar um suspiro de surpresa.
— Senhorita Black — diz ele.
— Professor — murmuro, mas então um pensamento me ocorre,
superando meu constrangimento. — Na verdade, fico feliz por ter esbarrado
no senhor. Eu queria ter perguntado antes. Estava me perguntando... há
alguma forma de obter um sinal mágico no meu celular? Eu realmente
gostaria de ligar para minha mãe. Vi alunos usando seus celulares, então
deve haver um jeito, certo?
Blackthorn sorri. — Claro. Seu telefone?
Tiro-o da mochila e o mostro. Ele coloca a mão sobre o aparelho e, com
um zunido, ele esquenta, mas logo se estabiliza novamente.
— Pronto — diz ele. — Agora você deve ter sinal. Pode entrar em
contato com sua mãe no mundo exterior, mas ela não pode entrar em
contato com você. Entendido?
Aceno com a cabeça, apertando o telefone contra o peito como se fosse
uma tábua de salvação. — Obrigada, Professor. Entendo.
Enquanto Blackthorn se afasta, suas vestes roçando suavemente o chão,
afundo num banco baixo perto da borda do pátio, meus dedos tremendo
ligeiramente enquanto disco o número da minha mãe.
O telefone toca algumas vezes, e então minha mãe atende. — Alô?
— Mãe, sou eu.
— Adelaide — A voz da minha mãe me enche de uma onda de saudade
tão intensa que é quase dolorosa. — Oh, querida, é mesmo você?
— Sim, mãe — digo, minha voz carregada de emoção. Tenho que
limpar a garganta antes de continuar. — Sim, sou eu. Como você está?
— Estou bem, amor. Mas esqueça de mim. Você está bem? Está tudo
bem aí?
Posso ouvir a preocupação em sua voz, e isso faz meu peito doer. —
Estou bem, mãe. É diferente aqui, mas estou me adaptando. Mas eu
realmente preciso saber se você está bem. Nenhuma estranheza ou estranhos
aparecendo?
Ela dá uma risadinha, e eu franzo a testa. — Não, nenhuma estranheza
ou estranhos. Seu pai está garantindo que eu esteja bastante segura.
Minha boca se abre, bem, não exatamente de surpresa, mas um pouco
de nojo, eu acho. O jeito que ela disse isso foi... não muito bom para os
meus ouvidos.
Há um farfalhar, e então Randall pega o telefone. — Adelaide. Você
conseguiu sinal. Bom. Como estão as coisas?
— Bem — murmuro. — A mãe está mesmo bem?
Há uma pausa, e posso quase ver meus pais trocando olhares,
provavelmente decidindo o quanto me contar. O silêncio se estende por um
momento longo demais, e sinto a ansiedade crescendo em meu peito.
— Sim, ela está perfeitamente bem — diz Randall. — E você? Luke já
começou seu treinamento?
— Luke? — balbucio.
— Blackthorn.
— Ah, bem, sim, Luke e eu nos encontramos algumas vezes para
treinar.
— Excelente — Ele solta o que parece um suspiro de alívio e devolve o
telefone para minha mãe.
— Addy, falaremos com você em breve.
Falaremos? Desde quando eles se tornaram um 'nós'?
— Tudo bem, mãe. Ligarei novamente em breve.
— Tchau, amor.
— Tchau, mãe.
Desligamos justamente quando Lyra atravessa o pátio, vindo direto para
mim. — Ei, Adelaide — diz ela, com um tom amigável, mas cauteloso.
Sorrio, tentando manter minha expressão neutra enquanto me levanto.
— Ei, Lyra — Depois da nossa última conversa, estou cautelosa com Lyra,
mas me lembro de que preciso de aliados aqui em MistHallow. Talvez eu a
tenha julgado muito severamente no outro dia.
— Então — digo, forçando um sorriso e procurando um tópico neutro
— como vão as coisas?
— Bem — diz ela. — Você ficou sabendo que vão nomear o Capitão da
Casa hoje à noite? Todos os alunos estão aqui, então vai acontecer.
— Ah, é? Não, não sabia, mas que legal. Em qual Casa você ficou?
— Troy — diz ela, radiante. — Eu estava esperando por isso este ano.
Preciso expandir minhas asas de liderança.
— Bom, bom.
— É, quero ser Capitã da Casa — diz ela. — Tem sido um cara nos
últimos cinco anos seguidos. Quero mostrar a eles que garotas também
podem ser capitãs.
— Ah, puta que pariu, sim — digo com um sorriso enquanto ela ri e
levanta a mão para um high-five. — Totalmente com você! — Quando
nossas mãos se conectam, sinto uma sensação calorosa, não exatamente de
camaradagem, mas algo, talvez girl power. Sei lá. Algo positivo, de
qualquer forma. Talvez isso possa ser revertido, e possamos acabar sendo
amigas.
Lyra começa a falar sobre seu horário de aulas enquanto nos dirigimos
ao Salão. As portas enormes estão abertas, derramando luz quente e o
zumbido de vozes excitadas no corredor. Ao entrarmos, sou novamente
impressionada pela pura grandeza do ambiente. O teto parece se estender
impossivelmente alto, encantado para refletir o céu noturno lá fora. Estrelas
cintilam acima de nós, ocasionalmente pontuadas pelo rastro de um cometa
ou o brilho suave de uma nebulosa.
O salão está zumbindo de excitação e especulação enquanto ficamos em
pé esperando que o Salão se encha. Avisto Corvus do outro lado do salão,
em uma conversa profunda com um grupo de outros vampiros. Ele me pega
olhando e me dá um aceno rápido, que retribuo com um pequeno sorriso.
O diretor Ellis, presumo, já que nunca o vi antes, está no pódio e bate
palmas. As velas encantadas flutuando acima de nós parecem diminuir
levemente, focando toda a atenção nele.
— Boa noite, alunos — ele começa, sua voz ressoando pelo Salão com
um poder que parece vibrar em meus próprios ossos. — Hoje à noite,
estamos em busca de nossos novos Capitães das Casas. No espírito de
cooperação entre as Casas, realizaremos uma série de atividades intercasas.
Um murmúrio percorre a multidão. Avisto Ignatius do outro lado do
salão, e ele me dá um pequeno sorriso e um aceno que faz um calor inundar
meu corpo. Aceno de volta com um sorriso e volto a me concentrar em
Ellis.
— Para nossa primeira atividade — Ellis continua, seus olhos
percorrendo os alunos reunidos —, vocês serão emparelhados com um
estudante de outra Casa para uma caça ao tesouro mágica. Os pares foram
selecionados aleatoriamente para garantir justiça.
Meu estômago se revira de excitação, mas também de ansiedade
enquanto Ellis começa a ler os pares. Os nomes passam por mim, sem
sentido, até que ouço um familiar.
— Adelaide Black de Cartago — Ellis chama, e eu prendo a respiração.
— Você será pareada com Zephyr Nightshade da Casa de Atenas.
Minha respiração fica presa na garganta. A proteção de Lucian e aquele
beijo invadem minha mente enquanto Zephyr se aproxima de mim com um
sorriso astuto. — Adelaide.
— Zephyr — murmuro enquanto um membro do corpo docente que
reconheço como a Dama das Águas Azuis nos entrega um envelope com
nossa tarefa dentro.
Quando olho para cima, o puxão familiar em minha alma se intensifica,
e olho ao redor. Meus olhos se encontram com os de Zaiah. Ele está ao lado
de uma garota de cabelos dourados, mas seu olhar está fixo unicamente em
mim. Ele sorri, e sinto aquela inexplicável atração por ele. É como uma
força física, me atraindo.
Sem pensar, dou um passo em sua direção, atraída por ele pelo que quer
que esteja crescendo entre nós. Mas antes que eu possa me mover mais,
uma mão forte e fria se fecha em volta da minha garganta, me detendo.
— Não tão rápido, princesa — a voz baixa de Zephyr murmura em meu
ouvido.
Congelo, meu corpo ficando tenso com seu toque. O aperto de Zephyr
não é doloroso, mas é firme o suficiente para me lembrar do poder que ele
possui. Posso sentir a força inumana em seus dedos, a magia mal contida
vibrando através dele.
— Escute com atenção, Bonequinha. Eu quero ser o Capitão da Casa de
Atenas, e já que você é minha parceira, vai me ajudar a chegar lá.
Viro a cabeça, meu rosto neutro de toda expressão enquanto meu olhar
penetra o dele. Ele afrouxa um pouco o aperto em mim. — É, bem, eu
quero ser a Capitã da Casa de Cartago, e vou responsabilizar você
pessoalmente se eu não conseguir.
Ele ri, mas é um riso sombrio e mortal. — Então é melhor que você seja
boa em caças ao tesouro.
Ele me solta, e resisto à vontade de esfregar minha garganta. Ainda
posso sentir a pressão fantasma de seus dedos, um lembrete do perigo que
ele representa. — Acho que vamos descobrir — murmuro, virando-me para
encará-lo.
31

ZEPHYR

O AR noturno é fresco contra minha pele enquanto Adelaide e eu


atravessamos os terrenos iluminados pela lua de MistHallow. O cheiro de
magia paira pesadamente no ar, mesclado com o aroma terroso da floresta
ao redor. Posso sentir o poder pulsando através de mim, ansioso para ser
liberado. É uma sensação familiar, essa energia inquieta, mas esta noite
parece diferente. Mais intensa. Pergunto-me se tem algo a ver com a mulher
caminhando ao meu lado.
Lanço um olhar de soslaio para Adelaide. Ela está tentando esconder,
mas posso ver a energia nervosa irradiando dela em ondas. Seus olhos
percorrem ao redor, absorvendo as sombras e o estranho brilho etéreo que
parece permear MistHallow à noite. É quase cativante.
— Muito bem, princesa — digo, quebrando o silêncio. Minha voz corta
o ar noturno como uma faca. — Vamos ver com o que estamos lidando.
Tiro o envelope contendo nossa lista de tarefas, saboreando a forma
como Adelaide se irrita com o apelido. Seus olhos brilham com irritação,
uma faísca de desafio que me emociona. Tenho que admitir, é um olhar
atraente nela.
— Não me chame assim, e já que estamos nisso, não me chame de
Dollie também — ela dispara, arrancando o envelope da minha mão. Seus
dedos roçam os meus por um momento, e sinto um choque de algo.
Eletricidade estática, talvez. Ou algo mais.
Eu rio, baixo e sombrio. — Eu não recebo ordens suas, princesa. Além
disso, há coisas que você ainda não sabe sobre si mesma. — Inclino-me
para perto. — Você pode ser uma vampira com extras, mas ainda é nova
neste mundo. Faria bem em se lembrar disso.
Ela me fulmina com o olhar. — E o que eu não sei sobre mim mesma
ainda? Que sou capaz de chutar seu traseiro?
Bufo, pego de surpresa pela atitude. — Você sabe quem eu sou?
Seus olhos se estreitam. — Um babaca Fae das Trevas.
A vontade de rir e beijá-la apaixonadamente guerreiam uma com a
outra. — É Príncipe Babaca, para você.
Ela aperta ainda mais os olhos e estala os dedos ruidosamente na minha
cara. — Eu sabia — ela sibila. — Você é igualzinho ao seu pai.
Ergo uma sobrancelha. — Ah é? Desde quando você o conheceu?
— Ele está no livro que estou lendo sobre a sua espécie. Então, Príncipe
Babaca, por onde começamos?
— Começamos com eu te chamando de princesa e não pense que isso é
apenas um carinho, Pequena Dollie — disparo, mas não por raiva ou
frustração. Quero que ela saiba exatamente o que quero dizer.
Ela me encara furiosamente, mas não diz nada, em vez disso, focando
na lista de itens que precisamos encontrar. Observo enquanto seus olhos se
arregalam ligeiramente, absorvendo a tarefa quase impossível diante de nós.
O luar ilumina seus olhos, fazendo-os brilhar com uma luz sobrenatural. Por
um momento, fico cativado.
— Uma pena da cauda de uma fênix — ela lê em voz alta. — Um frasco
de lágrimas de sereia. Um livro que se escreve sozinho. Um espelho que
mostra o futuro. Uma chave que abre qualquer fechadura. Uma flor que
floresce apenas sob o luar. Uma pedra que sussurra segredos. Uma taça que
nunca se esvazia. — Ela olha para mim, uma mistura de descrença e
excitação nos olhos. — Como vamos encontrar tudo isso em uma noite?
Sorrio, sentindo a familiar descarga de adrenalina que vem com um
desafio. É para isso que eu vivo - a emoção do impossível, a chance de
provar meu poder e astúcia. — Isso, princesa, é onde a diversão começa.
Agora, vamos começar com algo fácil, certo? A flor que floresce apenas
sob o luar.
Sem esperar por sua resposta, parto em direção à borda do campus,
onde o muro de pedra encontra árvores imponentes. A grama está
escorregadia com o orvalho sob meus pés, mas me movo com a graça de
um predador, seguro e silencioso. Posso ouvir Adelaide se apressando para
me acompanhar, seus passos rápidos e leves no chão. Ela não se move como
uma vampira. Não furtiva e suave. Essa coisa sobre ela está me
incomodando. Como ela não sabia que era uma vampira? Como isso é
possível por todo esse tempo? O que é esse extra que a torna não uma
vampira, mas algo mais?
Vamos lá, Zeph, descubra isso. Não é do seu feitio ser tão alheio aos
fatos.
— E como exatamente isso é fácil? — ela pergunta, interrompendo
meus pensamentos, ligeiramente ofegante. Posso ouvir a frustração em sua
voz.
Paro abruptamente, virando-me para encará-la. Ela quase colide
comigo, e tenho que resistir ao impulso de ampará-la. Em vez disso,
inclino-me para perto, minha voz baixando para um sussurro. A
proximidade me permite captar seu perfume que me atrai, e que não
consegui tirar das minhas narinas desde que a conheci pela primeira vez.
Jasmim e sangue. É uma combinação inebriante que acende a luxúria em
mim como nada mais jamais fez.
— Porque, princesa — murmuro, meus lábios quase roçando sua orelha
—, por acaso sei exatamente onde encontrar uma.
Posso ver a curiosidade guerreando com a cautela em seus olhos. É
delicioso, e quero provocá-la mais, para ver até onde ela irá. Há algo em
Adelaide que me atrai, apesar do meu bom senso. Ela é um quebra-cabeça
que estou louco para resolver.
— Siga-me — digo, mergulhando na escuridão da floresta.
As árvores se erguem acima, seus galhos se estendendo como dedos
nodosos. Sombras dançam ao nosso redor, assumindo formas estranhas,
quase sencientes à medida que passo por elas. Navego pelos caminhos
sinuosos com facilidade, minha natureza de Fae das Trevas à vontade neste
reino de sombras e segredos. Adelaide tropeça atrás de mim, praguejando
baixinho enquanto se enrosca em raízes e fica presa em arbustos
espinhosos.
— Você não é muito graciosa, é? — digo, sem me preocupar em
esconder meu divertimento.
— Vá se foder — ela resmunga, mas posso ouvir a determinação em
sua voz. É impressionante, tenho que admitir. A maioria estaria tremendo
de medo a essa altura, conforme entramos no que só pode ser descrito como
um reino sombrio da natureza, mas Adelaide segue em frente, com o queixo
erguido em uma linha teimosa.
Chegamos a uma pequena clareira, banhada pela luz prateada do luar.
No centro, uma única flor se ergue altiva, com suas pétalas firmemente
fechadas. O ar aqui parece diferente, carregado com uma magia antiga que
penetra em minha alma.
— Ali — digo, apontando. — O Lírio Lunar. Ele só floresce à meia-
noite em ponto.
Adelaide confere seu relógio, franzindo a testa. — Isso é em dois
minutos. Como você sabia que estaria aqui?
Dou de ombros, com um sorriso malicioso nos lábios. — É parte do
meu charme. — Não conto a ela sobre as horas que passei explorando essas
florestas, aprendendo seus segredos. Conhecimento é poder, afinal, e não
estou prestes a abrir mão das minhas vantagens.
Enquanto esperamos, posso sentir a magia no ar se intensificando. A
floresta parece prender a respiração, antecipando o momento. Até mesmo
os sons noturnos habituais - o pio das corujas, o farfalhar de pequenas
criaturas no sub-bosque - silenciaram.
De repente, um raio de luar atravessa o dossel, pousando diretamente
sobre a flor. Como em câmera lenta, as pétalas começam a se abrir,
revelando uma flor de beleza tão extraordinária que até eu fico
momentaneamente atordoado. As pétalas são de um prateado cintilante,
bordejadas com o mais leve toque de azul. Elas parecem brilhar por dentro,
pulsando suavemente em sintonia com algum ritmo inaudível.
Adelaide suspira ao meu lado, seus olhos arregalados de admiração. —
É lindo — ela sussurra, sua voz cheia de assombro.
Concordo com a cabeça, estendendo a mão para colher a flor. Quando
meus dedos tocam o caule, sinto uma picada aguda. Sangue, tão vermelho
escuro que é quase preto, brota de um pequeno corte, e praguejo baixinho.
Os espinhos do Lírio Lunar são tão mortais quanto belos, ao que parece.
Adelaide sibila, e quando me viro para ela, suas presas estão reluzindo
ao luar. Definitivamente uma vampira então, mas ainda assim, há aquele
'algo mais' para descobrir.
Com um lampejo de graça e velocidade que eu esperava dela o tempo
todo, ela agarra minha mão e leva meu dedo aos seus lábios. Ela o suga
num movimento tão erótico que meu pau pula em atenção, duro como uma
barra de aço.
— Porra — murmuro enquanto a observo bebendo meu sangue. Não
faço a menor ideia do que isso fará com ela. Provavelmente a deixará
bêbada. Meu sangue é onde reside meu poder, como na maioria das
criaturas sobrenaturais. Ela está prestes a ter um baita de um barato com
isso, mas a queda será... interessante.
— Bem — digo, quebrando a tensão. Minha voz soa tensa até para
meus próprios ouvidos. — Isso é novidade.
Ela ergue a cabeça e solta minha mão imediatamente, com uma
expressão de total horror no rosto. — Porra! — ela exclama. — Me
desculpe, isso foi uma violação! Sinto muito, Zephyr, não sei o que deu em
mim-
— Ei — digo, entrando em seu espaço frenético e segurando seu rosto
para que ela pare e me olhe. — Tudo bem. Você pode ter meu sangue
quando quiser, princesa. Mas acho que em pequenas doses. Você está
sentindo o efeito?
Ela engole em seco. — Eu fiz isso sem seu consentimento — ela
murmura. — Eu, mais do que ninguém, deveria saber melhor que isso. Você
pode me perdoar?
— Não há nada para perdoar, princesa — murmuro, mas ela ainda
parece tão desolada que parte meu coração frio e morto. Que. Porra. É.
Essa? — Sim — emendo, apertando meu aperto nela. — Eu te perdoo.
Ela sorri tristemente. — Obrigada. Não farei isso de novo, você tem
minha palavra. Não é desculpa, mas estou tendo problemas de controle.
— Uma desculpa perfeitamente válida, se quer saber.
Seu sorriso desaparece. — Você está sendo gentil demais comigo.
— E você está sendo dura demais consigo mesma. — Guardo o Lírio
Lunar com segurança no meu bolso, pronto para seguir em frente, e pego
sua mão. — Vamos?
Ela assente, e fazemos nosso caminho de volta para fora da floresta, o ar
entre nós carregado de perguntas não ditas e tensão latente. Posso sentir o
olhar de Adelaide sobre mim, curioso e cauteloso. Ela está me reavaliando.
Assim como eu estou reavaliando ela.
— O próximo da lista — digo, consultando o papel. A escrita parece
cintilar ao luar, as letras se reorganizando como se estivessem vivas. — Um
frasco de lágrimas de sereia. Isso deve ser interessante.
Adelaide ergue uma sobrancelha, um toque de empolgação se
infiltrando em sua voz. — Como vamos conseguir isso?
Sorrio, um plano já se formando em minha mente. A emoção da caçada
corre pelas minhas veias, tornada ainda mais potente pelos
desenvolvimentos inesperados da noite. — No Lago Negro. E sei
exatamente como conseguir o que precisamos. Precisamos acelerar isso
agora, princesa. Você já superou sua festa de autopiedade?
Ela arfa, com os olhos arregalados, mas então ri. — Só se você
realmente me perdoar.
— Verdadeira, louca e profundamente.
— Vai se ferrar — ela murmura, mas relaxa novamente e se apressa ao
meu lado enquanto a conduzo em direção ao vasto e escuro lago.
Nos aproximamos da margem. A superfície é como vidro, refletindo o
céu estrelado acima. É lindo, de uma maneira assombrosa. Mas sei dos
perigos que espreitam sob aquela superfície plácida.
Solto sua mão e fecho os olhos, estendendo meus poderes. O mundo ao
meu redor desaparece, substituído por uma paisagem de energia e vida.
Posso sentir as criaturas sob a água, suas forças mágicas pulsando como
faróis nas profundezas. O povo sereia está lá embaixo, suas energias
brilhantes e complexas. E algo mais... algo antigo e poderoso, adormecido
na parte mais profunda do lago.
— Observe e aprenda, princesa — murmuro, abrindo os olhos. Posso
sentir o poder sombrio girando ao meu redor, respondendo ao meu
chamado.
Ergo as mãos, a magia rodopiando ao redor dos meus dedos como
fumaça viva. Com um movimento rápido, mergulho meu poder no lago. A
água começa a se agitar, espumando e borbulhando como se estivesse
fervendo. A superfície plácida irrompe em ondas, a noite pacífica
estilhaçada pelo rugido das águas perturbadas.
De repente, uma sereia irrompe da superfície, suas escamas cintilando
ao luar. Ela é bela de uma maneira sobrenatural, com escamas iridescentes e
longos cabelos flutuantes que parecem se mover por conta própria. Mas seu
rosto está contorcido de raiva, seus olhos brilhando perigosamente.
— Fae das Trevas — ela sibila, sua voz como vidro quebrado. Ecoa
pela água, repleta de poder ancestral e raiva mal contida. — Como ousa
perturbar nossas águas!
Eu sorrio, frio e cruel. Esta é uma dança que conheço bem, um jogo de
poder e intimidação. — Ora, ora. É assim que se cumprimenta um aliado?
Os olhos da sereia se estreitam, e ela mostra seus dentes afiados. Eles
brilham ao luar, afiados como navalhas e mortais. — Não somos aliados,
Zephyr Nightshade. Diga o que quer e vá embora.
Posso sentir Adelaide se tensionando ao meu lado, pronta para uma
briga. Sua mão roça na minha, e sinto uma descarga de energia que faz algo
para lançar minha magia em um estado de caos frenético. É distrativo, mas
não posso me dar ao luxo de perder o foco agora. Quero aquela Capitania.
Nada mais importa.
— Precisamos de um frasco de lágrimas de sereia — digo, minha voz
suave como seda. Infundo nela um toque do meu poder, uma sutil
compulsão que a maioria das criaturas acha difícil resistir. — Certamente
não é pedir demais, não é?
A sereia ri, um som áspero e estridente que envia ondulações pela
superfície da água. — E por que daríamos nossas lágrimas a você, ser das
trevas? Elas são preciosas, não devem ser desperdiçadas com os caprichos
dos habitantes da terra.
Eu sorrio, deixando transparecer um vislumbre da minha verdadeira
natureza. O ar ao meu redor escurece, sombras se contorcendo aos meus pés
como coisas vivas. A temperatura cai, formando gelo na grama à beira da
água. — Porque se não o fizer — digo, minha voz baixa e mortal —, vou
congelar este lago inteiro e todas as criaturas nele.
Os olhos da sereia se arregalam de medo, e posso ver o momento em
que ela percebe que não estou blefando. Ela olha para Adelaide, talvez
esperando alguma intervenção, mas minha preciosa Bonequinha permanece
em silêncio, observando a troca com fascinação horrorizada.
— Muito bem — diz a sereia, sua voz tremendo ligeiramente. Ela ergue
uma mão com membranas até o olho, e uma única lágrima perolada cai no
frasco que estendo. Ela brilha suavemente, contendo magia além da medida.
— Foi um prazer fazer negócios com você — digo, guardando o frasco.
A sereia desaparece sob as ondas sem mais uma palavra, deixando apenas
ondulações em seu rastro.
Enquanto nos afastamos do lago, posso sentir os olhos de Adelaide
cravados em mim. O peso de seu olhar é quase físico, cheio de perguntas
não feitas e emoções conflitantes. Viro-me para encará-la, esperando nojo
ou medo. Em vez disso, vejo curiosidade e admiração e uma crescente
compreensão da dinâmica de poder em jogo neste mundo em que ela foi
lançada.
— Isso foi interessante — ela diz, sua voz baixa. Há um leve tremor
nela, mas não sei dizer se é de medo ou excitação.
Dou de ombros, tentando parecer indiferente. — Às vezes você tem que
ser cruel para ser gentil, princesa. Ou, neste caso, cruel para vencer. — Faço
uma pausa, estudando seu rosto.
Ela acena lentamente, e posso ver as engrenagens girando em sua
cabeça. Ela está aprendendo, se adaptando a este mundo mais rápido do que
eu imaginava. É impressionante e ligeiramente preocupante.
— O que vem agora? — ela pergunta, uma nova determinação em sua
voz.
Eu sorrio, sentindo uma onda do que pode ser orgulho. — Agora, vamos
caçar uma fênix.
Enquanto partimos em direção ao aviário, sinto um crescente respeito
por Adelaide. Ela é mais forte do que parece, esta minha Bonequinha, e à
medida que esta noite avança, também cresce meu interesse por ela.
Nos aproximamos da imponente estrutura do aviário, suas torres se
erguendo em direção ao céu estrelado. O edifício é uma maravilha da
arquitetura mágica, projetado para abrigar criaturas voadoras, do comum ao
mítico. Posso ouvir o farfalhar de penas e os suaves arrulhos de pássaros
adormecidos à medida que nos aproximamos.
— Então, como exatamente vamos fazer isso?
— Um simples caso de arrancar e correr — sorrio, transbordando com a
emoção de quão perigoso isso é. Mas quero testá-la.
— Arrancar e correr? — ela repete incrédula. — Jesus. Tenho um mau
pressentimento sobre isso.
— Jesus não vai te ajudar aqui, princesa. Pronta?
— Pronta?
Agarro sua mão, e corremos para dentro do aviário, o riso borbulhando
enquanto miramos diretamente na fênix adormecida. Arranco uma pena de
sua cauda, ganhando um alto grasnido enquanto fugimos, gritando de
alegria por termos conseguido três itens e fazendo um excelente tempo
também.
32

ADELAIDE

M EU CORAÇÃO ainda está acelerado após o nosso encontro com a fênix


enquanto Zephyr e eu atravessamos os terrenos iluminados pela lua de
MistHallow. A pena no meu bolso parece quente, quase viva, e fico
maravilhada com os acontecimentos da noite até agora. O ar fresco da noite
carrega o cheiro de magia e possibilidades, e estou empolgada com o que
pode vir a seguir, tanto com a caça quanto com Zephyr.
— O que vem a seguir na lista? — pergunto, tentando manter minha voz
firme apesar da adrenalina correndo em minhas veias. Meus sentidos de
vampira foram ativados em uma escala massiva depois de beber o sangue
de Zephyr. Posso captar o farfalhar de todas as folhas, cada mudança nas
sombras, cada movimento das criaturas da floresta... cada batida do coração
de Zephyr. É lento. Quase como se estivesse frio demais para bombear mais
rápido. Faz sentido. Seu sangue estava frio ao beber, não quente como o
sangue sintético ou o sangue humano do frasco. Isso me deu um impulso
que sei que será difícil resistir a buscar novamente.
Zephyr tira a lista, seus olhos notáveis brilhando sob o luar. A forma
como a luz prateada ilumina suas feições o torna ainda mais cruelmente
belo. — Um livro que se escreve sozinho — ele lê, sua voz baixa e
melodiosa. — Agora isso é um desafio interessante.
Franzo a testa, pensando. A parte lógica do meu cérebro, a parte que
ainda se apega à normalidade da minha antiga vida, quer descartar a ideia
como impossível. Mas depois de tudo o que vi desde que cheguei, estou
começando a acreditar que qualquer coisa é possível neste novo mundo. —
Certamente não será difícil de encontrar neste lugar?
— Você ficaria surpresa. Isso é magia de próximo nível.
— Próximo nível? — murmuro. — Como em nível de professores? —
Minha voz falha no final, e isso desvia a atenção de Zephyr da lista.
Seus olhos se estreitam, mas o sorriso que curva seus lábios é malicioso.
— O que você sabe, princesa?
— A biblioteca — murmuro, lembrando-me de algo que vi enquanto
procurava o livro sobre as Fadas Negras.
Zephyr acena, me levando a sério, o que me surpreende. Pensei que ele
me descartaria e às minhas ideias. Há muito mais nessa criatura do que seu
exterior selvagem, mas eu seria tola em esquecer aquelas coisas que o vi
fazer.
Enquanto seguimos para a biblioteca, estudo Zephyr pelo canto do olho.
Sou atraída por ele de maneiras que, antes de vir para cá, eu diria que eram
impossíveis. Mas sentindo o que sinto por um certo djinn e um certo
vampiro, não posso realmente dizer que isso é errado ou irracional. Parece
certo. Talvez até mais com ele do que com os outros, se é que isso é
possível. A maneira como ele manipula as sombras, a demonstração casual
de poder... está excitando tanto meu corpo quanto minha mente. Não
consigo explicar, e não quero resistir.
Aproximo-me um pouco mais, de forma tão sutil que ele não perceba, e
roço minha mão nas costas da sua. Há uma faísca de eletricidade, como um
mini raio. Solto um silvo e recolho minha mão enquanto ele franze a testa
olhando para a sua. Sem me olhar, ele estende a mão e agarra meus dedos
com força. Reprimo o gemido de inegável luxúria que me atravessa ao seu
toque.
A biblioteca se ergue diante de nós, uma estrutura massiva de pedra e
magia. Suas torres se estendem em direção ao céu estrelado, e à medida que
nos aproximamos, posso ver a escrita tênue e luminosa ao longo das
paredes, palavras antigas em línguas há muito esquecidas. As portas se
abrem silenciosamente, nos recebendo. Lá dentro, o ar é denso com o cheiro
de livros antigos e magia ancestral.
Eu amo isso. É meu novo lugar favorito.
— Então, como encontramos um livro que se escreve sozinho neste
labirinto? — ele sussurra.
Estou impressionada com as infinitas fileiras de prateleiras que se
estendem na escuridão. A pura escala de conhecimento contido aqui é
avassaladora, e sinto um desejo súbito e intenso de explorar cada canto, de
absorver cada pedacinho de conhecimento mágico que puder.
— Por aqui — digo, guiando-o para o interior da biblioteca.
Serpenteamos pelas estantes, as sombras parecendo se abrir diante de
Zephyr. Livros farfalham em suas prateleiras enquanto passamos,
sussurrando segredos uns para os outros. Estendo a mão para tocar as
lombadas, sentindo a magia contida em cada tomo. É hipnotizante, e me
pego querendo mais.
Finalmente, chegamos a um pequeno nicho onde um único livro repousa
sobre um pedestal. Suas páginas estão se virando sozinhas, palavras
aparecendo e desaparecendo em uma dança vertiginosa. O ar ao seu redor
cintila com magia, e posso sentir o poder irradiando dele.
— Isso foi escrito por Ellis — sussurro. — Eu o vi outro dia, mas ele
desapareceu antes que eu pudesse dar uma olhada apropriada. Algo sobre
ele... Não sei. O que você acha?
— Acho que você está certa — Zephyr murmura, seu olhar se voltando
para o meu com uma expressão de admiração. — Agora, só precisamos
convencê-lo a vir conosco.
Dou um passo à frente, guiada por um instinto que não entendo
completamente. Ao estender a mão para tocar o livro, desta vez ele me
permite, e sinto uma onda de poder surgir. É como nada que já experimentei
antes, um calor que começa no meu núcleo e se espalha até as pontas dos
meus dedos. — Podemos pegar você emprestado para nossa busca? —
pergunto suavemente.
Para meu espanto, as páginas do livro tremulam no que quase parece um
acordo. Ele flutua suavemente para minhas mãos à espera, seu peso tanto
substancial quanto etéreo. Posso sentir a magia pulsando dele, respondendo
ao meu toque.
As sobrancelhas de Zephyr se erguem, genuína surpresa gravada em
suas feições. — Bem, bem. Parece que você tem jeito com as palavras,
princesa. E mais poder do que percebe.
Sorrio para ele, sentindo uma sensação de realização e uma confiança
crescente em minhas habilidades. — Quatro prontos, faltam quatro — digo.
— O que vem a seguir?
— Um espelho que mostra o futuro — Zephyr lê, seus olhos
percorrendo o pergaminho. — Esse pode ser complicado. Magia de
adivinhação é notoriamente imprevisível.
Ao sairmos da biblioteca, percebo Zephyr me observando com um
crescente desejo em seus olhos.
Posso me identificar com isso.
Estou quase esquecendo a caçada e levando-o de volta ao meu quarto
para devorá-lo. A única coisa que me impede é saber que estou menstruada.
Algo me diz que ele não ficará tão excitado com isso quanto Corvus ficou.
Ou digamos, não estou disposta a descobrir.
— Você é mais forte do que se dá crédito, Adelaide.
O uso do meu nome verdadeiro, em vez de um de seus apelidos, me
pega de surpresa. Olho para ele, procurando em seu rosto qualquer sinal de
zombaria, mas encontro apenas sinceridade. É um lado de Zephyr que não
vi antes, e faz minha alma ansiar por seu toque. Todo esse tempo, afastando
as pessoas, não querendo suas mãos em mim, de repente tem uma razão. Eu
estava esperando por esses quatro idiotas. Isso é tão claro para mim como
nada jamais foi antes.
Mas não entendo completamente. Por que esses quatro em particular e
ninguém mais?
Chegamos a um pequeno pátio, onde uma fonte ornamentada
permanece silenciosa sob o luar. A superfície da água está perfeitamente
parada, refletindo as estrelas acima como um espelho. Toda a área brilha
com uma energia sobrenatural.
— Aqui — diz Zephyr, sua voz baixa e intensa. — Dizem que esta fonte
mostra visões do futuro em certas noites. Talvez possamos convencê-la a
funcionar para nós.
Me aproximo da fonte, sentindo a magia vibrando no ar ao seu redor. É
diferente da magia da biblioteca ou do Lírio Lunar - mais antiga, mais
selvagem, menos previsível. Sem pensar, estendo a mão para tocar o braço
de Zephyr. Quando nossa pele faz contato, sinto uma onda de poder fluir
entre nós.
Ele ofega suavemente, seu olhar fixo no meu. A magia Fae Sombria de
Zephyr é fria e potente, misturando-se com minhas crescentes habilidades
Vesper. A combinação é poderosa, me enchendo com uma sensação de
potencial ilimitado.
A água na fonte começa a rodopiar, imagens se formando e reformando
em sua superfície. Vejo flashes de futuros possíveis - alguns brilhantes e
esperançosos, outros sombrios e assustadores, e em muitos deles, vejo
Zephyr e eu, lado a lado. Lutando juntos contra inimigos invisíveis. Rindo
em momentos de alegria. De pé diante de uma multidão, líderes de alguma
grande mudança.
Conforme as visões desaparecem, olho para cima e encontro Zephyr me
encarando com uma intensidade que me tira o fôlego. Seus olhos estão
brilhando fracamente, e posso sentir a energia mística ainda crepitando
entre nós.
— O que você viu? — ele pergunta.
Engulo em seco, ainda processando as imagens. — Muitas coisas —
respondo, minha voz trêmula. — Algumas boas, algumas ruins. Mas em
muitas delas, estávamos juntos. Lutando, liderando, mudando as coisas. Foi
intenso.
A expressão de Zephyr é indecifrável, mas sinto sua mão apertar a
minha. — Agora você entende por que te chamo de princesa? — ele
murmura.
Pisco, incapaz de responder àquela pergunta carregada.
O momento é quebrado por um sino distante tocando, marcando a
metade do tempo. Zephyr balança a cabeça, como se limpasse teias de
aranha, e consulta a lista novamente. — Pegue um frasco disso, quer? E
vamos seguir em frente. Uma chave que abre qualquer fechadura — ele lê
enquanto eu pego o frasco que ele conjurou flutuando no ar perto do meu
rosto e faço o que ele pede. — Isso vai ser um desafio.
— Não são todos? — eu digo arrastadamente, fazendo-o rir.
Caminhamos em direção ao centro do campus, carregados com nossos
itens, onde ficam os prédios administrativos. A arquitetura aqui é mais
imponente, com ângulos afiados e superfícies brilhantes. Posso sentir a
magia protetora zumbindo no ar, afastando aqueles que não pertencem.
— A chave que estamos procurando está guardada no escritório do
Diretor — Zephyr explica enquanto nos aproximamos do prédio principal.
— É um dos artefatos mais fortemente protegidos em MistHallow. Chegar
até ele não será fácil.
Olho o prédio com cautela. — Como vamos passar por toda essa
segurança mágica?
Zephyr sorri, com um brilho travesso nos olhos. — Com um pouco de
astúcia Fae Sombria e muito do que quer que você tenha aí. Está pronta
para testar seus limites, princesa?
Respiro fundo, me preparando. — E quais seriam esses limites,
exatamente?
— Você potencializa minha magia — ele murmura, estendendo a mão
para afastar uma mecha de cabelo do meu rosto. — Eu senti isso no lago, e
novamente antes. Eu sei o que você é, princesa.
— O que eu sou?
Ele me dá aquele sorriso perverso. — Não vou dizer em voz alta. Há
uma razão pela qual você e a faculdade estão mantendo isso em segredo.
— Eu confio em você — deixo escapar.
Seu olhar suaviza, e aquele sorriso sinistro se torna genuíno pela
primeira vez. — Isso significa tudo, Pequena Boneca.
— Você tinha que estragar tudo, não é? — murmuro.
Ele ri. — Tenho que te lembrar a quem você pertence.
— Não preciso do lembrete.
As palavras ficam no ar; as não ditas gritando mais alto.
Zephyr limpa a garganta. — A ser continuado... agora, precisamos nos
concentrar nisso. Vou usar meus poderes para criar uma distração e nos
passar pelas defesas externas. Mas uma vez lá dentro, vamos precisar da sua
habilidade para impulsionar meus poderes o suficiente para romper as
barreiras finais. É arriscado, mas é nossa melhor chance.
Assinto, medo e excitação correndo por mim. — Vamos fazer isso.
Zephyr fecha os olhos, concentrando-se. As sombras ao nosso redor se
aprofundam, coalescendo em formas que parecem criaturas vivas. Com um
gesto, ele as envia correndo em direção ao prédio, criando uma dança
caótica de escuridão que atrai a atenção das proteções mágicas e me faz
ofegar de admiração.
— Agora — ele sussurra, pegando minha mão. Corremos em direção à
entrada, deslizando através das defesas momentaneamente distraídas.
Dentro, o ar está denso com magia protetora. Posso senti-la
pressionando contra nós, tentando nos empurrar para fora. Zephyr nos guia
por corredores sinuosos, sempre se mantendo um passo à frente da
consciência do prédio que desperta para nossa presença.
Finalmente, chegamos ao escritório do Diretor. A porta está selada com
camadas e mais camadas de fechaduras mágicas, cada uma mais complexa
que a anterior.
— É isso — diz Zephyr, sua voz tensa com o esforço. — Preciso que
você amplifique meus poderes, Adelaide. Concentre-se na conexão entre
nós, em amplificar minha magia. Pode fazer isso?
Assinto, colocando minha mão nas costas da dele. Ele sibila enquanto
faíscas voam, e o espaço entre nós esquenta. Fecho os olhos, me
concentrando no fluxo de energia entre nós como fiz com Blackthorn. A
magia de Zephyr é fria e poderosa, o oposto completo da de Blackthorn, e
me concentro em torná-la mais forte, empurrando minha própria energia
para ela.
O efeito é imediato e avassalador. Zephyr grunhe. Seus olhos agora
brilham intensamente, cheios de um poder que deveria me apavorar, mas
tudo o que faz é me deixar ofegante de desejo por ele. Ele ergue as mãos, as
minhas ainda pressionadas contra as dele, e as sombras ao nosso redor
ganham vida, atacando os bloqueios mágicos com uma precisão que é bela
de se ver.
Um por um, as barreiras caem. O prédio estremece sob o assalto de
nosso poder combinado. Mas justo quando penso que não podemos ter
sucesso, o último bloqueio se rompe com um som de vidro estilhaçando.
Cambaleamos para dentro do escritório, respirando com dificuldade. No
centro da sala, em uma caixa aberta, repousa uma pequena chave sem
pretensão. Parece comum, mas está longe disso. Ela está nos esperando.
Zephyr a pega rapidamente, sorrindo triunfante. — Conseguimos,
princesa. Você foi magnífica.
Antes que eu possa responder, ouvimos passos se aproximando. — Hora
de ir — diz Zephyr, pegando minha mão novamente.
Corremos pelos corredores, minha velocidade aprimorada que surgiu
permitindo que nos mantenhamos à frente de nossos perseguidores. Quando
saímos do prédio, Zephyr me puxa para perto, nos envolvendo em sombras.
Por um momento, o mundo desaparece, substituído por um vazio frio e
escuro. Então estamos de volta aos terrenos, longe dos prédios
administrativos.
— Caminhada nas sombras — explica Zephyr, vendo minha expressão
confusa. — Útil para fugas rápidas.
Assinto, ainda recuperando o fôlego. A adrenalina está passando, me
deixando me sentindo exausta, mas exultante. — Isso foi louco.
Zephyr ri, um som de pura alegria que nunca ouvi dele antes. — Você
foi incrível lá dentro, Adelaide. Sua habilidade é impressionante. Seja
muito, muito cuidadosa com quem você a compartilha.
— Incluindo você?
Seu rosto fica mortalmente sério enquanto ele se aproxima e segura meu
rosto, passando o polegar sobre meu lábio inferior. — Especialmente
comigo.
Baixo o olhar e mordo o lábio num esforço para não sugar seu polegar
em minha boca e cortar sua pele com minhas presas para poder beber dele
novamente. — Formamos uma boa equipe — digo suavemente em vez
disso.
— Não estou surpreso, princesa.
Ficamos ali por um momento, o ar noturno fresco em minha pele
corada, o peso do que acabamos de realizar se assentando sobre nós. Estou
extremamente consciente de quão próximos estamos, da eletricidade ainda
crepitando entre nós.
Finalmente, Zephyr limpa a garganta, quebrando o encanto. —
Devemos continuar nos movendo — ele diz, sua voz ligeiramente rouca. —
Ainda temos dois itens para encontrar.
Assinto, tentando ignorar como meu coração está acelerado. — O que
vem a seguir?
— Uma pedra que sussurra segredos — Zephyr lê da lista. — E depois
disso, uma taça que nunca se esvazia.
Enquanto partimos em busca de nosso próximo alvo, não posso deixar
de sentir que algo mudou fundamentalmente entre nós. A conexão que
formamos no escritório do Diretor, a forma como nossos poderes se
entrelaçaram... foi incrível. Poderoso, viciante.
Lanço um olhar furtivo para Zephyr enquanto caminhamos, apertando
contra mim o livro que se tornou parte de minha alma desde que o peguei.
Ele voltou ao seu eu arrogante, mas há um novo calor na forma como ele
me olha, um respeito que não estava lá antes.
A temperatura ficou mais fria enquanto Zephyr e eu nos dirigimos para
o antigo círculo de pedras perto da borda dos terrenos de MistHallow. A
névoa está descendo novamente, e nossa respiração forma pequenas nuvens
à nossa frente. Posso sentir o peso dos itens coletados, e me mexo
desconfortavelmente. Estamos tão perto de terminar a caçada, mas ainda
não acabou.
— Uma pedra que sussurra segredos — murmuro, repetindo o próximo
item de nossa lista. — Alguma ideia de onde podemos encontrar isso?
Os olhos de Zephyr brilham ao luar enquanto ele aponta para um grupo
de pedras erguidas à distância. — Ali. As Pedras Sussurrantes. São antigas,
mais velhas que a própria MistHallow. Se alguma pedra pode sussurrar
segredos, será uma daquelas.
— Como você sabe de tudo isso? — pergunto enquanto nos
aproximamos do círculo de pedras. Sinto um arrepio na espinha que não
tem nada a ver com o frio. O ar aqui parece diferente, carregado com uma
energia que faz os pelos da minha nuca se arrepiarem. As pedras se erguem
sobre nós, suas superfícies gravadas com símbolos que não consigo
decifrar.
— Tenha cuidado — adverte Zephyr, sua voz baixa. — Essas pedras são
poderosas. Elas não entregam seus segredos facilmente. É tudo natureza.
Tudo já foi muito explorado por mim e por aqueles que vieram antes de
mim. Meu pai tem mapas de mapas relacionados a este lugar. Há muito
poucos cantos e recantos que ainda não foram mapeados.
Franzo os lábios. — Então, você sabia sobre o livro.
Ele sorri. — Claro que sim. Mas você estava empolgada em contribuir.
— Contribuir? Como você ousa? Você não poderia ter chegado tão
longe sem mim. Somos uma equipe, lembra?
— Não preciso ser lembrado. — Seu tom casual é irritante, mas esse é o
ponto. Ele está fazendo isso de propósito.
Resistindo ao impulso de rosnar para ele, assinto rapidamente,
movendo-me cuidadosamente entre os monólitos imponentes. Ao passar por
cada um, ouço sussurros fracos, como vozes no limite da audição. Alguns
soam tentadores, outros ameaçadores. Tento me concentrar, para encontrar
o que precisamos.
De repente, me sinto atraída por uma pedra menor perto do centro do
círculo. Diferente das outras, sua superfície é lisa, sem marcas. Conforme
me aproximo, os sussurros ficam mais altos, mais distintos.
— Esta — digo a Zephyr, estendendo a mão para tocar a pedra.
Quando meus dedos tocam sua superfície, sou atingida por uma
enxurrada de imagens e sensações. Segredos do passado, presente e futuro
redemoínham em minha mente. — Ahh! — grito quando isso me domina e
se torna demais. Estou perigosamente perto de perder minha conexão com a
realidade quando a mão de Zephyr se fecha sobre a minha, me ancorando.
— Concentre-se, Adelaide — ele diz, sua voz cortando o caos em
minha mente. — Precisamos de uma pedra que sussurra segredos, não dos
segredos em si.
Com esforço, me recomponho, concentrando-me na tarefa. Sinto a
pedra sob minha palma começar a mudar, e quando retiro minha mão, uma
pequena pedra polida repousa em minha palma. Ainda posso ouvir
sussurros fracos vindos dela, mas agora estão contidos, administráveis.
— Habilidades empáticas? — Zephyr murmura, olhando para mim
como se eu tivesse acabado de rastejar para fora das rochas que nos cercam.
Eu nem sei o que ele quer dizer, então o ignoro, guardando a pedra em
segurança com nossos outros itens. — Falta mais um. A taça que nunca se
esvazia. Vamos acabar com isso.
Fazemos nosso caminho de volta em direção aos prédios principais de
MistHallow, ambos escaneando nossos arredores em busca de qualquer
coisa que possa nos levar ao nosso item final. Ao passarmos pelo refeitório,
um pensamento me ocorre.
— Espera — digo, agarrando o braço de Zephyr. — E se estiver lá
dentro? Uma taça que nunca se esvazia seria bem útil em um refeitório, não
é?
Zephyr considera isso por um momento e então sorri. — Princesa, acho
que você pode estar certa. Vamos dar uma olhada.
Entramos sorrateiramente no refeitório e olhamos ao redor. — A estação
de recarga — murmuro e vou direto para ela com Zephyr em meus
calcanhares.
Empurro o livro para ele, e ele o agarra enquanto eu espio atrás do
dispensador de bebidas e rio. — Te peguei. Você, meu amigo, está fora de
serviço por um tempo. — Eu o agarro, bem quando Lyra e Corvus entram
correndo no refeitório, vasculhando a área em busca do que quer que
estivessem procurando. Aparentemente, é o mesmo item que estou agitando
em triunfo.
— Hora de cair fora — Zephyr murmura enquanto Corvus e Lyra
avançam em nossa direção.
— Ei! — grito quando Zephyr agarra meu braço e nos move através do
tempo e do espaço para o Salão Principal, onde aparecemos cintilando, me
fazendo sentir náuseas.
Todos na sala se viram para nós. O Professor Ellis está na frente, com
uma expressão de surpresa no rosto enquanto nos aproximamos com nossa
coleção de itens mágicos.
— Bem — ele diz, sua voz ecoando pelo salão silencioso. — Parece que
temos nossos vencedores. Parabéns ao Sr. Nightshade e à Srta. Black.
Há uma salva de palmas, algumas genuínas, outras a contragosto. Posso
ver Lyra e Corvus chegando. Ele está irritado, mas não comigo. Ele me
lança um sorriso, e eu sorrio de volta, esperando que as coisas estejam bem
entre nós.
— E agora — Ellis continua, enquanto o resto dos grupos chega atrás de
nós — é hora de anunciar nossos novos Capitães das Casas.
Meu coração começa a acelerar. É isso, o momento para o qual
estávamos trabalhando. Eu nem sabia que existia um Capitão da Casa até
Lyra mencionar e eu nem queria isso até Zephyr me ameaçar. Mas agora
sei, e quero tanto que posso sentir o gosto.
— Para a Casa de Atenas — Ellis diz — o novo Capitão é Zephyr
Nightshade.
Viro-me para Zephyr, sorrindo. Ele aceita o título com um aceno real,
mas posso ver o orgulho brilhando em seus olhos.
— E para a Casa de Cartago — Ellis continua, e eu prendo a respiração
— o novo Capitão é Corvus Sanguine.
Por um momento, tenho certeza de que ouvi mal. Mas quando vejo
Corvus dar um passo à frente, aceitando o título com um sorriso gracioso, a
realidade se faz presente. Eu não fui escolhida. Apesar de tudo que fiz, tudo
que realizei esta noite, não foi o suficiente.
Sinto uma mão em meu ombro e me viro para ver Zephyr, com
preocupação estampada em suas feições. — Adelaide — ele começa, mas
eu balanço a cabeça.
— Está tudo bem — digo, forçando um sorriso. — Parabéns pela sua
capitania.
— Lyra Scott, para Capitã de Troia.
A multidão aplaude enquanto eu bato palmas sem entusiasmo.
— E nosso Capitão de Roma é Asher Stanton.
Corvus rosna alto, mas eu o ignoro e me viro, derrotada e
envergonhada. Por que Zephyr conseguiu e eu não? Nós dois trabalhamos
duro nessa caçada, e vencemos. Juntos. Não faz sentido.
Enquanto a multidão começa a se dispersar, eu escapo, precisando ficar
sozinha. A noite que havia começado com tanta promessa agora parece
vazia. Eu me provei de tantas maneiras esta noite, levei minhas habilidades
além do que jamais pensei ser possível. Mas no final, não foi o suficiente.
Sozinha na frieza da noite, enquanto volto para meu quarto, me pergunto se
algum dia será o suficiente.
33

ZAIAH

A TRAVESSANDO OS TERRENOS DE M IST H ALLOW , meus pés mal tocando o


chão, eu estremeço. Algo está vindo. Algo sombrio, algo poderoso e algo
que dispara meus sentidos como nada mais.
A caça ao tesouro acabou de terminar, e sinto a empolgação e a
decepção vindas dos estudantes retornando aos seus quartos. Mas há uma
emoção que corta todas as outras, afiada e dolorosa: a decepção de
Adelaide.
Nosso vínculo, ainda novo e não totalmente formado, pulsa com sua
angústia. É uma sensação à qual ainda estou me acostumando, essa
consciência constante das emoções dela. Sua dor me chama, me atraindo
em sua direção, impossível de ignorar.
Ao me aproximar do quarto dela, faço uma pausa, considerando minhas
opções. Não posso entrar a menos que ela me convide pelos meios normais,
no entanto, eu sou tudo menos normal. Em vez disso, fecho os olhos, me
concentrando na dimensão de bolso que criei no quarto dela alguns dias
atrás. Com um pensamento, deslizo para o espaço entre realidades,
observando Adelaide sem ser visto.
Ela está sentada em sua cama, ainda com as roupas da caça, o cabelo
desarrumado e os olhos vermelhos. Em suas mãos, ela brinca com o
pequeno frasco ornamentado que deixei para ela. Minha respiração fica
presa na garganta enquanto observo seus dedos traçarem os desenhos
intrincados na superfície.
Será que ela vai abri-lo? A pergunta paira no ar, carregada de
possibilidade. Tenho esperado por este momento, me perguntando se ela
daria este passo, se estaria pronta para o que isso poderia significar.
Adelaide vira o frasco em suas mãos, sua expressão cheia de
curiosidade e apreensão. Posso ver a batalha acontecendo dentro dela. A
cautela que a manteve segura, lutando contra a sede de conhecimento e
poder que a trouxe até aqui.
Finalmente, com uma respiração profunda que visivelmente a acalma,
ela destampa o frasco.
O efeito é imediato e de tirar o fôlego. Uma luz dourada e suave emana
do frasco, envolvendo Adelaide em seu brilho quente. Observo, fascinado,
enquanto a luz se infiltra em sua pele, seus olhos brilhando com poder.
A mudança nela é sutil, mas profunda. Sua postura se endireita, e seus
olhos se tornam mais aguçados, mais conscientes. Posso sentir suas
habilidades se expandindo, crescendo de maneiras que ela provavelmente
nem percebe ainda. É uma visão inebriante, que me enche de orgulho
cauteloso.
Já vi o que o poder pode fazer com as pessoas, como pode corromper e
distorcer. Mas com Adelaide, há uma força nela que vai além da mera
habilidade mágica.
Conforme a luz dourada se dissipa, Adelaide olha ao redor de seu
quarto, seu olhar parecendo penetrar o tecido da realidade. Por um
momento, penso que ela possa ter sentido minha presença na dimensão de
bolso. Mas então seus olhos se movem, e eu relaxo.
Está na hora, decido. Não posso continuar observando das sombras. Ela
merece mais do que isso.
— Adelaide — chamo suavemente, minha voz ressoando no espaço
entre dimensões. — Posso entrar?
Ela se sobressalta, seus olhos se arregalando enquanto procura a fonte
da minha voz. — Zaiah? — ela pergunta, confusa. — Onde você está?
— Sim — confirmo. — Estou na dimensão de bolso conectada ao seu
quarto que criei outro dia. Posso entrar se você me der permissão.
Há um momento de hesitação, e eu prendo a respiração, esperando por
sua decisão. — Sim — ela diz. — Você pode entrar. Você estava escondido?
— Sua acusação vem com os braços cruzados e uma expressão de
aborrecimento realmente fofa.
Com um pensamento, saio da dimensão de bolso e entro em seu quarto.
O ar cintila ao meu redor enquanto me materializo, e vejo os olhos de
Adelaide se arregalarem com a demonstração de magia.
— Eu? — pergunto com um sorriso destinado a desarmar. — Eu nunca
me escondo, baby.
— Humph — ela murmura, mas abandona sua postura defensiva.
— Oi — digo suavemente, de repente me sentindo desajeitado agora
que estou cara a cara com ela. — Senti que você estava chateada. Queria
ver como você estava.
A expressão de Adelaide suaviza, um pequeno sorriso puxando os
cantos de sua boca. — Você sentiu? Através do nosso... vínculo? É essa a
palavra certa para isso?
Aceno lentamente, me aproximando dela. — Sim. Está ficando mais
forte. Posso sentir suas emoções mais claramente agora, especialmente
quando são intensas.
Ela olha para o frasco em suas mãos, depois de volta para mim. — Você
viu...?
— Sim — admito. — Vi você abrir o frasco. Como se sente?
Adelaide respira fundo, considerando a pergunta. — Diferente — ela
diz finalmente. — Mais forte, de alguma forma. Mais consciente. Isso veio
de você? O que havia nele, Zaiah?
Sento-me ao lado dela na cama, perto o suficiente para sentir o calor de
seu corpo que diminuiu um pouco desde a última vez que estive próximo a
ela. Ela está se tornando mais vampira e menos... Quero dizer humana, mas
isso não pode estar certo, pode? Uma Vesperidae entre nós é inesperado.
Novamente, um djinn também é, então acho que fomos feitos um para o
outro. — Chama-se Essência do Despertar — explico. — É um elixir muito
raro e poderoso que aprimora habilidades mágicas latentes. Só funciona
naqueles que considera dignos.
— E você acha que sou digna? — Adelaide pergunta, sua voz pequena e
incerta.
— Não eu — digo, tocando o frasco. — Embora eu não discordaria da
avaliação do elixir.
Pego suas mãos nas minhas. O contato envia uma descarga elétrica
através de mim, nosso vínculo zumbindo com energia. — Adelaide — digo,
minha voz sincera —, você é mais do que digna. Você é extraordinária. Seu
potencial é como nada que eu já vi antes.
Ela cora, olhando para nossas mãos unidas. — Não me sinto
extraordinária — murmura. — Nem consegui me tornar Capitã da Casa.
Ah, então é isso que a chateou. Aperto suas mãos gentilmente. —
Adelaide, olhe para mim — digo, esperando até que ela encontre meu olhar.
— Ser preterida para Capitã da Casa não define seu valor ou suas
habilidades. Você realizou tanto em tão pouco tempo. Você completou a
caça ao tesouro, não é?
Ela assente com a cabeça, um lampejo de orgulho cruzando seu rosto.
— Sim, Zephyr e eu encontramos todos os itens. Ele conseguiu Capitão, e
eu não.
— Mas quem conseguiu em seu lugar?
Ela franze os lábios e suspira irritada. — Corvus.
— E você acha que ele não merece?
— Não, não é isso! Mas nós vencemos, eu e Zephyr, e ele conseguiu, e
eu não. — Ela pisca e então rosna. — Percebo que pareço uma criança
petulante. Obviamente, Corvus merece. Ele está aqui há mais tempo, tem
mais experiência, caramba, ele tem sido um vampiro a vida toda!
— Você também.
— Não — ela diz, balançando a cabeça. — Não, não fui. Não
realmente. E eu nem sou uma vampira de verdade. Sou apenas metade de
uma.
— Mas uma metade poderosa. O outro lado de você faz com que seja
assim.
Seu olhar voa para encontrar o meu. — Você sabe?
— Acho que sim.
Ela se inclina ligeiramente para mim, e eu passo um braço ao redor de
seus ombros, puxando-a para perto. Ficamos assim por um tempo, o
silêncio confortável e carregado de sentimentos não ditos.
— Zaiah — Adelaide diz finalmente, sua voz abafada contra meu peito.
— O que está acontecendo comigo? Com esses poderes, com a gente?
Eu respiro fundo, considerando como responder. — Sua natureza
Vesperidae está despertando — sussurro. — A Essência do Despertar está
acelerando o processo, trazendo suas habilidades latentes à superfície.
Quanto a nós... — eu paro, sem saber como colocar em palavras o
emaranhado complexo de emoções e conexões místicas entre nós.
Adelaide se afasta um pouco, olhando para mim com aqueles olhos
penetrantes. — Eu me sinto atraída por você — ela admite. — Por você, por
Corvus, Ignatius e Zephyr. É como se houvesse fios nos conectando, nos
puxando juntos. Isso é normal?
Eu rio suavemente. — Normal? Não. Mas, novamente, nada sobre você
é normal, Adelaide. Você é especial. Única. A conexão que você sente é
real. É um vínculo mágico, um que é incrivelmente raro.
— Mas por quê? — ela pergunta, com frustração se infiltrando em sua
voz. — Por que eu? Por que nós?
Eu levanto a mão, gentilmente colocando uma mecha de cabelo atrás de
sua orelha. O simples toque envia um arrepio através de nós dois. — Eu não
tenho todas as respostas — admito. — Mas acredito que é porque você está
destinada a grandes coisas, Adelaide. E nós - Corvus, Ignatius, Zephyr e eu
- estamos destinados a ajudar você, a apoiá-la em sua jornada.
Ela fica quieta por um momento, processando isso. — É muita coisa —
diz finalmente. — Às vezes sinto que estou me afogando em tudo isso - a
magia, as expectativas, esses sentimentos.
Eu a puxo para perto novamente, descansando meu queixo no topo de
sua cabeça. — Eu sei — murmuro. — Mas você não está sozinha, Adelaide.
Estou aqui para você.
Ficamos assim por muito tempo, o calor do nosso abraço mantendo o
frio da noite afastado. Posso sentir Adelaide relaxando contra mim, sua
angústia anterior se transformando em um contentamento calmo que ressoa
através do nosso vínculo.
— Zaiah — ela diz depois de um tempo, sua voz suave e sonolenta. —
Você vai ficar?
— Claro — digo, nos ajeitando para que estejamos deitados na cama
dela, Adelaide enrolada ao meu lado. — Ficarei pelo tempo que você
precisar de mim.
Adelaide adormece quando o amanhecer chega. Fico acordado,
maravilhado com a reviravolta que minha vida tomou. Nunca me permiti
formar conexões profundas. Mas agora, com Adelaide, me sinto ancorado.
Como se finalmente tivesse encontrado um lugar - um ser - que cuidará da
minha essência cuidadosamente guardada.
Os poderes crescentes de Adelaide trarão desafios e perigos que ainda
não posso prever. O vínculo entre nós - entre todos nós - será testado de
maneiras que não podemos imaginar. Mas enquanto estou aqui deitado,
segurando esta criatura notável em meus braços, sou preenchido por um
sentimento de esperança e propósito que nunca senti antes.
Enquanto Adelaide dorme pacificamente ao meu lado, olho pela janela
para o céu que está clareando. Os primeiros raios do amanhecer começam a
espreitar no horizonte, pintando as nuvens em tons suaves de rosa e
dourado. É uma visão bonita, mas minha mente está em outro lugar.
Seus poderes estão crescendo rapidamente. A Essência do Despertar
acelerou seu desenvolvimento, o que eu queria, mas isso foi antes de saber
quem ela realmente era. Mas posso sentir aquela coisa se aproximando.
Perigo.
Não sei como, quando ou de que forma, mas sei que protegerei
Adelaide com meu último suspiro se for preciso. Este vínculo está se
tornando mais intenso quanto mais tempo fico aqui com ela, e sei que em
breve, não serei capaz de ficar sem ela por perto.
34

ADELAIDE

M EUS SENTIDOS GRADUALMENTE DESPERTAM enquanto saio de um sono


profundo repleto dos sonhos mais magníficos. A primeira coisa que percebo
é o calor - uma presença sólida e reconfortante ao meu lado, na qual me
encolho instintivamente. Ao abrir os olhos, piscando contra a luz suave do
final da tarde que filtra pelas cortinas, deparo-me com o rosto adormecido
de Zaiah.
Por um momento, fico impressionada com o quão sereno ele parece. A
intensidade habitual que marca suas feições está suavizada pelo sono, e sou
lembrada de como ele é misticamente belo. Resisto ao impulso de traçar a
linha de seu maxilar com meu dedo. Meu coração se enche de emoção.
Afeição, desejo e algo mais profundo, mais intenso.
Nossa ligação, ainda nova e não totalmente compreendida, pulsa
suavemente entre nós, algo vivo. Posso sentir sua presença não apenas
fisicamente, mas em um nível espiritual, como se nossas almas estivessem
entrelaçadas. É uma sensação que deveria me assustar com sua intensidade,
mas, ao invés disso, acho reconfortante. Como encontrar uma parte de mim
que eu sabia que estava faltando todo esse tempo.
Enquanto estou deitada, observando Zaiah dormir, reflito sobre as
estranhas reviravoltas que minha vida deu. Há apenas algumas semanas, eu
era uma jovem de vinte anos mais ou menos normal, apática em relação à
maioria das coisas da vida, e agora sou uma meia-vampira com habilidades
mágicas crescentes. O puro absurdo de tudo isso me atinge, e tenho que
conter uma risada para não acordar Zaiah.
Seria isso o destino? Algum grande plano que estou apenas começando
a ver e experimentar? A ideia é maluca, mas também reconfortante. Nunca
fui de acreditar em destino, mas como mais posso explicar a atração que
sinto por esses quatro, a maneira como nossas vidas parecem estar
inexoravelmente entrelaçadas?
Um estalo alto atinge minha janela e interrompe minhas reflexões.
Franzindo a testa, cuidadosamente me desvencilho de Zaiah, tentando não
acordá-lo. Enquanto caminho até a janela, fico impressionada com o quão
diferente me sinto - mais forte, mais graciosa, mais consciente. A Essência
do Despertar que Zaiah me deu parece ter aguçado todos os meus sentidos.
Para minha surpresa, vejo Zephyr e Corvus parados lá embaixo. Zephyr
arremessa outra pequena pedra na janela. O pátio abaixo está sombreado
pelas enormes árvores acima, e eu sorrio e aceno.
Abro a janela, inclinando-me ligeiramente para fora. — O que vocês
dois estão fazendo aqui? — pergunto, não muito alto, consciente de que
Zaiah ainda está dormindo atrás de mim.
— Verificando como você está — diz Corvus, sua voz ecoando
facilmente no ar calmo da tarde. Há preocupação em seus olhos, e sinto um
calor se espalhar por mim ao perceber que eles se importaram o suficiente
para vir. — Podemos subir?
Hesito por um momento, olhando de relance para a forma adormecida
de Zaiah. Parte de mim quer manter este momento privado, ficar na bolha
de paz que encontrei com Zaiah. Mas a preocupação em seus olhos me
convence. — Tudo bem — digo.
— Vai precisar de mais do que isso, princesa — diz Zephyr com um
pequeno sorriso. — Sua torre não gosta de mim.
— Gosta o suficiente de mim — afirma Corvus e abre a porta para
entrar.
Eu rio da careta de Zephyr. — Sim, você pode subir, meu príncipe.
Seus olhos se arregalam, e o olhar ardente em seu rosto me faz corar. —
Ela está aprendendo — ele diz e desaparece pela porta aberta, fechando-a
atrás de si com um estrondo alto.
Alguns momentos depois, há uma batida suave na porta do meu quarto.
Eu abro, e seus olhos imediatamente pousam em Zaiah, ainda adormecido
na minha cama. Vejo um lampejo passar entre eles, mas não consigo
decifrar seu significado antes que ajustem suas expressões.
— Entrem — digo, dando um passo para o lado para deixá-los entrar.
De repente, o quarto parece menor com todos eles aqui, o ar carregado com
uma energia que não consigo definir exatamente.
— Como você está? — pergunta Corvus, sua voz gentil. — Depois da
noite passada, quero dizer.
Dou de ombros, tentando parecer calma mesmo ainda sentindo uma
pontada de decepção com a lembrança de não ter sido escolhida como
Capitã da Casa. — Estou bem. Parabéns por se tornar Capitão da Casa, a
propósito. Você merece.
Corvus sorri, mas há um toque de preocupação em seus olhos. —
Obrigado. Mas você tem certeza de que está bem? Estávamos preocupados
com você. Parecia que você ficou um pouco abalada.
— Realmente, estou bem — insisto, tocada pela preocupação deles, mas
também me sentindo um pouco sobrecarregada por isso. — Foi
decepcionante, mas estou aprendendo que há muito mais em tudo isso do
que títulos e posições.
Corvus olha para seu relógio, sua testa franzindo levemente. —
Deveríamos ir — ele diz. — As aulas começam em breve, e todos nós
precisamos nos preparar.
O tempo parece se mover de forma diferente aqui em MistHallow, ou
talvez seja apenas o efeito de estar perto desses seres extraordinários. —
Certo, aulas. Isso me pegou de surpresa.
— O tempo faz isso aqui — murmura Zaiah, claramente acordado atrás
de mim agora.
Enquanto Corvus e Zephyr saem, prometendo me ver mais tarde, eu me
viro para Zaiah. Por um momento, quando ele me olha, vejo uma
vulnerabilidade em seu olhar que me tira o fôlego.
— Ei — digo suavemente, sentando-me na beira da cama. — Dormiu
bem?
Ele sorri, estendendo a mão para tocar meu rosto gentilmente. Seus
dedos estão quentes contra minha pele. — Melhor do que há muito tempo
— ele murmura. — Como você está se sentindo?
— Bem — digo, e fico surpresa ao perceber que é verdade. Apesar da
decepção da noite passada, apesar da confusão e incerteza da minha nova
vida, me sinto viva. Vibrante. — Diferente, mas bem. Forte.
Zaiah assente, seus olhos examinando meu rosto. Há uma intensidade
em seu olhar que me faz sentir como se ele estivesse olhando para minha
alma. — A Essência do Despertar está fazendo sua mágica. Suas
habilidades continuarão a crescer. Tenha cuidado, Adelaide. E lembre-se,
estamos aqui por você.
Com uma última carícia em minha bochecha, Zaiah se levanta. — Eu
deveria ir. Você precisa se preparar para as aulas. Mas nos veremos em
breve.
Quando ele parte através da dimensão de bolso, sou atingida por uma
sensação de perda, como se uma parte de mim estivesse se afastando. O
laço entre nós puxa meu coração, e tenho que resistir ao impulso de chamá-
lo de volta. Mas me recomponho, focando em me preparar para minha
primeira noite de aulas em MistHallow. Subo para o banheiro e ligo o
chuveiro para deixá-lo esquentar enquanto tiro a roupa e troco o absorvente
interno. Fico surpresa ao ver que minha menstruação parou. — Bem, não
sentirei sua falta se isso for um efeito colateral vampírico — murmuro
enquanto o embrulho e jogo no lixo antes de entrar no chuveiro.
A água quente cai sobre mim, lavando os últimos vestígios de sono.
Enquanto me ensaboou, repasso os eventos dos últimos dias em minha
mente. A intensidade das minhas conexões com Zaiah, Corvus, Zephyr e
Ignatius — embora este último seja mais difícil de entender. Ele não parece
estar abertamente interessado em mim, pelo que posso perceber. Não como
os outros. Talvez ele esteja apenas procurando uma amiga. Ele certamente
tem uma em mim.
A última gota de decepção por não ter sido escolhida como Capitã da
Casa escorre pelo ralo, e me concentro nas estranhas novas sensações que
percorrem meu corpo enquanto termino o banho.
Saio do chuveiro e me enrolo em uma toalha, limpando o vapor do
espelho. Solto um suspiro quando, por um momento, nada me olha de volta,
mas então vejo meu rosto, fantasmagoricamente pálido, quase translúcido.
Levanto a mão até meu rosto, certificando-me de que ainda sou corpórea. A
ilusão no espelho é arrepiante. Meus olhos estão vermelho-vivos, minhas
presas estão à mostra, meus dedos curvados como garras.
Não é um reflexo, mas sou eu.
— Quem é você? — murmuro.
— Crimson — ela sibila de volta. — Crimson Sha-
Dou um salto para trás, tropeçando nas minhas pilhas de roupas,
quebrando o reflexo. Ofegante, com o coração acelerado, olho do chão para
ver que a versão assustadora de mim desapareceu. — Porra — murmuro,
enfiando as mãos no cabelo. — Que porra foi essa?
Não há resposta, mas não me movo. Ainda não. Espero meus
batimentos cardíacos desacelerarem antes de juntar minhas roupas e me
levantar. Arrisco um olhar no espelho, mas nada me encara de volta. —
Bem, sentirei sua falta se isso for um efeito colateral vampírico. Meu cabelo
vai parecer um ninho de pássaro por toda a eternidade agora.
Suspirando, volto para o andar de baixo e tento me arrumar. Visto uma
calça jeans preta e uma camiseta com um cardigã preto por cima.
Amarrando minhas botas pretas de salto baixo, vejo Orby passar zunindo
por mim.
— Você de novo. Você é como um gato em uma feira, cara.
Ele balança para cima e para baixo e esfrega minha bochecha
afetuosamente. Dou uma risadinha e o acaricio. — Vamos ter que ir à
lavanderia depois da aula — digo a ele. — Estou ficando sem roupas
íntimas limpas.
Ele sacode de um lado para o outro em concordância, e sorrio enquanto
pego minha mochila. Não tenho nenhum material, então espero que sejam
fornecidos em algum lugar. Enquanto isso, pelo menos tenho meu celular
para fazer anotações se for necessário.
Descendo as escadas, atravesso o pátio e vejo muitos outros estudantes
fazendo o mesmo — alguns em grupos, outros sozinhos como eu. Tiro meu
horário da mochila e vejo que minha primeira aula é História e Cultura
Vampírica. Isso deve ser interessante e informativo.
Orby parece saber para onde está indo, então o sigo pelos corredores do
prédio principal da academia, animada, mas nervosa. Os corredores estão
cheios de estudantes de todos os tipos - vampiros, bruxas, metamorfos e
seres que nem consigo começar a identificar. O ar está denso de misticismo,
e posso senti-lo vibrando ao meu redor.
Chego à minha primeira aula, ansiosa para aprender mais sobre este
mundo do qual agora faço parte. Ao entrar no auditório, fico imediatamente
impressionada com a diversidade dos alunos. Pensei que seriam todos
vampiros, mas Lyra está aqui — ela definitivamente não é uma vampira,
embora seu status ainda seja desconhecido — junto com um punhado de
outras criaturas que não se parecem em nada com o típico vampiro, que, por
todas as aparências, parece humano.
Eu esperava que Corvus estivesse aqui, mas acho que ele não precisa
desta aula, então me sento perto do fundo, tentando não chamar atenção
enquanto Orby se acomoda na minha mochila. Um bloco de notas e uma
caneta aparecem magicamente na mesa à minha frente, para meu alívio.
Quando o professor começa a falar, me vejo inclinando para frente,
absorvendo cada palavra. Mergulhamos nas origens antigas dos vampiros,
nas diferentes linhagens e suas características únicas, e na complexa política
que moldou a sociedade vampírica ao longo de milênios. A família
Sanguine é mencionada como um estudo de caso para famílias vampíricas
antigas e suas afiliações políticas dentro da comunidade vampírica. Entendo
agora por que Corvus não está aqui. Conflito de interesses, ou seja lá como
chamam isso.
Conforme a aula avança, sinto uma sensação estranha crescendo. É
como se o conhecimento não estivesse apenas entrando em minha mente,
mas se infiltrando em meu ser. Posso sentir minha consciência se
expandindo, meus sentidos se aguçando. Quando a aula termina, me sinto
mais vampira do que nunca antes. Bem, suponho que seja isso, não tendo
muito com o que comparar.
Olhando para meu horário, sigo Orby, acenando rapidamente para Lyra,
que acena de volta e segue na direção oposta. Pergunto-me se deveria ter
ido sentar com ela, mas isso é um comportamento extrovertido, e eu sou
tudo menos isso. Agora me preocupo que ela tenha se ofendido e ache que
estou evitando-a. Mordo o lábio e olho por cima do ombro, mas ela já
sumiu, e Orby está correndo à frente para minha próxima aula, então
esqueço isso e corro para alcançá-lo.
Minha próxima aula é simplesmente chamada de Magia de Sangue. Não
tenho certeza do por que estou aqui, já que Blackthorn disse que não tenho
poderes, apenas habilidades. Presumi que isso significava que eu não podia
fazer magia. Ao entrar na sala, vejo Corvus acenar para que eu ocupe um
lugar vazio ao lado dele. Sorrio, grata por um rosto familiar nesta aula, que
tenho quase certeza de ser uma atribuição errada para mim.
— Como está indo sua primeira noite de aulas? — ele pergunta quando
me sento, sua voz baixa e calorosa.
— Intensa — admito, passando a mão pelo cabelo. — Mas incrível.
Sinto que estou finalmente começando a entender quem e o que sou.
Corvus assente, com um olhar compreensivo. — Vai ficar mais fácil, e
mais complicado.
— É. — Olho ao redor e então de volta para ele. — Mas não sei o que
estou fazendo aqui. Não tenho poderes mágicos.
Ele franze a testa para mim. — Sim, você tem. Todas as criaturas
sobrenaturais têm de alguma forma. Você, como vampira, tem acesso à
Magia de Sangue.
— Tenho? — Franzo a testa de volta para ele. Blackthorn me disse que
não tenho poderes. Então me lembro de sua habilidade mágica. Seria aquilo
Magia de Sangue? Tenho que presumir que sim, mas por que ele me disse
que não tenho poderes? Talvez ele tenha presumido isso por eu ser apenas
meio vampira. Mas isso levanta a questão de por que estou nesta aula então.
— Você está pensando demais em alguma coisa — Corvus murmura. —
O que foi?
Focando nele, balanço a cabeça e forço um sorriso. — Nada. Não é
nada.
Viramos para a frente quando o professor começa a aula, e percebo um
vampiro me encarando do outro lado da sala. Seus olhos são frios, cheios de
um ódio que não entendo. Tento ignorá-lo, concentrando-me nos
intrincados rituais de sangue que estamos aprendendo.
Tenho a impressão de que estou muito atrasada em relação aos outros
aqui. Eles parecem absorver todas as palavras como se as entendessem, e eu
estou aqui boquiaberta como um peixe dourado, com tudo entrando por um
ouvido e saindo pelo outro.
— Posso te dar aulas particulares, não se preocupe — Corvus murmura
enquanto mantém os olhos no professor, que pede para nos dividirmos em
pares para a prática.
— Merda — murmuro, olhando para Corvus. — Não sei o que estou
fazendo.
— Eu sei. Não se preocupe.
— Você continua dizendo isso, mas vou reprovar.
— Você não vai reprovar. Confie em mim. É inato. Você vai pegar o
jeito, e quando isso acontecer, nada vai te parar.
O professor acabou de demonstrar o feitiço de invocação de sangue, e
agora é nossa vez de tentar. Pico meu dedo com uma pequena adaga
ornamentada, observando uma gota carmesim se formar em minha pele.
Concentrando minha energia, começo a recitar o encantamento na folha de
feitiços à minha frente.
No início, nada acontece. Então, lentamente, a gota de sangue
estremece. Ela se levanta da minha pele, pairando no ar. Encorajada,
intensifico minha concentração, desejando que o sangue se mova.
De repente, a gota explode em uma névoa escarlate. Ela rodopia ao meu
redor, respondendo aos meus pensamentos e movimentos. Com um
movimento do pulso, envio a névoa dançando pela sala, serpenteando entre
os colegas de classe surpresos.
— Adelaide — Corvus murmura enquanto me observa.
Mas ignoro o aviso em seu tom.
À medida que minha confiança cresce, também aumenta a quantidade
de sangue que posso controlar. Mais gotas se elevam do meu dedo,
juntando-se à névoa rodopiante. É emocionante, sentir a conexão entre
minha vontade e o sangue.
Mas então, algo muda. A névoa pulsa com vida própria, ficando mais
densa e agitada. Sinto-a me puxando, drenando minha energia. O pânico
cresce em minha garganta quando percebo que estou perdendo o controle.
Bem quando a névoa de sangue está prestes a me dominar, a mão de
Corvus agarra a minha. Sua energia flui para mim, estabilizando meu poder.
Juntos, controlamos a magia selvagem, condensando a névoa de volta em
uma única gota que cai inofensivamente na mesa.
Abalada, olho para Corvus, que me dá um pequeno sorriso. — Agora
você vê o quão poderosa é?
— Uau — sussurro enquanto o professor nos dispensa, e nos
levantamos para sair do auditório. — Isso foi assustador pra caralho.
— É por isso que da próxima vez que eu chamar seu nome, me escute
— ele repreende gentilmente.
— Anotado — respondo com uma saudação zombeteira.
Ele ri, mas se transforma em um rosnado quando o vampiro que estava
me encarando antes se aproxima de nós no corredor.
— Ora, ora — ele zomba, sua voz pingando desprezo. — Se não é a
novata e seu puro-sangue de estimação. Que fofo.
Fico tensa, congelada, mas Corvus se move suavemente, colocando-se
entre mim e o vampiro desagradável. O movimento é casual, quase
preguiçoso, mas posso sentir o poder enrolado em seu corpo, pronto para
atacar.
— Cai fora, Asher — ele diz, sua voz baixa e perigosa. — Você está
muito fora da sua liga aqui.
Os olhos de Asher se estreitam, um sorriso cruel brincando em seus
lábios. — Ah é? E quem vai me impedir? Você? — Ele avança sobre
Corvus, presas à mostra, um borrão de movimento e fúria. Mas Corvus é
mais rápido, mais forte. Num piscar de olhos, ele tem Asher preso contra a
parede, uma mão em sua garganta. A demonstração de poder é de tirar o
fôlego e excitante.
— Sim — Corvus diz calmamente, como se estivesse discutindo o
tempo em vez de segurar um vampiro rosnando contra a parede. — Eu vou.
Agora, temos algum problema aqui?
Asher luta por um momento, seus olhos selvagens de raiva e
humilhação enquanto a multidão de espectadores cresce, alguns rindo,
alguns rosnando, mas felizmente ninguém mais se envolve. Então,
lentamente, ele fica mole, admitindo a derrota. Corvus o solta, e Asher se
afasta, lançando-nos um último olhar venenoso.
Quando Corvus se vira para mim, vejo um fogo em seus olhos que
nunca havia notado antes. É primitivo, possessivo, e me causa um arrepio
na nuca. Sem aviso, ele me puxa para perto e me beija.
É apaixonado, reivindicador, e termina rápido demais.
Quando Corvus se afasta, deixando-me ofegante, ouço os sussurros
abafados ao nosso redor.
— Você está bem? — ele pergunta suavemente, sua mão ainda
segurando meu rosto.
Aceno com a cabeça, ainda um pouco atordoada com o beijo e o
confronto. — Sim — consigo dizer. — Quem aquele idiota pensava que
era?
— Um completo babaca que não sabe quando parar — ele rosna.
Concordo com a parte do completo babaca. Mas enquanto parte de mim
está empolgada por Corvus ter marcado seu território tão publicamente,
outra parte se preocupa com as complicações que isso pode trazer. Será que
fiz um inimigo desse vampiro com quem nunca nem falei?
— O que você tem agora? — Corvus pergunta, interrompendo minha
preocupação.
— Hum — murmuro, verificando meu horário enquanto Orby paira por
perto. — Um intervalo de uma hora e depois Vampiros e Mitos.
— Quer tomar algo? — Sua mão encontra a minha enquanto
caminhamos, e fico impressionada com o quão natural parece, como nossos
dedos se entrelaçam perfeitamente.
— Sim, estou me sentindo um pouco esgotada.
— Não me surpreende. Você arrasou lá atrás.
— Dificilmente — bufo. — Perdi o controle.
Ele ri enquanto entramos no refeitório para pegar um pouco de sangue
sintético. A fome que vem me corroendo desde que acordei está se
intensificando, e meu estômago ronca em protesto.
Pegando dois copos para viagem, bebemos enquanto caminhamos para
o pátio, onde vemos Ignatius malabarismo com bolas de fogo. A visão é
bonita e um pouco assustadora, as chamas dançando entre suas mãos com
vida própria.
— Adelaide! — ele grita, sorrindo ao nos ver se aproximar. — Corvus.
Como foram as aulas?
— Movimentadas — digo, observando as chamas dançarem entre as
mãos de Ignatius. — Quase perdi o controle de uma névoa de sangue na
aula de Magia de Sangue.
Ignatius extingue as bolas de fogo com um estalar de dedos. — Ah é?
Dou de ombros, ainda me sentindo desconfortável com o que aconteceu.
— Foi mais aterrorizante do que impressionante. Se Corvus não estivesse
lá...
— Eu te disse, você é poderosa — Corvus diz, apertando minha mão.
— Só precisa aprender a controlar.
Ignatius assente, seus olhos brilhando de interesse. — Adoraria ver o
que você pode fazer alguma vez. Talvez pudéssemos praticar juntos?
— Você faz Magia de Sangue?
— Eu faço todos os tipos de magia — ele responde com um sorriso.
— Bem, parabéns — rio.
— O que posso dizer? Sou um superaplicado.
— E doce com um sotaque fofo também. Você é o pacote completo.
— Não se esqueça disso.
Rimos enquanto Corvus observa essa interação com interesse.
— Bem — digo. — Acho que é melhor eu ir para a próxima aula. Não
quero me atrasar.
— Eu te acompanho — diz Corvus. — Se o Asher aparecer de novo,
não interaja, ok? Afaste-se e me conte depois. Eu cuido dele.
— Não preciso que você me proteja de valentões — murmuro.
— Eu sei que não. Mas você vai aprender, Dollie, que eu protejo o que é
meu.
Isso me soa familiar.
Não digo nada enquanto nos dirigimos ao próximo prédio, esperando
que esta seja uma aula normal sem magia ou valentões.
35

IGNATIUS

O S CORREDORES de MistHallow estão fervilhando de atividade enquanto


faço meu caminho até o auditório de Magia Elemental, minha última aula
da noite. Ao dobrar a esquina, o aroma de folhas de outono e fumaça de
madeira preenche o ar, o cheiro da magia elemental que permeia esta parte
da academia. As paredes de pedra aqui são adornadas com murais
intrincados retratando os quatro elementos - terra, ar, fogo e água -
entrelaçando-se em uma espiral eterna. É de tirar o fôlego, e eu diminuo o
passo para admirar a arte.
Sentindo uma certa energia no ar, eu me viro parcialmente e vejo
Adelaide parada perto da porta do auditório, parecendo um pouco perdida e
mais do que um pouco sobrecarregada. Seu cabelo escuro está ligeiramente
despenteado, como se ela estivesse passando as mãos por ele nervosamente,
e há uma ruga entre suas sobrancelhas que acho encantadora.
— Adelaide! — chamo, acelerando o passo para alcançá-la. — Que
coincidência te ver aqui. Magia Elemental, certo?
Ela se vira ao som da minha voz, o alívio tomando conta de suas
feições. O sorriso que ilumina seu rosto me envia um calor que não tem
nada a ver com minha magia de fogo.
— Ei, atiçador de fogo. Sim, Magia Elemental. Nem sei ao certo por
que estou nessa aula. Pensei que vampiros fossem todos sobre Magia de
Sangue?
Eu sorrio, caindo no passo ao lado dela enquanto entramos no salão. A
sala é circular, com estações de trabalho dispostas em círculos concêntricos
ao redor de um estrado central. Cada estação está equipada com várias
ferramentas e materiais - cristais, tigelas de água, pequenas plantas em
vasos e curiosamente orbes de vidro vazios que suspeito serem para
manipulação do ar.
— Ah, mas é aí que você se engana, minha querida — digo, guiando-a
em direção a dois lugares vazios perto do meio da sala. — Vampiros, como
todos os seres mágicos, têm o potencial de acessar a magia elemental. Só
não é tão instintivo para eles quanto a Magia de Sangue é.
— Bem, estou aqui para aprender tudo sobre ser uma vampira, então
acho que pode vir o que vier!
— Esse é o espírito, Addy.
Ela sorri quando encurto seu nome, e faço um gesto para Adelaide
ocupar o assento perto da janela. Noto como o luar brinca sobre suas
feições. Ela é bonita, de uma maneira que vai além da aparência física. Há
uma centelha nela, um potencial que está apenas esperando para ser
libertado.
— Então — digo, inclinando-me ligeiramente, nossos ombros quase se
tocando — Como têm sido suas aulas até agora, além do incidente da
Magia de Sangue?
Adelaide geme, enterrando o rosto nas mãos. Tenho que resistir ao
impulso de estender a mão e colocar uma mecha solta de cabelo atrás de sua
orelha.
— Nem me fale disso. Mas o resto tem sido bom. Sem mais magia e
sem mais valentões.
— Valentões? — pergunto mais duramente do que pretendia.
— Ugh, um vampiro chamado Asher. Ele foi um verdadeiro idiota.
— Hmm, sim. Ele está atrás do Corvus, então acho que você acabou no
fogo cruzado.
Ela me lança um olhar furioso.
— Ah, ótimo, obrigada por me contar essa parte. Ele não mencionou
isso.
Eu rio.
— Eu não me preocuparia com Asher ou Lucian. Eles são dois idiotas.
— Lucian — ela murmura. — Ele também implicou comigo outro dia.
Zephyr cuidou dele.
— Vampiros são estranhos. Eu não me preocuparia com isso.
— Sem dúvida — ela resmunga.
Os olhos de Adelaide encontram os meus, e por um momento, me perco
em suas profundezas. O ar entre nós parece carregado, como o momento
antes de um raio cair.
Antes que eu possa responder, o professor entra na sala, chamando a
turma à ordem. Ele é um homem alto e esguio, com cabelos da cor das
folhas de outono e olhos que parecem mudar como mercúrio. Quando ele
começa a palestra, sua voz ressoa com poder, cada palavra parecendo vibrar
com energia elemental.
Estou hiperconsciente da presença de Adelaide ao meu lado. A maneira
como ela se inclina para frente, pendendo em cada palavra. O pequeno
vinco que aparece entre suas sobrancelhas quando ela está concentrada. A
forma como sua mão ocasionalmente roça na minha enquanto fazemos
anotações, enviando pequenas faíscas de eletricidade através de mim a cada
vez.
No meio da aula, o professor anuncia que nos dividiremos em pares
para um exercício prático.
— Hoje, vamos nos concentrar na manipulação do fogo — ele diz, seus
olhos brilhando com uma chama interior. — Nada muito avançado - apenas
criar e controlar uma pequena chama.
Viro-me para Adelaide, com um sorriso travesso no rosto.
— Bem, bem. Parece que você está com sorte, parceira. O fogo
acontece de ser minha especialidade.
— Acho que é meu dia de sorte mesmo, ou quem ficasse preso comigo
ficaria terrivelmente decepcionado quando eu falhasse épicamente.
Com um floreio, estendo minha mão, palma para cima. Invoco uma
pequena chama, não maior que a de uma vela. Ela dança na minha palma,
lançando um brilho quente sobre nossos rostos. O fogo responde à minha
vontade, moldando-se em padrões intrincados - uma flor desabrochando,
uma borboleta esvoaçante, uma galáxia giratória de faíscas.
Os olhos de Adelaide se arregalam de admiração, a luz do fogo refletida
em suas profundezas.
— Isso é incrível — ela respira, inclinando-se mais perto para assistir à
exibição. — Como você faz isso? E como diabos eu devo fazer isso?
— É tudo uma questão de foco e intenção — explico, minha voz suave.
A proximidade de seu rosto ao meu é distrativa, mas eu persisto. — Você
tem que sentir o calor dentro de você, a centelha de vida que queima em
todo ser vivo. Então, você a atrai para fora, dá-lhe forma e propósito.
Gentilmente, pego sua mão, guiando-a para pairar sobre a minha. Sua
pele é fria como a de um vampiro contra minha palma aquecida pelo fogo,
mas ela não sibila e se afasta como eu esperava pela metade.
— Feche os olhos — instruo, minha voz baixa e íntima. — Sinta o calor
da chama. Agora, imagine esse calor se espalhando por você, das pontas
dos dedos até o topo da cabeça.
Os olhos de Adelaide se fecham suavemente, seu rosto uma máscara de
concentração. Observo, fascinado, quando um brilho fraco começa a
emanar de sua pele. É sutil, quase imperceptível para quem não está
procurando por isso. Mas para mim, é como assistir ao nascer do sol. O ar
ao nosso redor fica mais quente, carregado de potencial.
— Isso mesmo — encorajo, meu polegar inconscientemente traçando
círculos no dorso de sua mão. — Agora, imagine esse calor se reunindo em
sua palma. Dê-lhe forma, faça-o existir por sua vontade.
Por um momento, nada acontece. Então, muito lentamente, uma
pequena faísca aparece na palma da mão de Adelaide. Ela tremula
incertamente, mal passando de uma brasa. Mas está lá, um testemunho de
seu potencial inexplorado.
Os olhos de Adelaide se abrem, com uma expressão de pura alegria em
seu rosto. A faísca em sua palma cresce ligeiramente, alimentada por sua
empolgação. — Espera! O quê? Como?
Sua empolgação é contagiante, e eu sorrio como um bobo. — Você é
uma natural, Adelaide.
— Não — ela diz, balançando a cabeça e encarando nossas mãos unidas
com uma expressão feroz. — Não. Não sou eu.
— O que você quer dizer? — pergunto, seguindo seu olhar.
Seus olhos disparam para os meus, e ela sorri rigidamente. — Nada —
ela diz. — Só estou surpresa.
— Sabe — digo, com a voz baixa o suficiente para que só ela possa
ouvir, — eu falei sério mais cedo. Sobre praticarmos juntos alguma hora.
Eu adoraria te ajudar a explorar mais seus poderes, se você estiver
interessada, é claro.
Adelaide olha para mim com um sorriso suave. — Eu gostaria disso —
ela diz finalmente, sua voz mal passando de um sussurro.
— Ótimo. Eu gosto de passar tempo com você, Addy.
Ela abaixa a cabeça, focando intensamente na pequena chama em sua
palma. Ela cresce e então se apaga, e ela suspira desapontada. — Eu
também gosto de passar tempo com você, Iggy — ela murmura.
Iggy. O jeito que ela diz isso faz meu sangue bombear direto para o meu
pau.
O resto da prática passa em um borrão de olhares furtivos e toques
prolongados. As tentativas de Adelaide de criar fogo não dão em nada, mas
ela conseguiu uma vez, ela pode conseguir de novo.
Enquanto arrumamos nossas coisas, estou relutante em deixar este
momento acabar. A conexão entre nós parece tangível, um fio delicado que
não quero quebrar.
— Então — digo, tentando manter minha voz casual mesmo com meu
coração acelerado, — o que você acha de pegarmos algo para comer?
Conheço um lugar que faz um ótimo bife mal passado.
Ela ri, e é o som mais doce. — Eu gostaria disso — ela diz.
Eu sorrio, meu coração disparando com sua aceitação. — Vamos então.
Ao sairmos do auditório, coloco minha mão levemente nas costas de
Adelaide, guiando-a pelos corredores lotados. O simples toque envia faíscas
pelo meu corpo, e tenho que me concentrar para manter meus poderes sob
controle.
Fazemos nosso caminho pelo pátio iluminado pela lua. Adelaide
estremece levemente, e sem pensar, passo meu braço ao redor de seus
ombros. Ela se inclina para mim, seu corpo se encaixando perfeitamente no
meu.
— Meu Deus, você é tão quentinho — ela ri, olhando para mim com
aqueles olhos cativantes.
— Vem com o território — murmuro, esperando que eu possa juntar
coragem para beijá-la antes que a noite acabe.
Entramos no refeitório movimentado, que nunca parece parar de zumbir,
e eu a guio até o balcão de comida. Ela pega um bife rapidamente, e eu
pego um também, um pouco mais bem passado, e nos sentamos em uma
mesa próxima.
Ao nos sentarmos, Adelaide ataca seu bife com gosto. Não posso deixar
de sorrir com seu entusiasmo.
— Com fome? — provoco.
Ela olha para cima, um pouco envergonhada. — Morrendo de fome, na
verdade. Não percebi quanta energia a magia consome.
— Realmente gasta muito de você — concordo, cortando meu próprio
bife. — Especialmente quando você está apenas começando. Seu corpo
ainda não está acostumado a canalizar esse tipo de poder.
Adelaide assente, engolindo um pedaço. — É como se conectar com
algo antigo e poderoso.
— É exatamente isso que você estava fazendo — digo, inclinando-me
ligeiramente para frente. — A magia é tão antiga quanto o próprio universo.
Quando a usamos, estamos nos conectando a essa força primordial.
Ela olha para mim, seus olhos arregalados de admiração. — É intenso.
— Muito.
Nós nos olhamos nos olhos, e sinto um leve estalo que reverbera em
minha alma. Meio que me levanto, meu olhar ainda fixo no dela, e estendo
a mão para inclinar seu queixo para cima. Pressiono meus lábios nos dela.
Adelaide ofega suavemente quando nossos lábios se encontram, sua
respiração fresca se misturando com a minha. Por um momento, ela fica
congelada, mas então se derrete no beijo, sua mão subindo para se enredar
no meu cabelo. A faísca entre nós se transforma em uma chama rugindo, e
tenho que me concentrar muito para não me transformar em um pilar de
fogo.
O beijo se aprofunda, e posso sentir o leve gosto metálico de sangue em
sua língua. É inebriante. Puxo-a para mais perto, minha mão segurando seu
rosto gentilmente.
De repente, Adelaide se afasta, seus olhos arregalados e pupilas
dilatadas. Ela está respirando pesadamente, e posso ver um leve rubor
subindo por seu pescoço.
— Desculpe — digo rapidamente, preocupado que tenha arruinado
tudo. — Eu não devia ter-
— Não — ela interrompe, sua voz rouca. — Não é você... — Ela franze
a testa e vira a cabeça.
Eu me viro também para ver Asher e Lucian nos encarando, flashes de
triunfo em seus olhos. — Ah, merda — murmuro. — Acho que eles vão
direto para o Corvus contar isso.
— Eu queria esse beijo — Addy diz. — Não se preocupe com eles.
— Não é isso. Corvus não vai se importar que eu te beijei. Ele vai se
importar que Lucian e Asher estão interferindo, e talvez eles também
distorçam isso para fazer você parecer mal.
Ela suspira, e por um momento, parece que ela vai se transformar em
vampira e sair em um ataque de fúria, mas então ela sorri. — O que quer
que digam sobre mim, já ouvi pior.
Meu coração dói por ela. Ela soa tão resignada, como se estivesse
acostumada a ser machucada. Estendo a mão e pego a dela, apertando-a
gentilmente.
— Ei — digo suavemente, — Você não merece isso. Não importa o que
eles digam, você é incrível, Adelaide. Não deixe ninguém te fazer pensar o
contrário.
Ela me dá um pequeno sorriso, mas posso ver a vulnerabilidade em seus
olhos. — Obrigada, Iggy. Ainda estou tentando descobrir onde me encaixo
em tudo isso.
Eu assinto, compreendendo. — É muita coisa para assimilar. Mas você
não está sozinha, tá? Você tem a mim, e o Corvus, e o Zephyr, e o Zaiah.
Estamos aqui por você.
O sorriso de Adelaide fica um pouco mais brilhante. — Eu sei. É só...
complicado.
— A vida geralmente é — digo com um sorriso irônico. —
Especialmente quando você mistura magia e vampiros.
Ela ri, o som aliviando o clima. — Pode apostar.
Terminamos nossa refeição, conversando sobre assuntos mais leves,
mas quando estamos saindo do refeitório, percebo que Asher e Lucian ainda
estão nos observando, seus olhares frios e suas expressões calculistas. Seja
lá o que estão planejando, não vai ser bonito. Talvez seja hora de nós quatro
levarmos a luta até eles e que se danem as consequências. Addy é mais
importante, e agora, ela é um inseto sob o microscópio deles. Não tem
como isso acabar bem para nenhum de nós.
36

CORVUS

O B LOOD B AR está na penumbra, o ar pesado com o cheiro de cobre e ferro.


Deslizo para um banquinho no balcão, meus dedos tamborilando um ritmo
impaciente na madeira polida. Foi uma longa noite, e tudo que quero é um
copo da boa para tirar o estresse.
Grim, o barman, se aproxima com sua expressão habitual, bem,
sombria. Ele balança a cabeça, um lampejo de desculpas cruzando suas
feições. — Sem sangue humano hoje. A equipe fez uma varredura para o
início do semestre. É sintético ou nada.
Eu gemo, passando a mão pelo cabelo em frustração. — Você está
brincando comigo, não é? Por favor, me diz que está brincando.
Grim apenas dá de ombros, seus ombros subindo e descendo como o
movimento de uma maquinaria antiga. — Queria estar. Regras são regras,
porém. Mesmo para um Sanguine. Dê uma semana, e eles vão esquecer
tudo isso de novo.
Por um momento, considero ir embora. A ideia de sangue sintético me
revira o estômago. Eu já experimentei porque Adelaide está bebendo. Não é
agradável, mas a sede está me corroendo, e sei que não posso ignorá-la por
muito tempo. — Tudo bem — resmungo. — Me dê essa merda sintética.
Grim assente, virando-se para preparar minha bebida. Enquanto ele faz
isso, deixo meu olhar vagar pelo bar. Está relativamente quieto esta noite,
apenas alguns outros vampiros espalhados, bebericando seus copos de
sangue sintético. O início do semestre sempre traz uma certa tensão no ar,
uma mistura de excitação e apreensão da qual nem mesmo nós, imortais,
somos imunes.
Meus pensamentos divagam para Adelaide, como frequentemente
fazem nesses dias. A lembrança do nosso beijo no corredor após a palestra
me causa um arrepio. O jeito que ela me olhou, seus olhos arregalados de
surpresa e algo mais profundo, mais primitivo, é o suficiente para deixar
meu pau duro.
— Aqui está — diz Grim, deslizando um copo de líquido vermelho
escuro na minha frente.
Dou um gole relutante, fazendo uma careta com o gosto artificial. É
terrível, muito longe do real. Ainda assim, tira o gume da sede, e por isso,
sou grato.
Enquanto estou bebericando minha bebida, a porta do bar se abre. Não
preciso me virar para saber quem é - posso sentir sua presença, tão familiar
para mim agora quanto minha própria sombra. Ignatius, Zaiah e Zephyr se
aproximam, puxando banquinhos ao meu lado.
— Corvus — Zaiah me cumprimenta, sua voz baixa e séria. A tensão
em sua postura me coloca imediatamente em alerta. — Precisamos
conversar.
Ergo uma sobrancelha, tomando outro gole do meu sangue sintético. —
Sobre o quê?
— Adelaide — Zephyr interrompe. — E algo mais.
Ignatius se inclina, parecendo sério pra caralho, que é a única coisa que
me faz prestar atenção. Os outros dois podem ser rainhas do drama, mas Ig
é um cara do tipo "leve as coisas como elas vêm". — Zaiah sentiu algo.
Algo sombrio.
Coloco meu copo na mesa, todos os pensamentos sobre minha bebida
insatisfatória esquecidos. — Algo sombrio? Tipo o quê?
Zaiah balança a cabeça, sua frustração evidente. — Não sei exatamente.
Mas sei que tem algo a ver com Adelaide. Há uma sombra pairando sobre o
futuro dela, uma ameaça que ainda não podemos ver.
Um rosnado se forma em minha garganta, baixo e perigoso. O
pensamento de Adelaide em perigo desperta uma feroz proteção que me faz
querer matar. O sangue sintético em meu copo fica esquecido enquanto as
palavras de Zaiah enviam um calafrio pela minha espinha.
— É como uma sombra — murmura Zaiah, seus olhos desfocados,
vendo algo além do bar mal iluminado. — Uma escuridão rastejando nas
bordas dos meus sonhos. Nunca senti nada parecido antes.
Os dedos de Zephyr tamborilam um ritmo impaciente no bar. — Você
pode ser mais específico? Que tipo de perigo estamos falando aqui?
Zaiah balança a cabeça. — É justamente isso. Não está claro. Às vezes
vejo fogo, consumindo tudo em seu caminho. Outras vezes, é uma
inundação de escuridão, afogando toda a luz. Mas sempre, no centro de
tudo, vejo Adelaide.
— Ela é a causa ou o alvo? — pergunta Ignatius, seu tom mais duro,
mais sério que o usual.
— Talvez ambos — responde Zaiah, sua voz mal passando de um
sussurro. — Ou nenhum. É como se ela fosse um ponto focal. Um nexo
onde todas essas forças sombrias estão convergindo.
Sinto um rosnado se formando em meu peito, minhas presas coçando
para descer. — E você tem certeza disso? Não é apenas um palpite de
djinn?
Os olhos de Zaiah se voltam para os meus, ardendo com um fogo
interior. — Vai se foder. Isso é real. E está vindo, estejamos prontos ou não.
— Então vamos garantir que estejamos prontos — interrompe Zephyr.
— Vamos treiná-la, protegê-la.
Assinto, minha mente já correndo com planos. — Precisamos contar a
ela-
— Não — Zaiah me interrompe. — Ainda não. Ela está apenas
começando a entender seus poderes. Se contarmos a ela sobre isso agora,
poderia sobrecarregá-la, talvez até empurrá-la para a escuridão da qual
estamos tentando protegê-la.
Um silêncio tenso cai sobre nosso grupo. Posso ver o peso desse
conhecimento se assentando em cada um de nós.
Finalmente, Ignatius quebra o silêncio. — Então, o que fazemos?
Eu me recosto, a decisão já tomada. — Observamos. Esperamos e nos
certificamos de que, seja lá o que estiver vindo, Adelaide esteja pronta para
isso.
Os outros assentem em concordância, e enquanto continuamos a discutir
estratégia em tons abafados, não consigo me livrar da sensação de que isso
é apenas o começo de algo muito maior do que qualquer um de nós poderia
ter imaginado.
Zephyr assente. — Ela tem poder, mais do que sabe. Eu senti.
Precisamos ajudá-la a explorar mais isso.
Ele sentiu? Isso me envia uma pontada de inveja. Eu provei o poder
dela em seu sangue, mas não é o suficiente para ter uma real noção disso.
Zephyr faz parecer que ele sabe exatamente do que ela é capaz.
— Posso trabalhar com ela na magia elemental — oferece Ignatius. —
Ela mostrou um potencial real na aula hoje.
— O quê? — diz Zephyr com uma careta feroz. — Ela não tem magia
elemental.
— Tem sim, eu vi.
— Não — ele diz, balançando a cabeça. — Isso não é possível... — Ele
para de falar e morde o lábio num gesto estranhamente nervoso para o
príncipe Fae das Trevas tão frio.
— O que você está pensando? — pergunto.
Ele faz um gesto para sairmos do bar, e o seguimos para fora para nos
agruparmos na noite estranhamente fria. Os pelos da minha nuca se
arrepiam, e agora eu acredito totalmente que Zaiah está certo. Isso não é
natural. É sobrenatural, cem por cento.
— Tenho certeza que todos já percebemos o que ela é — Zephyr
sussurra.
Eu aceno com a cabeça, e os outros dois também.
— Então vocês sabem que se comenta que os da espécie dela podem
amplificar poderes, certo?
— E daí? — murmuro.
— Ela amplificou o meu para podermos vencer a caça ao tesouro. Foi...
porra... nunca senti nada parecido.
— O que isso tem a ver com magia elemental? — disparo, ficando
irritado com o olhar de admiração em seu rosto.
— Vampiros não podem fazer magia elemental — ele rebate. — Você
pode?
Balanço a cabeça. — Não... — Um pensamento está se formando em
minha mente, e engulo em seco a preocupação que explodiu em meu peito.
— Porra.
— É.
— Vocês dois podem parar com esse papo enigmático — Ig rosna. —
Ela criou fogo. Eu vi.
— De você. Ela pegou seu poder e o usou — afirmo.
Zephyr concorda com a cabeça.
Ig franze a testa e balança a cabeça. — Não, isso não é possível...
— Tenho quase certeza que é — diz Zephyr. — Não sabemos muito
sobre a espécie dela. Não sabemos praticamente nada, e os outros que
existem agora, além dela, são mais fracos. Randall Black a criou. Isso em si
já é monumental.
— Porra — diz Ig, seus ombros caindo. — Quero dizer... porra.
— Exatamente. Se ela não sabe que pode fazer isso, o que eu arrisco
dizer que não sabe, isso a torna-
— Perigosa.
— Sim.
— Porra — diz Zaiah, que ficou quieto enquanto discutíamos isso. —
Isso significa que estou certo em dizer que ela é o nexo.
— Mas o nexo de quê exatamente? — murmuro.
— É isso que precisamos descobrir — ele responde.
A lembrança do poder de Adelaide durante nossa aula prática mais cedo
envia uma serpente gelada de desconforto deslizando sobre minha alma. Ela
tinha sido magnífica, mas aterrorizante em seu potencial bruto.
— Eu faço o primeiro turno — me ofereço enquanto nossa reunião
termina. — Podemos ficar de olho nela. Lucian e Asher estão tramando
algo, e isso torna tudo ainda mais arriscado para ela.
— Sobre eles — Ig começa e então cora. — Eles nos viram nos
beijando no refeitório mais cedo.
Eu pisco e então sorrio maliciosamente. — Mandou bem. Ela beija
muito bem.
— Beija mesmo — Zephyr murmura.
— Mm — comenta Zaiah, e eu rio.
É estranho esse acordo tácito que temos sobre Adelaide Black. Somos
tão diferentes, cada um com sua própria agenda, seus próprios sentimentos
por Adelaide. Mas nisso, estamos unidos. Todos a queremos, e todos a
teremos. É só uma questão de tempo até ela saber que não pode escapar de
nós. É o destino. Não há outra palavra para isso, nenhuma outra explicação.
Os outros concordam com a cabeça, e nos separamos, cada um perdido
em seus pensamentos. Respiro fundo, deixando os aromas da academia me
envolverem. Adelaide está seguindo com sua noite, alegremente
inconsciente das forças que se reúnem ao seu redor. A vontade de ir até ela,
de vê-la com meus próprios olhos, é quase avassaladora.
Com um pensamento, mudo de forma, meu corpo encolhendo e se
transformando até que eu não seja mais um homem, mas um morcego.
Minhas asas pegam o ar noturno, e eu subo, circulando a torre de Adelaide.
As luzes estão acesas em seu quarto, e através da janela, posso vê-la se
movendo.
Enquanto observo, ela para, seu olhar se voltando para a janela. Por um
momento, nossos olhos se encontram, e vejo um lampejo de
reconhecimento passar por seu rosto. Para minha surpresa, ela se move em
direção à janela, abrindo-a completamente.
— Corvus? — ela chama suavemente. — É você?
Hesito por um momento, então mergulho, pousando graciosamente em
seu parapeito. Com outro pensamento, volto à minha forma humana,
empoleirado precariamente na estreita borda.
— Ei — digo, tentando parecer casual e provavelmente falhando
miseravelmente. — Linda noite para um voo, não é?
Ela levanta uma sobrancelha, um sorriso brincando nos cantos de sua
boca. — Não posso dizer que saberia.
— Quer ver se consegue? — Aproveito isso como uma maneira de
passar mais tempo com ela, ensinando-a, protegendo-a.
Ela dá um passo para o lado, e eu pulo para dentro do quarto. — Você
realmente acha que eu posso?
— Não vejo por que não. Mas não saberemos a menos que tente.
— Bom ponto.
A lembrança de nosso beijo no corredor passa pela minha mente, e
tenho que resistir ao impulso de puxá-la para perto e reivindicar seus lábios
novamente.
— Então — ela diz, cruzando os braços sobre o peito. — A que devo o
prazer desta visita noturna além de ofertas para me transformar em
morcego?
Hesito, inseguro sobre quanto revelar. A última coisa que quero é
assustá-la, mas ela merece saber que pode estar em perigo. — Eu queria ver
como você está — digo finalmente. — Depois do que aconteceu com
Asher, fiquei preocupado. Além disso, Ig mencionou que Asher e Lucian
viram vocês mais cedo.
Ela ergue uma sobrancelha. — Ah é? E como você se sente sobre isso?
Sua pergunta me pega de surpresa. — Estou feliz que vocês dois
estejam se aproximando. Estamos todos conectados, Adelaide. Você pode
sentir. Sei que pode. — Estendo a mão para colocar uma mecha de cabelo
atrás de sua orelha, o simples toque envia uma descarga elétrica através de
mim.
Por um momento, ficamos ali, presos no olhar um do outro. O ar entre
nós está carregado, pesado com palavras não ditas e desejos não realizados.
Então, lentamente, Adelaide se inclina, seus lábios roçando os meus em um
beijo suave e tentativo.
Não é nada como nosso beijo no corredor. Aquele tinha sido todo fogo e
paixão, uma reivindicação pública. Isso é algo completamente diferente. É
gentil, exploratório, cheio de uma ternura que me tira o fôlego.
Quando finalmente nos separamos, as bochechas de Adelaide estão
coradas, seus olhos brilhantes. — Eu estava querendo fazer isso de novo —
ela admite, um sorriso tímido brincando em seus lábios.
— Eu também — confesso, minha mão acariciando sua bochecha. — E
muito mais.
— Eu quero isso também — ela murmura, baixando o olhar antes de
tirar sua camiseta. Sua pele está mais pálida que antes, o que mostra seu
lado vampiro emergindo com força. Ela é deslumbrante em todos os
sentidos da palavra.
— Você é linda, Adelaide.
— Addy — ela murmura. — Me chame de Addy.
Eu sorrio e me inclino para beijá-la novamente, querendo mordê-la,
devorá-la. Minhas presas descem e cortam seus lábios e língua. Ela ofega,
mas não para. Se é que algo muda, o beijo se aprofunda, e meu pau pulsa
para a atenção, pressionando dolorosamente contra minhas calças.
— Addy — eu rosno e a pego no colo, prensando-a contra a parede de
seu quarto.
— Ah! — ela grita quando minhas garras rasgam seu sutiã, marcando
sua pele, fazendo-a sangrar. Curvo-me para lamber o sangue, e ela geme,
deixando a cabeça cair contra a parede. Traço beijos pelo seu pescoço,
saboreando o gosto de seu sangue, e ela se contorce em meus braços.
— Corvus — ela sussurra, sua voz ofegante e necessitada. — Por favor.
Ouço o desejo em sua voz, e não posso mais resistir. Abro o botão de
sua calça jeans e a abaixo para o chão. Ela olha para mim com aqueles
olhos grandes e escuros, e é mais do que posso suportar. Caio de joelhos e
puxo sua calça para baixo. Tirando primeiro suas botas e meias, então
deslizo minhas mãos pela parte externa de suas coxas. Meus dedos se
enroscam em sua calcinha, e eu corto as laterais. Respiro fundo, mas pauso
quando percebo que ela parou de sangrar.
Retraindo minhas presas e garras, enfio dois dedos profundamente em
sua boceta, fazendo-a gritar de surpresa e prazer. Ela está tão molhada e
quente, sua boceta apertando meus dedos enquanto os movo para dentro e
para fora. Ela está pulsando contra minha mão, seus quadris se erguendo
enquanto tenta se aproximar mais.
— Corvus — ela ofega, suas unhas cravando em meu pescoço.
Levanto-me para beijá-la novamente. Posso sentir o gosto de seu sangue
em seus lábios, e isso só me deixa com mais fome dela.
— Você tem um gosto tão bom — rosno, minha voz baixa e rouca. —
Quero mais.
Adiciono um terceiro dedo, esticando-a mais enquanto os torço dentro
dela, atingindo aquele ponto que a faz gemer ainda mais alto. Posso senti-la
chegando mais perto, seu corpo se tensionando enquanto começa a tremer.
— Goze para mim, Addy — sussurro contra seus lábios, meu polegar
encontrando seu clitóris e fazendo círculos ao redor dele. — Seja uma boa
menina para mim e goze toda na minha mão.
Com um grito, ela o faz, seu orgasmo a inundando em ondas enquanto
se agarra a mim. Mantenho meus dedos dentro dela, sentindo-a pulsar ao
meu redor enquanto ela atinge o clímax intensamente.
— Porra — ela respira, seus olhos fechados enquanto se apoia em mim.
— Mais. Corvus. Preciso de você por inteiro.
Com um rosnado baixo, abro o zíper da minha calça e a deixo cair aos
meus tornozelos. Ela ergue as mãos e empurra minha jaqueta dos meus
ombros, agarrando as laterais da minha camisa e rasgando-a com mais força
do que já vi dela até agora.
Isso faz meu pau pulsar.
— Porra, isso mesmo, minha menina. — Gemo enquanto enfio meu pau
profundamente dentro dela com um movimento rápido. Ela está tão
apertada, tão molhada, e é incrível. Agarro seus quadris, puxando-a para
mais perto enquanto invisto fundo e forte.
Suas unhas cravam em minhas costas, suas pernas firmemente enroladas
em minha cintura enquanto ela geme meu nome. — Corvus, sim. Mais
forte.
Meus movimentos se tornam mais frenéticos à medida que me perco na
sensação dela. Ela é tão perfeita, tão linda, tão frágil, e eu nunca quero que
isso acabe. Posso sentir que estou chegando perto, meu orgasmo se
construindo enquanto a penetro mais forte e mais rápido.
— Quero sentir você gozando no meu pau quando eu te morder, me
alimentar de você.
— Sim — ela sussurra, sua voz tensa de prazer. — Me morda, Corvus.
Quero sentir você tomando meu sangue.
Não preciso de mais nada além disso. Inclino-me, minhas presas
afundando na carne macia de seu pescoço enquanto me empurro ainda mais
fundo nela. Ela grita, seu corpo tremendo enquanto se desfaz em meus
braços quando chupo sua veia. O gosto de seu sangue é doce e intoxicante.
Enche minha boca enquanto bebo dela, meu pau pulsando com o alívio
enquanto sinto seu orgasmo ao meu redor. Gemo, meus quadris se
sacudindo enquanto gozo dentro dela, preenchendo-a com meu sêmen.
Com minhas presas ainda enterradas em seu pescoço, seu corpo
pressionado contra o meu, engulo, bebendo mais do que deveria, mas
incapaz de me afastar.
— Corvus — ela ofega, e eu me forço a recuar, lambendo o ferimento
para fechá-lo. Os olhos de Adelaide estão arregalados, sua respiração
ofegante.
— Você está bem? — murmuro, gentilmente afastando o cabelo de seu
rosto.
— Sim — ela murmura, sua voz rouca. — E você?
Dou uma risada. — Você não tem ideia, e nunca se preocupe comigo,
minha menina. Eu cuido de você, não o contrário.
Ela olha em meus olhos por um momento antes de fechar os olhos e se
recostar na parede. Meu pau ainda está dentro dela, endurecendo
novamente.
Ela ri. — Isso é coisa de vampiro?
— A maioria dos supes — rio de volta. — Mas os vampiros são extra
rápidos.
— Não estou reclamando. Preciso de mais de você.
Sorrio, minhas presas ainda expostas enquanto me inclino para
mordiscar seu lóbulo da orelha.
Movo-me novamente, mais devagar desta vez, saboreando a sensação
dela envolvida ao meu redor. Ela geme, sua cabeça caindo para trás contra a
parede enquanto invisto nela. Seus quadris se erguem para encontrar os
meus, seu corpo respondendo a mim.
— Você é tão perfeita — sussurro, meus lábios roçando seu pescoço. —
Eu poderia fazer isso para sempre.
— Eu quero que você faça — ela ofega. — Nunca quero que isso acabe.
— Não se preocupe, minha menina. Não vou a lugar nenhum.
O vínculo entre nós se estreita. Posso sentir suas emoções e desejos, e
isso só me faz querer mais dela.
— Corvus — ela sussurra, sua voz cheia de necessidade.
Rosno e me afasto da parede, cambaleando até a cama quando a solto
para remover o resto de minhas roupas. Suas pernas estão abertas para mim,
e eu caio sobre ela, meu pau retornando ao seu calor enquanto invisto
dentro de sua doce boceta.
— Você pode me morder de volta, minha menina?
Seus olhos se abrem de repente, e ela assente. — Posso tentar.
— Você quer?
— Sim. Mas não sei se consigo.
— Me morda com seus dentes primeiro. O resto virá. É natural para
você.
Ela acena e pressiona sua boca contra meu pescoço.
Gemo enquanto invisto mais fundo nela, sentindo seu corpo responder a
mim. Ela morde com mais força, e eu sibilo ao sentir a picada de seus
dentes perfurando minha carne. Ela hesita, mas eu a encorajo a continuar.
— Isso mesmo, minha menina. Me morda com mais força — sussurro em
seu ouvido, minha voz baixa e rouca. Ela faz o que eu digo, e sinto seus
dentes afundarem mais em minha pele. É uma sensação estranha, mas
também incrivelmente erótica.
Posso sentir meu orgasmo se aproximando novamente. Pressiono seus
quadris enquanto invisto nela. — Se alimente de mim, Addy.
Ela geme e suga, seu corpo tremendo incontrolavelmente sob mim.
Deve ser quando meu sangue atinge sua língua, suas presas descem, e sinto-
as cortando minha veia. Gemo, e meu pau explode em gozo dentro dela
enquanto ela bebe de mim. Fico duro novamente instantaneamente,
precisando que cada segundo deste momento com ela conte.
O quarto gira enquanto a mordida de Addy intensifica cada sensação,
cada toque. Posso sentir sua pulsação, seu coração batendo em sincronia
com o meu enquanto nos tornamos um só. Suas unhas arranham minhas
costas, fazendo-me sangrar.
Ela me solta, seus olhos selvagens de luxúria e algo mais feroz do que já
vi. Giro-nos, posicionando-a em cima de mim, seu cabelo cascateando ao
nosso redor como uma cortina escura. Ela olha para mim com olhos
semicerrados.
— Cavalgue em mim, Addy.
Seus quadris sobem e descem em um movimento rítmico que me
enlouquece. Posso sentir suas garras arranhando meu peito enquanto ela me
provoca.
Agarro seus quadris, guiando seus movimentos enquanto ela se esfrega
contra mim. Posso sentir seu clímax se aproximando, seu corpo se
contraindo ao meu redor enquanto ela chega perto do limite. Penetro mais
fundo nela, meu terceiro orgasmo prestes a explodir.
— Corvus — ela geme, meu nome uma súplica em seus lábios. Com um
último impulso, nós dois caímos no abismo, nossos corpos convulsionando
juntos enquanto nossas almas se fundem uma na outra.
— Eternamente minha — murmuro, minha mão apertando firmemente a
nuca dela.
— Eternamente seu — ela responde com um sorriso lento enquanto seus
olhos brilham vermelhos e sangue jorra das órbitas, me paralisando
completamente.
37

ADELAIDE

A SSIM QUE AS palavras deixam meus lábios, sinto uma dor súbita e ardente
atrás dos meus olhos. O mundo ao meu redor fica embaçado, e sou tomada
por uma sensação avassaladora de terror. Algo está errado. É como se uma
represa tivesse se rompido dentro da minha mente, liberando uma
inundação de sensações e emoções que nunca experimentei antes porque
não são minhas.
— Adelaide? — A voz de Corvus soa distante, abafada, como se eu
estivesse debaixo d'água. Tento me concentrar em seu rosto, mas minha
visão está nublada por uma névoa vermelha. Suas feições, geralmente tão
nítidas e claras para meus sentidos vampíricos, agora estão distorcidas,
ondulando como uma miragem no deserto.
Pisco rapidamente, tentando limpar minha visão, mas o vermelho não
desaparece. Se é que é possível, ele se intensifica, aprofundando-se em um
tom carmesim tão escuro que é quase preto. Um líquido quente e espesso
escorre pelas minhas bochechas. Com uma mão trêmula, toco meu rosto,
afastando-a para encontrar meus dedos cobertos de sangue. A visão disso
me enche de pavor.
— Meu Deus — sussurro, o pânico subindo em minha garganta como
bile. — Corvus!
Isso não é alguma força externa me atacando. Isso vem do fundo da
minha alma. Sou eu, e ainda assim... não sou eu. Uma porta foi aberta em
minha mente, revelando um cômodo que eu nunca soube que existia, cheio
de sombras e sussurros e um poder que me assusta pra caralho.
Uma lembrança passa pela minha mente, vívida e assustadora - o
espelho do banheiro mais cedo com o reflexo que não era meu. A mulher, a
vampira, com olhos vermelhos como sangue e um sorriso cruel. Crimson.
Crimson Sha-. Ecoa em minha mente, ficando mais alto a cada repetição até
abafar tudo o mais.
Posso senti-la agora, empurrando as bordas da minha consciência,
tentando assumir o controle. É como se houvesse outra pessoa dentro da
minha cabeça, abrindo caminho para fora. Sua presença é ao mesmo tempo
familiar e alienígena, como um sonho meio lembrado que de repente ganha
vida.
— Não! — grito, agarrando minha cabeça. A dor está se intensificando,
parecendo que meu crânio pode se partir a qualquer momento. — Não, não,
não. Isso não está acontecendo. Isso não pode estar acontecendo.
Corvus está dizendo algo, suas mãos em meus ombros, me sacudindo
suavemente. Mas mal posso ouvi-lo sobre o rugido em meus ouvidos. O
quarto está girando, a realidade parecendo se distorcer ao meu redor. As
paredes do meu quarto se esticam e se contorcem, sombras dançando nos
cantos da minha visão.
Fecho os olhos com força, tentando bloquear o mundo, para me
concentrar em empurrar de volta essa outra eu. Mas quando os abro
novamente, é como se estivesse vendo através de um filtro vermelho. Tudo
está banhado em um brilho carmesim, pulsando no ritmo das batidas
rápidas do meu coração.
— Adelaide, olhe para mim — a voz de Corvus finalmente rompe o
caos em minha mente. Seu rosto entra em foco, sua expressão mostrando
sua preocupação e medo. Nunca o vi parecer assustado antes, e isso só
aumenta meu terror. — O que está acontecendo? Fale comigo.
Abro a boca para responder, para implorar por ajuda, mas nada sai.
O horror me invade quando percebo o que está acontecendo. Estou
perdendo o controle, perdendo a mim mesma para essa outra entidade. Essa
vampira no espelho. É como assistir a mim mesma de fora do meu corpo,
impotente para impedir o que está acontecendo.
— Não — sussurro, lutando para recuperar o controle da minha voz.
Cada palavra é uma luta, como nadar contra uma corrente poderosa. —
Corvus, me ajude. Eu não consigo... Não consigo pará-la.
Sinto como se estivesse sendo rasgada em dois, minha mente um campo
de batalha entre as duas partes de mim. Parte de mim quer ceder, deixar que
essa outra versão mais forte de mim assuma o controle. O poder que ela
oferece é sedutor, prometendo força além de qualquer coisa que eu já
conheci. Mas outra parte, a parte que ainda sou eu, luta desesperadamente
para se manter. Não posso me perder. Não vou.
— Parar o quê? — Corvus pergunta, sua voz tensa. Suas mãos estão em
meu rosto, seus polegares limpando o sangue.
— Eu não sei — engasgo. Cada palavra parece vidro em minha
garganta. — É...
Minhas palavras são interrompidas quando outra onda de dor me atinge.
O sangue fluindo dos meus olhos se intensifica, e posso sentir seu gosto em
meus lábios, metálico e quente. Deveria me dar nojo, mas uma parte de
mim se deleita com isso.
A alma parece prender a respiração, oscilando à beira de um precipício.
Um passo, e eu poderia cair em um abismo de poder e escuridão.
Com um grito de desafio que parece sacudir as fundações da torre,
empurro de volta contra a presença invasora em minha mente. — Não —
rosno. — Vai se foder!
A luta é intensa. Parece que minha alma está sendo dilacerada e
recomposta. Cada célula do meu corpo grita em protesto, pega no fogo
cruzado dessa guerra interna. As imagens que passam pela minha mente são
horríveis e assombrosas. Batalhas travadas na sombra, poder manejado com
perfeição implacável, um legado de sangue e escuridão.
Mas lentamente, dolorosamente, começo a recuperar o controle. É como
escalar um poço profundo e escuro, abrindo caminho de volta à superfície,
um centímetro doloroso por vez. A névoa vermelha começa a recuar, o
mundo voltando ao foco. O fluxo de sangue dos meus olhos diminui, então
para completamente. Desabo, sentindo seus lábios nos meus.
— Addy? — ele murmura contra meus lábios, seus braços apertando-se
ao meu redor.
— Estou bem — digo com a voz rouca. O terror do que acabou de
acontecer ainda está fresco, me deixando abalada até o âmago. Mas estou
aqui. Sou eu. Por enquanto, pelo menos. O quarto para de girar, as sombras
recuando para seus cantos. Mas ainda posso sentir essa presença,
espreitando nas bordas da minha consciência. Esperando.
— O que aconteceu? — Corvus pergunta suavemente, sua mão
acariciando gentilmente meu cabelo. A ternura em seu toque contrasta com
a força que sei que ele possui, e isso ajuda a me trazer de volta ao presente,
a me lembrar quem sou.
— Não sei — sussurro, minha voz rouca. — Era como se houvesse
outra pessoa dentro de mim. Outra versão de mim. Mais forte, mais
sombria. — Estremeço, lembrando a intensidade da presença dela. Tento
organizar meus pensamentos, dar sentido ao que acabou de acontecer,
quando uma súbita rajada de vento sacode a janela. O vidro estremece
violentamente. Uma tempestade furiosa de trovões e relâmpagos desceu
repentinamente sobre MistHallow.
Mas esta não é uma tempestade comum.
— Zephyr — sussurro, de alguma forma reconhecendo a assinatura
energética única do príncipe das Fadas Sombrias.
Antes que eu possa me mover, Zaiah e Ignatius saem da dimensão de
bolso e entram no meu quarto, com eu nua em cima de Corvus e coberta
com meu próprio sangue.
— Adelaide — Zaiah começa, seus olhos alternando entre Corvus e eu.
— Sentimos algo. Você está bem?
Abro a boca para responder, mas as palavras ficam presas na minha
garganta. Como posso explicar o que eu mesma não entendo?
A janela se abre com um estrondo, e um redemoinho de folhas e
sombras invade o quarto. Ele gira ao nosso redor, uma tempestade em
miniatura contida dentro das paredes do meu quarto. Tão repentinamente
quanto começou, o vento diminui, fundindo-se na forma de Zephyr.
Seus olhos roxos e prateados se fixam nos meus. — O que aconteceu?
— ele exige, sua voz afiada como uma lâmina.
Olho ao redor para os quatro — Corvus, Zaiah, Ignatius e Zephyr —
todos reunidos aqui por minha causa, porque sentiram que algo estava
errado. A preocupação deles, sua proteção, é reconfortante, mas
avassaladora.
— Eu... — começo, mas as palavras não saem. Como posso contar a
eles sobre a presença em minha mente? O sangue, as visões, o poder
aterrorizante que senti?
Corvus, percebendo minha luta, intervém. — Algo estranho aconteceu
— ele explica lentamente. — Ela estava com dor, sangrando pelos olhos.
Ela disse que parecia que havia outra pessoa dentro dela, tentando assumir o
controle.
A testa de Zaiah se franze, seus olhos antigos nublados de preocupação.
— Outra presença? Você a reconheceu, Adelaide?
Balanço a cabeça, ainda incapaz de encontrar minha voz. A lembrança
daquele outro eu, tão familiar e ainda tão alienígena, me faz estremecer. —
Não, e sim. Era eu. Era outra eu.
Posso ver a confusão deles, mas não tenho outra maneira de explicar.
Zaiah dá um passo à frente. — Posso? — ele pergunta, sua mão
pairando perto da minha testa.
Aceno com a cabeça, e ele coloca a palma da mão contra minha pele. O
calor se espalha a partir de seu toque, suave e calmante. Por um momento,
sinto o poder do djinn fluindo através de mim, procurando, sondando.
Seus olhos se arregalam ligeiramente quando ele retira a mão. — Há
algo lá — ele murmura. — Um grande poder. Está dormente agora, mas...
— Mas o quê? — Zephyr exige, sua paciência claramente se esgotando.
Zaiah balança a cabeça. — Não é uma ameaça. Pelo menos não para a
Addy.
Um pesado silêncio cai sobre o quarto. Posso sentir os olhos deles em
mim, cheios de preocupação, curiosidade e algo mais. Medo,
provavelmente. Tudo isso não é o que eles assinaram. Bem, também não é o
que eu assinei, então não posso culpá-los se correrem e se esconderem.
Mas quando olho ao redor para esses quatro seres extraordinários, cada
um poderoso à sua maneira, cada um conectado a mim de formas que estou
apenas começando a entender, sinto uma onda de emoção. Gratidão, medo e
algo mais profundo, mais complexo, porque eles não estão fugindo. Eles
estão aqui comigo e não estão indo embora.
Corvus me puxa para perto, e sinto os outros se reunindo ao nosso redor.
Um círculo de proteção, uma barreira contra qualquer escuridão que esteja
tentando me reivindicar.
Mas ao fechar os olhos, sei que isso é apenas o começo. A batalha pelo
controle mal começou, e as apostas são mais altas do que qualquer um de
nós poderia imaginar.
Nas profundezas da minha mente, naquela sala escura recém-
descoberta, algo se agita. Esperando. Observando. E eu sei, com uma
certeza que me gela até os ossos, que isso está longe de terminar.
38

ADELAIDE

O S RAPAZES PAIRAM ao meu redor. A preocupação deles é sufocante, mesmo


que eu aprecie suas intenções. Preciso de espaço. Preciso pensar. O quarto
parece menor com todos eles aqui, sua presença poderosa preenchendo cada
canto. Não estou acostumada a isso. Estou acostumada a ser eu mesma e a
lidar com as coisas sozinha.
— Preciso que todos vocês saiam — solto de repente. Sinto uma
pontada de culpa, mas sei que é necessário.
Eles trocam olhares, claramente relutantes. Posso ver a preocupação
gravada em seus rostos, a tensão em seus corpos. Eles querem me proteger,
mas agora preciso me proteger.
— Adelaide — Zaiah começa, seus olhos brancos cheios de
preocupação. — Você tem certeza de que isso é sábio? Depois do que
acabou de acontecer...
— Tenho certeza — interrompo-o, talvez mais duramente do que
pretendia. — Por favor. Preciso ficar sozinha.
Corvus me tira de seu colo e puxa rapidamente as cobertas sobre mim.
Ele se veste antes de alcançar minha mão. Seu toque, tão reconfortante
antes, agora parece uma intrusão. — Addy, estamos apenas preocupados
com você. E se acontecer de novo?
Afasto minha mão, imediatamente me arrependendo da dor que passa
pelo rosto dele. É como uma facada no meu estômago, mas me
recomponho. — Então acontece de novo. Mas preciso descobrir isso
sozinha. Pelo menos por enquanto.
Surpreendentemente, Zephyr é o primeiro a assentir. — Devemos
respeitar os desejos dela — diz ele. Há uma compreensão que eu não
esperava em seu olhar. De todos eles, ele parece entender melhor minha
necessidade de solidão. Isso diz muito sobre ele.
Ignatius parece querer discutir, sua natureza ardente claramente em
conflito com a ideia de me deixar sozinha. Mas depois de um momento, ele
suspira, desistindo da luta. — Tudo bem. Mas prometa que virá até nós se
algo acontecer. Qualquer coisa.
Assinto com a cabeça, sentindo alívio enquanto eles se movem em
direção à porta. É como se o ar estivesse voltando ao quarto, permitindo que
eu respire novamente.
Zaiah cria uma dimensão de bolso para si e para Ignatius, o ar cintilando
enquanto eles passam por ela. Zephyr se transforma em uma rajada de
vento, sua presença permanecendo por um momento antes de escapar pela
janela. Corvus é o último a sair, seus olhos demorando-se em mim. A
intensidade de seu olhar faz meu coração doer.
— Tenha cuidado — diz ele suavemente antes de se transformar em um
morcego e seguir Zephyr para fora. É só quando me levanto para fechar a
janela atrás deles que me pergunto como eles entraram sem que eu os
convidasse. As proteções falharam? Ou elas simplesmente reconhecem
meus companheiros predestinados? Companheiros. Isso é mesmo uma
coisa? Acho que é.
O quarto parece maior agora, menos claustrofóbico, mas o silêncio é
quase ensurdecedor. Posso ouvir meu coração batendo, firme, mas rápido,
como um tambor em meus ouvidos.
Corro para o banheiro no andar de cima, estremecendo ao ver meu
reflexo no espelho. Sangue seco cobre minhas bochechas, meus olhos estão
vermelhos e inchados. Pareço um inferno. Como se tivesse passado por uma
guerra. De certa forma, acho que passei: uma guerra interna pela minha
alma.
Dou um pulo quando meu reflexo se transforma de volta naquela vadia
Carmesim, mas eu a encaro, meu corpo preparado.
— Você — ela sibila — não vai durar muito aqui.
— E você — sibilo de volta, combinando perfeitamente sua cadência —
vai se mandar da minha vista agora antes que eu quebre este espelho com
minhas próprias mãos.
— Vá em frente — ela rosna. — Não vou a lugar nenhum.
No entanto, ela desaparece do espelho, mas posso sentir sua presença
pressionando minha consciência.
Abrindo a torneira, jogo água fria no rosto, esfregando para remover a
evidência do que quer que isso seja. A água corre rosa por um momento
antes de clarear. Enquanto seco meu rosto, encaro meu reflexo, meio que
esperando ver aquele outro rosto novamente. Mas sou apenas eu - apenas
Adelaide.
Ou sou?
Será que ainda sou eu mesma?
Aproximo-me mais do espelho, estudando meus olhos. Eles estão um
tom mais escuro que antes? Há um toque de vermelho em suas
profundezas? Ou estou apenas sendo paranoica?
Afastando esse pensamento, volto para o meu quarto e me visto. Os
mesmos jeans e camiseta preta que venho usando toda a noite e minhas
botas de combate. Sem calcinha. Mas é prático. Estou pronta para qualquer
coisa. Porque, a esta altura, qualquer coisa pode acontecer.
Preciso de respostas, e sei exatamente onde começar a procurar.
Pegando minha mochila, dou um pulo quando Orby sai voando dela. Eu
tinha esquecido que ele entrou lá durante as aulas e parece ter estado
dormindo todo esse tempo. Pelo menos, espero que estivesse e não sendo
um voyeur semi-senciente para mim e Corvus. — Orby — murmuro.
Ele pula ao redor como de costume, então acho que não viu nada que
não devesse. Vou ter que me lembrar disso para o futuro.
Descendo as escadas, atravesso o pátio e me dirijo à biblioteca. Está
quieto a esta hora, perto do amanhecer. Perfeito. Não preciso de uma plateia
para isso. O cheiro de livros antigos e poeira enche minhas narinas ao
entrar, um aroma reconfortante que me coloca firmemente na realidade.
Começo na seção de vampiros, pegando todos os livros que posso
encontrar sobre lendas e história vampírica. O peso dos livros antigos é
reconfortante em minhas mãos. Certamente, entre todo esse conhecimento,
encontrarei algo sobre o que está acontecendo comigo.
Mas horas se passam enquanto examino tomos empoeirados e
pergaminhos antigos, e não encontro nada sobre qualquer coisa Carmesim.
Meus olhos ardem com o esforço, mas continuo. Não posso parar. Não
agora. Não quando as respostas podem estar a apenas uma página de
distância.
Crimson. Procuro por qualquer menção do nome, qualquer referência a
vampiros com olhos vermelhos ou lágrimas de sangue. Mas não encontro
nada. Há muito sobre vampiros, seus poderes, suas fraquezas. Histórias de
linhagens antigas e vampiros lendários. Mas nada sobre seja lá o que diabos
está acontecendo comigo.
— Merda! — exclamo, chamando a atenção de um vampiro estudando
em uma mesa próxima. Ele franze a testa para mim, mas logo volta ao seu
trabalho.
Leio sobre vampiros que podem controlar mentes, vampiros que podem
se transformar em névoa ou animais. Aprendo sobre a política da sociedade
vampírica, as complexas hierarquias e alianças. Mas em lugar nenhum
encontro algo sobre um vampiro com outra presença dentro dele. Um eu
mais sombrio e poderoso.
Minha frustração está dilacerando minhas entranhas enquanto guardo o
último livro. Estou nisso há tempo demais, e não estou nem perto de
entender o que está acontecendo. O sol está alto lá fora, e estou ficando
cansada.
Suspirando, reúno minhas coisas e saio. Preciso de ar. Preciso pensar.
Depois preciso dormir e recomeçar tudo de novo depois das aulas desta
noite. A atmosfera abafada da biblioteca de repente parece opressiva, o peso
de todo aquele conhecimento inútil me pressionando.
Deixando-a para trás, me dirijo para a floresta na borda dos terrenos de
MistHallow. A névoa da manhã se agarra ao chão, rodopiando ao redor dos
meus tornozelos enquanto caminho. É pacífico, os sons da floresta uma
mudança bem-vinda do silêncio abafado da biblioteca.
Enquanto ando, minha mente corre. Que diabos está acontecendo
comigo? Estou ficando louca? Isso é alguma merda estranha de puberdade
vampírica que ninguém pensou em me avisar? Ou é algo completamente
diferente? Algo mais antigo, mais poderoso, mais perigoso?
Penso de volta ao espelho do banheiro, ao rosto que vi. Era eu, mas não
era eu. Mais velha, talvez. Mais dura. E aqueles olhos... vermelho-sangue e
cheios de poder. Era como olhar para uma versão de mim mesma de um
futuro sombrio, um caminho que não tenho certeza se quero seguir.
Ou quero?
Não posso negar que o puro poder vindo dela é atraente, tentador. Está
me chamando, e eu quero ceder. Seria mais fácil do que lutar contra ela.
Crimson. O nome ecoa em minha cabeça, mas não significa nada.
Um galho estala sob meu pé, me assustando e tirando de meus
pensamentos. Vaguei mais fundo na floresta do que pretendia. As árvores
estão mais densas, a névoa mais pesada, o frio glacial. Por um momento,
considero voltar. Tão longe da academia, quem sabe que tipo de criaturas
podem estar à espreita?
Mas algo me puxa para frente. Um sentimento, um instinto que não
consigo explicar. É como se houvesse um fio conectado ao meu próprio
âmago, me puxando para mais fundo na floresta.
Sigo em frente, a floresta ficando mais densa ao meu redor. A névoa se
espessa, obscurecendo minha visão. É como caminhar em um sonho.
Formas surgem da névoa, se transformando em árvores ou rochas antes de
desaparecerem novamente.
De repente, as árvores se abrem, revelando uma pequena clareira. No
centro está um monólito de pedra, antigo e desgastado. É diferente daquele
em que estava com Zephyr na outra noite. Símbolos que não reconheço
estão entalhados em sua superfície, mal visíveis sob anos de musgo e
líquen. Parece antigo. Mais antigo que MistHallow, o que já é dizer algo.
Ao me aproximar, sinto uma estranha energia emanando da pedra. É
familiar de alguma forma, como um sonho meio lembrado. Como a
presença que senti antes, mas diferente. Mais antiga. Mais primitiva.
Sem pensar, estendo a mão e toco o monólito. No momento em que
meus dedos fazem contato, uma descarga de energia passa por mim.
Imagens piscam diante dos meus olhos, rápidas demais para fazer sentido.
Sangue. Fogo. Sombras que se movem com vida própria. Batalhas travadas
na escuridão, poder além da imaginação empunhado por figuras envoltas
em mistério.
Tento afastar minha mão, mas não consigo me mover. A energia
aumenta, ficando mais forte, mais intensa. Todo meu corpo parece estar em
chamas, cada terminação nervosa gritando em protesto.
A dor explode atrás dos meus olhos, e ouço meu próprio grito. O som
ecoa pela clareira, fazendo os pássaros fugirem das árvores.
— Quem é você? — grito, minha voz ecoando na clareira. — O que
você quer?
Por um momento, há apenas silêncio. A floresta parece prender a
respiração, esperando. Então, uma voz. A voz dela. Minha voz.
— Eu sou você — ela diz. — E você sou eu. Nós somos uma só, vadia.
Aceite isso.
As palavras ressoam através de mim, me abalando até o âmago.
— Não — rosno, lutando contra a dor, a intrusão. — Eu sou Adelaide
Légère. Adelaide Black.
Risadas ecoam em minha mente, frias e cruéis. — Oh, vadia. Você não
tem ideia do que você é.
A energia aumenta novamente, e caio de joelhos, minha mão ainda
pressionada contra a pedra. Posso sentir ela tentando assumir o controle. É
como ser rasgada em dois, minha alma se partindo.
— Pare — ofego. — Por favor.
— Eu não posso parar — a voz diz. — Eu sou você. Seu poder. Seu
potencial. Seu destino.
— Eu não quero isso — grito. — Eu só quero ser eu mesma.
As risadas vêm novamente, mais suaves desta vez. Quase tristes. — Oh,
Adelaide. Você não pode lutar contra o que você é. Nós somos a sombra
que anda na luz do dia, o poder que corre em suas veias. Nós somos
Crimson Shadow.
Com uma última explosão de energia, a conexão se quebra. Caio para
trás, minha mão finalmente livre da pedra. A clareira gira ao meu redor
enquanto luto para recuperar o fôlego. Todo meu corpo dói, cada músculo
gritando em protesto.
Quando minha visão clareia, vejo que os símbolos no monólito estão
brilhando fracamente. Vermelhos, como sangue. Como os olhos dela. Como
os meus olhos.
Me levanto cambaleando, me afastando da pedra. Minha cabeça está
latejando, todo meu corpo doendo. Mas sou eu. Apenas eu.
Por enquanto.
Que diabos foi isso? Quem é ela? O que eu sou? As perguntas giram em
minha cabeça, sem resposta e aterrorizantes. Mas uma coisa está clara: não
posso mais guardar isso para mim mesma. Preciso de ajuda. Preciso falar
com Blackthorn, ou talvez até com Randall.
A floresta parece diferente enquanto refaço meus passos. Mais escura,
mais viva. Posso sentir olhos sobre mim, observando das sombras. Mas
nada ataca. Nada se aproxima. É como se a floresta reconhecesse algo em
mim, algo perigoso.
Tropeço em uma massa emaranhada de raízes e caio no chão, meu
tornozelo latejando de dor. — Merda — rosno enquanto me sento e limpo
as mãos nas calças jeans. — Vão se foder, raízes. Vá se foder, floresta. Vá
se foder, Crimson. Que se foda tudo.
As lágrimas brotam em meus olhos, e me arrasto para cima de um
tronco caído, deixando minha cabeça cair em minhas mãos enquanto choro
por tudo que perdi, tudo que pensei que não queria, mas que agora sinto
uma falta louca.
39

ZEPHYR

O CHEIRO de terra úmida e folhas em decomposição enche minhas narinas


enquanto deslizo pela floresta, meus passos abafados pela névoa espessa e
escura que adere ao chão. Isso é incomum. É como andar embaixo d'água,
incapaz de ver a mão na frente do rosto.
Ao contornar uma curva no caminho, a névoa se dissipa, e avisto
Adelaide. Ela está sentada em um tronco caído, com os ombros caídos e a
cabeça baixa. Mesmo à distância, posso ver a tensão em seu corpo, o modo
como suas mãos estão cerradas no colo. Ela parece tão pequena e
vulnerável que preciso de todo o meu autocontrole para não correr até ela e
envolvê-la em meus braços.
Em vez disso, diminuo o passo, aproximando-me cautelosamente. Não
quero assustá-la ou fazê-la sentir como se estivesse invadindo seu espaço.
Ao me aproximar, vejo os traços leves de lágrimas de sangue em suas
bochechas, e isso congela meu sangue já gelado.
— Princesa — digo suavemente, tentando manter a voz firme. — Você
não deveria estar aqui fora sozinha.
Ela olha para mim, seus olhos vermelhos e assombrados. — Estou bem
— ela diz, mas sua voz é fraca e trêmula.
— Não acredito em você nem por um segundo. — Sento-me ao lado
dela no tronco, perto o suficiente para que nossos ombros se toquem.
— Não me importo — ela murmura.
— Ai. E eu pensando que estávamos chegando a um entendimento.
— Sobre o quê, exatamente?
— Sobre quem você é para mim.
Por um momento, ficamos em silêncio, ouvindo os sons distantes da
floresta. Posso ouvir o suave farfalhar das folhas, o barulho da água do lago
não muito longe daqui. É pacífico, o que está tão em desacordo com a
ansiedade de Adelaide, que está dilacerando meu interior, fazendo-me
remexer levemente. Estou conectado a ela em um nível tão básico que, se
eu parar para pensar muito sobre isso, me assusta.
— O que você está fazendo aqui fora? — pergunto finalmente,
quebrando o silêncio.
— Eu precisava de ar fresco — ela diz.
— É perigoso.
— Como isso é mais perigoso do que estar no meu quarto e ser atacada
por mulheres vampiras loucas e antigas?
— Ok, mas aqui fora, mais do que mulheres vampiras loucas podem te
pegar.
— Você esqueceu antigas.
— Hm?
— Mulheres vampiras loucas e antigas. E nem é no plural. É uma. Uma
vampira.
Ouvindo o estalo de um galho, olho para cima e vejo Christos se
aproximando. Franzo a testa para ele. Ele é meu primo e meu nêmesis, se
quisermos ser todos super vilões sobre isso. Não suporto esse puxa-saco, e
sei que ele me odeia tanto quanto.
— O que você quer? — disparo, fazendo Adelaide olhar para cima.
— Ah, primo — Christos zomba, seus olhos brilhando com malícia. —
Que surpresa te ver aqui.
— O que você quer, Christos? — repito, minha voz baixa e perigosa.
Ele sorri com desdém, passando a mão pelos cabelos pretos como breu.
— Vi nossa nova garota sentada aqui sozinha e pensei em ver se estava tudo
bem, talvez oferecer algum conforto.
— Ela não está sozinha.
— Não, não mais — ele arrasta as palavras. — Que pena.
— Sai daqui, Chris. Você escolheu seriamente o dia errado para me
provocar.
Christos me fulmina com o olhar, sua magia faiscando ao seu redor. Ele
está procurando briga, e estou totalmente preparado para dar uma a ele.
Levanto-me em um movimento fluido e agarro sua camisa.
— Recua — rosno. Posso sentir minha magia girando ao meu redor,
uma nuvem escura de poder e autoridade.
Christos tenta se livrar do meu aperto, mas eu o aperto mais. Posso
sentir sua magia pulsando sob sua pele, mas não é páreo para a minha. Sou
o herdeiro do trono das Fadas Negras, e ele parece esquecer disso.
— Você não me assusta — Chris zomba.
— Você deveria estar assustado — digo, minha voz fria e dura. —
Porque se você sequer olhar para ela de maneira errada, vou garantir que se
arrependa.
— Você acha que pode protegê-la de mim? Eu sei o que ela é, e ela está
prestes a aprender que não tem escolha quando se trata de mim e do poder
que eu quero.
O suspiro áspero de Adelaide ao absorver essa ameaça é uma coisa
linda. Posso sentir o poder em mim aumentar exponencialmente. Ela nem
está me tocando, e ainda assim está impulsionando meu poder.
De repente, Chris avança contra mim, seus punhos voando em um
movimento que eu não esperava. Golpes físicos geralmente estão abaixo de
nós. Mas se ele quer ver que meu pai me treinou em todas as formas de
combate, que venha.
Eu esquivo e me desvio, meus movimentos fluidos e precisos. Posso
sentir o poder da minha magia correndo através de mim, impulsionado
ainda mais pelo poder de Adelaide. Acerto um soco, e Chris cambaleia para
trás, seu rosto contorcido de dor.
Ele invoca uma explosão de energia pura que me faz voar para trás.
Bato no chão com força, mas estou de pé em um instante. Posso ver o
sangue escorrendo pelo meu rosto, mas não me importo. — Oh, esse foi um
movimento ruim, primo — rosno, agora mais irritado do que qualquer outra
coisa.
Ele avança contra mim novamente, mas agarro seu braço, torcendo-o
atrás das costas. Ele solta um grito de dor, mas não o solto. Levanto minha
mão e o jogo no chão com minha magia, esmagando seu peito com o peso
do poder atrás de mim enquanto me agacho ao seu lado.
— Se você chegar a menos de quinhentos metros dela de novo, vou te
fulminar onde você estiver. A única razão pela qual você recebe um passe
hoje, e quero dizer a única porra de razão pela qual não estou te cortando
em pedacinhos para churrasco e alimentar os lobos, é porque eu realmente
não estou a fim de lidar com a palestra do meu pai sobre família. Hoje. Mas
não cometa o erro de pensar o mesmo amanhã, seu filho da puta. Entendeu?
Ele me encara, seus olhos ardendo de ódio. Mas não tem para onde ir.
Ele não esperava por isso. Não estamos em pé de igualdade nem nos
melhores momentos, mas ele me dá um bom exercício. Não é nenhum
incompetente, sendo quem é.
— Você é um puto de um babaca — ele sibila. — Seu pai vai ficar
sabendo disso.
— Oh, por favor. Eu imploro que você o informe que estava prestes a
atacar e estuprar minha futura esposa. Eu te desafio, porra.
Seu rosto empalidece ao olhar para Adelaide, e sua mandíbula se tensa.
— Isso não acabou. A Vesper está livre. Você pode pensar que ela é sua,
mas nem fodendo você vai ficar com ela.
— Com licença, porra! — Adelaide exclama de repente, levantando-se
e chutando Christos nas bolas com tanta força que caio na gargalhada. —
Eu preferiria arrancar meus olhos com uma colher cega do que algum dia
ficar com você. Vai se foder. E se você chegar perto de mim de novo,
Zephyr será o menor dos seus problemas, entendeu?
Christos rosna, e eu o deixo se levantar relutantemente. A fera dentro de
mim está gritando para que eu acabe com ele, para arrancar seus membros e
comê-los, mas ele já se foi.
Sorrio ao olhar para Adelaide, meu sorriso lento e predatório. Sua raiva
satisfaz algo primitivo em minha alma negra. — Você é minha, Adelaide —
murmuro enquanto me levanto e vou até ela. Seguro seu queixo, quase
brutalmente. — Você entende?
Espero que ela fique com raiva, que reaja contra minha possessividade.
Mas em vez disso, vejo uma emoção sombria em seus olhos, uma resposta
instintiva às minhas palavras. Ela sente também, essa conexão entre nós.
Ela é minha, e eu sou dela.
— O que você quer, Zephyr? — ela pergunta. — O que você quer de
mim?
— Você. Eu quero você, Adelaide. Toda você.
— Zephyr — ela sussurra, sua voz uma súplica, uma rendição.
Inclino-me, meus lábios esmagando os dela. Desta vez, o beijo não é
suave, não é fugaz. É faminto, exigente, consumidor. Ela derrete-se em
mim, seu corpo pressionando contra o meu, suas mãos se enredando em
meu cabelo. Rosno baixo em minha garganta, meus braços envolvendo-a,
puxando-a para mais perto. Posso sentir seu desejo, sua paixão, sua
necessidade por mim. É cru, primitivo, totalmente consumidor.
Meu toque é áspero, exigente, deixando marcas em sua pele enquanto a
desnudo, usando magia para as partes mais complicadas.
— Porra, Adelaide — gemo, minha voz rouca. — Eu preciso de você.
Ela geme em resposta, seu corpo arqueando contra o meu. Posso sentir a
escuridão nela, a selvageria, e isso chama a escuridão em mim. Quero mais.
Quero tudo.
— Zephyr — ela ofega, sua voz uma súplica. — Mais. Eu preciso de
mais.
Rosno novamente e a empurro para que fique de quatro no meio da
floresta, onde qualquer um poderia aparecer e nos ver. Minhas mãos
agarram seus quadris, meus dedos cravando em sua carne. Abro o zíper da
calça e seguro meu pau duro como pedra.
— É isso que você quer, Adelaide? — murmuro. — Quer que eu te foda
como um animal?
— Sim — ela geme, empurrando-se contra mim. — Sim, por favor.
Eu rio, um som sombrio e perigoso. — Que bonequinha má. — Dou um
tapa em sua bunda e entro nela com força, penetrando fundo com um
gemido baixo.
Ela grita. Está apertada, mas aceita todo o meu comprimento, seu corpo
se esticando para acomodar meu pau pulsante. É tão bom, tão certo. Isso é o
que eu tenho desejado, o que tenho precisado.
Meus quadris se movem num ritmo brutal, meu pau martelando nela
com uma força que a deixa sem fôlego. Meus dedos se cravando em sua
carne, mantendo-a no lugar, controlando-a completamente.
— Mais forte — ela ofega, sua voz entrecortada. — Me fode mais forte,
Zephyr.
Rosno, aumentando o ritmo, minhas estocadas se tornando mais fortes.
Posso sentir a escuridão em mim, a selvageria, a brutalidade subindo à
superfície e querendo mostrar a ela o verdadeiro eu. Mas ela não está pronta
para isso. Ainda não.
O prazer aumenta, intenso e avassalador. Posso sentir seu orgasmo se
aproximando, como uma tempestade no horizonte, e quando ele chega, é
totalmente consumidor, uma onda de prazer que a atinge, deixando-a
trêmula e ofegante enquanto sua buceta agarra meu pau possessivamente,
me fazendo saber que ela é minha.
Meu pau pulsa dentro dela, meu corpo tremendo contra o dela enquanto
gozo nela com um grunhido de pura satisfação. Nunca me senti assim com
ninguém antes, nunca quis alguém tão completamente, tão intensamente.
Mas Adelaide é diferente. Ela é minha e sabe disso. Farei o que for preciso
para protegê-la, para mantê-la ao meu lado, porque sei que minha vida
mudou irrevogavelmente. Encontrei meu destino, minha igual, minha
parceira na escuridão, e farei o que for necessário para mantê-la segura,
para fazê-la feliz, para dar a ela o mundo que ela merece.
Porque é isso que eu sou. Esta é minha verdade, meu poder, meu
destino. Vamos conquistar a escuridão, abraçar a selvageria e reinar
supremos neste novo mundo de sombras e desejos.
— Porra, Zephyr — Adelaide ofega, ainda tremendo de seu orgasmo.
Sorrio ao vê-la, espalhada na natureza, com meu pau ainda dentro dela. Ela
é uma porra de uma deusa, minha rainha das trevas.
Saio de dentro dela, meu pau ainda pulsando pela intensidade da nossa
foda. Fecho o zíper da calça e a ajudo a se levantar, minhas mãos gentis
enquanto tiro a sujeira de sua pele. Ela olha para mim com um pequeno
sorriso tímido, seus olhos ainda cheios de desejo.
— Isso é apenas o começo, princesa — murmuro.
Ela estremece ao som da minha voz, seu corpo respondendo
instintivamente à promessa de mais.
Inclino-me para sussurrar em seu ouvido. — Vou te reclamar, Adelaide.
Cada centímetro de você. Você é minha, e logo não será capaz de viver sem
mim. Você vai precisar de mim, me desejar, morrer sem mim.
Ela ofega com minhas palavras, seus olhos se arregalando de surpresa e
luxúria. — Sim — ela respira. — Eu quero isso, Zephyr. Eu quero tudo
isso.
Acaricio seu cabelo suavemente. — Boa, bonequinha. Vou te quebrar e
te reconstruir para que ninguém mais possa te ter além de nós.
Ela assente e se inclina para mim com os olhos fechados, e eu a abraço,
sabendo que agora que seu segredo foi revelado, ela está em mais perigo do
que percebe. Mas qualquer um que quiser chegar até ela terá que passar por
mim primeiro, e eu tenho pena do filho da puta que tentar se meter entre
mim e a única criatura que já me fez desejá-la dessa maneira.
40

ADELAIDE

M INHA pele ainda formiga do nosso encontro enquanto saio da floresta com
Zephyr. A conexão entre nós parece mais substancial, mais intensa do que
nunca. Suas palavras possessivas são selvagens e ao mesmo tempo
emocionantes. Minha futura esposa. É assim mesmo que ele me vê? E a
minha opinião nisso?
Olho para ele enquanto caminhamos, lembrando da sensação de suas
mãos na minha pele, do calor de sua respiração no meu pescoço. A floresta
ao nosso redor parece diferente agora, carregada de uma energia que não
consigo explicar. Está se inclinando para nós, seguindo nosso caminho de
maneira protetora e aprovadora. É estranho, mas é exatamente isso. Posso
sentir ao meu redor.
Mas ao nos aproximarmos do campus, um arrepio percorre meu sangue
que não tem nada a ver com desejo e tudo a ver com a briga com Christos.
Aquelas palavras ecoam em minha mente agora, cortando tudo o mais com
uma qualidade precisa.
Vesper.
Ele me chamou de Vesper.
O segredo que eu tentei tão arduamente guardar está revelado agora. O
que isso significa para mim? Para meu futuro em MistHallow?
Abro a boca para perguntar a Zephyr sobre isso, para buscar algum
conforto ou explicação, mas antes que eu possa formar as palavras, o caos
irrompe ao nosso redor. Estudantes correm em nossa direção, gritando, seus
rostos contorcidos de medo e urgência. A princípio, penso que seja algum
tipo de aula prática, mas então vejo as expressões em seus rostos, o pânico
cru em seus olhos. Isso é real. Terrivelmente real.
— Zephyr — murmuro, minha voz tremendo um pouco, mas ele já está
se movendo, me empurrando para trás dele de forma protetora. Seu corpo se
tensa, pronto para a luta, e posso sentir seu poder se acumulando, pronto
para ser liberado.
Os rostos dos estudantes estão contorcidos com uma agressividade que
nunca vi antes. É como se tivessem sido transformados em algo
completamente diferente.
— O que está acontecendo? — grito por cima do caos crescente. Os
sons de gritos e passos correndo preenchem o ar, criando uma cacofonia de
gritos e pânico.
Zephyr não responde. Seu corpo está tenso como uma corda, uma
pantera pronta para atacar. — Fique perto de mim — ele diz, sua voz baixa
e urgente. Há uma ferocidade em seus olhos que me tranquiliza, mas
também me assusta. Este é um lado dele que eu apenas vislumbrei, mas
agora estou prestes a ver muito mais.
Mas antes que possamos nos mover, antes mesmo que possamos pensar
em encontrar segurança, o céu escurece. No início, penso que seja uma
tempestade se aproximando - o clima em MistHallow pode ser imprevisível
na melhor das hipóteses. Então eu os vejo, e meu sangue gela.
Strix.
Dezenas deles, talvez mais. Suas asas enormes bloqueiam a luz do dia
enquanto descem sobre nós, transformando o dia em um crepúsculo
sinistro. Suas garras brilham maliciosamente, seus olhos fixos em mim com
uma intensidade agressiva que me dá arrepios. Nunca vi nada parecido
antes, e espero nunca mais ver.
Minha respiração fica presa na garganta, o medo apertando meu peito
como uma mão congelada. Os assassinos sobrenaturais, mortais e
implacáveis, estão vindo atrás de mim novamente, e sei que desta vez eles
vão me pegar. Eles são aterrorizantes de uma maneira que vai além do
simples medo. É primordial, instintivo.
Zephyr entra em ação, seus movimentos um borrão de velocidade, graça
e poder. Seu rosto está fixo em uma máscara de pura ferocidade enquanto
enfrenta a primeira onda de atacantes. Seu poder é de tirar o fôlego,
inspirador mesmo agora, quando eu deveria estar correndo, em vez disso
estou parada no lugar como uma idiota.
Sombras se dobram à vontade de Zephyr, atacando os Strix como armas
sólidas. É como assistir à fera da natureza solta e em fúria. Para cada Strix
que ele derruba, dois mais parecem tomar seu lugar. O ar está cheio do som
de asas batendo e guinchos inumanos, um barulho que me faz ranger os
dentes e arrepiar os cabelos.
Quero ajudar, fazer algo, qualquer coisa. Mas o que posso fazer? Não
tenho poderes, nem forma de me defender ou ajudar Zephyr. Me sinto
inútil, impotente, um fardo nesta luta que é toda sobre mim.
O primeiro Strix mergulha, suas asas cortando o ar como uma lâmina.
Eu me abaixo instintivamente, sentindo a rajada de ar passar sobre mim, tão
perto que posso sentir o vento de suas asas. Por um momento, penso que
estou perdida. Mas então Zephyr está lá em um instante, um borrão escuro
de movimento.
Suas mãos, com garras negras nas pontas, atacam, pegando o Strix em
pleno voo, suspenso com magia. Com um giro brutal de suas mãos, ele
rasga a criatura ao meio, seu grito de dor interrompido quando seu corpo
atinge o chão com um baque molhado.
Mas não há tempo para absorver o horror da cena grotesca. Mais Strix
estão chegando, sempre mais. Eles estão em toda parte como uma praga,
seus gritos preenchendo o ar como um coro dos condenados.
Zephyr se move como um dançarino, seu corpo uma arma letal. Ele
dilacera os Strix, tentando chegar até mim com uma selvageria que é bela e
horripilante. Sangue chove, pintando o chão em padrões escuros e
brilhantes. Penas e carne voam em todas as direções, o ar espesso com o
cheiro metálico de sangue e o odor acre do medo.
Então, um clarão de fogo.
Ignatius se juntou à luta.
— Leve-a para dentro!
O grito de Zephyr cai em ouvidos surdos. Há muita ação, violência e
gritos para alguém ouvir.
Entre.
A voz ressoa em minha mente.
Mexa-se, princesa, antes que não reste nada de você para eu
reivindicar.
— Zephyr?
Distraída, uma dor aguda rasga meu ombro quando um Strix crava suas
garras em minha carne. Eu grito, cambaleando para trás, minha visão
nadando com a dor. O Strix aproveita sua vantagem, seu bico estalando a
centímetros do meu rosto. Posso ver a fome em seus olhos, a promessa de
morte.
Zephyr mergulha em minha direção, seu rugido de fúria sacudindo o
chão sob nós. Seus olhos estão completamente prateados agora, veias
negras correndo sob sua pele pálida. Ele arranca o Strix de mim, suas garras
afundando profundamente em sua carne. Com um puxão brutal, ele
despedaça a criatura com magia, seu corpo não passando de um monte
sangrento quando ele termina. Em choque, coloco minha mão no ombro,
mas o ferimento já cicatrizou.
Ele se volta para a horda que se aproxima. Ele é uma força da natureza,
um deus da guerra. Ele rasga os Strix como um redemoinho, sua magia
dilacerando carne e osso com facilidade. Sangue espirra em todas as
direções, o chão está encharcado.
— Corre! — Zephyr grita para mim. — Entra logo, porra!
Hesito por uma fração de segundo, não querendo deixá-lo. A ideia de
abandoná-lo para enfrentar essa horda sozinho me dilacera. Mas sei que sou
apenas uma distração, uma responsabilidade nesta luta. Por mais que eu
odeie, a melhor coisa que posso fazer por todos agora é sair do caminho.
Viro-me e corro, meus pés batendo contra o chão. O campus se tornou
um campo de batalha. Estudantes e funcionários estão fugindo em todas as
direções, alguns lutando contra os Strix com quaisquer armas ou poderes
que têm à mão.
Mas é caos, puro e simples.
Não vou longe. Uma sombra passa por cima de mim, maior e mais
escura que as outras. Antes que eu possa reagir, antes mesmo que eu possa
pensar em desviar, sou levantada do chão. Garras afundam em meus braços,
o suficiente para romper minha pele, me fazendo sangrar. A dor é aguda,
imediata, e eu grito.
Eu grito, chutando e me debatendo com todas as minhas forças, mas é
inútil. O Strix é forte demais, seu aperto inquebrantável. Está me
carregando para longe, cada vez mais alto, para o céu. O chão desaparece
abaixo de mim a uma velocidade assustadora.
Estico o pescoço, tentando desesperadamente ver Zephyr e Ignatius.
Eles ainda estão lutando com Zaiah e outras criaturas que não conheço. Eles
estão ficando menores, mais distantes a cada batida das asas do Strix. A
distância entre nós aumenta a cada segundo, e com ela, minha esperança de
resgate.
— Zephyr! — Grito seu nome, despejando todo o meu medo e
desespero nessa única palavra. Mas minha voz se perde no vento, engolida
pela vasta extensão de céu ao meu redor.
O chão abaixo se torna um mosaico de verde e cinza enquanto
sobrevoamos a floresta. Meu estômago se revira com a altura, uma vertigem
atordoante que me faz fechar os olhos com força. Nunca tive medo de
alturas antes, mas isso é algo completamente diferente.
Isso não pode estar acontecendo. Parece um pesadelo, mas a dor nos
meus braços, o vento chicoteando meu cabelo - é tudo real demais. O que
eles querem comigo? Para onde estão me levando? As perguntas giram em
minha mente, cada uma mais aterrorizante que a anterior.
Tento pensar, elaborar algum plano de fuga. Mas o que posso fazer?
Estou impotente, indefesa, suspensa a centenas de metros no ar, sem
nenhuma saída além de uma queda fatal. Sou uma Vesper, essa suposta
maravilha do mundo sobrenatural, mas não tenho nada defensivo no meu
arsenal. Tudo que tenho é passivo.
Que você saiba.
— Não está ajudando — digo em voz alta, tentando encontrar coragem
em vez de medo. Mas não é fácil.
O vento chicoteia meu cabelo, a névoa crescente batendo em meu rosto,
me gelando até os ossos. Tremo, de frio e medo. O aperto do Strix em meus
braços é implacável. Eles ficaram dormentes com as garras afundadas em
minha carne, profundas o suficiente para alcançar o osso.
A realidade da minha situação me atinge como um soco no estômago.
Estou sozinha. Verdadeiramente sozinha. Como sempre.
Sem Zephyr, sem Corvus, sem Ignatius ou Zaiah. Ninguém para entrar e
me salvar no último momento como nas histórias. Isso é a vida real, e na
vida real, às vezes não há heróis vindo para o resgate.
Você é tudo que tem.
Nunca me senti tão vulnerável, tão completamente impotente, mas sinto
a onda de raiva inútil crescendo. Seja lá o que estiver acontecendo, seja lá o
que esses Strix querem comigo - ou melhor ainda, seu mestre - não tenho
como lutar contra. Não tenho poderes para invocar, nem truques na manga.
Estou à mercê deles.
O Strix que me carrega, de repente, faz uma curva brusca para a
esquerda, e meu estômago se revira violentamente. Posso sentir a bile
subindo pela minha garganta, mas engulo com dificuldade. Ficar doente
agora só pioraria as coisas, se isso é possível.
Estamos voando sobre uma parte da floresta que é mais densa, mais
fechada, visível na névoa que se dissipa. As árvores aqui são mais velhas,
mais escuras, seus galhos se contorcendo de maneiras que não são naturais.
Há algo sinistro nelas, como se estivessem nos observando passar por cima
com olhos antigos e malignos. Um mar interminável de verde, se
estendendo até o horizonte em todas as direções.
Tento me mexer, para aliviar um pouco a pressão nos meus braços, mas
suas garras apenas apertam em resposta. Deixo escapar um gemido, mas ele
se perde na rajada de vento.
— Para onde vocês estão me levando? — grito, minha voz rouca de
medo e do esforço de tentar ser ouvida acima do vento. Mas minhas
palavras são arrancadas no momento em que deixam minha boca, perdidas
na vasta imensidão do céu.
O Strix não responde. Claro que não. Se eles podem falar, não é
trabalho deles me contar porra nenhuma. Agora, eles são simplesmente
instrumentos do meu sequestro, silenciosos e implacáveis.
Fecho os olhos novamente, tentando pensar além do medo e da dor. Tem
que haver uma saída disso. Tem que haver algo que eu possa fazer. Me
recuso a acreditar que é assim que minha história termina - justamente
quando sinto que está começando - carregada por criaturas míticas para
sabe-se lá onde, indefesa e sozinha.
Mas antes que eu possa inventar algo, antes mesmo que possa começar
a formular um plano, a dor explode em minha cabeça. Um dos outros Strix,
formando um círculo ao nosso redor, me acertou com sua asa, com força. O
golpe vem do nada, súbito e cruel.
Minha visão fica instantaneamente embaçada, o mundo ao meu redor se
tornando um redemoinho de cores e formas. A escuridão rasteja pelas
bordas da minha visão. Luto contra a inconsciência iminente com tudo que
tenho. Tenho que ficar acordada. Tenho que ficar.
Mas é inútil. A escuridão é forte demais, a dor intensa demais. Sinto-me
escorregar, meu controle sobre a consciência enfraquecendo a cada segundo
que passa.
O mundo desaparece na escuridão, e estou caindo, caindo em um
abismo de incerteza e medo.
Enquanto a consciência escapa completamente, sinto uma estranha
sensação de paz me invadir. Talvez seja apenas a maneira da minha mente
de lidar com o trauma, mas por um breve momento, me sinto... segura.
Protegida. Algo profundo dentro de mim se agitou, despertou.
— Carmesim...
41

ADELAIDE

C OM A CABEÇA LATEJANDO , eu acordo.


A dor é intensa, pulsando atrás dos meus olhos e dificultando minha
concentração.
Tudo está confuso. Minha visão está embaçada, e não consigo entender
bem o meu entorno. O mundo parece oscilar, entrando e saindo de foco, me
fazendo sentir desorientada e nauseada.
Onde estou? Tento me mover, mas algo está errado. Meus braços e
pernas não se mexem. Há resistência quando tento me mexer. Algo está me
segurando no lugar. Pisco rapidamente, tentando clarear minha visão, mas é
como olhar através de uma ondulação de calor. O ar ao meu redor parece
tremer e ondular, distorcendo minha percepção.
Lentamente, as formas começam a se definir, e o cheiro forte da
natureza atinge meu nariz. O aroma de terra úmida, agulhas de pinheiro e ar
fresco enche minhas narinas. Árvores. Estou do lado de fora, na floresta.
À medida que meus olhos se ajustam, vejo pedras. Um círculo delas me
rodeia, suas superfícies ásperas cobertas de musgo e líquen. São grandes,
mais altas que uma pessoa, e parecem antigas. Estou no meio deste círculo
de pedras, deitada sobre algo duro e frio. A superfície abaixo de mim é
inflexível, provavelmente pedra também.
Olho ao redor, absorvendo mais detalhes do meu entorno, e meu
estômago afunda conforme a realização se instala. Há cinco pontos,
estrategicamente posicionados ao meu redor. O metal brilha na luz fraca, e
posso sentir o toque frio de correntes nos meus pulsos e tornozelos. Não é
preciso ser um gênio para perceber que estou acorrentada a um pentagrama.
Merda. Merda!
O pânico me atinge como um caminhão, uma descarga de adrenalina
inundando meu sistema. Meus batimentos cardíacos disparam, e posso
ouvir o sangue correndo nos meus ouvidos. Me debato contra as correntes,
o metal cortando minha pele. A dor é aguda, real. Isso não é um sonho. Isso
está realmente acontecendo.
— Socorro! — grito, minha voz rouca e desesperada. — Alguém me
ajude!
Minha voz ecoa pelas árvores, ricocheteando no círculo de pedras e
desaparecendo na distância. Ninguém responde. A floresta ao meu redor
está mortalmente silenciosa. Apenas o farfalhar das folhas ao vento e o
chamado distante de um pássaro quebram o silêncio. É como se o mundo
inteiro tivesse me abandonado.
Forço as correntes novamente, colocando toda a minha força na
tentativa de me libertar. Mas elas estão muito apertadas, o metal não cede.
Mal consigo me mover um centímetro em qualquer direção. As correntes
tilintam alto na floresta silenciosa, um som áspero que só enfatiza minha
impotência.
— Adelaide, acalme-se. — A voz do Professor Blackthorn corta meu
pânico enquanto ele entra no meu campo de visão à esquerda. O som de sua
voz familiar nesta situação bizarra é desconcertante. Ele está de pé sobre
mim, seu rosto sombrio, seus olhos sombreados. Como ele me encontrou?
Por que ele está aqui? — Você precisa confiar em mim, ok?
Confiar nele? Ele está de brincadeira? — Você me sequestrou e me
acorrentou a um pentagrama! — grito para ele, minha voz alta e histérica.
Sou movida puramente pelo pânico e medo, incapaz de processar a situação
racionalmente.
— Afaste-se dela, Luke!
Eu conheço essa voz. Reconheço-a instantaneamente, mesmo sendo
nova para mim.
Meu pai. Randall Black.
Ele está caminhando em nossa direção, seus passos pesados no chão da
floresta. Ele está segurando algo que brilha na luz fraca. Uma faca? A visão
da arma envia uma nova onda de medo através de mim.
Blackthorn se vira para encará-lo, seu corpo tensionando como se se
preparasse para uma luta. — Você não sabe o que está fazendo, Randall.
— Afaste-se dela, Luke — meu pai rosna novamente. — Não vou dizer
de novo. — Sua voz está cheia de agressividade mortal, um tom que nunca
ouvi antes. Apesar da situação, meu estômago se descontrai ligeiramente ao
notar o tom protetor em sua voz.
— Nem fodendo, Randall — Blackthorn retruca. De repente, fogo
irrompe das mãos de Blackthorn, as chamas lançando sombras
tremeluzentes pela clareira. Ao mesmo tempo, as sombras parecem se
dobrar e torcer ao redor do meu pai, a própria escuridão respondendo à sua
vontade. O ar estala com uma magia tão negra e poderosa que quase vomito
devido à pressão dela sobre minha alma.
Observo, paralisada de choque e medo, incapaz de fazer qualquer coisa
além de assistir enquanto esses dois homens se preparam para batalhar por
mim.
Eles se chocam. Árvores se estilhaçam e caem conforme rajadas de
energia erram seus alvos, o som de madeira quebrando ecoando pela
floresta. O chão treme sob mim a cada impacto, as vibrações viajando
através da pedra sobre a qual estou deitada. A atmosfera está pesada,
estática, densa como sopa. Mal consigo respirar, o ar pressionando meu
peito.
Minha mente corre, tentando entender o que está acontecendo. Nada
disso faz sentido. Por que eles estão lutando? O que eles querem comigo?
Puxo as correntes novamente, ignorando a dor enquanto elas cortam meus
pulsos. Elas não cedem, o metal tão inflexível quanto antes. Estou presa,
forçada a assistir enquanto esses dois seres poderosos lutam por mim.
Agora você está ferrada, sua vadiazinha.
— Ah, você pode calar a boca, sua puta monstruosa — rosno para a voz
de Crimson na minha cabeça. Mesmo nesta situação aterrorizante, sua
presença é uma intrusão indesejada.
Ela ri, o som cheio de diversão enquanto estou acorrentada ao chão em
algum tipo de ritual satânico.
Não seja boba, garota. Isso é poder de bruxa pura. Pagão. Os
satanistas roubaram isso.
— Uau, obrigada pela porra da lição de religião, sua vaca. Tem alguma
ideia de como me tirar daqui?
Ela fica quieta, não oferecendo nenhuma ajuda ou conselho.
— Claro — murmuro, sem me surpreender com sua falta de assistência.
A luta se intensifica, atraindo minha atenção de volta para a batalha que
se desenrola ao meu redor. Blackthorn lança rajadas de energia que
iluminam a clareira como relâmpagos, os clarões me cegando
momentaneamente. Meu pai contra-ataca com ondas de escuridão que
parecem engolir a luz, mergulhando a área em breves momentos de total
escuridão. Não consigo dizer quem está ganhando. Eles parecem estar
equiparados, nenhum capaz de obter vantagem.
Luz e escuridão.
Légère e Black.
Não sei o que pensar. Meus olhos saltam entre os dois homens, tentando
encontrar alguma pista sobre como sair daqui. Mas estou indefesa, incapaz
de fazer qualquer coisa além de observar e esperar.
Enquanto os vejo se chocar novamente, um pensamento terrível me
atinge. Não importa quem vença esta luta, estou em perigo. Sempre estarei
em perigo por causa do que sou. Essa percepção se assenta sobre mim como
um cobertor pesado, sufocando qualquer esperança que eu tinha de que as
coisas voltassem ao normal.
Uma rajada de energia perdida da luta atinge o chão perto de mim, me
cobrindo com terra e pequenas pedras. Grito, os detritos ardendo em minha
pele. Tento me encolher para me proteger, mas as correntes me mantêm
esticada no chão, me deixando exposta e vulnerável.
— Parem! — grito, minha voz rouca de tanto gritar. — Por favor, só
parem!
Mas eles parecem não me ouvir. Ou se ouvem, não se importam. Estão
muito focados um no outro, em sua batalha por mim. Meus apelos caem em
ouvidos surdos enquanto a luta continua a se desenrolar ao meu redor.
Forço meus ouvidos, tentando captar fragmentos do que estão dizendo
um ao outro enquanto lutam. Suas palavras são em grande parte perdidas no
caos da batalha, mas consigo captar alguns fragmentos.
— Isso é... — Blackthorn é interrompido quando um raio de magia o
atinge diretamente no peito. O impacto o lança para trás, seu corpo batendo
em uma das pedras em pé com um baque nauseante.
Suspiro de alívio quando ele cai. Talvez agora tudo isso acabe.
Olhando para Randall enquanto ele se ergue sobre mim, sorrio. Uma
faísca de esperança se acende em meu peito.
— Obrigada pelo resgate...
— Sinto muito, Adelaide — Randall me interrompe e então crava a faca
em meu peito, direto no meu coração.

Continue lendo com Midnight Reign, Livro 2

J UNTE - SE AO MEU G RUPO DE L EITORES NO F ACEBOOK PARA MAIS


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